Os galegos à mesa em Salvador

Fabiana Viana

Doutoranda em Antropologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Há importantes pesquisas sobre a chegada e adaptação dos primeiros imigrantes galegos em Salvador nas Ciências Sociais, destacando aquelas realizadas por Jeferson Bacelar, Célia Maria Leal Braga e Maria del Rosário Suárez Albán, que além de lingüista, escreveu artigos sobre o cotidiano dos galegos na Bahia enfatizando aspectos sócio-culturais.

Apesar destes trabalhos, pouco se fala sobre a imigração galega para a Bahia e o cotidiano dos imigrantes e seus descentes a partir da segunda metade do século XX, e esta quantidade se torna ainda menor quando consideramos o século XXI. Não obstante este número reduzido de pesquisas publicadas sobre a presença galega em Salvador há o agravante de não haver qualquer trabalho, no âmbito da antropologia, que aborde a alimentação dos imigrantes galegos e seus descendentes na capital baiana, sobretudo na contemporaneidade.

O imigrante galego ao sair de sua terra natal e se fixar no Brasil é proclamado por seus pares galegos como “brasileiros”, ao mesmo tempo em que é visto e categorizado pelos cidadãos brasileiros como “galegos”, assim, ele se encontra em uma situação limítrofe entre ser galego e ser brasileiro, preservando marcadores identitários da Galícia no Brasil, e, simultaneamente, diferenciando-se dos pares galegos que permanecem nas aldeias, por reproduzirem, consciente ou inconscientemente, costumes e práticas brasileiros.

A segunda geração, já nascida em Salvador, recebe dupla formação. Pois os filhos dos imigrantes galegos simultaneamente comungam da cultura galega no âmbito doméstico, principalmente através dos pais, e são inseridos na cultura brasileira, sobretudo através de instituições sociais públicas e amigos. A partir da terceira geração, a cultura brasileira predomina, mas os traços da cultura galega não são completamente esquecidos, principalmente através das associações galegas e nas comemorações e convívio familiares, tais como nas refeições, principalmente as festivas, celebradas em família.

As associações fundadas e mantidas por galegos em Salvador durante os séculos XIX e XX buscavam promover a sociabilidade entre os pares, a formação das redes – importantes para relações comerciais e matrimoniais – e o auxílio mútuo entre os conterrâneos durante este período. Algumas destas já não existem mais, outras foram submetidas a mudanças para se manterem.

No entanto, ainda é possível identificar associações galegas em Salvador que se mantém ativas no objetivo de manter a cultura galega na Bahia. Elas celebram festas de caráter cultural e religioso para o grupo galego e, na maioria destas celebrações, são oferecidas comidas e bebidas que estabelecem vínculo afetivo e mnêmico ao grupo.

As comidas de festas se diferenciam das comidas cotidianas. Enquanto a cozinha galega – através dos callos, das empanadas e dos cocidos – está mais presente nas ocasiões festivas ou quando há maior quantidade de comensais na mesa, no dia-a-dia dos galegos e descendentes em Salvador predomina a cozinha brasileira tradicional, com a famosa tríade feijão-arroz-carne, seguindo-se inclusive o horário para as tomadas de refeições usuais na sociedade brasileira, entre 12:00 horas e 13:00 horas normalmente. A cozinha baiana também é servida em momentos pré-estabelecidos, muitas vezes com vínculo religioso, tal como a Sexta-feira da Paixão, onde é comum a oferta de caruru, vatapá e moquecas nas mesas em Salvador.

A adição de ingredientes tipicamente brasileiros nas receitas galegas dos imigrantes que estabeleceram moradia em Salvador e seus descendentes que já nasceram aqui, incluindo em seus pratos-totem, indica a existência de uma “mestiçagem gastronômica” entre este grupo étnico na capital baiana. A mestiçagem gastronômica refere-se às contínuas alterações (adição, substituição e suprimento de ingredientes) que ocorrem nas receitas originais quando preparadas em outros locais.

Os ensinamentos gastronômicos podem ser transmitidos através das gerações de distintas formas, podendo acontecer através do ensinamento de mães para filhos, a partir de trocas entre os pares, ou ainda por aulas ministradas por chefes de cozinha ou experientes cozinheiros em cursos de culinária temáticos promovidos por associações e instituições hipano-galegas em Salvador. Os livros de receitas e os sites disponíveis na internet também são alternativas atuais.

A alimentação não é fixa, ela se renova a todos os momentos. A escolha do menu, a eleição e a substituição dos ingredientes, a forma de preparo, os meios de armazenamento e descarte e a presença dos comensais ao redor da mesa vão além da ideia primordial de nutrição e manutenção do corpo e se diferenciam a partir das gerações; enquanto a primeira geração possui maior vínculo com o lar, principalmente as mulheres, a partir da segunda observou-se menor índice de dedicação exclusiva ao ambiente doméstico, aliando a atividade doméstica ao mercado de trabalho. A terceira geração, e as seguintes, apresentaram-se mais resistentes aos ensinamentos gastronômicos e mais adeptas a novos alimentos e formas de consumo.

[Entrevista] Bernardo Portes, galego candidato a vereador em Teresópolis (RJ)

Bernando Portes tem 25 anos. Nasceu em Minho, concelho de Betanzos, e morou vários anos na cidade da Corunha. Com 12 anos foi viver ao Brasil, a Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro, onde continua morando na atualidade.

Olá Bernardo. Você chegou ao Brasil muito novinho, com apenas 12 anos. Como foi o processo de adaptação? São as realidades galega e brasileira muito diferentes para um adolescente?

As realidades são muito diferentes, pois aquí você repara a diferença social na hora. Em Galicia não dava muito para reparar.

Teresópolis é uma cidade bastante desconhecida na Galiza. Que poderia destacar da sua cidade para quem não a conhecer?

Teresópolis e uma cidade muito bonita pela natureza ao seu redor. Também se destaca um montanha com um dedo, aqui se chama Dedo de Deus. Muito bonito.

Há muitos galegos emigrados em Teresópolis e no estado do Rio de Janeiro?

Sim existe uma grande colonia , os galegos foram quem fundaram os clubes Casa de España, hoje esta colonia esta bem envelhecida, isso acontece.

Nestes doze anos que leva morando no Brasil tem também viajado à Galiza. Percebeu muitas diferenças da Galiza de há mais de uma década à Galiza atual?

Sim, percebi que o povo galego esta mais sofrido ainda, dói o coração ao vê-los assim. Mas em breve espero retornar e ver um povo mais alegre.

Com respeito à língua. Que vantagens tem um galego na hora de se adaptar à língua falada no Brasil?

Te facilita um pouco, no entendimento e na escrita. Além de que o galego ajudou a criar o idioma (Português). Galicia me ajudou a ver e compreender o mundo de outro jeito, do trabalho com caráter, ser honesto, etc.

Agora você se candidata a vereador da sua cidade, Teresópolis, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Por que acha necessário que os jovens se envolvam em questões políticas? Que labor pode fazer uma pessoa jovem como você como vereador na sua localidade?

Entendi que lançando minha candidatura iria dar ao povo da cidade mais opções e oxigenar uma política ultrapassada. O jovem tem que tomar as rédeas para que o futuro dele e do país estejam em sintonia e avançar o país com políticas novas.

Para quem não vivemos na atualidade no Brasil é difícil compreender o que está acontecendo em seu país com o impeachment à presidenta Dilma e a chegada ao poder de Temer. Poderia explicar-nos brevemente que é o que está acontecendo?

A Presidenta Dilma foi afastada por não fazer a política antiga do país, que era entrar na roubalheira da maioria como o Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que extorquia o governo dela. Ela nunca aceitou que ele fizesse o que queria com isso pediu para o partido votar a favor de remover o mandato dele. Ele por vingança aceitou um pedido sem ter condições de acusar alguém sem ser culpada. Com Isso o GOLPE foi adiante. Temer é a pessoa que vai acabar com leis trabalhistas, que já acabou com os programas sociais, como o estudante ir para o estrangeiro, ou programa de alfabetização etc… Temer representa a burguesia entreguista dos bens naturais e empresas nacionais.

Você acompanha também a realidade política galega. Como bem deve saber, o próximo 25 de setembro vãi ter eleições ao parlamento da Galiza. Como se percebe desde fora a situação política galega? Se atreveria a fazer uma predição do que pode acontecer?

Gostaria que o Leiceaga vencesse a eleição mas sei que difícil, acredito que o PSdeG e Em Marea venham a fazer uma força em conjunto contra o PP, mas este partido é forte na Galiza. Venho pedir ao povo galego que vote na esquerda.

Depois de já tantos anos fora, tem vontade de voltar à Galiza ou já é mais brasileiro do que galego?

A vontade existe, mas agora a vida não me leva para aí. Espero um dia voltar. E ver um jogo do Dépor no Riazor. Poder ver a terra que me formou para minha vida, Galiza fará e faz parte da minha história.

Para os galegos que não conheçam o Brasil, poderia recomendar-nos alguma banda musical, algum livro ou algum filme?

Em vez de um livro recomendo um escritor. Paulo Freire. Dois cantores: Chico Buarque e Gonzaguinha. Dois filmes históricos deste país: Olga e Getúlio.

Palestra na UERJ: Aproximação à antroponímia galega do s. XVIII até hoje

A próxima segunda-feira dia 12 terá lugar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro a palestra Breve aproximação à antroponímia galega do século XVIII até hoje ministrada pelo doutorando em linguística da Universidade de Santiago Guillermo Vidal.

A atividade acontecerá no Miniauditório da Pós-graduação do Instituto de Letras às 12:00 horas.

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Guillermo Vidal é graduado em Letras Galego pela Universidade de Santiago de Compostela. Fez  o Mestrado de professorado de ensino de língua e literatura galega pela Universidade da Coruña. Foi professor de práticas no curso Galego sen fronteiras 2015 organizado pela Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega. Atualmente faz o seu doutorado no programa de Linguística da Universidade de Santiago de Compostela, sendo a onomástica a parte central da sua pesquisa.

O amigo Delmiro: Uma análise da “visão do outro” no conto de Gonzalo Navaza

Tiago Correia

Aluno de Lingua e Cultura Galega na Universidade Federal da Bahia

RESUMO: O artigo busca analisar a narrativa “O amigo Delmiro” presente em “Erros e Tánatos” (2002), de Gonzalo Navaza, tendo como principal base teórica Homi. K. Bhabha e o seu conceito sobre a construção da visão do outro. A análise problematiza o conto a partir da ideia de estereótipo construído pelo colonizador. E assim, tenta diagnosticar de que forma ele se manifesta e o quanto nos encaminha a fazer pré-julgamentos de sujeitos.

INTRODUÇÃO

Minha proposta é apresentar e problematizar o conto, O amigo Delmiro, que compõe o livro, Erros e Tánatos, do escritor galego Gonzalo Navaza. Pretendo desenvolver e articular a discussão da narrativa a partir da visão do outro. Entretanto, não me abstenho dos desvios que possa acontecer ao longo do desenvolvimento das questões pensadas, como afirma Barthes (1973), o prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.

Mas, antes de qualquer levantamento sobre os aspectos da literatura presentes no texto literário, entendo como de grande importância situar quem é o autor do conto e o lugar em que se passa a narrativa.

O AUTOR

Gonzalo Ramón Navaza Blanco, nascido na cidade de Lalín no dia 28 de fevereiro do ano de 1957. É um escritor contemporâneo premiado, que tem sua obra literária passeando por diversos gêneros, cito-os: Poesia, Narrativa, Ensaios e Tradução. Atualmente, é professor titular de literatura na Universidade de Vigo.

 O CONTO

O conto – O amigo Delmiro – acontece na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Entre as capitais do nordeste brasileiro, é a maior delas e a terceira de todo o território nacional. Localiza-se em uma península pequena, em formato de triângulo, separando a Baía de Todos os Santos das águas abertas do Oceano atlântico.

A cidade é conhecida mundialmente por sua beleza tropical, pela arquitetura do período da colonização e pela culinária que sofreu influências dos portugueses e dos negros africanos escravizados. Além disso, possui praias famosas como as do Porto da Barra, Rio Vermelho, Ondina e a de Itapuã que serviu de inspiração aos músicos e poetas Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes.

O soteropolitano é um povo conhecido por ser acolhedor e hospitaleiro. Muitos dos que desembarcam na cidade pela primeira vez, ao se sentirem acolhidos, quase sempre escolhem regressar para visitá-la novamente, como quem visita um amigo ou familiar, enquanto, outros, escolhem morar em definitivo, como afirmar Júlia Kristeva, a partir do momento em que os estrangeiros têm uma atitude ou uma paixão, eles fixam raízes.

Antes de o conto ser iniciado, aparecem no texto em epígrafe dois versos da música O Quereres do cantor e compositor baiano Caetano Veloso. Os versos são: Onde queres revólver sou coqueiro / e onde queres dinheiro sou paixão. Os dois trechos da música recepcionam o leitor antes de iniciar a leitura do conto, e através das figuras de linguagem presentes, os versos antedizem o que podemos esperar no decorrer da leitura da narrativa. Em síntese, aparecem nos versos, violência e passividade em oposição. Um leitor atento ao que antecede o texto poderá iniciá-lo, esperando ao que porventura o pré-texto disse.

O ESTEREÓTIPO

Um dos aspectos que busco problematizar e apresentar neste artigo é de como o estereótipo influencia em determinadas atitudes e na criação de imagens que são consideradas como modelo. A relação de poder e saber terá grande influência na recepção e realização do estereótipo, uma vez que, saber e poder estarão vinculados a um grupo minoritário, mas que exerce fortes influências diante da maioria, quase sempre desinformada e subalternizada.

A zona conflituosa da narrativa em – O amigo Delmiro – é alimentada a partir dos estereótipos aos quais fomos submetidos a internalizar e ter como verdade. Percebemos a força deste ponto, quando buscamos desconstruir os estereótipos e vemos que vestígios das ideias conservadoras ainda nos atravessam.

A atitude do senhor Antonio Castro, em ir caminhar na praia, não se encaixa ao padrão dos que caminhavam na orla da cidade “Saía de casa a media manã, sombreiro de palla algo ladeado e cana e despreocupado pola avenida adiante, satisfeito do bem que respondían as pernas e de súa imaxe de vello mozo com seus desportivos brancos.”, e ele tem consciência da imagem a que está relacionado. Após caminhar na orla, o senhor Antonio Castro refugia-se na sombra duma das barracas da praia da barra para ler, comer e beber alguma coisa.

Este lugar – a sombra duma barraca da praia da barra – em que o senhor Antonio Castro busca para descansar ao final da caminhada, é muito mais próximo do lugar em que a sociedade relaciona a uma pessoa idosa.

Neste contexto, existe o que chamarei de (des)pintura do quadro social a que se insere vários grupos da sociedade. Um paradoxo, ao qual entendo como uma tentativa de não relacionar um sujeito a uma única imagem, mas que existe uma pluralidade que os sujeitos podem exercer.

Os filhos e os netos do senhor Antonio Castro não ficavam tranquilos com suas saídas para caminhar na orla da cidade. Consideravam que ele, o idoso, seria um tipo fácil de isca para pessoas de má índole se aproveitar. Pois aos idosos estão ligados a adjetivos que os classificam como sujeitos de pouca força física e incompetência numa reação rápida de autodefesa. Estes estereótipos subalternizam a condição da pessoa de mais idade diante das outras e o impedem de praticar inúmeras atividades comumente exercidas por pessoas mais jovens.

Em uma classificação preliminar Homi K. Bhabha nos traz o seguinte:

[…]   o estereótipo   é um modo de representação complexo, ambivalente e contraditório, ansioso na mesma proporção em que é afirmativo, exigindo não apenas que ampliemos nossos objetivos críticos e políticos mas que mudemos o próprio objeto da análise. (BHABHA, 1998, p. 110).

O narrador busca justificar a preocupação dos filhos e netos do senhor Antonio Castro, fazendo um retrato marginalizado e de precarização da cidade de Salvador. Organiza em um único parágrafo fragmentos da cidade e une-os, formando uma imagem contrária àquela que é comercializada nos países europeus. Este retrato legitima o discurso de preocupação sobre a falta de competência física para se defender dos inúmeros perigos que a cidade oferece.

Incomodado com a situação a qual é submetido pelos filhos e netos, o senhor Antonio Castro diz “Que se algún día lle saía um ladrón lle os poucos cartos que levase encima e vía. Que había mais de sessenta anos que estaba naquela cidade e que sempre soubera gobernase pela súa conta. Que non estaba disposto a renunciar, simplesmente por medo a um moleque…”. A incompatibilidade de visão e a não renúncia das atividades por causa dos supostos perigosos da cidade gera conflito sobre as atitudes tomadas pelo senhor Antonio Castro.

Nenhum obstáculo o retém e todos os sofrimentos, todos os insultos, todas as rejeições lhe são indiferentes na busca desse território invisível e prometido, desse país que não existe mas que ele traz no seu sonho e que deve realmente ser chamado de um além. (KRISTEVA, 1994, p. 13).

Segundo o narrador, houve um tempo em que na cidade de Salvador habitava a tranquilidade, mas com os anos passados, a rotina da capital da Bahia estava irreconhecível. Os bairros de classe média alta tiveram os casarões abandonados por seus moradores que os trocaram por arranha-céus. As casas abandonadas destes bairros foram tomadas por pessoas que estavam à margem da sociedade.

Diferentemente dos seus filhos e netos, o olhar que esse homem estrangeiro de setenta anos lança e busca na cidade é tentando encontrar o que lhe fora prometido um dia, ou que talvez, ele já viveu, mas que, na atualidade, não existe mais, acabou. Neste momento, existe no estrangeiro uma força maior que o torna incapaz de aceitar que a terra prometida deixou de existir, ou sequer nunca existiu, de fato.

