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As cantigas de amor do trovador Osorio Anes: a rebeldia de um amante

Márcio Ricardo Coelho Muniz

Professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Introdução

            Osoiro Anes se inclui, segundo Giuseppe Tavani, dentro do grupo de trovadores pertencentes a uma possível “primeira geração histórica” da poesia galego-portuguesa (Tavani, 1990, p. 249 ss.)[2]. Como para quase todos os outros trovadores desta geração, temos poucas informações biográficas com condições de nos esclarecer mais sobre as condições e as influências de seu trovar. No entanto, recentes pesquisas históricas sobre os poetas peninsulares, em particular as desenvolvidas por António Resende de Oliveira, permitem-nos esboçar uma pequena, ainda que frágil, biografia sobre o poeta.

Galego, da região de Noya, ligado à família Marinho[3], Osoiro Anes foi cônego em Santiago de Compostela . Estudou, por volta de 1220[4], em Paris, de onde voltou em data incerta e fixou residência em Compostela. Em 1239, segundo Resende de Oliveira, “detinha a tenência de Lama Mala”, local, ao que se supõe, próximo à fronteira portuguesa (OLIVEIRA, 1994, p. 398). Sua morte deve ter ocorrido em 1246, ou pouco tempo depois, já que seu testamento é desta data[5].

Seu cancioneiro é composto exclusivamente por cantigas de amor, são oito ao total. Todas as cantigas estão registradas apenas no ms. B (n.º 37 a 42) e entram, também, no apêndice da edição crítica de A realizada por Vasconcelos (n.º 320 a 327). Das oito cantigas, duas são apenas fragmentos, a 326 e a 327[6].

A poesia de Osoiro Anes é reconhecidamente de boa qualidade e, segundo D. Carolina Michaëlis, distingue-se pela “ilustração e bom gosto” (Vasconcelos, 1990, p.582). Apesar dos escassos estudos sobre a sua obra[7], os críticos que se detiveram na leitura de seu pequeno cancioneiro são unânimes em apontar, em algumas de suas cantigas: o pouco convencionalismo no tratamento da temática amorosa; o domínio das estruturas poéticas, revelado no uso de recursos de inspiração provençal e na originalidade do verso quebrado da cantiga 324; e, somando-se destacadamente aos outros, o belo e inusitado quadro da vida cotidiana que a cantiga “Cuidei eu de meu coraçon”, 323, nos oferece, quando o poeta revela ter se apaixonado pela sua senhor quando a viu “en cabelos, dizend’un son”.

Não obstante as qualidades apontadas, a poesia de Osoiro Anes ainda não recebeu da crítica especializada a atenção que sua obra merece. Este fato não caracteriza apenas o nosso trovador; na verdade, atinge quase a totalidade dos poetas da chamada “primeira geração”. Com poucas exceções, só agora o cancioneiro desses homens começa a ser devidamente estudado. Em que pese às dificuldades de se trabalhar com esses poetas — não só devido às poucas informações biográficas, mas também ao maior distanciamento temporal —, faz-se necessário revelar as possíveis características desse grupo; determinar qual o peso real da influência provençal e da possível influência da literatura popular, autóctone; averiguar até que ponto podemos falar em uma “primeira geração” como um grupo de trovadores que poetaram sob uma mesma realidade e que foram sugestionados por um mesmo ambiente cultural e social; enfim, falta determinar a trilha desses poetas, suas marcas comuns e, se possível, suas individualidades poéticas.

Este trabalho busca contribuir para a realização de um projeto maior que deve ser uma pesquisa em conjunto de todos os poetas que compõem essa “primeira geração”, e de seus respectivos cancioneiros[8]. Para tanto, comentaremos o conjunto das poesias de Osoiro Anes, observando as características estruturais que essas revelam e, a seguir, os temas presentes em suas cantigas.

Observando as formas 

Tábua de Estruturas Estróficas e de Versificação[9] 

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A tábua acima permite-nos visualizar com relativa clareza — ainda que passível de incorreções — as opções formais de Osoiro Anes. Conseguimos, a partir de sua análise, determinar as preferências do poeta por determinadas estruturas dentro do quadro que a tradição trovadoresca (provençal e/ou autóctone) legava aos trovadores. Embora concordando com Tavani que

“A vasta homogeneidade formal que caracteriza a poesia lírica galego-portuguesa e a ausência de coincidências significativas entre um gênero particular e um dado tipo de estrofe ou um verso, não admite portanto outros elementos discriminantes, na classificação dos textos, a não ser os de conteúdo e os de estilos” (TAVANI, 1993, p. 92-93)

acreditamos ser possível, com a observação dos dados estruturais do cancioneiro de um poeta, viabilizar pistas para a determinação de um estilo que lhe seja peculiar.

            Como dissemos, as seis cantigas e os dois fragmentos de Osoiro Anes pertencem todos à espécie cantiga de amor. Das seis cantigas, cinco são de maestria e uma de refrão. Os fragmentos, por possuírem apenas os primeiros versos de uma hipotética primeira estrofe, não nos permitem tal classificação.

Ainda que a homogeneidade formal da poesia galego-portuguesa impeça a distinção segura das espécies, sabemos que determinadas marcas estruturais, apesar de aparecerem tanto nas cantigas de amor, nas de amigo, como nas de escárnio e maldizer, são mais ou menos freqüentes em uma do que em outras. Este é o caso da extensão das estrofes. Os tamanhos predominantes na poesia trovadoresca são, segundo Tavani, as estrofes de seis, de sete e de três versos, composta esta última de um dístico monórrimo com um verso de rima própria. Se as duas primeiras são comuns a todas espécies, a última é predominante nas cantigas de amigo (TAVANI, 1990, pp. 90 ss.). Em Osoiro Anes não encontramos nenhum caso de estrofes de três versos. Mesmo sua cantiga de amigo ou os seus dois fragmentos apontam para estrofes de seis ou mais versos. Das seis cantigas, uma possui estrofes de seis versos, uma de sete versos, três de oito versos e uma de nove versos. Predominam, assim, estrofes mais longas que, como veremos, serão necessárias para o desenvolvimento argumentativo que caracteriza o discurso das cantigas de amor trovadorescas.

            Os esquemas rítmicos utilizados pelo poeta não apresentam grandes alterações em relação às estruturas comuns aos trovadores contemporâneos e posteriores a ele. A combinação de rimas interpoladas (abba) ou alternadas (abab) seguidas de um dístico monórrimo é predominante. As particularidades da poesia de Osoiro Anes, neste caso, estão no uso de rimas emparelhadas duplas (ccdd), presentes em duas cantigas, 320 e 321, e de rimas triplas cerradas por uma interpolada (abbba) , presentes na cantiga 324. No caso da primeira inovação, o seu uso permite ao poeta marcar mais nitidamente as mudanças semânticas dentro das estrofes, ou seja, as oitavas são partidas em duas quadras não só em termos de conteúdos, vozes ou estados emocionais do sujeito lírico, mas também em termos rítmicos:

                                   Sazon é já de me partir

                                   de mia senhor, ca já temp’ei

                                   que a servi, ca perdud’ei

                                   o seu amor, e quero-m’ir;

                                   mais pero direi-lh’ ant’ assi:

                                   “Senhor e que vos mereci?

                                   Ca non foi eu depois peor,

                                   des quando guaanhei voss’amor?” (321)

A estrofe acima deixa bem marcado o que observamos. Nos quatro primeiros versos, temos o sujeito lírico anunciando sua partida e sua desistência em servir sua senhor, por crer que não a demoverá de sua negativa resistência, e nos quatro versos finais temos uma reviravolta, anunciada pelo “mais”, que mostra não mais um amante resignado, mas sim homem inconformado com a paga de seu serviço e que resolve questionar sua amada sobre os motivos de sua negação em lhe “ben fazer”.

            A segunda inovação permite ao poeta criar uma de suas mais interessantes estruturas poéticas. Estamos falando da cantiga 324, na qual, num conjunto de seis longas estrofes de nove versos octossílabos cada, o poeta promove uma cesura a partir do sétimo verso, criando um trissílabo, verso este que marca um segmento final em cada estrofe, conteudisticamente distinto e complementar, ao mesmo tempo, do resto da estrofe:

                                   E por quê me desamades,

                                   ay! Melhor das que eu sei?

                                   Cuid’ eu, ren i non gãades

                                   eno mal que por vos ei!

                                   Pola ira (e)n que mi-andades,

                                   tan graves dias levei:

                                          Dereit’ei,

                                   que da ren que mais amei,

                                   d’aquela me segurades:

            Se a cantiga 324 se constrói com versos de sete e três sílabas métricas, como vimos, ela é também uma exceção dentro do conjunto de poesias de Osoiro Anes. De suas seis cantigas e dois fragmentos, cinco possuem versos octossílabos e dois, versos decassílabos. O predomínio dos chamados versos cultos apontam para a “ilustração e o bom gosto” que já D. Carolina Michaëlis observa em nosso poeta (Vasconcelos, 1990, p. 582). Se sabemos pouco sobre sua estada em Paris e sobre o que foi lá fazer, podemos inferir, contudo, que, um homem pertencente a uma família poderosa e que foi cônego do colegiado de Compostela, deveria ter boa formação cultural e que sua estada em Paris teria possibilitado contato mais íntimo com os poetas franceses e, por via desses, com a tradição provençal, a essa altura esparramada por toda Europa.

            Outros dados formais a corroborarem nossa inferência são o uso que Osoiro Anes faz de diversos recursos que dão o tom aristocratizante às suas cantigas, como, por exemplo, o uso do dobre, do mozdobre, das cobras capdenals, capfinidas e capcaudadas, de palavras-rimas, de rimas derivadas e do encavalgamento[10]. Tais recursos contribuem para a construção de estruturas discursivas complexas, com a predominância de um forte caráter argumentativo, marca recorrente das cantigas de amor.

Convém, ainda, chamar atenção para o importante uso dos recursos do encavalgamento e das cobras capcaudadas nas cantigas 323 e 324. Na primeira, a soma dos dois recursos estabelece um elo profundo entre as três estrofes, proporcionando uma unidade discursiva no lamento do amante que, traído pelo poder de seu coração, se vê emaranhado nas correntes de um novo amor, que não promete fortuna diferente do anterior. Nesta cantiga, o encavalgamento se dá não só entre os versos, forma mais comum, mas também entre as estrofes II e III (“Mais forçaron-mi os olhos meus/ e o bon parecer dos seus,/ e o seu preç’, e un cantar, // Que lh’oí, u a vi estar/ en cabelos, dizend’un son.”). Somado o encavalgamento às cobras capcaudadas das três estrofes, o poeta consegue um contínuo que muito se aproxima da estrutura das cantigas ateúdas — marca de alta maestria do trovador —, que será usada por boa parte dos trovadores das gerações seguintes[11], mas da qual há poucos registros nos poetas seus contemporâneos.

Na cantiga 324, o uso das cobras capcaudadas, ligando e continuando ritmicamente as estrofes em pares, corrobora para atar mais firmemente o elo já estabelecido pelas cobras doblas. Assim, os pares de doblas, ou pares uníssonos — I-II, III-IV, V-VI — têm sua carga semântica ratificada pela estrutura métrica.

Por último, no que diz respeito aos comentários formais, observemos o uso da estrutura do refrão na cantiga 322. A estrutura métrica da cantiga é comum às cantigas com estrofes de seis versos com refrão, ou seja, abbaCC. Mesmo a variação do primeiro verso do refrão (“Mais pero direi-lh’ ua vez// Por én lhi direi ua vez:”) não é algo que suscita surpresa, já que será comum aos trovadores posteriores a Osoiro Anes, nem marca nenhum significado especial para o assunto da cantiga. Vale comentar que, se estiver correta a hipótese de D. Carolina Michaëlis de que o fragmento 327 é de uma cantiga de refrão, reafirma-se — e a cantiga 322 é já prova suficiente —, que já para esses primeiros poetas a estrutura de refrão não é uma total novidade, como já não o era para os provençais.

O DESVIO AMOROSO: A REBELDIA DE UM AMANTE

            Tavani, ao comentar a presença de possíveis desvios formais e temáticos na cantiga trovadoresca galego-portuguesa, é bastante prudente, alertando seus leitores para o fato de, numa tradição literária tão rígida, tão tradicional, não ser de espantar se mesmo os desvios fossem previstos pelos códigos de composição. Assim:

Nem a existência de desvios — embora seja para estes textos que de preferência se dirige a atenção do crítico moderno — deve fazer esquecer que (…) o favor do público coevo ia provavelmente, mais do que para estes, para os textos poéticos respeitadores dos paradigmas fixados pela tradição e constituídos por sedimentos depositados, na memória coletiva de um dado ambiente cultural, por sucessivas imitações de um mesmo modelo ou de um número limitado de modelos elevados a norma. (TAVANI, 1990, p. 138)

            Mais à frente, o crítico italiano lembra-nos de que para os casos de desvios a própria retórica previa o tropo da ironia ou “permutatio ex contrario ducta” que, devidamente aplicado, recolocaria a obra, no caso, a poesia, de volta ao campo da convenção (TAVANI, 1990, 139).

            Apesar de cônscios do perigo teórico de se falar em desvio, não é outra a sensação que a leitura das cantigas de Osoiro Anes desperta no leitor moderno, ainda que devidamente avisado. Temos a nítida impressão de que, ao lado de tratamentos convencionais de alguns temas da sintomatologia amorosa, encontramos outros que abordam a relação entre os amantes sob perspectivas inovadoras.

            Nosso incômodo frente a esta constatação diminui ao percebermos que uma leitora atenta, como foi D. Carolina Michaëlis, já aponta para o pouco convencionalismo das poesias de nosso poeta. Diz a estudiosa: “As suas cantigas (de Osoiro Anes) não apresentam formas estereotipadas (…) Algumas distinguem-se pelo sentimento poético que respiram; e, uma, pelo menos, pela forma artística” (Vasconcelos, 1990, p. 526).

            Também Frede Jensen mostra-se surpreendido com a declaração pouco convencional do poeta de que se apaixonou ao ver sua amada “en cabelos, dizend’ un son” (323) (JENSEN, apud TAVANI E LANCIANI, 1993, p. 499).

            Isto posto, acreditamos que ao falarmos em rebeldia na poesia de Osoiro Anes, não estaremos sendo tão anacrônicos como teme Tavani. Vejamos, então, mais de perto, como nosso trovador trabalha com determinados temas.

            A sintomatologia amorosa mais tradicional aparece em sua poesias com constância e sem grandes variações. Assim, expressões como, “…sem sabor/ eno mundo vivendo vou,/ ca nunca pùdi aver sabor” (320), “e cuido ca me quer matar// E pois m(e) assi desemparar/ ua senhor foi…” e “Mal-dia non morri enton/ ante que tal coita levar” (323), “…pouco durarei,/ se mais de min non pensades!” e “Tal amar/ podedes mui bem jurar/ que nunca foi d’omen nado) (324), entre outras, são comuns e revelam um amante que diz a sua coita; que não vê mais sentido no mundo, senão cantar seu sofrimento pela amada que não lhe quer “fazer ben”; que amaldiçoa o dia em que viu sua “senhor”, pois a partir daí só vive a dor de não ser correspondido; que torna hiperbólica e singular.

            Também o elogio da dama é tema recorrente e vazado em expressões que comprovam o domínio do poeta não só do código amoroso, mas também da retórica que regia o mesmo. Versos como: “e o bom parecer dos seus(olhos),/ e o seu preç’…” (323), “ay! melhor das que eu sei” (324) e “Par Deus, fremosa mia senhor” (327) comprovam o domínio da retórica amorosa por parte do poeta. Neste tópico, todavia, encontra-se aquela passagem, já indicada acima, em que além de falar dos belos olhos da dama e de seu valor, todos previstos dentro das regras da mesura, o poeta nos oferece uma cena de intimidade da amada, afirmando ter se apaixonado quando ouviu sua “senhor” cantar e que, naquele momento, ela estava “en cabelos”: “… e un cantar// Que lh’oí, u a vi estar/ en cabelos, dizendo un son” (323). Essa cena do cotidiano de uma mulher da aristocracia não é nada comum nas cantigas trovadorescas . As pastorelas, por mais que possuam um tom aristocratizante, têm como personagem feminino uma mulher do campo, uma verdadeira pastora. A cantiga de Osoiro Anes, por sua vez, respira um tom intimista, mas a “senhor” ali presente é a nobre que habita o espaço da corte. Nessa perspectiva, sem desrespeitar as regras do trovar de Amor, nosso poeta traz o frescor do cotidiano aristocrático para sua poesia.

            O amante subjugado pela força do Amor é outro tema que estará presente em boa parte dos poetas das gerações seguintes e que é já recorrente nas poesias de Osoiro Anes. Ao Amor algoz do namorado (320) juntar-se-ão o “coração traidor” (323), Deus que não protege o sofredor (324 e 325) e, por fim, a amada, verdadeira dame sans merci, que se recusa a “fazer ben” para o amante (323, 324 e 325).

