A arte poética de Lupe Gómez: “Autopoética”

Marisa Alexandra do Campo Cerqueira

Aluna de Galego na Universidade Nova de Lisboa

Guadalupe (aka Lupe) Gómez é uma poeta contemporânea, nascida em 1972 em Fisteus, Curtis, província da Corunha. É também escritora de artigos jornalísticos, de crítica literária e de teatro. A sua poesia tem sido objecto de muitas críticas, sendo algumas delas bastante negativas. A sua obra Os teus dedos na miña braga con regra chegou a ser censurada durante o governo do PP na Galiza. Por isso, pode ser considerada uma poeta marginal, irreverente e combativa.

A obra literária de Gómez inclui títulos como Pornografía (1995), Os teus dedos na miña braga con regra (1999), Poesía fea (2000), Fisteus era un mundo (2001), Querida Uxía (2002), Levantar as tetas (2004), Luz e Lupe (2005), Azul e estranxeira (2005), O útero dos cabalos (2005) ou Quero bailar (2006).

Ora, interessa-me particularmente estudar a arte poética de Goméz a partir de “Autopoética”, texto incluído en Levantar as tetas (Gómez, 2004), entre outros textos oportunos, tendo em vista não tanto a atitude provocadora que é comummente conferida à sua poesia, mas sim a atitude desafiadora juntamente com a possibilidade de releitura das concepções compreendidas nas palavras.

Para melhor entender o seu modo de fazer poesia é necessário saber que, para Lupe Goméz, subjacente ao poema estão as palavras «limpo» e «vivo». Penso que poderá ser esta a sua linha directriz – se estiver correcto fazer tal afirmação – através da qual é construído o poema. Com efeito, a intenção «limpa» e «viva» é, perante a criação do poema, explorada dando azo a novos sentidos, possibilitando a releitura e a reinterpretação de palavras, expressões ou frases. Na verdade, segundo a autora, a função da arte passa por confrontar a realidade evidenciando-a, com o fim de exprimir uma posição contra, ou, ainda, provocar e causar descontentamento, apontando e estimulando novas aproximações e abordagens, obrigando, deste modo, os olhos domesticados a compreender o sentido original das palavras por trás do cultural, ou, antes, a inventar novos modos de as usar. A releitura é então um gesto que limpa e vive a palavra. Tendo em vista a liberdade, cada palavra deve ser justa e sincera.

Neste ponto, vale a pena evidenciar o aspecto anti-cultural da obra de Lupe Goméz: possibilidade de leitura que combate a lógica discursiva através da linguagem poética, usando várias palavras e conceitos fora do seu contexto comum. Assim sendo, a desconstrução da palavra, da ideologia e mitologia patriarcais é insubmissa e subversiva. A voz dessa poeta torna-se assim inconfundível, violenta e desassossegadora. Aqui, a poesia coincide com a política e a revolução.

Uma leitura mais feminista irá ao encontro da reivindicação do estatuto da mulher no mundo literário e na sociedade, tendo tido como ponto de partida Rosalía de Castro. No entanto, a legitimação nacional conferida a Rosalía de Castro poderá também representar uma desvantagem para os escritores contemporâneos, nomeadamente Lupe Gómez. Decerto, o «excesso de vida» pode fazer parte do assunto de composição poética, tal como a questão da identidade nacional ou da identidade feminista. Tal como foi exposto na palestra de Burghard Baltrush [Poesia e Anti-culturalismo: corpo, nação e feminismo na obra de Lupe Gómez, 24/03/2015, Universidade Nova de Lisboa], a atitude anti-cultural é inconformista relativamente ao contexto socio-cultural imediato. “A cultura condiciona a visão do mundo”, disse Ruth Benedict. A par disto encontra-se, da mesma maneira, a resistência aos condicionantes patriarcais.

As vacas danme paz, forza e seguridade. Nunca máis quero agachar a palabra vaca na miña escrita. A miña voz castrada renace na palabra vaca. Da represión da miña fala nace a miña escrita (Gómez, 2001).

A partir deste excerto é possível identificar um elemento comum na poesia de Goméz, a saber: a “vaca”. A “vaca” poderá conter duplo sentido, ou seja, “vaca” como elemento identitário da nação, tentativa de recuperar a essência a partir do ambiente rural, mas, também, “vaca” como elemento-referência da infância da poeta, ou, ainda, como metáfora da união entre a essência rural e a atitude insubmissa da mesma: “Abrazar/ aos mozos/ é como/ mirar vacas” (Gómez, 2004), ou “III. O Amor das Vacas” (Gómez, 2004). A “vaca”, por outro lado, poderá ser apenas a procura de uma arte poética, que não tem de estar alheada de uma ética social e política, mas também não tem de representar o modelo feminino patriarcal ou estratégias de auto-representação. A ruptura com os arquétipos tradicionais é, ao fim e ao cabo, a necessidade de ruptura com a moral restritiva vigente. Com efeito, este processo poderá ser exemplificado através da aplicação de palavras como “vaca” ou “puta”, “merda”, etc., em novos contextos, talvez mais simples e mais justos. Este fenómeno pode ser visto como um gesto que revisita a palavra, um tratamento que a reajusta e a aproxima da definição original, e, ainda, lhe oferece a possibilidade de reinterpretação, usando-a em outros contextos. A moral colectiva e «cultural» assim pensada poderá ser objecto de modificação e evolução positiva.

A poesía concibida como política e revolución combina o traballo arduo da desconstrución e da tradución ideolóxicas, acompañada da delicia modernista da “pornoprovocación”, como tamén da utopía de recuperar unha expresión directa, non retórica, non representativa e liberada de todas as amarras convencionais: “descobrir a parte humana da sociedade que non morreu, que está aí, na hipocrisía. Romper a creación, imaxinarnos deuses en vez de aspirar a ser marionetas. Amar a poesía, non inmobilizala senón rompela e recoller os trozos da estatua.” (Almeida e Baltrusch, 2011 [2005], 8).

A meu ver, a beleza dos versos citados no parágrafo anterior, ou do terceiro capítulo da obra Levantar as Tetas, torna-se mais evidente se se ler a palavra vaca como sendo realmente uma vaca (mamífero ruminante, fêmea do boi), visto que deste modo o mundo dos possíveis abre-se. Será pois a partir da evidência poética, e, consequentemente, da memória, que se praticará a desmesura da experiência que poderá ser vivida ou imaginada.

A Lupe case hai que extraerllas coma as moas, porque fala moi pouco, só o preciso. E é que o valor das palabras é moi importante para esta poeta que se identifica coa imaxe das vacas, porque nelas, nos seus ollos acuosos, sente a paz, o acougo e a tranquilidade e porque eses animais cos que tanto conviviu na súa infancia lle transmiten a integridade e a bondade da única parte do mundo da que non desexa fuxir. Por se fose pouco, está convencida de que se asemella moito á Heidi. E reivindica a figura daquela nena coa que choraba até sentir as montañas dentro das súas propias entrañas. (Alonso, 2007).

Ora, interessa-me sobretudo, tendo em conta a arte poética de Goméz – estudada em “Autopoética” – debruçar-me sobre a sua expressão, a fim de melhor entender a sua linguagem e admirar os possíveis que daí podem nascer.

Autora dunha poesía considerada «simple», «esencialista», «ruralista» e «autobiográfica» (ou mellor: «sincera»), LG segue unha ruta allea ás poesías ditas culturalistas e revisionistas: “Non me gusta o misterio que entraña a poesía «difícil» e «culturalista». Gústame que o poeta se faga a si mesmo oír e entender.” (Almeida e Baltrusch, 2011 [2005], 8).

Tal como Baltrusch afirma, Lupe Goméz “escolleu regresar ao espazo imbuidor da infancia, ao punto de partida epistemolóxico da consciencia e ao cal se engade a precariedade da subsistencia” (Ibid. 9) – lugar onde cresceu -, em vez de se aproximar de Rosalía ou Penélope. Assim sendo, como já foi referido, a palavra “vaca” é uma das metáforas do vocabulário típico de Goméz; a “vaca” representa o lugar da família, a intimidade e a infância. “Son unha nena nunha casa sen biblioteca. Non me criei nun ambiente intelectual. Crieime na merda.” (Ibid.). Neste ponto, vale a pena sublinhar o uso directo e limpo da linguagem. A palavra “merda” foi escrita com o intuito de representar a realidade, sem artifícios ou adjectivos bonitos. Se formos ao dicionário a descrição que lá aparece associa “merda” à matéria fecal dos animais, facto que não foge da imagem que a poeta nos quer mostrar: ambiente rural e rústico, mas, sobretudo, real, lugar onde a essência perdida do homem se esconde.

Além disso, é a própria autora a dizer que se considera uma poeta “maldita, chea de merda”, preferindo o curral à enciclopédia, contudo, não se deve com isto pensar que Goméz não tem interesses artísticos ou valor literário, pois, pelo contrário, ela “quería ver poesía/ chea de merda/ e fun esa poeta maldita/ chea de merda.” (Ibid.). Sobre isto, uma vez mais, Baltrusch, explica que tanto a poesia como a poeta são desprovidas do carácter sublime e estético canónico, e, antes, cheias de intencionalidade política. A sua poesia é assim a imagem traduzida da realidade. Essa realidade que algumas pessoas têm medo de ver, e, por isso mesmo, Lupe mostra-lha em palavras, a fim de fazê-las compreender a vida ilusória e hipócrita que levam. Portanto, a ideologia política implicada consegue estar a par com a intenção autobiográfica subjacente.

Assim sendo, é possível perceber o fenómeno da nudez poética na sua obra, ou, como Baltrusch esclarece, “a presenza dunha intención de cambiar coordenadas epistemolóxicas a partir da exposición, da nudez autorial”, oferecendo-se para “un acto antropofáxico-cultural e extrémase no acto sensacional de ultrapassar a pel e chegar ata as entrañas.” Deste modo, ainda segundo o mesmo estudioso, a presença da instância autoral é reafirmada na epistemologia do corpo. Ou seja, é a partir de referências ao próprio corpo que a poeta exibe a realidade, sendo o corpo a parte material que interage com a realidade. Em suma, as imagens corporais juntamente com as imagens rurais são a forma utilizada por Goméz para expressar – a meu ver – a verdade patente, «o estado das coisas» e o lugar de onde veio – que não é culto ou nobre. E, se fizermos uma análise mais profunda, mas também simplista, não chegaremos nós à conclusão que Lupe reclama a origem? Afinal, a espécie humana não nasceu certamente dentro de um castelo, tendo por paisagem prateleiras de livros «difíceis». O sujeito é constituído por carne, músculos e ossos, vísceras e excrementos; é originado no acto sexual e nasce com a ausência de preconceitos, tomando-os, depois, para si, na infância por influência social e cultural. Ora, Goméz utiliza esta verdade e aplica-a em situações que trata na sua poesia. Uma dessas situações pode ser o processo de individualização: a exaltação da felicidade, a construção de um sentimento ou sensação e o pensamento libertário. Por isto, os leitores terão de ser pornógrafos: “Quero que os meus lectores sexan pornógrafos, coas pernas abertas, esa xente que vexo pola rúa correndo detrás do sexo. Máis que presentarme en público quero irromper nas súa casas de cemento berrando e animándoos a que dancen fóra dos círculos de baile.” (Ibid.).

Na parte final deste excerto é visível o convite à renúncia normativa, sendo desta maneira que a ideologia política funciona a par da imagem corporal e da descrição da realidade mais íntima. Fazendo-nos reflectir no nosso próprio motivo: afinal, o que é que nos move? Serão as normas sociais ou governativas? Será a ilusão da imagem exterior que as grandes potências industriais tentam impor-nos? A falsa moral? Ou será aquilo que nos torna humanos e que, actualmente, nos encontramos a rejeitar, a parodiar ou, pior, a enfeitar?

Em Lupe Goméz a representação do corpo e do sexo não se esgota a si própria; ambiciona sair do texto e contribuir para a mudança. “O texto pretende irromper casas e abalar unha estrutura social e intelectual fortemente estratificada e marcada polo dominio da lóxica patriarcal, empregando o texto non só coma un medio para representar o corpo, senón para consideralo xa en si como corpo.”

Aqui está um verso que exemplifica o que pretendo: “Querer a poesía, chorar nos seus brazos, masturbar os seus beizos, inflamala.”. É deste modo que a poesia se transforma numa “puta”. É interessante notar na transferência de atributos; o corpo da poesia é também “un corpo de amor, de consolo, de sexo e de subversión”, tal como o da “puta”. Em suma, associando todos os pontos que tenho vindo a expor, a “puta” de Goméz “subverte todas as regras ao impor seu corpo no mostrador da poesía”. E é dando azo a estes elementos vocabulares, políticos, ideológicos e íntimos que a poeta determina a reviravolta entre o sujeito e o objecto. É possível ainda a partir da palavra “puta” extrair a ideia de liberdade, visto que, de acordo com o dicionário, significa qualquer mulher lúbrica que se entregue à libertinagem, ou ainda, algo que é fantástico, excelente e sensacional. No fundo, a liberdade é aqui associada na medida em que o ser humano é livre por direito natural, e, por isso, pode fazer o que desejar com o seu corpo, com o seu pensamento (ou moral) ou com a sua vida. No fundo, a instância de liberdade na poesia de Goméz pode ser empregada por oposição à normatividade, ao culturalismo, dispondo do seu próprio corpo e das suas acções: “Berro/ como unha/ puta,/ esgánome,/ ábrome.” Afirmándose e saindo da periferia: “A relixión da/ xente, tan absurda,/ non saben mirarse/ no espello./ Todos somos/ feos, moi feos,/ todos somos/ ridículos.”

Tal como afirma Baltrusch, “puta” é um instrumento político e por isso o nome de guerra que a poeta deu a si própria no seu livro Pornografia, tendo em conta o valor da liberdade. Lutando contra a negatividade e desestabilizando a ordem e os falsos valores da sociedade. O corpo torna-se então numa consciência. E, porque todas as pessoas têm corpo e reconhecem sensações carnais, talvez, então, a consciência se torne colectiva e universal.

“Só cando suxeito, natureza e arte son entendidas nunha relación complementaria e transversal, pódese dicir que a poesía sangra verdadeiramente sobre o texto impresso”. Com efeito, poderá ser a partir desta explicação que o texto “Autopoética” começa: “A miña autopoética é a miña vida e o meu sangue.” (Gómez, 2004. Todas as próximas citações são desta referência). Assim sendo, o individual é colocado em destaque, sendo que todos os pontos da poética de Goméz discutidos até aqui ganham «corpo» neste texto. Por outras palavras, está presente, na “Autopoética”, a reafirmação da individualidade da autora e da sua poética, sob a forma de relatos de acontecimentos reais, manifestações morais e políticas, exposição de imagens reais a partir da transparência corporal – tudo isto elaborado através de uma linguagem nua, limpa, simples e, acima de tudo, viva.

Para a autora a felicidade está no acto da escrita: “Eu cando escribo transfigúrome nunha puta feliz e gastada. Quero decir que me gusta exporme, descubrirme, abrir a cara tapada.” Deste modo, as palavras abrem-se a novas definições e interpretações; o poder que advém da liberdade transfigura-se na possibilidade e na ausência de fronteiras, sendo a desmaterialização do corpo um gesto revolucionário e ao mesmo tempo pessoal. Portanto, torna-se numa possibilidade o facto de «ser»: “Sen medo, sen pudor. O pudor sería ser falsos. Eu quero navegar mares intensos. (…) Eu quero agarrotar a linguaxe. Tensar ao máximo as palabras. Ata ferilas, ata ferirme, ata rompelas. (…) O importante é fluir, deixar falar, escupir todo, romper o sexo e as pernas, buscar a liberdade nos tellados da poesía, enfermar, correr.”

Há um momento neste texto em que a poeta estreita a ligação com o leitor ao dizer: “ Sinto ese vacío enorme que todos sentimos sempre. Sinto ese frío grande que vexo nos ollos de tódalas persoas.” E como se não bastasse ainda evidencia a sua humanidade ao reconhecer: “sinto amor e sinto sexo” De seguida, teoriza o valor da palavra “sexo”: “O sexo como unha metáfora da existencia. Como un lugar escuro no que nace todo. Como algo escondido que me gusta destapar.” No fundo, o lugar da origem, tal como já foi discutido. E expõe a realidade: “ (…) o sexo é algo moi limpo que nos lava por dentro, que nos emborracha, que nos abre, que non nos deixa. (…) estou contenta cos meus amantes na cama.”

O amor também é definido: “O amor son as alturas das montanhas. (…) Eu son namoradiza como unha vaca.” Ora, pode-se dizer que o “amor” e a “vaca” são os dois lados da construção da identidade poética na obra de Goméz. “Amor” à poesia; “vaca” como metáfora de si mesma, dos seus olhos, da sua voz e do seu interior – um alter-ego -, ou, o porto de abrigo num cenário contemporâneo devastador, alcançando assim uma nova dimensão poética e ética.

Na ausência de um espaço de refúgio, em Lupe Goméz a desfamiliarização, advinda da fusão do humano com o animal, é tão mais aguda quanto mais estrangeiro se vai tornando o animal que percorre as suas obras. Essa fusão com uma outra espécie, com essa alteridade absoluta, (…) tem sido a face mais radical da sua procura de superação da diferença entre o próximo e o outro absoluto, e do seu questionamento sobre o que é ser-se animal e, por consequência, sobre o que é ser-se humano, e sobre se tal diferenciação ontológica chega sequer a existir ou que tipo de importância pode assumir (Almeida, 2013)

Esta citação é um pouco extensa, porém penso que resume claramente parte da intenção desta poeta e da sua poesia. A outra parte prende-se, talvez, na necessidade “de falar bruto e claro. De romper os bordes. De ir directamente ao corazón da xente.” e no “deber de espirme.” Ou seja, prende-se no gesto revolucionário e anti-normativo, impondo uma reviravolta entre o sujeito dominante e o subjugado – “Aínda me alegro cando alguén rompe algo adrede. Aínda me alegro cando rompemos as normas.” – e, também, no dever de falar claro e com transparência; e isso inclui já o dever de romper o medo, porque medos iguais têm-no igualmente os outros: “Penso que nos meus medos poden refuxiarse moitos medos dos demais, de tódalas persoas E ese medo gústame decilo, pronuncialo, confesalo. (…) E berrar nos poemas é unha forma de estalar contra vós, contra as caras dos outros, rompéndoas, e quizais aliviándolas. Correr sem parar ata ser libres. Buscar libertade nos pequenos motivos da vida.” Ora, a poesia é, também, uma forma de ajudar o outro, aliviando-o e tornando-o mais feliz. É pertinente, da mesma maneira, destacar o elemento “liberdade” nesta “Autopoética”, cuja referência já foi discutida. Porém, pode-se, ainda, associar a violência (“berrar nos poemas (…), estalar contra vós”) à criação da liberdade, questionando-se a linguagem e já não só as ideias. Com efeito, pode estar implícita uma utopia libertária: presente contínuo realizado pelo próprio indivíduo, que, por sua vez, é livre das instituições e dos conceitos pré-concebidos.

De seguida, a autora escreve o que para ela é a poesia: “A poesía para min é a miña casa, unha casa marabillosa na que me meto para non saír, e para poder saír, para saber saír.” Escrever não é presumir; é um acto de amor. Um acto de amor porque se desfaz dos obstáculos, ensina a independência do corpo e dos sentimentos, sendo o texto da “Autopoética” a sua declaração e, talvez, até um compromisso. Ao mesmo tempo, a poesia é para a autora uma reflexão sobre si própria, sujeitando-se frequentemente à construção e reconstrução.

Sobre o seu estilo a poeta confessa: “Teño a sensación de estar continuamente escribindo un único poema, de estar repetíndome sempre, sen cansarme.” Poder-se-á facilmente cair no erro de presumir que a sua poesia é apenas uma longa repetição, no entanto – a meu ver – penso que não será o caso; o que Goméz escreve varia de poema para poema e o seu intuito compreende valores diferentes que estão sob a mesma forma estilística. Sendo o seu imaginário anti-canónico, anti-burguês, anti-erudito, e, por isso, mais autónomo, mais transgressor e mais difícil de ser aceite. Mas, não o serão, num primeiro momento, todas as revoluções estéticas?

É uma tentativa de fazer literatura “a partir dun imaxinario das sensacións e do inconsciente, dunha intuición surrealista soamente moldeada por unha idea sensacionista e telúrica dunha terra e cultura de seu.” E estando presente nessa, do mesmo modo, “(…) a representación dun stream of consciousness contracorrente e dunha – totalidade corpória de vida.” (Almeida e Baltrusch, 2013, 47).

“Rebélome contra as palabras mortas e arranco vida da materia morta. (…) Sempre quixen lavar a palabra pecado.” Aqui encontra-se o que eu mais admiro nesta poesia: a possibilidade de ir ao encontro do significado original das palavras e lê-las de uma maneira desafectada “e voltar a quitar as bragas e as faldas de novo, renacer con orgullo na noite. (…) Qué son as palabras? Para min significan e funden moitísimo. Para min son unha realidade profunda.” A realidade deslindada com minúcia é importante para compreender o mundo, o outro e, acima de tudo, para ser-se justo com o eu interior. Nomeia-se para se conhecer. Verifica-se também o desejo de acabar com a tradição poética da mulher como objecto sexual, apelando-se à individualidade, sinceridade e poder de escolha: “Que o difícil sería mentir ou escribir unha novela. Pero na poesía ábrome e libérome e son sincera.”

Continuando na mesma linha de pensamento, o desejo da poeta passa também pela seguinte confissão: “Non quixen ser muller, víctima, burato quieto. Quixen escapar. Decidín escaparme. Fuxir do cárcere e que nunca me encontraran. Vivir miña vida sen que me dictaran o que digo. (…) Eu decidín escapar do país das mulleres. E depois renacer máis fortes, máis dignas, máis humanas. Escapar para encontrar as realidades perdidas. Recompoñer as pezas do sexo. Profundizar nas nosas miradas.” A interpretação que eu faço daqui passa pela procura da essência no acto de escapar, de renascer, de encontrar realidades perdidas, de montar as peças que compõem o sexo e de aprofundar o olhar ou o modo de olhar. Muito disto passa pela maturidade, auto-consciência e consciência do mundo e alegria do conhecimento, pela construção da individualidade, e, por fim, pela auto-nomeação – “ (…) prefiro chamarme Lupeazul” -, que é o reconhecimento do interior face ao exterior. E, depois do eu tornar-se absoluto, há que ser activa e “levantar a poesía e as tetas. Há que adornar o pelo. Temos que ser activos e tristes, temos que chorar e correr.” Goméz apela aos seus leitores: a mudança encontra-se na resposta activa.

