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Pintores e pintoras galegos

Renata Flávia de Souza

Aluna de Introdução à Cultura Galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  1. Introdução: uma breve contextualização da história da arte em Galícia

É possível identificar, desde os tempos primórdios, a relação humana com a arte em seus mais distintos objetivos como a comunicação, a imitação da natureza e a expressão de sentimentos. Realizada por meio de diferentes linguagens (arquitetura,desenho, dança, escultura, pintura,escrita e variadas derivações), a arte seria o processo criativo capaz de transformar a subjetividade em algo visível, palpável e pertencente ao plano físico.

A Galícia é um país marcado pela presença de diversos povos e consequentemente diversas culturas. Ali é possível encontrar vestígios artísticos desde a era paleolítica, como as pinturas rupestres encontradas na gruta de Eirós, na aldeia de Cancelo, datadas pelos investigadores em aproximadamente 30.000 anos. “Estas pinturas están xeralmente ligadas a ritos relixiosos e representan a plasmación nunha linguaxe simbólica do pensamento dos primeiros seres humanos” (EL PAÍS, 2012), ou seja, a arte como representação do cotidiano.

Na Idade Média, no período em que o atual território galego foi conquistado pelos romanos, observou-se uma fase bastante produtiva para o desenvolvimento artístico dessa região. As igrejas construídas eram ricas dos mais diversos detalhes arquitetônicos, colunas primorosamente esculpidas, pinturas e muitos tipos de decoração que remetiam ao caráter religioso. Em Galícia, até os dias atuais, se conservam os restos das pinturas realizadas naquele período.

Durante a Idade Moderna, a Galícia passou por um período chamado “Séculos Escuros”, no qual ocorreu uma forte imposição da cultura espanhola sobre a cultura galega. Dessa maneira, pouca coisa era produzida, gerando uma grande estagnação nos processos de desenvolvimento da arte galega, assim, “a falta de escolas e de tradición pictórica provocaron que as pinturas deste período sexan escasas e de non moita calidade”.

Com o advindo do Romantismo, no século XIX, uma série de reivindicações realizadas na Península Ibérica, reavivou o espírito regional e a identidade subjetiva dessas regiões (VILAVEDRA, 1999). Na Galícia, o choque entre o castelhano e a língua galega, converteu-se na valorização de se ter um idioma próprio. Assim, através dessa revitalização cultural, a etapa chamada de “Ressurgimento” foi marcada por diversos movimentos artísticos e culturais.

Nesse caminho, foram ocorrendo avanços no que diz respeito a arte e cultura galega, como a formação da primeira geração de pintores galegos, a “Xeración Doente”. Foi a partir da chegada de diversos artistas empenhados em transmitir seus conhecimentos nos centros de artes de Galícia que se formaram os primeiros artistas galegos, como Ovidio Murguía, Ramón Parada Justel, JoaquínVaamonde e Jenaro Carrero. “Esta xeración, non obstante, ollou con estupor como a pintura ficaba prácticamente ausente na súa terra. Cunha perspectiva un tanto utópica estes artistas reivindicaron a arte da pintura e procuraronunrecoñecemento público” (LORENZO, 2011) e para isso, retratavam a essência do seu país.

Atualmente, é possível verificar o número crescente de mostras de pinturas galegas, quadros que são expostos inclusive em outros países, e pintores que são aclamados com prêmios por suas obras. Isso mostra que a arte encontrou espaço nessa região e se desenvolve de modo a construir novos caminhos para a história da região da Galícia.

  1. Pintores galegos antigos

2.1. Ovidio Murguía de Castro

Nascido em 1871, em Torres de Lestrove, Dodro – A Coruña, OvidioMurguía, como era mais conhecido, era filho dos escritores Manuel Martínez Murguía e Rosalía de Castro, o que pode explicar seu caminho para a arte. Quando ainda era muito jovem, viveu a perda da sua mãe e anos depois começou a pintar.

Sua formação artística começa em Santiago de Compostela, na Real Sociedade Económica de Amigos do País de Santiago, onde era orientado pelo professor pintor José MaríaFenollera, seguindo a linha do realismo naturalista. De maneira rápida, o pintor começou a fazer exposições das suas obras que tinham muito a ver com a cultura galega e foi uma renovação do paisagismo, “su pintura de gran pulso vital, plasmando enella una emoción que fusiona el naturalismo conlaespiritualidaddel romanticismo” (TRIANARTS, 2014).

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Fig. 1: Ovidio Murguía, Tarde de invierno en el Sarela, ca. 1894

Em 1895, o pintor se mudou para Madrid e lá esteve em contato com outros artistas, utilizou a serra madrilena como paisagem para suas obras e embora não quisesse seguir os estudos formais de arte na Academia de Belas de San Fernando, Ovidio realizou diversas copias de obras dos professores do Museu do Prado como exercício de pintura.

Graças aos contatos que seu pai fazia, o pintor recebeu diversas encomendas de quadros, inclusive de pessoas que faziam parte da elite da época, como o presidente do Senado, Alonso MonteroRíos. Ovidio ficou encargado de, com oseu conjunto de obras mais conhecido, decorar parte dos muros do Pazo de Lourizán.Assim, “con temas costumbristas muy marcados por la tradición realista naturalista, decora con murales distintos palacios” (TRIANARTS, s/d).

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Fig. 2: Ovidio Murguía, Asando Patatas o Borralleiras (1895)

Entretanto, logo o pintor se cansou desse tipo de trabalho e decidiu que simplesmente deixaria de trabalhar para viver uma vida bohemia, sem nada que o prendesse, sem obrigações. Porém, esse estilo de vida custou caro para a sua já precária saúde. O pintor realizou algumas exposições, porém, viu sua saúde ser destruída pela tuberculose, que se agravou no verão de 1897, obrigando-o a voltar para sua casa na Coruña.

Ovidio permaneceu em Galícia sobre os cuidados de sua família, mas no dia 1 de Jnaeiro de 1990, com apenas 29 anos, não resistiu e faleceu. Suas obras estão hoje em diversos museu galegos e em março de 2014, a fundação Rosália de Castro apresentou uma pintura inédita do pintor galego. “El cuadro no catalogado, Árbore e montaña, la pieza quizá de mayor tamaño pintada por Ovidio Murguía, será restaurada en el Museo de Bellas Artes de A Coruña con la colaboración de la Consellería de Cultura” (LA VOZ DE SANTIAGO, 2014).

  • Joaquín Vaamonde Cornide

Nascido em 1872, na Coruña, Vaamonde começou a pintar ainda quando era uma criança, com o pintor Modesto Brocos. Ainda pequeno, o pintor viajou para a América do Sul com seus pais e só retornou a Galícia quando jovem, aos 22 anos, porém, já dotado de um estilo próprio para a pintura. Nesse tempo, Vaamondeconheceua escritora Emilia Pardo Bazán, “quien se convirtió en su protectora y le introdujo en los ambientes de la alta burguesía coruñesa y en la corte madrileña” (MUSEO DEL PRADO, s/d).

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Fig. 3: Retrato de Emilia Pardo Bazán (1896)

Vaamonde agradou tanto a Emilia P. Bazán que se tornou protagonista de umas das suas obras, La Quimera (1905), na qual foi retratado como um jovem pintor talentoso destacava a burguesia em suas obras, esperando chegar a ser como os professores que observava no Museu do Prado. O pintor se especializou na técnica de pintura com o papel e em retratos, recendo em 1895, uma menção honrosa na Exposição Nacional de Belas Artes.

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Fig. 4: Retrato de Isidro Brocos (1894)

Sua vida foi interrompida aos 32 anos de idade, no ano de 1900, quando o pintor faleceu por tuberculose. Suas obras estão expostas no Museo de Belas Artes da Coruña.

  1. Pintoras galegas atuais

3.1. Carlota Bueno Hermida

Pintora nascida na Coruña e que expôs suas obras pela primeira vez em uma mostra coletiva, no Conselho de Pontedeume, em 2001. A partir daí, participa de muitas outras exposições e concursos, recebendo em maio de 2011, no concurso de pintura rápida “Cidade Velha”, na Coruña, seu primeiro prêmio. Meses depois, no concurso de pintura rápida “Juan Jose Fernández-Leiceaga”, do Conselho de Noia, ela fica entre uma das finalistas.

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Fig. 5: Muiño de Xubia (s/d)

 

3.2. Josefina Carro

Nascida em 2 de março de 1942, em Barallobre (Fene), a pintora retrata em suas obras muito das paisagens que estavam ao seu redor, durante a sua infância, assim é possível ver refletidas em suas aquarelas, bosques, frutos e elementos da natureza. Foi também durante a infância que ela tomou gosto pela pintura. Através do pintor Jesús Balado, Josefina aprendeu os procedimentos da pintura com pastel.

Além desse ramo da arte, Josefina apreciava também a literatura, gostava de visitar exposições e museus e dessa maneira, conheceu os impressionistas e começou a aprender mais desse estilo, chegando a copiar obras de Degás, Manet, Renoir. Aprendeu os procedimentos e segredos da aquarela com o professor José Gonzalez Collado, dedicando-se com mais afinco a esse tipo de pintura, mas sem abandonar o desenho e as pinturas a óleo.

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Fig. 6: Tulipanes (s/d)

Joaquina foi acometida por uma doença, causando uma interrupção nas suas aulas, porém, retornou com ainda mais ânimo para a pintura, com uma paleta mais vida, aproveitando os contrastes de luz, troca no uso das cores. A pintora se apresentou em várias exposições, como em 2011 na Casa de lasPalmeras de Neda. 

  1. Conclusão

Estudando sobre a história da arte na Galícia é claro perceber o quanto essa região ainda está em processo de desenvolvimento, de formação de uma história com marcos próprios, porém, também é possível destacar o número crescente de praticantes da arte, de pessoas que se dedicam a retratar o que veem e o que sentem, claro, sofrendo influências do seu cotidiano, do espaço em que vivem.

Assim, no presente trabalho, foram destacadas as contribuições de alguns pintores que fizeram parte da base histórica para os estudos da Artes na Galícia, e os novos pintores, evidenciados aqui, principalmente, as mulheres pintoras, a fim de disseminar a arte ao passo que também se crie um espaço para a atuação feminina em assuntos majoritariamente marcados pelos homens.

  1. Referências

GALIPEDIA, A WIKIPEDIA EN GALEGO. Arte de Galicia, 2016. Disponível em: <https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Arte_de_Galicia&oldid=4031442&gt;.

VILAVEDRA, Dolores. Historia da literatura galega. Compostela: Galaxia, 1999.

GALERÍA JOSÉ LORENZO. A xeración doente: do pasamento prematuro ao inmediato mito, 2011. Disponível em: <http://galeriajoselorenzo.blogspot.com.br/2011/06/xeracion-doente-do-pasamento-prematuro.html&gt;.

GALIPEDIA, a Wikipedia en galego. OvidioMurguía. Disponível em: <en https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Ovidio_Murgu%C3%ADa&oldid=4056728>.

TRIANARTS. OvidioMurguía de Castro: Naturalista y romântico, 2014. Disponível em: <http://trianarts.com/ovidio-murguia-de-castro-naturalista-y-romantico/#sthash.zy0T9fsY.HHQDvjeH.dpbs>.