            Esses são alguns dos “campos sêmicos” (Tavani, 1990) presentes e desenvolvidos com maestria por nosso trovador. Cabe-nos, agora, comentar alguns de seus atos de rebeldia. São dois os temas que identificamos como “rebeldes” no cancioneiro de Osoiro Anes. Dividi-los-emos para melhor analisá-los.

            O primeiro deles é o que consideramos uma visão paradoxal da mulher e da relação desta com o amante. Nas cantigas 320 e 326, a senhor é caracterizada como mansa, sem sanha, e como aquela que não sabe matar, mas, ao mesmo tempo, é a esta mesma mulher que o namorado diz temer, revelando nela um inimigo:

                                   Ei eu tan gran medo de mia senhor

                                   que nunca lh’ouso nulha ren dizer.

                                   E veed’ ora de qual ei pavor:

                                   de quen non sabe matar, nen prender,

                                   nen deostar, nen bravo responder,

                                   nen catar……………………………(326)

            Esta estrofe, como se percebe, é, na realidade, um fragmento, o que dificulta mais nossa interpretação. No entanto, a expressão “mia senhor”, presente no primeiro verso, deixa pouca margem de dúvida em classificá-la como originária de uma cantiga de amor. O inusitado da caracterização da dama como aquela que não sabe fazer o mal é o elemento estranho na estrofe. O poeta, com essa descrição, destitui a mulher de seu posto de dame sans merci, mas, ao mesmo tempo, mantém na amada a motivação da dor e do conseqüente medo do amante. Dessa forma, a mulher permanece no papel de “inimiga”, só que caracterizada de forma sui generis, já que ela não possui a “competência” para sua “performance”, ainda que esta se mantenha a mesma, ou seja, ela é a que não sabe fazer o mal, mas ainda assim o amante sofre por ela.

            A cantiga 320 não é mais clara, embora esteja completa. O assunto da cantiga é o retorno do amante à sua antiga dama[12]. Tal retorno é motivado pelo Amor, pois o namorado está subjugado à força desse sentimento. Ele, então, canta o seu sofrimento pela amada. Esta é descrita, primeiramente, como a “que non sabe que é amar,/ e sab(e) a omen penas dar”. De volta a ela, o amante sabe qual o seu destino: “viver ei, se de min pensar’,/ ou morrer, se min non amar’!” Como sua dama é a que não sabe amar, mas sabe fazer um homem sofrer, o futuro dele não é promissor. Até aqui, marcas da sintomatologia amorosa e dos códigos que regiam a relação entre os namorados.

            A estrofe que destacamos, a terceira, é que traz a marca de estranhamento:

Quen-quer x’esto pode veer

                                   e mais quen mego vid’ ou[v]er’,

                                   que non ei já sen, nen poder

                                   de m’ emparar d’ua molher,

                                   a mais mansa que nunca vi,

                                   nen mais sen sanha, pois naci.

                                   Veed’ ora, se estou mal,

                                  que m’ emparar non sei de tal”. (320)

Tal “senhor” não poderia ser considerada “mansa”, a não ser que se tratasse de um “escárnio de amor” e que considerássemos ironia do sujeito lírico a descrição da mulher como aquela que é desprovida de “sanha”. A nosso ver, só entendendo como ironia do namorado, como um “equivocatio”, o identificar a dama que o faz sofrer como “mansa”, só assim iremos nos aproximar do sentido dessa paradoxal imagem feminina. Como tal paradoxo se repete no fragmento 326, a hipótese do “equivocatio” não nos parece, assim, de todo improvável.

            Aquilo que consideramos a segunda “rebeldia” do poeta pode-se assim explicar: há nos sujeitos líricos de pelo menos três de suas cantigas um discurso claramente discordante com os rumos que tomaram as relações vividas por eles. Tal inconformismo promove uma série de desmesuras dos amantes. Sanhudo com a negativa da dama em lhe retribuir o “ben”, o amante da cantiga 322 lembra a sua “senhor” que “Quen omen sabe ben querer/ ja mais servid[a] én será”. Além disso, diz claramente que a dama que sabe como retribuir ao amado vale mais que todas: “ca bõa dona vi eu ja,/ por amar, mil tanto valer’. Por fim, num tom impetuoso, ordena que ela “…faça o que nunca fez!”

            Semelhante discurso, porém num tom mais ameno, tem o amante que sofre a grande coita na cantiga 324. Após relatar todo seu sofrimento e lamentar seu infortúnio, pergunta, com certa ousadia, “que prazer/ avedes de me tolher/ meu corpo, que vus servia?” — porque sem seu corpo ele de nada valeria — “nen (…) poderia/ a tal coita padecer”.

            As duas cantigas revelam uma certa desmesura do amante que, se não é exclusiva dentro do “corpus” do trovadorismo galego-português, não é também comum a este, ou mesmo, um campo sêmico próprio das cantigas de amor.

            A última cantiga que comentaremos é a que leva essa segunda “rebeldia” de Osoiro Anes a um grau extremo. Estamos falando da cantiga 321. Nesta, o amante que está se despedindo do serviço amoroso da amada, inconformado com a não retribuição por parte da dama, projeta ao longo de toda a cantiga um hipotético monólogo de sua senhor, no qual ela demonstra-se arrependida por não saber guardá-lo — “Mesela! por quê o perdi?/ E que farei quando s’el for’/ alhur servir outra senhor?” —; ela também denota preocupação com o estado anímico dele e com o futuro dela própria — “Estranha mengua mi fará/ tal que per ren non poss’osmar/ como sem el possa estar”— e, por fim, revela-se preocupada com a imagem de mulher de “pouco sen” que advirá de seu comportamento — “e terran-mi-o por pouco sen/ que a tal omen non fiz ben!”.

Como se vê, por esse pequeno resumo da cantiga, estão projetados na voz da dama todos os desejos do amante sanhudo. Tal inconformismo promove uma verdadeira subversão do papel da senhor na cantiga de amor. Por ela, podemos inferir quais eram os reais desejos do namorado que sofria com a negativa da dama. Essa hipotética dona, já que hipotética também é a sua fala, está em posição diametralmente oposta àquela que a mulher costuma ocupar nas relações amorosas reveladas pelas cantigas de amor. Temos aqui uma dama consciente de seus limites, e de seu conseqüente exagero em se guardar; temerosa de que sua imagem pública seja arranhada por sua desmesura, por não saber “ben querer”; e, por fim, temerosa de seu próprio futuro, possivelmente solitário, já que perde um vassalo e arrisca-se a não conseguir outro, com sua imagem pública nublada pela descortesia.

Essas cantigas de Osoiro Anes anunciam, dessa forma, a inversão que os papéis do homem e da mulher sofrerão na passagem da cantiga de amor para a cantiga de amigo. Como se sabe, se na primeira o amante é o vassalo que serve sem contestação uma senhor inatingível e que detém em suas mãos o destino da relação, nas cantigas de amigo tal posicionamento se inverte, nestas é o amigo que determina o jogo amoroso, já que é ele que, de certa forma, decide se permanecerá junto da amiga, se se afastará partindo para viagens de comércio ou guerras, se a encontrará ou não. Já à amiga cabe esperar, sofrendo a ansiedade da demora, da falta de notícias, da falta ao compromisso, enfim, da ausência.

            Como se vê, essas últimas cantigas não negam a “rebeldia” que identificamos em nosso poeta. O tom contestatório delas aponta para um poeta pouco propenso ao conformismo. Caberia verificar se esse é o tom dominante em todos os poetas da “primeira geração” e, portanto, marca de um grupo, se o desenvolvimento desse tom irá desembocar mais claramente no jogo específico das cantigas de amigo, enfim, quais são os reais significados dessa “rebeldia” dentro do conjunto dos poetas galego-portugueses. Como tal trabalho não cabe no pequeno espaço deste texto, paramos por aqui, esperando que tenhamos contribuído, ainda que timidamente, para futuras pesquisas sobre o assunto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CANCIONEIRO da Ajuda. Edição crítica de Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Reimpr. da edição de Halle (1904) acrescentada de um prefácio de Ivo Castro e do glossário das cantigas (Revista Lusitana XXIII). Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1990. 2 v.

CANCIONEIRO da Biblioteca Nacional. Edição fac-similada. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1982.

GONÇALVES, Elsa & RAMOS, Maria Ana. A lírica galego-portuguesa. Lisboa, Comunicação, 1983.

LAPA, M. Rodrigues. Lições de literatura portuguesa: época medieval. 10. ed. rev. Coimbra, Coimbra Ed. 1981.

MONGELLI, Lênia Márcia de Medeiros; MALEVAL, Maria do Amparo Tavares; VIEIRA, Yara Frateschi. Vozes do Trovadorismo galego-português. Cotia, Íbis, 1995

NUNES, José Joaquim. ed. Cantigas d’amor dos trovadores galego-portugueses. Coimbra, Imprensa da Universidade 1932.

OLIVEIRA, António Resende de. Depois do espetáculo trovadoresco: a estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV. Lisboa, Colibri, 1994.

—–; MIRANDA, José Carlos Ribeiro. Dois estudos trovadorescos. Porto, s. ed. 1993.

SPINA, Segismundo. A lírica trovadoresca. 3.ed. refund. e atual. São Paulo, Edusp, 1991.

TAVANI, Giuseppe. A poesia lírica galego-portuguesa. Trad. de Isabel Tomé e Emídio Ferreira. Lisboa, Comunicação, 1990.

TAVANI, Giuseppe & LANCIANI, Giulia, org. e coord. Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa. Trad. de José Colaço Barreiros e Artur Guerra. Lisboa, Caminho, 1993. passim.

VIEIRA, Yara Frateschi. “Assi Moir’eu”: um modelo para Pai Soarez de Taveiros. In: MALEVAL, Maria do Amparo Tavares, org. Estudos galegos.Niterói, Universidade Federal Fluminense/Núcleo de Estudos Galegos, 1996. p. 27-36.

—–. Joam Soarez Coelho e a moda popularizante nas cantigas de amigo. In: CONGRESO DA ASOCIACIÓN HISPÁNICA DE LITERATURA MEDIEVAL, 6, 1195. Actas. /No prelo/.

—–. Poesia medieval: literatura portuguesa. São Paulo, Global, 1987.

Notas referentes à Tábua de Estruturas Estróficas e de Versificação

[1] Este texto foi publicado em MALEVAL, Maria do Amparo Tavares. (Org.). Estudos Galegos. Rio de Janeiro: EdUFF, 2002, v. , p. 99-112, ISBN: 8522-802467

[2] Já António Resende de Oliveira insere o poeta numa “segunda geração de trovadores”, considerando a primeira formada apenas por aqueles poetas que compuseram em galego-português, mas fora do Noroeste da Península. Cf. OLIVEIRA, A. R. & MIRANDA, J. C. R.(1993).

[3] Carolina Michaëlis de Vasconcelos, primeiramente, ligou Osoiro Anes à família dos Condes de Cabreira. Mais tarde — por meio das informações divulgadas por Antonio Lopez Ferreiro em 1902 —, aceitou sua filiação à família dos Marinhos, indicando como seus irmãos dois outros poetas, Pero Anes Marinho e Martim Anes (VASCONCELOS, 1990, p. 526 e 582). Da mesma forma, Giuseppe Tavani e Frede Jensen concordam com essa filiação do poeta com os Marinhos e aceitam o parentesco dos poetas(TAVANI, 1990, p. 309-310 e JENSEN apud TAVANI E LANCIANI, 1993, p. 499-500). Mais recentemente, António Resende de Oliveira, que também aceita a filiação do trovador aos Marinhos, contestou, no entanto, o dado de os três Anes serem irmãos. Baseado no fato de Pero Anes e Martim Anes somente aparecerem no final dos Cancioneiros B/V, argumenta Oliveira que isso indicaria serem os dois poetas muito posteriores a Osoiro Anes — um dos primeiros poetas arrolados em B, portanto, provavelmente do início do séc. XIII —, possivelmente do final do séc. XIII, início do XIV (OLIVEIRA, 1994, pp. 398-399).

[4] Esta viagem deve ter acontecido por volta de 1220 já que, como indica Frede Jensen, neste ano Osoiro Anes está possivelmente ausente de Santiago, uma vez que não assina o testamento de seu pai, João Froaiz de Valadares, lavrado nesta data. Sabe-se, além disso, que o poeta foi acompanhado nesta viagem a Paris por um companheiro, “seu preceptor ou criado, a quem fez uma doação testamentária” (JENSEN, apud TAVANI E LANCIANI, 1993, pp. 499-500).

[5] D. Carolina indica como ano da morte de Osoiro Anes 1236, data da outorga de seu testamento (VASCONCELOS, 1990, p. 582). Bem mais tarde, Tavani indica 1246, porém sem indicar a fonte dessa informação (TAVANI, 1990, p. 309-310). Jensen volta a indicar o ano de 1236, datando o testamento do poeta em 15 de abril de 1236, e apontando o possível erro do crítico italiano (JENSEN, apud TAVANI E LANCIANI, 1993, pp. 499-500). Novamente, a última palavra sobre a questão pertence a Resende de Oliveira que, ao trazer a informação de que Osoiro Anes detinha a tenência de Lama Mala em 1239 — baseando-se em informações de Garcia Oro —, data seu testamento em 1246, sugerindo que sua morte deve ter ocorrido ou nesta mesma data, ou em data próxima posterior.

[6] Optamos por utilizar a numeração da edição crítica de A, feita por Vasconcelos, não só pela reconhecida confiabilidade daquela, mas também por ser uma edição de acesso mais fácil ao leitor em geral.

[7] Infelizmente, não conseguimos ter acesso àquele que talvez seja o único texto crítico que se debruce com alguma exclusividade sobre sua poesia e sobre o qual apenas temos a indicação, mas nenhuma informação sobre o seu conteúdo. O texto é “Los hermanos Eans Mariño, poetas gallegos del siglo XIII”, de A. Cotarelo Valedor. O texto, como se percebe pelo título, corrobora a idéia de serem irmãos os três poetas aludidos acima. Cf. TAVANI, 1990, P. 313-314.

[8] Esse estudo de todos os poetas que compõem a “primeira geração” era o objetivo do curso da Prof.a. Dra. Yara Frateschi Vieira, referida na primeira nota desse trabalho, do qual nosso texto é fruto, tímido e inicial.

[9] Para proceder à análise dos elementos formais das cantigas de Osoiro Anes, tivemos que optar por determinadas alterações no texto da edição de D. Carolina Michaëlis. Não fizemos exatamente uma crítica textual das cantigas, pois não temos os conhecimentos filológicos necessários ao rigor que a crítica textual exige, mas, sim, consultando a edição de J. J. Nunes e a edição fac-similada de B, propusemos algumas alterações, todas elas explicadas nas notas ao final do trabalho.

[10] O leitor poderá verificar o uso de todos esse recursos na Tábua de estruturas estróficas e métricas, no corpo do trabalho, juntamente com a indicação da cantiga em que eles aparecem.

[11] Tavani indica que aproximadamente 1/3 do total das cantigas trovadorescas galego-portuguesa apresenta esse recurso (TAVANI, 1990, p. 91-92).

[12] O retorno do amante à sua antiga amada e/ou a troca de amada é tema de, pelo menos, quatro das seis cantigas e dois fragmentos de Osoiro Anes. Cf. as de número 320, 321, 322 e 323.

[i] Entendemos com Vicente Beltran que “temos de considerar sob o nome de dobre qualquer repetição léxica sem variações de flexão, quer ela seja ou não regular e seja qual for a sua disposição” (TAVANI, 1993, p. 220). Dessa forma, estamos considerando dobre, nesta cantiga, não só a repetição de “e forçou-me”(I, 5 e 6) e “e o” (II, 13 e 14), mas também a repetição de “qual levo” (III, 19 e 20) que na edição de A de Carolina Michaëlis não está registrada, já que, no verso 20, a filóloga substitui “qual levo” por “nunca” sem explicar para seus leitores o motivo de tal mudança. Nunes registra como está no manuscrito de B, ou seja, “qual levo”

[ii] D. Carolina M. de Vasconcelos optou, em sua edição de A, por quebrar o verso sete do manuscrito B, na terceira sílaba métrica, e estabelecer, assim, dois versos: um heptassílabo, como os outros da cantiga; e um trissílabo, distinto de todos. Já Nunes, em sua edição das cantigas de amor, prefere por manter decassílabo o verso sete. A opção de D. Carolina, sabemos, se fundamenta no fato de, por diversas vezes, os copistas não respeitarem , na cópia, a cesura dos versos.

[iii] O terceiro verso da segunda estrofe “e que non sei de vos aver rancura” possui no manuscrito de B, entre “aver” e “rancura”, a palavra “senon”, que D. Carolina não registra. Nunes, ao contrário, redige o verso com essa palavra. Em nota, o crítico chama atenção que D. Carolina não conhecia o manuscrito de B, mas sim a transcrição de Molteni. Esta a explicação, talvez, para a filóloga não apontar a falta da palavra em sua edição crítica de A. Ressalte-se que a presença de “senon” quebraria a métrica do verso, em relação aos outros da cantiga, tornando-o um alexandrino.