O medo que os filhos e os netos sentem com a circulação do senhor Antonio pela cidade irá afetar a imagem do nativo – o amigo Delmiro. É a partir do seu surgimento na narrativa que as visões dos personagens ganham combustível e vão sendo reveladas pelo narrador.

O nativo é descrito pelo senhor Antonio Castro a partir de algumas das suas características físicas, “[…] apareceu por primeira vez aquel home, un cara de idade indefenida, forte e suorento, achegándoselle á mesa cun amplo sorriso”. No imaginário popular, os atributos usados para caracterizar o nativo faz entender que o homem que lhe chegou à mesa com um amplo sorriso seja afrodescendente.

A figura estereotipada do homem negro foi construída a partir de princípios morais brancos conservadores que encara o afrodescendente como um sujeito marginalizado. O estereótipo de violento e perigoso provém da resistência manifestada que os negros tiveram contra ao processo histórico escravista no Brasil por Portugal.

O estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença… constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e socais. (BHABHA, 1998, p.117).

No período escravista, Salvador foi porta de entrada aos negros africanos trazidos pelos portugueses para ser escravizados na colônia portuguesa. E em decorrência disso, é considerada a cidade com maior índice populacional de negros fora do continente africano.

 […] “Onde quer que eu vá”, lamenta Fanon, “o negro permanece negro” – sua raça se torna signo não-erradicável da diferença negativa nos discursos coloniais. Isto porque o estereótipo impede a circulação e a articulação do significante de “raça” a não ser em sua fixidez enquanto racismo. Nós sempre soubemos que os negros são licenciosos… […] (BHABHA, 1998, p. 117).

O nativo se apresenta ao estrangeiro com o nome de Delmiro, amigo do Waldo Castro, um dos seus filhos, e o senhor Antonio Castro também se identifica. A identificação do estrangeiro faz com que o nativo tenha uma reação impulsiva que o faz repetir seu nome e dizer que é amigo de um dos filhos do senhor Antonio. A não- anonimização dos sujeitos possibilita-os a dialogar, sabendo da identidade d’outro. Neste caso, isso permitiu que o Delmiro pedisse permissão para se sentar à mesa – “Non lhe importa que sente?”.

 Saber o nome do nativo e que ele é amigo de um dos seus filhos, não bastou para que não houvesse desconfianças sobre a figura daquele indivíduo que lhe chegou à mesa “suorento e com um sorriso largo”. O narrador diz que Delmiro “Apartou unha cadeira e ofreceulla sem deterse a pensar que aquel home aparentada polo menos dez anos mais ca calquera dos seus filhos”. O senhor Antonio Castro é movido de uma desconfiança sobre aquele homem que lhe chegou de repente dizendo ter um passado atravessado com o seu.

A desconfiança é provocada decorrência das notícias que circulam na cidade sobre homens que se aproveitam de pessoas frágeis para poder golpeá-las. E, claro, essas pessoas são marcadas caracteristicamente por um estereótipo que é desenhado pelo homem branco colonizador.

[…] o estereótipo dá acesso a uma “identidade” baseada na dominação e no prazer, na ansiedade e na defesa, pois é uma forma de crença múltipla e contraditória em seu reconhecimento da diferença e recusa da mesma. Esse conflito… dominação/defesa… tem uma significação fundamental para o discurso colonial. (BHABHA, 1998, p. 116).

O estrangeiro também passa pelo processo de perda de identidade, entretanto, não como sujeito à margem da lei. A marginalização a que o estrangeiro é submetido é aquela em que há a perda da singularidade, mas que não o subalterniza, ao contrário de como acontece com o negro. O nativo deixa de nomear o estrangeiro pelo nome de cartório e passa a chamá-lo de acordo com sua naturalidade ou descendência “… Waldo Castro, si señor; ainda que eu sempre lle chamei Castro. Tamén lle chamabamos Español porque vostedes son españois, non é?”.

A identidade desse sujeito não oferece perigo no mundo ocidental, pois as relações a que ele se submeterá com o nativo tenderão a ser agradáveis e de compartilhamento de culturas. Além disso, o estrangeiro aparenta não oferecer perigos ao nativo, pois seu comportamento é lido como quem se encontra perdido e tenta encontrar um eixo para se encaixar.

El viajero es ante todo un extranjero, un intruso, un “marginal”, como afirma Simmel. él se aleja de su mundo propio e ingresa en territorio ajeno, su condinción liminar se expressa en las costumbres de diversos pueblos. (ORTIZ, 1998, p. 3).

O amigo Delmiro confessa ao senhor Antonio que fazia alguns anos que estava sem notícias do Waldo Castro e que não sabia da sua mudança para trabalhar como diretor duma agência em São Paulo. Em seguida, Delmiro segue com o senhor Antonio até a sua casa, lá o amigo pegaria o número de contato do Waldo. Ao chegar à casa como bom anfitrião, o velho oferece ao amigo do filho uma caipirinha feita por sua neta Rosiña.

A INTRIGA

No conto, a figura da neta aparece para manifestar questões que estão vinculadas ao estereótipo sobre a figura do nativo afrodescendente. Se o estrangeiro branco tende a ser considerado sujeito inocente, tranquilo e desnorteado territorialmente; o nativo é encarado como indivíduo duvidoso. E se o nativo em pauta for o homem negro, é atribuído a ele adjetivos que o subalternizam e inferiorizam diante dos demais grupos populacionais e sociais.

A primeira manifestação de desconfiança que a neta tem com a presença do Delmiro, aparece quando o narrador diz “no corredor, apegada á porta, estaba a súa neta com cara de alarma”. Neste trecho fica entendida a suspeição sentida pela neta e as falas que o sucedem reforçam esta impressão. A partir deste momento, inicia-se o conflito que colocará em questão a legitimidade do estereótipo de que o nativo afrodescendente é licencioso e o estrangeiro/nativo-branco, sujeito íntegro, incorrupto etc.

– Quen é ese tipo que vén con vostede, avó? – perguntou em voz baixa.

– É um amigo do teu pai. Quere o seu número de telefono – respondeu o avó tranquilamente.

– Amigo do meu pai? Amigo do meu pai! Como pode crer que sexa amigo do meu pai um   fulano com esa pinta? (grifo meu) (NAVAZA, 2002, p. 37-38).

Os termos grifados podem ser considerados problemáticos, pois quando inseridos num contexto conflituoso, em que as relações narradas estão atravessadas de estereótipos e preconceitos baseados em características físicas e históricas, passam a ter carga semântica que nos possibilitam compreender a que tipo de sujeito a neta está se referindo.

No diálogo entre o senhor Antonio Castro e Rosiña (a neta) também fica manifestado um tipo de hierarquização e separação entre branco e preto. Como se ela tentasse impedir as águas escuras do Rio Negro e as águas claras do Rio Solimões, no Amazonas, de se tocar. A analogia com os dois rios serve para exemplificar e dizer que os dois, negros ou claros, não deixam de serem rios, de ter peixes, alimentar os ribeirinhos e ter o próprio curso.

A visibilidade do Outro racial/colonial é ao mesmo tempo um ponto de identidade (“Olha, um negro”) e um problema para o pretendido fechamento do interior do discurso. Isto porque o reconhecimento da diferença como pontos “imaginários” de identidade e origem – tais como preto e branco – é perturbado pela representação da cisão no discurso. (BHABHA, 1998, p. 124).

O senhor Antonio tenta explicar para Rosiña como conheceu o Delmiro, mas ela, incontestada, não dá ouvidos ao avô e responde, dizendo que a história que ele a conta é igual a que soube por uma vizinha. E usa o argumento de que “Casos semelhantes cóntase a centos, avó. Tal como anda o Brasil, os vellos son presa fácil e apertecible para estes desalmados”. Novamente aparece na fala da neta a ideia de que pessoas de mais idade estão propicias a serem vítimas de indivíduos maliciosos. E aterroriza dizendo:

– Entroulle na casa, fixole as do demo e torturouna ata que lle dixo as claves das tarxets de crédito, e logo deixouna atada mentres lle baleiradaba as contas dos bancos. E non a matou de milagre. (NAVAZA, 2002, p. 38).

A neta tem uma visão alterada da realidade, uma vez que, além de sua fala estar atravessada por ideais moralistas, idealizados pelo colonizador, a sua visão, também, possui características exagerada, dramática e   trágica, assim como, humorística, uma vez que percebemos que a narrativa ganha velocidade e conflito a partir de sua entrada no conto.

Tentando tranquilizar Rosiña, o senhor Antonio busca convencê-la de que o sujeito em questão é amigo do Waldo Castro e que ele sabe de histórias do seu filho: “Sabe que é avogado, e que somos españois, e que Waldo estivo a punto de morrer afogado cando tiña vinte anos. Estou seguro de que non hai ningunha razón para a desconfianza.”. Inconvencível com o que é dito pelo avô, a garota adverte-o, dizendo “Que vostede é espanhol pode notalo calquera polo acento!”. E propõe que o avô faça o amigo Delmiro ligar para Waldo Castro naquele instante.

O senhor Antonio seguiu o plano da neta e deu o contato do filho Waldo Castro e sugeriu que o amigo Delmiro ligasse ali mesmo. Enquanto dizia tais palavras, observava na fisionomia do nativo se ele tinha alguma reação que levantasse suspeita e correspondesse às desconfianças da neta, mas nada o fez despertar dúvidas.

Segundo o narrador, enquanto Waldo e Delmiro conversavam ao telefone, “o vello observábao compracido.”. Então, a desconfiança da neta que por um momento lhe havia feito duvidar sobre a índole do nativo, agora, fazia-o respirar aliviado e rir dos medos dela.

Apesar do velho se encontrar certo de que o filho e o amigo Delmiro estavam realmente na linha telefônica conversando e relembrando de episódios da vida que viveram juntos, a neta aparece “novamente no corredor, detrás da porta” sem se deixar convencer, volta a insultar o avô e causar nele outra dúvida: se realmente Waldo e Delmiro estavam conversando ao telefone ou se Delmiro estava apenas encenando que conversava com Waldo.

A desconfiança da neta é o combustível para que a problemática se desenrole, esta suspeita insaciável é alimentada a partir das ideias conservadoras que sempre aparecem no seu discurso. Além disso, ela transporta essa dúvida sobre o caráter do amigo Delmiro ao avô que, mesmo após acreditar que o rapaz é amigo do filho, recua com os argumentos levantados pela neta.

Insatisfeita com o que consegue ouvir, a neta entra na sala com o avô e solicita ao amigo Delmiro que também deseja falar com o seu pai, Waldo Castro. Para ela, o fato de escutar o diálogo do nativo é insuficiente, existe uma necessidade de comprovar e testar sua veracidade.

A este sujeito é cobrado a todo instante sua identidade, o seu cartão de visita e comprovação de bom caráter. O nativo afrodescendente, morador da capital baiana, em especial, passa todos os dias por este policiamento, por uma necessidade interminável de cobrança para querer saber quem ele é.

A situação em que se encontra Delmiro na narrativa não é particular a ele, existem muitos outros   “Delmiros” em Salvador que passam por episódios semelhantes. O mais trágico dessa situação é que o moralismo colonizador elitista está atravessado em nós, e manifesta-se tanto do homem branco para o homem afrodescendente como no homem afrodescendente contra o próprio homem afrodescendente, raramente do afrodescendente contra o branco e o estrangeiro.

O negro é um animal, o negro é mau, o negro é ruim, o negro é feio; olha, um preto, está fazendo frio, o preto está tremendo de frio, o preto está tremendo porque está com frio, o menininho está tremendo porque está com medo do preto […] mamãe, o preto vai me comer. (BHABHA, 1998, p. 126).

O DESFECHO

Ironicamente quando a neta se aproxima do Delmiro, a ligação sofre uma falha e começa a cortar “– Castro? Castro? Podes oírme? Castro…? Oh, parece que se cortou…” então, a moça que não suportava a ideia da existência da amizade entre Delmiro e Waldo, seu pai, interpreta a falha da ligação como uma encenação para convencê-la e ao avô de que o corte impediu a continuidade da conversa entre eles. Isso foi suficiente para Rosiña julgá-lo e condená-lo como sujeito mau caráter e que suas desconfianças estavam coerentes, como afirma Bhabha (1998), a população colonizada é então tomada como a causa e o efeito do sistema, presa no círculo da interpretação.

Numa tentativa de autodefesa, após o julgamento do sujeito que o narrador enumerou sendo “individuo… impostor perigoso” (grifo meu), Rosiña corre para o corredor e volta segurando numa das mãos um revólver, em estado psíquico completamente fora de si e exaltada ordena “– Arriba as mans, arriba as mans!”.

Descontrolada, a neta dispara um tiro que acerta o teto, enquanto os três – o avô, o amigo Delmiro e Rosiña – começaram a gritar, assustados. O amigo tentou se esconder atrás de algum móvel da casa, mas a neta enlouquecida com a arma na mão saiu atrás dele e lhe disparou dois ou três tiros na porta do prédio. De volta para casa e eufórica ela chama a polícia. Em seguida, procura pelo avô que estava imóvel desde o primeiro tiro contra o teto.

Esta última cena resulta da realização prática do que compõem os estereótipos a que o homem negro é submetido. Os tiros disparados podem ser compreendidos como tecnologia que tem como função solucionar os problemas de violência que circula a cidade. Segundo as ideais moralistas constituídas pelo colonizador, o homem que oferece perigo é justamente aquele que foi escravizado, agredido e que possui um passado histórico sofrido pela violência do colonizador.

O negro nessa sociedade e principalmente na cidade de Salvador é encarado com esta visão agressiva e preconceituosa. Enquanto os habitantes brancos, que tem em sua pele a cor do colonizador, não despertam desconforto e desconfiança sobre a sua índole e suas intenções para com o outro.

No conto, ao mesmo tempo em que o nativo afrodescendente é encarado como sujeito violento e duvidoso com base em estereótipos, o branco/estrangeiro é visto como sujeito pacífico. Mas, no conto, as reações violentas não partem do “amigo Delmiro”, e sim da neta Rosiña, que aparece na narrativa como agente problematizadora e, ao mesmo tempo, solucionadora da problemática.

As atitudes realizadas pelo nativo são todas suspeitas e colocadas em questão, enquanto as de Rosiña são encaradas como autodefesa. O sujeito que colocam como agressor é quem é agredido. Entretanto, ele não sai como injustiçado e sim como quem foi combatido. Ratifico, esta reação de combate tem como base os estereótipos que colocam o negro numa posição subalternizada e desfavorável nas sociedades modernas, como afirma Kristeva (1994), o estrangeiro continua a se sentir ameaçado pelo território de outrora, tragado pela lembrança de uma felicidade ou de um desastre– sempre excessivos.

Enquanto de longe se ouvia a sirene do carro da polícia, no telefone em que o amigo Delmiro conversava com Waldo, soou uma voz que dizia: “– Ainda segue aí o Delmiro? Estabamos falando… e de repente cortouse a chamada.”.

No telefone, após a linha recuperada, o amigo do Delmiro, Waldo Castro, o chama, enquanto ele, ensanguentado, fica estendido em frente ao prédio do senhor Antonio Castro ao tempo em que a neta se dá conta do que acabou de fazer.

Portanto, o nativo é endemonizado, tomando-se por base estereótipos que o marginalizam e subalternizam. Enquanto o estrangeiro é idealizado como sujeito pertencente à entidade pura e do bem e que necessita ficar alerta aos perigos que o nativo lhe oferece. Ambas as ideias são carregadas de inocência e preconceitos. O que está em jogo é a imagem do outro, não suas atitudes, e ela aparece sendo suficiente para julgamento.

Referências Bibliográficas:

BHABHA, Homi K. O local da Cultura / Homi K. Bhabha; tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

BARTHES, Roland, 1915-1986. O prazer do texto/ Roland Barthes; (tradução J. Guinsburg), São Paulo: Perspectiva, 2015. (Elos; 2/ dirigida por J. Guinsburg).

NAVAZA, Gonzalo. Erros e Tánatos / Ed. La Voz da Galícia, 2002

KRISTEVA, Júlia, 1941 – Estrangeiros para nós mesmos / Júlia Kristeva; tradução

Maria Carlota Carvalho Gomes. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

ORTIZ, Renato.Otro Território/ Renato Ortiz; Traducido por Carlos E. Córtés Sánchez– Santafé de Bogotá: Convenio Andrés Bello, 1998.

Cores do Atlântico, livro-disco galego-português, agora no Brasil!

A descoberta de umas origens culturais galegas que estão em boa medida ainda vivas no Nordeste brasileiro pode ser um dos grandes logros que a leitura e a escuta do Cores do Atlântico produza nos leitores e público brasileiro.

Nestes dias em que os olhos do mundo se voltam para o Brasil, a editora Latus da Universidade Estadual da Paraíba acaba de editar e colocar nas livrarias o livro-disco Cores do Atlântico, o trabalho que Ponte…nas ondas! e o selo discográfico galego PAI Música editou em 2010 para Galiza e Portugal. Este foi apresentado no marco do Congresso “Pontes de cultura, pontes de futuro” realizado em Vigo e Melgaço em 2010 com motivo dos 15 anos de Ponte…nas ondas!.
As Cores do Atlântico publicadas agora para o público brasileiro contam com produção da Universidade Estadual da Paraíba e a parceria da Liraprocult, a produtora de Socorro Lira, de Ria Lemaire, a autora do texto e de Ponte…nas ondas! que produziu o trabalho original com financiamento da Xunta de Galiza.

Nova capa
A capa da edição brasileira renova-se com um desenho do ilustrador Anderson Augusto, quem sugere o banho nas ondas do Atlântico com uma bela paisagem das montanhas de fundo. O resto do trabalho mantém a distribuição e composição da anterior edição galego-portuguesa.

Importância da edição no mercado brasileiro
No âmbito universitário brasileiro ainda não é muito reconhecido a existência de um património comum partilhado com a Galiza e, às vezes limita-se ao âmbito das origens da língua naquele cantinho da península ibérica onde as mulheres cantavam fininho. Por isso é importante que as investigações realizadas pela professora Ria Lemaire contextualizando estas origens do património imaterial galego-português, não só no âmbito literário senão também em um espaço cultural muito mais alongado e abrangente.

