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Pintores e pintoras galegos

Renata Flávia de Souza

Aluna de Introdução à Cultura Galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  1. Introdução: uma breve contextualização da história da arte em Galícia

É possível identificar, desde os tempos primórdios, a relação humana com a arte em seus mais distintos objetivos como a comunicação, a imitação da natureza e a expressão de sentimentos. Realizada por meio de diferentes linguagens (arquitetura,desenho, dança, escultura, pintura,escrita e variadas derivações), a arte seria o processo criativo capaz de transformar a subjetividade em algo visível, palpável e pertencente ao plano físico.

A Galícia é um país marcado pela presença de diversos povos e consequentemente diversas culturas. Ali é possível encontrar vestígios artísticos desde a era paleolítica, como as pinturas rupestres encontradas na gruta de Eirós, na aldeia de Cancelo, datadas pelos investigadores em aproximadamente 30.000 anos. “Estas pinturas están xeralmente ligadas a ritos relixiosos e representan a plasmación nunha linguaxe simbólica do pensamento dos primeiros seres humanos” (EL PAÍS, 2012), ou seja, a arte como representação do cotidiano.

Na Idade Média, no período em que o atual território galego foi conquistado pelos romanos, observou-se uma fase bastante produtiva para o desenvolvimento artístico dessa região. As igrejas construídas eram ricas dos mais diversos detalhes arquitetônicos, colunas primorosamente esculpidas, pinturas e muitos tipos de decoração que remetiam ao caráter religioso. Em Galícia, até os dias atuais, se conservam os restos das pinturas realizadas naquele período.

Durante a Idade Moderna, a Galícia passou por um período chamado “Séculos Escuros”, no qual ocorreu uma forte imposição da cultura espanhola sobre a cultura galega. Dessa maneira, pouca coisa era produzida, gerando uma grande estagnação nos processos de desenvolvimento da arte galega, assim, “a falta de escolas e de tradición pictórica provocaron que as pinturas deste período sexan escasas e de non moita calidade”.

Com o advindo do Romantismo, no século XIX, uma série de reivindicações realizadas na Península Ibérica, reavivou o espírito regional e a identidade subjetiva dessas regiões (VILAVEDRA, 1999). Na Galícia, o choque entre o castelhano e a língua galega, converteu-se na valorização de se ter um idioma próprio. Assim, através dessa revitalização cultural, a etapa chamada de “Ressurgimento” foi marcada por diversos movimentos artísticos e culturais.

Nesse caminho, foram ocorrendo avanços no que diz respeito a arte e cultura galega, como a formação da primeira geração de pintores galegos, a “Xeración Doente”. Foi a partir da chegada de diversos artistas empenhados em transmitir seus conhecimentos nos centros de artes de Galícia que se formaram os primeiros artistas galegos, como Ovidio Murguía, Ramón Parada Justel, JoaquínVaamonde e Jenaro Carrero. “Esta xeración, non obstante, ollou con estupor como a pintura ficaba prácticamente ausente na súa terra. Cunha perspectiva un tanto utópica estes artistas reivindicaron a arte da pintura e procuraronunrecoñecemento público” (LORENZO, 2011) e para isso, retratavam a essência do seu país.

Atualmente, é possível verificar o número crescente de mostras de pinturas galegas, quadros que são expostos inclusive em outros países, e pintores que são aclamados com prêmios por suas obras. Isso mostra que a arte encontrou espaço nessa região e se desenvolve de modo a construir novos caminhos para a história da região da Galícia.

  1. Pintores galegos antigos

2.1. Ovidio Murguía de Castro

Nascido em 1871, em Torres de Lestrove, Dodro – A Coruña, OvidioMurguía, como era mais conhecido, era filho dos escritores Manuel Martínez Murguía e Rosalía de Castro, o que pode explicar seu caminho para a arte. Quando ainda era muito jovem, viveu a perda da sua mãe e anos depois começou a pintar.

Sua formação artística começa em Santiago de Compostela, na Real Sociedade Económica de Amigos do País de Santiago, onde era orientado pelo professor pintor José MaríaFenollera, seguindo a linha do realismo naturalista. De maneira rápida, o pintor começou a fazer exposições das suas obras que tinham muito a ver com a cultura galega e foi uma renovação do paisagismo, “su pintura de gran pulso vital, plasmando enella una emoción que fusiona el naturalismo conlaespiritualidaddel romanticismo” (TRIANARTS, 2014).

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Fig. 1: Ovidio Murguía, Tarde de invierno en el Sarela, ca. 1894

Em 1895, o pintor se mudou para Madrid e lá esteve em contato com outros artistas, utilizou a serra madrilena como paisagem para suas obras e embora não quisesse seguir os estudos formais de arte na Academia de Belas de San Fernando, Ovidio realizou diversas copias de obras dos professores do Museu do Prado como exercício de pintura.

Graças aos contatos que seu pai fazia, o pintor recebeu diversas encomendas de quadros, inclusive de pessoas que faziam parte da elite da época, como o presidente do Senado, Alonso MonteroRíos. Ovidio ficou encargado de, com oseu conjunto de obras mais conhecido, decorar parte dos muros do Pazo de Lourizán.Assim, “con temas costumbristas muy marcados por la tradición realista naturalista, decora con murales distintos palacios” (TRIANARTS, s/d).

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Fig. 2: Ovidio Murguía, Asando Patatas o Borralleiras (1895)

Entretanto, logo o pintor se cansou desse tipo de trabalho e decidiu que simplesmente deixaria de trabalhar para viver uma vida bohemia, sem nada que o prendesse, sem obrigações. Porém, esse estilo de vida custou caro para a sua já precária saúde. O pintor realizou algumas exposições, porém, viu sua saúde ser destruída pela tuberculose, que se agravou no verão de 1897, obrigando-o a voltar para sua casa na Coruña.

Ovidio permaneceu em Galícia sobre os cuidados de sua família, mas no dia 1 de Jnaeiro de 1990, com apenas 29 anos, não resistiu e faleceu. Suas obras estão hoje em diversos museu galegos e em março de 2014, a fundação Rosália de Castro apresentou uma pintura inédita do pintor galego. “El cuadro no catalogado, Árbore e montaña, la pieza quizá de mayor tamaño pintada por Ovidio Murguía, será restaurada en el Museo de Bellas Artes de A Coruña con la colaboración de la Consellería de Cultura” (LA VOZ DE SANTIAGO, 2014).

  • Joaquín Vaamonde Cornide

Nascido em 1872, na Coruña, Vaamonde começou a pintar ainda quando era uma criança, com o pintor Modesto Brocos. Ainda pequeno, o pintor viajou para a América do Sul com seus pais e só retornou a Galícia quando jovem, aos 22 anos, porém, já dotado de um estilo próprio para a pintura. Nesse tempo, Vaamondeconheceua escritora Emilia Pardo Bazán, “quien se convirtió en su protectora y le introdujo en los ambientes de la alta burguesía coruñesa y en la corte madrileña” (MUSEO DEL PRADO, s/d).

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Fig. 3: Retrato de Emilia Pardo Bazán (1896)

Vaamonde agradou tanto a Emilia P. Bazán que se tornou protagonista de umas das suas obras, La Quimera (1905), na qual foi retratado como um jovem pintor talentoso destacava a burguesia em suas obras, esperando chegar a ser como os professores que observava no Museu do Prado. O pintor se especializou na técnica de pintura com o papel e em retratos, recendo em 1895, uma menção honrosa na Exposição Nacional de Belas Artes.

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Fig. 4: Retrato de Isidro Brocos (1894)

Sua vida foi interrompida aos 32 anos de idade, no ano de 1900, quando o pintor faleceu por tuberculose. Suas obras estão expostas no Museo de Belas Artes da Coruña.

  1. Pintoras galegas atuais

3.1. Carlota Bueno Hermida

Pintora nascida na Coruña e que expôs suas obras pela primeira vez em uma mostra coletiva, no Conselho de Pontedeume, em 2001. A partir daí, participa de muitas outras exposições e concursos, recebendo em maio de 2011, no concurso de pintura rápida “Cidade Velha”, na Coruña, seu primeiro prêmio. Meses depois, no concurso de pintura rápida “Juan Jose Fernández-Leiceaga”, do Conselho de Noia, ela fica entre uma das finalistas.

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Fig. 5: Muiño de Xubia (s/d)

3.2. Josefina Carro

Nascida em 2 de março de 1942, em Barallobre (Fene), a pintora retrata em suas obras muito das paisagens que estavam ao seu redor, durante a sua infância, assim é possível ver refletidas em suas aquarelas, bosques, frutos e elementos da natureza. Foi também durante a infância que ela tomou gosto pela pintura. Através do pintor Jesús Balado, Josefina aprendeu os procedimentos da pintura com pastel.

Além desse ramo da arte, Josefina apreciava também a literatura, gostava de visitar exposições e museus e dessa maneira, conheceu os impressionistas e começou a aprender mais desse estilo, chegando a copiar obras de Degás, Manet, Renoir. Aprendeu os procedimentos e segredos da aquarela com o professor José Gonzalez Collado, dedicando-se com mais afinco a esse tipo de pintura, mas sem abandonar o desenho e as pinturas a óleo.

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Fig. 6: Tulipanes (s/d)

Joaquina foi acometida por uma doença, causando uma interrupção nas suas aulas, porém, retornou com ainda mais ânimo para a pintura, com uma paleta mais vida, aproveitando os contrastes de luz, troca no uso das cores. A pintora se apresentou em várias exposições, como em 2011 na Casa de lasPalmeras de Neda. 

  1. Conclusão

Estudando sobre a história da arte na Galícia é claro perceber o quanto essa região ainda está em processo de desenvolvimento, de formação de uma história com marcos próprios, porém, também é possível destacar o número crescente de praticantes da arte, de pessoas que se dedicam a retratar o que veem e o que sentem, claro, sofrendo influências do seu cotidiano, do espaço em que vivem.

Assim, no presente trabalho, foram destacadas as contribuições de alguns pintores que fizeram parte da base histórica para os estudos da Artes na Galícia, e os novos pintores, evidenciados aqui, principalmente, as mulheres pintoras, a fim de disseminar a arte ao passo que também se crie um espaço para a atuação feminina em assuntos majoritariamente marcados pelos homens.

  1. Referências

GALIPEDIA, A WIKIPEDIA EN GALEGO. Arte de Galicia, 2016. Disponível em: <https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Arte_de_Galicia&oldid=4031442&gt;.

VILAVEDRA, Dolores. Historia da literatura galega. Compostela: Galaxia, 1999.