LA VOZ DE SANTIAGO. La Casa de Rosalía adquiere una obra desconocida de Ovidio Murguía, A Coruña, 2014. Disponível em: <http://www.lavozdegalicia.es/noticia/santiago/2014/03/23/casa-rosalia-adquiere-obra-desconocida-ovidio-murguia/0003_201403S23C109913.htm>.

MUSEO DEL PRADO. VaamondeCornide, Joaquín. Disponível em: <https://www.museodelprado.es/aprende/enciclopedia/voz/vaamonde-cornide-joaquin/322c9335-e3ce-46f4-86fd-455d4a4d806b>.

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A construção do galego legítimo. Identidades e ideologias.

Denis Vicente

Professor-leitor de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2014-2015)

*Este artigo foi publicado no livro das Anais do XII Fórum de Estudos Linguísticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2015).

RESUMO

Em abril de 1983 a Xunta de Galicia oficializa por Decreto as normas modelo para o uso do galego. Até esse momento, por causa da perda de soberania da Galícia ao longo da sua história e a impossibilidade de criar instituições próprias em que o galego fosse língua oficial das administrações e da escola, a língua utilizada foi o castelhano. A criação da norma de uso público da língua teve lugar em meio de muitas polêmicas, que atendem fundamentalmente a critérios ideológicos e identitários, a que papel deve ter o galego na sociedade e no marco internacional, e como deve ser a focagem da proposta glotopolítica de ‘normalização linguística’, de recuperação de espaços e usos para a língua na sociedade, após séculos de marginalização. Procuramos, assim, analisar este processo no seu marco histórico, e também as repercussões que teve para o galego no espaço do português, e nas políticas linguísticas aplicadas na Galícia. 

Introdução histórica

A primeira revolução linguística na Europa teve lugar entre os séculos XV e XVI. Neste contexto nasce uma nova burguesia com necessidades de comunicação através do comércio, o início da imprensa precisará da simplificação tipográfica e uniformização ortográfica e o começo da colonização dos territórios além da Europa requer também da modelos de língua escritos para a ‘alfabetização’ dos novos membros do império. É neste momento quando se elaboram, pois, as línguas padrão a partir da gramaticalização dos vernáculos europeus. Já entre os séculos XVI e XVIII a maior parte das línguas europeias têm um equipamento metalinguístico (ortografia, gramática, dicionários), textos de referência, corpus, instituições que as usem e também instrumentos de difusão e controle linguístico como a escola ou as academias da língua (Baggioni 2004).

A língua da Galícia, o galego, continuou o seu desenvolvimento normal em Portugal, adquirindo o nome de português com a construção do estado nacional, e tornando-se língua de Estado e de império. No entanto, na Galícia ficará relegada ao uso oral entre a população, mas completamente marginalizada do poder institucional e dos usos formais na igreja, administração ou na corte do Rei. No imaginário comum dos galegos e galegas, a sua língua não era mais que um dialeto ruim do espanhol, a verdadeira língua do poder, da escrita, da poesia, dos reis e da nobreça. Aqui começa o processo de diglossia na sociedade galega que chega, em forma de conflito linguístico, até hoje: o reparto de funções para cada uma das duas línguas, o galego como língua B para os usos familiares e informais; e o castelhano para os usos formais, escritos, e para a comunicação com os estamentos privilegiados da sociedade.

A partir do século XVIII começa numa parte da elite intelectual galega a reflexão e a preocupação pela situação da língua. Alguma das luzes da Europa da ilustração chega também à Galícia, e figuras como Frei Martín Sarmiento ou o Padre Feijóo reclamam o seu uso na escola ou na igreja. Interessante para o tema que nos ocupa é a reflexão que eles têm sobre a identidade galego-portuguesa. Para Feijóo, no seu Teatro Crítico Universal, ambas continuam sendo a mesma língua:

Disse por compreender todos os dialetos da Latina, porque ainda que estes vulgarmente se reputam ser não mais que três, o Espanhol, o Italiano e o Francês, o P. Kircher, autor desapaixonado, suma o Lusitano: em que, advirto, se deve incluir a Língua Galega, como em realidade indistinta da Portuguesa, por ser pouquíssimas as vozes em que discrepam, e a pronúncia das letras em tudo semelhante: e assim se entendem perfeitamente os indivíduos de ambas as Nações, sem nenhuma instrução precedente[1]. (FEIJÓO, 1726-1739)

Para Martín Sarmiento, a questão suscitará mais dúvidas, embora chegue a afirmar que “a língua portuguesa pura não é outra que a extensão da galega” ou compare a evolução para o sul do galego com o acontecido com o catalão em Valência.

Ao longo dos séculos XIX e XX a norma empregada maioritariamente no âmbito literário galego teve como base a ortografia do espanhol, que será a que, com a construção do galego legítimo a finais dos anos 70 e começos dos 80, se torne a norma ortográfica oficial da língua. Porém, a construção discursiva do galeguismo histórico, ainda empregando uma normativa diferente à do português (embora intelectuais como Eduardo Pondal, Johán Vicente Viqueira ou posteriormente Ernesto Guerra da Cal e Ricardo Carvalho Calero fizessem uma escolha de base etimologista ou reintegracionista), continuou sendo de aposta pelo valor internacional da língua, pelo aproveitamento de elementos do padrão do português na construção da norma culta e pelo intercâmbio cultural com o resto de países de fala portugalega. Não é este o espaço para analisarmos todas as mostras deste discurso, mas podemos destacar afirmações de pessoas célebres da cultura galega como Vicente Risco, “Agora, o galego e o português são duas formas dialetais do mesmo idioma” ou Antón Villar Ponte, “A nossa língua, que tem em todas as partes núcleos vivos, é uma espécie de soberba ponte com um pilar na América e outro na Europa” (Peres 2014). A ruptura com este discurso que apelava à unidade linguística galego-portuguesa e, pois, à função internacional do galego, só acontece com a construção do galego legítimo na democracia, que passamos a ver a continuação.

A construção discursiva do galeguismo histórico, ainda empregando uma normativa diferente à do português, continuou sendo de aposta pelo valor internacional da língua, pelo aproveitamento de elementos do padrão do português na construção da norma culta e pelo intercâmbio cultural com o resto de países de fala portugalega.

O galego legítimo

Para Bourdieu (1996) toda situação linguística se pode analisar em termos de mercado, em que o produtor (falante) coloca os seus produtos no mercado para obter um benefício determinado, simbólico (reconhecimento, prestígio) ou material (acesso a um emprego, publicações…). A escolha do falante é condicionada pelo seu habitus, pela sua formação social, pela sua disposição com determinados tipos de uso linguístico em função dos valores que essa pessoa tem internalizados socialmente. O habitus está condicionado pelas ideologias linguísticas, entendidas como o conjunto de crenças sobre as línguas compartilhadas socialmente. As ideologias que têm mais sucesso apresentam de jeito mais simples a sua visão do mundo como “natural”, “essencial”, “universal”, “ahistórica”, “de sentido comum”. Para que aconteçam estes processos de naturalização ou essencialização as ideologias precisam do filtro da linguagem, devem significar-se, transforma-se num discurso culturalmente aceitado na vida social (Thompson 1993).

Numa sociedade monolíngue o valor de mercado tem a ver com o conhecimento e uso da norma culta, quem não tem acesso a esse conhecimento pode ficar fora do mercado, funcionando, assim, como um elemento de exclusão de classe (habitualmente quem não consegue aceder ao conhecimento da norma culta é porque não tem recursos). Numa sociedade em que há duas línguas como a galega, historicamente a exclusão dava-se pelo não conhecimento do espanhol, língua legítima com um elevado valor no mercado. Na atualidade, com a oficialização do galego, os valores atribuídos no mercado linguístico são mais complexos e temos uma dupla possibilidade de exclusão: o espanhol legítimo frente ao galego legítimo, e o galego legítimo frente ao galego não legitimado. Assim, seguindo a Bourdieu, entendemos por língua legítima a língua que se torna oficial, padronizada na ortografia, normatizada nas gramáticas, ou dicionários, que são incorporados à competência legítima por meio da inculcação escolar.

O processo de elaboração do galego legítimo está estreitamente vinculado ao contexto histórico. No ano 1978 aprova-se a Constituição espanhola e, com ela, a criação da monarquia parlamentaria e o estado das autonomias após quarenta anos de ditadura franquista. A Galícia aprova seu Estatuto no ano 1981 que, nas suas páginas, estabelece, por primeira vez, após a tentativa do Estatuto de Autonomia galego da II República (1936), a oficialidade da língua galega. A transição política da ditadura à democracia, ao revés do que aconteceu em Portugal com a Revolução dos Cravos, partiu de um acordo político entre o franquismo e as forças da clandestinidade, denominado de ‘pacto da transição’, que possibilitou a aprovação a Lei de Amnistia (1977) e, assim, a não possibilidade de julgamento por crimes contra a humanidade dos dirigentes franquistas e, mesmo, a sua incorporação à vida política da democracia como se a sua participação ativa num regime ditatorial não tivesse acontecido.

Em qualquer caso, o galego incorpora-se nestes anos à vida pública, faz parte da administração, da justiça ou da escola. Para estes novos espaços, em que o galego não estava presente há séculos, se precisa de uma norma padrão, um registro escrito unificado para a língua ser ensinada nas escolas e usada pelo governo. Assim, duas vão ser as propostas para a construção do galego legítimo: as conhecidas como autonomista ou isolacionista e a reintegracionista ou lusista.

O problema da padronização mostra-se como um debate de identidades e de oportunidades em que cabem duas perguntas: é melhor para a sociedade da Galícia conformar uma língua legítima autônoma, independente, ou é melhor um galego como variedade linguística do grupo portugalego, fazendo parte de um espaço internacional de mais de 250 milhões de falantes?

A norma ortográfica de uma língua não responde simplesmente à escolha de qual grafema se deve usar para representar determinado fonema. Neste processo entram em jogo outros elementos como a indexicalidade ideológica da própria ortografia (Herrero 2013) como marca de identidade coletiva, assim o debate ortográfico mostra-se como um debate de ideologias e identidades. No caso da Galícia este debate é especialmente interessante por causa da situação do país como ponte entre dois universos com línguas com um elevado valor no mercado, o da hispanofonia e o da lusofonia. As galegas e galegos graças ao conhecimento do galego e do castelhano podemos comunicar-nos, desde o berço, com mais de 700 milhões de falantes dentro da sua diversidade.

O problema da padronização mostra-se assim como um debate de identidades e de oportunidades em que cabem duas perguntas: é melhor para a sociedade da Galícia conformar uma língua legítima autônoma, independente, ou é melhor um galego como   variedade linguística do grupo portugalego[2] (Bagno 2012), fazendo parte de um espaço internacional de mais de 250 milhões de falantes?

Além da importância que esta eleição tem na construção da identidade galega no contexto de criação do autogoverno galego dentro do novo marco estabelecido, esta escolha tem repercussões no processo glotopolítico de recuperação de espaços sociais e públicos para a língua, na sua adquisição de prestígio após ser língua B na Galícia desde o remate do período medieval.

A naturalização ideológica do galego como língua útil internacionalmente criaria um referente externo para as galegas e galegos fora da Espanha, e este elemento, com a construção do estado das autonomias e a transferência limitada de competências aos diferentes territórios não é uma proposta ideologicamente aceitável para o novo regime.