Para o público brasileiro, a edição do Cores do Atlântico vai permitir conhecer de uma forma muito intuitiva aquilo que já pressente quando ouve ou escuta determinadas expressões culturais e mesmo sotaques da sua identidade que identificam como algo de procedência ibérica ou tão só portuguesa.

A descoberta de umas origens culturais galegas que estão em boa medida ainda vivas no Nordeste brasileiro pode ser um dos grandes logros que a leitura e a escuta do Cores do Atlântico produza nos leitores e público brasileiro.

A ponte com o património partilhado
O livro-disco agora editado contém o mesmo texto introdutório de Ponte…nas ondas! onde se afirma que Cores do Atlântico “é uma obra que une, na mesma proposta artística, três continentes que partilham um mesmo património: a lírica medieval das cantigas de amigo. Um tesouro que se procura transmitir, no século XXI, através do sistema educativo e das novas tecnologias e do qual milhares de pessoas, por todo o mundo, continuam a aproximar-se com interesse“.
Também se incluem as palavras da professora da Universidade de Vigo, Camiño Noia, quem afirma que “ Cores do Atlântico é uma obra diferente, inovadora, da qual desfrutarão os espíritos abertos; mas é também uma criação transgressora que, talvez chegue a escandalizar os espíritos dos académicos tradicionais que não gostam de inovações. Pois, além da ousadia de devolver às mulheres a autoria das composições paralelísticas, a obra subverte a cultura canónica ao fundir a lírica medieval com os ritmos afro-brasileiros.”

As ilustrações que o artista galego Quique Bordell realizou para cada uma das 15 cantigas recolhidas no CD acompanham também nesta edição brasileira ao texto do libro.
No disco participaram as artistas brasileiras Socorro Lira, Margareth Menezes, Eneida Marta e as Cirandeiras Caiana dos Crioulos, Eneida Marta de Guiné Bissau, João Afonso de Portugal e Uxía e Leilía de Galiza.

http://www.coresdoatlantico.com

Associação Cultural e Pedagógica PONTE…NAS ONDAS !

+ info: pontenasondas@pontenasondas.org

H. Monteagudo: “A liberdade normativa é factível com algumas condições”

Henrique Monteagudo é profesor de Filoloxía Galega na Universidade de Santiago de Compostela e Secretario da Real Academia Galega. Foi coordinador da Sección de Lingua e secretario do Consello da Cultura Galega. Tamén é codirector de Grial. Revista de Cultura Galega e membro do padroado da Fundación Penzol. As súas principais liñas de investigación son: historia da lingua, sociolingüística e glotopolítica. Estudou e editou textos galegos de todas as épocas, desde a Idade Media ata a actualidade: Martin Codax, Paio Gomez Chariño, Martín Sarmiento, Rosalía de Castro, Otero Pedrayo, Castelao e Ramón Piñeiro. Coordinador da edición das Obras de Castelao e de Martín Sarmiento, estudoso da súa biografía e obra. Foi profesor convidado das universidades de Birmingham (Reino Unido), California (UCSB), Nova York (CUNY), São Paulo (USP), Lisboa (UL) e Buenos Aires (UBA). Autor de monografías como Historia Social da Lingua Galega (1999), Letras primeiras. A emerxencia do galego escrito e os primordios da lírica trovadoresca(2008), De verbo a verbo. Documentos en galego anteriores a 1260 (2009), “En cadea sen prijon”. Cancioneiro de Afonso Paez (2013). Editor científico de obras colectivas como Sociedades plurilingües: da identidade á diversidade (2009), e Linguas, sociedade e política. Un debate multidisciplinar (2012). (http://ilg.usc.es/gl/persoal/x-henrique-monteagudo-romero)

1. Você participa do Grupo de pesquisa “Galego e português brasileiro”. Há no Brasil interesse pela pesquisa conjunta com as investigadoras e investigadores galegos? Em que âmbitos e projetos se está trabalhando?

Si, os investigadores e investigadoras galegos atopamos unha actitude moi receptiva, colaboradora e proactiva por parte dos nosos e as nosas colegas do Brasil, e un grande interese polo noso traballo, que, por suposto, é mutuo. Por razóns obvias, a lingüística histórica e a historia da lingua constitúen ámbitos de interese común especialmente importantes, pero tamén a dialectoloxía, a gramática ou a sociolingüística.

2. Deu um curso na Universidade Federal Fluminense baixo o título “A língua no tempo, os tempos na língua. O galego, entre o português e o castelhano”. Em que elementos centrou o seu relatório?

Non é doado de resumir en poucas liñas, pero falando en xeral presentei a evolución do galego no marco peninsular, e máis en concreto en relación coa do portugués e o castelán, mostrando en que puntos se pode falar de evolución conxunta do galego e o portugués desde a Idade Media, en que outros de evolución diverxente, e tamén as converxencias, coincidencias e diverxencias do galego con respecto ao castelán e entre este e o portugués. A historia lingüística de todo o conxunto centro-occidental da península resulta bastante máis complexa do que poida parecer a primeira vista. Tamén pretendía chamar a atención sobre o estudo da constitución e evolución das variedades estándar como un necesario interface entre as denominadas historia interna e historia externa da lingua, e pór de vulto que a aplicación mecánica e adoito anacrónica da noción de ‘lingua’ pode resultar máis prexudicial que esclarecedora cando estudamos a evolución dunha serie de variedades veciñas, dispostan en continuum, de entre as que se destacan varias variedades cultivadas. A idea é que o galego experimentou importantes evolucións conxuntas co portugués a finais da Idade media, outras co castelán (pero non necesariamente inducidas por este) e outras autónomas e diverxentes en relación tanto con un coma co outro idioma.

A intercomprensión mutua (galego-brasileira) é moi doada e esixe pouco esforzo. É obvio que o galego nos abre as portas ao ámbito de expresión portuguesa.

3. Você deu a sua palestra em galego no Brasil com normalidade ante um público português-brasileiro parlante. É o galego uma língua internacional?

Des que visitei por primeira vez o Brasil, como antes acontecera en Portugal, expreseime en galego na maior parte das miñas disertacións e clases. A intercomprensión mutua é moi doada e esixe pouco esforzo. É obvio que o galego nos abre as portas ao ámbito de expresión portuguesa. Mesmo así, non acabo de ver a pertinencia de colocalo na categoría das “linguas internacionais”, a menos que se precise o que se quere dicir exactamente con iso. De feito, a comprensión espontánea do discurso en galego tamén me ten acontecido ante públicos hispanófonos.

4. Pensa que se têm aproveitado na política linguística galega as vantagens internacionais da nossa língua?

Na miña opinión, dentro das graves deficiencias da política lingüística do goberno galego, atópase, sen dúbida, a falla dunha liña clara e activa de conexión cos países e culturas de expresión portuguesa, que debe ser unha das prioridades estratéxicas dunha (practicamente inexistente) acción exterior das institucións galegas, non só nos ámbitos lingüístico e cultural.

Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.

5. O galego perde falantes a um ritmo bastante importante desde há décadas. Qual considera que é a causa deste processo e como avaliaria as medidas aplicadas desde o governo e desde as instituições culturais e sociais para reverter a perda da língua?

O galego precisa dunha enérxica recarga do seu estatus e do seu prestixio. Se a sociedade e as elites dirixentes non o contemplan como un activo de futuro e non actúan en consecuencia, toda a lexislación e outras intervencións políticas, en principio ben intencionadas, acaban por convertese en fume retórico, con escasos resultados prácticos (ás veces, mesmo contraproducentes). Nese sentido, é indubitable que os últimos anos non facemos máis que recuar, aínda que parece estar tomando forza unha reacción social que pode levar a que nun futuro próximo as cousas cambien. Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.

6. O professor galego da UFF Xoán Lagares afirmava no seu artigo de 2013 O galego e os límites imprecisos do espaço lusófono o seguinte:

Durante todos os anos da gestão autonómica os grupos dissidentes da norma considerada oficial foram mantidos à margem das políticas de promoção linguística, dos subsídios e das instituições galegas. Essa identificação entre língua e norma, ou mesmo (o que seria ainda mais grave) entre língua e ortografia, tem feito com que as políticas públicas de promoção do galego dispensem a participação de setores extremamente ativos no uso da língua nos mais diversos âmbitos de comunicação […]. Uma política de liberdade normativa, que permitisse o convívio bi ou trinormativo, talvez fosse uma via na superação desse ideal monolíngue que parece acompanhar historicamente todo empreendimento à construção política das línguas.

Que lhe parece a proposta de liberdade normativa para o caso galego que faz o professor Lagares?

Hai cousa de vinte e cinco anos publiquei na revista Grial un artigo “Sobre a polémica normativa do galego” que ía moderadamente nesa liña. Non creo que unha liberdade normativa total fose positiva para o idioma, pero si que é factible con certas condicións. Dito o cal, teño a certeza de que cando o colega Xoán Lagares fala da “identificação entre língua e norma, ou mesmo (o que seria ainda mais grave) entre língua e ortografia” está pensando tamén en sectores do reintegracionismo que cometen ese erro. Si, lamentablemente, esa identificación errónea é moi frecuente en Galicia en amplos sectores, e constitúe un serio malentendido que sería preciso esclarecer.

Non creo que unha liberdade normativa total fose positiva para o idioma, pero si que é factible con certas condicións.

7. Quando na Galiza se tem falado das relações do galego com o português ou o português brasileiro, e do possível aproveitamento sociolinguístico deste facto, se têm provocado reações muito agressivas por parte das duas partes com opiniões encontradas. Por que acha que acontece isto? Há alguma possibilidade de encontro?

Eu veño sostendo que nos debates normativos arredor do galego entrecrúzanse argumentos lóxicos (científicos) e posicionamentos sociolóxicos (intereses e actitudes persoais, de grupo, ideolóxicos…). Isto é o que explica a súa particular virulencia, a parte, claro está, de que no debate sobre a lingua van inextricablemente inseridos factores identitarios, sempre cun alto contido emocional. Con todo, coido que nos últimos tempos as discusións tenden a ser menos frecuentes e menos acedas. Será porque todos vemos que, dada a evolución sociolingüística do idioma e do seu contexto socio-político, non temos moito tempo que perder debatendo sobre o sexo dos anxos.

8. Se tivesse a responsabilidade da Secretaría Xeral de Política Lingüística, que medidas de urgência estabeleceria para reverter o processo de substituição linguística?

Coido que habería que mandar unha mensaxe clara á sociedade de compromiso co futuro do idioma, unha mensaxe que debera involucrar non soamente o goberno senón tamén un amplo elenco de axentes sociais de relevo. En segundo lugar, deberían debuxarse de xeito claro obxectivos a curto, medio e longo prazo, subliñando inequivocamente as prioridades: medios de comunicación, mocidade, novas tecnoloxías, ámbito laboral e profesional. En terceiro lugar, un amplo pacto para un modelo lingüístico para o sistema educativo favorable ao galego. Tamén habería que impulsar as liñas de investigación e formación en sectores clave para a lingua (sociolingüística, planificación lingüística, didáctica da lingua, terminoloxía). Para dar credibilidade a esas políticas, concentrarse en compromisos e avances concretos e significativos e esforzarse en manter unha máxima coherencia entre o que se pensa, o que se di e o que se fai.

O lóxico é que se acabe consolidando unha norma brasileira autónoma (de feito, xa está acontecendo), flexible e dinámica, achegada todo canto for posible á lingua común da maioría dos brasileiros e brasileiras.

9. Como sabe, no Brasil há também um interessante debate sobre a elaboração da norma culta da língua, havendo linguísticas que mesmo defendem a independência do português brasileiro como língua autónoma. Que opinião tem ao respeito?

Sigo con moitísimo interese ese debate, pero, pola mesma razón que sosteño que os problemas do galego debemos resolvelos basicamente os galegos, non quero inmiscuírme nun asunto tan sensible coma este. Dito isto, como sociolingüista entendo que o lóxico é que se acabe consolidando unha norma brasileira autónoma (de feito, xa está acontecendo), flexible e dinámica, achegada todo canto for posible á lingua común da maioría dos brasileiros e brasileiras.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

O mellor a xente, o peor a desiguladade.

Um lugar no Rio de Janeiro

A praia de Ipanema.

Uma palavra do galego e uma do português brasileiro

Agarimo, jeitinho.

Um desejo para o futuro

Longa e próspera vida ao idioma galego, estreitamente abrazado cos seus irmáns de Portugal, o Brasil e África.

As soldadeiras: Vós que conhecedes a mim tam bem…

Márcio Ricardo Coelho Muniz

Professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Resumo: O presente texto é fruto de uma primeira aproximação ao universo de uma importante personagem do corpus poético satírico galego-português: as soldadeiras. Merecedoras da atenção de número significativo de trovadores, as soldadeiras ainda têm existência enigmática para a crítica especializada, que muito pouco se dedicou a revelar-lhes o papel que desempenhavam, as características com que foram descritas e os significados das cantigas a elas dedicadas. Este texto é o início de uma caminhada em busca de uma melhor e maior conhecimento sobre as soldadeiras.

No conjunto de aproximadamente 423 cantigas satíricas editadas pelo professor Manuel Rodrigues Lapa, em sua segunda edição das Cantigas de Escárnio e Maldizer, de 1970 (a 1ª edição é de 1965), ou no considerável alargamento do corpus satírico proposto pela edição recentemente realizada por Graça Videira Lopes (2002), para um número total de 474 cantigas, aproximadamente cinco dezenas delas – ou seja, cerca de 10% por cento do todo – são dedicadas às soldadeiras ou às prostitutas, como a totalidade das cantigas descreve as atividades daquelas (LOPES, 1994, p. 214 e 222; LANCIANI & TAVANI, 1995, p. 168). Esses números são eloqüentes ao confirmarem a importância dessas mulheres no contexto social em que foram produzidas as cantigas satíricas do noroeste peninsular.

Todavia, a contrastar com a relevância quantitativa dada as soldadeiras e com o realismo que caracteriza as cantigas de escárnio e de maldizer, pouco se sabe sobre essas mulheres. Para além das referências a seus comportamentos e práticas sexuais, quase mais nada nos dizem as cantigas satíricas a elas dedicadas. Em realidade, a contradizer a afirmação de uma anônima soldadeira da cantiga de João Baveca, cujos versos 17 e 18 tomamos emprestado para o título deste texto [Estavam hoje duas soldadeiras; B 1458, V 1068[1]], tudo leva a crer que os trovadores e jograis não as conheciam tão bem, pois muito pouco nos dizem sobre elas.

É corrente, por exemplo, na ainda pequena crítica dedicada a essa personagem do mundo trovadoresco galego-português, a constatação do absoluto silêncio relativo à arte da dança e do canto que essas mulheres certamente desempenhavam ao acompanhar jograis e trovadores. Lembremos-nos, junto com Menendez Pidal, que das dezesseis miniaturas presentes no Cancioneiro da Ajuda, em que se representam os momentos de execução das cantigas, doze delas trazem a figura da bailarina ou cantora acompanhando o jogral, algumas vezes segurando umas castanholas, de braços para alto, como se dançassem. Pois bem, sobre essas atividades, seguramente de grande contributo para o êxito das cantigas junto ao público, nada se diz (Menendez Pidal apud LOPES, 1994, p. 222). Como romper este silêncio? Como chegar a essas mulheres? Como vislumbrar-lhes um rosto?

As soldadeiras e seus trovadores

Um primeiro caminho possível para ouvir o que diz este silêncio seria observar quem são as soldadeiras, quem são os poetas que as satirizam, como e se eles se relacionam entre si. Todavia, já adiantando conclusões, este percurso é pouco frutífero, pois se, por um lado, as informações que temos sobre os trovadores são, via de regra, escassas; por outro lado, a historiografia e a crítica dedicada às personagens que habitam a lírica profana galego-portuguesa pouco ou nada nos dizem sobre as soldadeiras. Com a destacável exceção de Maria Peres, a Balteira, sobre quem é possível delinear uma pequena e relativamente segura biografia – que não apresentarei aqui, pois deste Carolina Michaëllis de Vasconcelos, em sua Glosa Marginal VII (VASCONCELOS, 2004), muitos estudiosos já se debruçaram sobre a vida da Balteira (LOPES, 1994, p. 223, nota 2; SOUZA, 2002) –, um silêncio cerrado recai sobre suas companheiras de profissão. De todas as formas, busquemos, com os dados que temos neste momento, uma sistematização do quadro das soldadeiras e de seus trovadores, e vejamos como este pode ajudar-nos em nosso objetivo de esboçar-lhes um rosto.

As soldadeiras nomeadas no cancioneiro satírico são em número aproximado de duas dúzias[2]. Todavia, não é possível afirmar com segurança que a cada nome corresponda uma mulher. Se sobre Maria Peres, a Balteira, temos dados suficientes para situá-la num tempo e espaço social determinado, sobre as outras muitas “Marias” reza um silêncio enigmático. Maria Leve, por exemplo, alvo de três exclusivas cantigas do trovador João Vasques de Talaveira, é associada por Lapa a Balteira, pois a cantiga dedicada a esta pelo trovador está em B rodeada por aquelas outras três dedicadas a Maria Leve [B 1545, 1546, 1547, 1548] (LAPA, 1995, p. 165-166). Todavia, esta associação apoiada apenas na proximidade das cantigas em B é frágil, pois há pelo menos oito soldadeiras denominadas “Maria” pelos trovadores, o que diz mais do comum do nome do que da identidade das cortesãs.