GALERÍA JOSÉ LORENZO. A xeración doente: do pasamento prematuro ao inmediato mito, 2011. Disponível em: <http://galeriajoselorenzo.blogspot.com.br/2011/06/xeracion-doente-do-pasamento-prematuro.html&gt;.

GALIPEDIA, a Wikipedia en galego. OvidioMurguía. Disponível em: <en https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Ovidio_Murgu%C3%ADa&oldid=4056728>.

TRIANARTS. OvidioMurguía de Castro: Naturalista y romântico, 2014. Disponível em: <http://trianarts.com/ovidio-murguia-de-castro-naturalista-y-romantico/#sthash.zy0T9fsY.HHQDvjeH.dpbs>.

LA VOZ DE SANTIAGO. La Casa de Rosalía adquiere una obra desconocida de Ovidio Murguía, A Coruña, 2014. Disponível em: <http://www.lavozdegalicia.es/noticia/santiago/2014/03/23/casa-rosalia-adquiere-obra-desconocida-ovidio-murguia/0003_201403S23C109913.htm>.

MUSEO DEL PRADO. VaamondeCornide, Joaquín. Disponível em: <https://www.museodelprado.es/aprende/enciclopedia/voz/vaamonde-cornide-joaquin/322c9335-e3ce-46f4-86fd-455d4a4d806b>.

Da Cantiga de amigo ao Samba

Camila Rastely

Aluna de Língua e literatura galega na Universidade Federal da Bahia (UFBA) 

Introdução

Neste trabalho busca-se cotejar as cantigas de amigo, surgidas na gálica, com letras de sambas produzidos por mulheres brasileiras, com objetivo de mostrar as semelhanças que se encontram em ambas canções. Haverá um contexto histórico a respeito do trovadorismo, e especialmente, sobre a cantiga de amigo, pois é necessário que haja um conhecimento prévio sobre a composição da canção para que se faça o cotejo. Também será historiado o Samba, surgido no Brasil, para que haja um entendimento sobre os diversos tipos de samba e as suas diferenças. Logo após, será feito o cotejo entre as duas canções para que o trabalho seja comprovado.

Que foi o Trovadorismo

O Trovadorismo foi um movimento literário que se instalou na península ibérica, na idade média, entre o final do século XII e meados do século XIV onde o período político era confuso. Na Europa medieval, lugar em que se produziu o Trovadorismo, existiam diversos povos em conflito e a área em que se desenvolveu as cantigas galego-portuguesas foram nos reinos de Castela, León, Galiza e Portugal.

No período da Idade Média o Trovadorismo ganhou força, existiam vários géneros, entre eles, a cantiga de amor (quanto em voz masculina), tensão (disputa dialogada), o pranto (lamento pela morte de alguém), o lai (composição de matéria de Bretaña), a pastorela (narrativa de um encontro entre o trovador e uma pastora), cantiga de escarnio e maldizer (cantiga satírica, respectivamente com ou sem equívoco), porém, na península Ibérica um género foi criado, a cantiga de amigo ( quanto em voz feminina).

A cantiga de amigo, rompe o padrão das cantigas trovadorescas que sempre tinham como voz a senhor que se referia tanto para o género feminino, como para o masculino, e inovam trazendo a voz feminina, de uma jovem enamorada e geralmente ocorre num espaço aberto e natural, dialogando com a natureza, sobre o momento da iniciação erótica ao amor. As cantigas de amigo tinham como artificio de coesão o paralelismo e geralmente apresentavam familiares femininas como interlocutores, porém, geralmente, a canção era declamada por poetas do sexo masculino. Podemos observar alguns exemplos de cantigas de amigo:

A meu amigo, que eu sempr’amei,

des que o vi, mui mais ca mim nem al,

foi outra dona veer por meu mal;

mais eu, sandia, quando m’acordei,

nom soub’eu al em que me del vengar

senom chorei quanto m’eu quis chorar.

Mailo amei ca mim nem outra rem,

des que o vi, e foi-m’ora fazer

tam gram pesar que houver’a morrer;

mais eu, sandia, que lhe fiz por en?

Nom soub’eu al em que me del vengar

se nom chorei quanto m’eu quis chorar.

Sab’ora Deus que no meu coraçom

nunca rem tiv[i] ẽno seu logar,

foi-mi ora fazer tam gram pesar;

mais eu, sandia, que lhe fiz entom?

nom soub’eu al em que me del vengar

se nom chorei quanto m’eu quis chorar.

(João Garcia)

Onde a donzela censura a si própria: ou seu amigo, ou único que sempre amou, foi encontrado com outra mulher. E ela não encontrou outra vingança se não a de chorar até não poder mais.

Outro exemplo podemos ver na canção:

Ai fals’amig’e sem lealdade,

ora vej’eu a gram falsidade

com que mi vós há gram temp’andastes,

ca doutra sei eu já por verdade

a que vós atal pedra lançastes.

Amigo fals’e muit’encoberto,

ora vej’eu o gram mal deserto

com que mi vós há gram temp’andastes,

ca doutra sei eu já bem por certo

a que vós atal pedra lançastes.

Ai fals’amig’, eu nom me temia

do gram mal e da sabedoria

com que mi vós há gram temp’andastes,

ca doutra sei eu, que o bem sabia,

a que vós atal pedra lançastes.

E de colherdes razom seria

da falsidade que semeastes.

(D. Dinis)

 Onde irada, a donzela acusa o seu amigo de deslealdade e traição: sabe agora que tem outra e que há muito tempo que a engana. A curiosa expressão do 2º verso do refrão “que vós Atal pedra lançastes” aludirá talvez a um antigo dito proverbial “atirar a pedra e esconder a mão”, aqui significando um golpe à traição (que será comum às duas donzelas, já que as engana a ambas). No final, ela expressa ainda desejo que tenha a justa recompensa por tanta falsidade.

 O Que foi o Samba

” O samba é um gênero musical, o qual deriva de um tipo de dança, de raízes africanas, surgido no Brasil e considerado uma das principais manifestações culturais populares brasileiras. ”

Dentre suas características originais, está uma forma onde a dança é acompanhada por pequenas frases melódicas e refrões de criação anônima, alicerces do samba de roda nascido no Recôncavo Baiano e levado, na segunda metade do século XIX, para a cidade do Rio de Janeiro pelos negros que trazidos da África e se instalaram na então capital do Império” (Página Sambando, acessado em 9/03/2016)

Apesar de ter sido criado na Bahia, foi no Rio de Janeiro que o samba tomou força, entrando em contato com outros gêneros musicais e se tornou parte dá identidade do povo Brasileiro.

Ou primeiro samba gravado non Brasil foi por telefone, no ano de 1917, cantado por Bahiano. A letra deste samba foi escrita por Mauro de Almeida e Donga. Os principais tipos de samba:

Samba-enredo: Surge no Rio de Janeiro durante a década de 1930. O tema está ligado ao assunto que a escola de samba escolhe para o ano do desfile. Geralmente segue temas sociais ou culturais. Ele que define toda a coreografia e cenografia utilizada no desfile da escola de samba; Samba de partido alto: Com letras improvisadas, falam sobre a realidade dos morros e das regiões mais carentes. É o estilo dos grandes mestres do samba. Os compositores de partido alto mais conhecidos são: Moreira da Silva, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho; Pagode: Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, nos anos 70 (década de 1970), e ganhou as rádios e pistas de dança na década seguinte. Tem um ritmo repetitivo e utiliza instrumentos de percussão e sons eletrônicos. Espalhou-se rapidamente pelo Brasil, graças às letras simples e românticas. Os principais grupos são: Fundo de Quintal, Negritude Jr., Só Pra Contrariar, Raça Negra, Katinguelê, Patrulha do Samba, Pique Novo, Travessos, Art Popular; Samba-canção: Surge na década de 1920, com ritmos lentos e letras sentimentais e românticas. Exemplo: Ai, Ioiô (1929), de Luís Peixoto; Samba carnavalesco: Marchinhas e Sambas feitos para dançar e cantar nos bailes carnavalescos. Exemplos: Abre alas, Apaga a vela, Aurora, Balancê, Cabeleira do Zezé, Bandeira Branca, Chiquita Bacana, Colombina, Cidade Maravilhosa entre outras; Samba-exaltação: Com letras patrióticas e ressaltando as maravilhas do Brasil, com acompanhamento de orquestra. Exemplo: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso gravada em 1939 por Francisco Alves; Samba de breque: Este estilo tem momentos de paradas rápidas, onde o cantor pode incluir comentários, muitos deles em tom crítico ou humorístico. Um dos mestres deste estilo é Moreira da Silva; Samba de gafieira: Foi criado na década de 1940 e tem acompanhamento de orquestra. Rápido e muito forte na parte instrumental, é muito usado nas danças de salão; Sambalanço: Surgiu nos anos 50 (década de 1950) em boates de São Paulo e Rio de Janeiro. Recebeu uma grande influência do jazz. Um dos mais significativos representantes do sambalanço é Jorge Ben Jor, que mistura também elementos de outros estilos.

Abaixo vemos letra de um samba-canção:

Ai Ioiô

Eu nasci pra sofrer

Fui oiá pra você, meu zoinho fechô

E quando o zoio eu abri

Quis gritar quis fugir

Mas você, eu não sei por que

Você me chamou

Ai Ioiô, tenha pena de mim

Meu Sinhô do Bonfim

Pode inté se sangar

Se ele um dia souber

Que você é que é

O Ioiô de Iaiá

Chorei toda a noite e pensei

Nos beijos de amor que te dei

Ioiô, meu benzinho

Do meu coração

Me leva pra casa

Me deixa mais não

Chorei toda a noite e pensei

Nos beijos de amor que te dei

Ioiô, meu benzinho

Do meu coração

Me leva pra casa

Me deixa mais não

(Ai, Ioiô (1929), de Luís Peixoto)

A relação entre o Samba e Canção de Amigo

A primeira relação que podemos trazer é o eu lírico feminino, tanto na canção de amigo como no samba. Usaremos como base o samba de Clara Nunes (cantora brasileira, considerada uma das maiores intérpretes do país), Ai quem me dera, para fazer um trabalho comparativo:

Ai quem me dera terminasse a espera

Retornasse o canto, simples e sem fim

E ouvindo o canto, se chorasse tanto

Que do mundo o pranto, se estancasse enfim

Ai quem me dera ver morrer a fera

Ver nascer o anjo, ver brotar a flor

Ai quem me dera uma manhã feliz

Ai quem me dera uma estação de amor…

Ah se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais

Ver todo mundo para sempre afim

E a liberdade nunca ser demais

E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir um nunca mais

Dizer que a vida vai ser sempre assim

E ao fim da espera

Ouvir na primavera

Alguém chamar por mim

Ai quem me dera ao som de madrigais

Ver todo mundo para sempre afim

E a liberdade nunca ser demais

E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir um nunca mais

Dizer que a vida vai ser sempre assim

E ao fim da espera

Ouvir na primavera

Alguém chamar por mim.