Referências Bibliográficas

Almeida, Ana Bela Simões de (2013). “As vacas e os elefantes na obra poética de Lupe Gómez: a construção do eu perante o outro absoluto”. Em Baltrusch (ed.) (2013), 103-109.

Almeida, Ana Bela Simões de, e Burghard Baltrusch (2011 [2005]). “Aproximación crítica á obra de Lupe Gómez. Atentado ao culturalismo”. Anuario Grial de Esyudos Literarios Galegos. 2004: pp. 7-29. Reedição em poesiagalega.org. Arquivo de poéticas contemporâneas na cultura.

Almeida, Ana Bela Simões de, e Burghard Baltrusch (2013). “Atentado ao culturalismo – aproximación crítica á obra de Lupe Gómez”. Em Baltrusch (ed.) (2013), 35-61.

Alonso, Fran. “Lupe Gómez, a provocación libertaria”. El País. Março de 2007. http://elpais.com/diario/2007/03/16/galicia/1174043918_850215.html

Baltrusch, Burghard (2015). “Poesia e Anti-culturalismo: Corpo, Nação e Feminismo na Obra de Lupe Goméz”. Universidade de Vigo. http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch

Baltrusch, Burghard (ed.) (2013). Lupe Goméz: libre e estranxeira. Berlim: Frank & Timme.

Gómez, Lupe (2001). Fisteus era un mundo. Vigo: A Nosa Terra.

— (2004). Levantar as Tetas. A Coruña: Espiral Maior.

As soldadeiras: Vós que conhecedes a mim tam bem…

Márcio Ricardo Coelho Muniz

Professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Resumo: O presente texto é fruto de uma primeira aproximação ao universo de uma importante personagem do corpus poético satírico galego-português: as soldadeiras. Merecedoras da atenção de número significativo de trovadores, as soldadeiras ainda têm existência enigmática para a crítica especializada, que muito pouco se dedicou a revelar-lhes o papel que desempenhavam, as características com que foram descritas e os significados das cantigas a elas dedicadas. Este texto é o início de uma caminhada em busca de uma melhor e maior conhecimento sobre as soldadeiras.

No conjunto de aproximadamente 423 cantigas satíricas editadas pelo professor Manuel Rodrigues Lapa, em sua segunda edição das Cantigas de Escárnio e Maldizer, de 1970 (a 1ª edição é de 1965), ou no considerável alargamento do corpus satírico proposto pela edição recentemente realizada por Graça Videira Lopes (2002), para um número total de 474 cantigas, aproximadamente cinco dezenas delas – ou seja, cerca de 10% por cento do todo – são dedicadas às soldadeiras ou às prostitutas, como a totalidade das cantigas descreve as atividades daquelas (LOPES, 1994, p. 214 e 222; LANCIANI & TAVANI, 1995, p. 168). Esses números são eloqüentes ao confirmarem a importância dessas mulheres no contexto social em que foram produzidas as cantigas satíricas do noroeste peninsular.

Todavia, a contrastar com a relevância quantitativa dada as soldadeiras e com o realismo que caracteriza as cantigas de escárnio e de maldizer, pouco se sabe sobre essas mulheres. Para além das referências a seus comportamentos e práticas sexuais, quase mais nada nos dizem as cantigas satíricas a elas dedicadas. Em realidade, a contradizer a afirmação de uma anônima soldadeira da cantiga de João Baveca, cujos versos 17 e 18 tomamos emprestado para o título deste texto [Estavam hoje duas soldadeiras; B 1458, V 1068[1]], tudo leva a crer que os trovadores e jograis não as conheciam tão bem, pois muito pouco nos dizem sobre elas.

É corrente, por exemplo, na ainda pequena crítica dedicada a essa personagem do mundo trovadoresco galego-português, a constatação do absoluto silêncio relativo à arte da dança e do canto que essas mulheres certamente desempenhavam ao acompanhar jograis e trovadores. Lembremos-nos, junto com Menendez Pidal, que das dezesseis miniaturas presentes no Cancioneiro da Ajuda, em que se representam os momentos de execução das cantigas, doze delas trazem a figura da bailarina ou cantora acompanhando o jogral, algumas vezes segurando umas castanholas, de braços para alto, como se dançassem. Pois bem, sobre essas atividades, seguramente de grande contributo para o êxito das cantigas junto ao público, nada se diz (Menendez Pidal apud LOPES, 1994, p. 222). Como romper este silêncio? Como chegar a essas mulheres? Como vislumbrar-lhes um rosto?

As soldadeiras e seus trovadores

Um primeiro caminho possível para ouvir o que diz este silêncio seria observar quem são as soldadeiras, quem são os poetas que as satirizam, como e se eles se relacionam entre si. Todavia, já adiantando conclusões, este percurso é pouco frutífero, pois se, por um lado, as informações que temos sobre os trovadores são, via de regra, escassas; por outro lado, a historiografia e a crítica dedicada às personagens que habitam a lírica profana galego-portuguesa pouco ou nada nos dizem sobre as soldadeiras. Com a destacável exceção de Maria Peres, a Balteira, sobre quem é possível delinear uma pequena e relativamente segura biografia – que não apresentarei aqui, pois deste Carolina Michaëllis de Vasconcelos, em sua Glosa Marginal VII (VASCONCELOS, 2004), muitos estudiosos já se debruçaram sobre a vida da Balteira (LOPES, 1994, p. 223, nota 2; SOUZA, 2002) –, um silêncio cerrado recai sobre suas companheiras de profissão. De todas as formas, busquemos, com os dados que temos neste momento, uma sistematização do quadro das soldadeiras e de seus trovadores, e vejamos como este pode ajudar-nos em nosso objetivo de esboçar-lhes um rosto.

As soldadeiras nomeadas no cancioneiro satírico são em número aproximado de duas dúzias[2]. Todavia, não é possível afirmar com segurança que a cada nome corresponda uma mulher. Se sobre Maria Peres, a Balteira, temos dados suficientes para situá-la num tempo e espaço social determinado, sobre as outras muitas “Marias” reza um silêncio enigmático. Maria Leve, por exemplo, alvo de três exclusivas cantigas do trovador João Vasques de Talaveira, é associada por Lapa a Balteira, pois a cantiga dedicada a esta pelo trovador está em B rodeada por aquelas outras três dedicadas a Maria Leve [B 1545, 1546, 1547, 1548] (LAPA, 1995, p. 165-166). Todavia, esta associação apoiada apenas na proximidade das cantigas em B é frágil, pois há pelo menos oito soldadeiras denominadas “Maria” pelos trovadores, o que diz mais do comum do nome do que da identidade das cortesãs.

Ainda assim, sobre Maria Leve – se a dissociarmos de Maria Peres, a Balteira –, Maria Negra e Maior Garcia poder-se-ía esboçar alguns traços de suas vidas ou contexto social levando-se em conta o fato de que mais de um trovador a elas dedicou uma cantiga, como é o caso de Maior Garcia, cantada por João Baveca, Pedro Amigo de Sevilha e Pero de Ambroa[3]; ou, por outro lado, quando encontramos o caso de um só trovador ter-lhes dedicado um conjunto de cantigas, casos de Maria Leve e Maria Negra, cantadas, respectivamente, em três cantigas de João Vasquez de Talaveira e em três cantigas de Pero Garcia Burgalês[4]. Da mesma forma, como esses três trovadores também dedicaram cantigas a Maria Peres, a Balteira, não é de todo improvável que essas soldadeiras tenham freqüentado os mesmos ambientes que a famosa cortesã da corte de Afonso X, tendo feito parte do mesmo ciclo cultural e social. A aproximação daquelas três Marias a esta Balteira, em termos contextuais e históricos, pode vir a ser caminho frutífero para desvendarmos seus rostos, percurso que ainda pretendemos trilhar no futuro.

Por outro lado, nada sabemos sobre outras “Marias”, como Maria do Grave e Maria Mateu, a não ser o que se diz nas cantigas sobre suas práticas e hábitos sexuais[5]. O mesmo se dá com as diversas “Marinhas” que aparecem no cancioneiro satírico. Se se pode supor que as três Marinhas satirizadas por Pero da Ponte – Marinha Força, Marinha Crespa e Marinha López[6] – correspondam a uma mesma soldadeira, com apelidos distintos postos pelo trovador galego como mote para seu escárnio, o que dizer sobre Marinha Sabugal, Marinha Mejouchi, Marinha [Caadoe] ou as simplesmente Marinha, alvos das sátiras de outros poetas, sobre os quais não estamos seguros se foram ou não contemporâneos, ou se conviveram ou não entre si, como é o caso de Fernando Esquio e Afonso Eanes de Cotom[7]. Da mesma forma, a Elvira López cantada somente por João Garcia de Guilhade pouco provavelmente corresponda a simples Elvira satirizada por Pedro Amigo de Sevilha[8], pois o primeiro parece não ter freqüentado a corte do rei sábio, como aquele, tendo se mantido em Portugal durante o período do reinado de Afonso X, no terceiro quartel do século XIII, época em que, segundo Vicenç Beltrán, Pedro Amigo de Sevilha teria permanecido na corte do rei castelhano (BELTRÁN, 1993).

Mais complexa no esforço de identificação é a situação daquelas soldadeiras que só receberam a atenção de um trovador, como é o caso de Domingas Eanes, Ourana, Luzia Sanches, Orraca Lopez e uma provável Peixota, satirizada por Pero da Ponte[9]. A propósito desta, vale ressaltar também a dificuldade imposta à crítica pelos nomes dessas mulheres. A estrutura de equívoco sobre a qual se apóia boa parte da sátira feita às soldadeiras se estende certamente a seus apelidos. Nomes como Marinha Meijouchi, Marinha [Caadoe], Marinha Sabugal, Marinha Foça, Marinha Crespa ou Maria Leve vêm intrigando os críticos pelos sentidos implícitos que podem guardar[10]. Como esta Peixota de Pero da Ponte que, citada numa cantiga em que o poeta trata da fama de Toledo como uma vila em que o peixe é raro, tem seu nome confundido com o termo “peixota”, que significa, segundo Lapa, “peixe comum”, que contrastaria com o salmão desejado pelo poeta. Na leitura da cantiga, se consideramos sua construção em equívoco, a provável soldadeira Peixota é descrita como um “peixe comum”, que por sua baixa qualidade, feiúra e velhice, pouco atrai os homens de Toledo e também o poeta (LAPA, 1995, p. 236).

Por sua vez, se olharmos pelo lado dos trovadores, os caminhos a serem trilhados também não são exatamente fáceis. Para além, mais uma vez, de Maria Peres, a Balteira, alvo da sátira de onze poetas, todos, de alguma forma, aglutinados em torno da corte do príncipe ou do já rei Afonso X, o sábio[11]; apenas mais quatro soldadeiras teriam a seu favor a diversidade de trovadores ou a quantidade de cantigas dedicadas a si: as já citadas, Maior Garcia, Maria Leve e Maria Negra, e também Orraca Lopez, a quem Afonso Eanes de Cotom dedicou duas cantigas. Com exceção desta última, as outras podem ser inseridas, como já se disse, no círculo social freqüentado pela Balteira. Já Orraca Lopez poderia contar, para um esboço de sua identidade, com os dados biográficos que possuímos sobre Cotom e com as cantigas que este lhe dedica, não fossem ambos, da mesma forma, escassos de informações.

Casos há de soldadeiras que têm uma única cantiga dedicada a si e, ainda, outras tantas que não são nomeadas pelo trovador em suas cantigas. Sendo os únicos registros sobre essas mulheres, seria a combinação do texto das cantigas e das informações que temos sobre os trovadores o caminho para se chegar a cada uma delas. Como se pode imaginar, uma condição e um esforço bastante ingratos.

Caminhos que não se cruzam

A possível contribuição para delinear o perfil de algumas das soldadeiras dada pela correspondência, acima resumida, entre elas e os trovadores que as satirizaram, esbarra ainda e fundamentalmente na pouca variedade de informações sobre essas mulheres fornecidas pelas próprias cantigas a elas dedicadas e na quase absoluta ausência de marcas de individualidades transmitidas pelos poemas. Se a falta de informação sobre as atividades profissionais de bailarina dessas mulheres causa certo estranhamento e não contribui para sua maior particularização, assim como seus apelidos também não ajudam muito no desvendamento das individualidades, quase tudo o que se diz nas cantigas sobre elas dá-se, como afirma Graça Videira Lopes, num registro erótico-satírico convencional [LOPES, 1994, p. 222]. Se à equivocatio recorre-se com alguma freqüência para a construção da sátira, é da mesma forma recorrente o uso de um tom bastante cru, com alta obscenidade, e com motivações de ordem fundamentalmente sexual na descrição dessas mulheres e de seus hábitos e práticas profissionais.

No conjunto dessas quase cinco dezenas de cantigas, apoiados fundamentalmente nas interpretações propostas por Rodrigues Lapa e Graça Videira Lopes, e a partir de um levantamento ainda não definitivo, conseguimos determinar alguns dos motivos principais das sátiras às soldadeiras. Satiriza-se o desejo carnal desmedido dessas mulheres, as suas conseqüências práticas, como as doenças venéreas que carregam e transmitem, os altos preços que cobram, suas relações com clérigos, disfarçadas em piedade religiosa, as práticas de artes mágicas, os hábitos sexuais heterodoxos, como o lesbianismo – por sinal, como indica Graça Videira Lopes, os casos de lesbianismo no cancioneiro satírico estão todos relacionados com as soldadeiras (LOPES, 1994, p. 224) –, entre outros poucos dados.

De tal forma esses motivos são repetidos que, vistas em conjunto, ressalta dessas cantigas o convencionalismo das ações, das situações e das descrições de que são alvo as soldadeiras. Em realidade, confirma-se nessas cantigas a constatação a que já chegou a historiografia sobre a Idade Média, de que as mulheres medievais são vistas a partir de modelos pré-determinados pelos homens, que, por isto, não alcançam ver quase nada além do que esses modelos são capazes de reproduzir (DUBY, 1989).

Não muito distintas deste convencionalismo são as cantigas em que vazam dados da descrição física dessas mulheres. Como o campo de ação delas está quase completamente restrito às práticas sexuais, a sátira recai de modo certeiro e repetido na falta ou na perda dos atrativos físicos necessários à profissão. Assim, é recorrente a acusação de velhice das soldadeiras, seja de forma direta, chamando-as de “putas velhas”, seja por via do recuso à equivocatio, como no caso da tenção em que Vasco Peres Pardal e Pedro Amigo de Sevilha discutem quais seriam as fontes dos poderes mágicos da Maria Peres, a Balteira, e acabam por indicar que ela já os possuía desde o reinado de D. Fernando, pai de Afonso X, o sábio, sugerindo, assim, sua idade avançada[12].

Da mesma forma, a ausência ou o fim da beleza juvenil é uma outra constante na descrição dessas mulheres. Todavia, a feiúra não se revela por detalhes ou características físicas das soldadeiras. A falta de beleza está, via de regra, relacionada ao fim da juventude ou à chegada da velhice, tema alçado a categoria de tópica no conjunto das cantigas satíricas dedicadas às soldadeiras (CORRAL DÍAZ, 1993).

Na impossibilidade de fornecer um quadro mais detalhado dessas cantigas – pelo estágio inicial de nossos estudos – escolhemos, de modo a exemplificar o que aqui vem se falando sobre as soldadeiras, uma cantiga do trovador João Baveca que se destaca do conjunto dessas quase cinco dezenas de cantigas por aparentemente adentrar em pormenores que estão ausentes de todas as outras. Além disso, o poema de Baveca é um dos poucos que simula dar voz a estas mulheres, o que lhe confere um tom de realismo próximo ao encontrado nas cantigas de amigo – o que também acentua a pouca vulgaridade da cantiga, pois é mais comum nos poemas dedicados às soldadeiras a paródia do ideal de amor cortês expresso pelas cantigas de amor . Tal simulação parece disfarçar o convencionalismo que lhe serve de pano de fundo. Vejamos o que nos diz o poeta[13]:

 Estavam hoje duas soldadeiras

 dizendo bem, a gram pressa, de si,

 e viu a ua delas as olheiras

 de sa companheira, e diss’ assi:

– Que enrugadas olheiras teendes!

E diss’ a outra: – Vós com’ ar veedes

desses ca[belos …………………………..]?[14]

E …………………………………………………….

…………………………………………………….

…………………………………………………….

…………… en’ esse rostro. E des i[15]

diss’ el’ outra vez: – Já vós doit’ avedes;[16]

mais tomad’ aquest’ espelh’ e veeredes

tôdalas vossas sobrancelhas veiras.

E ambas elas eram companheiras,

e diss’ a ua em jogo outrossi:

– Pero nós ambas somos muit’ arteiras,

milhor conhosqu’ eu vós ca vós [a] min.

E diss’ [a] outra: – Vós que conhecedes

a mim tam bem, por que non entendedes

como som covas essas caaveiras?

E depois tomarom senhas masseiras

e banharom-se e loavam-s’ a si;

e quis Deus que, nas palavras primeiras

que ouverom, que chegass’ eu ali;

e diss’ a ua: – Mole ventr’ havedes;

e diss’ a outr’: – E vós mal o ‘scondedes[17]

as tetas que semelham cevadeiras.

                                               (João Baveca, B 1458; V 1068)

Muito embora o poema apresente lacuna dos quatro primeiros versos de sua segunda estrofe nos dois manuscritos, impossibilitando qualquer reconstrução dos sentidos dos versos faltantes, todo o restante do texto é razoavelmente claro. João Baveca, estruturando a cantiga sob uma base narrativa e posicionando-se de modo privilegiado no interior da ação que narra (“e quis Deus que, nas palavras primeiras/ que ouverom, que chegass’ eu ali”), apresenta-nos duas anônimas soldadeiras num diálogo íntimo, em que deixam vazar particularidades físicas uma da outra.

Ainda que os dois primeiros versos sugiram que o diálogo entre as duas mulheres seria amistoso, pois elas estavam “dizendo bem […] de si”, logo nos damos conta que o registro em que se estrutura a cantiga é o da ironia. Em verdade, um discurso tenso, apoiado na inveja e no propósito de detratar uma a outra, perpassa todo o diálogo. Tudo o que se diz, centrado no campo da descrição física, é de teor negativo: acusam-se as olheiras enrugadas, as sobrancelhas embranquecidas, as covas no lugar das maçãs dos rostos, o ventre murcho e os seios flácidos. A ironia do trovador, para além daqueles primeiros versos, acompanha a descrição, pois mesmo depois de desmascarada a farsa do discurso encomiástico, João Baveca segue a afirmar o companheirismo das soldadeiras e o mútuo elogio que marcaria o diálogo entre elas: “E depois tomarom senhas masseiras/ e banharom-se e loavam-s’ a si”.

Todavia, embora pareça deixar revelar de cada uma das mulheres detalhes que poderiam nos permitir reconstruir um perfil para essas anônimas soldadeiras, se atentamos para os pormenores físicos apontados apenas vemos reafirmada aquela tópica da identificação e condenação da velhice, acima referida. Ou seja, todas as marcas físicas registram o envelhecimento das duas soldadeiras. Portanto, o que temos nesta cantiga de João Baveca nada mais é do que uma variação algo original da sátira da velhice, reiteradamente presente neste corpus satírico dedicado às soldadeiras.

Se, com o comentário a esta cantiga, tentarmos buscar uma conclusão, ainda que parcial, desta nossa inicial aproximação ao conjunto de cantigas que tem as soldadeiras como personagem central, podemos afirmar que a ironia e a ambivalência agora plenamente perceptível na fala de uma das soldadeiras, quando diz para sua companheira “Vós, que me conhecedes tam bem”, pode ser estendida aos próprios trovadores e, por conseqüência, a nós, leitores. De fato, assim como a estratégia discursiva a que recorre João Baveca de dar voz às soldadeiras não resiste a uma leitura atenta do que elas dizem, pois o convencionalismo na descrição física que elas fazem uma da outra acaba por revelar o poeta por trás das mulheres; da mesma forma, nosso presumido conhecimento sobre este corpus poético e, conseqüentemente, sobre estas mulheres também ainda não se sustenta em bases sólidas. Portanto, muito ainda falta, ao menos a mim, para, de fato, poder afirmar que “tão bem conheço” as soldadeiras.

Referências bibliográficas:

BELTRÁN, Vicenç. Pedro Amigo de Sevilha. Em: Dicionário da literatura medieval galego-portuguesa. Org. e Coord. de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani. Lisboa: Caminho, 1993.

CANCIONEIRO da Biblioteca Nacional (Colocci-Brancuti). Cód. 10991. Lisboa: Biblioteca Nacional/INCM, 1982 [Edição fac-similada].

CORRAL DÍAZ, Esther. A figura da velha nos cancioneiros profanos galego-portugueses. Em BREA, Mercedes. O cantar dos trobadores. Santiago de Compostela: Xunta da Galicia, 1993, p. 403-414.

DUBY, George. O modelo cortês. Em: DUBY, George & PERROT, Michelle. História das Mulheres: a Idade Média. Lisboa: Afrontamento, 1989, p. 331-351.

LANCIANI, Giulia & TAVANI, Giuseppe. As cantigas de escárnio. Vigo: Xerais, 1995

LANCIANI, Giulia; TAVANI, Giuseppe. As cantigas de escarnio. Vigo: Xerais, 1995.

LOPES, Graça Videira (Ed.). Cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores e jograis galego-portugueses. Lisboa: Estampa, 2002.

LOPES, Graça Videira. A sátira nos cancioneiros medievais galego-portugueses. Lisboa: Estampa, 1994.