Ainda assim, sobre Maria Leve – se a dissociarmos de Maria Peres, a Balteira –, Maria Negra e Maior Garcia poder-se-ía esboçar alguns traços de suas vidas ou contexto social levando-se em conta o fato de que mais de um trovador a elas dedicou uma cantiga, como é o caso de Maior Garcia, cantada por João Baveca, Pedro Amigo de Sevilha e Pero de Ambroa[3]; ou, por outro lado, quando encontramos o caso de um só trovador ter-lhes dedicado um conjunto de cantigas, casos de Maria Leve e Maria Negra, cantadas, respectivamente, em três cantigas de João Vasquez de Talaveira e em três cantigas de Pero Garcia Burgalês[4]. Da mesma forma, como esses três trovadores também dedicaram cantigas a Maria Peres, a Balteira, não é de todo improvável que essas soldadeiras tenham freqüentado os mesmos ambientes que a famosa cortesã da corte de Afonso X, tendo feito parte do mesmo ciclo cultural e social. A aproximação daquelas três Marias a esta Balteira, em termos contextuais e históricos, pode vir a ser caminho frutífero para desvendarmos seus rostos, percurso que ainda pretendemos trilhar no futuro.

Por outro lado, nada sabemos sobre outras “Marias”, como Maria do Grave e Maria Mateu, a não ser o que se diz nas cantigas sobre suas práticas e hábitos sexuais[5]. O mesmo se dá com as diversas “Marinhas” que aparecem no cancioneiro satírico. Se se pode supor que as três Marinhas satirizadas por Pero da Ponte – Marinha Força, Marinha Crespa e Marinha López[6] – correspondam a uma mesma soldadeira, com apelidos distintos postos pelo trovador galego como mote para seu escárnio, o que dizer sobre Marinha Sabugal, Marinha Mejouchi, Marinha [Caadoe] ou as simplesmente Marinha, alvos das sátiras de outros poetas, sobre os quais não estamos seguros se foram ou não contemporâneos, ou se conviveram ou não entre si, como é o caso de Fernando Esquio e Afonso Eanes de Cotom[7]. Da mesma forma, a Elvira López cantada somente por João Garcia de Guilhade pouco provavelmente corresponda a simples Elvira satirizada por Pedro Amigo de Sevilha[8], pois o primeiro parece não ter freqüentado a corte do rei sábio, como aquele, tendo se mantido em Portugal durante o período do reinado de Afonso X, no terceiro quartel do século XIII, época em que, segundo Vicenç Beltrán, Pedro Amigo de Sevilha teria permanecido na corte do rei castelhano (BELTRÁN, 1993).

Mais complexa no esforço de identificação é a situação daquelas soldadeiras que só receberam a atenção de um trovador, como é o caso de Domingas Eanes, Ourana, Luzia Sanches, Orraca Lopez e uma provável Peixota, satirizada por Pero da Ponte[9]. A propósito desta, vale ressaltar também a dificuldade imposta à crítica pelos nomes dessas mulheres. A estrutura de equívoco sobre a qual se apóia boa parte da sátira feita às soldadeiras se estende certamente a seus apelidos. Nomes como Marinha Meijouchi, Marinha [Caadoe], Marinha Sabugal, Marinha Foça, Marinha Crespa ou Maria Leve vêm intrigando os críticos pelos sentidos implícitos que podem guardar[10]. Como esta Peixota de Pero da Ponte que, citada numa cantiga em que o poeta trata da fama de Toledo como uma vila em que o peixe é raro, tem seu nome confundido com o termo “peixota”, que significa, segundo Lapa, “peixe comum”, que contrastaria com o salmão desejado pelo poeta. Na leitura da cantiga, se consideramos sua construção em equívoco, a provável soldadeira Peixota é descrita como um “peixe comum”, que por sua baixa qualidade, feiúra e velhice, pouco atrai os homens de Toledo e também o poeta (LAPA, 1995, p. 236).

Por sua vez, se olharmos pelo lado dos trovadores, os caminhos a serem trilhados também não são exatamente fáceis. Para além, mais uma vez, de Maria Peres, a Balteira, alvo da sátira de onze poetas, todos, de alguma forma, aglutinados em torno da corte do príncipe ou do já rei Afonso X, o sábio[11]; apenas mais quatro soldadeiras teriam a seu favor a diversidade de trovadores ou a quantidade de cantigas dedicadas a si: as já citadas, Maior Garcia, Maria Leve e Maria Negra, e também Orraca Lopez, a quem Afonso Eanes de Cotom dedicou duas cantigas. Com exceção desta última, as outras podem ser inseridas, como já se disse, no círculo social freqüentado pela Balteira. Já Orraca Lopez poderia contar, para um esboço de sua identidade, com os dados biográficos que possuímos sobre Cotom e com as cantigas que este lhe dedica, não fossem ambos, da mesma forma, escassos de informações.

Casos há de soldadeiras que têm uma única cantiga dedicada a si e, ainda, outras tantas que não são nomeadas pelo trovador em suas cantigas. Sendo os únicos registros sobre essas mulheres, seria a combinação do texto das cantigas e das informações que temos sobre os trovadores o caminho para se chegar a cada uma delas. Como se pode imaginar, uma condição e um esforço bastante ingratos.

Caminhos que não se cruzam

A possível contribuição para delinear o perfil de algumas das soldadeiras dada pela correspondência, acima resumida, entre elas e os trovadores que as satirizaram, esbarra ainda e fundamentalmente na pouca variedade de informações sobre essas mulheres fornecidas pelas próprias cantigas a elas dedicadas e na quase absoluta ausência de marcas de individualidades transmitidas pelos poemas. Se a falta de informação sobre as atividades profissionais de bailarina dessas mulheres causa certo estranhamento e não contribui para sua maior particularização, assim como seus apelidos também não ajudam muito no desvendamento das individualidades, quase tudo o que se diz nas cantigas sobre elas dá-se, como afirma Graça Videira Lopes, num registro erótico-satírico convencional [LOPES, 1994, p. 222]. Se à equivocatio recorre-se com alguma freqüência para a construção da sátira, é da mesma forma recorrente o uso de um tom bastante cru, com alta obscenidade, e com motivações de ordem fundamentalmente sexual na descrição dessas mulheres e de seus hábitos e práticas profissionais.

No conjunto dessas quase cinco dezenas de cantigas, apoiados fundamentalmente nas interpretações propostas por Rodrigues Lapa e Graça Videira Lopes, e a partir de um levantamento ainda não definitivo, conseguimos determinar alguns dos motivos principais das sátiras às soldadeiras. Satiriza-se o desejo carnal desmedido dessas mulheres, as suas conseqüências práticas, como as doenças venéreas que carregam e transmitem, os altos preços que cobram, suas relações com clérigos, disfarçadas em piedade religiosa, as práticas de artes mágicas, os hábitos sexuais heterodoxos, como o lesbianismo – por sinal, como indica Graça Videira Lopes, os casos de lesbianismo no cancioneiro satírico estão todos relacionados com as soldadeiras (LOPES, 1994, p. 224) –, entre outros poucos dados.

De tal forma esses motivos são repetidos que, vistas em conjunto, ressalta dessas cantigas o convencionalismo das ações, das situações e das descrições de que são alvo as soldadeiras. Em realidade, confirma-se nessas cantigas a constatação a que já chegou a historiografia sobre a Idade Média, de que as mulheres medievais são vistas a partir de modelos pré-determinados pelos homens, que, por isto, não alcançam ver quase nada além do que esses modelos são capazes de reproduzir (DUBY, 1989).

Não muito distintas deste convencionalismo são as cantigas em que vazam dados da descrição física dessas mulheres. Como o campo de ação delas está quase completamente restrito às práticas sexuais, a sátira recai de modo certeiro e repetido na falta ou na perda dos atrativos físicos necessários à profissão. Assim, é recorrente a acusação de velhice das soldadeiras, seja de forma direta, chamando-as de “putas velhas”, seja por via do recuso à equivocatio, como no caso da tenção em que Vasco Peres Pardal e Pedro Amigo de Sevilha discutem quais seriam as fontes dos poderes mágicos da Maria Peres, a Balteira, e acabam por indicar que ela já os possuía desde o reinado de D. Fernando, pai de Afonso X, o sábio, sugerindo, assim, sua idade avançada[12].

Da mesma forma, a ausência ou o fim da beleza juvenil é uma outra constante na descrição dessas mulheres. Todavia, a feiúra não se revela por detalhes ou características físicas das soldadeiras. A falta de beleza está, via de regra, relacionada ao fim da juventude ou à chegada da velhice, tema alçado a categoria de tópica no conjunto das cantigas satíricas dedicadas às soldadeiras (CORRAL DÍAZ, 1993).

Na impossibilidade de fornecer um quadro mais detalhado dessas cantigas – pelo estágio inicial de nossos estudos – escolhemos, de modo a exemplificar o que aqui vem se falando sobre as soldadeiras, uma cantiga do trovador João Baveca que se destaca do conjunto dessas quase cinco dezenas de cantigas por aparentemente adentrar em pormenores que estão ausentes de todas as outras. Além disso, o poema de Baveca é um dos poucos que simula dar voz a estas mulheres, o que lhe confere um tom de realismo próximo ao encontrado nas cantigas de amigo – o que também acentua a pouca vulgaridade da cantiga, pois é mais comum nos poemas dedicados às soldadeiras a paródia do ideal de amor cortês expresso pelas cantigas de amor . Tal simulação parece disfarçar o convencionalismo que lhe serve de pano de fundo. Vejamos o que nos diz o poeta[13]:

 Estavam hoje duas soldadeiras

 dizendo bem, a gram pressa, de si,

 e viu a ua delas as olheiras

 de sa companheira, e diss’ assi:

– Que enrugadas olheiras teendes!

E diss’ a outra: – Vós com’ ar veedes

desses ca[belos …………………………..]?[14]

E …………………………………………………….

…………………………………………………….

…………………………………………………….

…………… en’ esse rostro. E des i[15]

diss’ el’ outra vez: – Já vós doit’ avedes;[16]

mais tomad’ aquest’ espelh’ e veeredes

tôdalas vossas sobrancelhas veiras.

E ambas elas eram companheiras,

e diss’ a ua em jogo outrossi:

– Pero nós ambas somos muit’ arteiras,

milhor conhosqu’ eu vós ca vós [a] min.

E diss’ [a] outra: – Vós que conhecedes

a mim tam bem, por que non entendedes

como som covas essas caaveiras?

E depois tomarom senhas masseiras

e banharom-se e loavam-s’ a si;

e quis Deus que, nas palavras primeiras

que ouverom, que chegass’ eu ali;

e diss’ a ua: – Mole ventr’ havedes;

e diss’ a outr’: – E vós mal o ‘scondedes[17]

as tetas que semelham cevadeiras.

                                               (João Baveca, B 1458; V 1068)

Muito embora o poema apresente lacuna dos quatro primeiros versos de sua segunda estrofe nos dois manuscritos, impossibilitando qualquer reconstrução dos sentidos dos versos faltantes, todo o restante do texto é razoavelmente claro. João Baveca, estruturando a cantiga sob uma base narrativa e posicionando-se de modo privilegiado no interior da ação que narra (“e quis Deus que, nas palavras primeiras/ que ouverom, que chegass’ eu ali”), apresenta-nos duas anônimas soldadeiras num diálogo íntimo, em que deixam vazar particularidades físicas uma da outra.

Ainda que os dois primeiros versos sugiram que o diálogo entre as duas mulheres seria amistoso, pois elas estavam “dizendo bem […] de si”, logo nos damos conta que o registro em que se estrutura a cantiga é o da ironia. Em verdade, um discurso tenso, apoiado na inveja e no propósito de detratar uma a outra, perpassa todo o diálogo. Tudo o que se diz, centrado no campo da descrição física, é de teor negativo: acusam-se as olheiras enrugadas, as sobrancelhas embranquecidas, as covas no lugar das maçãs dos rostos, o ventre murcho e os seios flácidos. A ironia do trovador, para além daqueles primeiros versos, acompanha a descrição, pois mesmo depois de desmascarada a farsa do discurso encomiástico, João Baveca segue a afirmar o companheirismo das soldadeiras e o mútuo elogio que marcaria o diálogo entre elas: “E depois tomarom senhas masseiras/ e banharom-se e loavam-s’ a si”.

Todavia, embora pareça deixar revelar de cada uma das mulheres detalhes que poderiam nos permitir reconstruir um perfil para essas anônimas soldadeiras, se atentamos para os pormenores físicos apontados apenas vemos reafirmada aquela tópica da identificação e condenação da velhice, acima referida. Ou seja, todas as marcas físicas registram o envelhecimento das duas soldadeiras. Portanto, o que temos nesta cantiga de João Baveca nada mais é do que uma variação algo original da sátira da velhice, reiteradamente presente neste corpus satírico dedicado às soldadeiras.

Se, com o comentário a esta cantiga, tentarmos buscar uma conclusão, ainda que parcial, desta nossa inicial aproximação ao conjunto de cantigas que tem as soldadeiras como personagem central, podemos afirmar que a ironia e a ambivalência agora plenamente perceptível na fala de uma das soldadeiras, quando diz para sua companheira “Vós, que me conhecedes tam bem”, pode ser estendida aos próprios trovadores e, por conseqüência, a nós, leitores. De fato, assim como a estratégia discursiva a que recorre João Baveca de dar voz às soldadeiras não resiste a uma leitura atenta do que elas dizem, pois o convencionalismo na descrição física que elas fazem uma da outra acaba por revelar o poeta por trás das mulheres; da mesma forma, nosso presumido conhecimento sobre este corpus poético e, conseqüentemente, sobre estas mulheres também ainda não se sustenta em bases sólidas. Portanto, muito ainda falta, ao menos a mim, para, de fato, poder afirmar que “tão bem conheço” as soldadeiras.

Referências bibliográficas:

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[1] Sempre que pensarmos necessário, identificaremos as cantigas pelo primeiro verso destas, já que elas não possuem um título, seguidos das referências aos cancioneiros a que pertencem e à numeração delas no interior desses. Como já está deveras convencionado pelos estudos dedicados ao trovadorismo galego-português, referimo-nos ao Cancioneiro da Biblioteca Nacional por B, e ao Cancioneiro da Vaticana por V.

[2] Num levantamento ainda provisório, acompanhando de perto as leituras e as interpretações de Manuel Rodrigues Lapa, esses são alguns dos nomes das soldadeiras que encontramos: Alvela, Marinha Foça, Domingas Eanes, Elvira, Elvira López, Luzia Sanches, Maior Garcia, Maior Moniz, Maria Aires, Maria do Grave, Maria Dominga, Maria Garcia, Maria Genta, Maria Leve, Maria Negra, Maria Peres, a Balteira, Marinha [Caadoe], Marinha Crespa, Marinha López, Marinha Mejonchi, Marinha Sabugal, Mor da Cana, Orraca Airas, Orraca López, Ouroana, e Peixota.

[3] São essas as cantigas dedicadas a Maior Garcia: Un escudeiro vi oj’ arrufado, B 1454, V 1064 e Maior Garcia sempr’ oi[u] dizer, B 1455, V 1065, ambas de João Baveca; Maior Garcia [vil] tan pobr’ ogano, V 1205, de Pedro Amigo de Sevilha; e Maior Garcia est’ omiziada, B 1578, de Pero de Ambroa.

[4] Maria Leve é cantada em Direi-vos ora que oi dizer, B 1545, Bem viu Dona Maria, B 1547, e Maria Leve, u se maenfestava, B, 1548, todas de João Vasques de Talaveira. Já Maria Negra é tema das seguintes cantigas de Pero Garcia Burgalês: Maria Negra vi eu, em outro dia, B 1382, V 990; Dona Maria Negra, bem talhada, B 1383, V 992; e Maria Negra, desventuirada, B 1383, V 993.

[5] Maria do Grave é referida na seguinte cantiga de João Soares Coelho: Maria do Grave, grav’ é de saber, V, 1016. Já Maria Mateu é personagem da sátira crua de Afonso Eanes de Cotom em Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen, B 1583, V 1115.

[6] Cf. Marinha Foca quis saber, B 1627, V 1161; Marinha Crespa, sabedes filha, B 1628, V 1162; e Marinha López, oi-mais, a seu grado, B, 1631, V 1165, todas de autoria de Pero da Ponte.

[7] Marinha Sabugal é referida na cantiga Traj’ agora Marinha Sabugal, B 1591, V 1123, de Afonso Eanes de Coton; Marinha Mejouchi é personagem do trovador Pedro Amigo de Sevilha na cantiga Marinha Mejouchi, Pero d’ Ambroa, V 1199; já Marinha [Caadoe] é satirizada pelo poeta João Servando na cantiga Don Domingo Caorinha, V, 1030. Duas outras “Marinhas” ainda aparecem nas cantigas dedicadas às soldadeiras: na cantiga Marinha, em tanto folegares, B 1617, V 1150, de Afonso Eanes de Coton; e em A un frade dizen escaralhado, B 1604, V 1136, do trovador Fernando Esquio.

[8] Elvira López aparece como personagem da sátira de João Garcia de Guilhade em duas cantigas recolhidas juntas nos dois cancioneiros que guardam as poesias satíricas galego-portuguesas: Elvira López, que mal vos sabedes, B, 1488, V 1099, e Elvira López, aqui, noutro dia, B 1489, V 1100. Já Pedro Amigo de Sevilha refere-se a uma simples Elvira na cantiga Elvir’, a capa velha dest’ aqui, B 1658, V 1192.

[9] Essas soldadeiras aparecem, respectivamente, nas seguintes cantigas: Dominga Eanes ouve as baralha, B 495, V 78, de Afonso X, o sábio; Dona Ouroana, pois já besta avedes, B 1499, V 1109, de João Garcia de Guilhade; Luzia Sánchez, jazedes em gran falha, V 1017, de João Soares Coelho; Orraca López vi doente un dia, B 1589, V 1121, e A ũa velha quis ora trobar, B 1590, V 1122, ambas de Afonso Eanes de Cotom; e, por fim, a Peixota aparece na cantiga Eu, en Toledo, sempr’ ouço dizer, B 1653, V 1187, de Pero da Ponte.