(Ai quem me dera, Clara Nunes)

Podemos fazer relação com a canção de amigo:

Ai meu amigo, coitada

vivo, porque vos nom vejo,

e, pois vos tanto desejo,

em grave dia foi nada

se vos cedo, meu amigo,

nom faço prazer e digo.

Pois que o cendal venci

de parecer em Valongo,

se m’ora de vós alongo,

em grave dia naci

se vos cedo, meu amigo,

nom faço prazer e digo.

Por quantas vezes pesar

vos fiz de[s] que vos amei,

algũa vez vos farei

prazer, e Deus nom m’ampar

se vos cedo, meu amigo,

nom faço prazer e digo.

(Martim Padrozelos)

Onde podemos observar que nas duas canções o eu lírico apresenta-se como uma mulher, as duas canções têm como objetivo retratar o sofrimento de uma mulher cujo seu amante está longe, podemos observar claramente no verso da canção de amigo “Aí meu amigo, coitada, vivo, porque vos non vexo, e, xa que vos tanto desexo ” e na música “Ai quem me dera terminasse a espera, retornasse ou canto, simples e sem fim” o saudosismo.

Podemos também fazer um cotejamento entre a canção Hino ao Amor de Dalva de Oliveira com a cantiga de amigo “Amigo, sei que há mui gram sazom que trobastes sempre d’amor por mi.”

Se o azul do céu escurecer

E a alegria na terra fenecer

Não importa, querido, viverei do nosso amor

Se tu és o sonho dos dias meus

Se os meus beijos sempre foram teus

Não importa, querido o amargor das dores desta vida

Um punhado de estrelas no infinito irei buscar

E aos teus pés esparramar

Não importa os amigos, risos, crenças e castigos

Quero apenas te adorar

Se o destino então nos separar

Se distante a morte te encontrar

Não importa, querido, porque morrerei também

Quando enfim a vida terminar E dos sonhos nada mais restar Num milagre supremo

Deus fará no céu eu te encontrar

(Hino ao Amor de Dalva de Oliveira)

Amigo, vós nom queredes catar

a nulha rem, se ao vosso nom,

e nom catades tempo nem sazom

a que venhades comigo falar;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

Ca noutro dia chegastes aqui

a tal sazom que houv’en tal pavor que,

por seer deste mundo senhor,

nom quisera que veessedes i;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

E quem molher de coraçom quer bem,

a meu cuidar, punha de s’encobrir

e cata temp’e sazom pera ir

u ela est, e a vós nom avém;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

Vós nom catades a bem nem a mal,

nem do que nos pois daquest’averrá,

se nom que pass’o vosso ũa vez já,

mais em tal feito muit’há mester al;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

(João Baveca)

Nesta canção temos a comparação entre duas mulheres que temem por um momento com seu amante, que por mais que sabem que o amor dos dois podem os levar a morte “Se distante a morte te encontrar, não importa, querido, porque morrerei também” e “per vossa culpa, mi e vós morrer”. Ou seja, o tema entre as duas canções são semelhantes e mostram que mesmo com as dificuldades e o temor pela morte os amantes se encontram.

Conclusão

Por fim, concluímos que o samba possui as mesmas características semânticas da canção de amigo, com o eu-lírico de uma mulher cantando o sentimento amoroso, ou sua desilusão, de forma sentimental, se referindo sempre ao amado com saudosismo e pena pelo que passou, ou pelo que não foi vivido. Comprovamos estas informações por meio de cotejo entre canções de sambas conhecidos popularmente no Brasil e cantigas de amigo galego-portuguesas, comprovando que a comparação é válida e apresenta diversos pontos em comum, fazendo, então, relação da cultura brasileira com a cultura europeia, especialmente, da galícia, onde surgiu a cantiga de amigo.

Referências Bibliográficas

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Silva, Ivanda Maria Martins. Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática escolar [Online], [disponível na internet via http://www.pgletras.com.br/Anais-30- Anos/Docs/Artigos/5.%20Melhores%20teses%20e%20disserta%C3%A7%C3%B5es/5.

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Araújo, Lília. História do Samba [online], [disponível na internet via http://www.sambando.com/historia-do-samba/] Arquivo acessado em 10 de março de

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Giordano, Isabella. Escute álbuns das três melhores sambistas mulheres [online], [disponível na internet via https://samba.catracalivre.com.br/brasil/samba-na- net/indicacao/escute-albuns-das-tres-melhores-sambistas-mulheres/] Arquivo acessado em 15 de março de 2016.

Samba e História do Samba [online], [disponível na internet via http://www.suapesquisa.com/samba/] Arquivo acessado em 20 de março de 2016.

Lopes, Nei; Simas Luiz Antônio. Dicionário da História Social do Samba. 1ªed. Editora

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Oliveira, Dalva de. Bandeira Branca [online], [disponível na internet via https://www.vagalume.com.br/dalva-de-oliveira/bandeira-branca.html] Arquivo acessado em 10 de abril de 2016.

Nunes, Clara. Ai Quem Me Dera [online], [disponível na internet via http://www.vagalume.com.br/clara-nunes/ai-quem-me-dera.html] Arquivo acessado em 10 de abril de 2016.

Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Disponível na internet via http://cantigas.fcsh.unl.pt/sobreascantigas.asp] Arquivo acessado em 13 de março de 2016.

25 de outubro, foliada galega no Rio de Janeiro

A próxima terça-feira 25 de outubro terá lugar no Lapa Irish Pub do Rio de Janeiro uma foliada galega com as bandas Xuntos (Montevideu) e Folcarioca (Rio de Janeiro). A partir das 20:30, na rua Evaristo da Veiga 147.
Xuntos e Folcarioca prometem uma noite de muita música e dança tradicional galega!
Entrada franca.
Uma foliada era e é uma festa onde as pessoas se reúnem para tocar, cantar e dançar.

Dia Nacional da Galícia em Salvador de Bahia

A próxima segunda-feira dia 25 de julho é o Dia Nacional da Galícia. Na Universidade Federal da Bahia, para comemorá-lo, terá lugar, a sala de videoconferências PAFII a seguinte atividade:

  • Palestra sobre o Dia da Galicia e o caminho de Santiago a cargo de Luciano Santos Borges, da Associação Bahiana de Amigos do Caminho de Santiago.
  • Projeção do documentário Afranio, de Víctor Coyote (2009), sobre como o deputado Alonso Ríos tenta fugir pela ribeira do Minho no início da Guerra Civil espanhola.

Feliz Dia Nacional da Galícia a todas e todos os leitores do Quilombo Noroeste!

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Património Imaterial Galego-Português: 20 anos de Ponte…nas ondas!

Santi Veloso

Presidente da Associação Ponte…nas Ondas! e professor de Língua e Literatura Galega em Gondomar

Ponte…nas ondas! ( PNO! ) é uma Associação Cultural e Pedagógica que desde 1995 realiza atividades educativas e culturais na Galiza e no Norte de Portugal.

O nome da Associação deriva da atividade que lhe deu origem, uma jornada de rádio entre escolas das duas margens do rio Minho, uma ponte de comunicação motivada pela fronteira e, desta feita, uma ponte nas ondas.

Com o alargamento da jornada de comunicação interescolar a outros estabelecimentos de ensino e realidades, designadamente através da posterior utilização das TICs, emerge a descoberta de um património comum a ambos os lados da fronteira.

Em 2001, a Associação abraça o projeto da UNESCO e difunde “A rota do escravo”, passando a partir daí a centrar as suas ações no património imaterial. Neste contexto, impulsionada pelas primeiras proclamações das Obras-primas do Património Oral e Imaterial emerge a primeira Candidatura do Património Imaterial Galego-Português.

A proposta de candidatura é apresentada aos governos de Portugal e de Espanha por uma comissão de professores e assessores da Associação depois de um importante trabalho de documentação, investigação, trabalho de campo e um intenso labor de divulgação realizado pelas escolas da Euro Região Galiza-Norte de Portugal. Posteriormente, em Paris, é feita a entrega da Candidatura por uma representação da Associação juntamente com a representação diplomática de Portugal e Espanha na UNESCO.

Com a entrada em vigor da Convenção do Património Cultural Imaterial, o trabalho de PNO! continua centrado na preservação, difusão e transmissão deste património comum, razão pela qual passa a dinamizar diversas atividades: Mostras de Património, Concursos de Recolha, Congressos, Jornadas pedagógicas, encontros com pessoas portadoras, etc.

Ao longo destas duas décadas, PNO! foi construindo uma rede de pessoas, escolas, universidades e instituições que procuram o reconhecimento do património imaterial galego-português no mundo.

A ORIGEM

PONTE…NAS ONDAS! nasceu a partir de uma experiência educativa desenvolvida desde 1995 graças à cooperação entre estabelecimentos de ensino básico, secundário e universidades da Galiza (Espanha) e do norte de Portugal, com a participação de diversos países da América.

Trata-se de uma jornada que teve início com a emissão de 12 horas de programação radiofónica realizadas integralmente por alunos galegos e portugueses. A partir de 2003 atingiu as 24 horas de emissão com programas produzidos por mais de 50 escolas. Estudantes do ensino básico, secundário e universitário (desde a IX edição), emitem programas de rádio (nas últimas edições também através da televisão e Internet) elaborados por eles mesmos, ao vivo e em formatos muito diversos: concursos, variedades, música, entrevistas, conexões ao vivo entre diferentes estúdios, etc. Ainda que o galego e o português fossem as línguas comuns da emissão, ao incorporar a participação de centros escolares da Argentina, Cuba, Chile e Colômbia, o castelhano também se incorporou à experiência. Durante a jornada de comunicação os alunos de todos os países participantes são convidados a seguir a programação e a participar ativamente nela.

A motivação para começar esta aventura foi a inauguração de uma ponte arquitetónica entre as localidades de Salvaterra do Minho (Espanha) e Monção (Portugal); então, um grupo de 16 escolas decidiram estabelecer uma ponte de comunicação através das ondas de rádio. Naquele ano usaram-se os estúdios da rádio comercial “Ecos da Raia” de Monção (Portugal) e outro “escolar” provisório situado na Casa da Cultura em Salvaterra do Minho (Espanha); os protagonistas da experiência viveram com muita emoção aquela primeira jornada experimental de rádio transfronteiriça e o sucesso obtido motivou sua continuidade.