LAPA, Manuel Rodrigues (Ed.). Cantigas d’escarnho e maldizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses. 3. ed. Lisboa: Sá da Costa, 1995.

LAPA, Manuel Rodrigues. Lições de Literatura Portuguesa: época medieval. 10 ed. Coimbra: Coimbra Ed., 1981.

MALEVAL, Maria do Amparo Tavares. A identidade galega em palavras de mulher(es). Em  MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (Org.). Estudos Galegos 3. Niterói: EdUFF, 2002, p. 113-122.

MARTÍNEZ PEREIRA, Carlos Paulo. A indócil liberdade de nomear: por volta da ‘interpretatio nominis’ na literatura medieval. A Coruña: Espiral Maior, 1999.

OLIVEIRA, António Resende de. Depois do espectáculo trovadoresco: a estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV. Lisboa: Colibri, 1994.

 OSÓRIO, Jorge Alves. ‘Cantiga de escarnho’ galego-portuguesa: sociologia ou poética? Em: OSÓRIO, Jorge Alves. Da cítola ao prelo: estudos sobre literatura, séculos XII-XVI. Porto: Granito, 1998, p. 5-38.

SOUZA, Risonete Batista de. A mulher nos cancioneiros medievais galego-portugueses: Maria Pérez, a Balteira. Em MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (Org.). Estudos Galegos 3. Niterói: EdUFF, 2002, p. 123-131.

TAVANI, Giuseppe. A poesia lírica galego-portuguesa. Lisboa: Comunicação, 1988.

VASCONCELOS, Carolina Michaelis de. Uma peregrina a Jerusalém e outros cruzados. Em: VIEIRA, Yara Frateschi et alli. Glosas marginais ao cancioneiro medieval português de Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Coimbra: Actas Universitatis Conimbrigensis/USC/EdUnicamp, 2004, p. 219-273.

[1] Sempre que pensarmos necessário, identificaremos as cantigas pelo primeiro verso destas, já que elas não possuem um título, seguidos das referências aos cancioneiros a que pertencem e à numeração delas no interior desses. Como já está deveras convencionado pelos estudos dedicados ao trovadorismo galego-português, referimo-nos ao Cancioneiro da Biblioteca Nacional por B, e ao Cancioneiro da Vaticana por V.

[2] Num levantamento ainda provisório, acompanhando de perto as leituras e as interpretações de Manuel Rodrigues Lapa, esses são alguns dos nomes das soldadeiras que encontramos: Alvela, Marinha Foça, Domingas Eanes, Elvira, Elvira López, Luzia Sanches, Maior Garcia, Maior Moniz, Maria Aires, Maria do Grave, Maria Dominga, Maria Garcia, Maria Genta, Maria Leve, Maria Negra, Maria Peres, a Balteira, Marinha [Caadoe], Marinha Crespa, Marinha López, Marinha Mejonchi, Marinha Sabugal, Mor da Cana, Orraca Airas, Orraca López, Ouroana, e Peixota.

[3] São essas as cantigas dedicadas a Maior Garcia: Un escudeiro vi oj’ arrufado, B 1454, V 1064 e Maior Garcia sempr’ oi[u] dizer, B 1455, V 1065, ambas de João Baveca; Maior Garcia [vil] tan pobr’ ogano, V 1205, de Pedro Amigo de Sevilha; e Maior Garcia est’ omiziada, B 1578, de Pero de Ambroa.

[4] Maria Leve é cantada em Direi-vos ora que oi dizer, B 1545, Bem viu Dona Maria, B 1547, e Maria Leve, u se maenfestava, B, 1548, todas de João Vasques de Talaveira. Já Maria Negra é tema das seguintes cantigas de Pero Garcia Burgalês: Maria Negra vi eu, em outro dia, B 1382, V 990; Dona Maria Negra, bem talhada, B 1383, V 992; e Maria Negra, desventuirada, B 1383, V 993.

[5] Maria do Grave é referida na seguinte cantiga de João Soares Coelho: Maria do Grave, grav’ é de saber, V, 1016. Já Maria Mateu é personagem da sátira crua de Afonso Eanes de Cotom em Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen, B 1583, V 1115.

[6] Cf. Marinha Foca quis saber, B 1627, V 1161; Marinha Crespa, sabedes filha, B 1628, V 1162; e Marinha López, oi-mais, a seu grado, B, 1631, V 1165, todas de autoria de Pero da Ponte.

[7] Marinha Sabugal é referida na cantiga Traj’ agora Marinha Sabugal, B 1591, V 1123, de Afonso Eanes de Coton; Marinha Mejouchi é personagem do trovador Pedro Amigo de Sevilha na cantiga Marinha Mejouchi, Pero d’ Ambroa, V 1199; já Marinha [Caadoe] é satirizada pelo poeta João Servando na cantiga Don Domingo Caorinha, V, 1030. Duas outras “Marinhas” ainda aparecem nas cantigas dedicadas às soldadeiras: na cantiga Marinha, em tanto folegares, B 1617, V 1150, de Afonso Eanes de Coton; e em A un frade dizen escaralhado, B 1604, V 1136, do trovador Fernando Esquio.

[8] Elvira López aparece como personagem da sátira de João Garcia de Guilhade em duas cantigas recolhidas juntas nos dois cancioneiros que guardam as poesias satíricas galego-portuguesas: Elvira López, que mal vos sabedes, B, 1488, V 1099, e Elvira López, aqui, noutro dia, B 1489, V 1100. Já Pedro Amigo de Sevilha refere-se a uma simples Elvira na cantiga Elvir’, a capa velha dest’ aqui, B 1658, V 1192.

[9] Essas soldadeiras aparecem, respectivamente, nas seguintes cantigas: Dominga Eanes ouve as baralha, B 495, V 78, de Afonso X, o sábio; Dona Ouroana, pois já besta avedes, B 1499, V 1109, de João Garcia de Guilhade; Luzia Sánchez, jazedes em gran falha, V 1017, de João Soares Coelho; Orraca López vi doente un dia, B 1589, V 1121, e A ũa velha quis ora trobar, B 1590, V 1122, ambas de Afonso Eanes de Cotom; e, por fim, a Peixota aparece na cantiga Eu, en Toledo, sempr’ ouço dizer, B 1653, V 1187, de Pero da Ponte.

[10] Neste sentido, veja-se o interessante estudo de MARTÍNEZ PEREIRA, 1999.

[11] São esses os trovadores que dedicaram uma ou mais cantiga à famosa Maria Peres, a Balteira: Afonso X, o sábio, Fernão Velho, João Airas de Santiago, João Baveca, João Vasques, Pedro Amigo de Sevilha, Pero de Ambroa, Pero da Ponte, Pero Garcia Burgalês, Pero Mafaldo e Vasco Peres Pardal.

[12] Cf.: Pedr’ amigo, quero de vós saber, B 1509.

[13] A transcrição da cantiga abaixo segue a edição de LOPES, 2002, por, no caso desta cantiga específica, a nosso ver, ser uma lição mais próxima dos manuscritos, cuja edição em fac-símile também consultamos, e com opções filológicas mais contemporâneas a dos atuais estudos de edição de textos do que a de LAPA, 1995. Todavia, devido à importância da edição de Lapa, identificamos, em nota, as variações que pensamos mais importantes entre as duas lições filológicas.

[14] Em LAPA, 1995: “desses ca[belos sobr’ essas trincheiras]?”.

[15] Em LAPA, 1995: “…………… en esse vosso rostro. E des i”.

[16] Em LAPA, 1995: “diss’ el’ outra vez: – Já vós dult’ avedes”.

[17] Em LAPA, 1995: “e diss’ a outr’: – E vós mal ascondedes”.

 

Dia Nacional da Galícia em Salvador de Bahia

A próxima segunda-feira dia 25 de julho é o Dia Nacional da Galícia. Na Universidade Federal da Bahia, para comemorá-lo, terá lugar, a sala de videoconferências PAFII a seguinte atividade:

  • Palestra sobre o Dia da Galicia e o caminho de Santiago a cargo de Luciano Santos Borges, da Associação Bahiana de Amigos do Caminho de Santiago.
  • Projeção do documentário Afranio, de Víctor Coyote (2009), sobre como o deputado Alonso Ríos tenta fugir pela ribeira do Minho no início da Guerra Civil espanhola.

Feliz Dia Nacional da Galícia a todas e todos os leitores do Quilombo Noroeste!

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Aspectos da desordem urbana: imigrantes ibéricos e a contravenção no Rio de Janeiro republicano (1880-1930)

Érica Sarmiento / Lená Medeiros de Menezes

Professoras de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

*Artigo publicado na revista Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 41, n. 1, p. 164-180, jan.-jun. 2015.

Resumo

A imigração ibérica no Rio de Janeiro do período da Grande Imigração (1880-1930) ocupou lugar de destaque nas principais freguesias da cidade. Nos espaços populares e nas tensões cotidianas que faziam parte do cenário urbano, os espanhóis criaram assentamentos étnicos e concentraram-se em determinados ofícios e profissões, formando redes de solidariedade. Sua participação em atividades consideradas ilícitas, de caráter eminentemente popular, como o jogo do bicho, demonstra o entrosamento desses grupos com a sociedade carioca e a sua inserção e adaptação no cotidiano da cidade. Através de fontes históricas como os processos policiais e os processos de expulsão, esse estudo busca reconstruir algumas histórias de encontros e conflitos, apoio e repulsão, que envolveram os imigrantes ibéricos


A tendência da História em registrar os sucessos tem como resultado o esquecimento lançado sobre empreendimentos mal sucedidos e sobre as trajetórias descritas nos bastidores. Dessa forma, ela acaba por reforçar estereótipos e mitos, como o do imigrante português enriquecido pelo comércio e transformado em comendador.

Certamente muitos foram os que conseguiram ascender socialmente – e até enriquecer – fora de sua terra natal, mas também é verdade que outros amargaram derrotas ou enveredaram pelo mundo do crime e da contravenção. Vários destes buscaram, nos jogos de azar, o caminho da sobrevivência ou o sonho, por um golpe de sorte, de garantir uma vida de maiores facilidades.

No caso de muitos destes contraventores, a circulação pelas delegacias policiais tornou-se rotina, em um jogo de delito e perseguição crivado por distanciamentos sociais que acabavam penalizando os que jogavam nas esquinas ou através de estratégias de ocultamento em quiosques e pequenas casas comerciais, em detrimento dos que apostavam em estabelecimentos de luxo que reproduziam o requinte da burguesia europeia; caso das corridas de cavalo.

No caso dos jogos populares, dispersos por toda a cidade, como denunciavam jornais de época, um importante elemento a destacar é, justamente, a participação de portugueses e espanhóis – em especial de galegos – quer como apostadores, quer como apontadores, quer como banqueiros.

Portugueses e galegos: solidariedade, distanciamentos e tensões    

   As relações entre portugueses e galegos no Rio de Janeiro é anterior ao período da Grande Imigração (1880-1930), embora deva ser considerado que, na segunda metade do Oitocentos, tornou-se visível que os espaços de solidariedade representavam um instrumento de defesa em um mercado de trabalho que se tornava cada vez mais competitivo e instável. Garantir melhores condições de vida significou, para muitos portugueses e galegos, monopolizar determinados “nichos” de mercado. Em tal empreendimento, os imigrantes contavam com a influência de redes de parentesco, compadrio e amizade para obter créditos na praça, comprar imóveis em sociedade e conseguir cartas de boa conduta com comerciantes de prestígio. O comportamento corporativo dos imigrantes portugueses e galegos deu origem, assim, a assentamentos étnicos e à concentração da coletividade em determinados ofícios e profissões.[1]

É possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro […] Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia.

Após terem se estabelecido no Brasil, os imigrantes pioneiros chamariam parentes ou conhecidos oriundos da mesma localidade para trabalharem em seus estabelecimentos, alimentando dessa forma, através do que se convencionou denominar “cadeias migratórias”, os fluxos. Esses precursores passaram, assim, a garantir o assentamento espacial e laboral dos patrícios que chegavam a um país desconhecido, sobre o qual, muitas vezes, só tinham as informações que estes lhes forneciam. As cadeias migratórias funcionavam, dessa forma, como um mecanismo integrador, capaz de atrair e introduzir o imigrante no mercado de trabalho. As próprias “leis” do comércio, bem como as hierarquias estabelecidas no universo comercial, moviam-se através de critérios extraeconômicos como as relações interpessoais e a confiança que o credor tinha naquele que lhe pedia empréstimos ou favores.

Em uma análise diacrônica, é possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro, antes do período de deslocamento dos fluxos massivos que caracterizaram a virada do século XIX para o XX. Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia, exercendo ora a função de fiador, ora a de ambulante, como exemplifica o caso abaixo:

Antonio Ferreira da Cunha, português, morador a Ladeira do Seminário, n° 45, freguesia de São José quer licença para andar ao ganho. Apresenta para seu fiador Domingos da Silva Manahu, estabelecido com quiosque, n.114, morador na Rua Santo Antonio, n.5.[2]

Portugueses e espanhóis/galegos ambulantes, no contexto histórico do Rio de Janeiro de segunda metade do Novecentos, concentravam-se, majoritariamente, nas freguesias centrais da cidade, especialmente nas freguesias de São José e Santo Antonio. O fiador acima mencionado, por exemplo, era dono de um quiosque no Largo da Carioca (freguesia de Santo Antonio) e tinha sob sua tutela dois ambulantes espanhóis e um português. Na Ladeira do Seminário – onde residia o português que solicitava licença para “andar ao ganho”- viviam, também, quatro espanhóis e seis portugueses.[3] Exemplos emblemáticos, os dois imigrantes são demonstração inequívoca das estratégias de sobrevivência e de inserção na sociedade carioca.

As relações entre os imigrantes ibéricos e o mundo do trabalho podem, também, ser analisadas através de uma fonte rica em elementos do cotidiano: os processos policiais. Depositados no Arquivo Nacional, situado na cidade do Rio de Janeiro, esses processos, para além das relações no espaço do trabalho, relatam o grau de tensão e violência que permeava as relações no mercado de trabalho, bem como os embates travados entre a policia e entre as clases populares em um contexto da transformação da capital brasileira em uma cidade disciplinar.

Os casos de violência no interior do mercado de trabalho, em especial, são importantes para o estudo das relações de dominação cotidiana. Dentre outros aspectos, porque, além de motivações materiais, elas contêm motivações subjetivas no contexto de relações permeadas pela violencia..[4] Dessa forma, o cotidiano aparece como a dimensão que homogeniza e unifica a experiência do grupo, como no caso dos galegos e dos portugueses que se apropriaram do espaço urbano carioca, concentrando-se em determinados bairros e atuando no pequeno comércio. Os processos policiais contra alguns instaurados transformam-se, assim, em fontes históricas que nos permitem comprender, através da atuação da policía, o comportamento das elites e as imagens relativas aos imigrantes. Outrossim, os processos possibilitam visualizar as interpretações que cada grupo elaborava a respeito dos mecanismos de dominação social.

Em sua obra Proletários de Casaca, Trabalhadores do comércio carioca (1850-1911), Fabiane Popinigis, analisa 1.112 processos de ofensas físicas e homicídios. Ao analisar o pequeno comércio das áreas centrais do Rio de Janeiro, a autora, inevitavelmente, depara-se com a presença ibérica, majoritária na cidade.[5]

Um dos processos analisados por Popinigis refere-se às desavenças ocorridas, no ano de 1901, entre o caixeiro espanhol José Cavenhago Pumar, de 19 anos, e o caixeiro português Alberto da Silva Peixoto, de 28 anos. Ambos trabalhavam nos arredores da Freguesia de Santo Antonio, um dos espaços de grande concentração de imigrantes provenientes da Península Ibérica. Assim, portugueses e galegos reelaboravam o cotidiano e construíam suas estratégias de sobrevivência.

Jogos de azar: prática do citidiano

A inserção dos imigrante na terra de acolhida ultrapassava, porém, o estereótipo do estrangeiro honesto e trabalhador, tendo em vista os espaços ocupados nos mundos da contravenção e do crime. Era o caso, por exemplo, do envolvimento de imigrantes portugueses e galegos nos jogos de azar. O ritual inerente ao jogo fomenta sempre uma relação de reciprocidade, onde podem ser verificados valores como os de compromisso e lealdade, envolvendo apostadores e banqueiros.

No Brasil, a repressão a alguns dos jogos, considerados de “azar” surgiu com a República e, nesse combate, as diferenciações sociais jogaram papel de relevo, principalmente com relação aos jogos populares, situados à margem da orden constituída. Observe-se que as relações travadas no universo dos jogos populares implica sempre valores de compromisso e lealdade entre o apostador e o banqueiro. É isso que assegura a confiabilidade e sustenta o processo. Esses valores podem ser demonstrados pela prisão em flagrante e os autos do processo que envolve cinco imigrantes portugueses e um de origem galega. Segundo esses autos, no dia 26 de julho do ano de 1902, em um sobrado localizado na Rua Visconde do Rio Branco, n.39, no centro da Cidade,

… foi dada busca na casa e apreendidos: uma pequena lata com um orifício na tampa em que se achava na mesa formada para o jogo, diversos baralhos de cartas que também se achavam sobre a mesa formada para o jogo, um macho, uma taboa, dois cavaletes e tais bancos…[6]

A polícia deteve e encaminhou delegacia todos os presentes, acusados de praticarem jogos ilícitos à delegacia. Eles encontravam-se, segundo os investigadores, jogando o chamado “jogo do monte”. Segundo os autos, o galego Benito Pouza foi encontrado com um baralho de cartas servindo de banqueiro do referido jogo, em uma casa de propriedade de um português, natural de Villa Real: Antonio Joaquim Oliveira.

Durante o interrogatório, o galego José Benito Pousa e o português Francisco Rodrigues construíram seus depoimentos com base nos mesmos argumentos. Ambos alegaram não participavam do jogo e eram simples assistentes do jogo que os outros imigrantes praticavam. Justificando sua inocência, ambos afirmaram não haver qualquer motivo para serem levados à delegacia. Outro acusado, por outro lado, Manuel Ferreira da Silva, defendeu-se com a argumentação de que havia se dirigido ao local somente para buscar uns amigos. O depoimento do quarto acusado, Antonio Joaquim Gomes, foi, no mínimo surpreendente pois, para se livrar da acusação, explicou que estava “a procura de uma meretriz que residia neste local e que havia sido informado que ela havia mudado de residência justamente naquele dia”. O último imigrante a depor, José Pereira Gomes, negou estar no recinto e alegou ter sido preso pela polícia quando estava caminhando pela rua. Verdadeiras ou falsas, todas as declarações negavam o envolvimento dos imigrantes nos jogos de azar. Com exceção de um dos portugueses, nenhum dos demais declarou conhecer os acusados, como estratégia para evitar a detenção, alegando que se protegiam, dessa forma, da perseguição policial.

Vale ressaltar que, nos primeiros decênios do século XX, no contexto do combate amplo aos imigrantes considerados indesejáveis,[7] a polícia carioca perseguiu todos aqueles que se envolvessem em atos de desordem, em prol de uma limpeza moral e material condizente com o projeto de civilização que a república queria empreender. Segundo Marcos Bretas, parte da população carioca, pelo menos, aderia às cruzadas morais em defesa da ordem pública e apresentava suas queixas contra vagabundos envolvidos em apostas ou em jogos de futebol.[8]

Na segunda fase do processo que vimos relatando, somente dois réus compareceram: Antonio José Pereira Gomes e Antonio Joaquim de Oliveira, ambos soltos após pagarem fiança. É importante frisar que, apesar de, nas primeiras declarações dos envolvidos, não haver menção da relação que os unia para além do jogo, a situação parece ter mudado nos autos de defesa. As testemunhas arroladas eram formadas, também, por imigrantes: um italiano e dois portugueses. Em seus depoimentos, todas confirmaram que os acusados – os portugueses e o galego – não viviam do sustento do jogo, sendo, ao contrário, homens laboriosos e bem empregados. Quem eram, porém, essas testemunhas? Todos eles eram negociantes na Rua Visconde do Rio Branco, a mesma rua onde os acusados foram pegos em flagrante. Após as testemunhas se pronunciarem, o processo foi encerrado e os réus absolvidos. Percebemos, assim, comportamentos que tendem a se repetir nos processo: a proteção aos patrícios e as vantagens de ter boas relações na praça. Palavras como “honradez”, “honestidade”, quando proferidas por um conceituado comerciante, transformavam-se em defesa valiosa para um estrangeiro acusado, que podia valer a absolvição, considerando os perigos que rondavam as classes populares frente à verdadeira cruzada em que se constituía a caça aos vadios e vagabundos que “contaminavam”, com sua presença, a “saúde” social. Nesse sentido, as redes de solidariedade eram não só importantes quanto mecanismos de defesa.

O problema das jogatinas e a perseguição aos imigrantes, ao longo de toda a chamada Primeira República (1889-1930), com destaque para os ibéricos, continuaram a ser responsáveis pela instauração de muitos processos, no contexto da repressão à vadiagem e da definição do trabalho como valor social.

“Jogo do bicho”: o mais popular dentre os jogos de azar

Uma nova modalidade de jogos de azar foi criada no final do século XIX: o “jogo do bicho”, idealizado, em 1892, por João Baptista Vianna Drummond, conhecido como o Barão de Drummond, proprietário do zoológico do Rio de Janeiro, localizado no bairro de Vila Isabel e fundado em 1884. Os sorteios e as apostas atraiam multidões, que passaram a difundir o jogo para além das portas do zoológico. O ritual da aposta se projetou no imaginário urbano, originando uma rede de intermediários para o seu financiamento. O jogo ganhou as ruas e passou a ser “apontado” em pequenos estabelecimentos da cidade, surgindo, então, a figura dos “banqueiros do bicho” (“bicheiros”), contraventores que se enraizariam na sociedade carioca.