[iv] Por se tratar de um fragmento, esta é nossa hipótese de esquema métrico.

[v] Da mesma forma que a cantiga 326, temos aqui apenas um fragmento, portanto, temos também apenas uma hipótese de esquema métrico.

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As soldadeiras: Vós que conhecedes a mim tam bem…

Márcio Ricardo Coelho Muniz

Professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Resumo: O presente texto é fruto de uma primeira aproximação ao universo de uma importante personagem do corpus poético satírico galego-português: as soldadeiras. Merecedoras da atenção de número significativo de trovadores, as soldadeiras ainda têm existência enigmática para a crítica especializada, que muito pouco se dedicou a revelar-lhes o papel que desempenhavam, as características com que foram descritas e os significados das cantigas a elas dedicadas. Este texto é o início de uma caminhada em busca de uma melhor e maior conhecimento sobre as soldadeiras.

No conjunto de aproximadamente 423 cantigas satíricas editadas pelo professor Manuel Rodrigues Lapa, em sua segunda edição das Cantigas de Escárnio e Maldizer, de 1970 (a 1ª edição é de 1965), ou no considerável alargamento do corpus satírico proposto pela edição recentemente realizada por Graça Videira Lopes (2002), para um número total de 474 cantigas, aproximadamente cinco dezenas delas – ou seja, cerca de 10% por cento do todo – são dedicadas às soldadeiras ou às prostitutas, como a totalidade das cantigas descreve as atividades daquelas (LOPES, 1994, p. 214 e 222; LANCIANI & TAVANI, 1995, p. 168). Esses números são eloqüentes ao confirmarem a importância dessas mulheres no contexto social em que foram produzidas as cantigas satíricas do noroeste peninsular.

Todavia, a contrastar com a relevância quantitativa dada as soldadeiras e com o realismo que caracteriza as cantigas de escárnio e de maldizer, pouco se sabe sobre essas mulheres. Para além das referências a seus comportamentos e práticas sexuais, quase mais nada nos dizem as cantigas satíricas a elas dedicadas. Em realidade, a contradizer a afirmação de uma anônima soldadeira da cantiga de João Baveca, cujos versos 17 e 18 tomamos emprestado para o título deste texto [Estavam hoje duas soldadeiras; B 1458, V 1068[1]], tudo leva a crer que os trovadores e jograis não as conheciam tão bem, pois muito pouco nos dizem sobre elas.

É corrente, por exemplo, na ainda pequena crítica dedicada a essa personagem do mundo trovadoresco galego-português, a constatação do absoluto silêncio relativo à arte da dança e do canto que essas mulheres certamente desempenhavam ao acompanhar jograis e trovadores. Lembremos-nos, junto com Menendez Pidal, que das dezesseis miniaturas presentes no Cancioneiro da Ajuda, em que se representam os momentos de execução das cantigas, doze delas trazem a figura da bailarina ou cantora acompanhando o jogral, algumas vezes segurando umas castanholas, de braços para alto, como se dançassem. Pois bem, sobre essas atividades, seguramente de grande contributo para o êxito das cantigas junto ao público, nada se diz (Menendez Pidal apud LOPES, 1994, p. 222). Como romper este silêncio? Como chegar a essas mulheres? Como vislumbrar-lhes um rosto?

As soldadeiras e seus trovadores

Um primeiro caminho possível para ouvir o que diz este silêncio seria observar quem são as soldadeiras, quem são os poetas que as satirizam, como e se eles se relacionam entre si. Todavia, já adiantando conclusões, este percurso é pouco frutífero, pois se, por um lado, as informações que temos sobre os trovadores são, via de regra, escassas; por outro lado, a historiografia e a crítica dedicada às personagens que habitam a lírica profana galego-portuguesa pouco ou nada nos dizem sobre as soldadeiras. Com a destacável exceção de Maria Peres, a Balteira, sobre quem é possível delinear uma pequena e relativamente segura biografia – que não apresentarei aqui, pois deste Carolina Michaëllis de Vasconcelos, em sua Glosa Marginal VII (VASCONCELOS, 2004), muitos estudiosos já se debruçaram sobre a vida da Balteira (LOPES, 1994, p. 223, nota 2; SOUZA, 2002) –, um silêncio cerrado recai sobre suas companheiras de profissão. De todas as formas, busquemos, com os dados que temos neste momento, uma sistematização do quadro das soldadeiras e de seus trovadores, e vejamos como este pode ajudar-nos em nosso objetivo de esboçar-lhes um rosto.

As soldadeiras nomeadas no cancioneiro satírico são em número aproximado de duas dúzias[2]. Todavia, não é possível afirmar com segurança que a cada nome corresponda uma mulher. Se sobre Maria Peres, a Balteira, temos dados suficientes para situá-la num tempo e espaço social determinado, sobre as outras muitas “Marias” reza um silêncio enigmático. Maria Leve, por exemplo, alvo de três exclusivas cantigas do trovador João Vasques de Talaveira, é associada por Lapa a Balteira, pois a cantiga dedicada a esta pelo trovador está em B rodeada por aquelas outras três dedicadas a Maria Leve [B 1545, 1546, 1547, 1548] (LAPA, 1995, p. 165-166). Todavia, esta associação apoiada apenas na proximidade das cantigas em B é frágil, pois há pelo menos oito soldadeiras denominadas “Maria” pelos trovadores, o que diz mais do comum do nome do que da identidade das cortesãs.

Ainda assim, sobre Maria Leve – se a dissociarmos de Maria Peres, a Balteira –, Maria Negra e Maior Garcia poder-se-ía esboçar alguns traços de suas vidas ou contexto social levando-se em conta o fato de que mais de um trovador a elas dedicou uma cantiga, como é o caso de Maior Garcia, cantada por João Baveca, Pedro Amigo de Sevilha e Pero de Ambroa[3]; ou, por outro lado, quando encontramos o caso de um só trovador ter-lhes dedicado um conjunto de cantigas, casos de Maria Leve e Maria Negra, cantadas, respectivamente, em três cantigas de João Vasquez de Talaveira e em três cantigas de Pero Garcia Burgalês[4]. Da mesma forma, como esses três trovadores também dedicaram cantigas a Maria Peres, a Balteira, não é de todo improvável que essas soldadeiras tenham freqüentado os mesmos ambientes que a famosa cortesã da corte de Afonso X, tendo feito parte do mesmo ciclo cultural e social. A aproximação daquelas três Marias a esta Balteira, em termos contextuais e históricos, pode vir a ser caminho frutífero para desvendarmos seus rostos, percurso que ainda pretendemos trilhar no futuro.

Por outro lado, nada sabemos sobre outras “Marias”, como Maria do Grave e Maria Mateu, a não ser o que se diz nas cantigas sobre suas práticas e hábitos sexuais[5]. O mesmo se dá com as diversas “Marinhas” que aparecem no cancioneiro satírico. Se se pode supor que as três Marinhas satirizadas por Pero da Ponte – Marinha Força, Marinha Crespa e Marinha López[6] – correspondam a uma mesma soldadeira, com apelidos distintos postos pelo trovador galego como mote para seu escárnio, o que dizer sobre Marinha Sabugal, Marinha Mejouchi, Marinha [Caadoe] ou as simplesmente Marinha, alvos das sátiras de outros poetas, sobre os quais não estamos seguros se foram ou não contemporâneos, ou se conviveram ou não entre si, como é o caso de Fernando Esquio e Afonso Eanes de Cotom[7]. Da mesma forma, a Elvira López cantada somente por João Garcia de Guilhade pouco provavelmente corresponda a simples Elvira satirizada por Pedro Amigo de Sevilha[8], pois o primeiro parece não ter freqüentado a corte do rei sábio, como aquele, tendo se mantido em Portugal durante o período do reinado de Afonso X, no terceiro quartel do século XIII, época em que, segundo Vicenç Beltrán, Pedro Amigo de Sevilha teria permanecido na corte do rei castelhano (BELTRÁN, 1993).

Mais complexa no esforço de identificação é a situação daquelas soldadeiras que só receberam a atenção de um trovador, como é o caso de Domingas Eanes, Ourana, Luzia Sanches, Orraca Lopez e uma provável Peixota, satirizada por Pero da Ponte[9]. A propósito desta, vale ressaltar também a dificuldade imposta à crítica pelos nomes dessas mulheres. A estrutura de equívoco sobre a qual se apóia boa parte da sátira feita às soldadeiras se estende certamente a seus apelidos. Nomes como Marinha Meijouchi, Marinha [Caadoe], Marinha Sabugal, Marinha Foça, Marinha Crespa ou Maria Leve vêm intrigando os críticos pelos sentidos implícitos que podem guardar[10]. Como esta Peixota de Pero da Ponte que, citada numa cantiga em que o poeta trata da fama de Toledo como uma vila em que o peixe é raro, tem seu nome confundido com o termo “peixota”, que significa, segundo Lapa, “peixe comum”, que contrastaria com o salmão desejado pelo poeta. Na leitura da cantiga, se consideramos sua construção em equívoco, a provável soldadeira Peixota é descrita como um “peixe comum”, que por sua baixa qualidade, feiúra e velhice, pouco atrai os homens de Toledo e também o poeta (LAPA, 1995, p. 236).

Por sua vez, se olharmos pelo lado dos trovadores, os caminhos a serem trilhados também não são exatamente fáceis. Para além, mais uma vez, de Maria Peres, a Balteira, alvo da sátira de onze poetas, todos, de alguma forma, aglutinados em torno da corte do príncipe ou do já rei Afonso X, o sábio[11]; apenas mais quatro soldadeiras teriam a seu favor a diversidade de trovadores ou a quantidade de cantigas dedicadas a si: as já citadas, Maior Garcia, Maria Leve e Maria Negra, e também Orraca Lopez, a quem Afonso Eanes de Cotom dedicou duas cantigas. Com exceção desta última, as outras podem ser inseridas, como já se disse, no círculo social freqüentado pela Balteira. Já Orraca Lopez poderia contar, para um esboço de sua identidade, com os dados biográficos que possuímos sobre Cotom e com as cantigas que este lhe dedica, não fossem ambos, da mesma forma, escassos de informações.

Casos há de soldadeiras que têm uma única cantiga dedicada a si e, ainda, outras tantas que não são nomeadas pelo trovador em suas cantigas. Sendo os únicos registros sobre essas mulheres, seria a combinação do texto das cantigas e das informações que temos sobre os trovadores o caminho para se chegar a cada uma delas. Como se pode imaginar, uma condição e um esforço bastante ingratos.

Caminhos que não se cruzam

A possível contribuição para delinear o perfil de algumas das soldadeiras dada pela correspondência, acima resumida, entre elas e os trovadores que as satirizaram, esbarra ainda e fundamentalmente na pouca variedade de informações sobre essas mulheres fornecidas pelas próprias cantigas a elas dedicadas e na quase absoluta ausência de marcas de individualidades transmitidas pelos poemas. Se a falta de informação sobre as atividades profissionais de bailarina dessas mulheres causa certo estranhamento e não contribui para sua maior particularização, assim como seus apelidos também não ajudam muito no desvendamento das individualidades, quase tudo o que se diz nas cantigas sobre elas dá-se, como afirma Graça Videira Lopes, num registro erótico-satírico convencional [LOPES, 1994, p. 222]. Se à equivocatio recorre-se com alguma freqüência para a construção da sátira, é da mesma forma recorrente o uso de um tom bastante cru, com alta obscenidade, e com motivações de ordem fundamentalmente sexual na descrição dessas mulheres e de seus hábitos e práticas profissionais.

No conjunto dessas quase cinco dezenas de cantigas, apoiados fundamentalmente nas interpretações propostas por Rodrigues Lapa e Graça Videira Lopes, e a partir de um levantamento ainda não definitivo, conseguimos determinar alguns dos motivos principais das sátiras às soldadeiras. Satiriza-se o desejo carnal desmedido dessas mulheres, as suas conseqüências práticas, como as doenças venéreas que carregam e transmitem, os altos preços que cobram, suas relações com clérigos, disfarçadas em piedade religiosa, as práticas de artes mágicas, os hábitos sexuais heterodoxos, como o lesbianismo – por sinal, como indica Graça Videira Lopes, os casos de lesbianismo no cancioneiro satírico estão todos relacionados com as soldadeiras (LOPES, 1994, p. 224) –, entre outros poucos dados.

De tal forma esses motivos são repetidos que, vistas em conjunto, ressalta dessas cantigas o convencionalismo das ações, das situações e das descrições de que são alvo as soldadeiras. Em realidade, confirma-se nessas cantigas a constatação a que já chegou a historiografia sobre a Idade Média, de que as mulheres medievais são vistas a partir de modelos pré-determinados pelos homens, que, por isto, não alcançam ver quase nada além do que esses modelos são capazes de reproduzir (DUBY, 1989).

Não muito distintas deste convencionalismo são as cantigas em que vazam dados da descrição física dessas mulheres. Como o campo de ação delas está quase completamente restrito às práticas sexuais, a sátira recai de modo certeiro e repetido na falta ou na perda dos atrativos físicos necessários à profissão. Assim, é recorrente a acusação de velhice das soldadeiras, seja de forma direta, chamando-as de “putas velhas”, seja por via do recuso à equivocatio, como no caso da tenção em que Vasco Peres Pardal e Pedro Amigo de Sevilha discutem quais seriam as fontes dos poderes mágicos da Maria Peres, a Balteira, e acabam por indicar que ela já os possuía desde o reinado de D. Fernando, pai de Afonso X, o sábio, sugerindo, assim, sua idade avançada[12].

Da mesma forma, a ausência ou o fim da beleza juvenil é uma outra constante na descrição dessas mulheres. Todavia, a feiúra não se revela por detalhes ou características físicas das soldadeiras. A falta de beleza está, via de regra, relacionada ao fim da juventude ou à chegada da velhice, tema alçado a categoria de tópica no conjunto das cantigas satíricas dedicadas às soldadeiras (CORRAL DÍAZ, 1993).

Na impossibilidade de fornecer um quadro mais detalhado dessas cantigas – pelo estágio inicial de nossos estudos – escolhemos, de modo a exemplificar o que aqui vem se falando sobre as soldadeiras, uma cantiga do trovador João Baveca que se destaca do conjunto dessas quase cinco dezenas de cantigas por aparentemente adentrar em pormenores que estão ausentes de todas as outras. Além disso, o poema de Baveca é um dos poucos que simula dar voz a estas mulheres, o que lhe confere um tom de realismo próximo ao encontrado nas cantigas de amigo – o que também acentua a pouca vulgaridade da cantiga, pois é mais comum nos poemas dedicados às soldadeiras a paródia do ideal de amor cortês expresso pelas cantigas de amor . Tal simulação parece disfarçar o convencionalismo que lhe serve de pano de fundo. Vejamos o que nos diz o poeta[13]:

 Estavam hoje duas soldadeiras

 dizendo bem, a gram pressa, de si,

 e viu a ua delas as olheiras

 de sa companheira, e diss’ assi:

– Que enrugadas olheiras teendes!

E diss’ a outra: – Vós com’ ar veedes

desses ca[belos …………………………..]?[14]

E …………………………………………………….

…………………………………………………….

…………………………………………………….

…………… en’ esse rostro. E des i[15]

diss’ el’ outra vez: – Já vós doit’ avedes;[16]

mais tomad’ aquest’ espelh’ e veeredes

tôdalas vossas sobrancelhas veiras.

E ambas elas eram companheiras,

e diss’ a ua em jogo outrossi:

– Pero nós ambas somos muit’ arteiras,

milhor conhosqu’ eu vós ca vós [a] min.

E diss’ [a] outra: – Vós que conhecedes

a mim tam bem, por que non entendedes

como som covas essas caaveiras?

E depois tomarom senhas masseiras

e banharom-se e loavam-s’ a si;

e quis Deus que, nas palavras primeiras

que ouverom, que chegass’ eu ali;

e diss’ a ua: – Mole ventr’ havedes;

e diss’ a outr’: – E vós mal o ‘scondedes[17]

as tetas que semelham cevadeiras.

                                               (João Baveca, B 1458; V 1068)

Muito embora o poema apresente lacuna dos quatro primeiros versos de sua segunda estrofe nos dois manuscritos, impossibilitando qualquer reconstrução dos sentidos dos versos faltantes, todo o restante do texto é razoavelmente claro. João Baveca, estruturando a cantiga sob uma base narrativa e posicionando-se de modo privilegiado no interior da ação que narra (“e quis Deus que, nas palavras primeiras/ que ouverom, que chegass’ eu ali”), apresenta-nos duas anônimas soldadeiras num diálogo íntimo, em que deixam vazar particularidades físicas uma da outra.