O funcionamento básico de PONTE…nas ondas! foi evoluindo em cada edição. O esquema de preparação por parte dos professores mantém-se no essencial. Tudo começa com o início do ano letivo: o corpo docente representante das escolas que vão participar na edição reúnem para decidir o tema central que será proposto aos participantes e os primeiros passos a dar. Depois vem o trabalho nas escolas: animá-los para participarem na rádio escolar ou na elaboração de um programa audiovisual.

Em cada edição há um tema geral à volta do qual gira toda a programação e sobre o qual se trabalha ao longo do ano nas escolas participantes.

No dia da emissão é necessário ter preparada uma grelha de programação muito clara na qual para cada programa esteja prevista a respetiva hora de emissão, o título, as horas para as conexões ao vivo, etc. É de referir que chegaram a ser realizadas jornadas de programação a partir de 7 estúdios de rádio situados nos dois lados da fronteira galego-portuguesa.

Paralelamente aos programas, e durante toda a jornada, são dinamizados concursos e diferentes formas de participação com recurso a outros meios de comunicação.

Nas últimas edições apostou-se nos conteúdos audiovisuais, e pela possibilidade de ouvir e ver a programação em qualquer momento, graças à colaboração de UVIGO-TV da Universidade de Vigo.

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Cartaz de Ponte…nas ondas 2006

A EVOLUÇÃO DA JORNADA DE COMUNICAÇÃO

Ponte…nas ondas! sofreu uma grande evolução desde o seu início. As novas tecnologias foram-se incorporando pouco a pouco e hoje em dia a Internet é um meio que torna possível que esta experiência chegue a lugares aos quais há uns anos atrás era impensável chegar. A emissão do sinal de televisão por Internet realizada por UVIGO-TV (a televisão da Universidade de Vigo) faz com que a experiência tenha já um enfoque multimídia em que o audiovisual adquire todo o protagonismo, pois permite a emissão a partir da Web e, desta forma, um maior seguimento nas escolas.

Durante o dia da emissão recebem-se mensagens de todo o mundo de pessoas que estão a seguir a programação através da Internet; também funciona o correio eletrónico, o chat para conversar ao vivo durante a jornada e um forum para deixar mensagens sobre os programas que se estão a emitir.

Em 1998, ano em que a Internet estava a emergir, e graças à colaboração da companhia Telefónica de Espanha, fez-se a primeira emissão por Internet. A partir daí, a Rede foi um aliado imprescindível.

Na VIII edição, em 2002, foi estabelecida comunicação através de uma videoconferência profissional entre o estúdio de rádio escolar instalado na Casa da Cultura de Salvaterra de Minho, um colégio de Maputo ( Moçambique ) e o maior colégio público do Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II. Foi ainda realizada a emissão ao vivo a partir de sete estúdios de rádio.

Os meios de comunicação: rádio, televisão e imprensa escrita, colaboraram com esta experiência difundindo informação sobre esta jornada. Outro grande passo foi a incorporação do corpo discente universitário que tornou possível que a emissão passasse a durar 24 horas, completando assim o ciclo educativo do ensino formal.

 UM TEMA COMUM, O PATRIMÓNIO

Nas últimas edições, a jornada dedicou-se a diversos âmbitos do Património Imaterial comum à Galiza e a Portugal e presente nos países de língua e cultura galego-portuguesa. O património imaterial foi objeto, desde a primeira proclamação das Obras-primas do Património Imaterial em 2001 pela UNESCO, de uma especial divulgação nos estabelecimentos de ensino participantes na jornada de comunicação.

Através do trabalho desenvolvido, tanto para a preparação dos programas como nos programas em si, os alunos foram descobrindo o património comum aos dois territórios, ficando essa experiência evidente em muitos programas audiovisuais através da participação direta de muitos meninos do outro lado da fronteira aos quais se lhes pedia que chamassem em direto para completar adivinhas, refrães, ou até que procurassem outros similares na sua língua.

Toda esta experiência com o património abre novas linhas de trabalho para a Associação e dá lugar à apresentação de uma Candidatura Multinacional na UNESCO.

Estes foram os temas das últimas edições da jornada de comunicação:

VIII- Edição 2002: ” O património imaterial “

IX Edição 2003: ” O mar e nós, sós “

X Edição 2004: ” O património vivo”

XI Edição 2005: ” 1 património para o futuro “

XII Edição 2006: ” Os sons da PONTE”

XIII Edição 2007: ” Na Rede do Património”

XIV Edição 2008: ” Identidade e território”

XV Edição 2009: ” O património dos Tesouros Vivos “

XVI Edição 2010: ” O tesouro dos avós “

XVII Edição 2011: “ As bibliotecas vivas ”

XVIII Edição 2012: “ Ponte…a contar! ”

XIX Edição 2013: “ Ponte…a brincar! ”

XX Edição 2014: “ Vinte…nas ondas! ”

Foram realizadas 20 edições desta jornada de comunicação interescolar com a participação de mais de 800 estabelecimentos escolares de Espanha e de Portugal juntamente com outros da América e África.

Na atualidade, as escolas preparam os seus próprios programas audiovisuais e desde PNO! divulgam-se a todo o mundo.

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Estudio de rádio em Salvaterra do Minho para o projeto Ponte nas…ondas

AS ATIVIDADES DA ASSOCIAÇÃO

Para além da jornada de comunicação interescolar, que tem sido a de maior participação e projeção, a Associação PNO! tem vindo a realizar diversos projetos que procuram a difusão, transmissão e valorização do Património Imaterial Galego Português.

  • Mostras da oralidade galego-portuguesa

Atividade para divulgar o Património Imaterial Galego Português em toda a Euro Região da Galiza e Norte de Portugal. A Mostra da Oralidade Galego-Portuguesa pretende dar a conhecer num evento único exemplos da tradição oral galego-portuguesa juntando a expressão oral, o teatro e a música.

Desde a primeira edição foram realizadas 10 mostras em diferentes lugares da Galiza e do Norte de Portugal com a participação de pessoas portadoras e grupos que trabalham com património imaterial.

  • Encontro de portadores do património imaterial galego-português (Melgaço 2005)

Tratou-se de um encontro de portadores do património para dar visibilidade à Candidatura do Património Imaterial Galego-Português, apresentada na UNESCO. Durante três dias mostraram-se práticas e fizeram-se demonstrações de expressões representativas do património imaterial galego-português.

  • Certame de Recolha da Tradição Oral Galego-Portuguesa (2006)

É uma atividade destinada a recolher amostras do património imaterial galego-português de âmbito educativo para que os alunos/as descubram aquelas expressões do património mais próximas. As recolhas vinham acompanhadas da correspondente ficha técnica e a transcrição. Tratava-se do único certame dirigido aos estabelecimentos escolares da Euro região Galiza-Norte de Portugal.

  • Publicações de livros, discos e dvd relacionados com o património imaterial galego-português

Ao longo destas décadas, paralelamente às atividades centradas na comunicação e no património cultural, Ponte…nas ondas! promoveu edições e publicações que se converteram num referente no que diz respeito ao trabalho de produção de materiais didáticos da cultura galego-portuguesa.

MENINOS CANTORES ( 2005 ). O primeiro projeto conjunto entre escolas de dois países da União Europeia à propósito de um património comum. Disco-livro-dvd realizado por 17 estabelecimentos escolares da Galiza e do Norte Portugal com canções tradicionais e documentário sobre o Património Imaterial Galego Português. Publicou-se em galego, português, espanhol e inglês. ( www.meninoscantores.com )

CORES DO ATLÂNTICO (2010 ). Disco-livro sobre as cantigas de amigo medievais da tradição oral galego-portuguesa realizado com a artista brasileira Socorro Lira e a professora da Universidade de Poitiers, Ria Lemaire. O disco contém cantigas medievais de amigo galego-portuguesas interpretadas por artistas brasileiros, africanos, portugueses e galegos. O livro contém um texto de investigação de Ria Lemaire relacionando as cantigas de amigo galego-portuguesas com a tradição oral das mulheres galego-portuguesas.           ( www.coresdoatlantico.com )

NA PONTE ( 2013 ). O livro-CD-DVD NA PONTE é uma memória da travessia de Ponte…nas ondas! ao longo destas duas décadas. O CD recolhe composições de artistas brasileiros, africanos, portugueses e galegos para PNO! O livro recolhe igualmente artigos de professores, comunicadores, artistas e pessoas que colaboraram com Ponte…nas ondas! O DVD contém um documentário e diverso material audiovisual sobre Ponte…nas ondas! O livro foi editado em galego e estão em edição as versões em espanhol, português e inglês (www.naponte.com) .

REVISTA GALEGA DE EDUCAÇÃO (2015). Monográfico da Revista Galega de Educação dedicado às duas décadas de atividades de PNO! e a sua projeção na lusofonia por altura do 20º aniversário da associação.

  • Congresso internacional “PONTES DE CULTURA, PONTES DE FUTURO” (2010)

Congresso transfronteiriço realizado por ocasião dos 15 anos da associação PNO! Participaram professores, antropólogos, jornalistas e artistas que dissertaram sobre o Património Imaterial Galego Português e o papel de PNO! O congresso teve como temáticas, a educação, o património, as TICs e os meios de comunicação.

O Congresso Internacional ” PONTES DE CULTURA, PONTES DE FUTURO ” sobre os 15 anos de PONTE…nas ondas! apresentou-se como um evento de reflexão e debate sobre a iniciativa de comunicação que nascera no ano 1995 com a denominação de Ponte…nas ondas!

Para avaliar esta etapa de atuações, desenvolvidas fundamentalmente na Euro Região Galiza-Norte de Portugal, a Associação Ponte…nas ondas! organizou este Congresso onde surgiram novas linhas de atividades e propostas apontadas por todos os participantes nos âmbitos da educação, inovação, património cultural galego-português, cultura, tecnologias da informação e da comunicação.

  • Tesouros vivos do mar ( 2013 )

Projeto de recuperação do património marítimo no Concelho galego de A Guarda. Realizou-se um trabalho de recolha de informação, entrevistas e análise documental junto de um conjunto de pessoas portadoras. O resultado concretizou-se num portal Web e na publicação de um livro-DVD sobre o reconhecimento de pessoas e grupos da cultura marítima na câmara municipal da Guarda.

  • Encontros de jogos tradicionais galego-portugueses

Dirigido a escolas dos dois lados da fronteira, esta atividade procura a transmissão dos jogos tradicionais galego-portugueses às novas gerações. Realiza-se anualmente numa localidade da Galiza ou do Norte de Portugal. Foram realizados IX encontros anuais.

