A dama galega que no medievo se tornou lenda: considerações sobre as origens de Inês de Castro

Bárbara Cecília Kreischer

Doutoranda em Estudos da Literatura na Universidade Federal Fluminense

Inês tomou conta das nossas almas. Liberta-se do casulo carnal, transforma-se em luz, em labaredas, em nascente viva. Entra nas vozes, nos lugares. Nada é tão incorruptível como a sua morte.

Herberto Helder, Teorema

Falar de Inês de Castro é, sobretudo, adentrar pela tradição literária portuguesa. Tema abordado ao longo de mais de seiscentos anos, esta personagem passa da história à literatura, onde se cristaliza de maneiras diversas até a contemporaneidade. De origem galega, Inês deixou aos historiadores a dúvida de suas intenções ao trono português, que no século XIV passava por momentos de tensão política com Castela, e, na literatura, a certeza de que as narrativas dos amores impossíveis tocam o público e ganham repercussão. Este artigo pretende apresentar fatos históricos pontuais quanto à origem de Inês de Castro e destacar a origem da personagem apontada no romance contemporâneo Minha Querida Inês, de Margarida Rebelo Pinto, de 2011. 

O reinado de Afonso IV: Inês de Castro histórica

É no reinado de D. Afonso IV (1325- 1357) que se situa o episódio de Inês de Castro. Governo conturbado, marcado não só por conflitos, mas também pela peste negra, que assolava a Europa na baixa idade média[1]. É importante destacar que Afonso IV rivalizava a preferência do pai ao filho bastardo Afonso Sanches. Isso resultou numa disputa de poder entre os meio-irmãos, ocasião em que Afonso IV saiu vitorioso. Também eram constantes a iminência da ocupação islâmica na Península Ibérica e as desavenças políticas entre Portugal e Castela. Desta maneira, a prática de casamentos entre tais reinos era praticada como aliança política, garantia de que nem Portugal, nem Castela quebrariam acordos de paz ou acordos em que o propósito fosse expulsar os árabes da Península Ibérica.

A fim de cessar os conflitos, em meados de 1339, os dois reinos assinaram acordo de paz em Sevilha, em que se decidiu o casamento entre o filho de Afonso IV, D. Pedro I, e de uma nobre castelhana, D. Constança Manuel, de família influente na corte espanhola. O acordo selou os frágeis laços políticos entre Portugal e Espanha.

É neste momento que a dama galega é levada para a corte portuguesa: “Inês veio para Portugal em 1340, acompanhando a infanta D. Constança. Porventura predileta, foi madrinha de seu primeiro filho, D. Luís, que não vingou (1341)” [2]. Segundo a tradição, Pedro e Inês se envolveram em um caso amoroso e Afonso IV mandou-a para o exílio em Albuquerque, o que não teria impedido o casal de cultivar a relação. Inês lá permaneceu até a morte de Constança, em 1349, quando Pedro mandou trazê-la de volta, passando ela a viver como sua mulher, contudo, sem oficializar a união.

Entre 1349 e 1355, nasceram quatro filhos (um deles precocemente morto), o que, segundo historiadores, teria causado o temor em Afonso IV de que a influência de Inês já havia atingido seu ápice: a possibilidade de filhos ilegítimos reclamarem o trono português, como fora o caso dos impasses e disputas do mesmo trono, anos antes, entre D. Afonso IV, filho legítimo de D. Dinis e D. Isabel, e seu meio-irmão, D. Afonso Sanches, ilegítimo. Outra vez D. Afonso se viu em conflito contra herdeiros fora de uniões matrimoniais oficiais. Desta maneira, delineia-se a pergunta: quais razões teriam levado o rei a executar Inês de Castro?