[10] Neste sentido, veja-se o interessante estudo de MARTÍNEZ PEREIRA, 1999.

[11] São esses os trovadores que dedicaram uma ou mais cantiga à famosa Maria Peres, a Balteira: Afonso X, o sábio, Fernão Velho, João Airas de Santiago, João Baveca, João Vasques, Pedro Amigo de Sevilha, Pero de Ambroa, Pero da Ponte, Pero Garcia Burgalês, Pero Mafaldo e Vasco Peres Pardal.

[12] Cf.: Pedr’ amigo, quero de vós saber, B 1509.

[13] A transcrição da cantiga abaixo segue a edição de LOPES, 2002, por, no caso desta cantiga específica, a nosso ver, ser uma lição mais próxima dos manuscritos, cuja edição em fac-símile também consultamos, e com opções filológicas mais contemporâneas a dos atuais estudos de edição de textos do que a de LAPA, 1995. Todavia, devido à importância da edição de Lapa, identificamos, em nota, as variações que pensamos mais importantes entre as duas lições filológicas.

[14] Em LAPA, 1995: “desses ca[belos sobr’ essas trincheiras]?”.

[15] Em LAPA, 1995: “…………… en esse vosso rostro. E des i”.

[16] Em LAPA, 1995: “diss’ el’ outra vez: – Já vós dult’ avedes”.

[17] Em LAPA, 1995: “e diss’ a outr’: – E vós mal ascondedes”.

 

Dia Nacional da Galícia em Salvador de Bahia

A próxima segunda-feira dia 25 de julho é o Dia Nacional da Galícia. Na Universidade Federal da Bahia, para comemorá-lo, terá lugar, a sala de videoconferências PAFII a seguinte atividade:

  • Palestra sobre o Dia da Galicia e o caminho de Santiago a cargo de Luciano Santos Borges, da Associação Bahiana de Amigos do Caminho de Santiago.
  • Projeção do documentário Afranio, de Víctor Coyote (2009), sobre como o deputado Alonso Ríos tenta fugir pela ribeira do Minho no início da Guerra Civil espanhola.

Feliz Dia Nacional da Galícia a todas e todos os leitores do Quilombo Noroeste!

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Aspectos da desordem urbana: imigrantes ibéricos e a contravenção no Rio de Janeiro republicano (1880-1930)

Érica Sarmiento / Lená Medeiros de Menezes

Professoras de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

*Artigo publicado na revista Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 41, n. 1, p. 164-180, jan.-jun. 2015.

Resumo

A imigração ibérica no Rio de Janeiro do período da Grande Imigração (1880-1930) ocupou lugar de destaque nas principais freguesias da cidade. Nos espaços populares e nas tensões cotidianas que faziam parte do cenário urbano, os espanhóis criaram assentamentos étnicos e concentraram-se em determinados ofícios e profissões, formando redes de solidariedade. Sua participação em atividades consideradas ilícitas, de caráter eminentemente popular, como o jogo do bicho, demonstra o entrosamento desses grupos com a sociedade carioca e a sua inserção e adaptação no cotidiano da cidade. Através de fontes históricas como os processos policiais e os processos de expulsão, esse estudo busca reconstruir algumas histórias de encontros e conflitos, apoio e repulsão, que envolveram os imigrantes ibéricos


A tendência da História em registrar os sucessos tem como resultado o esquecimento lançado sobre empreendimentos mal sucedidos e sobre as trajetórias descritas nos bastidores. Dessa forma, ela acaba por reforçar estereótipos e mitos, como o do imigrante português enriquecido pelo comércio e transformado em comendador.

Certamente muitos foram os que conseguiram ascender socialmente – e até enriquecer – fora de sua terra natal, mas também é verdade que outros amargaram derrotas ou enveredaram pelo mundo do crime e da contravenção. Vários destes buscaram, nos jogos de azar, o caminho da sobrevivência ou o sonho, por um golpe de sorte, de garantir uma vida de maiores facilidades.

No caso de muitos destes contraventores, a circulação pelas delegacias policiais tornou-se rotina, em um jogo de delito e perseguição crivado por distanciamentos sociais que acabavam penalizando os que jogavam nas esquinas ou através de estratégias de ocultamento em quiosques e pequenas casas comerciais, em detrimento dos que apostavam em estabelecimentos de luxo que reproduziam o requinte da burguesia europeia; caso das corridas de cavalo.

No caso dos jogos populares, dispersos por toda a cidade, como denunciavam jornais de época, um importante elemento a destacar é, justamente, a participação de portugueses e espanhóis – em especial de galegos – quer como apostadores, quer como apontadores, quer como banqueiros.

Portugueses e galegos: solidariedade, distanciamentos e tensões    

   As relações entre portugueses e galegos no Rio de Janeiro é anterior ao período da Grande Imigração (1880-1930), embora deva ser considerado que, na segunda metade do Oitocentos, tornou-se visível que os espaços de solidariedade representavam um instrumento de defesa em um mercado de trabalho que se tornava cada vez mais competitivo e instável. Garantir melhores condições de vida significou, para muitos portugueses e galegos, monopolizar determinados “nichos” de mercado. Em tal empreendimento, os imigrantes contavam com a influência de redes de parentesco, compadrio e amizade para obter créditos na praça, comprar imóveis em sociedade e conseguir cartas de boa conduta com comerciantes de prestígio. O comportamento corporativo dos imigrantes portugueses e galegos deu origem, assim, a assentamentos étnicos e à concentração da coletividade em determinados ofícios e profissões.[1]

É possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro […] Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia.

Após terem se estabelecido no Brasil, os imigrantes pioneiros chamariam parentes ou conhecidos oriundos da mesma localidade para trabalharem em seus estabelecimentos, alimentando dessa forma, através do que se convencionou denominar “cadeias migratórias”, os fluxos. Esses precursores passaram, assim, a garantir o assentamento espacial e laboral dos patrícios que chegavam a um país desconhecido, sobre o qual, muitas vezes, só tinham as informações que estes lhes forneciam. As cadeias migratórias funcionavam, dessa forma, como um mecanismo integrador, capaz de atrair e introduzir o imigrante no mercado de trabalho. As próprias “leis” do comércio, bem como as hierarquias estabelecidas no universo comercial, moviam-se através de critérios extraeconômicos como as relações interpessoais e a confiança que o credor tinha naquele que lhe pedia empréstimos ou favores.

Em uma análise diacrônica, é possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro, antes do período de deslocamento dos fluxos massivos que caracterizaram a virada do século XIX para o XX. Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia, exercendo ora a função de fiador, ora a de ambulante, como exemplifica o caso abaixo:

Antonio Ferreira da Cunha, português, morador a Ladeira do Seminário, n° 45, freguesia de São José quer licença para andar ao ganho. Apresenta para seu fiador Domingos da Silva Manahu, estabelecido com quiosque, n.114, morador na Rua Santo Antonio, n.5.[2]

Portugueses e espanhóis/galegos ambulantes, no contexto histórico do Rio de Janeiro de segunda metade do Novecentos, concentravam-se, majoritariamente, nas freguesias centrais da cidade, especialmente nas freguesias de São José e Santo Antonio. O fiador acima mencionado, por exemplo, era dono de um quiosque no Largo da Carioca (freguesia de Santo Antonio) e tinha sob sua tutela dois ambulantes espanhóis e um português. Na Ladeira do Seminário – onde residia o português que solicitava licença para “andar ao ganho”- viviam, também, quatro espanhóis e seis portugueses.[3] Exemplos emblemáticos, os dois imigrantes são demonstração inequívoca das estratégias de sobrevivência e de inserção na sociedade carioca.

As relações entre os imigrantes ibéricos e o mundo do trabalho podem, também, ser analisadas através de uma fonte rica em elementos do cotidiano: os processos policiais. Depositados no Arquivo Nacional, situado na cidade do Rio de Janeiro, esses processos, para além das relações no espaço do trabalho, relatam o grau de tensão e violência que permeava as relações no mercado de trabalho, bem como os embates travados entre a policia e entre as clases populares em um contexto da transformação da capital brasileira em uma cidade disciplinar.

Os casos de violência no interior do mercado de trabalho, em especial, são importantes para o estudo das relações de dominação cotidiana. Dentre outros aspectos, porque, além de motivações materiais, elas contêm motivações subjetivas no contexto de relações permeadas pela violencia..[4] Dessa forma, o cotidiano aparece como a dimensão que homogeniza e unifica a experiência do grupo, como no caso dos galegos e dos portugueses que se apropriaram do espaço urbano carioca, concentrando-se em determinados bairros e atuando no pequeno comércio. Os processos policiais contra alguns instaurados transformam-se, assim, em fontes históricas que nos permitem comprender, através da atuação da policía, o comportamento das elites e as imagens relativas aos imigrantes. Outrossim, os processos possibilitam visualizar as interpretações que cada grupo elaborava a respeito dos mecanismos de dominação social.

Em sua obra Proletários de Casaca, Trabalhadores do comércio carioca (1850-1911), Fabiane Popinigis, analisa 1.112 processos de ofensas físicas e homicídios. Ao analisar o pequeno comércio das áreas centrais do Rio de Janeiro, a autora, inevitavelmente, depara-se com a presença ibérica, majoritária na cidade.[5]

Um dos processos analisados por Popinigis refere-se às desavenças ocorridas, no ano de 1901, entre o caixeiro espanhol José Cavenhago Pumar, de 19 anos, e o caixeiro português Alberto da Silva Peixoto, de 28 anos. Ambos trabalhavam nos arredores da Freguesia de Santo Antonio, um dos espaços de grande concentração de imigrantes provenientes da Península Ibérica. Assim, portugueses e galegos reelaboravam o cotidiano e construíam suas estratégias de sobrevivência.

Jogos de azar: prática do citidiano

A inserção dos imigrante na terra de acolhida ultrapassava, porém, o estereótipo do estrangeiro honesto e trabalhador, tendo em vista os espaços ocupados nos mundos da contravenção e do crime. Era o caso, por exemplo, do envolvimento de imigrantes portugueses e galegos nos jogos de azar. O ritual inerente ao jogo fomenta sempre uma relação de reciprocidade, onde podem ser verificados valores como os de compromisso e lealdade, envolvendo apostadores e banqueiros.

No Brasil, a repressão a alguns dos jogos, considerados de “azar” surgiu com a República e, nesse combate, as diferenciações sociais jogaram papel de relevo, principalmente com relação aos jogos populares, situados à margem da orden constituída. Observe-se que as relações travadas no universo dos jogos populares implica sempre valores de compromisso e lealdade entre o apostador e o banqueiro. É isso que assegura a confiabilidade e sustenta o processo. Esses valores podem ser demonstrados pela prisão em flagrante e os autos do processo que envolve cinco imigrantes portugueses e um de origem galega. Segundo esses autos, no dia 26 de julho do ano de 1902, em um sobrado localizado na Rua Visconde do Rio Branco, n.39, no centro da Cidade,

… foi dada busca na casa e apreendidos: uma pequena lata com um orifício na tampa em que se achava na mesa formada para o jogo, diversos baralhos de cartas que também se achavam sobre a mesa formada para o jogo, um macho, uma taboa, dois cavaletes e tais bancos…[6]

A polícia deteve e encaminhou delegacia todos os presentes, acusados de praticarem jogos ilícitos à delegacia. Eles encontravam-se, segundo os investigadores, jogando o chamado “jogo do monte”. Segundo os autos, o galego Benito Pouza foi encontrado com um baralho de cartas servindo de banqueiro do referido jogo, em uma casa de propriedade de um português, natural de Villa Real: Antonio Joaquim Oliveira.

Durante o interrogatório, o galego José Benito Pousa e o português Francisco Rodrigues construíram seus depoimentos com base nos mesmos argumentos. Ambos alegaram não participavam do jogo e eram simples assistentes do jogo que os outros imigrantes praticavam. Justificando sua inocência, ambos afirmaram não haver qualquer motivo para serem levados à delegacia. Outro acusado, por outro lado, Manuel Ferreira da Silva, defendeu-se com a argumentação de que havia se dirigido ao local somente para buscar uns amigos. O depoimento do quarto acusado, Antonio Joaquim Gomes, foi, no mínimo surpreendente pois, para se livrar da acusação, explicou que estava “a procura de uma meretriz que residia neste local e que havia sido informado que ela havia mudado de residência justamente naquele dia”. O último imigrante a depor, José Pereira Gomes, negou estar no recinto e alegou ter sido preso pela polícia quando estava caminhando pela rua. Verdadeiras ou falsas, todas as declarações negavam o envolvimento dos imigrantes nos jogos de azar. Com exceção de um dos portugueses, nenhum dos demais declarou conhecer os acusados, como estratégia para evitar a detenção, alegando que se protegiam, dessa forma, da perseguição policial.

Vale ressaltar que, nos primeiros decênios do século XX, no contexto do combate amplo aos imigrantes considerados indesejáveis,[7] a polícia carioca perseguiu todos aqueles que se envolvessem em atos de desordem, em prol de uma limpeza moral e material condizente com o projeto de civilização que a república queria empreender. Segundo Marcos Bretas, parte da população carioca, pelo menos, aderia às cruzadas morais em defesa da ordem pública e apresentava suas queixas contra vagabundos envolvidos em apostas ou em jogos de futebol.[8]

Na segunda fase do processo que vimos relatando, somente dois réus compareceram: Antonio José Pereira Gomes e Antonio Joaquim de Oliveira, ambos soltos após pagarem fiança. É importante frisar que, apesar de, nas primeiras declarações dos envolvidos, não haver menção da relação que os unia para além do jogo, a situação parece ter mudado nos autos de defesa. As testemunhas arroladas eram formadas, também, por imigrantes: um italiano e dois portugueses. Em seus depoimentos, todas confirmaram que os acusados – os portugueses e o galego – não viviam do sustento do jogo, sendo, ao contrário, homens laboriosos e bem empregados. Quem eram, porém, essas testemunhas? Todos eles eram negociantes na Rua Visconde do Rio Branco, a mesma rua onde os acusados foram pegos em flagrante. Após as testemunhas se pronunciarem, o processo foi encerrado e os réus absolvidos. Percebemos, assim, comportamentos que tendem a se repetir nos processo: a proteção aos patrícios e as vantagens de ter boas relações na praça. Palavras como “honradez”, “honestidade”, quando proferidas por um conceituado comerciante, transformavam-se em defesa valiosa para um estrangeiro acusado, que podia valer a absolvição, considerando os perigos que rondavam as classes populares frente à verdadeira cruzada em que se constituía a caça aos vadios e vagabundos que “contaminavam”, com sua presença, a “saúde” social. Nesse sentido, as redes de solidariedade eram não só importantes quanto mecanismos de defesa.

O problema das jogatinas e a perseguição aos imigrantes, ao longo de toda a chamada Primeira República (1889-1930), com destaque para os ibéricos, continuaram a ser responsáveis pela instauração de muitos processos, no contexto da repressão à vadiagem e da definição do trabalho como valor social.

“Jogo do bicho”: o mais popular dentre os jogos de azar

Uma nova modalidade de jogos de azar foi criada no final do século XIX: o “jogo do bicho”, idealizado, em 1892, por João Baptista Vianna Drummond, conhecido como o Barão de Drummond, proprietário do zoológico do Rio de Janeiro, localizado no bairro de Vila Isabel e fundado em 1884. Os sorteios e as apostas atraiam multidões, que passaram a difundir o jogo para além das portas do zoológico. O ritual da aposta se projetou no imaginário urbano, originando uma rede de intermediários para o seu financiamento. O jogo ganhou as ruas e passou a ser “apontado” em pequenos estabelecimentos da cidade, surgindo, então, a figura dos “banqueiros do bicho” (“bicheiros”), contraventores que se enraizariam na sociedade carioca.

Nos pequenos estabelecimentos, a população jogava através de curiosas estratégias e anotações nos cadernos de dívidas do estabelecimento, narradas por Luís Edmundo ao descrever o Rio de Janeiro “do seu tempo”:

Quem paga o bicho é a patroa, porque, quando elas chegam à casa, não esquecem de dizer:

– Qual esse seu Manoel da esquina está ficando cada vez mais careiro! Veja só se isso está direito, patroa, olhe só para estes quatro de alhos e quatro de cebolas! Não falam no dinheiro que apostam, incluído, também, no preço daquilo que compraram.[9]

Observe-se que, no caso acima ilustrado, o jogo foi feito por uma empregada doméstica, que lançou os custos do jogo por ela feito nas dívidas da patroa. O local de registro do jogo é um estabelecimento de víveres, de propriedade de um português ou de um galego: seu Manoel; um dentre tantos imigrantes de igual nome espalhados pelas “esquinas” da cidade. A estratégia de ocultamento, por outro lado, explicava-se não apenas pela intenção da criada em não arcar com os custos do vício, mas, também, devido à proibição e perseguição policial que fazia, muitas vezes, com que os apostadores literalmente engolissem suas apostas, de modo a escapar do flagrante.

A primeira proibição do “bicho” data de 1895 e foi explicada pela concorrência do jogo – extremamente popular – com o sistema de loterias federais, este legalizado. Por outro lado, “jogar no bicho” tornou-se ação definidora de vagabundagem, o que reproduzia, em última instância, estereótipos e preconceitos com relação às classes populares.[10] A popularidade do jogo, entretanto, era tanta que ele se tornou ato cotidiano entre as classes populares que, diariamente, passaram a apostar no “bicho”.