Nos pequenos estabelecimentos, a população jogava através de curiosas estratégias e anotações nos cadernos de dívidas do estabelecimento, narradas por Luís Edmundo ao descrever o Rio de Janeiro “do seu tempo”:

Quem paga o bicho é a patroa, porque, quando elas chegam à casa, não esquecem de dizer:

– Qual esse seu Manoel da esquina está ficando cada vez mais careiro! Veja só se isso está direito, patroa, olhe só para estes quatro de alhos e quatro de cebolas! Não falam no dinheiro que apostam, incluído, também, no preço daquilo que compraram.[9]

Observe-se que, no caso acima ilustrado, o jogo foi feito por uma empregada doméstica, que lançou os custos do jogo por ela feito nas dívidas da patroa. O local de registro do jogo é um estabelecimento de víveres, de propriedade de um português ou de um galego: seu Manoel; um dentre tantos imigrantes de igual nome espalhados pelas “esquinas” da cidade. A estratégia de ocultamento, por outro lado, explicava-se não apenas pela intenção da criada em não arcar com os custos do vício, mas, também, devido à proibição e perseguição policial que fazia, muitas vezes, com que os apostadores literalmente engolissem suas apostas, de modo a escapar do flagrante.

A primeira proibição do “bicho” data de 1895 e foi explicada pela concorrência do jogo – extremamente popular – com o sistema de loterias federais, este legalizado. Por outro lado, “jogar no bicho” tornou-se ação definidora de vagabundagem, o que reproduzia, em última instância, estereótipos e preconceitos com relação às classes populares.[10] A popularidade do jogo, entretanto, era tanta que ele se tornou ato cotidiano entre as classes populares que, diariamente, passaram a apostar no “bicho”.

A relação de portugueses e galegos com o jogo do bicho é antiga, tendo sido iniciada em época que antecedeu a sua proibição. Ao que tudo indica, o precursor da venda de bilhetes foi um imigrante galego chamado Manoel Cavanelas. Segundo entrevistas realizadas com patrícios e contemporâneos de Cavanelas, esse galego – que alcançou uma importante ascensão socioeconômica na primeira metade do século XX – chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1894, com somente 17 anos de idade. A partir desse momento, começou a vender bilhetes do jogo do bicho a encargo de seu patrão, o Barão de Drummond. Quando Cavanelas passou a gerenciar as lojas de loterias do Barão, sua ascensão econômica foi surpreendente. Os dois se tornaram muito amigos e o Barão pediu ao galego que abrisse uma casa de loteria na Praça Olavo Bilac, número 9. Anos mais tarde, com o progresso dos negócios, Cavanelas comprou todo o edifício. A partir daí, abriu outros tipos de comércio como o negócio de luvas; comprou lojas e outros imóveis, passando a viver de rendas.[11]

A história de Cavanelas, fundador da casa de repouso do Recreio dos Anciãos,[12] e sua inserção no jogo do bicho, foi preservada na memória de imigrantes que compartilharam trajetórias, mantendo-se vivas até o presente. Nesse, como em outros casos, o que os depoimentos revelam, outros documentos comprovam. Percorrendo documentos referentes à freguesia de Santo Antonio, bairro com grande índice de imigração galega e portuguesa, por exemplo, deparamo-nos com um processo instaurado no ano de 1905, referente ao galego Romão Villanova e ao português João Bento, presos em flagrante à rua do Riachuelo:

… os Réus presentes João Bento e Romão Villanova foram presos em flagrante pelo Doutor Delegado por serem encontrados a jogar o denominado jogo do “Bicho” sendo que João Bento era o banqueiro e Romão Villanova comprava o jogo, isto é, era o jogador.” [13]

João Bento, português, e Romão Villanova, galego, foram presos “por estar bancando o jogo denominado do Bicho”. No caso do espanhol, também pelo fato do mesmo “por estar jogando ou comprando o referido jogo”. Segundo os autos do referido processo:

…esse jogo é uma rifa que corre anexa à loteria da Capital Federal, determinando o grupo que ganha o final do primeiro prêmio da referida loteria com os denominantes de Antigo Rio Moderno e Salteado, como se verifica das listas encontradas em poder do réu João Bento e que são as mesmas que lhe são apresentadas nesta ocasião.[14]

Romão Villanova, ao se pronunciar, tentou se justificar perante às aiutoridades, alegando que tinha domicilio certo e profissão honesta, levando à delegacia duas testemunhas para atestar a sua condição de imigrante trabalhador. Ambas as testemunhas eram de origem estrangeira: um espanhol e um italiano. O primeiro deles, Pedro Martinez, espanhol de trinta e dois anos, casado, negociante, morador à rua do Lavradio cento e vinte e nove, sabendo ler e escrever, declarou o seguinte: “que conhece o prontificante, Ramon Villanova, há cerca de dez anos como homem serio e trabalhador, sendo atualmente empregado como pespontador e morador à Rua do Lavradio cento e sessenta e nove.[15]” Segundo o depoimento do acusado, ele entrou no negócio do português “afim de tomar um “alcoólico”, visto a casa ser um depósito de bebidas”.

Os réus foram absolvidos, pois segundo a defesa, as irregularidades do processo eram evidentes, o que determinou seu encerramento por falta de prova da existência da contravenção e por insuficiência das declarações daqueles que haviam testemunhado o flagrante. Nesse sentido, o processo se justificaria pela tentativa de incriminar o português dono da venda e o espanhol que lá ia consumir um “alcoólico”. Na falta de auto de apreensão das listas do jogo e devido ao fato dos depoimentos não terem sido tenham sido lidos às testemunhas, os réus foram considerados inocentes.

Torna-se evidente, assim, que o jogo do bicho demonstra um controle do território que se apresenta como área de força, fazendo surgir diferentes redes de solidariedade e apoio. A implantação da ordem sobre os espaços ligados ao comércio popular levou à criminalização de práticas já enraizadas no cotidiano da cidade.[16] No caso do processo crime acima relatado, os imigrantes presos mostram-se representantes das tensões étnicas e sociais existentes, utilizando as possibilidades e atividades marginais que lhes eram oferecidas.

A popularidade do “bicho” e a inserção de galegos e portugueses em um jogo que, mesmo ilegal, desafiou as proibições, despertou o interesse em diversos trabalhos acadêmicos. Esmeralda Broullón Acuña, em artigo sobre os espanhóis no Brasil, relata o romance de Jorge Díaz, intitulado Los números del elefante. A trama de Díaz aborda a história social do jogo do bicho e apresenta, como protagonista, a Bernardo, imigrante espanhol que chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1954. Ele se converteu em vendedor de bilhetes do jogo do bicho. O autor do livro aborda a questão das máfias controladas por galegos: a máfia da venda de bilhetes de loterias do jogo do bicho[17]. Outro exemplo do interesse acadêmico pela criminalidade dos jogos é a tese de Amy Chazel, Laws of Chance, Brazil´s Clandestine lottery and the making of urban public life. A autora analisa vários processos crimes, todos vinculados a jogos ilícitos, chamando a atenção para a presença de imigrantes portugueses acusados de serem banqueiros do jogo do bicho. Da mesma forma que no processo referente ao galego Romão Villanova e o português João Bento, acima analisado, os imigrantes, analisados por Amy Chazel, também foram absolvidos, ao alegarem em sua defesa, serem comerciantes, terem boa conduta e viverem há muito tempo na cidade Rio de Janeiro.

Todos eram “galegos”

Os processos analisados reúnem elementos valiosos para compreender não só aspectos do cotidiano dos imigrantes quanto as formas pelas quais eles se integraram à sociedade de acolhida. A sobrevivência, adaptação ou modificação das culturas de origem possibilitava que os imigrantes modificassem os seus hábitos de forma a se adaptar à nova organização e espacialização da cidade que os acolhia. No caso dos ibéricos, os laços horizontais e verticais existentes entre eles reproduziam inúmeras formas de associação e solidariedade; solidariedade que, como em todas as relações sociais, admitia hierarquias. Dessa forma, seu viver não representava uma “cópia” da sociedade de origem, mas novas formulações formadas em país estrangeiro, com um processo de adaptação e respeito às instituições e à forma de viver dos brasileiros.

O vocábulo “galego” deixa de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

No tocante às hierarquias, podem ser citadas: a que se formava dentro das redes étnicas e aquela que já estava estabelecida na sociedade receptora; círculos intercomunicantes de sistemas de valores distintos que se confrontavam ou caminhavam paralelamente na cotidianidade das ruas do Rio.

Quando se fala em galego no Rio de janeiro, por outro lado, devemos levar em consideração alguns “deslizamentos” de sentido, que explica que o vocábulo “galego” deixe de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

A questão do significado do “ser galego” tem origens históricas, que remontam às querelas e conflitos do início da República brasileira. O termo “galego”, por exemplo, foi muito utilizado no Jacobinismo,[18] movimento antilusitano estreitamente vinculado à recém-consolidada República e liderado por grupos pertencentes às camadas médias urbanas emergentes. Utilizava-se, então, a expressão “galego vai para tua terra!”, como uma forma de rechaço à população portuguesa que, além de ter a sua postura política associada ao monarquismo, também provocava a inimizade dos nativos da terra devido ao monopólio de muitos setores do pequeno comércio da sociedade carioca, estreitamente ligados às classes populares, como pensões, bares e botequins ou padarias. Aos antigos colonizadores, eram atribuídos, assim, vários males pelos quais a jovem República passava.

O sentido que prevaleceu no imaginário da cidade foi o do “galego português”, inserido majoritariamente no setor do comércio, em contato direto com a população em geral. Esse imaginário, contextualizado em um âmbito histórico específico – o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX – pode ser apreendido no processo movido contra os galegos Manoel Facal Peres e Laureano Taboada.

Segundo os autos do processo, tudo teria começado na casa de pasto de propriedade de um espanhol. Entre brigas e ofensas, o galego insultou o português, chamando-o de “galego”!

… pediu o prato da cozinha da casa de pasto onde é empregado a Rua Visconde do Rio Branco, ao cozinheiro Manoel Facal Peres, um caldo especial para servir a um freguez da casa, que havendo demora elle declarante dirigio-se a porta da cozinha e pedia novamente do cozinheiro Manoel o caldo, que Manoel lhe dirigio pesado insulto e em seguida disse: “seu gallego[19] leve isso lá para fora, apresentando-lhe o caldo; …

Assim como no primeiro processo analisado, vinculado ao jogo de cartas, esses galegos estavam envolvidos com imigrantes portugueses, na conhecida Rua Visconde do Rio Branco, sendo, assim, mais um caso de uma história envolvendo imigrantes galegos e portugueses no espaço comercial carioca do período da Primeira República.

No dia 7 de agosto de 1909, os réus Manoel Facal Peres e Laureano Taboada foram indiciados por ofensas físicas, após terem agredido o português Joaquim Gomes dos Santos. Em seu depoimento, Joaquim Gomes fez questão de enfatizar que o espanhol utilizou a palavra “galego” para insultá-lo e isso não teria sido por acaso, pois o português tinha consciência do peso que a palavra tinha no imaginário dos trabalhadores galegos e portugueses.

A frase “seu galego leve isso lá para fora”, fora enfatizada no momento em que Joaquim estava pedindo ao cozinheiro (Manoel) que agilizasse o serviço. A tensão se iniciou quando Manoel, na posição de caixeiro, exigiu melhores serviços do cozinheiro galego. Não nos interessa analisar qual dos depoimentos apresenta maior veracidade e poder de convencimento, mas sim remarcar a ofensa de um galego a um português, ao insultar a este de “galego”. Assim, quando Manoel Esteves “xingou” o português Joaquim Gomes de “galego” ele estava reproduzindo elementos do imaginário que afetava os portugueses no cotidiano carioca do começo do século XX.

No processo acima analisado, apresentaram-se três testemunhas e dois acusados, todos estrangeiros. O dono do estabelecimento era o espanhol Indalecio Quintelo, que interferiu na confusão armada por seus empregados, os já citados cozinheiros Manoel Facal, Laureano Taboada e o caixeiro Joaquim Gomes. A primeira testemunha é um português, de 33 anos, lavador de prato da casa de pasto. A versão que predominou em todos os depoimentos foi a de que, após uma acirrada discussão, os cozinheiros galegos arremessaram pratos no português, causando-lhe graves ferimentos. Concluímos, então, que na casa de pasto, da Rua Visconde do Rio Branco, n.17, havia uma pequena rede de emigrantes da península ibérica, inseridos no comércio carioca. Para os brasileiros, todos eram “galegos”.

O jogo como motivação para a expulsão

Em alguns casos, os jogos clandestinos constituíram-se em motivo para a instauração de processos de expulsão, conforme determinavam as leis que regulamentavam a entrada e a permanência de estrangeiros no país.[20]

No conjunto de processos de expulsão analisados no livro Os Indesejáveis,[21] embora os processos contra jogadores, apostadores e banqueiros representem pequeno número frente a outras contravenções e crimes, eles trazem importantes indícios para análise. Em primeiro lugar, destaca-se a constatação da maioria dos processados estar constituída por imigrantes portugueses (apenas um era italiano e um era argentino, possivelmente naturalizado). Em segundo lugar, o fato de apenas um dos casos referir-se a outro tipo de jogo que não o jogo do bicho. Finalmente, a constatação de que os processados acabaram escapando da expulsão, apesar do caráter inquisitorial dos processos que, em última instância, tinham decisão praticamente predeterminada.

As justificativas para a restituição da liberdade, por outro lado, reproduzem o exposto em outros processos: tratar-se de proprietário de casa comercial ou indivíduo trabalhador, ao que se acrescenta o fato do indivíduo já estar respondendo a processo instaurado pelo mesmo motivo. Como aparece na defesa de um dos processados, “em virtude da independência dos poderes, a faculdade outorgada ao Executivo de expulsar os estrangeiros não pod[ia] ser exercitada quando este [o indivíduo] se acha[sse] sob a ação direta do Judiciário”.[22]

Serafim Augusto de Almeida, português de Coimbra, foi processado com a idade de 49 anos, no ano de 1930, quando intensa repressão era desencadeada contra o “bicho”. Morador na Lapa, ele era solteiro e alfabetizado e havia chegado ao Brasil no ano de 1911, quando tinha 28 anos. Acusado de infringir o artigo 31 da lei nº 2321, foi qualificado como “bicheiro”. Preso e processado, constituiu advogado que impetrou habeas corpus no qual alegava “a improcedência da prisão vista a quantidade de pessoas que jogavam no bicho”: 30 milhões segundo o advogado, que acrescentava, em sua petição, o fato de, “nas campanhas policiais que de vez em quando [eram] postas em prática”, com vistas a “sufocar os jogos de azar”, elas serem dirigidas não contra os “compradores”, mas apenas “contra os vendedores”, o que, segundo ele, era um absurdo.[23]

Português de Viseu, Antonio Gonçalves de Moraes era empregado no comércio, casado e tinha 30 anos quando foi processado em 1930. Vivia no Rio de Janeiro desde os 13 anos e já fora preso processado outras vezes pelo mesmo motivo: o jogo do bicho. Como possuía vários bens no Brasil e estava casado há cinco anos com brasileira, provando, também, ser trabalhador, escapou da expulsão.[24]

Sapateiro por profissão, casado, analfabeto (só assinava o nome), Anibal Serrano, natural de Lisboa, tinha 39 anos quando foi processado em 1930, tendo entrado no Brasil quando tinha apenas 12 anos. Nos autos do processo consta um número da Revista Criminal, datada de fevereiro de 1929, que traz a notícia da prisão, com vistas expulsão, do estrangeiro e contesta a ação da polícia, declarando que ela era ilegal, tendo em vista que o acusado era proprietário de uma casa comercial, “não podendo, portanto, ser considerado vadio e estar sob ação da justiça.” Serrano acabou sendo posto em liberdade em 14 de abril do ano do processo: 1930.[25]

A análise destes processos aponta para duas questões importantes. Em primeiro lugar, o fato do jogo do bicho, por sua popularidade, ter grande capilaridade entre a população, encaminhando várias formas de resistência. Por outro lado as tensões permanentes entre os que estavam envolvidos com o jogo e a polícia, não raras vezes constituída por agentes que também gostavam do jogo, fingiam não ver a jogatina, espalhada por toda parte ou cobravam propina para não realizarem sua tarefa, acobertando a prática que se tornara generalizada.

A partir dessas observações, é possível dizer que

… também no Brasil, coexistiram diferentes atitudes perante o jogo ou, segundo as reflexões e palavras de Thompson, “persistiram atitudes populares em relação ao crime [e a contravenção], chegando a constituir um código não escrito totalmente diferente das leis do país”. Para Thompson, a “distinção entre o código legal e o código popular não escrito” pode ser observada em qualquer época,[26] razão pela qual – guardados os devidos distanciamentos temporais – consideramos que a existência paralela desses dois “códigos” – o não escrito e o legal – se manifesta no tocante à permanência do jogo do bicho como arma popular de resistência nos séculos que se seguiram a sua popularização.[27]

A coexistência acima enunciada mostra-se presente, também, nas formas pelas quais os jornais cariocas – destaque para o Jornal do Brasil – davam “dicas”[28] à população sobre o “bicho” do dia,[29] dispersando desenhos de animais pelas páginas do jornal, relatando sonhos, propondo adivinhações e outras tantas estratégias de disfarce, amplamente conhecidas pelos adeptos do jogo, que corriam às bancas de jornais, em busca dessas indicações; hábito tornado diário em uma cidade que, segundo o advogado de Serafim de Almeida, 30 milhões de pessoas jogavam.

Referências bibliográfica

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Chazkel, Amy (2011), Laws of chance clandestine. Brazil ‘s clandestine lottery anda the making of urban public life, New York: Duty University Press.

Medeiros, Simone (2014), Resistência e rebeldia nas fazendas de Café de São Carlos (1880-1914). Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.

Meira, Selena de Mattos, (1995), O papel da imprensa no jogo do bicho, Rio de Janeiro: UERJ, Dissertação de Mestrado, Departamento de História.

Menezes, Lená Medeiros de, Os Indesejáveis. Protesto, crime e expulsão na Capital Federal (1890-1930), Rio de Janeiro, EdUERJ, 1986.

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Ribeiro, Gladys Sabina (1987), Cabras e pés de chumbo: os rolos do tempo. O ntilusitanismo no Rio de Janeiro da República Velha, Niterói: UFF, Dissertação de Mestrado, Departamento de História.

Sarmiento, Érica (2013), “Convívio e conflito nos trópicos: portugueses e galegos no Rio de Janeiro”, en Arruda, Jobson; Ferlini, Vera Lúcia Amaral; Matos, Maria Izilda Santos; Sousa, Fernando (coord.) (2013), De colonos a Imigrantes. I (E) migração portuguesa para o Brasil, São Paulo: Alameda, 2013, pp. 119- 130.

Thompson, E. P (1987), A formação da classe operária inglesa – I. A árvore da liberdade, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

[1] Sarmiento, Érica 2013, pp. 119- 130.

[2] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879, p.125.

[3] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879.

[4] Medeiros, Simone (2014).

[5] Popinigs, Fabiana (2007).

[6] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 703.

[7] Menezes (1996).

[8] Marcos Bretas ( 1997).

[9] Luís Edmundo (1967), v. 4, pp. 873-4.

[10] Chazkel, Amy (2011).

[11] Entrevista realizada no ano de 2000 a M. B. A identidade do imigrante foi preservada.

[12] Funciona até os dias atuais, localizada no bairro da Tijuca, ainda sob a gerência de imigrantes e descendentes galegos.

[13] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 1264. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

[14] Idem.

[15] Idem.

[16] Chazkel, Amy (2011), p. 50.

[17] Broullón Acuña, Esmeralda (2011), pp. 133-150.

[18] O tema da emigração portuguesa e do jacobinismo está bem desenvolvido no livro de Ribeiro. Ribeiro, Gladys Sabino (1987), P. 51.

[19] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. Depoimento da testemunha Joaquim Gomes dos Santos. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 2346. Grifo nosso.

[20] Vejam-se os decretos nº 1641 de 07 de janeiro de 1907 emº 4247 de 06 de janeiro de 1921. BR. Colecção das Leis da República de 1907 e 1921.

[21] Menezes, Lená Medeiros de (1996).

[22] BR. Arquivo Nacional. Setor do Poder Judiciário (SPJ), módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[23] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[24] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[25] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[26] Thompson, E. P. (1987), p. 62.

[27] Menezes. No prelo para publicação.

[28] Corruptela de “indicações”.

[29] V. Meira, Selena (1995).

Morte de Rei, de Darío Xohán Cabana: reescrever o passado para conhecer o presente

Angélica Batista

Estudante de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

cando haberá na nosa terra un rei que faga

florecer por onde pise o seu cabalo?

Morte de rei, p. 82

Resumo: Sabe-se que Morte de rei (1994), romance do escritor galego Darío Xohán Cabana (1952), é um modo de repensar sobre a escrita literária escrita em galego e uma revisão do que se convencionou chamar de galeguidade. Se a identidade nacional é uma comunidade imaginada composta por símbolos e representações (Cf. HALL, 2006), a Literatura e a História se comportam como “narrativas fundadoras” de uma comunidade. O texto escolhido, desta forma, coloca-se como uma resposta do presente a partir do olhar atento ao passado.

1)Morte de rei: um romance de enfrentamento

Um texto (ficcional ou não) está imerso em um sistema de valores sociais e, como discurso, pode também ser encarado nas perspectivas diacrônica e sincrônica, já que “o texto tem um contexto, e talvez a forma passe a ter sentido tanto por meio da inferência do receptor em relação a um ato de produção quanto por meio do próprio ato de recepção” (HUTCHEON, 1991, p.111). Morte de rei, de Darío Xoan Cabana, é um romance escrito em galego do fim do século XX e reconta a história de D. García II, último rei de Galiza, morto em 1090. Tanto seu tema como sua língua são escolhas não fortuitas que podem ser explicadas contextualmente. O conhecimento da história da literatura da Galiza e da revitalização da língua galega contribui no sentido de que é importante se refletir a importância da obra condutora dentro da cultura em que foi produzida.

2)História e cultura galegas: momentos de resistência

Durante parte da Idade Média, a língua galaico-portuguesa era a língua oficial das cantigas trovadorescas na época em que Portugal e Galiza formavam o mesmo território, antes da independência do primeiro e da unificação da Espanha (MARIÑO PAZ, 1998). Além das cantigas, as primeiras obras narrativas escritas em língua galega foram as de matéria artúrica, o que se constituiu em base para a construção do imaginário céltico da identidade galega. É inegável a influência da matéria de Bretanha e das gestas na literatura galega como um todo.