As origens de Inês de Castro: fato e ficção

Pouco se sabe sobre Inês de Castro no âmbito histórico. Aquilo que se conta e o que a literatura se encarregou de consagrar como lírico faz parte da ficção e do imaginário que cerca o tema. O há documentado, segundo Oliveira Marques, é que “Inés Perez de Castro era filha de D. Pedro Fernández de Castro, dito da guerra, grande senhor galego, camareiro-mor de Afonso XI de Castela e primo direito de (…) D. Pedro I, e de uma dama de nome Aldonza Suárez de Valadares.” Cabe destacar também a ilegitimidade da ascendência de Inês.[3] Seu pai a entregou ao seu primo, senhor de Albuquerque, D. Afonso Sanches, meio-irmão de Afonso IV, de Portugal, e sua esposa, Teresa de Albuquerque, a fim de que educassem a jovem Inês. [4] O esquema a seguir ilustra com mais clareza os vínculos de sangue entre os Castro e a casa portuguesa:

Cabe destacar que entre 1320 e 1324 Afonso IV e Afonso Sanches se envolveram na mencionada disputa do trono português. Para a desventura de Inês, além do grau de parentesco entre ela e Pedro, havia também o dissabor do vínculo da dama com o pai adotivo. Em tempos de conflitos, o apoio de famílias nobres, como o caso dos Castro, Albuquerque e Manuel, (ambas de origem castelhana e portuguesa) oscilava segundo os interesses pessoais vigentes: numa destas disputas, mais precisamente a do trono português, os Castro se opuseram a Afonso IV, ocasião em que apoiaram Afonso Sanches, filho ilegítimo de D. Dinis, dado que “a defesa que Afonso IV e seus partidários fizeram em favor do seu coroamento era baseada na noção de legitimidade real, afinal, era filho do rei e da rainha de Portugal” [5]. Os Castro apoiaram o lado derrotado da disputa, criando mal-estar com a casa de Afonso IV.

Assim, a ascendência biológica e adotiva de Inês de Castro explica alguns fatores para a sua execução. Segundo Antonio José Saraiva:

O rei D. Afonso, pai de D.Pedro, que contrariava os amores adúlteros e incestuosos do filho com a fidalga galega, expulsou-a de Portugal. Ela acolheu-se no Castelo de Albuquerque, perto da fronteira portuguesa, em asa de D. Teresa de Albuquerque, sua mãe adoptiva, viúva de um filho de D. Dinis [6].

Com o passar do tempo, Constança morreu ao dar à luz D. Fernando, ocasião em que Inês voltou para Portugal. É importante destacar que sua execução não ocorreu de imediato, pois a dama galega viveu nos paços reais entre os anos de 1349 e 1355, intervalo de tempo em que nasceram os filhos D. João, D. Dinis, D. Beatriz, filhos estes que viveram nas cortes portuguesas até o reinado de seu meio-irmão, o rei D. Fernando.

O ponto alto dos estudos inesianos aponta que a “importância de Inês de Castro reside na sua morte”, [7] em 7 de janeiro de 1355, por degolação. Segundo o livro de Noa de Santa Cruz de Coimbra, está registrada degolação de Inês de Castro, constando que “decolatafuit Dona Enes per mandatumdominis Regis Alfonsiiiij”[8].

Sobre a morte de Inês de Castro, em documentos do século XVI, o fato é escrito sob a ótica dos problemas causados no cenário político: um conflito armado do filho contra Afonso IV. Por seis meses, Pedro guerreou contra o pai, revoltado com o assassinato de sua concubina.

Mais tarde, ao assumir o trono Português, Pedro quebrou o pacto fixado. Numa troca de refugiados políticos, conseguiu negociar com Castela a entrega dos fidalgos, os supostos responsáveis Pero Coelho e Álvaro Gonçalves por instigar em D. Afonso IV a decisão de executar Inês de Castro. Isso se verifica nas crônicas de Fernão Lopes e na crônica do espanhol Pedro Lopez Ayalla[9], que também faz referência à troca de refugiados políticos, feita entre D. Pedro de Portugal e D. Pedro de Castela.

Pedro executou os fidalgos em praça pública e mandou construir um túmulo para ele e Inês, no Mosteiro da Alcobaça: verdadeiras obras de arte que, resistido ao tempo e aos ataques napoleônicos, podem ser visitadas ainda hoje. Ordenada a vingança, D. Pedro promoveu um rito de trasladação dos restos mortais da amada, ocasião em que a coroou rainha post-mortem. A cerimônia, segundo Maria do Amparo Maleval, seria a “própria santificação da Castro”[10].