Nos anos 80 uma parte importante das elites franquistas ainda estavam situadas nas principais esferas do poder da democracia. A ideologia do franquismo, fortemente centralista e contrária à diversidade de línguas na Espanha, também não mudou de um dia para o outro. A legitimação no ano 1982 da proposta autonomista encaixa perfeitamente no novo marco estabelecido para as línguas no contexto espanhol. A naturalização ideológica do galego como língua útil internacionalmente poderia levar também progressivamente à naturalização da Galícia como nação, à valorização das suas potencialidades (Herrero 2013) e, aliás, criaria um referente externo para as galegas e galegos fora da Espanha, e este elemento, com a construção do estado das autonomias e a transferência limitada de competências aos diferentes territórios não é uma proposta ideologicamente aceitável para o novo regime. Tal e como podemos comprovar na política linguística implementada pelo governo espanhol nestes primeiros anos de democracia, o castelhano torna-se a única língua que todos os espanhóis têm o dever de conhecer, estabelecido no artigo 3.1. da Constituição do Estado (para o resto de línguas somente se tem o direito de as conhecer, nunca a obrigação). O espanhol oficializa-se em toda a Espanha, o galego, o catalão ou o euskera, só nos seus respectivos territórios, e o castelhano será também a única língua que todas as pessoas têm a obriga de estudar no sistema escolar em todo o território do Estado. Desta maneira, a opção de que o espanhol continue sendo a única língua internacional, extensa e útil, da Espanha, frente ao resto de línguas limitadas ao âmbito autonômico, encaixa nos interesses da construção do novo modelo de Estado após a ditadura de Franco.

As propostas autonomistas e reintegracionistas

Segundo Lagares (2013), com base em Woolard (2008), podemos identificar dois tipos de ideologias linguísticas presentes nas propostas de padronização para o galego: a ideologia da autenticidade, que estabelece a língua como essência, como memória, como identidade nacional da comunidade; e a ideologia do anonimato, que não relaciona a língua com os falantes concretos, mas com uma abstração, a língua como elemento que não pertence a ninguém, como elemento universal sem raiz territorial. A primeira das ideologias é a empregada habitualmente para a legitimação das línguas minorizadas, e serve, assim, como base das duas propostas.

Para as e os partidários da construção do galego autônomo, o galego, como língua própria da Galícia, deve construir-se baseando-se em dois elementos: em primeiro lugar na fala popular, para isso os novos pesquisadores do Instituto da Lingua Galega (1971), dependente da Universidade de Santiago de Compostela, fizeram uma importante pesquisa dialetológica entre os anos 1974 e 1977; em segundo lugar, considerara-se a tradição literária maioritária entre os séculos XIX e XX, que toma como base a ortografia do castelhano. O galego legítimo recolheria, deste jeito, a essência do povo, e se converteria na língua necessária para a construção nacional da Galícia.

Para as e os partidários da construção do galego reintegracionista ou lusista esta ideologia da autenticidade também está presente. Podemos diferenciar duas propostas neste espaço. A primeira procura reintegrar o galego na sua ortografia histórica e comum com o português, mas mantendo uma solução própria para determinados elementos do galego. Por exemplo, frente ao –ción do autonomismo, proporão a terminação –çom, recuperando o ç e o -m final da grafia etimológica. Nesta proposta a construção normativa do galego também tem um papel central para a identidade nacional do povo galego. No entanto, também se mostra a ideologia do anonimato na segunda das propostas lusistas, consistente na aceitação do padrão internacional do português de Portugal como padrão para a língua falada na Galícia. Neste caso, idealiza-se um modelo de língua padrão universal do espaço portugalego, sem vinculação específica com o território concreto em que esta língua se fale, sem atender, pois, às diferentes variedades da língua. Esta ideologia da língua comum concebe a língua como elemento de união entre povos.

No ano 1983 o governo galego decide aprovar por Decreto uma norma de uso oficial para a língua, decide legitimar uma das propostas ortográficas, que desde esse momento será a norma ensinada nas escolas nas aulas em galego, e única que vai receber ajudas institucionais. Quem não empregar essa língua legítima ficará excluído do sistema de ajudas, empregos públicos e prestígio resultante da recentemente criada Xunta da Galícia.

A proposta de norma escrita será encargada pelo governo da Galícia à Real Academia Galega e ao Instituto da Língua Galega, espaços onde era maioritário o sector autonomista, frente a amplos sectores do nacionalismo galego, onde, em diferentes graus, a proposta reintegracionista tinha mais apoios. A consequência é evidente, a norma do galego isolacionista torna-se língua legítima na Galícia desde o ano 1983.

A politica linguística e a situação atual do galego

Na maioria das vezes em que questões relacionadas à língua portuguesa entram no debate público na Galícia vinculam-se ao debate sobre a norma escrita da língua. Talvez, do nosso ponto de vista, seja mais interessante para a promoção de usos do galego na sociedade aproveitarmos outras oportunidades que o grupo portugalego nos pode oferecer em propostas de carácter glotopolítico.

A política linguística desenvolvida na Galícia nos últimos trinta anos não tem contribuído suficientemente à reversão do processo de substituição linguística, pois esta se caracterizou pela sua verticalidade (Subiela 2002), realizada desde o governo sem ter em conta os sectores mais ativos na sociedade civil na promoção do galego, e de baixa intensidade (Lorenzo 2005), sem uma planificação linguística elaborada e com medidas pouco eficazes para a consecução dos objetivos marcados na Lei de Normalização Linguística.

Este facto não deve chamar a nossa atenção, pois o presidente do governo da Galícia entre o ano 1990 e o ano 2005 foi Manuel Fraga Iribarne, ex ministro da ditadura de Franco desde o ano 1962. No seu cargo no franquismo chegaria a multar com 50.000 pesetas ao subdiretor do jornal La Voz de Galicia, Francisco Pillado Rivadulla, por publicar um artigo de Augusto Assia titulado “Sobre el idioma gallego” (1968) onde se criticava a política repressiva contra o idioma; proibiu a difusão do Sempre en Galiza, obra fundamental do nacionalismo galego, de Castelao; ou mandou preso seis meses e fez pagar uma importante multa a Alberto Míguez, responsável da censura do regime, por permitir a publicação de El pensamiento político de Castelao na editorial Ruedo Ibérico. Conhecendo estes antecedentes é óbvio que o novo presidente da Galícia não vai ter interesse em divulgar o galego ativamente. Claro que o contexto é outro e na democracia já não se pode matar diretamente, somente deixar morrer.

Sem dúvida a falta de iniciativas adequadas na promoção do galego para combater os preconceitos históricos e a repressão acontecida durante o franquismo, é uma das causas que justificam a situação atual do idioma, com o descenso importante no número de falantes. Segundo os dados publicados pelo Instituto Galego de Estatística em dezembro de 2014, correspondentes ao ano 2013, só um 25,1% das pessoas de entre 5 e 14 anos falam galego habitualmente. Se compararmos com os dados das pessoas de mais de 65, com um índice de uso da língua do 73,8%, podemos ver como, em duas gerações, a porcentagem de uso desceu em quase um 50%.

Para aumentar a motivação, na sociedade capitalista atual em que todo é quantificável, é importante o valor que as línguas têm no mercado. Para o galego aumentar o seu prestígio e o seu valor no mercado pode ter no espaço de variedades do portugalego uma oportunidade.

Para os falantes fazerem uma troca de língua na sua vida, devem cumprir-se três condições (Haugen 1966): terem espaço de uso novos para incorporar a língua; terem competência comunicativa para poder falá-la e terem a motivação suficiente para fazer a troca. O terceiro é o motivo fundamental. Para aumentar a motivação, na sociedade capitalista atual em que todo é quantificável, é importante o valor que as línguas têm no mercado. Para o galego aumentar o seu prestígio e o seu valor no mercado pode ter no espaço de variedades do portugalego uma oportunidade.

É importante não abandonar um discurso ecolinguista, que valorize a diversidade de línguas independentemente do seu número de falantes e o seu valor econômico, ou o próprio valor que a língua tem para a coesão social da comunidade. No entanto, a realidade da sociedade ocidental atual é evidente, ninguém estuda inglês por ser uma língua bonita esteticamente, e sim por ser uma língua que abre portas para encontrar um melhor emprego e melhorar as condições de vida.

Nesta perspetiva o espaço diverso do portugalego abre-se como uma oportunidade para criarmos novos referentes, superar a visão do galego como língua unicamente do interior na Galícia, e que a população galega consiga enxergar que, com pequenas variantes, a sua língua é também falada por Cristiano Ronaldo, Caetano Veloso, ou Fernanda Montenegro, conseguindo aumentar assim o seu prestígio. Nos últimos messes, falando com dois galegos emigrantes no Rio de Janeiro, eles afirmavam como conseguiram empregos de importância em duas importantes empresas internacionais no Brasil por causa de saber galego, pois era requerido o conhecimento do português para se candidatar a esse posto laboral. Eles demonstraram esse conhecimento através do galego. Se colocarmos o galego na sua perspectiva internacional, fugindo da associação do português ao debate normativo, talvez consigamos aumentar essa motivação que as pessoas precisam para incorporá-lo na sua vida diária.

O espaço diverso do portugalego abre-se como uma oportunidade para criarmos novos referentes, superar a visão do galego como língua unicamente do interior na Galícia, e que a população galega consiga enxergar que, com pequenas variantes, a sua língua é também falada por Cristiano Ronaldo, Caetano Veloso, ou Fernanda Montenegro.

Considerações finais

Para aproveitar as potencialidades do galego no âmbito internacional é fundamental que o governo da Galícia acredite também nestas possibilidades. No ano 2014 o parlamento galego aprovou, por unanimidade, a Lei Paz Andrade, que procura divulgar a diversidade do portugalego na Galícia. Em primeiro lugar através do ensino (até 2014 apenas 861 estudantes recebiam aulas de português como língua estrangeira), de uma maior presença cultural da literatura, teatro ou cinema (até hoje é quase impossível conseguir uma obra literária feita em português de Portugal, português brasileiro ou em variedades africanas da língua sem ser em tradução ao espanhol; e também não existem cinemas onde se possa assistir filmes nas variedades internacionais da língua) e através da mídia e dos canais de televisão de Portugal que ainda não se podem ver no país. Mesmo a internacionalização afeta ao mercado econômico, pois também se procura com esta lei uma maior facilidade para que empresas galegas exportem noutros países como Portugal, Brasil, Angola ou Moçambique, graças à facilidade na comunicação.

Parece que os primeiros passos já se estão dando, pois no último ano o número de estudantes de português na Galícia aumentou mais de um 50%. Aliás, nas últimas semanas, o atual presidente do governo galego, Núñez Feijóo, declarou que vai encetar o processo para a Galícia fazer parte da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Além do necessário apoio do governo, é também importante a colaboração desde os setores mais ativos da sociedade, independentemente da tendência normativa em que cada pessoa acreditar. Desde as principais instituições culturais deve-se contribuir à superação da identificação entre língua e norma, ou língua e ortografia que deixa fora das ajudas a setores muito ativos na promoção do galego que empregam outra norma diferente da de uso oficial (Lagares 2013). Neste sentido, é interessante uma das conclusões do VI Congresso de Escritoras-es da Asociación de Escritores en Lingua Galega (a maior associação de escritores/as da Galícia), realizado no mês de setembro de 2015, onde se estabelece o seguinte: “Reclamamos a necessária tolerância ortográfica, sem discriminação da lusografia e com maior democracia na convocatória de prémios”.