  • Candidatura do Património Imaterial Galego-Português

Apresentada por Espanha e Portugal em 2004, concorreu às proclamações das Obras Primas do Património Cultural Imaterial em 2005. Foi a primeira Candidatura promovida por estabelecimentos escolares de dois países europeus. O processo começou em 2002 e a proposta foi elaborada durante dois anos por uma equipa da associação que também conduziu o processo junto dos Estados, sendo a Candidatura entregue pela associação na sede da UNESCO em Paris.

COLABORAÇÕES

Ao longo de duas décadas, a Associação incorporou as atividades ao mundo da cultura. Artistas e escritores galegos, portugueses e brasileiros colaboraram nas diferentes edições da experiência. Uxía, João Afonso, Dulce Pontes, Filipa Pais, Milladoiro, Chico César, Daniela Mercury, José Saramago, Agustín Fernández Paz ou Federico Maior Zaragoza são alguns dos nomes que passaram pela programação da jornada de comunicação interescolar.

Grupos de música galega e portuguesa realizaram gravações especiais promovidas por Ponte…nas ondas! Entre outros exemplos, os gaiteiros Treixadura e os Gaiteiros de Lisboa realizaram uma gravação e um videoclipe conjunto de um tema tradicional comum à Galiza e a Portugal como atividade de apoio à Candidatura do Património Imaterial Galego-Português.

Ponte…nas ondas! foi produtora de um disco-livro-dvd com temas tradicionais galego-portugueses interpretados por alunos de escolas galegas e portuguesas e com a colaboração de artistas de ambos os lados. O projeto denominou-se Meninos Cantores e também foi apresentado à UNESCO como compromisso da transmissão do património imaterial às gerações mais jovens.

A participação de importantes jornalistas radiofónicos constituiu um importante estímulo e reforço para a experiência. Nos anos 1998 e 1999 a jornalista Julia Otero realizava conexões ao vivo com a jornada radiofónica a partir de Barcelona e dava-a a conhecer em Espanha. No ano 2000 era Iñaki Gabilondo quem estabelecia várias conexões a partir do seu programa “Hoje por hoje”. Também nesse mesmo ano fazia o mesmo Diamantino José a partir da RDP-Antena 1 em Lisboa.

No âmbito do património, antropólogos galegos e portugueses prestam assessoria à associação e colaboram com trabalhos de investigação e documentação. Integraram a equipa que realizou os trabalhos de elaboração do dossiê apresentado na Unesco da Candidatura do Património Imaterial.

Do ponto de vista da inovação e renovação pedagógica, a atividade da associação tem contado com educadores e pedagogos que destacam a singularidade da experiência, designadamente por reunir na sua fórmula única a educação, o património, as TICs e os meios de comunicação.

 RECONHECIMENTOS

Em 2004, a Associação Cultural e Pedagógica PONTE…NAS ONDAS! foi convidada a participar no Foro do Partenariado para a Diversidade que se celebrou na cidade alemã de Flensburg convocado pelo EBLUL ( European Bureau for Lesser Used Languages ) para apresentar esta experiência de comunicação. Nesse forum foi aprovada – por unanimidade- uma resolução por parte da Assembleia Geral do EBLUL na qual se reconheceu a importância do trabalho de Ponte…nas ondas! :

* Por ser uma experiência que contribui para a promoção de uma língua minoritária, para a recuperação da cultura, das tradições e da língua galega e por favorecer a cooperação transfronteriça.

* Por desenvolver valores de respeito mútuo entre jovens de dois territórios vizinhos.

* Por ser um exemplo de boas práticas em matéria de cooperação e promoção da diversidade linguística.

* Por implicar meninos e meninas dentro de um contexto educativo e promover entre eles o uso das novas tecnologias.

Por tudo isto a Assembleia Geral do EBLUL decidiu incentivar outras instituições governamentais e não governamentais a apoiar e patrocinar esta experiência.

A Xunta de Galícia reconhecia todo o trabalho realizado em 2005 com o Prémio Galícia de Comunicação à “Melhor iniciativa no campo da comunicação”.

A Associação de Escritores em Língua Galega ( AELG ) também reconhecia o trabalho de Ponte…nas ondas! nesse mesmo ano com a concessão do prémio “Bos e Xenerosos”, destinados a organizações e entidades que desenvolvam um importante labor cultural.

Em 2013, o Ministério de Cultura, Educação e Desporto de Espanha outorgava a Ponte…nas ondas! o “Selo de boa prática Ibero-americana” tendo em conta, entre outros aspetos, “ a qualidade da experiência na originalidade e criatividade, ao explorar enfoques inovadores adequados ao contexto no qual se desenvolve, transferível a outros meios e países da comunidade Ibero-americana”.

Nesse mesmo ano, a Associação Ponte…nas ondas! foi reconhecida como Juiz Honorário ( Juiz Honorário ) do Couto Misto ( enclave territorial na fronteira galego-portuguesa que gozou de independência no passado ).

Em 2014 a Associação recebe o premio ONDAS (o mais prestigiado prémio de comunicação em Espanha) pela “melhor cobertura informativa do património imaterial galego-português”.

 + info: www.pontenasondas.org

Como entender o celtismo na Galiza e Irlanda?

Erick Carvalho de Mello

Doutorando em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Falar sobre celticismo galego e irlandês não é tarefa das mais simples. Afinal, é muito fácil se perder no emaranhado de definições que cercam as representações do celtismo na modernidade. Em verdade, o debate sobre o entendimento moderno de uma identidade étnica celta não pode ser entendido apenas pelas apropriações atuais do que é ser celta, até mesmo porque sua própria estruturação é influenciada pelo que se entende dos antigos celtas na mesma proporção que estes são definidos pelo que modernamente entendemos por celtas.

É interessante pensar nesta relação inclusive. Uma via de mão dupla une a definição moderna e antiga de celticidade e, sobretudo, celtitude. Dizemos aqui que a relação é uma via de mão dupla, pois as duas definições surgem ao mesmo tempo e em caráter interdependente. Um estudo que se pretenda entender como se forma e atua a celticidade moderna por meio de suas fronteiras étnicas deve antes buscar como se elabora as definições acadêmicas acerca dos antigos celtas para assim melhor compreender o que se entende por “céltico” em plenitude e desta maneira melhor promover possíveis correlações entre o entendimento acadêmico dos já sedimentados estudos célticos com as apropriações contemporânea de uma celticidade geradora de uma identidade celta.

Neste sentido, é de todo necessário explicitarmos a diferença entre Celticidade e Celtitude, dois conceitos chave na formação identitária céltica. Para melhor compreendermos estas ideias, baseamo-nos nas ideias do antropólogo Michael Dietler que define Celticidade como um sentimento de identificação emocional centrado em uma conexão direta com a ideia existente em certas características definidas como celtas que não demandam necessariamente alguma ligação direta com genealogia, território ou mesmo língua, mas apenas o que Bowman chamaria de “cardiac celts”. Ao contrário de Celtitude que como Dietler define, se traduz como um largo sentimento de orientação etno-nostálgica encontrado, por exemplo, nos movimentos de migração irlandesa e escocesa ao redor do mundo. Para Dietler, a construção de Celtitude envolve ”algum tipo de re-essencialização” em um senso específico de pertencimento étnico baseado em uma visão de comunidade construída.

Estas definições são até hoje base do debate que legitima a pertença étnica e mantêm muitas das tradições inventadas que buscam aninhar-se dentro do escopo étnico. Todas estas definições que remetem a antiguidade seguem uma linha bem nítida traçada pelos atores políticos da franja céltica européia e se pauta em diversificadas “tradições inventadas” como para Eric Hobsbwam em “A Invenção das tradições” sendo “um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica automaticamente uma continuidade em relação ao passado (…)” (HOBSBAWM et al, 2008: 9).

Esta definição por certo atende a formação identitária céltica, pois o uso da antiguidade enquanto construção é base da justificativa do reconhecimento de uma identidade étnica céltica legitimadora das ações e da coesão grupal imaginada pela comunidade pan-céltica, e relembradas nas memórias coletivas dos movimentos de identidade resistente céltica nos mais variados locais onde esta se apresenta.

No entanto, estas buscas etno-nostálgicas geram quase sempre uma falta de perspectiva com relação ao que é ser celta. Existe a interferência do campo politico seja na construção de uma resistência quanto de uma domesticação dos “valores célticos” e isso acaba por gerar uma falta de perspectiva futura em muitos casos sobre o uso destes elementos célticos.

Sanar esta falta de perspectiva de um futuro que norteou a busca incansável pela celtitude na Galiza, inclusive. Afinal, falar de celtitude na Galíza é falar de galeguismo e seu desenvolvimento até a formação de um nacionalismo galego.

Dentro do galeguismo podemos identificar diferentes períodos. Do Provincialismo entre 1840 a 1885, passando pelo rexionalismo dos anos 1885 até 1915 e por fim estruturando-se em uma nacionalismo a partir de 1916. Nestes períodos, por meio da intelectualidade galega, nós vemos a celtitude se desenvolvendo de maneira concomitante, bem como o celtismo galego como um todo.

Os elementos célticos em Galiza não são fruto unicamente do século XIX. Apesar de entendermos que o marco histórico das teorias acadêmicas sobre o celtismo galego surgem com o História de Galícia de José Verea y Aguiar, suas influências residem no século XVIII com autores como o frei Martín Sarmiento e Juan Francico Masdeu que a partir da crítica de leituras acerca do celtismo na França desenvolve leituras próprias ligadas a Galiza.

Durante o desenrolar do século XIX, nós encontramos o celtismo na galiza se desenvolvendo ao lado de um projeto político como na atuação de Antolín Faraldo junto ao provincialismo e mais a frente já no rexionalismo com a figura do historiador Manuel Murguía e do poeta Eduardo Pondal.

Durante o provincialismo, Faraldo nos fornecerá os alicerces do entendimento céltico galego. Veremos a ideia dos celtas como grandes ancestrais galegos e mais do que isso, os celtas galegos como o centro da franja céltica atlântica, como podemos atestar por seus escritos no El Recreo Compostelano em 1842, onde se firma a ideia da Galiza como uma nação celta bem próxima das outras reconhecidamente atlânticas, pois“ os costumes da Irlanda, da Escocia, e ainda Francia, son irmãos dos nossos”[1].

No entanto, o celtismo galego ganha sua principal leitura a partir dos período político do Rexionalismo, onde um grupo de intelectuais dará corpo ao galeguismo por meio do movimento cultural e literário conhecido como o Rexurdimento. Neste período de profícua produção cultural galega que devemos localizar a atuação da cova céltica e em especial as obras de Manuel Murguía e Eduardo Pondal.