Ainda que os dois primeiros versos sugiram que o diálogo entre as duas mulheres seria amistoso, pois elas estavam “dizendo bem […] de si”, logo nos damos conta que o registro em que se estrutura a cantiga é o da ironia. Em verdade, um discurso tenso, apoiado na inveja e no propósito de detratar uma a outra, perpassa todo o diálogo. Tudo o que se diz, centrado no campo da descrição física, é de teor negativo: acusam-se as olheiras enrugadas, as sobrancelhas embranquecidas, as covas no lugar das maçãs dos rostos, o ventre murcho e os seios flácidos. A ironia do trovador, para além daqueles primeiros versos, acompanha a descrição, pois mesmo depois de desmascarada a farsa do discurso encomiástico, João Baveca segue a afirmar o companheirismo das soldadeiras e o mútuo elogio que marcaria o diálogo entre elas: “E depois tomarom senhas masseiras/ e banharom-se e loavam-s’ a si”.

Todavia, embora pareça deixar revelar de cada uma das mulheres detalhes que poderiam nos permitir reconstruir um perfil para essas anônimas soldadeiras, se atentamos para os pormenores físicos apontados apenas vemos reafirmada aquela tópica da identificação e condenação da velhice, acima referida. Ou seja, todas as marcas físicas registram o envelhecimento das duas soldadeiras. Portanto, o que temos nesta cantiga de João Baveca nada mais é do que uma variação algo original da sátira da velhice, reiteradamente presente neste corpus satírico dedicado às soldadeiras.

Se, com o comentário a esta cantiga, tentarmos buscar uma conclusão, ainda que parcial, desta nossa inicial aproximação ao conjunto de cantigas que tem as soldadeiras como personagem central, podemos afirmar que a ironia e a ambivalência agora plenamente perceptível na fala de uma das soldadeiras, quando diz para sua companheira “Vós, que me conhecedes tam bem”, pode ser estendida aos próprios trovadores e, por conseqüência, a nós, leitores. De fato, assim como a estratégia discursiva a que recorre João Baveca de dar voz às soldadeiras não resiste a uma leitura atenta do que elas dizem, pois o convencionalismo na descrição física que elas fazem uma da outra acaba por revelar o poeta por trás das mulheres; da mesma forma, nosso presumido conhecimento sobre este corpus poético e, conseqüentemente, sobre estas mulheres também ainda não se sustenta em bases sólidas. Portanto, muito ainda falta, ao menos a mim, para, de fato, poder afirmar que “tão bem conheço” as soldadeiras.

Referências bibliográficas:

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OLIVEIRA, António Resende de. Depois do espectáculo trovadoresco: a estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV. Lisboa: Colibri, 1994.

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SOUZA, Risonete Batista de. A mulher nos cancioneiros medievais galego-portugueses: Maria Pérez, a Balteira. Em MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (Org.). Estudos Galegos 3. Niterói: EdUFF, 2002, p. 123-131.

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[1] Sempre que pensarmos necessário, identificaremos as cantigas pelo primeiro verso destas, já que elas não possuem um título, seguidos das referências aos cancioneiros a que pertencem e à numeração delas no interior desses. Como já está deveras convencionado pelos estudos dedicados ao trovadorismo galego-português, referimo-nos ao Cancioneiro da Biblioteca Nacional por B, e ao Cancioneiro da Vaticana por V.

[2] Num levantamento ainda provisório, acompanhando de perto as leituras e as interpretações de Manuel Rodrigues Lapa, esses são alguns dos nomes das soldadeiras que encontramos: Alvela, Marinha Foça, Domingas Eanes, Elvira, Elvira López, Luzia Sanches, Maior Garcia, Maior Moniz, Maria Aires, Maria do Grave, Maria Dominga, Maria Garcia, Maria Genta, Maria Leve, Maria Negra, Maria Peres, a Balteira, Marinha [Caadoe], Marinha Crespa, Marinha López, Marinha Mejonchi, Marinha Sabugal, Mor da Cana, Orraca Airas, Orraca López, Ouroana, e Peixota.

[3] São essas as cantigas dedicadas a Maior Garcia: Un escudeiro vi oj’ arrufado, B 1454, V 1064 e Maior Garcia sempr’ oi[u] dizer, B 1455, V 1065, ambas de João Baveca; Maior Garcia [vil] tan pobr’ ogano, V 1205, de Pedro Amigo de Sevilha; e Maior Garcia est’ omiziada, B 1578, de Pero de Ambroa.

[4] Maria Leve é cantada em Direi-vos ora que oi dizer, B 1545, Bem viu Dona Maria, B 1547, e Maria Leve, u se maenfestava, B, 1548, todas de João Vasques de Talaveira. Já Maria Negra é tema das seguintes cantigas de Pero Garcia Burgalês: Maria Negra vi eu, em outro dia, B 1382, V 990; Dona Maria Negra, bem talhada, B 1383, V 992; e Maria Negra, desventuirada, B 1383, V 993.

[5] Maria do Grave é referida na seguinte cantiga de João Soares Coelho: Maria do Grave, grav’ é de saber, V, 1016. Já Maria Mateu é personagem da sátira crua de Afonso Eanes de Cotom em Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen, B 1583, V 1115.

[6] Cf. Marinha Foca quis saber, B 1627, V 1161; Marinha Crespa, sabedes filha, B 1628, V 1162; e Marinha López, oi-mais, a seu grado, B, 1631, V 1165, todas de autoria de Pero da Ponte.

[7] Marinha Sabugal é referida na cantiga Traj’ agora Marinha Sabugal, B 1591, V 1123, de Afonso Eanes de Coton; Marinha Mejouchi é personagem do trovador Pedro Amigo de Sevilha na cantiga Marinha Mejouchi, Pero d’ Ambroa, V 1199; já Marinha [Caadoe] é satirizada pelo poeta João Servando na cantiga Don Domingo Caorinha, V, 1030. Duas outras “Marinhas” ainda aparecem nas cantigas dedicadas às soldadeiras: na cantiga Marinha, em tanto folegares, B 1617, V 1150, de Afonso Eanes de Coton; e em A un frade dizen escaralhado, B 1604, V 1136, do trovador Fernando Esquio.

[8] Elvira López aparece como personagem da sátira de João Garcia de Guilhade em duas cantigas recolhidas juntas nos dois cancioneiros que guardam as poesias satíricas galego-portuguesas: Elvira López, que mal vos sabedes, B, 1488, V 1099, e Elvira López, aqui, noutro dia, B 1489, V 1100. Já Pedro Amigo de Sevilha refere-se a uma simples Elvira na cantiga Elvir’, a capa velha dest’ aqui, B 1658, V 1192.

[9] Essas soldadeiras aparecem, respectivamente, nas seguintes cantigas: Dominga Eanes ouve as baralha, B 495, V 78, de Afonso X, o sábio; Dona Ouroana, pois já besta avedes, B 1499, V 1109, de João Garcia de Guilhade; Luzia Sánchez, jazedes em gran falha, V 1017, de João Soares Coelho; Orraca López vi doente un dia, B 1589, V 1121, e A ũa velha quis ora trobar, B 1590, V 1122, ambas de Afonso Eanes de Cotom; e, por fim, a Peixota aparece na cantiga Eu, en Toledo, sempr’ ouço dizer, B 1653, V 1187, de Pero da Ponte.

[10] Neste sentido, veja-se o interessante estudo de MARTÍNEZ PEREIRA, 1999.

[11] São esses os trovadores que dedicaram uma ou mais cantiga à famosa Maria Peres, a Balteira: Afonso X, o sábio, Fernão Velho, João Airas de Santiago, João Baveca, João Vasques, Pedro Amigo de Sevilha, Pero de Ambroa, Pero da Ponte, Pero Garcia Burgalês, Pero Mafaldo e Vasco Peres Pardal.

[12] Cf.: Pedr’ amigo, quero de vós saber, B 1509.

[13] A transcrição da cantiga abaixo segue a edição de LOPES, 2002, por, no caso desta cantiga específica, a nosso ver, ser uma lição mais próxima dos manuscritos, cuja edição em fac-símile também consultamos, e com opções filológicas mais contemporâneas a dos atuais estudos de edição de textos do que a de LAPA, 1995. Todavia, devido à importância da edição de Lapa, identificamos, em nota, as variações que pensamos mais importantes entre as duas lições filológicas.

[14] Em LAPA, 1995: “desses ca[belos sobr’ essas trincheiras]?”.

[15] Em LAPA, 1995: “…………… en esse vosso rostro. E des i”.

[16] Em LAPA, 1995: “diss’ el’ outra vez: – Já vós dult’ avedes”.

[17] Em LAPA, 1995: “e diss’ a outr’: – E vós mal ascondedes”.

 

E. Bechara: “Com o domínio do português as novas gerações galegas teriam mais uma porta aberta para conseguir um bom emprego”

O currículo do professor Evanildo Bechara é sobradamente conhecido: professor titular e emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), titular da cadeira nº16 da Academia Brasileira de Filologia e da cadeira nº3 da Academia Brasileira das Letras, doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. É autor de várias das principais gramáticas da língua portuguesa: Moderna Gramática Portuguesa; Gramática Escolar da Língua Portuguesa; Lições de Português pela Análise Sintática. Uma das referências no âmbito da linguística no Brasil.

A seguinte entrevista foi realizada pela atual professora-leitora de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Lucía Sande, no mês de Maio de 2016.


É surpreendente para os galegos e galegas o maioritário desconhecimento da história da língua em países de fala portuguesa. A que se deve essa falta de interesse?

A primeira geração de filólogos portugueses, entre os quais se encontravam: dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos, José Leite de Vasconcelos e José Joaquim Nunes, nunca deixava de lado a reminiscência linguística e histórica do galego. Acontece que a geração mais nova (talvez com exceção do professor Herculano de Carvalho), com a entrada do estruturalismo na década de 50, abandonou um pouco os estudos históricos, preocupou-se somente com a sincronia, a diacronia foi esquecida e muito raramente se apresentam fatos da língua galega. E eu escrevi um artigo dizendo que isso era ruim para quem fazia diacronia, quem fazia história da língua, uma vez que o galego estava intimamente ligado à língua portuguesa.

Eu ainda priviligiei a história porque o meu grande mestre foi o professor Said Ali. Ele trabalhava não só com sincronia senão também com diacronia. Escreveu uma gramática histórica da língua portuguesa muito original. Por tudo isso, é que você sente o desinteresse geral.

Nessa tendência que eu conheço existe uma exceção muito grande na Universidade Federal Fluminense: o grupo de galegos ligados à Maleval. Esses têm um circulo muito forte. Escreveram trabalhos importantíssimos e inclusive traduções.

Mas, você esta certíssima, há um desconhecimento total em todos os níveis, também no universitário. Talvez faça um pouco de exceção a literatura galega que é mais conhecida do que a língua. Principalmente a famosíssima escritora Rosalía de Castro. Fora isso, infelizmente, nós estamos erradamente mais divorciados de uma preocupação, de um interesse pelos estudos galegos.

Depois de tantos séculos de separação política e cultural podemos afirmar hoje que o galego e o português são ainda a mesma língua?

Quando você fala comigo eu vejo que é um português antigo, mas eu vejo que a essência portuguesa está presente em você muito mais que se você falasse espanhol, que é tão próximo também! Nossa, mas há uma distância muito grande. Os falantes de português não identificam o galego como a mesma língua, mas isso vem da mesma falta de interesse da própria sociedade.

Eu acho que é uma tarefa ingrata porque pra nós inclusive, galego, a palavra galego significa “português pobre”. O português que veio aqui trabalhar, puxar carroças, esse é que é o galego. Assim como, por exemplo, entre o árabe quando chega aqui de qualquer etnia e pobre, é um turco. Depois, ele melhora de vida e passa a árabe. E depois, se ele consegue enriquecer ele é o libanês.

Há linguistas hoje no Brasil que defendem que o português do Brasil já é uma língua diferente. Que opinião tem o senhor sobre isso?

Sim, a língua brasileira, o PB. O mundo moderno é um mundo de integração, ainda mais a integração com a lusofonia, apesar das desavenças internas que há (gente que concorda com a existência duma lusofonia, outros não), mas por formação e por convicção, eu acho que nós ainda somos uma língua só. Evidentemente com variantes naturais.

O mundo moderno caminha para uma convergência. Os blocos caminham para uma aproximação maior e justamente essa é a aproximação maior dos lusófonos.

E essas variantes deveriam introducir-se na norma culta?

Isso vai depender dum estudo que não está feito. Por enquanto, muita coisa está na fase do achismo (eu acho isso…).

Um amigo meu, o professor Raimundo Barbadinho, já falecido, escreveu um trabalho sobre a língua dos modernistas. Esse trabalho começou para mostrar justamente as diferenças, mas depois de ele levantar os modernistas e estudá-los, chegou à conclusão de que os modernistas estavam muito mais próximos dos portugueses do que de uma possível língua brasileira. E a Raquel de Queirós, que fez o prefácio desse livro, disse que depois de confrontar aqueles fatos de língua que seriam determinantes para mostrar a separação, esses fatos mostraram que brasileiros e portugueses estão muito mais próximos. Ela dizia que depois dos estudos do Barbadinho chegou à conclusão de que os modernistas eram muito mais comportados do que revolucionários da língua.

Hoje há políticos, ratazanas da política que dizem o seguinte: “se você quiser enfraquecer o inimigo, divida-o”. Agora, o mundo moderno caminha para uma convergência. Os blocos caminham para uma aproximação maior e justamente essa é a aproximação maior dos lusófonos. Vai fazer com que em vez de as línguas, por exemplo, o português da África, o do Brasil, o de Portugal, em lugar de se separarem, se aproximem.

No último congresso que houve em Portugal agora, um catedrático duma universidade do norte do país imaginou um cânone literário. Quer dizer, cada país de língua oficial portuguesa escolheria para uma antologia os seus principais representantes e essa antologia serviria de estudo de língua para todos os países de língua portuguesa.

E aí poderíamos entrar os galegos e galegas?

Aí seria a vez de entrarem os galegos. O problema dos galegos é que antes de entrar no grupo, eles têm um problema para resolver entre eles em virtude da distinção que há: uns que querem que o galego se aproxime do espanhol, outros que querem que o galego se aproxime do português e outros que querem que o galego seja independente.

Como é percebida a aproximação da Galiza à comunidade lusófona?

Eles se interessam (os acadêmicos) pela língua, pela literatura e pela cultura mas não entram porque não conhecem, não vivem o problema político. E como uma das características do brasileiro é ser acordado. O brasileiro nessas disputas geralmente não entra.

Considera oportuno ensinar aos brasileiros a normativa oficial atual do galego?

Trata-se de arranjar adeptos, agora nós não estamos na hora de falar às plateias. Como professor, está na hora de reunir a tropa.

Mas eu acho que o melhor caminho seria começar pela literatura, pelo folclore, a literatura popular ou as tradições. Porque esse substrato popular está muito mais ligado do que a língua. Então eu tenho a impressão que a língua deveria ser a última etapa de um trabalho de aproximação desse pessoal. Começar precisamente por essa parte que ficou parada, mas que ficou fora das mudanças tanto do galego quanto do português. Esse foi o grande trabalho de Leite de Vasconcelos. Ele trabalhou muito as tradições populares galego-portuguesas.

É natural que aquela pessoa jovem procure onde se pode situar melhor na vida, conseguir um bom emprego […] Com o domínio do português, essa nova geração teria mais uma porta aberta, mas esse achegamento já não é uma questão de linguística. É política.

Sobre a normalização linguística:

Isso é um trabalho gigantesco porque você conscientizar a todos os falantes de galego da necessidade de uma unificação da norma já é um problema complicado.

Isso tem que ser um trabalho de conscientizar a nova geração. O grande problema é que o mundo inteiro atravessa crises econômicas muito sérias e então é natural que aquela pessoa jovem procure onde se pode situar melhor na vida, conseguir um bom emprego. E isso dificulta a situação do galego. Com o domínio do português, essa nova geração teria mais uma porta aberta, mas esse achegamento já não é uma questão de linguística. É política.

Sobre a construção da normativa:

Considero por isso positivo um achegamento da grafia galega à do português. Mas também acho que essa norma que vocês estão construindo no espaço de 40 anos deve ser o caminho

A ideia de Renascimento de uma língua abafada por vários motivos e quer um espaço maior no universo linguístico.

Acontece que a essência da língua é a sua morfologia e nós estamos nos entendendo porque a morfologia é a mesma. É a que nos aproxima. O problema está no léxico. Você veja bem, se você fosse classificar o romeno pelo léxico, o romeno não seria uma língua românica. Só tem dez por cento de elementos latinos no seu léxico. Agora, se você pegar aqueles sectores lexicais que realmente estão voltados para a essência do povo, você vai ver que aí é que estão as raízes latinas do romeno. Se você fosse classificar o inglês pelo léxico, ele seria uma língua românica, porque tem tanto de latim e grego… Todos os setores, que atuam e que cercam a sociedade, influem no vocabulário. É como, por exemplo, a ortografia. O romano só foi descoberto como língua românica no século XVI porque era escrito em cirílico. Considero por isso positivo um achegamento da grafia galega à do português.