Deve-se contribuir à superação da identificação entre língua e norma, ou língua e ortografia que deixa fora das ajudas a setores muito ativos na promoção do galego que empregam outra norma diferente da de uso oficial.

O medo à divulgação da diversidade das culturas dos países de fala portugalega deve mudar para um maior aproveitamento do intercâmbio cultural com este espaço do que, por história mas sobretudo pelas oportunidades de futuro, devemos estar presentes. Desde os setores reintegracionistas, como parece que já se tem mostrado nos últimos anos, se está encaminhando o discurso para a proposta do espaço internacional da língua como uma vantagem cultural e econômica, superando o debate estritamente normativo. O nascimento da Editorial Através, que divulga livros nas diferentes normativas internacionais da língua, ou a elaboração de campanhas públicas que visibilizam as possibilidades que nascem da nossa presença neste espaço internacional devem ser muito bem-vindas.

REFERÊNCIAS

BAGGIONI, Daniel. Linguas e nacións na Europa. Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 2004.

BAGNO, Marcos. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola, 2012

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas. São Paulo: EDUSP, 1996.

HAUGEN, Einar. Language Conflict and Language Planning: The case of modern Norwegian. Cambridge: Harvard University Press, 1966.

HERRERO, Mário. Guera de grafias. Conflito de elites. Santiago de Compostela: Através Editora, 2011.

LAGARES, Xoán. “O galego e os limites imprecisos do espaço lusófono”. In: DA MOITA LOPES, Luiz P.. O português no século XXI. São Paulo: Parábola, 2013, p.339-360.

LORENZO, Anxo. “Planificación lingüística de baixa intensidade: o caso galego”. In Cadernos de Lingua. A Coruña: Real Academia Galega, n.27, 2005, p.39-59.

PERES, Tiago. Breve história do reintegracionismo. Santiago de Compostela: Através Editora, 2014.

SUBIELA, Xabier. “Política linguïstica en Galicia”. In VV.AA. A normalización lingüística a debate. Vigo: Xerais, p.83-130.

THOMPSON, John B. Ideología y cultura moderna. México: Universidad Autónoma Metropolitana, 1993.

[1]   Todas as citas serão traduzidas ao português brasileiro.

[2]   Embora Marcos Bagno defina o grupo portugalego como composto por diferentes línguas, por causa do debate sobre a norma culta no Brasil; para o caso galego, devido à situação de desprestígio da língua, talvez seja mais interessante o uso do termo variedade para cada um dos códigos falados dentro do grupo portugalego.

Guille Vidal: “Os topônimos galegos continuam a ser castelhanizados em muitos lugares ou contextos”

As atividades pós-greve do Programa de Estudos Galegos foram retomadas em Setembro de 2016 e foram (re)abertas com a palestra “Breve aproximação à antroponímia galega: século XVIII e atualidade”, ministrada pelo doutorando em Linguística pela Universidade de Santiago de Compostela, Guillermo Vidal. Guillermo tem graduação em Letras Galego também pela Universidade de Santiago de Compostela, possui mestrado em Professorado e Educação pela Universidade da Coruña, além atuou como professor nos Cursos de Verão de Língua e Literatura Galegas para estrangeiros no ano de 2015.

1) Como foi a sua experiência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde você deu a sua palestra, e na sua viagem ao Brasil?

Foi uma experiência muito bonita, gostei muito de fazer parte das atividades do PROEG e do recebimento das professoras; além disso, o público não era muito numeroso mas fiquei muito contente de seu interesse pela onomástica galega. E se a palestra foi linda, a viagem podem imaginar que também!

2) Você tem família brasileira, assim tinha já contato com a variedade linguística que falamos no Brasil, mas, como é falar em galego com normalidade no âmbito internacional?

Bom, encarei a viagem como uma oportunidade para falar e escrever na variedade brasileira. E além disso, achei que, infelizmente, o galego da Galiza não é muito conhecido nem entendido no Brasil, coisa que não acontece na Galiza, onde a maior parte dos galego-falantes entendem a variedade brasileira. Seria lindo ver algum dia o galego da Galiza sendo compreendido no Brasil, mas isso acho que também dependerá muito de uma educação linguística mais adequada e menos sujeita à hegemonia da norma padrão portuguesa e sua visão histórica da língua. O fato de muitas pessoas não conhecerem a Galiza nem sua língua quando se faz referência à Espanha é um síntoma muito significativo de essa educação, sob o meu ponto de vista, parcial. Mas, por sorte, o alunado da UERJ sim entendia galego e foi um prazer falar ele com naturalidade em uma universidade do Brasil.

3) Qual é a relevância de uma pesquisa na área de onomástica para a situação atual da língua galega?

Em termos sociolinguísticos, se é conhecido o fato de a língua no seu conjunto não ter ganhado ainda a ‘normalização’ e o prestígio necessário para se desenvolver como uma língua normal, não doente, na área específica da onomástica a situação não é diferente. O presidente do governo espanhol tem sobrenome galego castelhanizado, o presidente da Galiza também, e os topônimos galegos continuam a ser castelhanizados em muitos lugares ou contextos; por exemplo, na Wikipédia em espanhol. Até a Academia da língua espanhola recomenda o uso de essas formas. São só alguns exemplos. Gosto de pensar que pesquisar a onomástica galega desde o ponto de vista histórico ajude, embora seja minimamente, a essa panorámica atual ir mudando, a não ficarmos com vergonha de restaurar a forma galega de nosso sobrenome, ou a não permitirmos que chamem O Valadouro de “Valle de Oro” (por exemplo), do mesmo jeito que eles não chamam a cidade carioca de “Río de Enero”.

4) Podemos traçar algum paralelo entre a política envolvendo a língua galega e os resultados encontrados na comparação entre o século XVIII e a atualidade da antroponímia galega?

Acho que sim. No século XVIII a Galiza e sua língua ficavam ativamente marginadas pela Coroa de Castela pelo processo de criação do estado-nação espanhol. Esse processo nacionalista envolvia reprimir todas as línguas que não eram faladas no centro da península. Por isso os antropônimos no s. XVIII aparecem castelhanizados, porque não era “formal” escrever o nome das pessoas em galego em um documento oficial. Hoje em dia o galego segue sofrendo um problema de prestígio e normalidade, a meu modo de ver, pelas políticas que envolvem a língua, as do estado espanhol mas também as do governo galego. E isso tem consequências também na atroponímia. Se uma língua não tem prestígio as pessoas não põem a seus filhos nomes em essa língua, nem recuperam seus sobrenomes castelhanizados para ela.

5) Existe alguma conexão entre os sobrenomes estudados nos seus trabalhos e os sobrenomes brasileiros? Qual?

Em verdade, a conexão existe mas não é muito grande. A área que eu estudo é pequena e rural. Muitos sobrenomes procedem de topônimos locais que não tem no Brasil ou em Portugal e possivelmente alguns chegaram no Brasil através de emigrados, mas por enquanto eu não conheci nenhum, e em verdade tampouco pesquisei isso em profundidade além do tempo que esteve aí. Mas sim tem muito paralelo com os sobrenomes patronímicos, como também tem com o espanhol. Os nossos Pérez, Fernández, Rodríguez têm seus equivalentes no Brasil: Pires, Fernandes, Rodrigues…

6) Saindo um pouco da antroponímia e entrando em outra subdivisão da onomástica… Conhece-se a polêmica instaurada na área de topónimos na Galícia os quais são frequentemente castelhanizados. O que essa castelhanização representa para a cultura galega? E o que a Lei para a salvaguarda do Patrimonio Cultural Inmaterial tem feito nessas situações?

Em minha opinião, e prefiro ser honesto, isso representa uma agressão contra nossa cultura só própria de nações colonizadas. Como diz anteriormente, as elites que impulsam o modelo de língua ou a Academia espanhola não vão no Rio de Janeiro e o traduzem por “Río de Enero” (nem sequer por “Río de Janero”), ou também não vão no Mont Blanc da França e o traduzem por “Monte Blanco”. Quando, por enquanto, elas traduzem por exemplo Viveiro por “Vivero”, só é possível deduzir que o galego não é respeitado como qualquer outra língua alheia a seus limites administrativos. Quanto à lei, acho que é de muito recente aprovação e ainda não pude comprovar se tem reagido em situações assim. Mas sou escéptico com ela, não nego que pode ser uma ajuda e servir como proteção em algumas coisas, mas já houve outras leis com intenções lindas com a língua que à hora da verdade demonstraram não se cumprir ou não funcionar quando se procuram mecanismos para fugir de seu espaço de atuação.

7) Na sua experiência como professor de práticas no Curso de Verão de Língua e Literatura Galegas para estrangeiros, o que esse curso representa para os galegos e galegas e a situação da língua?

Infelizmente, acho que ele não é muito conhecido na Galiza, só em alguns espaços. Mas para quem é conhecido e para quem fica conhecendo através dos noticiários ou dos próprios estudantes acho que representa um pulo importante de dignidade e de autoestima muito necessário para melhorar o prestígio da língua e sua situação sociolinguística. As pessoas ficam perguntando para o alunado por que que eles e elas, sendo estrangeiros, estudam galego. Diante de essa situação, olhem que necessário são iniciativas como essa.

8) Com respeito à situação da língua na Galícia, qual é a avaliação que poderia fazer da sua vitalidade atual?

Negativa. Os dados recentes indicam que o galego já não é a língua maioritária da população galega por primeira vez na sua história. O galego só é falado por uma porcentagem muito pequena e preocupante das crianças na atualidade. Lembro, quando eu era criança, que na minha cidadezinha apenas tinha crianças que falassem em espanhol como língua nativa. Agora, olho as crianças e são minoria as que falam em galego. Outro dado muito significativo é que nos últimos anos o número de publicações em galego só desceu.

9) Que acha que tem errado na política linguística galega e que políticas e discursos acredita que são necessários para normalizar a língua?

Principalmente, o decreto atual que regula a formação da primária e da secundária e que, por exemplo, interdita a instrução de ciências empíricas (as mais prestigiadas socialmente) em galego em alguns anos. Para a normalização plena e real, e embora semelhar radical, acho que só tem uma solução, e é a mesma que precisa qualquer colectivo ou bem desfavorecido ou marginado do mundo: uma política (linguística) que vire 180º a situação atual e favoreça a língua minorizada por cima da prestigiada e normalizada. Em contra do que muitos acreditam, mesmo se o espanhol desaparecesse completamente da formação (e nenhum profissional da sociolinguística galega pede isso) ele não correria perigo nenhum nem desapareceria da Galiza.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

Do Rio: o melhor, as ruas arvoradas e os postinhos de venda de frutas tropicais; o pior, as favelas e o trânsito dôido!

Do Brasil: o melhor, as pessoas e as serras; o pior, o golpe de estado… e a cerveja!

Um lugar no Rio de Janeiro

Largo de Machado

Uma palavra do galego e uma do galego brasileiro

Do galego: garabullo (com gheada)

Do galego brasileiro: bagunça.

Um desejo para o futuro

Viver por um tempo no Brasil

 

 

 

 

 

As relações entre o galego e o português do Brasil. Curso de extensão na UERJ!

A partir da próxima semana o professor-leitor galego da Universidade de Viçosa, Diego Bernal, dará o curso de extensão “As relações entre o galego e o português brasileiro” na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O curso acontecerá nos dias 7, 8 e 9 de dezembro de 14:00 a 16:00 horas no Mini-auditório da Pós-Graduação em Letras.

