Claudia Amorim: “A literatura galega contemporânea apresenta um vigor extraordinário”

Claudia Amorim é doutorada em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006) e Pós-Doutorada em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e faz pesquisa principalmente sobre literaturas contemporâneas em língua portuguesa. É também, a atual coordenadora do Programa de Estudos Galegos desta Universidade.

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Claudia Amorim em Santiago de Compostela
  1. Você é coordenadora do Programa de Estudos Galegos da UERJ, quando nasce este Programa e com que objetivos?

O Programa de Estudos Galegos foi criado em 1998, nesta Universidade, pela ação da professora Dra. Maria do Amparo Tavares Maleval, especialista em literatura medieval e antiga coordenadora do Programa até o ano de 2013. A professora Amparo já havia criado na UFF (Universidade Federal Fluminense) de onde era oriunda, o NUEG (Núcleo de Estudos Galegos), quando lá trabalhou. Ao se aposentar, o prof. Fernando deu continuidade ao NUEG.

Na UERJ, havia todo o interesse em criar um Programa similar, pela demanda que, nos cursos de Letras, há com relação às pesquisas que tratam das proximidades entre a língua galega e a língua portuguesa e também dos estudos sobre a literatura medieval em Portugal que, como se sabe, surge em galego-português com a lírica trovadoresca.

  1. Qual é o papel atual que tem o Programa no Instituto de Letras da UERJ? Que projetos tem de futuro?

O Programa de Estudos Galegos tem como fito estimular, entre os estudantes da graduação, pós-graduação e extensão, o aprofundamento dos estudos sobre a cultura, a língua e a literatura galega, em perspectiva comparatista ou não.

Com a consolidação do Programa, em atuação ininterrupta durante esses 16 anos, especialmente na área dos estudos medievais, pretendemos ampliar a pesquisa dos estudantes, abrindo caminhos para estudos sobre a literatura contemporânea, por exemplo, e sobre a língua galega, envolvendo os alunos em torno da pesquisa de professsores da UERJ que podem contribuir mais com o Programa.

  1. Além de ser a coordenadora do Plano, você faz também pesquisa em literatura galega. Por que uma pesquisadora brasileira se interessa pola literatura que se faz na Galiza?

A minha pesquisa atual é sobre a questão identitária nas literaturas contemporâneas de língua portuguesa e galega, em perspectiva comparatista. No mundo atual, não se pode negar a importância das novas cartografias que, por razões econômicas, vem reconfigurando as fronteiras entre os países. E como a marca identitária primeva está associada à língua, há que se pensar na língua como um macrossistema. No caso dos países africanos de língua portuguesa, temos a história recente da independência e a adoção do português como língua oficial. A literatura atual desses países vem ganhando o mundo e contribuu para o enriquecimento da língua portuguesa com as suas marcas locais. Nessa literatura contemporânea há todo um diálogo com as diversas culturas dos povos africanos, com sua tradição oral e suas línguas nativas, o que amplia e enriquece a expressão do português.

No caso da literatura galega contemporânea, o que desperta minha atenção, é a determinação de boa parte dos galegos buscarem a consolidação e a divulgação da língua galega, como fator de resistência e sobrevivência identitária. Os galegos sabem que a língua da Galiza é o galego e não o espanhol, embora do ponto de vista da economia e da macropolítica o espanhol seja importante. Contudo, uma língua morre se não é falada, se não é veículo da escrita, se não é estudada nas escolas. Os galegos parecem ter muita consciência da defesa da língua de seus avós, e dos avós de seus avós. Além disso, há, entre os que defendem a sobrevivência da língua galega, a tentativa de aproximação do galego com o português, por razões histórico-linguísticas e de formação nacional.

Os galegos sabem que a língua da Galiza é o galego e não o espanhol

Há diversos escritores contemporâneos na Galiza escrevendo em galego sobre a cultura galega, desafiando as leis do ‘mercado editorial’ e isso é admirável.

  1. Há interesse no mundo acadêmico brasileiro pela literatura e a cultura galegas? Existe diálogo com o mundo acadêmico galego?

O interesse do mundo acadêmico brasileiro na área das letras é bastante vasto e os estudos sobre a literatura e cultura galegas são setorizados. Nas Universidades em que há um programa de estudos galegos com leitorado – no Brasil, há três (Universidade Federal da Bahia, Universidade de São Paulo e Universidade do Rio de Janeiro), penso que há mais estudos e pesquisas pontuais sendo desenvolvidos, contudo esses estudos podem ganhar vultos maiores.