No período compreendido entre os séculos XIV e XVIII, conhecidos como os séculos de decadência, a língua galega sofre declínio, sendo desconsiderada como língua culta: o galego é substituído pelo castelhano, adotado como língua oficial espanhola. A unificação da Espanha pelos reis católicos fortalece os poderes de Castela e deprecia a língua e cultura galegas, transformando-as em objeto de escárnio. Por séculos, tentativas de utilização da língua galega como língua formal foram ignoradas, como, por exemplo, a do padre Martín Sarmento (1695-1772), que escreveu no decorrer de sua vida compêndios de botânica e medicina, além de dicionários de galego.

A partir do século XIX este cenário começa a mudar. O ideal romântico de volta às origens também aglutina intelectuais da ciência e da arte em um movimento cultural de afirmação galega. Como marco, pode-se eleger a publicação de Cantares galegos de Rosalía de Castro como forte pressão para a dignidade e reconhecimento da cultura da Galiza, já que foi um livro todo escrito em galego e se utilizou de imagens do cotidiano da província. Livros como o dicionário de Francisco Xavier Rodrigues e a gramática de Francisco Mirás (só para deixar como exemplo), em galego-castelão, também começaram a surgir como expressão do regionalismo crescente (Cf. ZAS, 1999). Deste modo, era necessária uma literatura

(…) que demonstrase a existência dunha nación diferenciada e, por tanto, con dereito a ser tratada como tal no conxunto do Estado español. Esta función identitária da literatura galega conforma unha das súas características fundamentais e, até fins do século XX, camiñou unidas aos movementos ideolóxicos e políticos que tiñan como obxetivo a defensa dos intereses galegos (FONTAÍÑA, 2004, p. 09).

No início do século XX, mais intelectuais adentraram na luta de valorização do galego. Infelizmente, estas vozes foram sufocadas pela Guerra civil e a ditadura de Franco. Manifestos, ensaios e assembleias eram atividades que ajudavam a fortificar o ideário do nacionalismo galego, que exigia em especial a autonomia da Galiza em relação ao resto da Espanha, além de uma organização que unisse Portugal a Galiza (ideia-embrião do conceito de Ibéria Atlântida, em que Portugal e Galiza eram uma só nação) pela língua, posto que o galego possui muitos traços do distante galaico-português e estaria mais próximo da língua portuguesa, e não da espanhola. Para Flavio García:

Para muitos romanistas, filólogos e linguistas – principalmente galegos, portugueses, brasileiros –, a língua falada na Galiza é uma variante cultural do sistema lusófono e, ainda que essa posição não seja unânime, a discussão é efetiva e efervesce os círculos linguístico e políticos da Galiza, já que atinge, diretamente, a questão fundamental da identidade e da autonomia. Enfim, as semelhanças são tão inegáveis que se pode mesmo falar de uma região homogênea no litoral atlântico ocidental da Península Ibérica (GARCÍA, 1999).

Em meados do século XX, um grupo de escritores que depois foram denominados de a Nova Narrativa Galega, influenciados pelo Novo romance e autores como Kafka, Joyce, Faulkner enriquecem a literatura galega com novas propostas estético-conceituais. Após esse movimento fortemente politizado, outros escritores iniciaram a luta que era escrever em galego. Para Manuel Forcadela

Unha vez máis, como unha Ave Fénix que renace das súas borrallas, mesmo depois de que moitos certificasen para sempre a súa morte, Galicia era quen de manifestar a súa vontade de ser no nacional e no político a través dunha serie de escritores que, sen poderen dar conta directa da súas ideas por mor das imposicións da censura franquista, conseguían que o só feito de escribir em galego, de dar conta do pulo creativo    deu a nosa língua seguía a ter, mesmo depois de ficar relegada ao máis completo dos olvidos oficiais, facendo que o mellor da xeración de escritores nacidos em Galicia ao mesmo tempo que se estaba a librar a contenda fratricida no resto do ámbito do estado decantase a súa práctica creadora da continuidade dos traballos abandonados polos exiliados e os vencidos (FORCADELA, 1993, p. 17).

Já para Mercedes Zas,

O obxectivo común a todos eles era a vontade de normalización do galego na escrita e o afán de renovación de temas e formas narrativa da nosa tradición literária. Así por exemplo, vaise producir um achegamento á cultura urbana e a súa problemática social, multiplicación de vocês narrativas, introdución do monólogo interior, ruptura no tratamento do tempo – analepses temporais –, uso moderno da língua que fai que aparezan cultismos e tecnicismos de diferentes disciplinas, ademais os galicismos ou anglicismos, e, póla contra, aisencia de hiperenxebrismos, tan ccomúns na época de Nós, dado o pouco afán diferencialista dos novos narradores/as. (ZAS,1999, p.58)

Após a queda do regime, novas editoras, jornais e revistas escritas na língua nativa surgiram. As crianças são alfabetizadas em galego e possuem programa próprio. No entanto, a importância do castelhano é ainda esmagadora e o número de falantes de galego decresce. Mesmo assim, a literatura galega tomou rumos bem interessantes. Para Gonzáles-Millán, a crítica normalmente destaca características como

contraste entre o vanguardismo rupturista da poesía e a lenta evolución da narrativa; (…) a consolidación de autores cunha obra significativa anterior a estes anos (…) a progressiva relevância da novela sobre o relato, e a expansión de determinadas modalidades narrativas (a infantil e a xuvenil, e a denominada novela de xénero), fenómenos estes últimos que adquirirían um espacial protagonismo n década seguinte, polo impacto cada vez máis visible da cultura urbana no imaxinario literário (GONZÁLES-MILLAN,1996,p. 19).

Para o autor, a dinâmica da literatura galega pós-1975 se dá pelas profundas mudanças que ocorreram na Galiza e no sistema literário como um todo: formação de prêmios literários importantes, consolidação de associação de escritores a cooficialidade do galego na administração pública e no ensino, além de métodos diferenciados para a renovação do galego. A confluência destes fatores modificaram a produção e consumo da literatura galega e deu a ela autonomia e legitimação. Como macrotemas da narrativa pós-franquista, pode-se destacar

a memoria, a identidade colectiva, o (auto)biografismo, a infância e a xuventude, a experiência urbana(…) a tensión (cada vez menos maniquea) entre mundo urbano e mundo rural e entre realidade e fantasia, a guerra civil, o paraíso perdido, a visión apocalíptica, o vello mito da Terra-Nai, a emigración e a autoconciencia da escrita literária. Sem dúbida, a representación da experiencia urbana debe figurar como un dos indicadores máis importantes nas transformacións temáticas da narrativa galega destes anos (GONZÁLES-MILLÁN, 1996, p. 55).

O nacionalismo literário tão caro a muitos autores galegos vem sendo paulatinamente abandonado pela geração pós-franquista, mas ainda atua na formação do imaginário galego “fundamentalmente porque as solucións políticas e sociais non teñen acadado a efectividade necesaria e desexada polos sectores máis comprometidos da sociedade” (Gonzáles-Millán, 1996, p.44). É nesta esteira que se encontra o autor estudado.

Darío Xohán Cabana iniciou sua carreira como poeta e tradutor. Em determinado momento, começou a escrever narrativas em que recuperava figuras do imaginário galego, além de literatura infanto-juvenil e ensaios acadêmicos. Como exemplos mais emblemáticos dessa recuperação de figuras histórico-míticas ou de cenários medievais em sua produção literária, estão os romances Galvan em Saor (1989), Cándido Branco e o Cabaleiro Negro (1992), Cervo na torre (1994), Morte de Rei (1996), além de poemas esparsos em vários livros que recontam as histórias advindas do imaginário galego. Grande tradutor e cultor da literatura nacional, Darío Xoan Cabana afirma

A literatura galega é unha literatura maior. ¿Ou acaso hai nas Españas un poeta de setenta anos coma Méndez Ferrín, ou unha poeta de trinta coma Olga Novo? O único que lle falta á literatura galega é a independencia nacional, pero iso fáltanos a todos, non só ós escritores. E sobrar non vexo que sobre nada: que nazan cen flores e que florezan cen escolas. Incluso os libros mediocres fan de base prós altos cumes. E os malos de todo, con non lelos xa está (http://armandorequeixo.blogaliza.org/)

Fortemente galeguista, Cabana tem como foco a identidade política e cultura da Galiza, pensando em sua província como uma nação contra-hegemônica que enfrenta Castela desde sempre. Sua preocupação com a formação e permanência de uma “mitologia galega” escoa em suas obras de forma contundente

Deste modo, percebe-se que a história e a literatura galegas sempre estiveram imbrincadas. Nada mais natural que o romance escolhido seja eco destes momentos de avanços e recuos na resistência de Galiza.

3)Aspectos de Morte de rei

Sabe-se que D. García II foi filho de D. Fernando I, o Magno, considerado por muitos o primeiro unificador do futuro reino da Espanha, e D. Sancha de Leão. D. Fernando I teve um reinado repleto de lutas e conquistas territoriais, obtendo, assim, a possibilidade de transformar, em reinos, três espaços para seus filhos varões: D. Sancho II, o forte, ficou com Castela; D. Afonso VI, o bravo, com Leão e coube a D. García II o reino de Galiza. Quanto às mulheres, Urraca ficou com o território de Zamorra e Elvira, com o de Toro, além das rendas de monastérios dos reinos.

A insatisfação de D. Sancho com o enlace paterno foi ignorada até a morte de D.Sancha em 1067. Logo após, ele iniciou uma luta entre os irmãos e tentou conquistar os seus reinos. Mancomunado com D. Afonso, resolveu dividir com este o reino de Galiza e aprisionou o irmão caçula em Santarém. Este conseguiu fugir e ficou exilado no Taifa (território mouro subserviente ao rei) de Sevilha por um ano. Nesse ínterim, D. Afonso, cujo reino também fora arrebatado pelo irmão mais velho, não aceitou ser seu vassalo e desistir de seu reinado e também partiu para o exílio em Toledo. Com isso, D. Sancho se intitulou rei de Castela, Leão e Galiza.

No entanto, D. Urraca não aceitou a soberania do irmão e continuou a resistir a seu mando e a conspirar com D. Afonso. No cerco à cidade de Zamorra, D. Sancho é atraiçoado pelo cavaleiro Vellino Dolfos em uma caçada. D. García II se aproveita e retorna à Galiza. Pouco tempo depois, contudo, D. Urraca e D. Afonso decidem se unir mais uma vez e convidam D. García II para uma reunião. Quando D. García II chega ao local, percebe que foi uma armadilha e seus cavalheiros foram desarmados ou mortos. Todas as tentativas de insurreição dos nobres galegos foram sufocadas e D. García, não aceitando a tonsura sugerida por seu irmão e autoproclamado rei de Castela, Leão e Galiza, foi preso. O rei traído permaneceu no castelo de Luna até a sua morte. Faleceu, finalmente, em 1090 e está enterrado no panteão de reis de Santo Isidoro em Leão com os grilhões que o acompanharam em seus últimos anos.

  1. Afonso VI, o Bravo, unificou os reinos de Leão, Castela e Galiza, tendo como conselheira principal sua irmã mais velha. Após a morte de D. García II, não houve mais reis com pensamento em uma Galiza independente. Mesmo havendo depois reis que se intitularam galegos, a política de centralização espanhola só ficou mais forte.

Morte de rei é um romance dividido em dois tempos de narrativa. O primeiro, com D. García ancião, encarcerado e com grilhões nas mãos e pés, retrata a visita de Amaro Érniz, ainda fiel vassalo, e a conversa de ambos sobre os acontecimentos do extinto reino. Nota-se uma tentativa por parte de Amaro em animar seu rei para iniciar uma rebelião, ideia rechaçada por um homem já descrente e alquebrado. O segundo tempo é o da juventude e início do esperançoso reinado de D. García II, notadamente construído como rei cavalheiro cristão e suas dificuldades em unificar a Galiza tentando cumprir sua promessa de dar pão a todos os galegos.

Percebe-se que há uma dicotomia nos dois tempos narrados: o primeiro é dividido pela esperança de um lado, representada por Amaro Érniz, e o fastio e desilusão por outro, de D. García. O segundo é impossibilidade do jovem rei de manter os direitos dos nobres e do clero, que entravam em choque com a promessa de restaurar o sentido de igualdade e liberdade entre os galegos. Tais sentimentos contrastantes se colocam como reflexo de uma sociedade fortemente hierarquizada e excepcionalmente mutável, que era a da Idade Média. Há, então, um clima de perda no romance. Existiu a possibilidade de se fazer um reino bom, justo e cristão, mas forças contrárias derrubaram e aprisionaram D. García II e o sonho dos galegos.

A retomada da história vivida pelas personagens com distância temporal auxilia uma maior compreensão por parte de D. García II sobre os aspectos politico-ideológicos que moveram seus irmãos para unificar a Espanha passando por cima da hegemonia galega. O velho rei admite no romance que sua atuação na história da Galiza foi apagada por meio de estratégias de poder e troca de favores. Como exemplo “real” dessa manipulação intuída no romance, a canção El cantar de Mio Cid, que trata da unificação espanhola e registra os jogos de poder dos irmãos de D. García II, não cita seu nome. Para Miguel Salás Diáz:

No es la selección de este episodio histórico lo que convierte este relato en mitología nacionalista; al fin y al cabo, en todos los mitos se entrelazan, con naturalidad, la realidad y la fantasía. Lo que hace de este relato un acto de manipulación política es el hecho de que su autor convierta una figura histórica real en una figura claramente mesiánica. Para ello renuncia al rigor histórico, a la verosimilitud –veremos que la novela está llena de anacronismos– y opta por convertir la historia de Galicia en un relato maniqueo, de tintes religiosos y escatológicos, en el que el Bien -representado por los galegos– y el Mal -que encaman los españoles – libran una batalla que solamente puede terminar en la victoria de la bondad y la consecuente llegada de una nueva Edad de Oro (DIÁZ, p. 337)

Outro aspecto a ser levado em conta é a presença do epílogo com o glossário de personagens históricos que são citados no decorrer da narrativa. São resumos das biografias das personagens da época e como foram importantes para a história da Península Ibérica. Neste aspecto, o Glossário com as personagens seria ao mesmo tempo uma informação histórica para os que não conhecem a época descrita e uma retomada do texto em sua forma discursiva mais ampla, fazendo uma ponte entre a escrita literária e a verdade histórica. A percepção da leitura do Glossário frente à ficcionalização da história é profícua no que tange à comparação entre a Literatura e a História.

Essa problematização se dá de forma cabal na presença do paratexto do romance condutor. O conceito de Gerard Genette de paratexto se faz importante quando se pensa nesse glossário como fonte de conhecimento histórico e estratégia narrativa bem orquestrada, já que paratexto estende e ressignifica o sentido do texto. Para Genette, os elementos de um paratexto “propiciam ao texto um encontro (variável) e às vezes um comentário, oficial ou oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado à erudição externa nem sempre pode dispor tão facilmente quanto ele gostaria e pretende” (apud ARAUJO, 2010,p.2).

Deste modo, Morte de rei é uma narrativa que revela os meandros politico-ideológicos que perpassam o imaginário galego. Voltar ao passado é uma estratégia de enfrentamento de questões ainda atuais. Repensar os documentos históricos ficcionalmente é buscar o desvelamento da história galega.

4)D. García II: o rei prometido?

Na obra de Darío Xoan Cabana como um todo, a figura de D. García II se faz presente como a de um herói puro, quase mítico. Em seu livro Galvan em Saor (1989), por exemplo, há a presença desta personagem comparada ao rei Artur. Ambos, García e Artur, são tratados como reis há muito desaparecidos, mas ainda presentes no imaginário de seus povos nos “contos de vellas”. D. García II é apresentado como o cervo que anda pelos montes.

Não será aqui aprofundada a influência da tradição artúrica na obra de Cabana (que também se alastra em seus poemas), mas é inegável que as imagens de um rei e de um passado perdidos se atualizam na construção da figura de D. García II. Ele apresenta características heroicas muito delineadas e luminosas: é alto, loiro, bom e superior física e moralmente. Isto é perceptível em especial no segundo capítulo de Morte de rei, quando o servo Erno Cernui, responsável pela educação do infante D. García e pai de Amaro Érniz, conta-lhe a lenda de um antigo rei galego, loiro (como o menino), vestido de ouro e seda branca que “por onde cabalgaba o rei as flores agromaban ainda que fose inverno, porque daquela non xeaba nunca e a neve duraba pouco tempo” (CABANA, 1996, p. 29). Erno Cernui deseja que García tome o rei mítico como exemplo. Percebe-se que esta lenda na construção da narrativa prenuncia todo comportamento de D. García II, rei muito preocupado em estar à altura de tão bonita figura lendária.

A história ocorre em uma Galiza mítica, uma terra sem fome e sem pobres. Como toda boa lenda, possui um herói perfeito cujos dois erros destruíram o destino de sua terra (o que demonstra que a morte do rei é a morte da terra, como ocorre com Artur). Quando avisado de que haveria uma grande tempestade anunciada por uma estrela cadente que resplandecia no céu por várias noites, o rei guardou todo o trigo do reino e deixou as chaves dos celeiros nas mãos dos barões. Este foi o primeiro erro do grande rei. O segundo erro foi o rei abandonar a sua terra por ter vontade de se casar com uma estrangeira. O rei sumiu no mar e nunca mais voltou. Os barões tomaram conta dos celeiros, colocaram um mau rei no lugar e transformaram homens livres em servos.

É muito singular essa lenda por ser posta em um momento em que o infante se pergunta o que é ser um bom rei. O servo Erno Cernui utiliza-se da historieta e conclui

Ti queres ser bon rei,e un bon rei non ten servos. O malo é que ser bon rei quizais era doado no principio do mundo, pero agora é difícil, porque o pecado da cobiza encheu a nosa terra, e hai moitos agravios e moitas feridas que curar, e tamén moitas soberbias que domear. Seres bon rei serache moi difícil, pero eu farei tanto canto puider pra che axudar, e onde non poida morrerei por ti (CABANA, 1996, p.31).

Percebe-se aqui a configuração do ideal de um herói diferenciado. Sentindo-se herdeiro de uma tradição imemorial, D. García II tenta atualizar a lenda buscando em toda a narrativa a volta dos tempos sem fome e sem servos, tendo como bússola a justiça e a igualdade. É um herói não de conquistas e de guerras, mas de distribuição das riquezas do reino, o que causou sua morte, visto que para a nobreza e clero “non convén a rei ocuparse em mesteres de viláns e de servos, que nin sequera cadran ben no máis pobre fidalgo” (CABANA, 1996, p. 187).

Outro ponto a ser evidenciado aqui é o prenúncio de homens que seguirão o jovem rei até a morte. Erno Cernui, assim como vários habitantes de Nemedón (povoado dos homens livres que escolhem seguir D. García II em sua fome de justiça), morre em nome do rei e da liberdade de lavrar em paz em um mundo destituído de cobiça e de servilismo. O rei prometido é o rei de um tempo áureo, e D. García II e seus seguidores querem instaurar esse tempo.

Esta luta se exprime nas palavras do servo quando ele defende as andanças do já rei em outro momento: “(…) A nosa xente agora come pan, graças ó que el nos dá. E algún día termos terras boas, cando haxa paz e seguranza enteira. Entremente iremos a onde el vaia, pois dános gusto ver facer xustiza” (CABANA, 1996, p. 119). Esta fome de igualdade e de liberdade é a causa da morte de todos e da culpa do velho rei, que se recusa a desistir do reinado mesmo quando prisioneiro.

Todo herói deve lutar por um ideal. O símbolo principal da política de D. García II é o pão. Percebe-se a presença do pão em toda a obra de diferentes formas: em refeições, em discussões teológicas, em brigas políticas. Esse ideal aparece logo no início da narrativa, quando o infante se perde na floresta e encontra uma velha que, não sabendo que está diante do futuro regente, oferece o pão que possui. Eis o diálogo que marca a vida do herói:

– este pan é moi raro.(…) Pero está bastante duro, e amarga un pouco moito.

– Porque é ferraxón de millo e landras, meu homiño. A boa gra no dura todo o ano na casa dos pobres.(…)

– (…) Agora que eu, cando sexa rei, hei de mirar porque haxa pan de trigo pra todo o ano en todas as casas de meu reino (CABANA, 1996, p. 23)

Logo após, a senhora descobre que o menino é realmente quem diz ser e pede: “mira polo pan dos pobres, filliño, e así serás bon rei” (CABANA, 1996, p. 25). A promessa do jovem é motivo de desespero do moribundo D. García II que, mesmo às portas da morte, pergunta como foram as colheitas e se haverá pão para os lavradores.

O pão é o motivo de discordância da personagem principal com todos os representantes de poder. A sua distribuição fere a ordem de exploração característica da Idade Média. D. Sancha avisa o protagonista que sua escolha pode ser desastrosa:

– Tamén os teus celeiros! ¡Gastas em trigo o máis das páreas que che mandan os mouros!

– ¿E se viñer um ano mao? ¿Que han de comer os pobres? Os frades non lles abren as súas tullas. Agás tomando em troca as terras que ainda non perderon. (…) ¿ E quen lle podo facer mal xuntando gra pra um ano de laceira?

– Ti mesmo o estás dicindo: a quen espera gañar terras cando faltar o pan nas casas. ¡Ai, meu filliño! Se teus irmáns se volven contra ti, non lles han de faltar axudadores nos teus propios vasalos (CABANA, 1996, p. 120).