As inscrições podem se realizar na Sala do Programa de Estudos Galegos ou através do email proeg.rj@gmail.com

Diego Bernal foi entre os anos 2011 e 2013 professor-leitor de língua, literatura e cultura galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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III Semana do Audiovisual Galego no Rio de Janeiro

A semana próxima terá lugar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro a III Semana do Audiovisual Galego. As sessões acontecerão na segunda-feira dia 21 e a quarta-feira dia 23 no Salão Nobre. Entre as atividades, os e as assistentes poderão presenciar diferentes palestras e mesas redondas , assistir curtametragens, videoclips musicais, e também leitura de poemas.

Podem ver o programa inteiro de atividades no seguinte cartaz:

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Murilo Rubião e Méndez Ferrín. Tendências da narrativa curta, percursos estéticos aproximativos

Flávio Garcia

Professor de literatura  na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

I. A produção literária de Murilo Rubião, iniciada em 1947, data da publicação de seu primeiro livro, O ex-mágico, consagrou-o como contista, filiado, equivocadamente, às estratégias estéticas do Fantástico e o pôs em destaque como sendo um dos raros escritores brasileiros que se teriam aventurado por tal gênero da ficção.

A produção literária de Méndez Ferrín, iniciada em 1957 com a publicação de seu livro de poemas, Voce na néboa, ainda que bastante diversificada, com incursões pela poesia, narrativa curta – Percival e outras historias, seu primeiro livro de narrativas, viria a ser publicado no ano seguinte, 1958 –, novela de longa extensão, dramaturgia e pelo romance, tem predominância quantitativa e qualitativa na narrativa curta, vista, em grande parte, também equivocadamente, como representante do gênero Fantástico, conforme querem ainda hoje certas correntes da tradição crítica galega.

As cidades e seu entorno; o mar e sua paisagem emoldurada; as selvas, os bosques e seus habitantes; as ruas, suas casas, seu comércio e sua gente; os bares, as tabernas e seus freqüentadores; as estradas, os caminhos e seus percursos são objeto da narrativa desses dois escritores. Murilo Rubião e Méndez Ferrín, narradores do mundo contemporâneo, convivem com e fazem conviver entre si os elementos aparentemente inexplicáveis e, por vezes antagônicos, do mundo pós-moderno, esfacelado e esfacelador.

Na maioria das vezes, as narrativas de Murilo Rubião e Méndez Ferrín desconstroem o mundo exterior como ele se apresenta, instituído pelo quotidiano apaziguador, e reapresentam-no relativizado e, às vezes, negado por si mesmo.   As expectativas veiculadas pelas vozes da narrativa, coincidentes, no geral, com as expectativas do senso comum, enraizadas na experiência individual e coletiva dos leitores virtuais, nem sempre se concretizam no plano da representação textual. O universo diegético acaba configurando uma realidade outra ou, até mesmo, uma irrealidade, em contraposição às expectativas expressas no seio da narrativa e às experiências vivenciadas pelos leitores.

Desse modo, Murilo Rubião e Méndez Ferrín se alinham com as tendências estéticas da pós-modernidade, mantendo-se na esteira dos gêneros de representação não-referencial da realidade exterior ao texto, com origem no Maravilhoso e passagem pelo Fantástico e, mais proximamente, pelo Realismo-Maravilhoso. Méndez Ferrín ainda excursiona pelas estratégias narratológicas do Realismo-Maravilhoso, sem, contudo e em hipótese alguma, filiar-se à estética do Fantástico. Murilo Rubião, nem isso.

Os percursos da produção narrativa de Murilo Rubião e Méndez Ferrín podem-se aproximar tanto pelas temáticas abordadas quanto pelos tratamentos estéticos empregados. Vem sendo uma constante na crítica literária, por exemplo, sugerir influências kafkianas ou identificar a presença de um sub-estrato mitológico na obra desses dois escritores.

O próprio Murilo Rubião, a respeito do conto “Teleco, o coelhinho”, admitindo a influência da mitologia, mas negando a de Kafka, assim se expressou:

foi fruto de leituras demoradas da mitologia e do mito de Proteu que, por detestar predizer o futuro, transformava-se em animais.   A metamorfose, de Kafka, é exatamente a mesma coisa. Então, nem Kafka, nem muito menos eu inventamos a metamorfose. Eu só fui ler o Kafka completo quando trabalhei na embaixada brasileira na Espanha, entre 1956 e 60. (­Apud Andrade 1999: 276)

Em Méndez Ferrín, poder-se-iam apontar aspectos da influência kafkiana em “Grieih” ou “Mantis religiosa” e a presença da mitologia em “Percival”, “Lorelai”, “Philoctetes”, “Amor de Artur”, “Fría Hortensia”, “Sibila”, Retorno a Tagen Ata ou Arnoia, Arnoia.

II. A filiação de Murilo Rubião ou Méndez Ferrín ao gênero Fantástico, ainda que largamente difundida pelas tradições críticas brasileira e galega, não tem fundamento. Para fugir a ou driblar o cientificismo necessário aos estudos literários e, assim, simplificar a abordagem do texto, apropriando-se, indevidamente, de instrumentais impróprios, certa parcela de estudiosos tenta construir um falso arcabouço teórico.

É comum esses autores aludirem ao “Fantástico contemporâneo”, ao “Neo-Fantástico”, ao “Fantástico em sentido lato”, ao “Fantástico no plural”, aos “Fantásticos”. Tal tendência analítica abre mão do rigor metodológico necessário à ciência literária e prescinde da conceituação básica e já clássica de gênero.

Cada gênero corresponde a um conjunto mais ou menos uniforme e delimitável de estratégias de elaboração que lhe dão singularidade. A construção do narrador, do narratário, do destinatário textual, do leitor virtual são elementos importantes na estruturação de um gênero literário. O desenvolvimento do enredo, da trama e a evolução da narrativa também influem fundamentalmente. A correlação entre o plano diegético e o plano exterior à obra, entre o real textual e a realidade exterior, correspondendo ao imaginário representado no texto, também tem relevância.

Pensar, por exemplo, a tragédia ática enquanto gênero implica identificar a presença do herói clássico, construído enquanto ser superior e admirável, vivendo sob a influência de uma maldição, em sentido lato, e dividido entre a justiça humana e a divina; implica, ainda, a presença do coro, porta-voz da consciência coletiva. A configuração do gênero obriga a representação mimética da realidade exterior no universo dramático, apresentando um herói dividido entre duas atitudes irreconciliáveis, uma comprometida com a justiça dos homens; outra, com a dos Deuses. É necessário, também, que o espectador seja levado à auto-identificação com o herói, modelo de virtude desejado, mas inatingível, sendo assim conduzido, obrigatoriamente, à catarse final.

Pensar o Fantástico obriga a que se repense a seqüência em que ele se situa, correlacionando-o com o Maravilhoso, com o Estranho e com Realismo-Maravilhoso. A verdade, apreendida na realidade exterior, é problematizada de uma maneira diversa no universo textual de cada um desses gêneros, correspondendo a uma maneira distinta de representar a imagem que o homem tem ou constrói de si e do mundo ao seu redor.

Em A canção de Rolando, o herói, com sua espada durendana, mata, sozinho, de um só golpe, setecentos inimigos. Último sobrevivente, mortalmente ferido e definhando, Rolando ainda encontra forças para, cumprindo um ritual cavalheiresco, cravar sua espada no chão em forma de cruz, tirar as luvas e oferecê-las ao Senhor em gesto de vassalagem.   Finalmente, toca o olifonte tão forte que, antes de lhe romperem as têmporas e cair morto, o alto som emitido por seu sopro ultrapassa os Pirineus e encontra eco nas tropas de Carlos Magno, que vem tardiamente em seu socorro.

A estratégia narrativa adotada não deixa margens para que o leitor questione a verdade representada no universo textual. O narrado é tido como verdade absoluta desde o nível da enunciação. Durendana é apresentada referencialmente como um instrumento bélico de metal cortante, sem qualquer outra conotação para além de espada, ressaltando-se seus poderes, e, como tal, é acolhida pelo leitor sem hesitação. Rolando é o cavaleiro perfeito, dotado de valor e força, que é capaz de atos para além da normalidade própria à realidade exterior à narrativa, sem, contudo, estar em outro universo que não o humano. Rolando é, em sentido pleno, um homem medieval.

O leitor dessa epopéia não se espanta diante dos poderes maravilhosos de durendana nem da força e perseverança além do normal que Rolando tem. Ele aceita, pacificamente, esses aspectos dissonantes da sua experiência vivenciada, mas que fazem parte de seu imaginário. O leitor também não encontra no texto outros significados diferentes daquele que apreende na sua estrutura superficial. A narrativa não embute intenções ou estratégias desviantes que estimulem, favoreçam ou obriguem outras leituras. Ela é exatamente aquilo que se apresenta, e a verdade nela representada é aceita sem qualquer problematização, não inquietando nem o narrador, nem os personagens e, muito menos, o leitor.

Em “O Horla”, de Guy de Maupassant, o narrador-personagem relata, aos demais personagens, sua versão acerca de certos fatos com ele ocorridos, em sua própria opinião considerados estranhos, a fim de provar sua sanidade frente a uma junta médica, uma vez que estava internado suspeito de estar louco. Ele questiona, testando a lógica racional, quem teria bebido a água e o leite deixados à noite em seus aposentos trancados, se ele mesmo bebera, driblando seus próprios ardis, ou se algum ser diferente, habitante de outro universo que não o nosso quotidiano apreensível. E seus vizinhos não estariam sendo vítimas, como ele, de uma intervenção do extraordinário, do sobrenatural? Estaria louco? Dúvidas que ele assume, passa a seus interlocutores e repassa aos leitores virtuais.

A estratégia narrativa adotada por Maupassant incorpora elementos textuais que favorecem e estimulam o questionamento, pondo sob suspeição a versão dada aos fatos. Veiculada em primeira pessoa, a narrativa está comprometida pelo discurso subjetivo do narrador-personagem. O enunciado apresenta-se marcado por sucessivas interrogações, questionando a percepção, a compreensão e a aceitação dos eventos ocorridos, o que leva o destinatário textual a também questionar. Em efeito cascata, a dúvida atinge os leitores. O narrador-personagem questiona a explicação que ele próprio dá para os acontecimentos, e a elucidação proposta por ele tende para a aceitação do estranho, do sobrenatural intervindo na realidade vivenciada. A verdade lógica é posta em cheque.

Ainda que estranhas, inexplicáveis, inverossímeis, fantásticas, medonhas, alucinantes, sobrenaturais, ilusórias… as explicações alheias ao mundo apreensível e referenciável da realidade exterior ao texto parecem dar conta dos eventos ocorridos, fragilizando assim as explicações de ordem lógica, que não têm sustentação no nível narrativo. Assim, a razão fica prisioneira do embate entre o racional e o irracional. A permanência, até o final da narrativa, da dúvida entre qual verdade deve ser aceita como a que dê conta da elucidação dos sentidos textuais é a marca de existência do Fantástico enquanto gênero. A elucidação, tenda para onde tender, põe fim ao gênero, pois como bem observou Todorov, deve-se considerar o fantástico precisamente como um gênero sempre evanescente (Todorov 1992: 48).