O diálogo dos pesquisadores brasileiros com os pesquisadores galegos é também setorial. Na UERJ, durante a gestão da prof. Amparo Maleval, tivemos dois Acordos de Cooperação de Atividades de Pesquisa aprovados pela CAPES e pelo órgão similar na Espanha (DGU), e conseguimos efetivar um trabalho estreito com professores da Universidade da Corunha. Contudo, é sempre difícil organizarmos simpósios e trabalhos em conjunto que envolvam vários professores.

Nas Jornadas de Letras Galegas, realizadas sempre no mês de maio, já tivemos a presença de professores galegos que, por vezes, estão de passagem pelo Brasil.

Contudo, sentimos, em todas as iniciativas de diálogo com pesquisadores galegos, uma enorme receptividade dos professores galegos em estreitar os laços de estudos e de pesquisa conosco.

  1. Tem estudado a função identitária nas literaturas de língua portuguesa. Achou elementos em comum nas diferentes literaturas? Que papel joga o elemento identitário na literatura galega?

Os elementos comuns que encontrei nas literaturas contemporâneas de língua portuguesa e galega, com relação à questão identitária, é a defesa de um patrimônio cultural – que passa pela afirmação da língua – ameaçado pela imposição de um padrão e pela globalização. A língua portuguesa é – do ponto de vista das línguas de cultura – falada por milhões de falantes espalhandos por esse planeta, mas não tem valor econômico-político, o que para esse mundo significa ‘pouco valor cultural’. A literatura expressa em português – com suas nuances portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, guineense, cabo-verdiana, santomense e timorense – muitas vezes tende a tratar dessa marginalização. Malgrado esse lugar que ocupamos entre as línguas do mundo, as literaturas de língua portuguesa têm alcançado visibilidade, afirmando os valores culturais dos povos que representam e mostrando-se ainda excepcionalmente modernas e inventivas no campo literário.

O mesmo se dá com a literatura galega contemporânea que – embora não tenha a mesma visibilidade que as literaturas de língua portuguesa alcançaram – apresenta um vigor extraordinário e uma defesa dignificante do galego como expressão literária.

  1. Faz parte a literatura galega das literaturas lusófonas ou das literaturas em língua portuguesa?

Essa é uma pergunta que se prende a definições sutis. Muitos estudiosos não gostam do adjetivo lusófono, por estar ligado a uma ideia do império colonial português. Contudo, o adjetivo ‘português’ também pode remeter à ideia de que a língua é de Portugal, a princípio, sendo dos outros países apenas por ‘empréstimo’. Temos de pensar diacronica e sincronicamente os termos. Para mim, língua lusófona e língua portuguesa são sintagmas similares sincronicamente, embora o termo lusófono remeta à noção geográfica anterior à formação de Portugal. Do mesmo modo, podemos pensar a similitude dos termos ‘literaturas lusófonas’ e ‘literaturas de língua portuguesa’.

  1. Quando um brasileiro escuta falar um galego, acha que esta diante duma variante mais da sua língua, como acontece com o português de Portugal ou o português de Moçambique, ou se sente diante duma língua diferente?

Eu penso que um brasileiro, ao ouvir falar um galego, sabe que está diante de uma língua que não é o português, mas é uma língua irmã e não uma língua estrangeira, no sentido etimológico de ‘estranho’. A língua galega é muito familiar ao ouvido brasileiro, mas creio que não é identificada como uma variante do português.

  1. Você já esteve várias vezes na Galiza, que poderia falar sobre ela para um brasileiro que ainda não teve a oportunidade de a conhecer?

Estive duas vezes na Galiza, a primeira vez em 2009, em fevereiro. Fiquei admirada com a junção do frio do invernso com os dias ensolarados. A morriña, não a vi. Lembro-me particularmente da Torre de Hércules, na Galiza, em um dia de esplendoroso sol e da receptividade calorosa dos galegos.

A segunda vez que fui à Galiza, em 2013, fiquei mais tempo em Santiago de Compostela, e explorei bastante as vias e os pontos históricos dessa magnífica cidade, onde se é igualmente bem recebido. Fui também a Pontevedra, que é pequena e encantadora.

A Galiza fez-me sentir em casa, como se eu a conhecesse há muito tempo.

Um brasileiro, ao ouvir falar um galego, sabe que está diante de uma língua que não é o português, mas é uma língua irmã e não uma língua estrangeira

Agora brevemente…

Um escritor ou escritora galega

Rosalía de Castro, sempre.

Um escritor ou escritora brasileira

Cecília Meireles, cuja escrita remete por vezes à escrita de Rosalía.

Um lugar na Galiza

Santiago de Compostela, mais precisamente a vista de sua secular catedral, apreendida do Parque da Alameda.

Um lugar no Brasil

Rio de Janeiro, mais precisamente a vista da Baía de Guanabara, vista do bairro da Urca.

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