Mesmo com os avisos da mãe e de outros amigos, D. García II continua com sua política de igualdade e deixa muitos descontentes. Seus vassalos murmuram contra seu reinado e deixam os servos em um estado de miséria, corroendo assim suas conquistas. O bispo Diego Páiz, porta-voz dos descontentes, afirma em dado momento:

Pensa que es dono do teu reino só por nós e pra nós; a nós nos debes facer ben, pois facéndonos ben afirmaste no trono. Pensa, señor, que levas a coroa de ouro: ¿ que podes ter que ver com rústicos de capucha de estopa? ¿ Que é o que che importa a ti que esa xentiña pase estreituras um inverno? Culpa será dos seus pecados, ou onde nos da súa imprevision. (…) ¿ Onde se viu xamais um rei facer tantas loucuras por homes baixos e servís que nada porteñen? (CABANA, 1996, p. 188)

Ignorando os maus, D. García II segue com o que considera certo e traz com a sua imprevidência e ingenuidade juvenis o enfraquecimento de Galiza. Pouco a pouco, perde seus territórios e seus vassalos e encontra deslealdades nos espaços mais importantes de seu reinado. Seus companheiros leais morrem e o inverno chega com grande fome.

A promessa de instituir uma nova Galiza, de formar uma nação pura e equânime é malograda. O cervo dourado foi esquecido e o pão não foi repartido. Grande dor e desesperança tomam conta da narrativa. Mesmo assim, percebe-se que o fraco rei ainda é uma ameaça pois

O medo ás represálias fai prudentes os homes: ainda pode xurgir outra vez a rebelión e abalar os três reinos baixo dos pés dun rei traidor. Eso temen alguns, mas Amaro Érniz nos o espera; e Don García de Galiza menos, mais Amaro nos quere dicirle ó rei encadeado que poucos amigos lle quedan xa entre os que teñen poder e a forza (CABANA, 1996, p. 15)

Mesmo morrendo e sem muitos vassalos, D. García II é uma força a ser reconhecida. A não aceitação do rei traidor é uma realidade. Se D. Afonso VI estivesse completamente acomodado em sua posição, não precisaria temer a revolta de D. García II, muito menos pedir sua tonsura reiteradamente. Esta fraca, mas constante pulsão da Galiza –incorporada por seu rei – é a resistência inequívoca da língua e cultura galegas frente à força estrangeira. Galiza nunca mais reconheceu outro soberano.

5)A maldição de D. García II: o poder do sangue

É interessante perceber na construção narrativa faces contrastantes da figura de D. García II. Ao mesmo tempo em que é um herói cujo destino é resgatar a Galiza mítica, percebe-se desde seu nascimento entraves para este resgate: o seu sangue carrega a “estirpe de Caim”, ou seja, era destino da prole de D. Fernando I ser desmembrada e rasgada pelos pecados do pai, que matou o irmão e o cunhado para obter poder.

O fato de existir luz e sombra, destino e maldição no elaborar da figura do último soberano resgata a ideia defendida anteriormente de que não existe uma verdade única e simples na narrativa escolhida. A complexidade da personagem está também em suas raízes, que se desdobra em um jogo alegórico muito rico: o cervo solto nas montanhas tem como destino ser perseguido pelo lobo e pela raposa, além de ser picado pela víbora.

As figuras elencadas acima são fruto de um sonho de infância de D. García na mesma noite em que ele jura ao povo de Nemedón terras férteis para lavrar assim que fosse rei (terras que ainda a serem conquistadas, diga-se de passagem). O fato de acontecer o mesmo sonho no dia de seu juramento já demonstra o que ocorrerá no decorrer da trama. Eis o sonho:

Soñei que eu era un cervo xigantesco que ía brincando de cume en cume, e vía todo o reino de Galiza con todos os seus vales e cortinas e cidades e vilas e lugares e camiños e fragas. E vía prás estremas do Merídia sítios quentes e fértiles dos reis de mourindade, onde estender o meu reinado pra darlles terras libres ós homes bos de Nemedón que seguían o cervo que era rei. E de pronto aquel cervo que era eu comezou a volverse pequeniño, e xa non vía máis cós dous arrós dunha congstra embazada de esterpes e xardón, e o cervo ía sangrando, perseguido por un lobo feroz e um gran raposo negro. Eu corría ferido, pero non me collían, e entón metín o pé nunha carrouceira de herba má, e adentoume unha víbora e cain, e xa non me puiden levantar, e o lobo e o raposo xa chegaban coas súas bocas de dentes afiados… (CABANA, 1996, p. 67)

No decorrer da narrativa, vai sendo delineado quem são o lobo, a raposa e a víbora. D. Sancho II é o lobo: vocifera e ataca sem pensar. Não esconde seu descontentamento com a divisão do reino. Todas as suas aparições estão relacionadas a brigas familiares e guerras. Guerreiro notável e respeitado, quando prende o caçula, tenta dobra-lo por meio da força e diálogo entre eles é impossível. Como lobo, é passional e perigoso, mas é honesto em sua caçada e não possui subterfúgios.

Já D. Afonso VI é a raposa, não demonstra seus sentimentos e espera o melhor momento para atacar. Oportunista, tece uma rede de informantes e aliados que derruba os dois irmãos. Quando finalmente consegue o trono por meio de traição, imediatamente inicia uma campanha de fortalecimento de sua posição por meio de chantagem e troca de favores. Compra vassalos e arma intrigas. Tudo com o discurso de que está fazendo o melhor para o reino.

Por fim, a víbora é D. Urraca, uma figura muito dúbia mesmo na tradição histórica: ela é retratada tradicionalmente como uma mulher ardilosa e tomada pelas paixões. Sua relação incestuosa com o irmão Afonso é escancarada no texto de Cabana e só é aludida por D. García II com muita mágoa. Ele considera a mentora de todas as suas agruras e desde o primeiro momento do texto é apresentada como alguém cujo amor é apenas do irmão favorito.

A relação entre os quatro irmãos e a guerra entre eles é assim definida por D. García II:

Non foi Sancho que o empezou, por máis que Afonso o queira facer crer pra se xustificar (…) Quizabes foi Orraca quem o encirrou contra el…Orraca tamén tiña um grande agravio contra Sancho, maior se cadra ca comigo… ás veces creo que nos ser por ela, nosoutros ó mellor non chagabamos… mas esse non vale pra falar (…) Que Deus a faga arrepender com verdadeira contrición antes da morte corporal (CABANA, 1996, p. 166).

É Urraca que, mesmo não tendo muitas falas no romance, coloca-se como a grande causa da queda do irmão, que não a perdoa junto com o rei traidor. Tal sentimento não se estende ao D. Sancho II, não só por ser morto de forma vil, mas por ser honesto sobre suas atitudes.

O destino dos irmãos é anunciado na narrativa no momento em que D. Fernando I reflete sobre a vida de reis:

¿É igual a Lei de Deus prós reis ca pró resto dos homes? Se é igual ¿ por que nos fxo reis? (…) Matei coas minas mans o meu cuñado, fixen matar o meu irmán, matei e fixen matar milleiros doutros homes que tamén eran meus irmáns por nosso pai Adán, e tomei reinos e riquezas pola forza da espada. (…) Matei os meus irmáns, son da liñaxe de Caín. ¿Estamos condenados os reis ó fatricidio? (…) Crimes que nacen doutros crimes, maldición de Caín que nos persegue!(…) Deus faga que a túa vida nos se encontre coa espada fratricida, nin coas insidias que usa a covardia (CABANA, 1996, p. 80-81).

Após esta reflexão, D. Fernando I aconselha ao filho mais novo amar os irmãos, mas nunca confiar plenamente neles. A cobiça dos irmãos mais velhos é um contraste com a simplicidade do protagonista, que nasceu rei, mas não o desejava, ao contrário de seu pai, que cobiçou e ganhou a coroa por meio da espada.

Os pecados do pai reverberam na vida de seus filhos. D. Fernando I não consegue uma morte tranquila: enquanto agonizava, seus filhos lutavam por territórios e gritavam uns com os outros. Suas últimas palavras são um vaticínio revoltado:

Cheiro a cobiza! Maldita sexa nossa condición, e todos estes ruíns traidores que non agardan máis cá miña morte… a cabeza lles tiña que pinchar… ¡Ai, todo é caste de Caín! Magnates, bispos, infanzóns…¡Abel morreu sen inzo! A sangue e lume tiñas que… A puta da Babilonia… Agarda, agarda… A puta… Ouh, que trapela, fillo, que cilada…¡Ouh, como a armaron, o raposo e a bicha! Vólvete atrás, defende o reino, que non se che apoderen no teu reino… Os castelos… escoita, escoita… (CABANA, 1996, p. 128)

Percebe-se aqui que não era possível a restauração da Galiza, posto que o rei escolhido estava destinado a ser estraçalhado por seus irmãos da casta de Caim. Como Abel, D. García II somente precisou nascer para ser benquisto pelos pais e pelo povo galego. Como todo herói, chamou para si os olhares de vilões muito poderosos. Mas ao contrário dos heróis tradicionais, não conseguiu vencer seus oponentes com o poder da bondade e da justiça. Galiza ainda espera seu rei.

6)Reflexões

Na obra escolhida, a Literatura se utiliza da História e estende seu sentido. Em nenhum momento se constrói a ideia de que o passado é melhor ou pior que o presente, mas é uma história não terminada que fere as relações atuais. O romance condutor:

(…) confronta o passado com o presente, e vice-versa. Numa reação direta contra a tendência de nossa época no sentido de valorizar apenas o novo e a novidade, ele nos faz voltar a um passado repensado, para verificar o que tem valor nessa experiência passada, se é que ali existe mesmo algo de valor. Mas a crítica de sua ironia é uma faca de dois gumes: o passado e o presente são julgados um à luz do outro (HUTCHEON, 1991, p. 63).

Nesta perspectiva, o texto condutor é ponte para a reflexão da verdade na construção narrativa, tendo em vista a revisão do conceito de metaficção historiográfica. Esse conceito tem por característica a utilização de personagens e/ou acontecimentos históricos por meio da problematização da ideia de Literatura e de História a partir da autorreflexão da própria escritura literária. Para Linda Hutcheon

Mais do que negar, ela (a metaficcçao historiográfica) contesta as “verdades” da realidade e da ficção – as elaborações humanas por cujo intermédio conseguimos viver em nosso mundo. A ficção não reflete a realidade, nem a reproduz. Não pode fazê-lo. Na metaficção historiográfica não há nenhuma pretensão de mimese simplista. Em vez disso, a ficção é apresentada como mais um entre os discursos pelos quais elaboramos nossas versões da realidade, e tanto a elaboração como sua necessidade são o que se enfatiza no romance pós-modernista (HUTCHEON, 1991, p. 64).

É possível então dizer que está em xeque o conhecimento histórico e o acesso que temos do passado. A estruturação da personagem D. García II evoca um problema que transborda as páginas da obra e pergunta o que é memória e como o discurso histórico pode ser facilmente moldado pelos inimigos de um rei fracassado, tornando-se, assim, algo que pode ser editado, uma realidade fragmentada. O discurso histórico, editado pelo ficcional, é uma tentativa de relativizar os conceitos de real e de hegemônico na comunidade estudada

A personagem ficcional é ao mesmo tempo ícone de um passado que poderia ser glorioso e exemplo de uma ingenuidade estéril, sem ações válidas para a construção de uma Galiza forte e independente. No fim, há uma literatura pouco nostálgica que se utiliza da história moldada para construir um outro olhar, uma nova perspectiva dos problemas galegos. Erros do passado estão sendo repetidos no presente? Ou é o presente que, ao vislumbrar o passado, percebe seus erros?

Isto não significa que a partir de Morte de rei respostas serão achadas. Pelo contrário, há a negação de uma resposta do que é Galiza, do que é passado, do que é memória. O texto do século XX se coloca como uma versão, como contraponto de uma verdade que se atualiza e se questiona. Como os leitores lidarão com isto é motivo de outra discussão. Sabe-se, no entanto, que para um povo que até hoje não conseguiu sua plena autonomia político-social, o diálogo entre a literatura e a história é sim um caminho para se construir uma nova literatura e uma nova história.

Referências  

ARAUJO, Rodrigo da costa. De textos e de paratextos .In: Palimpsesto, n 10, 2010.

CABANA, Darío Xoan. Morte de rei. Vigo: Edicións XeraiS de Galicia, 1996

FONTAÍÑA, Laura Tato. A literatura galega contemporânea. In: GARCÍA, Flavio (org) Ler Ferrín; ler Galiza: estudos literários. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2004

GONZALEZ-MILLAN, Xoan. A narrativa galega atual (1975-1984). Unha história social. Vigo: Xerais, 1996.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. História, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991.

JUANA LOPES, jesús& PRADA RODRIGUEZ, Xulio. Historia de Galicia: Galicia contemporânea. Tomo V, Via láctea editorial, 1996.

MARIÑO PAZ, Ramon. Historia da língua galega. Santiago de Compostela, 1998.

PRIETO, Pablo Martín. La infanta Urraca Y el cerco de Zamorra em la historiografia medieval castellana y leonesa. In: Anuario de estudios medievales (AEM). nº 40, 2010, p.35-60.

VILAVEDRA, Dolores. Sobre narrativa galega contemporânea. Vigo: Galaxia, 2000.

VILLARES, Ramón. História da Galiza. Lisboa: Livros horizonte, 1991.

ZAS, Mercedes Queixas. Breve história da literatura galega. Santiago de Compostela: A Nosa Terra, 1999.

 

A opera omnia de Rosário Suárez Albán e a revitalização dos estudos galegos na Bahia

Juan Boullosa

 Bolsista do Centro de Estudos de Língua e Cultura Galega (CELGA) da Universidade Federal da Bahia

Ganhador do 1º prémio ao melhor trabalho galego convocado pelo Centro de Estudos da Língua Galega (CELGA) do ano 2015 na Universidade Federal da Bahia.

 RESUMO

Este ensaio tem como objetivos principais apresentar o projeto de edição da opera omnia de Profa. Rosário Suárez Albán[1], fundadora do de Estudos da língua e Cultura Galegas (CELGA) – núcleo acadêmico vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) – e problematizar de que forma este contribui para a revitalização dos estudos galegos em Salvador. Tal projeto toma como base o conjunto de obras da mencionada investigadora, docente aposentada desta instituição universitária, que pelo trabalho exímio e idôneo desenvolvido junto ao Centro de Estudos Galegos (CEG) e posteriormente ao CELGA, destacou-se pelas diversas pesquisas na área. Estão catalogadas até o momento em torno de 20 obras, algumas de sua autoria e outras de autoria compartida. São publicações próprias, artigos, livros, comunicações etc. Todas essas obras formam então o corpus do projeto e será através dele que trataremos da revalorização da cultura da Galícia. Salientamos que este corpus ainda está em construção, dada a situação de dispersão em que se encontram as obras. Apresentado o projeto, discutiremos as dificuldades e os percalços inerentes a este labor filológico e os critérios adotados para a sua solução. Por fim, traçando este panorama e as contribuições deste projeto para os estudos galegos, almejamos tecer algum comentário sobre o futuro destes e do próprio CELGA na Bahia.

1 INTRODUÇÃO

Muitos anos se passaram desde as primeiras emigrações ocorridas na Galícia. Estamos falando de mais de cem anos de história. Uma história sofrida, feita de muitos homens e mulheres que “abandonaram” seu passado e seu presente para garantir um futuro melhor. Enorme é a quantidade de relatos que se tem dessa época, de jovens que saíram sozinhos em busca de um emprego, de homens que deixaram filhos e esposa para trás, de mulheres que nunca mais tiveram notícia de seus entes queridos…. Hoje, o que temos como fruto dessas corajosas e muitas vezes dolorosas iniciativas são comunidades galegas espalhadas por todo o mundo. Alemanha, Argentina, Chile, Cuba, Estados Unidos da América (EUA), França, Brasil, estes são apenas alguns dos vários destinos escolhidos pelos desbravadores galegos. Sim, desbravadores, porque apesar do medo e do horizonte incerto que tinham, não recuaram, seguiram adiante, explorando esse mundo novo. Estes galegos deixaram marcas nas cidades aonde chegaram. Não se trata somente de marcas materiais, mas também socioculturais, que se expressam de maneira mais ou menos acentuada não só pela linguagem, mas também pela intensa forma de produção e apropriação do espaço a sua volta.

Os galegos e galegas foram verdadeiros agentes dentro do processo de formação cultural por onde passaram, criando, alterando esses espaços e deles se apropriando conforme sua própria lógica. Segundo Harvey apud Corrêa (1997), a cidade pode ser considerada uma expressão concreta de processos sociais construídos sobre o espaço, refletindo, por extensão, as características da sociedade. Por isso, nos casos em questão, é impossível dissociar cada uma dessas sociedades da comunidade galega que acolheram. Sendo evidente a importância desses emigrantes para a construção da história galega e de tantas outras culturas, justifica-se a necessidade de um estudo que abranja os aspectos culturais, linguísticos e históricos galegos na sociedade baiana, mormente a soteropolitana.

2 UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O PROJETO

Podemos dizer que o projeto toma como seu objeto de estudo não um daqueles desbravadores, mas o fruto desse desbravamento. Rosário Suárez Albán, filha de emigrantes galegos, torna-se uma importante representante dentro deste âmbito histórico e linguístico. Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestra em Língua Portuguesa pela mesma instituição (pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística), desenvolveu ao longo dos anos diversas pesquisas sobre o desempenho linguístico dos galegos na Bahia. Serão estes estudos o foco do nosso trabalho. Foram mais de trinta anos de magistério e várias produções, divididas entre artigos, livros, comunicações em eventos, dissertações, material que compõe o corpus do plano de pesquisa, que nasce inspirado pelo valor do legado material e imaterial de tais escritos para os estudos linguísticos e literários sobre a língua, cultura e literatura galegas. Apesar da relevância dos de Suárez Albán, suas obras encontram-se esparsas, algumas delas praticamente inacessíveis, fazendo-se então necessária uma compilação fidedigna desse material e uma possível recuperação daqueles que por ventura estiverem deteriorados. Trata-se de um labor filológico que parte do resgate, visando a publicação e disponibilização deste espólio para todo o público, dilatando o alcance da obra.

2.1 BREVE TRAJETÓRIA ACADÊMICA DE ROSÁRIO SUÁREZ ALBÁN[2] 

Antes de prosseguir com a explanação sobre o projeto, é cogente mencionar a trajetória acadêmica desta que deu origem a todo este diálogo e que honra sua ascendência galega com toda a sua competência e vida dedicados à língua galega. Como já foi dito em caráter introdutório, Maria del Rosário Suárez Albán, é filha de imigrantes galegos radicados na Bahia. Após os estudos primários e secundários, ingressa, em 1970, através da seleção do vestibular, no curso de graduação em Letras Vernáculas da UFBA, dando início, em 1976, ao seu Mestrado, desenvolvendo pesquisa sobre o desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia, sob a orientação da Profa. Myrian Barbosa da Silva, havendo defendido sua dissertação em 1978. Já no primeiro ano de seu curso de mestrado, é admitida — via concurso público — como docente efetiva do Departamento de Letras Vernáculas desta mesma universidade, múnus que desempenharia eximiamente por quase três décadas. Foram 30 anos de magistério dedicados a ministrar disciplinas como: Análise Textual da Língua Portuguesa, Dialetologia do Português, Estudo das Normas Urbanas Cultas Brasileiras, História da Língua Portuguesa, Introdução ao Estudo Científico da Língua Portuguesa, Literatura Popular, Língua Portuguesa na Comunicação de Massas, Morfossintaxe Sincrônica da Língua Portuguesa e Iniciação Científica da Língua Portuguesa no 1º e 2º graus.

Suárez Albán lecionou também em cursos de pós-graduação lato sensu (circunscritos à UFBA, à UEFS ou à UNIFACS), principalmente a disciplina Técnicas de Redação. Participou de inúmeras atividades de extensão universitária e o exerceu funções administrativas dentro da UFBA, mas a esfera em que se destacou foi no desenvolvimento de rotas de pesquisa científica, muitas vezes em parceria acadêmica com a sua eminente colega Doralice Fernandes Xavier Alcoforado (in memoriam), no âmbito dos projetos Norma Urbana Culta Brasileira (NURC) e Documentos da Memória Cultural. A obra de Suárez Albán por si só já testemunha a sua dedicação às áreas do saber às quais consagrou toda a sua trajetória intelectual e docente: os estudos linguísticos e literários em geral; os estudos sobre a língua, cultura e literatura galego-portuguesas, em particular. Devotada à sua terra natal, a Galícia, construiu uma produção quantitativa e qualitativamente considerável sobre diversos temas ligados a essa comunidade autônoma, mormente sobre o seu romanceiro popular trazido ao território cultural baiano e nele encrustado, o desempenho linguístico de imigrantes galegos e o delineamento do próprio processo histórico da migração de seus compatrícios.

2.2 ESCOPOS E METAS DA PROPOSTA

Pormenorizando, tem-se como objetivos principais do projeto:

  • A edição de todos os trabalhos da pesquisadora para criar um volume que contenha sua opera omnia, a modo de homenagear a sua trajetória profissional e intelectual na UFBA.
  • O estudo crítico da sua obra, em especial sobre aspectos concernentes à linguística comparativa entre o galego e o português e os fundamentos teóricos e metodológicos que a sustentam, abarcando também os trabalhos referentes à literatura de tradição oral dos imigrantes galegos na Bahia.
  • O resgate destas obras do abandono em que se encontram para trazê-las novamente à luz de novas discussões.

2.3 ASPECTOS METODOLÓGICOS: A ROTA DE INVESTIGAÇÃO

A metodologia traçada está baseada, inicialmente, no rastreamento das obras. Grande parte delas está disponibilizada na Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa (BURMC) e facilmente localizadas por um buscador online[3] desenvolvido pela própria UFBA e de livre acesso aos estudantes. Contudo, existe outra parte, não menos importante, que está fora dos limites da universidade e, por isso, de difícil contabilização. É aquela que está sob os cuidados de familiares, amigos, colegas que participaram de alguma forma da vida acadêmica da fundadora do CELGA. Estes materiais, até então desconhecidos, chegam até a equipe responsável pelo projeto através de uma árdua pesquisa e consulta feita com cada um desses potenciais mantenedores. Tudo isso acaba dificultando o andamento das atividades, que ficam dependentes do aparecimento de uma nova obra a ser incorporada, o que nos faz considerar tal labor como fluido e escorregadio, pois é aberto.