Com Murguía nós teremos o celtismo como elemento chave da formação étnica galega e de sua celtitude. Em seus escritos, a Galiza se torna oficialmente celta até mesmo ao se inserir no hino nacional galego como a Nação de Breogán.

Eduardo Pondal será igualmente importante neste projeto. Sua obra versará sobre os mitos celtas e os resignifica pensando em projeto futuro. O próprio conceito poético de resistência céltica galega vem e muito da obra de Pondal que trabalhará os elementos com maestria criando um significado forte entre o celtismo, a espacialidade galega e um projeto que identitário que se pensa resistente.

Não é muito difícil traçar paralelos entre o momento do Rexurdimento e a influência da cova céltica na Galiza, com o revivalismo céltico e a atuação das ligas gaélicas na Irlanda. Em verdade é muito fácil traçar um paralelo contemporâneo entre o trabalho de Murguía e Pondal e o que fez, por exemplo, o nacionalista Patrick Pearse e o poeta W.B.Yeats na Irlanda dada as devidas proporções e conjunturas de cada nação. No entanto, é justamente nesses paralelos históricos entre Irlanda e Galiza que a geração nacionalista pós 1915, a chamada xeración nós trabalhará o celtismo na Galícia afim de legitimar-se.

A Xeración nós, ligadas diretamente com os grupos nacionalistas em defesa da fala galega, as irmandades da fala, se tornará o principal expoente de disseminação do celtismo galego. A Revista nós traçará em diversos de seus números paralelos entre a Irlanda celta e a Galiza e será de vital importância para a formação da ligação cultural no imaginário coletivo galego entre as duas nações enquanto celtas. O Livro das invasões da Irlanda, um manuscrito medieval que fala da formação mítica e celta dos irlandeses, ocupa um papel chave nessas construções e será de grande uso para estes intelectuais que o traduzem para o galego, inclusive.

É neste grupo que destacamos a atuação de Vicente Risco, Ramón Otero Pedrayo e Florentino López Cuevillas não apenas na revista nós, mas em suas obras pessoais repletas de referências ao celtismo galego e o seu paralelo com a Irlanda, bem como sua integração com a cultura norte portuguesa.

Cuevillas fará isso no campo da arqueologia, publicando trabalhos consistentes sobre cultura material galega e evidenciando paralelos óbvios com as demais culturas atlânticas, mas com algumas afirmações tendenciosas. Com o franquismo essas análises perderam a força e com o tempo, foram rejeitadas.

É Otero Pedrayo que dirá abertamente em seu Ensaio Histórico da Cultura Galega que “(…) Irlanda, Cornualles, Gales, Bretaña e Galicia, saudáronse coma irmás oceânicas coa luz de seus faros e a confiança nos seus destinos”. Essa visão acerca do celtismo é a culminância de um desenvolvimento complexo e delicado de construção de uma Memória coletiva céltica que desde o provincialismo e por que não dizer, desde o século XVIII, trabalhará o material céltico galego cada vez mais atrelado a sua distinção da cultura de Madri.

É importante notarmos que a legitimação do celtismo galego é totalmente trabalhada em seu paralelo com as demais nações celtas, em especial a Irlanda. Galiza é como nas palavras de Vicente Risco a “Eirin do Sur” que deseja culturalmente e politicamente que a “estrela inmorrente do celtismo” brilhe sobre ela para que consiga levar seu projeto identitário resistente adiante. Os entraves para que isso ocorra são muitos. O medo de se elaborar teorias racistas ou xenófobas criou uma moda celtófoba entre alguns intelectuais galegos. Este panorama atual do celtismo galego é o que podemos chamar de no mínimo “esquizofrênico” e se mostra mais complexo do que a própria elaboração do celtismo nos últimos séculos.

Isso ocorre porque o Celtismo passa constantemente por uma revalidação de atributos romantizados e utiliza de uma sacralidade geográfica das terras célticas como meio de estimular uma nostalgia estereotipada de algo nobre que foi destruído pela dominação do Outro seja ele oriundo de Madri no caso galego ou de Londres no caso irlandês. O elemento político nacionalista é estruturador do aporte cultural articulador das fronteiras étnicas desde o momento inicial de suas construções nacionais.

Vale lembrar que estas bases étnicas são definidas por fronteiras étnicas célticas que não são, em hipótese algum, restritivas, sobretudo, por conta do papel da cultura que atua como um instrumento definidor étnico altamente mutável.

A prova viva disto é que o celtismo seja na Irlanda ou na Galiza continua em disputa. Suas lutas são fruto do conflito nacional destas populações e, principalmente, do elemento resistente que tanto irlandeses como galegos carregam em suas identidades para aguentar sua subalternização sofrida em diferentes níveis ao longo da História.

Referências

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[1] FARALDO, Antolín. Em “Galicia antes de lainvasión romana”. El RecreoCompostelano, 1842. Pp 72.

Adrián Dios: “A Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza”

Adrián Dios é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de Santiago de Compostela (2012), onde também realizou o Mestrado em Desenvolvimento Econômico e Inovação (2013). Atualmente é doutorando no Departamento de História Econômica da mesma universidade galega. No passado dia 23 de setembro lecionou na UERJ o Seminário Aberto “Galiza. Identidades nacionais e soberania na Europa do século XXI. História e desafios de futuro”.

1.Você esteve morando dois meses em Maringá, no estado do Paraná. Como é para um galego o contato com o português brasileiro?

Em realidade foi muito simples. Após uma primeira semana de adaptação ao sotaque, a capacidade de comunicação é bastante alta. Ademais, a surpresa da imensa maioria de pessoas ao saberem que existe uma língua tão próxima ao português brasileiro, como é o galego, facilitou-me muito a comunicação.

2.Encontrou a situação do Brasil melhor ou pior do que você achava que ia encontrar vindo aqui? Como é visto o Brasil na Galiza?

Muito melhor. Pode ser porque eu vivi na zona sul, mas o nível de vida que achei foi elevado em relação à ideia que se pode ter na Europa da América Latina. Talvez questões como a burocracia deveriam melhorar, mas achei uns bons serviços na Universidade e uma sociedade incrivelmente cosmopolita e muito aberta. Isto último foi uma mudança para mim em relação aos preconceitos que existem na Europa sobre o Brasil, onde só se pensa em samba, calor e praia.

3. O título do seu Seminário inclui a associação entre a Galiza e “identidade nacional”. Sabemos que não é reconhecida assim na Constituição espanhola mas sim o foi pelo IX Congresso de Nacionalidades Europeias no ano 1933. É Galiza uma nação?

Com certeza. A questão não pode resolver-se pelo que diz uma constituição num momento determinado, deve ir além disso. Se tivermos em conta qualquer definição de nação, Galiza se adapta perfeitamente a esses parâmetros, ao ser uma comunidade histórica, cultural, linguística e mesmo socioeconômica diferenciada.

Do mesmo jeito, uma parte importante da sociedade galega se define a sim própria como galega, um elemento fundamental para transitar da ideia de nação em sim, a nação para sim. Com certeza esse sentimento identitário não tem por que entrar em contradição com o sentimento espanhol, que também existe em parte da sociedade galega.

4. Nos últimos meses teve lugar na Escócia um referendo de independência na Catalunya vários partidos políticos, com maioria parlamentária, reclamam também o direito a decidir. Que está acontecendo na Europa nos últimos tempos?

Pois é muito simples, existem nações na Europa que chegaram à conclusão de que precisam ganhar instrumentos soberanos para poder governar-se a si próprias. A Escócia e a Catalunya são os exemplos de mais atualidade, mas esta realidade existe ao longo de todo o continente europeu, com maior ou menor grau de intensidade. Infelizmente, muitos governos e instituições olham isso como um perigo, mas deveria reconhecer-se uma obviedade: não param de se acrescentar novos estados no mundo nas últimas décadas, e estas nações são tão viáveis como o resto e muitas vezes são também o mecanismo de resolução de muitos conflitos em estados onde parte dos seus membros não se sentem reconhecidos.

5. No seu Seminário fez uma análise histórica da perda da soberania da Galícia. A que foi devido esse processo e como tem influenciado na situação atual do país?

Possivelmente a uma mistura de fatores políticos e econômicos.  A história da Galiza tem vezes que é a história de uma derrota continuada. O processo de introdução da administração castelhana no Reino da Galiza deriva da derrota do poder político galego desde a Meseta, o que determinará que a toma de decisões deixará de estar autocentrada.

Quando esta situação aconteceu, o decrescimento econômico e a incapacidade de participar da Revolução Industrial até uma época muito tardia (por incapacidade tecnológica mas também pela toma de decisões econômicas e criação de taxas de alfândega desde o poder político central) provocou uma subordinação cada vez maior da posição da Galiza sobre outros territórios. A ausência de poder político próprio e a ausência de poderes econômicos inevitavelmente leva à desaparição de soberania.

6. Ainda que o sentimento nacional tem aumentado nos últimos anos em lugares como a Catalunya ou a Escócia esse processo não se deu na Galícia. Por que a Galícia se encontra numa situação diferente?

Existe uma diferença fundamental entre a Galiza e a Catalunya: a Galiza não tem uma burguesia nacional própria que atue como burguesia galega. Em quanto a Catalunya sofria um enorme incremento econômico e industrial, a Galiza continuou sendo em boa parte do século XX uma reserva agrária, o que impediu a acumulação de capital próprio. Esta burguesia sim existia na Catalunya, e entendeu que deviam governar-se a sim próprios para melhorar a sua situação.

Não é só governar o poder político como também que exista uma sociedade viva que represente os seus próprios interesses. Só tem que ver o mapa da mídia na Catalunya para ver que existem muitos instrumentos que permitem criar consciência nacional.

7.Quando falamos de soberania parece um tema bem abstrato. Em que mudaria a realidade dos galegos e galegas se a Galiza tivesse soberania?

Primeiramente, e mais importante, poderíamos decidir por nós próprios sobre o nosso. Parece uma abstração, mas isso quer dizer que podemos decidir quanto vamos pagar pela nossa tarifa de luz, ou gerir as nossas autoestradas. Faz sentido que a política pesqueira seja decidida em Madrid que nem tem litoral e que não possamos decidir nós sobre ela? São só alguns exemplos de coisas que se poderiam fazer se tivéssemos soberania, que não é mais que que os galegos e galegas tenham a capacidade de decisão sobre sim próprios. Aliás, a Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza.