A relação de portugueses e galegos com o jogo do bicho é antiga, tendo sido iniciada em época que antecedeu a sua proibição. Ao que tudo indica, o precursor da venda de bilhetes foi um imigrante galego chamado Manoel Cavanelas. Segundo entrevistas realizadas com patrícios e contemporâneos de Cavanelas, esse galego – que alcançou uma importante ascensão socioeconômica na primeira metade do século XX – chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1894, com somente 17 anos de idade. A partir desse momento, começou a vender bilhetes do jogo do bicho a encargo de seu patrão, o Barão de Drummond. Quando Cavanelas passou a gerenciar as lojas de loterias do Barão, sua ascensão econômica foi surpreendente. Os dois se tornaram muito amigos e o Barão pediu ao galego que abrisse uma casa de loteria na Praça Olavo Bilac, número 9. Anos mais tarde, com o progresso dos negócios, Cavanelas comprou todo o edifício. A partir daí, abriu outros tipos de comércio como o negócio de luvas; comprou lojas e outros imóveis, passando a viver de rendas.[11]

A história de Cavanelas, fundador da casa de repouso do Recreio dos Anciãos,[12] e sua inserção no jogo do bicho, foi preservada na memória de imigrantes que compartilharam trajetórias, mantendo-se vivas até o presente. Nesse, como em outros casos, o que os depoimentos revelam, outros documentos comprovam. Percorrendo documentos referentes à freguesia de Santo Antonio, bairro com grande índice de imigração galega e portuguesa, por exemplo, deparamo-nos com um processo instaurado no ano de 1905, referente ao galego Romão Villanova e ao português João Bento, presos em flagrante à rua do Riachuelo:

… os Réus presentes João Bento e Romão Villanova foram presos em flagrante pelo Doutor Delegado por serem encontrados a jogar o denominado jogo do “Bicho” sendo que João Bento era o banqueiro e Romão Villanova comprava o jogo, isto é, era o jogador.” [13]

João Bento, português, e Romão Villanova, galego, foram presos “por estar bancando o jogo denominado do Bicho”. No caso do espanhol, também pelo fato do mesmo “por estar jogando ou comprando o referido jogo”. Segundo os autos do referido processo:

…esse jogo é uma rifa que corre anexa à loteria da Capital Federal, determinando o grupo que ganha o final do primeiro prêmio da referida loteria com os denominantes de Antigo Rio Moderno e Salteado, como se verifica das listas encontradas em poder do réu João Bento e que são as mesmas que lhe são apresentadas nesta ocasião.[14]

Romão Villanova, ao se pronunciar, tentou se justificar perante às aiutoridades, alegando que tinha domicilio certo e profissão honesta, levando à delegacia duas testemunhas para atestar a sua condição de imigrante trabalhador. Ambas as testemunhas eram de origem estrangeira: um espanhol e um italiano. O primeiro deles, Pedro Martinez, espanhol de trinta e dois anos, casado, negociante, morador à rua do Lavradio cento e vinte e nove, sabendo ler e escrever, declarou o seguinte: “que conhece o prontificante, Ramon Villanova, há cerca de dez anos como homem serio e trabalhador, sendo atualmente empregado como pespontador e morador à Rua do Lavradio cento e sessenta e nove.[15]” Segundo o depoimento do acusado, ele entrou no negócio do português “afim de tomar um “alcoólico”, visto a casa ser um depósito de bebidas”.

Os réus foram absolvidos, pois segundo a defesa, as irregularidades do processo eram evidentes, o que determinou seu encerramento por falta de prova da existência da contravenção e por insuficiência das declarações daqueles que haviam testemunhado o flagrante. Nesse sentido, o processo se justificaria pela tentativa de incriminar o português dono da venda e o espanhol que lá ia consumir um “alcoólico”. Na falta de auto de apreensão das listas do jogo e devido ao fato dos depoimentos não terem sido tenham sido lidos às testemunhas, os réus foram considerados inocentes.

Torna-se evidente, assim, que o jogo do bicho demonstra um controle do território que se apresenta como área de força, fazendo surgir diferentes redes de solidariedade e apoio. A implantação da ordem sobre os espaços ligados ao comércio popular levou à criminalização de práticas já enraizadas no cotidiano da cidade.[16] No caso do processo crime acima relatado, os imigrantes presos mostram-se representantes das tensões étnicas e sociais existentes, utilizando as possibilidades e atividades marginais que lhes eram oferecidas.

A popularidade do “bicho” e a inserção de galegos e portugueses em um jogo que, mesmo ilegal, desafiou as proibições, despertou o interesse em diversos trabalhos acadêmicos. Esmeralda Broullón Acuña, em artigo sobre os espanhóis no Brasil, relata o romance de Jorge Díaz, intitulado Los números del elefante. A trama de Díaz aborda a história social do jogo do bicho e apresenta, como protagonista, a Bernardo, imigrante espanhol que chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1954. Ele se converteu em vendedor de bilhetes do jogo do bicho. O autor do livro aborda a questão das máfias controladas por galegos: a máfia da venda de bilhetes de loterias do jogo do bicho[17]. Outro exemplo do interesse acadêmico pela criminalidade dos jogos é a tese de Amy Chazel, Laws of Chance, Brazil´s Clandestine lottery and the making of urban public life. A autora analisa vários processos crimes, todos vinculados a jogos ilícitos, chamando a atenção para a presença de imigrantes portugueses acusados de serem banqueiros do jogo do bicho. Da mesma forma que no processo referente ao galego Romão Villanova e o português João Bento, acima analisado, os imigrantes, analisados por Amy Chazel, também foram absolvidos, ao alegarem em sua defesa, serem comerciantes, terem boa conduta e viverem há muito tempo na cidade Rio de Janeiro.

Todos eram “galegos”

Os processos analisados reúnem elementos valiosos para compreender não só aspectos do cotidiano dos imigrantes quanto as formas pelas quais eles se integraram à sociedade de acolhida. A sobrevivência, adaptação ou modificação das culturas de origem possibilitava que os imigrantes modificassem os seus hábitos de forma a se adaptar à nova organização e espacialização da cidade que os acolhia. No caso dos ibéricos, os laços horizontais e verticais existentes entre eles reproduziam inúmeras formas de associação e solidariedade; solidariedade que, como em todas as relações sociais, admitia hierarquias. Dessa forma, seu viver não representava uma “cópia” da sociedade de origem, mas novas formulações formadas em país estrangeiro, com um processo de adaptação e respeito às instituições e à forma de viver dos brasileiros.

O vocábulo “galego” deixa de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

No tocante às hierarquias, podem ser citadas: a que se formava dentro das redes étnicas e aquela que já estava estabelecida na sociedade receptora; círculos intercomunicantes de sistemas de valores distintos que se confrontavam ou caminhavam paralelamente na cotidianidade das ruas do Rio.

Quando se fala em galego no Rio de janeiro, por outro lado, devemos levar em consideração alguns “deslizamentos” de sentido, que explica que o vocábulo “galego” deixe de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

A questão do significado do “ser galego” tem origens históricas, que remontam às querelas e conflitos do início da República brasileira. O termo “galego”, por exemplo, foi muito utilizado no Jacobinismo,[18] movimento antilusitano estreitamente vinculado à recém-consolidada República e liderado por grupos pertencentes às camadas médias urbanas emergentes. Utilizava-se, então, a expressão “galego vai para tua terra!”, como uma forma de rechaço à população portuguesa que, além de ter a sua postura política associada ao monarquismo, também provocava a inimizade dos nativos da terra devido ao monopólio de muitos setores do pequeno comércio da sociedade carioca, estreitamente ligados às classes populares, como pensões, bares e botequins ou padarias. Aos antigos colonizadores, eram atribuídos, assim, vários males pelos quais a jovem República passava.

O sentido que prevaleceu no imaginário da cidade foi o do “galego português”, inserido majoritariamente no setor do comércio, em contato direto com a população em geral. Esse imaginário, contextualizado em um âmbito histórico específico – o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX – pode ser apreendido no processo movido contra os galegos Manoel Facal Peres e Laureano Taboada.

Segundo os autos do processo, tudo teria começado na casa de pasto de propriedade de um espanhol. Entre brigas e ofensas, o galego insultou o português, chamando-o de “galego”!

… pediu o prato da cozinha da casa de pasto onde é empregado a Rua Visconde do Rio Branco, ao cozinheiro Manoel Facal Peres, um caldo especial para servir a um freguez da casa, que havendo demora elle declarante dirigio-se a porta da cozinha e pedia novamente do cozinheiro Manoel o caldo, que Manoel lhe dirigio pesado insulto e em seguida disse: “seu gallego[19] leve isso lá para fora, apresentando-lhe o caldo; …

Assim como no primeiro processo analisado, vinculado ao jogo de cartas, esses galegos estavam envolvidos com imigrantes portugueses, na conhecida Rua Visconde do Rio Branco, sendo, assim, mais um caso de uma história envolvendo imigrantes galegos e portugueses no espaço comercial carioca do período da Primeira República.

No dia 7 de agosto de 1909, os réus Manoel Facal Peres e Laureano Taboada foram indiciados por ofensas físicas, após terem agredido o português Joaquim Gomes dos Santos. Em seu depoimento, Joaquim Gomes fez questão de enfatizar que o espanhol utilizou a palavra “galego” para insultá-lo e isso não teria sido por acaso, pois o português tinha consciência do peso que a palavra tinha no imaginário dos trabalhadores galegos e portugueses.

A frase “seu galego leve isso lá para fora”, fora enfatizada no momento em que Joaquim estava pedindo ao cozinheiro (Manoel) que agilizasse o serviço. A tensão se iniciou quando Manoel, na posição de caixeiro, exigiu melhores serviços do cozinheiro galego. Não nos interessa analisar qual dos depoimentos apresenta maior veracidade e poder de convencimento, mas sim remarcar a ofensa de um galego a um português, ao insultar a este de “galego”. Assim, quando Manoel Esteves “xingou” o português Joaquim Gomes de “galego” ele estava reproduzindo elementos do imaginário que afetava os portugueses no cotidiano carioca do começo do século XX.

No processo acima analisado, apresentaram-se três testemunhas e dois acusados, todos estrangeiros. O dono do estabelecimento era o espanhol Indalecio Quintelo, que interferiu na confusão armada por seus empregados, os já citados cozinheiros Manoel Facal, Laureano Taboada e o caixeiro Joaquim Gomes. A primeira testemunha é um português, de 33 anos, lavador de prato da casa de pasto. A versão que predominou em todos os depoimentos foi a de que, após uma acirrada discussão, os cozinheiros galegos arremessaram pratos no português, causando-lhe graves ferimentos. Concluímos, então, que na casa de pasto, da Rua Visconde do Rio Branco, n.17, havia uma pequena rede de emigrantes da península ibérica, inseridos no comércio carioca. Para os brasileiros, todos eram “galegos”.

O jogo como motivação para a expulsão

Em alguns casos, os jogos clandestinos constituíram-se em motivo para a instauração de processos de expulsão, conforme determinavam as leis que regulamentavam a entrada e a permanência de estrangeiros no país.[20]

No conjunto de processos de expulsão analisados no livro Os Indesejáveis,[21] embora os processos contra jogadores, apostadores e banqueiros representem pequeno número frente a outras contravenções e crimes, eles trazem importantes indícios para análise. Em primeiro lugar, destaca-se a constatação da maioria dos processados estar constituída por imigrantes portugueses (apenas um era italiano e um era argentino, possivelmente naturalizado). Em segundo lugar, o fato de apenas um dos casos referir-se a outro tipo de jogo que não o jogo do bicho. Finalmente, a constatação de que os processados acabaram escapando da expulsão, apesar do caráter inquisitorial dos processos que, em última instância, tinham decisão praticamente predeterminada.

As justificativas para a restituição da liberdade, por outro lado, reproduzem o exposto em outros processos: tratar-se de proprietário de casa comercial ou indivíduo trabalhador, ao que se acrescenta o fato do indivíduo já estar respondendo a processo instaurado pelo mesmo motivo. Como aparece na defesa de um dos processados, “em virtude da independência dos poderes, a faculdade outorgada ao Executivo de expulsar os estrangeiros não pod[ia] ser exercitada quando este [o indivíduo] se acha[sse] sob a ação direta do Judiciário”.[22]

Serafim Augusto de Almeida, português de Coimbra, foi processado com a idade de 49 anos, no ano de 1930, quando intensa repressão era desencadeada contra o “bicho”. Morador na Lapa, ele era solteiro e alfabetizado e havia chegado ao Brasil no ano de 1911, quando tinha 28 anos. Acusado de infringir o artigo 31 da lei nº 2321, foi qualificado como “bicheiro”. Preso e processado, constituiu advogado que impetrou habeas corpus no qual alegava “a improcedência da prisão vista a quantidade de pessoas que jogavam no bicho”: 30 milhões segundo o advogado, que acrescentava, em sua petição, o fato de, “nas campanhas policiais que de vez em quando [eram] postas em prática”, com vistas a “sufocar os jogos de azar”, elas serem dirigidas não contra os “compradores”, mas apenas “contra os vendedores”, o que, segundo ele, era um absurdo.[23]

Português de Viseu, Antonio Gonçalves de Moraes era empregado no comércio, casado e tinha 30 anos quando foi processado em 1930. Vivia no Rio de Janeiro desde os 13 anos e já fora preso processado outras vezes pelo mesmo motivo: o jogo do bicho. Como possuía vários bens no Brasil e estava casado há cinco anos com brasileira, provando, também, ser trabalhador, escapou da expulsão.[24]

Sapateiro por profissão, casado, analfabeto (só assinava o nome), Anibal Serrano, natural de Lisboa, tinha 39 anos quando foi processado em 1930, tendo entrado no Brasil quando tinha apenas 12 anos. Nos autos do processo consta um número da Revista Criminal, datada de fevereiro de 1929, que traz a notícia da prisão, com vistas expulsão, do estrangeiro e contesta a ação da polícia, declarando que ela era ilegal, tendo em vista que o acusado era proprietário de uma casa comercial, “não podendo, portanto, ser considerado vadio e estar sob ação da justiça.” Serrano acabou sendo posto em liberdade em 14 de abril do ano do processo: 1930.[25]

A análise destes processos aponta para duas questões importantes. Em primeiro lugar, o fato do jogo do bicho, por sua popularidade, ter grande capilaridade entre a população, encaminhando várias formas de resistência. Por outro lado as tensões permanentes entre os que estavam envolvidos com o jogo e a polícia, não raras vezes constituída por agentes que também gostavam do jogo, fingiam não ver a jogatina, espalhada por toda parte ou cobravam propina para não realizarem sua tarefa, acobertando a prática que se tornara generalizada.

A partir dessas observações, é possível dizer que

… também no Brasil, coexistiram diferentes atitudes perante o jogo ou, segundo as reflexões e palavras de Thompson, “persistiram atitudes populares em relação ao crime [e a contravenção], chegando a constituir um código não escrito totalmente diferente das leis do país”. Para Thompson, a “distinção entre o código legal e o código popular não escrito” pode ser observada em qualquer época,[26] razão pela qual – guardados os devidos distanciamentos temporais – consideramos que a existência paralela desses dois “códigos” – o não escrito e o legal – se manifesta no tocante à permanência do jogo do bicho como arma popular de resistência nos séculos que se seguiram a sua popularização.[27]

A coexistência acima enunciada mostra-se presente, também, nas formas pelas quais os jornais cariocas – destaque para o Jornal do Brasil – davam “dicas”[28] à população sobre o “bicho” do dia,[29] dispersando desenhos de animais pelas páginas do jornal, relatando sonhos, propondo adivinhações e outras tantas estratégias de disfarce, amplamente conhecidas pelos adeptos do jogo, que corriam às bancas de jornais, em busca dessas indicações; hábito tornado diário em uma cidade que, segundo o advogado de Serafim de Almeida, 30 milhões de pessoas jogavam.

Referências bibliográfica

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Medeiros, Simone (2014), Resistência e rebeldia nas fazendas de Café de São Carlos (1880-1914). Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.

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Menezes, Lená Medeiros de, Os Indesejáveis. Protesto, crime e expulsão na Capital Federal (1890-1930), Rio de Janeiro, EdUERJ, 1986.

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Sarmiento, Érica (2013), “Convívio e conflito nos trópicos: portugueses e galegos no Rio de Janeiro”, en Arruda, Jobson; Ferlini, Vera Lúcia Amaral; Matos, Maria Izilda Santos; Sousa, Fernando (coord.) (2013), De colonos a Imigrantes. I (E) migração portuguesa para o Brasil, São Paulo: Alameda, 2013, pp. 119- 130.

Thompson, E. P (1987), A formação da classe operária inglesa – I. A árvore da liberdade, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

[1] Sarmiento, Érica 2013, pp. 119- 130.

[2] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879, p.125.

[3] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879.

[4] Medeiros, Simone (2014).

[5] Popinigs, Fabiana (2007).

[6] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 703.

[7] Menezes (1996).

[8] Marcos Bretas ( 1997).

[9] Luís Edmundo (1967), v. 4, pp. 873-4.

[10] Chazkel, Amy (2011).

[11] Entrevista realizada no ano de 2000 a M. B. A identidade do imigrante foi preservada.

[12] Funciona até os dias atuais, localizada no bairro da Tijuca, ainda sob a gerência de imigrantes e descendentes galegos.

[13] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 1264. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

[14] Idem.

[15] Idem.

[16] Chazkel, Amy (2011), p. 50.

[17] Broullón Acuña, Esmeralda (2011), pp. 133-150.

[18] O tema da emigração portuguesa e do jacobinismo está bem desenvolvido no livro de Ribeiro. Ribeiro, Gladys Sabino (1987), P. 51.

[19] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. Depoimento da testemunha Joaquim Gomes dos Santos. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 2346. Grifo nosso.

[20] Vejam-se os decretos nº 1641 de 07 de janeiro de 1907 emº 4247 de 06 de janeiro de 1921. BR. Colecção das Leis da República de 1907 e 1921.

[21] Menezes, Lená Medeiros de (1996).

[22] BR. Arquivo Nacional. Setor do Poder Judiciário (SPJ), módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[23] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[24] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[25] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[26] Thompson, E. P. (1987), p. 62.

[27] Menezes. No prelo para publicação.

[28] Corruptela de “indicações”.