Mas também acho que essa norma que vocês estão construindo no espaço de 40 anos deve ser o caminho. Vocês fariam o mesmo que a Holanda “Deus fez o mundo, mas o holandês fez a Holanda” esse é o trabalho de vocês. Vocês devem olhar como os novos holandeses a língua. A filosofia é essa. É você ir conquistando. Eu acho que vocês devem procurar o seu caminho, como irmãos do português e não como filhos, de igual para igual. E uma situação assim como uma família, uma pessoa se desgarra e depois de muitos anos eles se encontram. E realmente eles são irmãos, mas eles são diferentes, a visão do mundo é diferente e é nesse sentido que o galego tem que constar a sua individualidade.

Património Imaterial Galego-Português: 20 anos de Ponte…nas ondas!

Santi Veloso

Presidente da Associação Ponte…nas Ondas! e professor de Língua e Literatura Galega em Gondomar

Ponte…nas ondas! ( PNO! ) é uma Associação Cultural e Pedagógica que desde 1995 realiza atividades educativas e culturais na Galiza e no Norte de Portugal.

O nome da Associação deriva da atividade que lhe deu origem, uma jornada de rádio entre escolas das duas margens do rio Minho, uma ponte de comunicação motivada pela fronteira e, desta feita, uma ponte nas ondas.

Com o alargamento da jornada de comunicação interescolar a outros estabelecimentos de ensino e realidades, designadamente através da posterior utilização das TICs, emerge a descoberta de um património comum a ambos os lados da fronteira.

Em 2001, a Associação abraça o projeto da UNESCO e difunde “A rota do escravo”, passando a partir daí a centrar as suas ações no património imaterial. Neste contexto, impulsionada pelas primeiras proclamações das Obras-primas do Património Oral e Imaterial emerge a primeira Candidatura do Património Imaterial Galego-Português.

A proposta de candidatura é apresentada aos governos de Portugal e de Espanha por uma comissão de professores e assessores da Associação depois de um importante trabalho de documentação, investigação, trabalho de campo e um intenso labor de divulgação realizado pelas escolas da Euro Região Galiza-Norte de Portugal. Posteriormente, em Paris, é feita a entrega da Candidatura por uma representação da Associação juntamente com a representação diplomática de Portugal e Espanha na UNESCO.

Com a entrada em vigor da Convenção do Património Cultural Imaterial, o trabalho de PNO! continua centrado na preservação, difusão e transmissão deste património comum, razão pela qual passa a dinamizar diversas atividades: Mostras de Património, Concursos de Recolha, Congressos, Jornadas pedagógicas, encontros com pessoas portadoras, etc.

Ao longo destas duas décadas, PNO! foi construindo uma rede de pessoas, escolas, universidades e instituições que procuram o reconhecimento do património imaterial galego-português no mundo.

A ORIGEM

PONTE…NAS ONDAS! nasceu a partir de uma experiência educativa desenvolvida desde 1995 graças à cooperação entre estabelecimentos de ensino básico, secundário e universidades da Galiza (Espanha) e do norte de Portugal, com a participação de diversos países da América.

Trata-se de uma jornada que teve início com a emissão de 12 horas de programação radiofónica realizadas integralmente por alunos galegos e portugueses. A partir de 2003 atingiu as 24 horas de emissão com programas produzidos por mais de 50 escolas. Estudantes do ensino básico, secundário e universitário (desde a IX edição), emitem programas de rádio (nas últimas edições também através da televisão e Internet) elaborados por eles mesmos, ao vivo e em formatos muito diversos: concursos, variedades, música, entrevistas, conexões ao vivo entre diferentes estúdios, etc. Ainda que o galego e o português fossem as línguas comuns da emissão, ao incorporar a participação de centros escolares da Argentina, Cuba, Chile e Colômbia, o castelhano também se incorporou à experiência. Durante a jornada de comunicação os alunos de todos os países participantes são convidados a seguir a programação e a participar ativamente nela.

A motivação para começar esta aventura foi a inauguração de uma ponte arquitetónica entre as localidades de Salvaterra do Minho (Espanha) e Monção (Portugal); então, um grupo de 16 escolas decidiram estabelecer uma ponte de comunicação através das ondas de rádio. Naquele ano usaram-se os estúdios da rádio comercial “Ecos da Raia” de Monção (Portugal) e outro “escolar” provisório situado na Casa da Cultura em Salvaterra do Minho (Espanha); os protagonistas da experiência viveram com muita emoção aquela primeira jornada experimental de rádio transfronteiriça e o sucesso obtido motivou sua continuidade.

O funcionamento básico de PONTE…nas ondas! foi evoluindo em cada edição. O esquema de preparação por parte dos professores mantém-se no essencial. Tudo começa com o início do ano letivo: o corpo docente representante das escolas que vão participar na edição reúnem para decidir o tema central que será proposto aos participantes e os primeiros passos a dar. Depois vem o trabalho nas escolas: animá-los para participarem na rádio escolar ou na elaboração de um programa audiovisual.

Em cada edição há um tema geral à volta do qual gira toda a programação e sobre o qual se trabalha ao longo do ano nas escolas participantes.

No dia da emissão é necessário ter preparada uma grelha de programação muito clara na qual para cada programa esteja prevista a respetiva hora de emissão, o título, as horas para as conexões ao vivo, etc. É de referir que chegaram a ser realizadas jornadas de programação a partir de 7 estúdios de rádio situados nos dois lados da fronteira galego-portuguesa.

Paralelamente aos programas, e durante toda a jornada, são dinamizados concursos e diferentes formas de participação com recurso a outros meios de comunicação.

Nas últimas edições apostou-se nos conteúdos audiovisuais, e pela possibilidade de ouvir e ver a programação em qualquer momento, graças à colaboração de UVIGO-TV da Universidade de Vigo.

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Cartaz de Ponte…nas ondas 2006

A EVOLUÇÃO DA JORNADA DE COMUNICAÇÃO

Ponte…nas ondas! sofreu uma grande evolução desde o seu início. As novas tecnologias foram-se incorporando pouco a pouco e hoje em dia a Internet é um meio que torna possível que esta experiência chegue a lugares aos quais há uns anos atrás era impensável chegar. A emissão do sinal de televisão por Internet realizada por UVIGO-TV (a televisão da Universidade de Vigo) faz com que a experiência tenha já um enfoque multimídia em que o audiovisual adquire todo o protagonismo, pois permite a emissão a partir da Web e, desta forma, um maior seguimento nas escolas.

Durante o dia da emissão recebem-se mensagens de todo o mundo de pessoas que estão a seguir a programação através da Internet; também funciona o correio eletrónico, o chat para conversar ao vivo durante a jornada e um forum para deixar mensagens sobre os programas que se estão a emitir.

Em 1998, ano em que a Internet estava a emergir, e graças à colaboração da companhia Telefónica de Espanha, fez-se a primeira emissão por Internet. A partir daí, a Rede foi um aliado imprescindível.

Na VIII edição, em 2002, foi estabelecida comunicação através de uma videoconferência profissional entre o estúdio de rádio escolar instalado na Casa da Cultura de Salvaterra de Minho, um colégio de Maputo ( Moçambique ) e o maior colégio público do Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II. Foi ainda realizada a emissão ao vivo a partir de sete estúdios de rádio.

Os meios de comunicação: rádio, televisão e imprensa escrita, colaboraram com esta experiência difundindo informação sobre esta jornada. Outro grande passo foi a incorporação do corpo discente universitário que tornou possível que a emissão passasse a durar 24 horas, completando assim o ciclo educativo do ensino formal.

 UM TEMA COMUM, O PATRIMÓNIO

Nas últimas edições, a jornada dedicou-se a diversos âmbitos do Património Imaterial comum à Galiza e a Portugal e presente nos países de língua e cultura galego-portuguesa. O património imaterial foi objeto, desde a primeira proclamação das Obras-primas do Património Imaterial em 2001 pela UNESCO, de uma especial divulgação nos estabelecimentos de ensino participantes na jornada de comunicação.

Através do trabalho desenvolvido, tanto para a preparação dos programas como nos programas em si, os alunos foram descobrindo o património comum aos dois territórios, ficando essa experiência evidente em muitos programas audiovisuais através da participação direta de muitos meninos do outro lado da fronteira aos quais se lhes pedia que chamassem em direto para completar adivinhas, refrães, ou até que procurassem outros similares na sua língua.

Toda esta experiência com o património abre novas linhas de trabalho para a Associação e dá lugar à apresentação de uma Candidatura Multinacional na UNESCO.

Estes foram os temas das últimas edições da jornada de comunicação:

VIII- Edição 2002: ” O património imaterial “

IX Edição 2003: ” O mar e nós, sós “

X Edição 2004: ” O património vivo”

XI Edição 2005: ” 1 património para o futuro “

XII Edição 2006: ” Os sons da PONTE”

XIII Edição 2007: ” Na Rede do Património”

XIV Edição 2008: ” Identidade e território”

XV Edição 2009: ” O património dos Tesouros Vivos “

XVI Edição 2010: ” O tesouro dos avós “

XVII Edição 2011: “ As bibliotecas vivas ”

XVIII Edição 2012: “ Ponte…a contar! ”

XIX Edição 2013: “ Ponte…a brincar! ”

XX Edição 2014: “ Vinte…nas ondas! ”

Foram realizadas 20 edições desta jornada de comunicação interescolar com a participação de mais de 800 estabelecimentos escolares de Espanha e de Portugal juntamente com outros da América e África.

Na atualidade, as escolas preparam os seus próprios programas audiovisuais e desde PNO! divulgam-se a todo o mundo.

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Estudio de rádio em Salvaterra do Minho para o projeto Ponte nas…ondas

AS ATIVIDADES DA ASSOCIAÇÃO

Para além da jornada de comunicação interescolar, que tem sido a de maior participação e projeção, a Associação PNO! tem vindo a realizar diversos projetos que procuram a difusão, transmissão e valorização do Património Imaterial Galego Português.

  • Mostras da oralidade galego-portuguesa

Atividade para divulgar o Património Imaterial Galego Português em toda a Euro Região da Galiza e Norte de Portugal. A Mostra da Oralidade Galego-Portuguesa pretende dar a conhecer num evento único exemplos da tradição oral galego-portuguesa juntando a expressão oral, o teatro e a música.

Desde a primeira edição foram realizadas 10 mostras em diferentes lugares da Galiza e do Norte de Portugal com a participação de pessoas portadoras e grupos que trabalham com património imaterial.

  • Encontro de portadores do património imaterial galego-português (Melgaço 2005)

Tratou-se de um encontro de portadores do património para dar visibilidade à Candidatura do Património Imaterial Galego-Português, apresentada na UNESCO. Durante três dias mostraram-se práticas e fizeram-se demonstrações de expressões representativas do património imaterial galego-português.

  • Certame de Recolha da Tradição Oral Galego-Portuguesa (2006)

É uma atividade destinada a recolher amostras do património imaterial galego-português de âmbito educativo para que os alunos/as descubram aquelas expressões do património mais próximas. As recolhas vinham acompanhadas da correspondente ficha técnica e a transcrição. Tratava-se do único certame dirigido aos estabelecimentos escolares da Euro região Galiza-Norte de Portugal.

  • Publicações de livros, discos e dvd relacionados com o património imaterial galego-português

Ao longo destas décadas, paralelamente às atividades centradas na comunicação e no património cultural, Ponte…nas ondas! promoveu edições e publicações que se converteram num referente no que diz respeito ao trabalho de produção de materiais didáticos da cultura galego-portuguesa.

MENINOS CANTORES ( 2005 ). O primeiro projeto conjunto entre escolas de dois países da União Europeia à propósito de um património comum. Disco-livro-dvd realizado por 17 estabelecimentos escolares da Galiza e do Norte Portugal com canções tradicionais e documentário sobre o Património Imaterial Galego Português. Publicou-se em galego, português, espanhol e inglês. ( www.meninoscantores.com )

CORES DO ATLÂNTICO (2010 ). Disco-livro sobre as cantigas de amigo medievais da tradição oral galego-portuguesa realizado com a artista brasileira Socorro Lira e a professora da Universidade de Poitiers, Ria Lemaire. O disco contém cantigas medievais de amigo galego-portuguesas interpretadas por artistas brasileiros, africanos, portugueses e galegos. O livro contém um texto de investigação de Ria Lemaire relacionando as cantigas de amigo galego-portuguesas com a tradição oral das mulheres galego-portuguesas.           ( www.coresdoatlantico.com )

NA PONTE ( 2013 ). O livro-CD-DVD NA PONTE é uma memória da travessia de Ponte…nas ondas! ao longo destas duas décadas. O CD recolhe composições de artistas brasileiros, africanos, portugueses e galegos para PNO! O livro recolhe igualmente artigos de professores, comunicadores, artistas e pessoas que colaboraram com Ponte…nas ondas! O DVD contém um documentário e diverso material audiovisual sobre Ponte…nas ondas! O livro foi editado em galego e estão em edição as versões em espanhol, português e inglês (www.naponte.com) .

REVISTA GALEGA DE EDUCAÇÃO (2015). Monográfico da Revista Galega de Educação dedicado às duas décadas de atividades de PNO! e a sua projeção na lusofonia por altura do 20º aniversário da associação.

  • Congresso internacional “PONTES DE CULTURA, PONTES DE FUTURO” (2010)

Congresso transfronteiriço realizado por ocasião dos 15 anos da associação PNO! Participaram professores, antropólogos, jornalistas e artistas que dissertaram sobre o Património Imaterial Galego Português e o papel de PNO! O congresso teve como temáticas, a educação, o património, as TICs e os meios de comunicação.

O Congresso Internacional ” PONTES DE CULTURA, PONTES DE FUTURO ” sobre os 15 anos de PONTE…nas ondas! apresentou-se como um evento de reflexão e debate sobre a iniciativa de comunicação que nascera no ano 1995 com a denominação de Ponte…nas ondas!

Para avaliar esta etapa de atuações, desenvolvidas fundamentalmente na Euro Região Galiza-Norte de Portugal, a Associação Ponte…nas ondas! organizou este Congresso onde surgiram novas linhas de atividades e propostas apontadas por todos os participantes nos âmbitos da educação, inovação, património cultural galego-português, cultura, tecnologias da informação e da comunicação.

  • Tesouros vivos do mar ( 2013 )

Projeto de recuperação do património marítimo no Concelho galego de A Guarda. Realizou-se um trabalho de recolha de informação, entrevistas e análise documental junto de um conjunto de pessoas portadoras. O resultado concretizou-se num portal Web e na publicação de um livro-DVD sobre o reconhecimento de pessoas e grupos da cultura marítima na câmara municipal da Guarda.

  • Encontros de jogos tradicionais galego-portugueses

Dirigido a escolas dos dois lados da fronteira, esta atividade procura a transmissão dos jogos tradicionais galego-portugueses às novas gerações. Realiza-se anualmente numa localidade da Galiza ou do Norte de Portugal. Foram realizados IX encontros anuais.

  • Candidatura do Património Imaterial Galego-Português

Apresentada por Espanha e Portugal em 2004, concorreu às proclamações das Obras Primas do Património Cultural Imaterial em 2005. Foi a primeira Candidatura promovida por estabelecimentos escolares de dois países europeus. O processo começou em 2002 e a proposta foi elaborada durante dois anos por uma equipa da associação que também conduziu o processo junto dos Estados, sendo a Candidatura entregue pela associação na sede da UNESCO em Paris.

COLABORAÇÕES

Ao longo de duas décadas, a Associação incorporou as atividades ao mundo da cultura. Artistas e escritores galegos, portugueses e brasileiros colaboraram nas diferentes edições da experiência. Uxía, João Afonso, Dulce Pontes, Filipa Pais, Milladoiro, Chico César, Daniela Mercury, José Saramago, Agustín Fernández Paz ou Federico Maior Zaragoza são alguns dos nomes que passaram pela programação da jornada de comunicação interescolar.

Grupos de música galega e portuguesa realizaram gravações especiais promovidas por Ponte…nas ondas! Entre outros exemplos, os gaiteiros Treixadura e os Gaiteiros de Lisboa realizaram uma gravação e um videoclipe conjunto de um tema tradicional comum à Galiza e a Portugal como atividade de apoio à Candidatura do Património Imaterial Galego-Português.

Ponte…nas ondas! foi produtora de um disco-livro-dvd com temas tradicionais galego-portugueses interpretados por alunos de escolas galegas e portuguesas e com a colaboração de artistas de ambos os lados. O projeto denominou-se Meninos Cantores e também foi apresentado à UNESCO como compromisso da transmissão do património imaterial às gerações mais jovens.