Diferentemente do que acontece no Maravilhoso, onde a verdade não é problematizada e os fatos aparentemente estranhos não causam qualquer estranhamento nos personagens, no narrador e, conseqüentemente, no leitor; no Fantástico, é exatamente a problematização insolúvel da verdade, perpetuando um embate entre o racional e o sobrenatural, que dá vida ao gênero. Solucionar a dúvida apresentada no texto, findar o embate, é afastá-lo do gênero.

Em “A queda da casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, o narrador-personagem conta sua estranha experiência. Passava dias na casa de um amigo quando a irmã deste, bastante doente, morre. Ao invés de enterrá-la, os dois preferem, estranhamente, guardar seu corpo em um compartimento embaixo da casa. Passam-se dias e, em uma noite macabra, de forte tempestade, enquanto o narrador-personagem lê para o amigo uma história de cavalaria, ouvem-se ruídos que parecem soar como eco do próprio texto que está sendo lido. Repentinamente, correlacionado os sons ouvidos, sem explicações prévias, em um impulso inexplicado, o dono da casa irrompe afirmando que eles enterraram sua irmã viva. No exato instante, a porta do cômodo se abre, e a moça aparece. Os irmãos se abraçam em caem ao chão mortos. O narrador-personagem foge e, ao sair, presencia o desabamento da casa com os dois defuntos dentro.

A própria narrativa elucida os acontecimentos aparentemente estranhos, dando-lhes explicações lógicas, baseadas na realidade exterior à obra e sustentadas em experiências vivenciáveis por qualquer leitor. A moça sofria de um mal semelhante à catalepsia, tendo crises freqüentes. Naquele momento, teria passado por uma dessas crises, com duração um tanto prolongada, além do convencional e costumeiro. A casa, velha e maltratada, estava com rachaduras quase imperceptíveis que vinham desde seu ponto mais alto até os alicerces. Por alguma razão não apresentada no texto, coincidentemente, a casa ruiu no exato instante em que o narrador-personagem fugia, após a morte repentina do amigo, assustado com descoberta de que sua irmã não havia morrido anteriormente.

A estratégia narrativa adotada por Poe não estimula as dúvidas ao longo do texto nem perpetua a indecisão final sobre a aceitação ou não de intervenções sobrenaturais nas experiências vividas pelos personagens. Um rápido questionamento lampeja no final da história, logo resolvido, atribuindo ao estranho a coincidência de fatores intervenientes, nem sempre perceptíveis em um primeiro momento. Assim, nada é maravilhoso ou fantástico, apenas estranho, porém explicável. Aqui reside a principal distinção entre o Fantástico e o Estranho.

Todorov assim resume a correlação entre o Fantástico, o Estranho e o Maravilhoso:

O fantástico (…) dura apenas o tempo de uma hesitação: hesitação comum ao leitor e à personagem, que devem decidir se o que percebem depende ou não da “realidade”, tal qual existe na opinião comum. No fim da história, o leitor, quando não a personagem, toma contudo uma decisão, opta por uma ou outra solução, saindo desse modo do fantástico. Se ele decide que as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fenômenos descritos, dizemos que a obra se liga a um outro gênero: o estranho. Se, ao contrário, decide que se devem admitir novas leis da natureza, pelas quais o fenômeno pode ser explicado, entramos no gênero do maravilhoso. (Todorov 1992: 47-48)

Em “Do Deus memória e notícia”, de Mário de Carvalho, o narrador-personagem conta a história de uma cidade, Ghard, depois Ghard-a-Velha e Ghard-a-Nova, e suas relações com um Deus. Nitidamente a narrativa refaz percursos autorizados pela tradição historiográfica, tecendo um diálogo entre situações e tempos distintos. A memória de Ghard pode ser a memória de qualquer cidade portuguesa e, por metonímia, de Portugal. O Deus pode ser o católico-cristão.

O narrador informa dos povos que sucessivamente chegaram à região e como foram se sucedendo na ocupação e colonização. Fala das implicações que esse percurso causou na produção, no comércio e nos serviços. Conta das religiões e rituais que o povo adotou. Enfim, dá conta de um Deus que chegou aprazivelmente, instalou-se e foi adorado, e de como se tornou mal e odiado, até ser esquecido e banido.

Fatos sobrenaturais ou fantásticos povoam a narrativa, sempre explicados como maravilha do Deus, tanto em seu aspecto positivo como negativo. A ocorrência dos fatos, sua veracidade, não é questionada, senão que aceita pacificamente. Contudo, a história contada, com base na tradição autorizada, representa-se imersa no mundo maravilhoso, causando uma estranheza que leva a repensar a verdade histórica e suas implicações.

Desse modo, a verdade deixa de ser uma, deixa de estar prisioneira da razão lógica, deixa de ser explicada pelas coincidências estranhas, para aparecer pluralizada, permitindo leituras múltiplas de um mesmo fato. A verdade não é mais aceita como tal, não fica prisioneira da razão, nem precisa de soluções naturais que lhe explicam o caráter estranho. A verdade é muitas. A história narrada permite entreler variadas versões, todas verossímeis e possíveis, configurando um leque de interpretações para um mesmo fato.

A estratégia narrativa adotada por Mário de Carvalho não nega a verdade histórica de que se serve nem põe os eventos estranhos sob dúvida. A narrativa desentroniza a verdade histórica sob o manto do sobrenatural. Aquela e essas verdades são verdadeiras. Trata-se, agora, do Realismo-Maravilhoso, que se nutre da realidade referencial exterior, travestindo-a de maravilhoso e fazendo com que sua leitura seja aquela primeira geradora e as muitas outras geradas no universo textual.

O Realismo-Maravilhoso é, pois, a união de elementos aparentemente díspares – do real (realia) e do maravilhoso (mirabilia) – configurando uma nova realidade, uma nova maneira de se ver o real, um como que “ver através”. No Realismo-Maravilhoso, o prodígio não substitui o real; ao contrário, o verossímil romanesco “legitima” o discurso “como sobrenatural”, e, reciprocamente, a mirabilia é lida como naturalia, e esta como mirabilia. Em síntese, recorrendo às palavras de Irlemar Chiampi, pode-se assim definir a função histórica e social do gênero:

(…) o Realismo-Maravilhoso propõe um “reconhecimento inquientante”, pois o papel da mitologia, das crenças religiosas, da magia e tradições populares consiste em trazer de volta o “Heimliche”, o familiar coletivo, oculto e dissimulado pela repressão da racionalidade. Neste sentido, supera a estrita função estético-lúdica que a leitura individualizante da ficção fantástica privilegia. (…) o Realismo-Maravilhoso visa tocar a sensibilidade do leitor como ser da coletividade, como membro de uma (desejável) comunidade sem valores unitários e hierarquizados. O efeito de encantamento restitui a função comunitária da leitura, ampliando a esfera de contato social e os horizontes culturais do leitor.

A capacidade do Realismo-Maravilhoso de dizer a nossa atualidade pode ser medida por esse projeto de comunhão social e cultural, em que o racional e o irracional são recolocados igualitariamente (Chiampi 1980: 69).

O discurso realista-maravilhoso constrói um novo referente, para que se possa reconstruir a história deixada de lado ou encoberta. Permite recuperar marcas perdidas ou esquecidas.

É lícito afirmar que a forma como cada um desses gêneros trata a verdade apreendida na realidade referencial exterior ao texto é o que mais os difere entre si, fazendo-os distintos e singulares, ainda que contíguos e semelhantes. São representações diversas do imaginário humano, correspondendo a diferentes momentos da sociedade e da cultura.

III.Méndez Ferrín incursionou pelo Realismo-Maravilhoso, sendo “Fría Hotensia” um bom exemplo dessa incursão. A história que Fría narra a seus ouvintes se refere a um tempo mítico-histórico, quando os celtas ainda viviam entre a Península Ibérica e a Bretanha, e tem fundamento na tradição mitológica bretã. Mas, para além de uma primeira leitura ingênua, percebe-se que os topônimos utilizados pelo autor apontam para a história da Galicia, tanto na sua relação com o restante da Espanha quanto nas suas correlações internas, entre as forças nacionalistas e as forças estadistas. Tagen Ata é uma alegoria completa da Galicia; Nosa Terra, uma alegoria da região marginal ao rio Arnoia, uma parcela da terra galega.

Assim, ao contar a história da ocupação da Península Ibérica pelos povos da Bretanha e se referir ao celticismo presente na tradição mítica galega, Méndez Ferrín está, na verdade, falando das disputas vividas pelo galeguismo com o poder central espanhol e com as forças a ele contrárias no seu próprio território nacional. Fría narra duas histórias, que devem ser lidas em diálogo, perfazendo tantas outras. A verdade, como aparece contada na tradição, não precisa ser única. Aliás, não o é, aparecendo múltipla e diversa em Méndez Ferrín.

Méndez Ferrín faz do seu texto primeiro – Fría Hortensia – uma moldura para um texto segundo – o mito celta. O diálogo entre os dois planos de ação, entre as duas enunciações – uma do narrador autodiegético e outra de Fría – gera um terceiro texto: o da nova visão da história. Valendo-se do mito celta – a tradição vê os galegos como descendentes diretos da civilização celta na Península, herdeiros da Deusa-Nai – Méndez Ferrín tematiza a problemática interna da Galicia – as oposições e cisões no seio do movimento nacionalista galego -, as tensões entre a Galicia e Castela – a opressão centralizadora do governo madrilenho, que sufoca a nação galega – e, ao final, permite que se veja uma crítica a fé cristã, como possível geradora de um novo Enmek Tofen, podendo voltar para põe em risco tanto os ideários nacionalistas dentro da Galicia como as pretensões da Galicia frente a Castela. Isso está na memória histórica. Com esse recurso, Méndez Ferrín iluminou traços despercebidos da identidade galega, procurando explicar sua existência atual.

Arnóia, Arnóia e Retorno a Tagen Ata também são exemplos da incursão de Méndez Ferrín pelo Realismo-Maravilhoso, mas suas narrativas curtas, na maioria, não se filiam ao Realismo-Maravilhoso, havendo outras manifestações estéticas distintas. Pelo percurso estético adotado, algumas narrativas ferrinianas permitem comparação com parte das narrativas de Murilo Rubião, alinhando-os em outro gênero, próprio às tendências da Pós-Modernidade.

  1. Conforme destacou Fredric Jameson,

Os últimos anos têm sido marcados por um milenarismo invertido segundo o qual os prognósticos, catastróficos ou redencionistas, a respeito do futuro foram substituídos por decretos sobre o fim disto ou daquilo (o fim da ideologia, da arte, ou das classes sociais; a crise do leninismo, da social-democracia, ou do Estado do bem-estar etc.); em conjunto, é possível que tudo isso configure o que se denomina, cada vez mais freqüentemente, pós-modernismo. O argumento em favor de sua existência apóia-se na hipótese de uma questão radical, ou coupure, cujas origens geralmente remontam ao fim dos anos 50 ou começo dos anos 60. (Jameson 2002: 27)

Nas observações preliminares de Jameson tem-se uma datação provável para as origens do pós-modernismo, coincidindo com o início da produção literária tanto de Murilo Rubião quanto de Méndez Ferrín. Vê-se, nelas, ainda, que a negação é uma tendência do movimento, decretando “o fim disto ou daquilo”. Ao decretar o fim de tudo, decreta também o fim da verdade, negando sua existência.