8. Como tem influenciado a questão econômica e política na situação atual da língua e da cultura galega? 

Acho que de jeito fundamental. Existe muito auto-ódio em relação ao galego, junto com que a língua de prestígio é o espanhol há muitos séculos. E ser língua de prestígio tem uma relação fundamental com a economia: será a língua usada nas profissões de mais alta qualificação (médicos, advogados ou administração até há poucos anos), em quanto o galego vai-se associar ao rural, aos camponeses e até à falta de recursos. Por isso é tão normal na Galiza encontrar, ainda hoje, crianças que em casa falam galego mas na escola falam espanhol. Aliás, a inexistência de poder político próprio impediu até há pouco tempo qualquer tentativa e recuperação da nossa língua.

9. Nas últimas décadas embora o galego tenha se tornado oficial e tenha entrado em espaços como a televisão ou o a educação, está perdendo falantes. Que acha que se tem feito errado na política linguística e em que se poderia melhorar?

Sem ser um especialista no tema, acho que ainda fica muito por caminhar para a normalização da língua. O galego tem entrado em alguns espaços mas de jeito minoritário, como a televisão. Não temos nenhum jornal em papel na nossa língua atualmente. A situação de desvantagem do galego com o espanhol é evidente em todos os aspetos.

Possivelmente, em primeiro lugar, a política linguística errou em ser incapaz de criar medidas mais contundentes a favor da recuperação da língua. Do mesmo jeito, a sociedade mais ativa não conseguiu debater o discurso da “liberdade linguística” que o único que procurava era a ampliação do espanhol na sociedade, o que restou credibilidade à normalização do galego.

Por outra parte, é necessário reformular certos discursos sobre o galego: o elemento identitário é importante, mas também se deve avançar para a utilidade linguística. Como podemos ver nesta entrevista, com o galego estamos no mundo, e infelizmente muitos galegos e galegas não sabem disso.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

O melhor do Río: A sensação de tomar banho em Copacabana

O pior do Río: a calor (e isso que estive no Brasil no inverno!)

O melhor do Brasil: as pessoas

O pior do Brasil: A burocracia

Um lugar no Rio de Janeiro

O Pão de Açucar

Uma palavra do galego e uma do português brasileiro

Galego: bolboreta (Borboleta no Brasil)

Portugués brasileiro: Beleza

Um desejo para o futuro

Poder viver um dia inteiro exclusivamente na minha língua na Galiza

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Seminário aberto na UERJ: Identidade nacional e soberania na Europa. Galiza, história e desafios de futuro

Na próxima quarta-feira 23 de setembro às 14:20 no Mini-auditório da Pós-graduação do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) terá lugar, organizado pelo Programa de Estudos Galegos (PROEG), o Seminário aberto Galiza. Identidades nacionais e soberania na Europa do século XXI. História e desafios de futuro”, lecionado pelo doutorando em História Econômica pela Universidade de Santiago de Compostela Adrián Dios Vicente.

Adrián Dios é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de Santiago de Compostela (2012), onde também realizou o Mestrado em Desenvolvimento Econômico e Inovação (2013). Atualmente é doutorando no Departamento de História Econômica da mesma universidade galega.

Cartaz Seminário

O reintegracionismo galego : Reflexões acerca das políticas linguísticas da Galiza e sua relação com o Brasil

Nívea Guimarães Doria

Mestra em Letras e estudante de Língua Galega na UERJ 

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho não objetiva esgotar academicamente a questão do reintegracionismo galego à cultura lusófona, tampouco a posicionar-se a favor ou contra tal política linguística. Objetiva, sim, refletir sobre essa questão sob um ponto de vista brasileiro, tanto contemplando argumentos a favor quanto contra, entendendo que o Brasil faz parte dessa comunidade linguística, à qual vários setores da sociedade galega pretende reintegrar-se, sendo o representante dentre os países lusófonos com o maior número de falantes nativos e tendo em consideração que é um fato desconhecido do falante médio do português a existência (ou sobrevivência) de um idioma quem muitas vezes é ensinado nas escolas como uma forma arcaica de sua língua de uso cotidiano.

Com uma metodologia de pesquisa documental via internet, na qual foi pesquisado o termo “língua galega”, ao encontrar vários textos de teor reintegracionista, assim foi determinada a temática. A escolha de uma reflexão sobre as políticas linguísticas galegas, em especial o reintegracionismo, justifica-se tanto pelo contato com a língua e cultura da Galiza há mais de dez anos, como também, uma vez já sendo profissional de Letras, a percepção da relevância da discussão acerca da introdução de mais um membro dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e suas possíveis conseqüências sociopolíticas, culturais e lingüísticas, inclusive para a realidade brasileira.

2 BREVE PANORAMA HISTÓRICO

A Galiza é uma parte da Espanha que, cerca de 6 séculos atrás, constituía um reino independente e cuja língua gozava do prestígio de ser uma língua de cultura e literatura. A poesia lírica medieval ibérica (e europeia de maneira geral) têm seus principais representantes nas cantigas galego-portuguesas. Porém, após a independência do Condado Portucalense, resultando no Reino de Portugal, e uma seqüência de malfadadas alianças políticas dentre reinos da Península Ibérica, com a ascensão dos chamados Reis Católicos (Isabel de Castela e Fernando de Aragão), a Galiza viu-se solapada pelo poderio político e econômico de Castela. Outrora um reino independente agora se via como uma região subordinada ao novo Reino da Espanha. No século XIX, após séculos de domínio político e cultural castelhano, era vista como uma região de um povo pobre e ignorante, cuja língua própria não possuía gramática nem literatura própria, restringindo-se à tradição oral.

O movimento conhecido como Rexurdimento Galego nos fins do século XIX foi responsável por um renascimento tanto da literatura galega quanto pelo surgimento de diferentes correntes ideológicas objetivando a retomada do prestígio cultural galego. Ora, não é de se espantar que, após tantos séculos de opressão e desprestígio, o povo e sua intelectualidade reagissem com um sentimento nacionalista, ainda mais se lembrarmos que o mesmo “fenômeno” vinha ocorrendo por toda a Europa – e até mesmo nas colônias europeias ultramarinas – desde a Revolução Francesa e seus ideais de liberdade, fraternidade e igualdade. Dentre esses movimentos está o celtismo, que busca um passado mitológico para o povo galego vinculado à cultura celta pré-romana. O primeiro livro em galego em muitos séculos, Cantares Gallegos de Rosalía de Castro, é um representante de uma retomada da cultura galega, tendo como modelo os cantares populares e orais ainda ouvidos nos campos.

Contudo, na década de 1930, após a guerra civil espanhola, ascendeu ao poder o General Francisco Franco, que governou ditatorialmente a Espanha nas quatro décadas seguintes. Durante a ditadura franquista, o galego (assim como o catalão e o euskera, idiomas da Catalónia e do Pais Basco) foi proibido de ser ensinado nas escolas e utilizado em repartições públicas, sendo relegado apenas ao uso familiar. A ditadura franquista encontrou seu fim com a morte do general em 1975 e a Espanha passou a ser uma democracia parlamentar, ainda que sua família real ainda seja conhecida e figure em revistas de celebridades. Com o fim da ditadura, Catalúnia, o País Basco e a Galiza retomaram o direito de ter suas línguas reconhecidas como línguas co-oficiais, circunscritas a seus territórios históricos. Com a autonomia reconquistada, tornou-se mister desenvolver as políticas linguísticas necessárias para que o galego reassumisse sua posição de prestígio.

Contudo, ainda hoje, há muita polêmica entre diferentes correntes sobre essa política linguística. O presente trabalho, como dito anteriormente, discute-as, sem a preocupação de posicionar-se a favor ou contra uma ou outra, porém com intuito de refletir sobre elas.

3 AUTONOMISMO/ISOLACIONISMO X REINTEGRACIONISMO/LUSISMO

O que acabou por ser conhecido como língua portuguesa, em sua origem, era apenas uma língua falada desde o norte da Galiza até o Douro. Com a independência de Portugal do Reino da Galiza, devido a motivos políticos, o galaico-português dividiu-se e a língua falada no novo Estado passou a ser chamada de língua portuguesa, enquanto que a falada ao Norte continuou com o nome de língua galega.

Ao retomar o direito de falar sua própria língua, garantido pela Constituição Espanhola, foi dado ao governo autônomo da Galiza – conhecido por Xunta de Galicia– a responsabilidade de fazer com que a língua local passasse de seu até então estado de dialeto ao estado de co-oficialidade. Duas grandes correntes se destacam: a autonomista, que tem respaldo no governo, e a reintegracionista. A autonomista, defendida pela Real Academia Galega (RAG) e pelo Instituto da Língua Galega (ILG), prega o galego como uma língua própria, que possui raízes comuns tanto com o português quanto com o espanhol, ao passo que a reintegracionista postula que galego e português seriam variantes de uma mesma língua.

3.1 Autonomismo

Tem como principais representantes a Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega, responsáveis pela normatização da língua galega padrão nos anos 80. Ambas as instituições estão ligadas ao governo pelas ajudas institucionais e até por algum dos membros da RAG ser membro do governo galego daqueles anos, como Xosé Filgueira Valverde.

A grafia adotada para o galego oficial é notoriamente influenciada pela grafia do castelhano, não se relacionando diretamente com a grafia histórica documentada desde a Era Medieval. Assim sendo, letras tipicamente espanholas como o ñ e o ll são usadas em detrimento dos dígrafos portugueses nh e lh. O próprio léxico aceitou fortes influências castelhanas e passou por neologismos que não tinham em conta formas mais antigas da própria língua, e ainda vivas no português de Portugal e do português do Brasil.

Essa política linguística também é conhecida, em um tom pejorativo dado por seus oposicionistas, como “isolacionismo”. Ao destacar o galego como uma língua circunscrita em seu próprio território, não admite o caráter internacional que ela teria se fosse reconhecida não apenas como tendo origem comum com o português, mas como as duas ainda sendo variantes da mesma língua.

3.2 Reintegracionismo

Defendendo que as línguas galega e portuguesa são uma, essa corrente defende o emprego da ortografia do português padrão, vigente em todos os territórios lusófonos (Portugal, Brasil, países africanos lusofalantes) desde o ano de 2008, através de acordo ortográfico assinado por representantes desses países e do qual a Galiza foi um membro consultivo. Dessa forma, características típicas da língua galega como o emprego de x no lugar de g e j ou a diferenciação entre s e “c/z” seriam consideradas apenas formas particulares de emissão de arquifonemas da língua.