A participação de importantes jornalistas radiofónicos constituiu um importante estímulo e reforço para a experiência. Nos anos 1998 e 1999 a jornalista Julia Otero realizava conexões ao vivo com a jornada radiofónica a partir de Barcelona e dava-a a conhecer em Espanha. No ano 2000 era Iñaki Gabilondo quem estabelecia várias conexões a partir do seu programa “Hoje por hoje”. Também nesse mesmo ano fazia o mesmo Diamantino José a partir da RDP-Antena 1 em Lisboa.

No âmbito do património, antropólogos galegos e portugueses prestam assessoria à associação e colaboram com trabalhos de investigação e documentação. Integraram a equipa que realizou os trabalhos de elaboração do dossiê apresentado na Unesco da Candidatura do Património Imaterial.

Do ponto de vista da inovação e renovação pedagógica, a atividade da associação tem contado com educadores e pedagogos que destacam a singularidade da experiência, designadamente por reunir na sua fórmula única a educação, o património, as TICs e os meios de comunicação.

 RECONHECIMENTOS

Em 2004, a Associação Cultural e Pedagógica PONTE…NAS ONDAS! foi convidada a participar no Foro do Partenariado para a Diversidade que se celebrou na cidade alemã de Flensburg convocado pelo EBLUL ( European Bureau for Lesser Used Languages ) para apresentar esta experiência de comunicação. Nesse forum foi aprovada – por unanimidade- uma resolução por parte da Assembleia Geral do EBLUL na qual se reconheceu a importância do trabalho de Ponte…nas ondas! :

* Por ser uma experiência que contribui para a promoção de uma língua minoritária, para a recuperação da cultura, das tradições e da língua galega e por favorecer a cooperação transfronteriça.

* Por desenvolver valores de respeito mútuo entre jovens de dois territórios vizinhos.

* Por ser um exemplo de boas práticas em matéria de cooperação e promoção da diversidade linguística.

* Por implicar meninos e meninas dentro de um contexto educativo e promover entre eles o uso das novas tecnologias.

Por tudo isto a Assembleia Geral do EBLUL decidiu incentivar outras instituições governamentais e não governamentais a apoiar e patrocinar esta experiência.

A Xunta de Galícia reconhecia todo o trabalho realizado em 2005 com o Prémio Galícia de Comunicação à “Melhor iniciativa no campo da comunicação”.

A Associação de Escritores em Língua Galega ( AELG ) também reconhecia o trabalho de Ponte…nas ondas! nesse mesmo ano com a concessão do prémio “Bos e Xenerosos”, destinados a organizações e entidades que desenvolvam um importante labor cultural.

Em 2013, o Ministério de Cultura, Educação e Desporto de Espanha outorgava a Ponte…nas ondas! o “Selo de boa prática Ibero-americana” tendo em conta, entre outros aspetos, “ a qualidade da experiência na originalidade e criatividade, ao explorar enfoques inovadores adequados ao contexto no qual se desenvolve, transferível a outros meios e países da comunidade Ibero-americana”.

Nesse mesmo ano, a Associação Ponte…nas ondas! foi reconhecida como Juiz Honorário ( Juiz Honorário ) do Couto Misto ( enclave territorial na fronteira galego-portuguesa que gozou de independência no passado ).

Em 2014 a Associação recebe o premio ONDAS (o mais prestigiado prémio de comunicação em Espanha) pela “melhor cobertura informativa do património imaterial galego-português”.

 + info: www.pontenasondas.org

Debate: “A língua galega: atualidade e futuro” na fronteira galego-portuguesa

O próximo sábado 7 de maio às 20:00h. terá lugar no Centro Cultural do Concelho da Guarda, na Galiza, o debate “A língua galega: atualidade e futuro”. Embora publiquemos sempre atividades e artigos sobre a língua, literatura e cultura da Galiza vindos do Brasil e Portugal, consideramos interessante a divulgação desta atividade pelo lugar em que se vai desenvolver: um concelho da fronteira galego-portuguesa.

A localidade da Guarda teve e tem contato permanente com a sua vizinha Caminha, localidade do norte de Portugal, e também com outras localidades próximas do Baixo Minho galego e do Alto Minho português como Tominho ou Vilanova de Cerveira.

Nesta atividade, organizada pela própria câmara municipal da Guarda, participarão Marisa Guerra, professora de galego no IES A Sangriña, Denis Vicente, doutorando em Linguística pela Universidade de Vigo; e Xermán Montes, neo-falante de galego da localidade. O objetivo do ato é refletir sobre os usos atuais do galego, as causas da perda na transmissão da língua, as atitudes dos diferentes setores da população sobre as línguas na Galiza e debater sobre as inúmeras possibilidades que oferece o galego como língua internacional para o progresso social, econômico ou acadêmico e para o enriquecimento cultural.

Além do debate, apresentara-se o documentário “Memória da língua” elaborado pela associação As Candongas do Quirombo.

Convidamos a todas as pessoas do sul da Galiza e do norte de Portugal a participarem na atividade!

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Português do Brasil ao vivo no Canecão

Diego Rico

Professor de português na EOI de Plasencia e professor-leitor de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2011-2013)

O Canecão foi uma das mais importantes salas de concertos do Rio de Janeiro. Por ela passaram artistas fundamentais da música brasileira como Elis Regina, Tom Jobin, Vinícius de Morais, Chico Buarque, Cazuza ou Legião Urbana.

O nome de Canecão deve-se a que o local foi concebido originalmente como uma grande cervejaria no conhecido bairro de Botafogo. Caneca designa em galego-português um copo com asa para beber líquidos e a terminação –ão, habitual sufixo aumentativo, tem no português brasileiro uma produtividade extraordinária, bem superior à das variedades lusitana e galega da língua portuguesa.

Assim na liga de futebol brasileira, o brasileirão, jogam equipas como o fogão –Botafogo- e o mengão -Flamengo. Quem não gostar de futebol sempre pode ver O domingão do Faustão, popular programa da TV. Eu, na verdade, recomendaria o corujão, sessão em que passam filmes de madrugada.

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Sacolão

As altas temperaturas do Rio de Janeiro fazem com que seja habitual a comida de rua: tapioca, acarajé, cuscuz doce, pamonha, curau… são algumas das iguarias típicas que podem ser consumidas em plena calçada carioca. Calçada é no Brasil qualquer passeio, daí não confundir com o calçadão pois este só é o da orla de Copacabana ou Ipanema. Quem preferir comer hambúrguer ou cachorro quente é só ir no podrão, nome popular com que são conhecidos estes postos na rua. Para beber pode ser um latão geladão–lata grande bem fresquinha- ou um litrão -garrafa de um litro- de cerveja. Saudades de uma boa empada galega? É só enfiar numa padaria e pedir um empadão –em Portugal seriam as típicas bolas da Guarda. Quanto à sobremesa, recomendo um churrão, nome das farturas no Brasil, recheado de doce de leite com coco e coberto de açúcar com canela. Estás de dieta? vá no sacolão, comprar uma frutinha. Ora bem, almoço universitário é no bandejão, local onde servem refeições muito económicas. Calma! Arroz e feijão não há de faltar. Onde também há bandejão é no brizolão, escolas desenhadas por Oscar Niemeyer concebidas para seguirem a pedagogia de Darcy Ribeiro e que levam o nome do político que as impulsionou, o polémico Leonel Brizola. Brizola, ainda que nunca foi militante do partidão –o partido comunista- foi um político progressista que lutou contra a ditadura militar de 1964.

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Brizolão

Para voltar a casa pode-se ir de busão. Se for a hora do pico vai ser mais desconfortável do que ir no camburão da polícia e por isso é recomendável pagar um pouquinho mais e usar o frescão, autocarro com ar condicionado e poltronas confortáveis. De resto, para veículos assustadores já temos o caveirão da BOPE.

Se for feriadão, com dias de folga pela frente, sair da cidade e fazer um mochilão para ficar um tempão na região serrana do Rio de Janeiro, é uma boa opção.

A lista seria longa de mais pois como dissemos ao princípio este sufixo virou uma rica fonte de inovações lexicais privativas do português americano. Assim o fato-macaco do português europeu vira macacão na outra beira do Atlântico, um graffiti é uma pichação, um rojão é um foguete usado nas festas ou nos protestos para fazer barulho e o lugar aonde vai parar todo o lixo da cidade é o lixão.

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Sacolão

Noutras ocasiões as palavras respondem a realidades exclusivas do Brasil. Orelhão é a cabine telefónica no Brasil, que tem forma de orelha grande; o minhocão é um prédio-favela vertical do Rio de Janeiro; o mergulhão um túnel que há no centro da cidade e arrastão uma tática de roubo urbano que surgiu na praia de Copacabana na década de 80.

A gíria não podia ficar à margem desta terminação. Ferradão é alguém que tem problemas, doidão alguém que está sob os efeitos de drogas e chapadão alguém que fumou maconha.

É bom sublinhar que a pronúncia do –ão em português está sujeito a muita variação. Lembremos que na área metropolitana do Porto, a segunda cidade mais povoada de Portugal, é pronunciada –om/-am, tal e como era no galego-português arcaico. O famoso mercado do Bulhão é Bulhom e o estádio do Dragão, Dragom. Esta é a pronúncia típica da área originária do galego-português e a que se mantém na Galiza e no norte de Portugal.

Por último, para se despedir, a melhor saudação no Brasil é sempre um abração.

2 Aniversário do Quilombo Noroeste. Fernando Venâncio: O galego de todos nós

No próximo dia 13 de março celebramos o 2º aniversário do Quilombo Noroeste, blogue que nasceu para divulgar a cultura galega no Brasil e Portugal, e contribuir ao debate em torno à nossa língua no espaço internacional. Foram já dois anos, mais de 100 as publicações, e quase 27.000 as visitas, fundamentalmente desde a Galiza, Brasil e Portugal, mas também desde países tão diversos como Estados Unidos, Irlanda, Alemanha, Argentina, Japão, Austrália ou Moçambique. Para comemorar o nosso aniversário, temos o prazer de publicar este trabalho do professor Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam, bem conhecido por todas e todos pelas suas ingentes contribuições ao debate sobre a situação sociolinguística do galego e as suas relações com o resto de variedades internacionais da nossa língua. Obrigado, professor, pela sua generosidade.


O galego de todos nós

Fernando Venâncio

Professor da Universidade de Amsterdam

Certas histórias ficam-nos cravadas para a vida inteira. Uma delas é esta, que li em Vigo há bastantes anos.

Aconteceu que, em finais do século XIX, numa aldeia da Galiza, a Virgem apareceu a uma miudinha e lhe falou. Hoje, escapa-me o teor da conversa, mas sei que a cachopa foi ter com o prior da paróquia, contando-lhe que a aparição lhe dissera isto e aquilo. Reacção do reverendo: «Impossível, rapariga, não te apareceu coisa nenhuma. A Virgem nunca teria falado galego». Isto dito, evidentemente, no melhor espanhol.

Tenho dificuldade, digamos, ontológica em acreditar em aparições, sejam de que entes forem. Sabe-se, também, quanto aquela época foi fértil em episódios de tal natureza. Isso não impede que eu, que nasci tudo menos galego, sinta (e haverei de sentir cada vez que recordar a história) uma indizível revolta. Contra a prepotência, contra a canalhice, contra o esmagamento de algo muito precioso, muito íntimo, muito inviolável: um idioma materno.

Para os falantes de português, esse confronto com a negação absoluta do idioma é situação dificilmente concebível. Entre nós, podem-se rir da nossa entoação, do nosso sotaque, da nossa gramática alternativa, mas nunca se nos humilharia pela inteira língua que falamos. Não imaginamos, portanto, que reivindicação, ou que militância, ou que incontida raiva a defesa do idioma poderia exigir-nos. Na Galiza, tudo isso foi, e ainda é, mais do que pensável: trata-se duma crua e nua realidade. Sim, tem de ser revoltante, além de objectivamente absurdo, ouvires que, se falas galego, é por seres nacionalista, ou professor, ou camponês. Tudo condições muito honradas, mas dispensava-se o elogio.

Tem de ser revoltante, além de objectivamente absurdo, ouvires que, se falas galego, é por seres nacionalista, ou professor, ou camponês. Tudo condições muito honradas, mas dispensava-se o elogio

Mesmo para os vizinhos portugueses, a problemática situação actual do galego é questão desconhecida e, mesmo uma vez conhecida, correria o risco de deixá-los indiferentes. São problemas espanhóis, eles que se avenham. Portugal é aquele país perfeito, um só povo, uma só nação, uma só cultura, uma só língua, com as fronteiras mais antigas da Europa, e portanto do Mundo… É quase, quase verdade. Isto, porque a fronteira linguística é tudo menos aquela perfeição. Há uns esbatidos, umas infiltrações, umas continuidades. Em suma, uma série de vagos problemas.

«Um dialecto rural»

Sejamos sucintos: a quase totalidade dos falantes de português ignora a proximidade linguística entre a Galiza e os países de fala portuguesa. Podemos lamentá-lo, mas o reverter dessa situação será um processo moroso, complexo, certamente desafiador das nossas melhores forças. Havemos de consegui-lo? Certas actuações de gente que se suporia informada obrigam-nos a algum cepticismo. Vou dar três exemplos, e depois mais um.

Em Setembro de 1987, em Compostela, um linguista brasileiro célebre proferiu estas palavras, mais tarde impressas, no seu original itálico, num volume saído na Galiza: «Se o galego é um dialeto rural do português, a sua norma culta só pode ser a portuguesa». Repare-se: aquele ‘se’ («Se o galego é») não era condicional, e equivalia a ‘uma vez que’. A mensagem era clara: o galego é, sem apelo, um «dialecto rural» do português.

Pela mesma ocasião, mas agora em Ourense, um prestigiado escritor português, numa palestra em que as palavras ‘galego’ ou ‘Galiza’ simplesmente não aparecem, apresentava-nos, a «nós, portugueses», como «os criadores» da língua, e Portugal como «país de origem» dela. Poderia crer-se que o senhor tinha em mente a adaptação do idioma a climas meridionais. Mas não: a referência à «passagem do latim ao português» desfaz quaisquer dúvidas. Do galego, nem sombra.

Bastantes anos depois, em Outubro de 2012, um famoso linguista português, falando de novo em Ourense (que culpa terá a bela cidade?), assim pregava aos galegos: «Não tenham medo do bilinguismo, ou seja, da convivência pacífica entre duas línguas que são irmãs na ascendência linguística, que são próximas, e pujantes, não apenas na Península Ibérica, mas também na América do Sul e no Mundo. Trabalhando em conjunto, o Português e o Espanhol constituirão talvez o maior bloco linguístico do Mundo». Do galego, de novo, nem sombra. Mas com esta agravante: um convite formal à promoção do espanhol, essa língua que ali mesmo, na Galiza, tão séria ameaça constitui.

O que seria, na mente dessa gente ilustre portuguesa e brasileira, a língua do país que visitavam? Uma curiosidade etnológica, um dialecto indígena, uns restos de português que por ali ficaram. Entrementes, algo nisto me supera: que jamais se tenha ouvido uma voz galega de protesto contra tanta deselegância, tão primária insensibilidade. Jogará, aí, aquele irónico e sábio cepticismo galego? Se sim, importa lembrar que existe gente mentalmente menos lúdica.

A proposta de Lapa

Bem diferentemente dos três indivíduos citados, houve um português que soube manter com o país a norte, e o seu idioma, uma relação duradoura e empenhada. Refiro-me a Manuel Rodrigues Lapa. Durante décadas, o professor divulgou, na imprensa portuguesa, todo o tipo de desenvolvimentos culturais, políticos e linguísticos por que a Galiza passava, expondo as problemáticas, dando projecção aos protagonistas. Do lado galego, ele encontrou sempre o melhor acolhimento e o mais franco apoio a iniciativas. A sua célebre proposta linguística para o galego, de 1973, foi difundida tanto em Portugal como na Galiza. Tem de reconhecer-se, porém, que ela não era a mais adequada nem a mais sensata.

Rodrigues Lapa vivia sinceramente preocupado pela ausência duma Norma para o galego. Vemo-lo na sua assídua correspondência com amigos além-Minho. Por inícios dos anos 70, ele concluíra que a língua efectivamente falada e, até então, escrita (uma «desordenada riqueza») não oferecia solidez para a definição duma norma ‘culta’ (ele dizia ‘literária’). A certo momento, convenceu-se de ter achado uma solução irrecusável: os galegos adoptarem o português como seu padrão culto. Lapa baseava essa oferta («brindada numa salva de prata», escrevia ele) num raciocínio que decerto lhe pareceu inatacável. Este: o português seria, hoje, aquilo em que o galego se haveria tornado, «se o não tivessem desviado do caminho próprio». Interlocutor privilegiado de toda esta intervenção era Ramón Piñeiro, o mais destacado intelectual galego da altura. Só que a proposta de Lapa se revelava infeliz em toda a linha.