Após a compilação dos materiais que formariam o corpus do projeto, surge a segunda etapa, que é a digitalização e digitação dessas produções. A digitalização em si é um processo “simples”, pois se resume a separar e escanear as obras. Sendo a intenção salvaguardar os documentos e disponibilizá-los em meios mais acessíveis, a digitalização seria o suficiente. Porém, muitas obras estão com seu suporte deteriorado pela força do tempo, o que impossibilita o escaneamento, sob a pena de danificar os originais.

Temos também a questão da publicação de um livro abrangendo essa opera omnia e por questões de formatação, os arquivos com extensões como: JPEG, BMP, TIF, PNG, GIF, PBM, PGM e PPM, dificultariam a produção do mesmo. Tomando como ideal então a edição no formato DOCX – textos produzidos pelo Microsoft Office Word – optamos por digitar as obras ou utilizar programas que convertam estes formatos para o standard do projeto. Feita essa passagem das produções para um formato digital, entra em ação a última etapa, que é a da edição. Todos os textos digitados são minuciosamente examinados e passam por alguns critérios de edição semi-diplomática, respeitando-se ao máximo o original e fazendo apenas algumas alterações indispensáveis. Fazendo parte do escopo a autenticidade das obras e o respeito às características originais das mesmas, tem-se como um dos critérios, e talvez o mais importante, manter o mais fidedigno possível o texto digitado ao correspondente original. Permite-se apenas a atualização de alguns constituintes sem a perda ou mudança do valor atribuído a ele, como ocorre com a questão ortográfica e com a tabela utilizada nas transcrições fonéticas, por exemplo. Toda e qualquer mudança que possa ocasionar, de alguma forma, algum tipo de perda do conteúdo original será devidamente explicada através de notas. Isso porque, segundo Bassetto (2001, p.43),

[…] o trabalho filológico tem por objetivo a reconstituição do texto, total ou parcial, ou a determinação e o esclarecimento de algum aspecto relevante a ele relacionado. Estende-se desde a crítica textual, cujo objeto é o próprio texto, até as questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade, a datação etc., e o estudo e a exegese do pormenor.

2.4 O CORPUS

Em sua trajetória acadêmica-intelectual, Rosário Suárez Albán edificou um espólio bibliográfico de relevância, abrangendo desde alguns temas mais intrinsecamente linguísticos (voltados à dialectologia, à sociolinguística, à linguística textual), até aqueles mais achegados à esfera da literatura e da cultura (romanceiro tradicional, contos populares, imigração). Salientando que este projeto se encontra numa fase inicial, até então são estes os constituintes principais de seu corpus:

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (2000). As versões orais de A Nau Catarineta no Romanceiro Geral Português. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA ORAL DO NORDESTE, 2., 2000. Salvador. Do oral ao escrito: 500 anos de história do Brasil. Salvador: Universidade do Estado da Bahia. p. 31-36.

______. (1999). Romanceiro galego na Bahia: sua face lingüística. In: Congresso Internacional de Estudos Galegos, 5., 1997. Trier. Actas… Galícia: s/n. Vol. II. p. 917-926.

______. (1998a). Os ecos do Romanceiro Ibérico no Litoral Norte da Bahia: temas e formas. A Cor das Letras, n.02, p.79-89.

______. (1998b). Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. v. I. 246p.

______. (1998c). Confronto temático entre o romanceiro ibérico e o brasileiro coletados na Bahia. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO DE LINGÜÍSTICA E FILOLOGIA DA AMÉRICA LATINA, 4, 1990, Campinas. Atas… Vol. V. p. 247-253.

______. (1998d). Ser Galego na Bahia: Ontem e Hoje. In: SIMPÓSIO DA LÍNGUA E CULTURA GALEGAS, 1., 1998, Salvador. Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 235-246.

______. (1997). O Romance/cantado/recitado/narrado na Bahia. In: JORNADA SERGIPANA DE ESTUDOS MEDIEVAIS, 2., 1996, Aracaju. Atas… Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura. Vol. I.

______. (1996a). Em busca do Romanceiro: seis anos depois. Revista Internacional de Língua Portuguesa, n.15.

______ . (1996b). O Romanceiro ibérico na Bahia. Euro América – Uma Realidade Comum, p. 165-187.

______. (1996c). O que marcar e o que não marcar na transcrição de textos orais. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA E O ENSINO DA LÍNGUA MATERNA, 1., 1993, Salvador. Diversidade Lingüística e o Ensino da Língua Materna. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 165-181.

______. (1992). A memória do religioso no Romanceiro ibérico. In: Encontro Nacional da ANPOLL, 7., 1992, Porto Alegre. Atas… Vol. VII.

______. (1989). A inmigración galega na Bahía. Revista da Comisión Galega do V Centenário, v. I, n. I, p. 21-47.

______. (1984). Aspectos de interferência lexical no português de imigrantes galegos. Estudos, n.01, p.6-29.

______. (1983). A imigração galega na Bahia. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Centro de Estudos Baianos, 1983. 29 p.

______. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

A este conjunto se somam outras publicações em anais de congressos, produções de matiz artístico-culturais e comunicações em seminários, mesas-redondas e simpósios científicos da área de Letras.

2.5 DIFICULDADES

Desde o aparecimento da escrita e seu uso na comunicação interpessoal, o homem já apontava a necessidade de constituir um conjunto de normas e procedimentos para auxiliar a transcrição textual, com o objetivo de evitar alterações, reduções e acréscimos que os copistas, por descuido ou incúria, intercalavam ao texto, gerando problemas. No caso das obras analisadas, o cuidado recai sobre os seguintes aspectos:

2.5.1 Imagens

Muitas imagens utilizadas estão escurecidas devido ao tempo ou ao método utilizado para a sua reprodução no papel, como é o caso da imagem de Castelao (figura 01) presente na dissertação de mestrado de Suárez Albán. Outras, como os gráficos utilizados neste mesmo estudo (figura 02), estão desbotadas ou até rasuradas e, por isso a importância de sua edição e tratamento. Para as imagens optamos por trabalhar com os originais, dada a raridade de algumas delas, enquanto para os gráficos preferimos refazê-los, respeitando sempre as respectivas diretrizes.

Figura 01. In: Suárez Albán (1979, p.22).

Sin título

Figura 02. In: Suárez Albán (1979, p.71).

 Sin título.png 

2.5.2 Textos 

Ao longo do processo de digitação, diversos problemas foram aparecendo, alguns bem simples (de caráter ortográfico, cuja solução adotada foi a sua respectiva atualização) e outros de formatação, que foram analisados caso a caso. Cada um foi problematizado e interpretado segundo o seu uso, forma e contexto. A tabela abaixo ilustra alguns exemplos das irregularidades mais comuns encontradas no corpus:

Original Área da mudança Modificação
lingüística Questões ortográficas linguística
contacto; dialectología contato; dialetologia
sócio-cultural sociocultural
espaçamento, fonte, tamanho, recuo etc. Questões de formatação *variável

2.5.3 Transcrição fonética 

Na dissertação de Suárez Albán também há uma tabela fonética utilizada para transcrever as falas de seus entrevistados. Como destaca Rodríguez (em artigo no prelo), coautor do projeto, a transcrição utilizada é fundamentalmente ortográfica, daí ser o vocábulo mórfico e não o fonético-fonológico, a unidade básica do estudo. Contudo, assinalamos por meio de transcrição fonética certos fatos linguísticos relevantes, em especial quando mostram interferências entre o galego e o português. Devemos ter em conta, portanto, que a autora nunca pretendeu fazer uma descrição fónica exaustiva dos materiais e que a escolha dos símbolos esteve condicionada pelos recursos mecanográficos disponíveis.

Transcrevemos:

  1. a) a expressão correspondente a vocábulos mórficos exclusivos do galego como [em’sebre] (pgt. típico), [ke’dow] (pgt. ficou), [‘fiso] (pgt.fez);
  2. b) o segmento fônico que revela uma interferência do galego, como fi[s]era, pa[rt]e, nó[s], m[ayr] f[ay] (pgt. mas faz), ou vários segmentos para não interromper a representação da unidade silábica, como [ceha’ba]mos em vez de [c]e[h]a[b]amos;
  3. c) o segmento fônico que revela uma flutuação na seleção de fonemas do português, como [‘azu] por acho.

Na edição, optamos por refazer a transcrição utilizando o Alfabeto Fonético Internacional (IPA). Rodríguez (em artigo no prelo) ainda salienta algumas dificuldades derivadas dessa modificação:

  1. a) A vogal anterior semifechada [e] e a vogal central semifechada [ə] transcrevem-se com o mesmo símbolo [e].
  2. b) A vogal central aberta [a] e a vogal anterior entre aberta e semi-aberta, que interpretamos como [ɑ], transcrevem-se com o mesmo símbolo [a].
  3. c) Os alófonos aproximantes das oclusivas sonoras [b], [d] e [g], que a autora define como “variantes posicionais com oclusão incompleta”, transcrevem-se com os mesmos símbolos [b], [d] e [g].
  4. d) Os alófonos palatalizados das oclusivas dentais, que a autora define como “variantes posicionais com diversos graus de palatalização”, transcrevem-se com os símbolos [tʲ] e [dʲ]. Embora saibamos que se está a referir a variantes africadas ([ʧ], [ʤ]) com elemento oclusivo mais ou menos marcado, achamos preciso preservar a fidelidade à definição da autora e colocar o símbolo [ʲ] do Alfabeto Fonético Internacional para indicar esses “diversos graus de palatalização”.
  5. e) O símbolo [ ͜ ], que serve para marcar a formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte, foi suprimido, pois atualmente se encontra em desuso.

Destas revisões surge então uma nova tabela de transcrição, contendo os símbolos originais e os seus respectivos correspondentes do IPA:

Quadro de correspondências entre símbolos fonéticos

VOGAIS
i vogal anterior fechada

ex.: gal. e ptg. rio; gal. aprendín; ptg. doce

i
vogal anterior semifechada / vogal central semifechada

ex.: gal. e ptg. poder; gal. xente, entón

e
vogal anterior semia-berta

ex.: gal. e ptg. festa; gal. alguén

ɛ
a vogal central aberta / vogal anterior entre aberta e semi-aberta

ex.: gal. e ptg. casa; gal. irmán

a
vogal posterior semi-aberta

ex.: gal. e ptg. porta

ɔ
vogal posterior semifechada

ex.: gal. e ptg. hoxe / hoje; gal. lobo, non

o
u vogal posterior fechada

ex.: gal. e ptg. outubro; gal. fun; ptg. portu

u
SEMIVOGAIS OU SEMICONSOANTES
y anterior fechada / palatal sonora

ex.: gal. e ptg. mais, cantei; cast. ocasión

j
w posterior fechada / velar sonora

ex.: gal. e ptg. meu, água

w
CONSOANTES
p oclusiva bilabial surda

ex.: gal. e ptg. porto

p
b oclusiva bilabial sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. baixo; gal. verde; gal. e cast. estábamos

b
m bilabial nasal

ex.: gal. e ptg. mar

m
t oclusiva línguo-alveolar surda

ex.: gal. teño, tiña; ptg. tenho

t
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. tinha, gente

d oclusiva línguo-alveolar sonora / variante posicional de oclusão incompleta d
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. disse, verde

n línguo-alveolar nasal

ex.: gal. e ptg. nariz; gal. ninguén

n
linguopalatal nasal / variante posicional com diversos graus de palatalização

ex.: gal. tiña, teñen; ptg. ninho

ɲ
k oclusiva linguovelar surda

ex.: gal. e ptg. carro, quero

k
ɡ oclusiva liguovelar sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. gordo, agora

ɡ
ŋ linguovelar nasal

ex.: gal. corazón (+ e paragógica)

ŋ
f fricativa labiodental surda

ex.: gal. e ptg. festa

f
v fricativa labiodental sonora

ex.: gal. e ptg. vaca, livre

v
θ fricativa interdental surda / variante posicional sonora

ex.: gal. e cast. veces; gal. voz meiga

θ
s fricativas predorso e ápico-alveolares surdas (co-variantes do galego e do castelhano)

ex.: ptg. e gal. sal, negocio; gal. soidades, nós

s
z fricativa línguo-alveolar sonora

ex.: ptg. casa azul, existit

z
fricativa linguopalatal surda

ex.: gal. xóia, fixo; ptg. chegar

ʃ
fricativa linguopalatal sonora

ex.: ptg. já, gente, acarajé

ʒ
africada linguopalatal surda

ex.: gal. chegar, chamar, falaches

ʧ
l lateral línguo-alvaolar

ex.: gal. e ptg. lugar; gal. último

l
lateral linguopalatal

ex.: gal. filloga; cast. gallego

ʎ
r vibrante simples línguo-alveolar

ex.: gal. e ptg. dinheiro; gal. serán

ɾ
vibrante múltipla línguo-alveolar

ex.: gal. rapaza, carro

r
h fricativa faríngea surda (co-variante da oclusiva velar sonora do galego e co-variante da vibrante múltipla línguo-alveolar do português)

ex.: gal. gañar, agora; ptg. rua, carro

ħ
x fricativas velar e uvular surdas (co-variantes do castelhano)

ex.: cast. Jesús, gente, dijo

x
OUTROS SÍMBOLOS
* fones não identificados *
ˈ indica sílaba acentuada, precedendo-a ˈ
[ ] delimitação da transcrição fonética [..]
͜ formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte de acordo com as regras de fonética sintática do galego  
(…) trecho suprimido (…)
(= ) tradução para o português, também indicada por (ptg. ) (= )
(RAP) emissão muito rápida de um segmento precedente (RAP)
(ENF) emissão em tom enfático de um segmento precedente (ENF)
(ININT) trecho ininteligível (ININT)
(SUPERP) trecho de audição prejudicada pela superposição da fala do documentador ou de terceiros (SUPERP)
(RINDO) emissão acompanhada de riso; do mesmo modo, outras expressões ou gestos (RINDO)
DOC. documentador DOC.
INF. informante INF.
INTERL. um terceiro participante do inquérito INTERL

2.6 RESULTADOS PARCIAIS

Das produções selecionadas para o corpus, já estão finalizadas, quanto à digitalização e digitação: Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia; o Romanceiro ibérico na Bahia; a comunicação: Ser galego na Bahia: ontem e hoje, apresentada no Simpósio de Língua e Imigração na América Latina e o livro Vozes do ouro: a tradição oral em jacobina. O projeto foi apresentado em muitos eventos, destacando-se o I Encontro Brasileiro de Estudos Galegos (I EBEG), pela difusão internacional que teve e pela participação de grandes investigadores da Galícia. Esperamos conclui-lo no ano de 2016 ou 2017, e com a sua eventual publicação em formato digital e físico.

2.7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante um largo período, o CEG desenvolveu diversas atividades relacionadas ao galego, sob a coordenação de Rosário Albán. Muitos artigos e ensaios de cunho linguístico e cultural foram apresentados e também uma peça de teatro, Os vellos non deben de namorarse, a primeira e até o momento única peça apresentada totalmente em galego no Brasil. Porém, com o passar dos anos o CEG, já sob a forma de CELGA, teve suas atividades consideravelmente reduzidas com o afastamento da Profa. Albán. Sucessivas trocas de coordenadores e um período sem direção fizeram com que este que fora um grande e producente instituto quase caísse no esquecimento. Durante o ano 2013, por exemplo, produziram-se numerosos problemas administrativos com relação a oferta de disciplinas de galegos na UFBA, o que acabou obrigando que os alunos se inscrevessem durante períodos extraordinários de matrícula. Mas o novo quadro de gestores do CELGA e o estabelecimento de uma boa relação com os diferentes órgãos da universidade e de outras instituições nacionais ou estrangeiras possibilitaram a superação dessas e de outras adversidades. Desde então, além das matérias de galegos que passaram a ser disponibilizadas no sistema da universidade, muitos eventos relacionados à língua galega foram ofertados pelo centro. Amostras de filmes, seminários e simpósios de linguística e filologia, produções de artigos, projetos de pesquisa etc., são apenas alguns exemplos das atividades elaboradas muito recentemente pelo CELGA.

Sem sombra de dúvida, a opera omnia da fundadora figura entre os principais projetos deste núcleo, que vem se destacando na revitalização dos estudos galegos na Bahia. Esperamos que, com esse breve escrito, tenhamos oferecido uma pequena amostra da vitalidade que vem sendo recuperada no que concerne à ponte sociocultural, histórica e linguística entre a Galícia e Bahia.

REFERÊNCIAS

BASSETTO, Bruno Fregni. (2005). Elementos de Filologia Românica. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 43.

BOULLOSA, Juan; RODRÍGUEZ, David; LOPES, Mailson. (2015). Um tesouro a ser revelado: o projeto opera omnia de Rosario Suárez Albán e as suas derivações. In: EBEG — ENCONTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS GALEGOS, 1., 2015. Salvador: Programación e Resumos… Salvador: EDUFBA. p.34-35.

CORRÊA, Roberto Lobato. (1997). Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

[1]Idealizado e posto em andamento a partir da atuação conjunta (e profícua parceria acadêmico-institucional) dos Professores David Rodríguez e Mailson Lopes, respectivamente, Ex-Leitor e atual Coordenador do CELGA.

[2]Seção essencialmente baseada no estudo Notícia de um projeto de edição da opera omnia de Rosário Suárez Albán, de autoria de Lopes & Rodríguez (no prelo), apresentado por eles no VII Seminário de Estudos Filológicos (VII SEF), na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em agosto/2014.

[3]http://www.pergamum.bib.ufba.br/pergamum/biblioteca/index.php.

A língua galega e a sua história: uma situação exemplar

Claudio César Henriques

Professor de Língua Portuguesa na Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

[Resenha da Gramática Histórica Galega, de Manuel Ferreiro]*

Os dois volumes da Gramática Histórica Galega, de autoria do professor Manuel Ferreiro, da Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha, constituem uma valiosa fonte de estudos para os pesquisadores que se debruçam sobre as questões das línguas românicas, em especial os que buscam se aprofundar nos estudos das línguas ibéricas e, em nosso caso, nos temas da história da língua portuguesa, na qual o idioma galego tem significativa importância.

O primeiro volume, subintitulado “Fonética e Morfossintaxe”, começa com uma Nota Preliminar que esclarece por exemplo a intenção do autor de enfatizar a história interna do galego, tendo pretendido “organizar detalhada e arrazoadamente a evolução produzida desde o latim até o galego” (p. 10). Este volume contém dois alentados capítulos. O de Fonética concentra-se na evolução do vocalismo e do consonantismo, nomeia metaplasmos e descreve os variados tipos de alteração fonética que ocorreram na formação da língua galega. O de Morfossintaxe aborda os fenômenos que envolvem, nesta ordem, o nome, os pronomes pessoais, o artigo, os demonstrativos, os possessivos, os relativos, os indefinidos, os numerais, os verbos, o advérbio, a preposição, a conjunção e a interjeição.

O segundo volume, subintitulado “Lexicologia”, está dividido em três capítulos, começando por “A constituição do léxico galego”, no qual é descrito como se deu a transmissão do léxico latino e se investiga a etimologia dos nomes próprios de pessoas e lugares – a onomástica do galego, incluindo-se aí o relevante tema da castelhanização, demorado e intencional processo que as autoridades espanholas realizaram ao longo de séculos na região: “entraram como hordas de tártaros no nomenclatório da Galiza e não deixaram pedra sobre pedra” (p. 51).

O capítulo seguinte, “O acrescentamento lexical interno”, fala da transcategorização léxico-funcional, estuda a formação de palavras, explica os processos de derivação prefixal, derivação sufixal, parassintética e regressiva. Nele, destaca-se o cuidado do autor na organização de um inventário exaustivo das ocorrências de prefixos de origem latina e grega, de sufixos referenciais e científicos e na menção aos neoprefixos, neosufixos e neocompostos. Complementam esse capítulo o estudo da redução vocabular e da criação onomatopaica e a interpretação das mudanças semânticas (por metáfora, metonímia, etimologia popular ou elipse).

O último capítulo, “O acrescentamento lexical externo”, focaliza os empréstimos linguísticos, classificando-os e descrevendo sua tipologia.

Cada um dos volumes é encerrado com um “Índice de palavras galegas citadas” (43 páginas no vol. I e 60 no vol. II), o que representa uma relevante fonte de auxílio para o leitor e para o estudioso do léxico. Além disso, a “Bibliografia Fundamental” incluída em cada volume fornece ricas indicações e revela – como não poderia deixar de ser – a contribuição de muitos autores normalmente citados nas listas de consulta dos estudos do português.

Como informa o autor na Nota Preliminar do volume I, desde 1909, quando D. Vicente Garcia de Diego publicara em Burgos os seus Elementos de Gramática Histórica Galega, os estudos linguísticos do galego careciam de uma publicação que pudesse atender as pessoas interessadas na história da língua. Os dois volumes de Manuel Ferreira representam, nesse sentido, uma relevante contribuição e certamente têm ajudado a formar com mais qualidade as novas gerações de filólogos da Galiza.

Para os pesquisadores da língua portuguesa, a obra presta-se também como referência, ajustando-se entre outras possibilidades aos estudos do comparativismo linguístico, para examinar como as mudanças fonéticas e morfossintáticas, ao lado das consequências das pressões internas e externas, bifurcaram o original romance galego-português, proveniente desde o séc. VII da antiga província Gallaecia et Asturica, se concordarmos com a afirmação de que já por volta do ano 600 o latim vulgar não era falado em nenhuma região do antigo Império Romano.

A comparação entre as duas línguas comprovará a grande proximidade de ambas, como o fato de apenas esses dois idiomas, entre todas as línguas românicas, terem os artigos definidos “o, a, os, as” e disporem do chamado “infinitivo flexionado”, para ficar em apenas dois exemplos. Mostrará, também, como o idioma galego não se descaracterizou – apesar da implacável influência do castelhano –, mantendo sua feição particular, ainda hoje bem mais perto de sua origem galego-portuguesa.