Em pouco tempo, a desastrosa sorte dos amores de Pedro e Inês ficaria conhecida. A comoção que o episódio promoveu, sem dúvidas, abriu precedente para que a literatura e a tradição oral se encarregassem de consagrar: um episódio que não possuiu nada de lírico passa a ser motivo de inspiração artística de diversos campos da Arte, sobretudo da literatura. As obras castelhanas renascentistas que tratam do episódio de Inês de Castro se ocuparam mais da cena da coroação e na ação, pois viram nela um espetáculo que foi explorado pelos autores; as obras portuguesas que se ocuparam do lirismo e até evitaram falar da coroação post mortem, privilegiaram os temas da “saudade, amor, melancolia e partida”[11]. Ao rivalizar com histórias como a de Tristão e Isolda, o episódio inesiano supera a própria morte: neles, o símbolo do amor irrealizado, criou a lenda até hoje ecoada em Portugal. Ruas, lugares, estabelecimentos e roteiros turísticos recebem o nome dos amantes ecoado através dos tempos.

Cristalizada na literatura portuguesa, Inês de Castro tema da Crônica de Dom Pedro, de Fernão Lopes, tem seu primeiro registro com ares artísticos, de trovas reunidas n’O Cancioneiro Geral, n’Os Lusíadas, de Camões:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.[12]

Também dramatizada em A Castro, entoada por Bocage e Miguel Torga, chega à produção literária contemporânea subvertida pelas lentes de Herberto Helder, em Os passos em volta e Adivinhas de Pedro e Inês, de Agustina Bessa-Luís. Em 2011 foi retomada no romance histórico Minha Querida Inês, de Margarida Rebelo Pinto. Neste último, pode-se observar como a ideia de identidade galega da personagem é reiterada por vezes na trama. Um indício da cristalização da lenda com pontos históricos?

Numa breve análise da leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto, pode-se observar referências à Galícia com certa frequência. O livro, dividido em sete partes, conta com a principal voz narrativa de Inês – entrecortada por outras personagens – , que remonta ao seu passado de bastardia, confirmado pelos dados históricos e pela afeição cultural entre Portugal e Galícia. Trechos como o destacado a seguir apontam para tal aspecto:

O meu pai, D. Pedro Fernández de Castro, chamado
O da Guerra, era filho de Violante Sánchez de Ucero, filha
de D. Maria Afonso de Ucero, que fora amante de D. Sancho
IV de Castela. É certo que descendo de bastardos, mas nem
por isso me envergonho da minha linhagem, pois meu avô foi
um grande senhor da Galiza. E meu pai deu ao mundo quatro
Castro, meus dois meios-irmãos, Fernando e a bela Joana, e,
do lado de minha mãe, Aldonça Soares de Valadares, Álvaro e
eu. Sou, portanto, uma dupla bastarda. (…) [13]

Cabe reiterar que, historicamente, o apoio dos Castro oscilava entre Portugal e Castela: a posição política dependeria dos interesses em jogo, fato frequente entre famílias nobres que, por vezes, se viam ameaçadas pelas questões da perda de prestígio nas cortes portuguesa e castelhana. Tal prática é sugerida no romance pela própria Inês quando discorre sobre questões políticas e conclui que “Os galegos sempre foram muito mais próximos dos portugueses do que os castelhanos” [14]. Seria esta uma associação entre as duas culturas, que trazem entre si aspectos linguísticos, que se pode observar nas cantigas trovadorescas, sobretudo nas de amigo, e que Margarida Rebelo Pinto aponta como herança.

A autora recorre aos fatos históricos para prender a atenção do leitor, mistura de fato e ficção, dada a evidente afinidade da língua galega com o português; sai do senso comum que há acerca dos aspectos comuns entre o espanhol e o português. A autora incumbe Inês de Castro deste elo lírico e heróico entre os dois reinos. Mais que isso: Inês é a força herdada da ascendência que faz o amor brotar corajosamente. Não recua diante da ameaça, não teme a ira do rei português, assim como seu pai, que enfrentara os portugueses no passado.