Em primeiro lugar, historicamente, foi o padrão português a afastar-se da matriz medieval do idioma, por meio de dois longos processos: uma intensa castelhanização nos séculos XV a XVIII, e uma forte desgaleguização, com perda dos rasgos nortenhos mais marcados e o aviventar de rasgos sulistas (daí o desenfreado alastramento do ditongo “ão”). Rodrigues Lapa, um primoroso filólogo, mas filho do seu tempo, alimentava uma concepção essencialista do idioma, faltando-lhe também a informação histórica de que hoje dispomos.

Foi o padrão português a afastar-se da matriz medieval do idioma, por meio de dois longos processos: uma intensa castelhanização nos séculos XV a XVIII, e uma forte desgaleguização, com perda dos rasgos nortenhos mais marcados e o aviventar de rasgos sulistas.

Em segundo lugar, a ‘solução’ chegava no momento mais inadequado, a uma elite galega que, com Piñeiro na vanguarda, preparava esperançosamente o pós-franquismo, e encontrava numa língua própria o seu maior troféu político.

E, em terceiro lugar, a adopção do português como ‘padrão culto’ dos galegos criaria um cenário insustentável. Num ambiente de absoluto predomínio do espanhol, o próprio português rapidamente sairia desfigurado. Noutras palavras: reinando já uma diglossia, secular e instalada, com o espanhol como idioma de sucesso social e o galego como língua ‘caseira’, viria agora sobrepor-se a essa diglossia uma segunda, a do português como referência ‘de cultura’ dum galego incapaz de funcionar acima do quotidiano. Língua nenhuma sobrevive à trituração produzida por duas diglossias. O resultado imediato seria um caos incontrolável, com um desenlace mais que previsível: o triunfo, agora definitivo, do espanhol… O mantra, ainda audível em círculos galegos, de «antes absorvidos pelo português que pelo espanhol» não faz contacto com a realidade. O absorvente seria, no final, sempre o mesmo.

Uma língua por herança

Há uns dez anos, tive oportunidade de comentar, no semanário português «Expresso», a excelente edição ‘muito ampliada’ da Introdução à História do Português de Ivo Castro. Aí chamei a atenção para um problema entre nós jamais resolvido: o da suposta «ruptura» que teria fundado o português como língua diferente do galego. Para fundamentarem este cenário, os historiadores do português aduzem tradicionalmente particularidades de fonologia e morfologia que, vendo bem, mal distinguiriam dialectos. E eu prosseguia aí: «Enquanto essa ruptura não for identificada e descrita (e ninguém até hoje o ousou), galego e português continuarão a ser, para efeitos científicos, a mesma língua. E a própria existência do português como língua independente será da ordem do apriorismo político, dos aconchegos pátrios – mas decerto não da ciência». Escusado dizer que a ‘ruptura’ continua por identificar.

Enquanto essa ruptura não for identificada e descrita (e ninguém até hoje o ousou), galego e português continuarão a ser, para efeitos científicos, a mesma língua. E a própria existência do português como língua independente será da ordem do apriorismo político, dos aconchegos pátrios – mas decerto não da ciência.

Certo: em círculos linguísticos portugueses, galegos e brasileiros, reina uma informal aceitação da especialíssima proximidade de português e galego. Nalguns casos, constata-se, sem complexos, que até cerca de 1400 galego e português eram «a mesma língua», afirma-se que os falantes de galego e os falantes de português são dotados dum «bilinguismo inerente», lembra-se, até, que a ligação do português ao latim se operou através do galego, admite-se mesmo, aqui e ali, uma identidade estrutural dos dois idiomas.

Mas falta um assumir frontal, explícito e colectivo disso, ou de parte disso. Pelo lado português, no dia em que os nossos linguistas informassem os compatriotas de que a primeira língua falada e escrita em Portugal foi o galego, idioma gerado e desenvolvido durante séculos e que o nosso país herdou com a maior naturalidade, nesse dia um novo tipo de relações se teria aberto com a Galiza, e até connosco mesmos.

Falta um assumir frontal (…) pelo lado português, no dia em que os nossos linguistas informassem os compatriotas de que a primeira língua falada e escrita em Portugal foi o galego, idioma gerado e desenvolvido durante séculos e que o nosso país herdou com a maior naturalidade, nesse dia um novo tipo de relações se teria aberto com a Galiza, e até connosco mesmos.

Investir no galego, aproveitar o português

A situação linguística na Galiza de hoje não é, para a língua do país, a mais risonha. O espanhol domina em quase todas as esferas públicas, e o galego tem de lutar por manter um mínimo de prestígio social. Nestas circunstâncias, tudo quanto puder frear o desgaste social do galego será um ganho.

Poderão os falantes de português ter aí um papel? Claro. Interessando-se, dando sugestões, apoiando iniciativas, tomando-as eles mesmos. A própria língua portuguesa pode ser, aqui, de fundamental utilidade. Com efeito, depois do investimento no património próprio, nada mais útil para o galego que o aproveitamento, ponderado e resoluto, da oferta portuguesa. Nisto concordam todos os galegos responsáveis.

Depois do investimento no património próprio, nada mais útil para o galego que o aproveitamento, ponderado e resoluto, da oferta portuguesa. Nisto concordam todos os galegos responsáveis.

E a primeira coisa que o português tem para oferecer ao galego é… aquilo que eles já têm em exclusivo: o imenso material vocabular que só eles dois possuem, e que os distingue de tudo o resto. Uma parte desse material foi, no decurso dos séculos, perdendo uso na Galiza, até acabar esquecido ou relegado a pequenos nichos, enquanto continuou a circular na fala e na escrita dos utentes de português. O crescente contacto dos galegos com esta escrita e esta fala, quer pelo ensino, quer pela leitura e audição de produtos falados e escritos, estimulará o regresso, ou a difusão, desse sector lexical.

Isto não é ficção científica. Na escrita do galego, deu-se, ao longo de todo o século XX, um revigoramento não só do léxico próprio, como também daquele que é exclusivo a galego e português. Convirá examinar os mecanismos que aí intervieram e pô-los ao serviço do futuro.

O contacto directo com o português será, pois, uma utilíssima achega. Mas a plena eficácia exige actuação informada, planificada e coordenada. As acções voluntaristas e espontaneístas não chegam.

Para além desse âmbito ‘comum e exclusivo’, o português pode sugerir ao galego criações vocabulares feitas segundo os modelos patrimoniais comuns. Essas criações poderiam ter sido igualmente galegas, e são particularmente adequadas como alternativa a soluções espanholas.

Intervenções deste tipo exigem, pois, investigação, ponderação e testes no terreno. Mas elas prometem maior sucesso que a importação global e cega do léxico português, ele próprio doravante repartido por uma norma brasileira e uma portuguesa, em irreversível deriva.

O prioritário, o mais urgente, e decerto o determinante, é, porém, o reconhecimento, por todos os interessados, da contiguidade de português e galego. De novo: impõe-se um reconhecimento explícito, público, sem especiosos enleios, dessa contiguidade por parte dos responsáveis pela ‘imagem’ do idioma, os linguistas brasileiros, galegos, africanos e portugueses.

O tema da ‘identidade’ (uma noção de tipo essencialista) é, de momento, secundário. Se a ‘ruptura’ histórica entre português e galego nunca foi demonstrada, tal não significa que ela é indemonstrável. Mas, seja qual for o resultado dessa operação, a última palavra seria da ordem do político, do ideológico, numa palavra, das conveniências, estatais ou outras. Como devastadoramente afirmou Asafe Lisboa, numa edição de 2015 de Quilombo Noroeste: «A nação de Portugal precisava de uma língua que se chamasse ‘portuguesa’». Isto vale também para a Galiza, que necessita, para afirmar-se, duma língua a que chame ‘galega’.

Um sistema único

Em 1983, um congresso internacional, celebrado em Lisboa, aprovou uma moção do seguinte teor: «O Congresso reafirma a tese de que o galego e o português são normas cientificamente reconhecidas de um mesmo sistema». Este texto tem sido relembrado. Sim, é um passo inestimável esse afirmar da pertença de galego e português a um mesmo sistema linguístico, coerente e irredutível. Um sistema fonológico, morfológico, sintáctico, lexical e pragmático, criado e robustecido numa Galiza que abarcava o retalho noroeste do futuro reino de Portugal. Enfim, o galego de todos nós.

Nunca foi difícil dar conteúdo a uma declaração deste tipo, mas convém conferir-lhe também eficácia social. Existem hoje interessantes projectos comuns das nossas comunidades linguísticas, e a colaboração vem dando nítidos frutos. Importaria, porém, familiarizar também as sociedades civis com um conhecimento, pelo menos básico, das íntimas relações de português e galego.

Existem hoje interessantes projectos comuns das nossas comunidades linguísticas, e a colaboração vem dando nítidos frutos. Importaria, porém, familiarizar também as sociedades civis com um conhecimento, pelo menos básico, das íntimas relações de português e galego.

É hoje escassa em Portugal (a ele me cinjo) a divulgação linguística, mas de modo nenhum falta curiosidade pelo idioma, saciada mormente com curiosidades avulsas e alguma exploração da angústia do ‘erro’. Mesmo as nossas relações históricas com a Galiza só raramente são abordadas em obras para mais vasto público. Não se duvide: a existência duma língua galega plena, respeitável e tão próxima da nossa pode ser, a sul do Minho, uma notícia alvoroçante.

Por onde começar, então? Talvez exactamente por essa notícia.

 

Mini-curso na UFF: Galego-português: história, variação e mudança. Aspectos de fonologia e morfologia verbal

Durante os dias 26, 27 e 28 de outubro terá lugar na sala 501-C do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense o minicurso do Pograma de Pós-Graduação em Estudos das Linguagem Galego-português: história, variação e mudança. Aspectos de fonologia e morfologia verbal. O horário será das 14:00 às 18:00 horas, e o curso será lecionado pelos professores da Universidade de Santiago Elisa Fernández Rei e Francisco Dubert-García.

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Elisa Fernández Rei

Son profesora Contratada Doutora do Departamento de Filoloxía Galega da Universidade de Santiago de Compostela. Licencieime en Filoloxía Galega con grao en 1992 e obtiven o título de doutora en 2002. Formo parte do ILG desde 1991, primeiro como bolseira de colaboración e, posteriormente, como contratada, ata que ingresei no Consello Científico ao acadar o título de doutora. Actualmente, son membro da Comisión Permanente do ILG e secretaria da Facultade de Filoloxía.

Os meus intereses investigadores céntranse na dialectoloxía da entoación e a prosodia do galego, así como no estudo perceptivo desta variación dialectal. Participo desde 2001 no proxecto AMPER (Atlas Multimédia Prosodique de l’Espace Roman) e coordino o equipo que leva a cabo as enquisas en Galicia. A estreita colaboración co equipo portugués deste proxecto, coordinado pola profesora Lurdes de Castro Moutinho da Universidade de Aveiro, está a facilitar a pescuda da variación e o cambio prosódicos no diasistema galego-portugués.

Outros dos meus intereses investigadores son a pronuncia e a prosodia nos medios de comunicación oral en galego e as tecnoloxías da fala (en especial, os sistemas de conversión texto-fala).

http://ilg.usc.es/gl/persoal/elisa-fernandez-rei

Francisco Dubert

Francisco Dubert García é profesor titular do Departamento de Filoloxía Galega da Universidade de Santiago Compostela desde o ano 2000. Entrou como bolseiro no ILG no ano 1989 para colaborar na edición do Atlas Lingüístico Galego (ALGa). A súa vinculación ó ALGa supuxo que comezara a interesarse polo estudo da variación lingüística en xeral e da dialectoloxía do galego en particular. Doutorouse en 1998 cunha tese sobre o galego falado no Concello de Santiago.

Francisco Dubert traballa tamén na descrición da fonoloxía e da morfoloxía flexiva da lingua galega, tanto desde a perspectiva sincrónica coma da diacrónica, pero tomando sempre como referencia os fenómenos de variación dialectal.

http://ilg.usc.es/gl/persoal/francisco-dubert-garcia

Galego, português, uma questão de língua e familiaridade

Asafe Lisboa

Estudante de Literatura Galega I e pesquisador na UERJ

É, com efeito, de poder que se tratará aqui, indireta, mas obstinadamente.”

Roland Barthes em “Aula”

A primeira matéria que é tratada nas lições de literatura em língua portuguesa, tomando se o critério histórico-cronológico como fator preponderante do estudo, é a lírica trovadoresca. Essa manifestação poética, “[…] a primeira a surgir em língua romance, mais especificamente em provençal, foi tão importante “[…] que se pode dizer sem exagero que […] constitui a primeira etapa do lirismo europeu (TORRES,1987, p.5).

Mesmo que seu início tenha se dado nas regiões do sul da França, próximo ao fim do século XI, não demorou para que a arte de trovar penetrasse a Península Ibérica. Ali ela se cultiva nos moldes de um romance designado galego-português e posto que mantenha alguns dos preceitos do trovar provençal, desenvolve características que destoam totalmente deste, além de originar um tipo autóctone, original e exclusivo: a cantiga de amigo.

Ainda segundo Torres (1987, p.10) considerando-se que o texto mais antigo do “patrimônio poético galego-português” data de 1196 e que é de 1350 em diante que ocorrerá o fenômeno do “interregno poético” (Michaëlis apud PENA, 2002, p.88), para fins expositivos, tomaremos estas duas marcações como pontos inicial e final do trovadorismo, embora tenhamos consciência que as fronteiras históricas podem alargar-se ou recuar em virtude de uma série de fatores e classificações.

Dito isso, nesse período de cerca de cento e cinquenta anos, muito é produzido em galego-português, principalmente em verso. Torres (1987, p.10) fala em cerca de 1.685 textos; o número cresce em Pena (2002, p.105 – 107) que toma por base os registros dos cancioneiros da Biblioteca Nacional de Lisboa, doravante Colloci-Brancuti, da Vaticana e d’Ajuda e contabiliza mais de 3.000 textos.

No que diz respeito à prosa, no entanto, parece que a conjugação galego-português ou ainda literatura galego-portuguesa, já não soa tão apropriada e “[…] xorden voces […] desde o norte e o sur da fronteira, que buscan xa delimitar o que é <<galego>> e o que é <<portugués>>, ou xa reclamando tamén a totalidade desa producíón para unha das dúas rotulacíóns subliñadas.” (PENA, 2002, p.295).

Como conceber que o galego-português seja a língua comum apenas da produção lírica, e não da prosa da qual é contemporânea e conterrânea?

A pergunta que nos cabe formular neste ponto é a seguinte: a tentativa de cisão do koiné galego-português é motivada, apenas, por questões afetas às modalidades literárias? Como conceber que o galego-português seja a língua comum apenas da produção lírica, e não da prosa da qual é contemporânea e conterrânea? Estaremos diante de uma “[…]especializacíon linguística medieval por xéneros?” (PENA, 2002, p.295).

A LÍNGUA E OS MODELOS LITERÁRIOS

Do ponto de vista estritamente linguístico, a especialização por gêneros não é uma hipótese inverossímil, Monteagudo (1998, p.34) sinaliza que

[…] na idade media existia a curiosa tendencia a crear rexistros literários con base lingüística diferente segundo o xénero literario: así, no centro e occidente da península [Ibérica], durante o século XIII, o castelán foi a lingua preferida para a épica, mentres que o galego o foi para a lírica.

A mudança de códigos linguísticos para tratar de diferentes tipos de texto, por assim dizer, não é exclusividade da Península Ibérica nem do galego-português. Por exemplo, em vários períodos do medievo, principalmente naqueles em que o romance ainda não tinha definitivamente superado o latim, observa-se o uso deste sempre que se deseja explicitar o caráter sui generis de determinados registros (BURKE, 1995).

Entretanto há alguns aspectos que devem ser ressaltados quando se trata dessa mudança de códigos linguísticos. Um deles é que no século XIII as línguas romances eram muito mais parecidas entre si do que o são hoje. Muito provavelmente, com um mínimo de esforço, os falares da Península Ibérica e até mesmo provençal eram mutuamente compreensíveis. Então, a utilização do galego-português como língua preferida para a lírica, longe de constituir fator inibidor da produção, significava a observância, por parte dos próprios trovadores, de uma tradição na qual essa língua constituía o registro apropriado para a poesia lírica (MONTEAGUDO,1998).

Desenvolver além deste ponto o argumento da especialização linguística por gêneros nos daria o ad absurdum do galego-português como língua da poesia trovadoresca somente, tornando válida a hipótese de que a prosa, se houvesse, deveria estar codificada em outros romances, ou até mesmo no latim.