Se a tradição dos estudos linguísticos na Galiza é escassa e muito recente, devemos reconhecer que, nas últimas décadas, o panorama mudou consideravelmente, sendo dignos de nota os avanços conquistados desde a implantação, na década de 60, das disciplinas de Filologia e Linguística na Universidade de Compostela e da criação, em 1971, do Instituto de Língua Galega (ILGA). É neste recorte recente que se constata o incremento da investigação técnica e científica no campo da linguística galega, diacrônica e sincrônica; a formação de especialistas em língua galega e a reciclagem de profissionais integrados no campo da linguística galega, especialmente no ensino elementar e médio; o assessoramento técnico relacionado com a normalização da língua galega; a promoção de reuniões científicas, seminários e atividades análogas, todos com o intuito principal de colocar em evidência o propósito de afirmação da língua galega.

Por esses motivos, a frase a respeito da história da língua galega com que Manuel Ferreira encerra sua Nota Preliminar também serve como desfecho desta pequena resenha, pois vale para todas as línguas de todos os tempos: o conhecimento da história lingüística de um povo é parte essencial de si mesmo.

*Artigo publicado com anterioridade no volume 4 da revista Estudos Galegos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense.

Análise comparativa entre Percival e outras historias e Crónica de nós de X.L. Méndez Ferrín

Guilherme Monteiro

Aluno de Língua e Literatura Galega na Universidade Nova de Lisboa

Falar de Méndez Ferrín é falar da necessidade da Galiza em descobrir-se. Poder-se-ia dizer tal coisa sobre qualquer escritor galego, mas abrimos uma excepção para Ferrín, não só pelos seus argumentos técnicos, inegáveis na qualidade, mas sobretudo pelo período temporal que a sua obra já abarca, desde a publicação do seu primeiro livro de narrativa, um dos aqui tratados, Percival e outras historias, em 1958, quando o autor contava apenas vinte anos, até aos dias de hoje; são quase 60 anos de carreira literária, dentro dos quais o Mundo, Espanha, Galiza e o próprio autor muito mudaram. Se, ao longo destes anos, a língua galega e a própria noção de Galiza foram repensadas e reformuladas, tendo a sua identidade reconhecida inclusive com as Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego, em 1982, foi também devido ao trabalho e contributo dos artistas, nomeadamente dos escritores (“o inimigo potencial do idioma”, como diria Cortázar), que o galego, enquanto instrumento de comunicação, expressão e construção poética se pôde cimentar. Destacam-se vários nomes ao longo dos tempos, começando por Rosalía de Castro a Castelao, mas é em Méndez Ferrín (MF) que a literatura e língua galega , se afirmam e se recriam.

Focamo-nos particularmente em MF, mas para compreender alguns aspectos da sua obra, é necessário compreender a circunstância em que o autor aparece. Segundo Lorenzana [pseudónimo de Francisco Fernández del Riego], que prefacia Percival e outras historias, MF pertence à geração do “conto galego contemporáneo”, distante já do “tradicional”. Lorenzana diz:

Denantes abundaban os escritores que, á hora da criación, confundían o folklórico co trascendente; e outros hai que desprecian, por nimias ou anecdóticas, realidades do noso carácter que constitúen cabalmente o cordón umbilical. (Ferrín, 1958: 9, 10)

Será fundamental para compreender, adiante, a obra por este texto prefaciada, a noção e distinção de folklórico e transcendente, enquanto conceitos singulares mas conciliáveis; até porque, se aquele excerto critica aqueles que renegam o “cordón umbilical” que definiria a literatura galega, o que Lorenzana afirma no seu seguimento coloca esta nova geração na linha dos “grandes mestres americanos, dende Anderson e Aikens até Faulkner, Caldwell e Saroyan”:

As aportaciós técnicas realizadas pólos narradores americanos, atinguiron singular fortuna antre moitos dos seus colegas europeos [galegos]. Sen que nos propoñamos entrar en detalles, lembraremos as principás: A de intrigas enlazadas, ou relatos superpostos; a incorporación ó relato de sucesos reás; o pruralismo de esceas, con frecuente troque de perspectiva; a elusión de acontecementos importantes (Ferrín, 1958: 10)

Estas tentativas de enquadrar MF numa geração (não num movimento), com predecessores e modelos servem-nos para criar uma base e um ponto comum numa obra que, por atravessar tão longo período, foi amadurecendo a sua forma, a sua técnica, a sua filosofia. Isto porque Crónica de nós, publicado em 1980, vinte e dois anos após o seu primeiro livro, é uma obra de um outro fôlego e de uma outra voz que aos 18 anos não se teria.

Não nos parece adequado, ou sequer seguro, tratar de comparar as duas obras propostas e já citadas, Percival e outras historias e Crónica de nós de forma absoluta e simétrica, ou seja, conto a conto, como se as duas obras fossem dois caminhos paralelos que, embora por vias diferentes, chegassem ao mesmo fim, e que por isso pudessem ser sobrepostas, tal qual um espelho, e averiguar as singularidades dos seus reflexos. Propomos antes uma aproximação a três contos de cada obra, de forma a tentar extrair o que da obra em geral se semeia e, aí sim, poder olhar para aquilo que muda, aquilo que se mantém, e aquilo que, mantendo-se, assume outra forma.

É um exercício interessante a relação entre as temáticas abordadas por MF e a sua idade, ou melhor, o seu amadurecimento. Assim, na origem da obra de Ferrín encontramos uma outra forma de origem: o retorno e revolvo a uma época pseudo-arturiana, diluída, claro está, noutras épocas, outros lugares, outros costumes. Percival, o famoso cavaleiro da Távola Redonda, com o “elmo empenado de penas brancas (…) espada (…) escudo (…) lanzón” (1958: 19), dono e senhor do “Xardín das Outas Árbores”, é o mesmo que, pouco antes de para ali se aventurar, “fechou a radio, non lle gostaba Offgent”; aquele que passeia por aquela floresta “moitas veces”, vezes tantas que são enunciadas apenas três aventuras (semelhante nisso ao nosso presente método) – é evidente uma certa abulia nestes passeios; o assassínio despreocupado de Leonlobisco; a contemplação dos dois homens que, como se de Vladimir e Estragon se tratassem, lutam sem fim nem propósito (“Meu señor, meu dono, que felicidade vos ter enriba de min!”); a amada que apenas o cansa, que o faz voltar a casa, para ser aconselhado a não lá retornar.

O regresso ao passado, a procura de conforto naquilo que já houve ou que existe há muito, que neste conto se manifesta com estas súbitas (e aparentes, quiçá) mudanças espácio-temporais, surgem-nos noutros contos, como “O verdugo” ou “Lorelai”, em situações intimamente relacionadas com o próprio enredo e uma espécie de ethos que se vai formando a partir deste último. “Lorelai” funciona como uma variante do regresso do filho pródigo, uma vez mais uma história de retorno a uma origem, origem esta que mais uma vez nos pode parecer bizarra, pois a Lorelai, princesa da vila de Lee, que constrói uma torre para se lá fechar, é a mesma que vai até à vila de automóvel, “bruando coma un rinoceronte desbocado” (Ferrín, 1958: 55), aquela que casa com o “cabaleiro Dr. Nesjkllou Fael”, que lhe promete um tratamento para “deixar de ser un monstro”, passando dois anos em tratamentos (operações plásticas, quem sabe?). Dentro da inocência desta história, em que tudo desde logo aponta para que se termine num “final feliz”, há que realçar novamente o carácter da indefinição do tempo e do espaço, que naturalmente influenciam tudo o resto, e que culmina naquele simplicíssimo final, não longe do “viveram felizes para sempre”. Ingenuidade? Imaturidade?

É importante que não confundamos a suposta candura e clareza da narrativa de MF em Percival com algo simples ou simplório; consideremos esta abordagem para além da trama. O conto de uma história como estas separa o meramente “folklórico” e o confuso “trascendente”. A revisita contínua a um passado que não se separa de nós por completo cria e segura essa ponte que demarcaria com nitidez tanto este, como aquele. “Folklórico” começa e termina no mito, no enredo simples e transmissível; a transcendência pede já um segundo olhar, uma forma de ler, de observar, de estar de nos relacionarmos com ele. Como quando se enforca um homem, por exemplo: em “O verdugo”, o desejo de retorno revela-se com o desejo de uma execução, cujos contingentes sustentam a vila. A inexplicável “benevolencia do Dictador” altera e questiona o status quo – tal como Percival questiona as hierarquias entre os dois homens que lutam no “Xardín” – que é, idoneamente, subvertida ao reconhecimento da pena de morte, restando apenas a execução do verdugo, “pra borrar todo vestixio de erros denateriores.” (Ferrín, 1958: 65)

Começamos a denotar nestes textos um certo discurso em defesa de um direito que, se é amplo demais para ser considerado “político”, não é ingénuo o suficiente para ser apelidado de “humanista” (até pela óbvia associação em “O verdugo” à ditadura em vigor em Espanha naqueles tempos). Em Crónica de nós, MF expõe já uma filosofia política bastante esclarecida, e que irá marcar a sua actividade literária e civil ao longo dos anos. Não querendo tecer comentário aos textos mais programáticos [sic], o enfoque em contos como “Morrer en Laura”, “Odiado Amado” ou “Dictadura das cousas” permitem-nos constatar que, apesar de se manter o constante jogo espaço/tempo, evidente em “Morrer en Laura” (que se baseia na possibilidade física de viajar no tempo), o apelo à humanidade através do gesto político (mais individual e menos partidário) torna-se inseparável do conto em si; bastará ver as reflexões e considerações feitas em “Odiado Amado”, como aquele que tomou um mau caminho, ou em “Dictadura das cousas”, em que a presença ensurdecedora dos produtos que envolvem a personagem lembram o sempiterno “canto” das marcas comerciais em Rumor Branco de Don DeLillo.

A evolução da obra de Méndez Ferrín ao longo dos anos entra num diálogo intenso com a posição de Galiza no Mundo e a posição do Mundo sobre a Galiza. Naturalmente que fazer uma “ampliação” à sua obra, reduzindo-a dois títulos, e destes dois destacar três contos e presumir que se vai fazer uma análise profunda e metódica é absurda. Este trabalho serviu, acima de tudo, como exercício de discussão e interpretação de um autor que é do nosso maior interesse, particularmente no que toca a assuntos como o papel que a Galiza quer reservar e reclamar para si, nestes tempos e nos tempos vindouros, sem necessidade de voltar a origens ou mitos que a impeçam de enfrentar a actualidade.

BIBLIOGRAFIA

  • Ferrín, X.L. Méndez, Percival e outras historias (1958), Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 1993.
  • Ferrín, X.L. Méndez, Crónica de nós (1980), Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 1992.

E. Bechara: “Com o domínio do português as novas gerações galegas teriam mais uma porta aberta para conseguir um bom emprego”

O currículo do professor Evanildo Bechara é sobradamente conhecido: professor titular e emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), titular da cadeira nº16 da Academia Brasileira de Filologia e da cadeira nº3 da Academia Brasileira das Letras, doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. É autor de várias das principais gramáticas da língua portuguesa: Moderna Gramática Portuguesa; Gramática Escolar da Língua Portuguesa; Lições de Português pela Análise Sintática. Uma das referências no âmbito da linguística no Brasil.

A seguinte entrevista foi realizada pela atual professora-leitora de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Lucía Sande, no mês de Maio de 2016.


É surpreendente para os galegos e galegas o maioritário desconhecimento da história da língua em países de fala portuguesa. A que se deve essa falta de interesse?

A primeira geração de filólogos portugueses, entre os quais se encontravam: dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos, José Leite de Vasconcelos e José Joaquim Nunes, nunca deixava de lado a reminiscência linguística e histórica do galego. Acontece que a geração mais nova (talvez com exceção do professor Herculano de Carvalho), com a entrada do estruturalismo na década de 50, abandonou um pouco os estudos históricos, preocupou-se somente com a sincronia, a diacronia foi esquecida e muito raramente se apresentam fatos da língua galega. E eu escrevi um artigo dizendo que isso era ruim para quem fazia diacronia, quem fazia história da língua, uma vez que o galego estava intimamente ligado à língua portuguesa.

Eu ainda priviligiei a história porque o meu grande mestre foi o professor Said Ali. Ele trabalhava não só com sincronia senão também com diacronia. Escreveu uma gramática histórica da língua portuguesa muito original. Por tudo isso, é que você sente o desinteresse geral.

Nessa tendência que eu conheço existe uma exceção muito grande na Universidade Federal Fluminense: o grupo de galegos ligados à Maleval. Esses têm um circulo muito forte. Escreveram trabalhos importantíssimos e inclusive traduções.

Mas, você esta certíssima, há um desconhecimento total em todos os níveis, também no universitário. Talvez faça um pouco de exceção a literatura galega que é mais conhecida do que a língua. Principalmente a famosíssima escritora Rosalía de Castro. Fora isso, infelizmente, nós estamos erradamente mais divorciados de uma preocupação, de um interesse pelos estudos galegos.

Depois de tantos séculos de separação política e cultural podemos afirmar hoje que o galego e o português são ainda a mesma língua?

Quando você fala comigo eu vejo que é um português antigo, mas eu vejo que a essência portuguesa está presente em você muito mais que se você falasse espanhol, que é tão próximo também! Nossa, mas há uma distância muito grande. Os falantes de português não identificam o galego como a mesma língua, mas isso vem da mesma falta de interesse da própria sociedade.

Eu acho que é uma tarefa ingrata porque pra nós inclusive, galego, a palavra galego significa “português pobre”. O português que veio aqui trabalhar, puxar carroças, esse é que é o galego. Assim como, por exemplo, entre o árabe quando chega aqui de qualquer etnia e pobre, é um turco. Depois, ele melhora de vida e passa a árabe. E depois, se ele consegue enriquecer ele é o libanês.

Há linguistas hoje no Brasil que defendem que o português do Brasil já é uma língua diferente. Que opinião tem o senhor sobre isso?

Sim, a língua brasileira, o PB. O mundo moderno é um mundo de integração, ainda mais a integração com a lusofonia, apesar das desavenças internas que há (gente que concorda com a existência duma lusofonia, outros não), mas por formação e por convicção, eu acho que nós ainda somos uma língua só. Evidentemente com variantes naturais.

O mundo moderno caminha para uma convergência. Os blocos caminham para uma aproximação maior e justamente essa é a aproximação maior dos lusófonos.

E essas variantes deveriam introducir-se na norma culta?

Isso vai depender dum estudo que não está feito. Por enquanto, muita coisa está na fase do achismo (eu acho isso…).

Um amigo meu, o professor Raimundo Barbadinho, já falecido, escreveu um trabalho sobre a língua dos modernistas. Esse trabalho começou para mostrar justamente as diferenças, mas depois de ele levantar os modernistas e estudá-los, chegou à conclusão de que os modernistas estavam muito mais próximos dos portugueses do que de uma possível língua brasileira. E a Raquel de Queirós, que fez o prefácio desse livro, disse que depois de confrontar aqueles fatos de língua que seriam determinantes para mostrar a separação, esses fatos mostraram que brasileiros e portugueses estão muito mais próximos. Ela dizia que depois dos estudos do Barbadinho chegou à conclusão de que os modernistas eram muito mais comportados do que revolucionários da língua.

Hoje há políticos, ratazanas da política que dizem o seguinte: “se você quiser enfraquecer o inimigo, divida-o”. Agora, o mundo moderno caminha para uma convergência. Os blocos caminham para uma aproximação maior e justamente essa é a aproximação maior dos lusófonos. Vai fazer com que em vez de as línguas, por exemplo, o português da África, o do Brasil, o de Portugal, em lugar de se separarem, se aproximem.

No último congresso que houve em Portugal agora, um catedrático duma universidade do norte do país imaginou um cânone literário. Quer dizer, cada país de língua oficial portuguesa escolheria para uma antologia os seus principais representantes e essa antologia serviria de estudo de língua para todos os países de língua portuguesa.

E aí poderíamos entrar os galegos e galegas?

Aí seria a vez de entrarem os galegos. O problema dos galegos é que antes de entrar no grupo, eles têm um problema para resolver entre eles em virtude da distinção que há: uns que querem que o galego se aproxime do espanhol, outros que querem que o galego se aproxime do português e outros que querem que o galego seja independente.

Como é percebida a aproximação da Galiza à comunidade lusófona?

Eles se interessam (os acadêmicos) pela língua, pela literatura e pela cultura mas não entram porque não conhecem, não vivem o problema político. E como uma das características do brasileiro é ser acordado. O brasileiro nessas disputas geralmente não entra.

Considera oportuno ensinar aos brasileiros a normativa oficial atual do galego?

Trata-se de arranjar adeptos, agora nós não estamos na hora de falar às plateias. Como professor, está na hora de reunir a tropa.

Mas eu acho que o melhor caminho seria começar pela literatura, pelo folclore, a literatura popular ou as tradições. Porque esse substrato popular está muito mais ligado do que a língua. Então eu tenho a impressão que a língua deveria ser a última etapa de um trabalho de aproximação desse pessoal. Começar precisamente por essa parte que ficou parada, mas que ficou fora das mudanças tanto do galego quanto do português. Esse foi o grande trabalho de Leite de Vasconcelos. Ele trabalhou muito as tradições populares galego-portuguesas.

É natural que aquela pessoa jovem procure onde se pode situar melhor na vida, conseguir um bom emprego […] Com o domínio do português, essa nova geração teria mais uma porta aberta, mas esse achegamento já não é uma questão de linguística. É política.

Sobre a normalização linguística:

Isso é um trabalho gigantesco porque você conscientizar a todos os falantes de galego da necessidade de uma unificação da norma já é um problema complicado.

Isso tem que ser um trabalho de conscientizar a nova geração. O grande problema é que o mundo inteiro atravessa crises econômicas muito sérias e então é natural que aquela pessoa jovem procure onde se pode situar melhor na vida, conseguir um bom emprego. E isso dificulta a situação do galego. Com o domínio do português, essa nova geração teria mais uma porta aberta, mas esse achegamento já não é uma questão de linguística. É política.

Sobre a construção da normativa:

Considero por isso positivo um achegamento da grafia galega à do português. Mas também acho que essa norma que vocês estão construindo no espaço de 40 anos deve ser o caminho

A ideia de Renascimento de uma língua abafada por vários motivos e quer um espaço maior no universo linguístico.

Acontece que a essência da língua é a sua morfologia e nós estamos nos entendendo porque a morfologia é a mesma. É a que nos aproxima. O problema está no léxico. Você veja bem, se você fosse classificar o romeno pelo léxico, o romeno não seria uma língua românica. Só tem dez por cento de elementos latinos no seu léxico. Agora, se você pegar aqueles sectores lexicais que realmente estão voltados para a essência do povo, você vai ver que aí é que estão as raízes latinas do romeno. Se você fosse classificar o inglês pelo léxico, ele seria uma língua românica, porque tem tanto de latim e grego… Todos os setores, que atuam e que cercam a sociedade, influem no vocabulário. É como, por exemplo, a ortografia. O romano só foi descoberto como língua românica no século XVI porque era escrito em cirílico. Considero por isso positivo um achegamento da grafia galega à do português.

Mas também acho que essa norma que vocês estão construindo no espaço de 40 anos deve ser o caminho. Vocês fariam o mesmo que a Holanda “Deus fez o mundo, mas o holandês fez a Holanda” esse é o trabalho de vocês. Vocês devem olhar como os novos holandeses a língua. A filosofia é essa. É você ir conquistando. Eu acho que vocês devem procurar o seu caminho, como irmãos do português e não como filhos, de igual para igual. E uma situação assim como uma família, uma pessoa se desgarra e depois de muitos anos eles se encontram. E realmente eles são irmãos, mas eles são diferentes, a visão do mundo é diferente e é nesse sentido que o galego tem que constar a sua individualidade.

Os Estudos Galegos no Algarve

Paula García Rumbo

Professora-leitora de galego na Universidade do Algarve (2014-2016) 

O Centro de Estudos Galegos (CEG) da Universidade do Algarve (UAlg) é relativamente recente. Está em funcionamento desde o ano académico 2002-2003 e, desde esse momento, difunde a língua, a literatura e a cultura galegas entre a comunidade algarvia em geral e a comunidade universitária em particular. Isto consegue-se graças à contínua colaboração do CEG com diferentes centros de investigação e formação da UAlg e outras instituições da região, como o Instituto Português do Desporto e Juventude, a Associação Recreativa de Músicos de Faro ou o Cineclube de Faro.

Está integrado no Departamento de Artes e Humanidades da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais e, mais uma vez, coordenado pelo catedrático e atual vice-reitor para a Ciência e a Cultura, o professor Pedro Ferré. Desde que foi assinado o primeiro protocolo de colaboração entre a Universidade do Algarve e a Xunta de Galicia, já passaram pelo centro duas leitoras e um leitor: uma das atuais professoras do quadro de docentes de Espanhol da UAlg, María Jesús Botana (período 2002-2003 a 2007-2008); Antonio Mira (2008-2009 a 2010-2011) e Sandra Romarís (período 2011-2012 a 2013-2014).

Este ano letivo 2015/2016 a oferta formativa do CEG é de cinco disciplinas: Língua e Cultura Galega I, Língua e Cultura Galega II, Tópicos de Cultura Galega, Literatura Galega e Língua Europeia: Galego. As quatro primeiras são cadeiras de opção para os alunos e alunas dos cursos de licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas e Línguas e Comunicação, e a última, Língua Europeia: Galego, para os de Ciências da Educação e da Formação. As pessoas que estudam estas disciplinas têm à sua disposição um fundo bibliográfico que conta com aproximadamente 1000 volumes repartidos entre a Biblioteca de Gambelas e a Biblioteca da Penha.

O Centro de Estudos Galegos da Universidade do Algarve promove a língua, a literatura e a cultura galegas, não só através do trabalho docente, como também com a organização de atividades culturais. Este tipo de atividades não fazem mais que colaborar, de uma maneira ou outra, a difundir o conhecimento da nossa cultura entre a comunidade algarvia. Durante o próximo mês, com motivo da comemoração do Día das Letras Galegas, a Biblioteca de Gambelas vai ceder um espaço para realizar uma exposição sobre Manuel María, o autor homenageado este ano.

Além dos eventos referidos, o CEG também publicou recentemente o livro O romanceiro de Galicia. Este texto breve dá notícia do passado e do presente deste género poético de transmissão oral que, com uma estrutura adaptada a um novo formato, atualiza a informação recolhida na obra titulada Os romances tradicionais de Galicia, publicada há dezassete anos.

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