Adiante, Jameson aponta que

Os pós-modernismos têm revelado um enorme fascínio justamente por essa paisagem “degradada” do brega e do kitsch, dos seriados de TV e da cultura dos Reader’s Digest, dos anúncios e dos motéis, dos late shows e dos filmes B hollywoodianos, da assim chamada paraliteratura – com seus bolsilivros de aeroporto e suas subcategorias do romanesco e do gótico, da biografia popular, das histórias de mistério e assassinatos, ficção científica e romances de fantasia: todos esses materiais não são mais apenas “citados”, como o poderiam fazer um Joyce ou um Mahler, mas são incorporados à sua própria substância. (Jameson 2002: 28)

A referência aos pós-modernismos no plural aponta para a multifacetação do movimento, podendo abarcar em seu bojo diferentes manifestações, que se ligam por aspectos comuns mais gerais, como foi, por exemplo, nos modernismos mundo à fora. Jameson também dá conta da assimilação, pelo movimento, de tendências estéticas ligadas às categorias gerais da representação não referencial da realidade exterior ao texto, como tende a ser o caso das histórias de mistério, da ficção científica, dos romances de fantasia, do gótico.

Em “O ex-mágico da Taberna Minhota”, de Murilo Rubião, o narrador-personagem se apresenta ingressando na vida in media res:

Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

Um dia dei com meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. (Rubião 1999: 7)

Seu surgimento, sem fecundação, gestação, nascimento, história pregressa, configura o primeiro aspecto sobrenatural do texto, que não é questionado no nível textual, sendo aceito perfeitamente como verdade. O ex-mágico era uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo (Rubião 1999: 7).

Vida à fora, sem querer, distraído, o ex-mágico vai cumprindo o ofício não escolhido:

Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros. (Rubião 1999: 9)

A impossibilidade de decidir sobre suas ações, não conseguindo controlar seus dotes mágicos, que se manifestam a despeito de sua vontade, representa um segundo aspecto sobrenatural no texto. O ex-mágico, em suas próprias palavras, vivia uma situação cruciante e estava enfastiado do ofício. Mas nada podia fazer, e concluiu que somente a morte poria termo ao seu desconsolo.

O narrador-personagem tentou matar-se de todo jeito. Criou leões que o comecem, mas os leões não lhe devoraram e, por fim, imploraram para que o ex-mágico os fizesse desaparecer: – Este mundo é tremendamente tedioso (Rubião 1999: 10). Jogou-se de um ponto alto da serra, mas, ao cair no ar, viu-se amparado por um pára-quedas (Rubião 1999: 11). Levou uma arma ao ouvido, mas, ao puxar o gatilho, não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis (Rubião 1999: 11).   O ex-mágico não tinha controle sobre suas vontades, sobre seus atos. Sua existência era uma constante negativa.

A verdade do que se espera, representada como expectativa, é negada durante todo o texto, e nada lhe é posto no lugar, senão que seu contrário, como se pode concluir pelo desabafo do ex-mágico: Rolei até o chão soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência. (Rubião 1999: 11)

Optando por um lento suicídio metafórico, ao empregar-se numa Secretaria de Estado e transformar-se em funcionário público – Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos (Rubião 1999:11) –, o ex-mágico viu, novamente, negarem-se suas esperanças: Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo. (Rubião 1999: 12)

Insatisfeito com sua existência, o narrador-personagem sofria:

O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me a revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida. (Rubião 1999: 12)

O ócio, por ele apontado, representação da ausência de ter o que fazer, corresponde à negativa de suas intenções.

Desocupado, ele se apaixona por uma colega de Secretaria, e isso também acaba por afligi-lo: Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental! (Rubião 1999: 12) Tudo nele e para ele sob o signo da negativa, da impossibilidade.

Ameaçado de demissão e sem a correspondência da amada, desespera-se:

1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de se demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.) (Rubião 1999: 12)

Decide, então, recorrer aos seus antigos dotes de mágico. Vai ao chefe, questiona sua demissão alegando ter estabilidade por ter mais de dez anos de serviço e tenta sacar dos bolsos da calça um papel que comprove sua alegação: Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovariam a lisura do meu procedimento. (Rubião 1999:13).

Mais uma vez a negativa se lhe interpôs no caminho: Estupefato, deles [dos bolsos] retirei apenas um papel amarrotado – fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa. (Rubião 1999: 13) E só coube ao ex-mágico admitir e lastimar: Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia. (Rubião 1999: 13)

Daí em diante, o narrador-personagem, insatisfeito ainda e novamente, procura reencontrar seus antigos dotes, mas não os recupera.   Às vezes se ilude, acreditando estar, distraidamente, como nos tempos anteriores, executando uma mágica sem querer. Mas não passam de ilusões que se lhe pregam as negativas de suas vontades: Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico. (Rubião 1999: 13)

O mágico, o estranho, o sobrenatural, o maravilhoso, o inexplicável povoam a narrativa, sem, contudo, estarem sob a égide da dúvida, dos questionamentos. Aceitos e incorporados, aqueles aspectos não promovem ou sugerem leituras desviantes, ainda que se admita um humor causticante, com intenções paralelas à significação primeira do texto. A verdade não aparece aceita, questionada ou pluralizada, mas negada sempre, pondo-se em seu lugar a marca do contrário ou da ausência significativa.

Uma melancolia, um mal-estar no mundo, um desejo mórbido frente à vida sem razão e explicação, uma frustrante angustia pela existência desancorada inundam a narrativa, inebriada por um leve ar gótico de terror e medo, um certo lugar comum de leitura fácil, porém enganadora.

Em “Um chinche durme no teito”, de Méndez Ferrín, o narrador-personagem relata suas inquietações vivendo em uma pensão para estudantes em Compostela.

O mal-estar no mundo, percebido como não aprazível para a existência do personagem, aparece representado ao longo do texto e marca logo seu início:

A pensión Miguez é escura e sórdida. Unha ducia de estudantes pasamos o dia deitados en camas notablemente estreitas. Pólo regular cheira a suor. Santiago está cheo de pensións desta especie. O teléfono está moi preto da porta do meu carto. Podo ouvir todo o que cospen os hóspedes no micro. Poucas veces é algo de interes. Moi poucas veces os 5 ou 6 milleiros de estudantes mollados, aballoados e malditos, que enchen as ruas de Compostela, teñen algo interesante que decir. (Méndez Ferrín 1991: 74)

A melancolia diante da vida, incômoda e incomodativa, ecoa na incessante chuva que cai, às vezes em dueto harmônico com o sino da catedral: Leva un mes chovendo. Leva un mes marcando, a campa da catedral, un tempo submarinho, lento e baleiro. (Méndez Ferrín 1991: 73)

A morbidez se faz presente tanto nas referências aos já esperados suicídios de estudantes:

Todo Santiago comenta a tardanza do suicidio. (…) Os habitantes da cidade das negras pedras saben que non hai ano en que o estudante de turno, amolecidos e devecido-los nervos, non faga elegante lazada no pescozo ou diseñe, no ar gris, descontrolados pés e brazos, a figura do triste boneco de trapo, segundos antes de bater nas lousas xeadas da rua. (Méndez Ferrín 1991: 73)

Quanto nas alusões à morte não chorada da mãe do narrador-personagem:

O outro día, eu, que son individuo de excepción, recebin a noticia de que tiña morto a miña nai. Por de pronto fiquei solprendido. Erguín vivamente de cachola, coma un galo. “Agora – dixen eu pra min – vou sentir unha door profunda”. Agardei un pouco. Nada. Non sentía nada. Asustei-me e repetinme que eu amaba fondamente á miña nai. Pero nadiña, non sentía nin res. Eu son un fulano que non sinte a morte da súa única nai. Hai tres días que recebín a noticia da morte da miña nai. (Méndez Ferrín 1991: 74)

A negação das expectativas representa-se nitidamente na reação, ou na ausência delas, que o narrador-personagem tem quando sabe da morte da sua mãe. Ainda que esperasse sofrer, chorar, botar-se de luto, conforme também esperam os leitores virtuais, ancorados no senso comum, ele não consegue corresponder ao esperado e incomoda-se com isso:

Onte mesmo. Entrei no Fanny’s, un bar de moda. Pedín viño na barra. Sentarónse ao meu carón ises tipos de lentes e traxe escuro que sempre xorden ao dobrar um anco, na Facultade, e que levan na face a marca imborrábel do antigo seminarista. Comenzaron a falar das natillas. Dixo que a súa nai as preparaba moi bem. Recollín a indireita. Eles ian de traxe escuro, cáseque negro. Eu com grande lazo rubio, con pintiñas brancas.

E a eles non lles norrera a nai. (Méndez Ferrín 1991: 74)

O sobrenatural, também aceito e não questionado no nível textual, tem seu ponto de culminância no final da narrativa:

“É formibábel. Leva chovendo unha chea de meses e a iauga xá chega ao terceiro piso.

(…)

A iauga chega ao terceiro piso e non para de chover.

(…)

Dinme conta de que a iauga chegaba cáseque até o balcón.

(…)

Como a iauga chega até o terceiro piso, é decir, até o meu balcón, pódome botar tranqüilamente, que sei nadar ben.

(…)

Non sei como non se me tem ocurrido endenantes botarme a rua pólo balcón. Chegando como chega a iauga ate enriba de todo.” (Méndez Ferrín 1991: 78)

A estratégia narrativa adotada por Méndez Ferrín não leva o narrador-personagem nem os leitores a questionarem o estatuto de verdade dos fatos narrados. Também não sugere outras leituras para além da primeira e superficial. Nesse sentido, o texto ferriniano aqui apresentado é menos complexo que o rubiniano. Nele se vêem marcas semelhantes àquelas apontadas na narrativa de Murilo Rubião, sendo a negação sua marca mais destacável.

  1. As narrativas de Murilo Rubião e Méndez Ferrín aqui apresentadas guardam traços estéticos comuns entre si, estando, ambas, no universo das representações não referenciais da realidade exterior ao texto, com a incorporação de intervenções sobrenaturais ou estranhas aceitas pacificamente. São, todavia, modelos estéticos não filiados ao Maravilhoso, ao Fantástico, ao Estranho nem ao Realismo-Maravilhoso.

Esses textos não referenciam uma verdade aceita e incorporada por fazer parte do imaginário da época, como acontece no Maravilhoso; não apresentam a verdade prisioneira do embate entre a razão lógico e o sobrenatural, como se dá no Fantástico; não revitalizam a verdade lógica, dando explicações racionais para acontecimentos aparentemente sobrenaturais, como é o caso do Estranho; nem desentronizam a verdade única, apresentando-a como plural e multifacetada, conforme acontece no Realismo-Maravilhoso.

Eles incorporam o mal-estar da humanidade, o sentimento melancólico frente a um mundo inexplicável, a inquietação mórbida do homem contemporâneo, o caráter esfacelador e esfacelado da pós-modernidade. Representam a negativa frente ao estatuído e a busca de outros sentidos que não estão, não se encontram e talvez nem existam. Problematizam o fim dos tempos, dos valores, das verdades. São modelos paradigmáticos que possibilitam circunscrever um outro gênero literário no conjunto das expressões pós-modernas, seguindo na esteira do Maravilhoso, do Fantástico, do Estranho e do Realismo-Maravilhoso, mas deles distinto.