Não é necessário muito esforço para mostrar o contrário. Citando apenas aqueles documentos escritos totalmente em galego-português, Pena (2002, p.299 – 305) refere-se a Noticia de Torto e Testamento de Afonso II, provavelmente ambos de 1214, Testamento de Estevo Pérez, redigido entre 1230 e 1260, Cronica Troiana de 1373, Historia Troiana (documento bilíngue, em castelhano e galego) da segunda metade do século XIV, o Xosé de Arimatea, datado por volta de 1313, uma tradução de parte do original francês da Suite du Merlin, da primeira metade do século XIV e Demanda do Santo Graal, que se afigura como uma antologia que inclui os episódios da Matéria de Bretanha mais apreciados pelo público, do século XV. Há ainda, para não deixar de mencioná-los, uma infinidade de hagiografias e textos de cunho historiográficos, jurídicos e didáticos.

Pois bem, se muito se produziu em galego-português, também em prosa, por que se verifica uma insistente tentativa de cisão, de delimitar o que é estritamente galego e o que é estritamente português, apenas na prosa?

O SOM E A LETRA

Até aqui estivemos deliberadamente tratando da lírica trovadoresca como registro literário apenas, tal qual é nos Cancioneiros. Entretanto como o próprio nome sugere, a lírica antes de tudo é música. A poesia do trovador tinha o acompanhamento instrumentos musicais e não era feita para ser lida e sim para ser ouvida (TORRES, 1987). Mais do que isso, conforme nos diz Monteagudo (1998, p.24)

A poesía trobadoresca constituía, como acto comunicativo, en primeiro lugar, un espetáculo, pois chegaba ó seu público mediante unha actuación, […] executada por um ou vários interpretes: como mínimo, un xograr acompañado dun instrumento musical, pero existía a posibilidade de que participasen varios músicos/cantantes, e tamén bailaríns ou bailarinas.

Pelo seu caráter performático é natural que a lírica obtivesse um maior destaque e se disseminasse mais rapidamente pelas cortes. Isso, como já cuidamos ter exposto, não significa dizer que não houve uma prosa galego-portuguesa, mas ressalta uma diferença fundamental entre esses dois modelos literários. Pena (2002, grifo nosso), ao tratar da prosa galego-portuguesa diz que embora esta não tenha alcançado o esplendor nem os elevados níveis qualidade e originalidade da lírica, não se trata de uma produção menor, apenas menos vistosa.

Menos vistosa porque no âmbito da prosa, principalmente após a introdução das novelas de cavalaria, em vez de termos uma plateia que ouve uma música, teremos o surgimento de uma figura solitária que lê uma narração. Uma vez que ocorra essa drástica mudança do público-alvo, por assim dizer, a mudança do código linguístico é uma consequência quase que inevitável. Note o leitor que isso difere de uma especialização linguística por gêneros; o que está posto é que o fator determinante da mudança é a alteração do receptor.

No que concerne a lírica trovadoresca, o galego-português era o koiné da produção e também do registro nos cancioneiros. Os poetas adotavam suas convenções e particularidades porque estas já haviam se sagrado pelo uso e eram reconhecidas pelo grande público. Na prosa, não havia necessidade de tantas formalidades (nas acepções mais literais do termo); o que guiava a pena do escritor era a intenção de estabelecer ligação direta com um leitor. Para cumprir esse propósito cada autor

[…] semella utilizar aquela variedade [do galego-português] que ten máis á man. Dessa maneira[…] entendemos que o lóxico é asistirmos a unha manifestación das diversas falas, do conjunto de possibilidades que compoñen o romance occidental peninsular.” (PENA, 2002, p.297)

Respondendo, em parte, a indagação que fizemos anteriormente, concluímos que através da prosificação é possível, não delimitar o que é galego ou o que é português, mas compreender que o galego-português abarcava em si uma série de variedades regionais mais ou menos semelhantes. A busca pela distinção, à época, do que seria o galego e o português, tem sua razão de ser e seu pano de fundo linguístico e literário. Mas, reiterando a questão, será que seriam estes os únicos aspectos responsáveis pela diferenciação?

Através da prosificação é possível, não delimitar o que é galego ou o que é português, mas compreender que o galego-português abarcava em si uma série de variedades regionais mais ou menos semelhantes.

O PODER DA LÍNGUA

Nunca é demais lembrar que a questão dos nomes que se dá às línguas escapa da órbita dos especialistas (filólogos, gramáticos, linguistas) e se vincula muito mais a problemáticas de natureza política, cultural, econômica e ideológica.” (BAGNO, 2011, p. 34). A título de exemplificação do exposto, recorrerei mais uma vez a história da língua latina. O legado imanente do espírito grego conduziu o latim, língua lacônica, precisa e substancialmente denotativa, a uma vagarosa porém constante reorganização estilística que cindiu o idioma em duas modalidades: o sermo cultus, latim culto, ou ainda, latim clássico e o sermo vulgaris ou simplesmente latim vulgar. Como se pode imaginar, o sermo cultus era a variante utilizada pela elite instruída, ao passo que o sermo vulgaris era praticado pela plebe.

Em relação ao galego-português, principalmente depois do período do Interregno Poético (1350 em diante), devido a circunstâncias essencialmente políticas, a língua vai sofrendo com a intromissão castelhana e seu desenvolvimento natural e seu continuum de transmissão cultural são interrompidos. É exatamente o que atesta Pena (2002, p.96)

Así pois, se triunfa o mundo trobadoresco galego (ou galego-português) na corte de D.Denís, ou naqueloutra de Fenando III, é porque se mantén ainda o poder – e polo tanto, os gustos, costumes, idioma … dominantes – dos nobres de procedencia galega em ambos os dous lugares. Cando isso xa non suceda así; cando dunha parte, Portugal deseñe novos rumbos e cando o conxunto formado por Castela, León e Galicia atope um novo eixo – Sevilla-Toledo-Burgos -; cando un novo poder, de solar castelán, se consolide e cando novas modas prevalezan nunha corte afastada de nós… daquela assistiremos aos momentos epigonais do centileo das cantigas

A decadência do mundo trovadoresco, e de certa forma do galego-português como língua de expressão literária, entretanto não são termos suficientes para nos fazer entrever o estritamente galego e o estritamente português. Quando falamos em decadência, não estamos dizendo que a produção em prosa, que aliás seguiu bastante intensa até o século XV, seja insignificante ou inferior mas relembramos que, conforme já exposto, era bem menos vistosa e uniforme. Essa falta de uniformidade, aliás a explicitação da variedade de possibilidades do galego-português proporcionada pelos registros em prosa, nos mostra um romance multifacetado, que apesar das diferenças, era mutuamente compreensível entre os povos do noroeste da Península Ibérica, bem como nas regiões centro-ocidentais.

Nos resta, parafraseando Bagno, assumir que as distinções e nomeações que dizem respeito a uma determinada língua se respaldam em conceitos totalmente alheios à gramática, à literatura e à linguística. A busca de uma designação entre o que é estritamente galego e o que é estritamente português é reflexo, dentre outros motivos, de um impulso de demarcação de fronteiras físicas e de uma autoafirmação nacional.

Para compreendermos como isso se aplica aos casos do galego e do português é preciso fazer uma breve incursão na história. Dentro dos limites da Gallaecia, província romana na Península Ibérica, foi se formando um romance de características muito particulares. Quando, nas vésperas do século XII, a lírica trovadoresca ganhou eco naqueles territórios foi porque “[…] a lingua tiña xa unha estructura e unha entidade que posibilitou a grandeza literaria […]” (QUEIZÁN, 1998, p.202) e também por que o “[…] país ofrecía unha madurez cultural relativamente avanzada, conseguida en boa parte durante o século XII gracias ó auxe da peregrinación a Santiago e a unhas condicíóns políticas favorables […]” (MONTEAGUDO, 1998, p.23). Condições políticas favoráveis explicitadas pelo próprio Monteagudo (1998, p.34)

Desde o final do século XI ata a metade do XIII, os condes de Traba ou Trastámara, a liñaxe máis importante da Galicia, constituíron ó mesmo tempo unha das liñaxes máis poderosas da Hispania cristiá, que portiña coas casas reais de Léon e de Portugal e mais coas familias máis empoleiradas da aristocracia castelá […] Precisamente, entre os seus familiares cóntanse aristócratas que á sua vez xogaram un papel moi importante na acollida da lírica occitana na península ibérica[…]

Visto que a tradição trovadoresca penetrou a Península Ibérica através da Galiza, se difundiu, principalmente, pelo esforço da nobreza galega, seguindo os moldes do romance que era há muito ali cultivado, por que chamar a língua das cantigas de galego-português?

De tódolos xeitos, hai que subliñar que a denominación que recebía a lingua empregada polos poetas da tradicíon trovadoresca galego-portuguesa era galego, ou polo menos así lle chama o trobador catalán Jofre de Foixá nas Regras de trobar, um manual de poesia cortés de contras os finais do século XIII (MONTEAGUDO, 1998, p.21)

Se nos detivermos um pouco mais nesta análise histórica veremos que embora Afonso Henriques, por meio de seus muitos êxitos militares e do reconhecimento de Afonso VII e do Papa Alexandre III, finalmente se torne rei do Condado Portucalense, em 1179, ainda é cedo para se falar em língua portuguesa. Isso por que a língua se falava no Condado Portucalense, à essa época, era a mesma que se falava na Galiza (BAGNO, 2011).

Por que chamar galego-português o romance que é anterior ao surgimento de Portugal (e até mesmo do Condado Portucalense), e que já era cultivado na Galécia, entidade político-geográfica que existia desde a época dos romanos?

E mesmo depois. Os seguintes serán anos de conquista, tempos de guerra, con rei e nobres analfabetos nos que non se pode esperar preocupacións idiomáticas.” (QUEIZÁN, 1998, p.201). Por mais que as fronteiras físicas de Portugal tenham se tornado mais fixas, no eidos da língua elas ainda permaneceriam ligadas a Galiza. Até que haja, de fato, uma fronteira linguística entre o galego e o português haveremos de presenciar o surgimento de outra dinastia em Portugal. Pois bem se galego e português eram um só até o século XIV, por que chamar galego-português o romance que é anterior ao surgimento de Portugal (e até mesmo do Condado Portucalense), e que já era cultivado na Galécia, entidade político-geográfica que existia desde a época dos romanos? (BAGNO, 2011) “Somente por uma necessidade ideológica de afirmação nacionalista é que se pode utilizar um termo anacrônico como ‘galego-português’ para designar uma língua que em tudo era galega […]” (BAGNO, 2011).

A nação de Portugal precisava de uma língua que se chamasse portuguesa, pois é a partir da língua que o poder é desenvolvido e exercido:

[…] o poder é o parasita de um organismo transsocial, ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política ,histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é:a linguagem — ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua. A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. (BARTHES, 1977, p.11)

Afirmar a existência de uma língua própria, contudo, ainda não é o suficiente. É preciso torna-la grande. Para tanto os gramáticos portugueses indicam a afiliação direta de sua língua, língua portuguesa, com o latim. Bagno (2011, p. 35), para ilustrar essa ideologia, transcreve trechos de Duarte Nunes de Leão (da obra “Origem da lingoa portuguesa”, de 1606):

E por a muita semelhança que a nossa língua tem com ela [a latina] e que é a maior que nenhuma língua tem com outra, & tal que em muitas palavras & períodos podemos falar que sejam juntamente latinos & portugueses.

E também de Manoel Severim de Faria (da obra “Discursos varios politicos”, de 1624):

E mostrando nós que a portugueza participa mais da latina, & que na cópia, pronunciação, brevidade, ortografia, aptidão para todos os estilos, não é inferior a nenhuma das modernas antes igual a algumas das antigas, com razão lhe poderemos dar o louvor de lingua perfeita, & de ser uma das melhores do mundo.

Observamos então que o que era galego transmuta-se, tal logo a ascensão e expansão políticas assim o demandem, em português, língua que por sua vez advém, supostamente, do latim. Pois bem, cogitando a hipótese de que isto realmente tenha ocorrido, teremos de imaginar que a língua se dissemina do sul para o norte, contrariando o caminho da Reconquista (QUEIZÁN, 1998).

A transformação do galego em português, filho do latim, além de prover uma língua para a nação de Portugal, ainda se presta a outro propósito: fazer esvanecer qualquer vestígio de procedência galega no idioma. Isso porque a Galiza, a partir de 1230, vai perdendo gradativamente sua autonomia política e resulta disso que o galego se torna um falar desprestigiado (BAGNO, 2011). Era necessário então fazer recuar as origens, em nome da política e do anseio de se afirmar como nação autônoma, e tomar como nascedouro o passado quase mitológico da antiguidade clássica.

Por fim

En realidade, o galego é o nome da lingua e o portugués é o nome político, derivado do Estado de Portugal. Ou sexa que o galego é ao portugués o mesmo que o castellano é ao español. Portugués e Español son os nomes políticos derivados do nome do Estado; o galego e o castellano son os nomes das linguas e do lugar onde se orixina. A diferencia está en que […] Ningúm español, sexa da Mancha, de Andalucía, ou As Canarias, ten problema en recoñecer que súa lingua […] é o castellano. Se polo contra, os portugueses negan que a súa lingua é o galego, é por claríssimas razóns políticas. (QUEIZÁN, 1998, p.203)

GALEGO – PORTUGUÊS?

Quando no início do trabalho aludimos às vozes que buscavam separar o que era galego e o que era português, mencionamos que algumas delas já reclamavam a totalidade da produção literária, ao menos da prosa, para uma dessas rotulações. Isso se deve ao fato de que “galego-português” nunca foi um termo utilizado naquela época.

O binômio “galego-português” faz supor que o português e galego eram uma só língua, e que se dividem, tornando-se completamente diferentes tão logo Portugal se torne independente (QUEIZÁN,1998). Reiteramos que o mero estabelecimento de fronteiras físicas não cinde o idioma instantaneamente; a língua que se falava no Condado Portucalense era a mesma que se falava na Galiza. Acontece que o designado “português” vai ser a língua oficial de um Estado, que se não era de todo independente, não media esforços para sê-lo. O galego por sua vez não poderia ter destino mais díspar. Queizán (1998) afirma que para evitar as confusões fomentadas pelo uso do par “galego-português, ele deve ser substituído pela terminologia Galego Medieval.

Se galego-português não é, nem nunca foi, o nome da língua da lírica e da prosa medieval produzida no noroeste da Península Ibérica, e tampouco é uma terminologia adequada para tratar do romance da Galiza, por que segue como presença constante nos livros de história e de literatura portuguesa e galega? Na verdade, o termo galego-português é recente, cunhado por especialistas e estudiosos portugueses, no século XIX. Sua aplicação prática satisfaz a duas necessidades: reconhecer o galego como língua da prosa e da poesia medievais, ao mesmo tempo em que incorpora essa produção literária ao patrimônio cultural português. (BAGNO, 2013)

CONCLUSÃO

Como já afirmamos anteriormente, o mero estabelecimento de fronteiras políticas, por si só, não estabelece uma fronteira linguística. Hoje, séculos após a Reconquista e o colonialismo do século XVI, o galego e o português ainda possuem enormes semelhanças. Semelhanças que não se restringem apenas a variante do português falado na Europa.

Uma familiaridade que atravessou mares e continentes. Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego. Assim a iniciativa de conhecer mais a língua galega torna-se instrumento de aproximação de povos que compartilham cultura e identidade.

Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego.

É comum que desde sempre estudemos a língua portuguesa através de suas reminiscências mais óbvias. A tradição formalista da maioria das gramáticas do português no Brasil não nos deixa mentir. Mas tornou-se insustentável continuarmos a dirigir nossos olhares somente para a Lusitânia e para a Península Itálica. É preciso lembrarmos da Gallaecia.

Um de nossos maiores poetas cantou a língua portuguesa como a “última flor do Lácio”. Uma perspectiva um pouco lúgubre, a meu ver. Prefiro imaginar que a língua que falamos aqui no Brasil é uma folha nova. Uma folha de uma árvore que tem suas raízes assentadas não em Roma ou em Lusitânia, e que continua florescendo e frutificando. Uma folha da árvore da Galiza.

BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos. O português não procede do latim: uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego, 2011.

Disponível na internet em:

< http://www.editorialgalaxia.es/imxd/libros/doc/1320761642191_Marcos_Bagno.pdf&gt;

Acesso em 20/05/2015.

BARTHES, Roland. Aula: Aula inaugural da cadeira de semiologia literária do colégio de França. São Paulo: Cultrix, 2007.

BURKE, Peter. “Heu domine, adsunt turcae”: esboço para uma história social do latim pós medieval. In: A arte da conversação. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

MONTEAGUDO, Henrique. O marco histórico literário: a lírica trovadoresca galego-portuguesa. In: Três poetas medievais da Ría de Vigo: Martín Codax, Mendiño, Xoham de Cangas. Vigo: Editora Galaxia, 1998.

PENA, Xosé Ramón. Historia da literatura medieval galego-portuguesa, San Marcos – Santiago de Compostela: Sotelo Blanco Edicíons, 2002.

QUEIZÁN, María Xosé. A falacia do galego-português. In: Estudos Galegos 2. MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (ORG). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

TORRRES, Alexandre Pinheiro. Antologia da poesia trovadoresca galego portuguesa. Porto: Lello & Irmão Editores, 1987.