[29] V. Meira, Selena (1995).

Morte de Rei, de Darío Xohán Cabana: reescrever o passado para conhecer o presente

Angélica Batista

Estudante de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

cando haberá na nosa terra un rei que faga

florecer por onde pise o seu cabalo?

Morte de rei, p. 82

Resumo: Sabe-se que Morte de rei (1994), romance do escritor galego Darío Xohán Cabana (1952), é um modo de repensar sobre a escrita literária escrita em galego e uma revisão do que se convencionou chamar de galeguidade. Se a identidade nacional é uma comunidade imaginada composta por símbolos e representações (Cf. HALL, 2006), a Literatura e a História se comportam como “narrativas fundadoras” de uma comunidade. O texto escolhido, desta forma, coloca-se como uma resposta do presente a partir do olhar atento ao passado.

1)Morte de rei: um romance de enfrentamento

Um texto (ficcional ou não) está imerso em um sistema de valores sociais e, como discurso, pode também ser encarado nas perspectivas diacrônica e sincrônica, já que “o texto tem um contexto, e talvez a forma passe a ter sentido tanto por meio da inferência do receptor em relação a um ato de produção quanto por meio do próprio ato de recepção” (HUTCHEON, 1991, p.111). Morte de rei, de Darío Xoan Cabana, é um romance escrito em galego do fim do século XX e reconta a história de D. García II, último rei de Galiza, morto em 1090. Tanto seu tema como sua língua são escolhas não fortuitas que podem ser explicadas contextualmente. O conhecimento da história da literatura da Galiza e da revitalização da língua galega contribui no sentido de que é importante se refletir a importância da obra condutora dentro da cultura em que foi produzida.

2)História e cultura galegas: momentos de resistência

Durante parte da Idade Média, a língua galaico-portuguesa era a língua oficial das cantigas trovadorescas na época em que Portugal e Galiza formavam o mesmo território, antes da independência do primeiro e da unificação da Espanha (MARIÑO PAZ, 1998). Além das cantigas, as primeiras obras narrativas escritas em língua galega foram as de matéria artúrica, o que se constituiu em base para a construção do imaginário céltico da identidade galega. É inegável a influência da matéria de Bretanha e das gestas na literatura galega como um todo.

No período compreendido entre os séculos XIV e XVIII, conhecidos como os séculos de decadência, a língua galega sofre declínio, sendo desconsiderada como língua culta: o galego é substituído pelo castelhano, adotado como língua oficial espanhola. A unificação da Espanha pelos reis católicos fortalece os poderes de Castela e deprecia a língua e cultura galegas, transformando-as em objeto de escárnio. Por séculos, tentativas de utilização da língua galega como língua formal foram ignoradas, como, por exemplo, a do padre Martín Sarmento (1695-1772), que escreveu no decorrer de sua vida compêndios de botânica e medicina, além de dicionários de galego.

A partir do século XIX este cenário começa a mudar. O ideal romântico de volta às origens também aglutina intelectuais da ciência e da arte em um movimento cultural de afirmação galega. Como marco, pode-se eleger a publicação de Cantares galegos de Rosalía de Castro como forte pressão para a dignidade e reconhecimento da cultura da Galiza, já que foi um livro todo escrito em galego e se utilizou de imagens do cotidiano da província. Livros como o dicionário de Francisco Xavier Rodrigues e a gramática de Francisco Mirás (só para deixar como exemplo), em galego-castelão, também começaram a surgir como expressão do regionalismo crescente (Cf. ZAS, 1999). Deste modo, era necessária uma literatura

(…) que demonstrase a existência dunha nación diferenciada e, por tanto, con dereito a ser tratada como tal no conxunto do Estado español. Esta función identitária da literatura galega conforma unha das súas características fundamentais e, até fins do século XX, camiñou unidas aos movementos ideolóxicos e políticos que tiñan como obxetivo a defensa dos intereses galegos (FONTAÍÑA, 2004, p. 09).

No início do século XX, mais intelectuais adentraram na luta de valorização do galego. Infelizmente, estas vozes foram sufocadas pela Guerra civil e a ditadura de Franco. Manifestos, ensaios e assembleias eram atividades que ajudavam a fortificar o ideário do nacionalismo galego, que exigia em especial a autonomia da Galiza em relação ao resto da Espanha, além de uma organização que unisse Portugal a Galiza (ideia-embrião do conceito de Ibéria Atlântida, em que Portugal e Galiza eram uma só nação) pela língua, posto que o galego possui muitos traços do distante galaico-português e estaria mais próximo da língua portuguesa, e não da espanhola. Para Flavio García:

Para muitos romanistas, filólogos e linguistas – principalmente galegos, portugueses, brasileiros –, a língua falada na Galiza é uma variante cultural do sistema lusófono e, ainda que essa posição não seja unânime, a discussão é efetiva e efervesce os círculos linguístico e políticos da Galiza, já que atinge, diretamente, a questão fundamental da identidade e da autonomia. Enfim, as semelhanças são tão inegáveis que se pode mesmo falar de uma região homogênea no litoral atlântico ocidental da Península Ibérica (GARCÍA, 1999).

Em meados do século XX, um grupo de escritores que depois foram denominados de a Nova Narrativa Galega, influenciados pelo Novo romance e autores como Kafka, Joyce, Faulkner enriquecem a literatura galega com novas propostas estético-conceituais. Após esse movimento fortemente politizado, outros escritores iniciaram a luta que era escrever em galego. Para Manuel Forcadela

Unha vez máis, como unha Ave Fénix que renace das súas borrallas, mesmo depois de que moitos certificasen para sempre a súa morte, Galicia era quen de manifestar a súa vontade de ser no nacional e no político a través dunha serie de escritores que, sen poderen dar conta directa da súas ideas por mor das imposicións da censura franquista, conseguían que o só feito de escribir em galego, de dar conta do pulo creativo    deu a nosa língua seguía a ter, mesmo depois de ficar relegada ao máis completo dos olvidos oficiais, facendo que o mellor da xeración de escritores nacidos em Galicia ao mesmo tempo que se estaba a librar a contenda fratricida no resto do ámbito do estado decantase a súa práctica creadora da continuidade dos traballos abandonados polos exiliados e os vencidos (FORCADELA, 1993, p. 17).

Já para Mercedes Zas,

O obxectivo común a todos eles era a vontade de normalización do galego na escrita e o afán de renovación de temas e formas narrativa da nosa tradición literária. Así por exemplo, vaise producir um achegamento á cultura urbana e a súa problemática social, multiplicación de vocês narrativas, introdución do monólogo interior, ruptura no tratamento do tempo – analepses temporais –, uso moderno da língua que fai que aparezan cultismos e tecnicismos de diferentes disciplinas, ademais os galicismos ou anglicismos, e, póla contra, aisencia de hiperenxebrismos, tan ccomúns na época de Nós, dado o pouco afán diferencialista dos novos narradores/as. (ZAS,1999, p.58)

Após a queda do regime, novas editoras, jornais e revistas escritas na língua nativa surgiram. As crianças são alfabetizadas em galego e possuem programa próprio. No entanto, a importância do castelhano é ainda esmagadora e o número de falantes de galego decresce. Mesmo assim, a literatura galega tomou rumos bem interessantes. Para Gonzáles-Millán, a crítica normalmente destaca características como

contraste entre o vanguardismo rupturista da poesía e a lenta evolución da narrativa; (…) a consolidación de autores cunha obra significativa anterior a estes anos (…) a progressiva relevância da novela sobre o relato, e a expansión de determinadas modalidades narrativas (a infantil e a xuvenil, e a denominada novela de xénero), fenómenos estes últimos que adquirirían um espacial protagonismo n década seguinte, polo impacto cada vez máis visible da cultura urbana no imaxinario literário (GONZÁLES-MILLAN,1996,p. 19).

Para o autor, a dinâmica da literatura galega pós-1975 se dá pelas profundas mudanças que ocorreram na Galiza e no sistema literário como um todo: formação de prêmios literários importantes, consolidação de associação de escritores a cooficialidade do galego na administração pública e no ensino, além de métodos diferenciados para a renovação do galego. A confluência destes fatores modificaram a produção e consumo da literatura galega e deu a ela autonomia e legitimação. Como macrotemas da narrativa pós-franquista, pode-se destacar

a memoria, a identidade colectiva, o (auto)biografismo, a infância e a xuventude, a experiência urbana(…) a tensión (cada vez menos maniquea) entre mundo urbano e mundo rural e entre realidade e fantasia, a guerra civil, o paraíso perdido, a visión apocalíptica, o vello mito da Terra-Nai, a emigración e a autoconciencia da escrita literária. Sem dúbida, a representación da experiencia urbana debe figurar como un dos indicadores máis importantes nas transformacións temáticas da narrativa galega destes anos (GONZÁLES-MILLÁN, 1996, p. 55).

O nacionalismo literário tão caro a muitos autores galegos vem sendo paulatinamente abandonado pela geração pós-franquista, mas ainda atua na formação do imaginário galego “fundamentalmente porque as solucións políticas e sociais non teñen acadado a efectividade necesaria e desexada polos sectores máis comprometidos da sociedade” (Gonzáles-Millán, 1996, p.44). É nesta esteira que se encontra o autor estudado.

Darío Xohán Cabana iniciou sua carreira como poeta e tradutor. Em determinado momento, começou a escrever narrativas em que recuperava figuras do imaginário galego, além de literatura infanto-juvenil e ensaios acadêmicos. Como exemplos mais emblemáticos dessa recuperação de figuras histórico-míticas ou de cenários medievais em sua produção literária, estão os romances Galvan em Saor (1989), Cándido Branco e o Cabaleiro Negro (1992), Cervo na torre (1994), Morte de Rei (1996), além de poemas esparsos em vários livros que recontam as histórias advindas do imaginário galego. Grande tradutor e cultor da literatura nacional, Darío Xoan Cabana afirma

A literatura galega é unha literatura maior. ¿Ou acaso hai nas Españas un poeta de setenta anos coma Méndez Ferrín, ou unha poeta de trinta coma Olga Novo? O único que lle falta á literatura galega é a independencia nacional, pero iso fáltanos a todos, non só ós escritores. E sobrar non vexo que sobre nada: que nazan cen flores e que florezan cen escolas. Incluso os libros mediocres fan de base prós altos cumes. E os malos de todo, con non lelos xa está (http://armandorequeixo.blogaliza.org/)

Fortemente galeguista, Cabana tem como foco a identidade política e cultura da Galiza, pensando em sua província como uma nação contra-hegemônica que enfrenta Castela desde sempre. Sua preocupação com a formação e permanência de uma “mitologia galega” escoa em suas obras de forma contundente

Deste modo, percebe-se que a história e a literatura galegas sempre estiveram imbrincadas. Nada mais natural que o romance escolhido seja eco destes momentos de avanços e recuos na resistência de Galiza.

3)Aspectos de Morte de rei

Sabe-se que D. García II foi filho de D. Fernando I, o Magno, considerado por muitos o primeiro unificador do futuro reino da Espanha, e D. Sancha de Leão. D. Fernando I teve um reinado repleto de lutas e conquistas territoriais, obtendo, assim, a possibilidade de transformar, em reinos, três espaços para seus filhos varões: D. Sancho II, o forte, ficou com Castela; D. Afonso VI, o bravo, com Leão e coube a D. García II o reino de Galiza. Quanto às mulheres, Urraca ficou com o território de Zamorra e Elvira, com o de Toro, além das rendas de monastérios dos reinos.

A insatisfação de D. Sancho com o enlace paterno foi ignorada até a morte de D.Sancha em 1067. Logo após, ele iniciou uma luta entre os irmãos e tentou conquistar os seus reinos. Mancomunado com D. Afonso, resolveu dividir com este o reino de Galiza e aprisionou o irmão caçula em Santarém. Este conseguiu fugir e ficou exilado no Taifa (território mouro subserviente ao rei) de Sevilha por um ano. Nesse ínterim, D. Afonso, cujo reino também fora arrebatado pelo irmão mais velho, não aceitou ser seu vassalo e desistir de seu reinado e também partiu para o exílio em Toledo. Com isso, D. Sancho se intitulou rei de Castela, Leão e Galiza.

No entanto, D. Urraca não aceitou a soberania do irmão e continuou a resistir a seu mando e a conspirar com D. Afonso. No cerco à cidade de Zamorra, D. Sancho é atraiçoado pelo cavaleiro Vellino Dolfos em uma caçada. D. García II se aproveita e retorna à Galiza. Pouco tempo depois, contudo, D. Urraca e D. Afonso decidem se unir mais uma vez e convidam D. García II para uma reunião. Quando D. García II chega ao local, percebe que foi uma armadilha e seus cavalheiros foram desarmados ou mortos. Todas as tentativas de insurreição dos nobres galegos foram sufocadas e D. García, não aceitando a tonsura sugerida por seu irmão e autoproclamado rei de Castela, Leão e Galiza, foi preso. O rei traído permaneceu no castelo de Luna até a sua morte. Faleceu, finalmente, em 1090 e está enterrado no panteão de reis de Santo Isidoro em Leão com os grilhões que o acompanharam em seus últimos anos.

  1. Afonso VI, o Bravo, unificou os reinos de Leão, Castela e Galiza, tendo como conselheira principal sua irmã mais velha. Após a morte de D. García II, não houve mais reis com pensamento em uma Galiza independente. Mesmo havendo depois reis que se intitularam galegos, a política de centralização espanhola só ficou mais forte.

Morte de rei é um romance dividido em dois tempos de narrativa. O primeiro, com D. García ancião, encarcerado e com grilhões nas mãos e pés, retrata a visita de Amaro Érniz, ainda fiel vassalo, e a conversa de ambos sobre os acontecimentos do extinto reino. Nota-se uma tentativa por parte de Amaro em animar seu rei para iniciar uma rebelião, ideia rechaçada por um homem já descrente e alquebrado. O segundo tempo é o da juventude e início do esperançoso reinado de D. García II, notadamente construído como rei cavalheiro cristão e suas dificuldades em unificar a Galiza tentando cumprir sua promessa de dar pão a todos os galegos.

Percebe-se que há uma dicotomia nos dois tempos narrados: o primeiro é dividido pela esperança de um lado, representada por Amaro Érniz, e o fastio e desilusão por outro, de D. García. O segundo é impossibilidade do jovem rei de manter os direitos dos nobres e do clero, que entravam em choque com a promessa de restaurar o sentido de igualdade e liberdade entre os galegos. Tais sentimentos contrastantes se colocam como reflexo de uma sociedade fortemente hierarquizada e excepcionalmente mutável, que era a da Idade Média. Há, então, um clima de perda no romance. Existiu a possibilidade de se fazer um reino bom, justo e cristão, mas forças contrárias derrubaram e aprisionaram D. García II e o sonho dos galegos.

A retomada da história vivida pelas personagens com distância temporal auxilia uma maior compreensão por parte de D. García II sobre os aspectos politico-ideológicos que moveram seus irmãos para unificar a Espanha passando por cima da hegemonia galega. O velho rei admite no romance que sua atuação na história da Galiza foi apagada por meio de estratégias de poder e troca de favores. Como exemplo “real” dessa manipulação intuída no romance, a canção El cantar de Mio Cid, que trata da unificação espanhola e registra os jogos de poder dos irmãos de D. García II, não cita seu nome. Para Miguel Salás Diáz:

No es la selección de este episodio histórico lo que convierte este relato en mitología nacionalista; al fin y al cabo, en todos los mitos se entrelazan, con naturalidad, la realidad y la fantasía. Lo que hace de este relato un acto de manipulación política es el hecho de que su autor convierta una figura histórica real en una figura claramente mesiánica. Para ello renuncia al rigor histórico, a la verosimilitud –veremos que la novela está llena de anacronismos– y opta por convertir la historia de Galicia en un relato maniqueo, de tintes religiosos y escatológicos, en el que el Bien -representado por los galegos– y el Mal -que encaman los españoles – libran una batalla que solamente puede terminar en la victoria de la bondad y la consecuente llegada de una nueva Edad de Oro (DIÁZ, p. 337)

Outro aspecto a ser levado em conta é a presença do epílogo com o glossário de personagens históricos que são citados no decorrer da narrativa. São resumos das biografias das personagens da época e como foram importantes para a história da Península Ibérica. Neste aspecto, o Glossário com as personagens seria ao mesmo tempo uma informação histórica para os que não conhecem a época descrita e uma retomada do texto em sua forma discursiva mais ampla, fazendo uma ponte entre a escrita literária e a verdade histórica. A percepção da leitura do Glossário frente à ficcionalização da história é profícua no que tange à comparação entre a Literatura e a História.

Essa problematização se dá de forma cabal na presença do paratexto do romance condutor. O conceito de Gerard Genette de paratexto se faz importante quando se pensa nesse glossário como fonte de conhecimento histórico e estratégia narrativa bem orquestrada, já que paratexto estende e ressignifica o sentido do texto. Para Genette, os elementos de um paratexto “propiciam ao texto um encontro (variável) e às vezes um comentário, oficial ou oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado à erudição externa nem sempre pode dispor tão facilmente quanto ele gostaria e pretende” (apud ARAUJO, 2010,p.2).

Deste modo, Morte de rei é uma narrativa que revela os meandros politico-ideológicos que perpassam o imaginário galego. Voltar ao passado é uma estratégia de enfrentamento de questões ainda atuais. Repensar os documentos históricos ficcionalmente é buscar o desvelamento da história galega.

4)D. García II: o rei prometido?

Na obra de Darío Xoan Cabana como um todo, a figura de D. García II se faz presente como a de um herói puro, quase mítico. Em seu livro Galvan em Saor (1989), por exemplo, há a presença desta personagem comparada ao rei Artur. Ambos, García e Artur, são tratados como reis há muito desaparecidos, mas ainda presentes no imaginário de seus povos nos “contos de vellas”. D. García II é apresentado como o cervo que anda pelos montes.