O final da obra será o esperado: o assassinato de Inês e o envolvimento posterior de Pedro com Teresa Galega, dama de companhia de Inês, apaixonada por Pedro. Ao final do romance, é sugerido que a mãe de D. Avis – filho ilegítimo de Pedro que assumiu o trono depois de D. Fernando – fosse também uma galega. Seria inevitável o rei se deixar seduzir por mulheres galegas? Fica evidente no romance de Margarida Rebelo Pinto uma espécie de empoderamento destas mulheres – sobretudo de Inês de Castro – que, censuradas pelo patriarcado, conseguem de maneira silenciosa serem as forças motrizes que transformaram os rumos políticos e o destino de Portugal. A Teresa coube-lhe o esquecimento histórico não sem antes gerar um filho que mudaria a história portuguesa; a Inês, a lenda dos amores contrariados.

Por fim, o episódio de Inês de Castro é a prova de que uma personagem visitada na literatura carrega em si traços fortes da historicidade. É quase impossível dissociar fato e ficção dos aspectos inesianos trabalhados e retomados por poetas e artistas ao longo de mais de seiscentos anos.

Referências

BESSA-LUÍS, A. Adivinhas de Pedro e Inês. Lisboa: Guimarães Editores, 1983.

CAMÕES, L. V. Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM, 2003.

FUNDAÇÃO CALLOUSTE GULBENKIAN. História e Antologia da Literatura Portuguesa- Século XV. Série Halp, n.5. Lisboa: Codex, 1998.

HELDER,H. Os passos em volta. 2ª ed. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2010.

LOPES,F. Crónica do Senhor Rei Dom Pedro oitavo rei destes regnos. 2ª ed. Porto: Livraria Civilização, 1979.

LOPES, O. ; SARAIVA, J. História Ilustrada das grandes literaturas. Lisboa: Estúdios Cor, 1966.

MALEVAL, M. A. T. Rastros de Eva no Imaginário Ibérico. Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 1995.

MARINHO, M. F. O romance histórico em Portugal. Disponível em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2617.pdf

MEGIANI, A.P.T; SAMPAIO, J.P (Org.). Inês de Castro: a época e a memória. São Paulo: Alameda, 2008.

MONGELLI, L.M.M.; MALEVAL, M.A.T.; VIEIRA, Y. F. A Literatura Portuguesa em Perspectiva. Dir. Massaud Moisés. São Paulo: Atlas, 1992.

OLIVEIRA MARQUES, A. H. História de Portugal: das origens ao Renascimento. 13ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1997.

PINTO, M. Minha Querida Inês. Clube do Autor: Lisboa, 2011.

SARAIVA, J. O crepúsculo da Idade Média em Portugal.Gradiva: Lisboa: 1995.

SOUSA, M. L. M. Inês de Castro: um tema português na Europa. 2ª ed. Lisboa: ACD Editores, 2005.

 

[1] MARQUES, O. História de Portugal, v. 1, p. 206.

[2]Idem , p. 205.

[3] Segundo o historiador Oliveira Marques, Pedro Fernández de Castro era casado com uma senhora de nome D. Beatriz.

[4] SALES, M. Vínculos políticos luso-castelhanos no século XIV. In: Inês de Castro: a época e a memória., p.21.

[5] Ibid., p.21.

[6]SARAIVA, A. J..O crepúsculo da Idade Média em Portugal, p.48.

[7] SOUSA, M. L. Inês de Castro: um tema português na Europa,p.15.

[8] Apud SOUSA, p.15.

[9] SOUSA, M. L. Inês de Castro: um tema português na Europa, p. 56.

[10] MALEVAL, M. A.. Rastros de Eva no imaginário ibérico, p.104.

[11] SOUSA, M. L. Inês de Castro: um tema português na Europa, p.58

[12] CAMÕES, Canto III, estância 120.

[13] PINTO, 2001, P.135.

[14] Idem, p.138

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