Também reivindica que a Galiza integre a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, sendo, dessa forma, parte de uma comunidade linguística de alcance internacional e compartilhando o idioma com uma das potências econômicas emergentes do século XXI, o Brasil. Essa intenção causa reação por parte de seus opositores, por enxergarem nessa aproximação com outros países, de prestígio na política econômica mundial, um ensaio de um movimento separatista galego. Com essa visão, chamam pejorativamente os reintegracionistas de “lusistas”. Vê-se refletido isso nas tentativas de veicular via TV o acesso a canais de origem lusitana, assim como outros meios de comunicação de massa que abririam portas para que mais falantes de galego pudessem perceber sua língua como a mesma do país vizinho.

4 REFLEXÕES ACERCA DE AMBAS AS VERTENTES

Não há dúvida de que a corrente autonomista, ao isolar o galego de uma língua que lhe é praticamente transparente como o português, acaba por relegá-la a mero dialeto dentro de território espanhol, de maneira a legitimar o sentimento de inferioridade que muitos de seus falantes podem trazer. Por esse motivo, é chamada de “isolacionismo” por seus opositores reintegracionistas. O galego seria uma língua falada por um povo ruralista, ignorante e de um idioma hermético, que pode até ter sua semelhança com outras línguas dos arredores, porém algo que não apenas identifica, como alija seus falantes de um contexto mais internacional.

De tal maneira que o espanhol, uma das línguas de origem europeia com maior número de falantes nativos no mundo e oficial do Estado Espanhol, acabe por se tornar uma melhor opção para que essas pessoas se relacionem pelo mundo. Os Estados Nacionais têm como uma de suas características principais a centralização, a unificação de seu poder e uma maneira de fazê-lo é através de uma língua comum a todos os seus habitantes, muitas vezes havendo apagamento de outras línguas concomitantes e, por isso, por tantos anos o galego foi relegado a um papel secundário dentro de seu próprio território.

A língua portuguesa/galega é intercontinental e de prestígio internacional. Como apontado anteriormente, além de ser uma língua com mais de 240 milhões de falantes nativos por todo mundo, tem a mesma origem e ainda guarda transparência com a língua da Galiza. Aproveitando esta intercomprensão, ao tratar com Portugal, Brasil e países africanos lusófonos, os setores econômicos e políticos galegos não precisariam utilizar-se de intérpretes e tradutores, tendo como código comunicativo escolhido para as transações o idioma galego/português.

Um dos argumentos mais persuasivos da vertente reintegracionista é que, ao assumir o galego como a mesma língua conhecida por portuguesa, o idioma falado em seu território assume um caráter de internacionalidade e prestígio, uma vez que o português é falado pela quinta economia mundial e uma das maiores potências políticas e econômicas emergentes do mundo, no caso, o Brasil. Sendo o português a oitava língua mais falada pela rede mundial de computadores e a terceira em termos de língua europeia em número de falantes. Sob essa perspectiva, empoderar-se-ia e prestigiaria um povo que, por séculos, foi visto e muitas vezes sentiu-se como inferiorizado e falante de uma língua de pouco alcance.

Sob essa perspectiva, empoderar-se-ia e prestigiaria um povo que, por séculos, foi visto e muitas vezes sentiu-se como inferiorizado e falante de uma língua de pouco alcance.

Ao poder tratar diretamente com nações com grande prestígio político e econômico através de uma língua comum, esse território veria sua autonomia controlada expandir-se. O governo espanhol, partidário da vertente autonomista, não vê isso com bons olhos, temendo um movimento separatista, que teria respaldo em uma possível aliança com outros países. Atualmente, o reintegracionismo parece se fazer mais forte, pois uma lei que garante o ensino da língua portuguesa em escolas galegas foi recentemente aprovada (A Lei Paz Andrade), ainda que a maior parte dos políticos com poder de decisão seja do Partido Popular, que tradicionalmente se mantém alinhado ao Estado Espanhol.

Contudo, não se pode deixar de pensar em outra questão: e dentro dessa comunidade linguística de 240 milhões (frente aos 3 milhões residentes na Galiza), a variante galega como seria vista? A maior parte desses milhões de pessoas são brasileiras, cuja taxa de escolaridade média não é tão alta.

Tendo em vista que o povo brasileiro, o maior contingente de falantes da língua galega/portuguesa em todo mundo, pouco conhece os outros países que já são considerados lusófonos além de Portugal e não sente sua língua como prestigiada em todo mundo –ainda que a variante brasileira seja uma das línguas mais procuradas no mundo atualmente a fins de estudo– como receberia os galegos? Se na fala a fonética são o cartão de visita da língua e na escrita sua ortografia, o galego parecer ter sons tão diferentes e uma ortografia oficial também tão distinta, o brasileiro enxergaria o galego como um povo que divide consigo a mesma língua? Mesmo em uma transação oficial, órgãos brasileiros não lançariam mão de um intérprete –não mais de espanhol, mas de galego– durante as negociações, por mais que a Galiza venha a se integrar de fato à Comunidade de Países de Língua Portuguesa?

Estando em contato com a língua e a cultura galega há mais de dez anos e tendo presenciado vários “primeiros encontros” entre brasileiros e essa língua, pude observar que dificilmente um brasileiro que nunca tenha tido contato prévio com o galego –seja escrito, seja oral– consegue identificar essa língua como igual. Apesar de a variante portuguesa da língua diferir foneticamente muito mais da nossa, desde crianças temos algum tipo de contato com comerciantes, atores em novelas ou mesmo imitações em piadas do falar de origem lusitana. Por identificarmos elementos fonéticos parecidos entre o falar da antiga metrópole e aquele dos países africanos, suas também antigas colônias, conseguimos por analogia identificar o português africano como mesma língua.

No entanto, o galego soa aos ouvidos brasileiros leigos em matéria linguística, muitas vezes, como um espanhol (ou até mesmo um portunhol para ouvidos um pouco mais atentos) falado de maneira estranha. Fora de um contexto acadêmico, dificilmente um falante médio do português brasileiro identificaria a fala de um galego como sendo feita na sua língua materna. Um carioca entende um paulista, um pernambucano, um gaúcho, ainda que não identifique umas palavras. Contudo, assim como os lusitanos, temos contatos com esses falares diversos, nem que seja pela TV. O que não ocorre com a variante galega.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como dito de início, este trabalho não se pretendeu fazer uma discussão ou apresentação de dados exaustiva sobre as políticas linguísticas vigentes e antagônicas na Galiza sobre o próprio idioma: o autonomismo e o reintegracionismo. Nosso objetivo era o de apresentá-las e procurar refletir sobre elas.

Ao passo que o autonomismo mostra-se como uma política conservadora, e que quiçá, a médio ou longo prazo poida levar ao apagamento a língua galega– o reintegracionismo prega que galego e português, uma vez mais, sejam vistos como duas variantes de uma mesma língua, essa agora com outras variantes espalhadas por todo o mundo. Essa proposta, embora bastante difundida e coerente, suscita também questionamentos.

Se, por um lado, isso traria uma maior autonomia e independência para a Galiza e prestígio e internacionalidade para a língua falada em seu território, seriam os galego falantes aceitos com facilidade por essa comunidade linguística à qual procuram se reintegrar? Apesar da fama de hospitaleiros, em relação ao próprio idioma, os brasileiros têm uma postura de menosprezá-lo e um tanto preconceituosa acerca de falares diferentes do seu. Como detentor do maior número de pessoas lusófonas, isso não poderia acarretar numa visão inferiorizada dos galegos dentro da CPLP? Do ponto de vista da Galiza, embora vários setores da sociedade já procurem se integrar à ortografia oficial do português, não seria uma política de médio a longo prazo mudar a maneira como as pessoas escrevem seu idioma pátrio ou mesmo realfabetizar aqueles que não tiveram acesso ao processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa?

São várias as questões possíveis, como as apresentadas e outras que já são e estão a serem feitas, mas que apenas poderão ser respondidas com a tentativa de levar adiante o proposto pelos reintegracionistas e com planos de ação para que isso seja feito. Deve-se pensar, também, se é tão necessário que a ortografia mude muito para o padrão português ou se não seria melhor a incorporação das idiossincrasias galegas à grafia da língua padrão da Galiza. Particularmente, posiciono-me contra o Acordo Ortográfico da CPLP, pois mesmo com as ortografias de outrora, os países lusófonos ainda se reconheciam como compartilhadores da mesma língua, apesar das especificidades de cada região. Tal acordo apenas mascara as diferenças e não reflete a realidade linguística de cada comunidade de fala da língua galega/portuguesa.

REFERÊNCIAS

ÁLVAREZ CÁCCAMO, C. Contra a normalización: Reconhecimento cultural e redistribuição económica sob a dominação lingüística. Agália Publicaçom Internacional da Associaçom Galega da Língua. Números 73-74. Ourense, Galiza, 2003. Disponível em: http://kit.consellodacultura.gal/web/uploads/adxuntos/arquivo/52528987e18f6-biblioavanzada5.pdf Acesso em 20 jun 2015.

LÓPEZ-IGLESIAS SAMARTIN, R. Língua somos: A construção da ideia de língua e da identidade coletiva na Galiza (pré-)constitucional. Novas achegas ao estudo da cultura galega II. Enfoques socio-históricos e lingüístico-literarios. Universidade da Corunha, 2012, p. 27-35. Disponível em: http://ruc.udc.es/dspace/bitstream/2183/13253/1/CC-128_art_3.pdf. Acesso em 22 jun 2015.

MALVAR FERNÁNDEZ, Paulo. Autonomismo vs Reintegracionismo Um conflito normativo visto desde a Analise Critica do Discurso Especializado. Agália Publicaçom Internacional da Associaçom Galega da Língua. Números 91/92. Ourense, Galiza, 2007. Disponível em: http://paulomalvar.net/autonomismo-vs-reintegracio.pdf e http://www.agalia.net/images/recursos/91-92.pdf . Acesso em 21 jun 2015.

PORTAL GALEGO DA LINGUA. Miguel Rodríguez Fernández: “É fundamental introduzir o português como língua de estudo no ensino, já agora, desde crianças”. Galiza, 09 mai 2014. Disponível em: http://pgl.gal/miguel-rodriguez-fernandez-e-fundamental-introduzir-o-portugues-como-lingua-de-estudo-no-ensino-ja-agora-desde-criancas/ Acesso em 02/06/2015.

SANTANA, C de M. A dicotomia das perspectivas autonomistas e reintegracionistas do galego e suas projeções internacionais. 2014. 54f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais)- Universidade Estadual da Paraíba, João Pessoa, 2014. Disponível em: http://dspace.bc.uepb.edu.br:8080/jspui/bitstream/123456789/4449/1/PDF_-_Clayton_de_Medeiros_Santana.pdf . Acesso em 22 jun 2015.