Não será aqui aprofundada a influência da tradição artúrica na obra de Cabana (que também se alastra em seus poemas), mas é inegável que as imagens de um rei e de um passado perdidos se atualizam na construção da figura de D. García II. Ele apresenta características heroicas muito delineadas e luminosas: é alto, loiro, bom e superior física e moralmente. Isto é perceptível em especial no segundo capítulo de Morte de rei, quando o servo Erno Cernui, responsável pela educação do infante D. García e pai de Amaro Érniz, conta-lhe a lenda de um antigo rei galego, loiro (como o menino), vestido de ouro e seda branca que “por onde cabalgaba o rei as flores agromaban ainda que fose inverno, porque daquela non xeaba nunca e a neve duraba pouco tempo” (CABANA, 1996, p. 29). Erno Cernui deseja que García tome o rei mítico como exemplo. Percebe-se que esta lenda na construção da narrativa prenuncia todo comportamento de D. García II, rei muito preocupado em estar à altura de tão bonita figura lendária.

A história ocorre em uma Galiza mítica, uma terra sem fome e sem pobres. Como toda boa lenda, possui um herói perfeito cujos dois erros destruíram o destino de sua terra (o que demonstra que a morte do rei é a morte da terra, como ocorre com Artur). Quando avisado de que haveria uma grande tempestade anunciada por uma estrela cadente que resplandecia no céu por várias noites, o rei guardou todo o trigo do reino e deixou as chaves dos celeiros nas mãos dos barões. Este foi o primeiro erro do grande rei. O segundo erro foi o rei abandonar a sua terra por ter vontade de se casar com uma estrangeira. O rei sumiu no mar e nunca mais voltou. Os barões tomaram conta dos celeiros, colocaram um mau rei no lugar e transformaram homens livres em servos.

É muito singular essa lenda por ser posta em um momento em que o infante se pergunta o que é ser um bom rei. O servo Erno Cernui utiliza-se da historieta e conclui

Ti queres ser bon rei,e un bon rei non ten servos. O malo é que ser bon rei quizais era doado no principio do mundo, pero agora é difícil, porque o pecado da cobiza encheu a nosa terra, e hai moitos agravios e moitas feridas que curar, e tamén moitas soberbias que domear. Seres bon rei serache moi difícil, pero eu farei tanto canto puider pra che axudar, e onde non poida morrerei por ti (CABANA, 1996, p.31).

Percebe-se aqui a configuração do ideal de um herói diferenciado. Sentindo-se herdeiro de uma tradição imemorial, D. García II tenta atualizar a lenda buscando em toda a narrativa a volta dos tempos sem fome e sem servos, tendo como bússola a justiça e a igualdade. É um herói não de conquistas e de guerras, mas de distribuição das riquezas do reino, o que causou sua morte, visto que para a nobreza e clero “non convén a rei ocuparse em mesteres de viláns e de servos, que nin sequera cadran ben no máis pobre fidalgo” (CABANA, 1996, p. 187).

Outro ponto a ser evidenciado aqui é o prenúncio de homens que seguirão o jovem rei até a morte. Erno Cernui, assim como vários habitantes de Nemedón (povoado dos homens livres que escolhem seguir D. García II em sua fome de justiça), morre em nome do rei e da liberdade de lavrar em paz em um mundo destituído de cobiça e de servilismo. O rei prometido é o rei de um tempo áureo, e D. García II e seus seguidores querem instaurar esse tempo.

Esta luta se exprime nas palavras do servo quando ele defende as andanças do já rei em outro momento: “(…) A nosa xente agora come pan, graças ó que el nos dá. E algún día termos terras boas, cando haxa paz e seguranza enteira. Entremente iremos a onde el vaia, pois dános gusto ver facer xustiza” (CABANA, 1996, p. 119). Esta fome de igualdade e de liberdade é a causa da morte de todos e da culpa do velho rei, que se recusa a desistir do reinado mesmo quando prisioneiro.

Todo herói deve lutar por um ideal. O símbolo principal da política de D. García II é o pão. Percebe-se a presença do pão em toda a obra de diferentes formas: em refeições, em discussões teológicas, em brigas políticas. Esse ideal aparece logo no início da narrativa, quando o infante se perde na floresta e encontra uma velha que, não sabendo que está diante do futuro regente, oferece o pão que possui. Eis o diálogo que marca a vida do herói:

– este pan é moi raro.(…) Pero está bastante duro, e amarga un pouco moito.

– Porque é ferraxón de millo e landras, meu homiño. A boa gra no dura todo o ano na casa dos pobres.(…)

– (…) Agora que eu, cando sexa rei, hei de mirar porque haxa pan de trigo pra todo o ano en todas as casas de meu reino (CABANA, 1996, p. 23)

Logo após, a senhora descobre que o menino é realmente quem diz ser e pede: “mira polo pan dos pobres, filliño, e así serás bon rei” (CABANA, 1996, p. 25). A promessa do jovem é motivo de desespero do moribundo D. García II que, mesmo às portas da morte, pergunta como foram as colheitas e se haverá pão para os lavradores.

O pão é o motivo de discordância da personagem principal com todos os representantes de poder. A sua distribuição fere a ordem de exploração característica da Idade Média. D. Sancha avisa o protagonista que sua escolha pode ser desastrosa:

– Tamén os teus celeiros! ¡Gastas em trigo o máis das páreas que che mandan os mouros!

– ¿E se viñer um ano mao? ¿Que han de comer os pobres? Os frades non lles abren as súas tullas. Agás tomando em troca as terras que ainda non perderon. (…) ¿ E quen lle podo facer mal xuntando gra pra um ano de laceira?

– Ti mesmo o estás dicindo: a quen espera gañar terras cando faltar o pan nas casas. ¡Ai, meu filliño! Se teus irmáns se volven contra ti, non lles han de faltar axudadores nos teus propios vasalos (CABANA, 1996, p. 120).

Mesmo com os avisos da mãe e de outros amigos, D. García II continua com sua política de igualdade e deixa muitos descontentes. Seus vassalos murmuram contra seu reinado e deixam os servos em um estado de miséria, corroendo assim suas conquistas. O bispo Diego Páiz, porta-voz dos descontentes, afirma em dado momento:

Pensa que es dono do teu reino só por nós e pra nós; a nós nos debes facer ben, pois facéndonos ben afirmaste no trono. Pensa, señor, que levas a coroa de ouro: ¿ que podes ter que ver com rústicos de capucha de estopa? ¿ Que é o que che importa a ti que esa xentiña pase estreituras um inverno? Culpa será dos seus pecados, ou onde nos da súa imprevision. (…) ¿ Onde se viu xamais um rei facer tantas loucuras por homes baixos e servís que nada porteñen? (CABANA, 1996, p. 188)

Ignorando os maus, D. García II segue com o que considera certo e traz com a sua imprevidência e ingenuidade juvenis o enfraquecimento de Galiza. Pouco a pouco, perde seus territórios e seus vassalos e encontra deslealdades nos espaços mais importantes de seu reinado. Seus companheiros leais morrem e o inverno chega com grande fome.

A promessa de instituir uma nova Galiza, de formar uma nação pura e equânime é malograda. O cervo dourado foi esquecido e o pão não foi repartido. Grande dor e desesperança tomam conta da narrativa. Mesmo assim, percebe-se que o fraco rei ainda é uma ameaça pois

O medo ás represálias fai prudentes os homes: ainda pode xurgir outra vez a rebelión e abalar os três reinos baixo dos pés dun rei traidor. Eso temen alguns, mas Amaro Érniz nos o espera; e Don García de Galiza menos, mais Amaro nos quere dicirle ó rei encadeado que poucos amigos lle quedan xa entre os que teñen poder e a forza (CABANA, 1996, p. 15)

Mesmo morrendo e sem muitos vassalos, D. García II é uma força a ser reconhecida. A não aceitação do rei traidor é uma realidade. Se D. Afonso VI estivesse completamente acomodado em sua posição, não precisaria temer a revolta de D. García II, muito menos pedir sua tonsura reiteradamente. Esta fraca, mas constante pulsão da Galiza –incorporada por seu rei – é a resistência inequívoca da língua e cultura galegas frente à força estrangeira. Galiza nunca mais reconheceu outro soberano.

5)A maldição de D. García II: o poder do sangue

É interessante perceber na construção narrativa faces contrastantes da figura de D. García II. Ao mesmo tempo em que é um herói cujo destino é resgatar a Galiza mítica, percebe-se desde seu nascimento entraves para este resgate: o seu sangue carrega a “estirpe de Caim”, ou seja, era destino da prole de D. Fernando I ser desmembrada e rasgada pelos pecados do pai, que matou o irmão e o cunhado para obter poder.

O fato de existir luz e sombra, destino e maldição no elaborar da figura do último soberano resgata a ideia defendida anteriormente de que não existe uma verdade única e simples na narrativa escolhida. A complexidade da personagem está também em suas raízes, que se desdobra em um jogo alegórico muito rico: o cervo solto nas montanhas tem como destino ser perseguido pelo lobo e pela raposa, além de ser picado pela víbora.

As figuras elencadas acima são fruto de um sonho de infância de D. García na mesma noite em que ele jura ao povo de Nemedón terras férteis para lavrar assim que fosse rei (terras que ainda a serem conquistadas, diga-se de passagem). O fato de acontecer o mesmo sonho no dia de seu juramento já demonstra o que ocorrerá no decorrer da trama. Eis o sonho:

Soñei que eu era un cervo xigantesco que ía brincando de cume en cume, e vía todo o reino de Galiza con todos os seus vales e cortinas e cidades e vilas e lugares e camiños e fragas. E vía prás estremas do Merídia sítios quentes e fértiles dos reis de mourindade, onde estender o meu reinado pra darlles terras libres ós homes bos de Nemedón que seguían o cervo que era rei. E de pronto aquel cervo que era eu comezou a volverse pequeniño, e xa non vía máis cós dous arrós dunha congstra embazada de esterpes e xardón, e o cervo ía sangrando, perseguido por un lobo feroz e um gran raposo negro. Eu corría ferido, pero non me collían, e entón metín o pé nunha carrouceira de herba má, e adentoume unha víbora e cain, e xa non me puiden levantar, e o lobo e o raposo xa chegaban coas súas bocas de dentes afiados… (CABANA, 1996, p. 67)

No decorrer da narrativa, vai sendo delineado quem são o lobo, a raposa e a víbora. D. Sancho II é o lobo: vocifera e ataca sem pensar. Não esconde seu descontentamento com a divisão do reino. Todas as suas aparições estão relacionadas a brigas familiares e guerras. Guerreiro notável e respeitado, quando prende o caçula, tenta dobra-lo por meio da força e diálogo entre eles é impossível. Como lobo, é passional e perigoso, mas é honesto em sua caçada e não possui subterfúgios.

Já D. Afonso VI é a raposa, não demonstra seus sentimentos e espera o melhor momento para atacar. Oportunista, tece uma rede de informantes e aliados que derruba os dois irmãos. Quando finalmente consegue o trono por meio de traição, imediatamente inicia uma campanha de fortalecimento de sua posição por meio de chantagem e troca de favores. Compra vassalos e arma intrigas. Tudo com o discurso de que está fazendo o melhor para o reino.

Por fim, a víbora é D. Urraca, uma figura muito dúbia mesmo na tradição histórica: ela é retratada tradicionalmente como uma mulher ardilosa e tomada pelas paixões. Sua relação incestuosa com o irmão Afonso é escancarada no texto de Cabana e só é aludida por D. García II com muita mágoa. Ele considera a mentora de todas as suas agruras e desde o primeiro momento do texto é apresentada como alguém cujo amor é apenas do irmão favorito.

A relação entre os quatro irmãos e a guerra entre eles é assim definida por D. García II:

Non foi Sancho que o empezou, por máis que Afonso o queira facer crer pra se xustificar (…) Quizabes foi Orraca quem o encirrou contra el…Orraca tamén tiña um grande agravio contra Sancho, maior se cadra ca comigo… ás veces creo que nos ser por ela, nosoutros ó mellor non chagabamos… mas esse non vale pra falar (…) Que Deus a faga arrepender com verdadeira contrición antes da morte corporal (CABANA, 1996, p. 166).

É Urraca que, mesmo não tendo muitas falas no romance, coloca-se como a grande causa da queda do irmão, que não a perdoa junto com o rei traidor. Tal sentimento não se estende ao D. Sancho II, não só por ser morto de forma vil, mas por ser honesto sobre suas atitudes.

O destino dos irmãos é anunciado na narrativa no momento em que D. Fernando I reflete sobre a vida de reis:

¿É igual a Lei de Deus prós reis ca pró resto dos homes? Se é igual ¿ por que nos fxo reis? (…) Matei coas minas mans o meu cuñado, fixen matar o meu irmán, matei e fixen matar milleiros doutros homes que tamén eran meus irmáns por nosso pai Adán, e tomei reinos e riquezas pola forza da espada. (…) Matei os meus irmáns, son da liñaxe de Caín. ¿Estamos condenados os reis ó fatricidio? (…) Crimes que nacen doutros crimes, maldición de Caín que nos persegue!(…) Deus faga que a túa vida nos se encontre coa espada fratricida, nin coas insidias que usa a covardia (CABANA, 1996, p. 80-81).

Após esta reflexão, D. Fernando I aconselha ao filho mais novo amar os irmãos, mas nunca confiar plenamente neles. A cobiça dos irmãos mais velhos é um contraste com a simplicidade do protagonista, que nasceu rei, mas não o desejava, ao contrário de seu pai, que cobiçou e ganhou a coroa por meio da espada.

Os pecados do pai reverberam na vida de seus filhos. D. Fernando I não consegue uma morte tranquila: enquanto agonizava, seus filhos lutavam por territórios e gritavam uns com os outros. Suas últimas palavras são um vaticínio revoltado:

Cheiro a cobiza! Maldita sexa nossa condición, e todos estes ruíns traidores que non agardan máis cá miña morte… a cabeza lles tiña que pinchar… ¡Ai, todo é caste de Caín! Magnates, bispos, infanzóns…¡Abel morreu sen inzo! A sangue e lume tiñas que… A puta da Babilonia… Agarda, agarda… A puta… Ouh, que trapela, fillo, que cilada…¡Ouh, como a armaron, o raposo e a bicha! Vólvete atrás, defende o reino, que non se che apoderen no teu reino… Os castelos… escoita, escoita… (CABANA, 1996, p. 128)

Percebe-se aqui que não era possível a restauração da Galiza, posto que o rei escolhido estava destinado a ser estraçalhado por seus irmãos da casta de Caim. Como Abel, D. García II somente precisou nascer para ser benquisto pelos pais e pelo povo galego. Como todo herói, chamou para si os olhares de vilões muito poderosos. Mas ao contrário dos heróis tradicionais, não conseguiu vencer seus oponentes com o poder da bondade e da justiça. Galiza ainda espera seu rei.

6)Reflexões

Na obra escolhida, a Literatura se utiliza da História e estende seu sentido. Em nenhum momento se constrói a ideia de que o passado é melhor ou pior que o presente, mas é uma história não terminada que fere as relações atuais. O romance condutor:

(…) confronta o passado com o presente, e vice-versa. Numa reação direta contra a tendência de nossa época no sentido de valorizar apenas o novo e a novidade, ele nos faz voltar a um passado repensado, para verificar o que tem valor nessa experiência passada, se é que ali existe mesmo algo de valor. Mas a crítica de sua ironia é uma faca de dois gumes: o passado e o presente são julgados um à luz do outro (HUTCHEON, 1991, p. 63).

Nesta perspectiva, o texto condutor é ponte para a reflexão da verdade na construção narrativa, tendo em vista a revisão do conceito de metaficção historiográfica. Esse conceito tem por característica a utilização de personagens e/ou acontecimentos históricos por meio da problematização da ideia de Literatura e de História a partir da autorreflexão da própria escritura literária. Para Linda Hutcheon

Mais do que negar, ela (a metaficcçao historiográfica) contesta as “verdades” da realidade e da ficção – as elaborações humanas por cujo intermédio conseguimos viver em nosso mundo. A ficção não reflete a realidade, nem a reproduz. Não pode fazê-lo. Na metaficção historiográfica não há nenhuma pretensão de mimese simplista. Em vez disso, a ficção é apresentada como mais um entre os discursos pelos quais elaboramos nossas versões da realidade, e tanto a elaboração como sua necessidade são o que se enfatiza no romance pós-modernista (HUTCHEON, 1991, p. 64).

É possível então dizer que está em xeque o conhecimento histórico e o acesso que temos do passado. A estruturação da personagem D. García II evoca um problema que transborda as páginas da obra e pergunta o que é memória e como o discurso histórico pode ser facilmente moldado pelos inimigos de um rei fracassado, tornando-se, assim, algo que pode ser editado, uma realidade fragmentada. O discurso histórico, editado pelo ficcional, é uma tentativa de relativizar os conceitos de real e de hegemônico na comunidade estudada

A personagem ficcional é ao mesmo tempo ícone de um passado que poderia ser glorioso e exemplo de uma ingenuidade estéril, sem ações válidas para a construção de uma Galiza forte e independente. No fim, há uma literatura pouco nostálgica que se utiliza da história moldada para construir um outro olhar, uma nova perspectiva dos problemas galegos. Erros do passado estão sendo repetidos no presente? Ou é o presente que, ao vislumbrar o passado, percebe seus erros?

Isto não significa que a partir de Morte de rei respostas serão achadas. Pelo contrário, há a negação de uma resposta do que é Galiza, do que é passado, do que é memória. O texto do século XX se coloca como uma versão, como contraponto de uma verdade que se atualiza e se questiona. Como os leitores lidarão com isto é motivo de outra discussão. Sabe-se, no entanto, que para um povo que até hoje não conseguiu sua plena autonomia político-social, o diálogo entre a literatura e a história é sim um caminho para se construir uma nova literatura e uma nova história.

Referências  

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