Referências Bibliográficas

Chiampi, Irlemar (1980): O Realismo Maravilhoso (São Paulo: Perspectiva).

Garcia, Flavio (2002): “Da narrativa fantástica à narrativa realista-maravilhosa: duas visões de mundo; duas estéticas” em Caderno Seminal 13: 9-27 (Rio de Janeiro: Publicações Dialogarts).

______ (2002): “Memórias das origens celtas na literatura de Méndez Ferrín” em Maleval, Maria do Amparo Tavares Estudos Galegos 3: 69-90 (Niterói: Eduff).

______ (1999): O Realismo Maravilhoso na Ibéria Atlântica: a narrativa curta de Mário de Carvalho e Méndez Ferrín – Tese de Doutoramento (Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

______ (2003): “Tendências da narrativa de Murilo Rubião e Méndez Ferrín” em Maleval, Maria do Amparo Tavares Estudos galego-brasileiros 1: 547-558 (Rio de Janeiro: Programa de PG em Letras da UERJ / H. P. Comunicação Editora).

Jamenson, Fedric (2002): Pós-Modernismo – A lógica cultural do capitalismo tardio. 2ª ed. (São Paulo: Ática).

Méndez Ferrín, Xosé Luís (1990): Arnóia, Arnóia. 3ª ed. (Vigo: Xerais).

______ (1994): Arraianos. 3ª ed. (Vigo: Xerais).

______ (1992): Crónica de Nós. (Vigo: Xerais).

______ (1991): O crepúsculo e as formigas. 2ª ed. (Vigo: Xerais).

______ (1983): Elipsis e outras sombras. 2ª ed. (Vigo: Galáxia).

______ (1993): Percival e outras historias. (Vigo:Xerais).

______ (1987): Retorno a Tagen Ata. 2ª ed. (Vigo: Xerais).

Rubião, Murilo (1999): Contos reunidos. 2ª ed. (São Paulo: Ática).

Sonsoles López (1990) “Perfil biográfico”; “O espacio literario: O conto”; “O conto en Méndez Ferrín”; “Análise da obra e Comentario: O Suso” em: Méndez Ferrín, Xosé Luís: Contos. 2ª ed.: 11-40 (Vigo: Xerais).

Todorov, Tezevan (1992): Introdução à literatura fantástica. 2ª ed. (São Paulo: Perspectiva).

Palestra na UERJ: Aproximação à antroponímia galega do s. XVIII até hoje

A próxima segunda-feira dia 12 terá lugar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro a palestra Breve aproximação à antroponímia galega do século XVIII até hoje ministrada pelo doutorando em linguística da Universidade de Santiago Guillermo Vidal.

A atividade acontecerá no Miniauditório da Pós-graduação do Instituto de Letras às 12:00 horas.

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Guillermo Vidal é graduado em Letras Galego pela Universidade de Santiago de Compostela. Fez  o Mestrado de professorado de ensino de língua e literatura galega pela Universidade da Coruña. Foi professor de práticas no curso Galego sen fronteiras 2015 organizado pela Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega. Atualmente faz o seu doutorado no programa de Linguística da Universidade de Santiago de Compostela, sendo a onomástica a parte central da sua pesquisa.

A identidade galega em palavras de mulher(es)

Amparo Maleval

Professora de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e fundadora do Programa de Estudos Galegos nesta Universidade

Começamos por lembrar que, no século XII, a mais concorrida peregrinatio do Ocidente alcançou o seu apogeu. Por esta época, para a Cidade Santa de Santiago de Compostela – a terceira da Cristandade, ao lado de Roma e Jerusalém – chegaria a acorrer anualmente cerca de meio milhão de pessoas. O túmulo do Apóstolo Tiago Maior, que acredita(va)-se estar sob o altar-mor da basílica compostelana, era, e continua sendo, a motivação para a maioria dos que empreendem tal peregrinação.

É nesse contexto que se registram as primeiras produções do Trovadorismo em língua escrita, galega (ou galego-portuguesa). No século seguinte alcançariam a sua floração máxima, quando já declinava o prestígio político-religioso de Compostela.

Certamente que a importância dessa capital místico-religiosa do Ocidente muito contribuiu para o desenvolvimento do Trovadorismo ibérico, e para que a língua literária, mesmo que sem rígida norma, fosse o galego-português. Além do mais, o Caminho permitiu a interação entre os trovadores occitânicos, da Provença e adjacências, mestres na arte de trovar sobre a “fin’amors”, e a tradição poética autóctone, a que certamente se filiavam os peculiares “cantos de mulher” galaico-portugueses.

O Trovadorismo. A cantiga de mulher autóctone 

Embora as cantigas de mulher não fossem exclusivas do noroeste da Península Ibérica, filiando-se a antiga tradição[1], aí alcançariam uma fecundidade e uma particularidade ímpares no contexto europeu. Escritas por homens, mas certamente por eles recriadas a partir de cânticos preexistentes, as denominadas cantigas de amigo galego-portuguesas davam voz a mulheres para expressão dos seus anseios (amorosos), das incertezas e saudades do amado, bem como das suas iniciativas para encontrarem namorado nas romarias, nas igrejas, nas fontes, junto ao mar ou sob as “avelaneiras frolidas”. Nelas o corpo tem um enfoque distinto dos demais gêneros, sendo louvado e, mesmo, sacralizado apesar de estigmatizado pela Igreja, tornado etéreo nas cantigas de amor masculinas, e ridicularizado nas cantigas d’escarnho e de maldizer.

O mais antigo espécime galego-português seria a cantiga “Ai eu, coitada, como vivo em gran cuidado”, se aceitarmos a lição de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1991), atribuindo-a a D. Sancho I, segundo rei de Portugal (1185 – 1211), ao invés de a Alfonso X, o Sábio, de Leão e Castela (1221 – 1284), como o fazem outros especialistas (BREA, 1996, p. 140):

Ai eu coitada! Como vivo en gram cuidado

Por meu amigo que ei alongado!

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada! Como vivo em gram desejo

Por meu amigo que tarda e non vejo!

Muito me tarda

o meu amigo na Guarda! (BREA, 1966, p. 139).

Nela o soberano português representaria a sua amante, que tinha por alcunha A Ribeirinha, lamentando-se da sua ausência na Guarda, localidade situada na Serra da Estrela, que fundara e estaria povoando, para proteger o reino da invasão dos inimigos, cristãos ou muçulmanos. O interessante para a questão da identidade galega é que essa paralelística, ao que parece incompleta, possui o ritmo irregular da muinheira (versos bipartidos de 8 a 11 sílabas), que a douta filóloga citada observara ser “som talvez preexistente, litúrgico e popular” (VASCONCELOS, 1991, p. 593). A muinheira, lembramos, ainda hoje é dança, ou a música que a acompanha, popular da Galiza.

Infelizmente os documentos que contêm as cerca de 500 cantigas de amigo são apógrafos italianos dos primórdios do século XVI: o Cancioneiro Colocci-Brancuti, hoje pertença da Biblioteca Nacional de Lisboa, e o Cancioneiro da Vaticana. A exceção é constituída pelo Pergaminho Vindel, que contém quase intactas as sete cantigas manuscritas de Martin Codax, seis delas acompanhadas das respectivas pautas musicais, e cuja transcrição remontaria a fins do século XIII, inícios do XIV.

Nesses documentos autênticos de uma época, o jogral galego Martin Codax do século XIII narra-nos liricamente uma história de amor, os seus encontros e desencontros, através da voz de uma jovem que se lamenta pela ausência do namorado, e indaga sobre o amigo, a Deus ou às ondas do mar de Vigo, como na cantiga:

Ondas do mar de Vigo

Se vistes meu amigo

E ay Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar llevado,

se vistes meu amado?

E ay, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo

O por que eu sospiro?

E ay Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado

Por que ey gran coydado?

E ay, Deus, se verrá cedo! (BREA, 1966, p. 611)

Observe-se que uma das cantigas codaxianas, precisamente a que se destaca do conjunto por ser a única sem notações musicais, apresenta em uma festa sagrada a iniciação amorosa da jovem: “Eno sagrado, en Vigo, / baylava corpo velido /(…) que nunca ouver’ amigo …” (BREA, 1996, p. 610). Escrita na terceira pessoa, o que também a diferencia das demais cantigas codaxianas e do gênero cantigas de amigo, em que o discurso é direto, constitui uma narrativa que sacraliza o corpo. Com isto, evoca ritos de fecundidade praticados por civilizações pré-cristãs.

Dentre as marcas de originalidade das cantigas de amigo há que se ressaltar a representação dos elementos da natureza em que se (con)fundem o significado literal e o simbólico, principalmente para firmarem o erotismo que a partir deles se insinua. Distanciam-se, dessa forma, da natureza estereotipada do exórdio primaveril da canção provençal, por representarem, antes do mais, a natureza mágica, que congrega em si a religião e a sexualidade.

É curioso observar que, dentre as que mais finamente dão conta do universo simbólico que remete à cosmogonia dos substratos autóctones, e onde se marca de forma inconfundível o papel da mulher na sedução amorosa e nos processos iniciáticos de uma espécie de “metafísica” da sensualidade, são quase que invariavelmente galegos, ou presumivelmente galegos, os seus autores ou recolhedores da tradição oral. Dentre eles, lembraríamos, além do já citado Martin Codax: Pero Meogo, notário compostelano, que imortalizou em paralelísticas exemplares os rituais amorosos em que se destacam fontes e cervos na simbologia evocada; Airas Nunes, clérigo compostelano da belíssima bailia, que focaliza o bailado das jovens sob as “avelaneiras frolidas”, também recolhida da tradição por João Zorro; Paio Gomes Charinho, almirante pontevedrense de inesquecíveis barcarolas, em que navegam “as flores” do amigo, desejadas pela jovem; e Meendinho – oriundo talvez de Vigo, cujo nome aparece ligado à antológica cantiga “Sedia m’eu na ermida de San Simion…”, que tão excelentemente ilustra o sincretismo religioso de então, em que um local de oração é novamente transformado em lugar de namoro e cópula.

Uma das provas mais evidentes do prestígio cultural da Galiza trovadoresca é que Afonso X (século XIII), apesar das suas iniciativas para centralizar na corte toledana o poder político, e também religioso-cultural, acataria o galego como koiné literária em suas produções não restritas aos Cancioneiros profanos. As cantigas de Santa Maria (METTMANN, 1981), apesar de raramente prestigiarem Santiago, ou até desmerecerem-no em prol da Virgem, ao serem escritas em galego atestariam a importância da cultura galega.

É lamentável que já no século seguinte ao XIII começasse o vertiginoso declínio dessa língua literária. A tal ponto que, em meados do século XV, o Marquês de Santilhana, dirigindo-se a D. Pedro, Condestável de Portugal, testemunhava que “non ha mucho tiempo qualesquier dezidores e trobadores destas partes, agora fuesen castellanos, andaluzes o de la Estremadura, todas sus obras escribían en lengua gallega o portuguesa” (LÖPEZ DE MENDONZA, 1988, p. 448).

Já era, pois, coisa do passado o prestígio da Galicia, iniciando-se os chamados Séculos Oscuros principalmente sob a ação centralizadora dos Reis Católicos nos séculos XV-XVI, em que a língua própria dos galegos ficaria relegada quase que exclusivamante à oralidade, à fala dos labregos. E a sua língua literária apenas no século XIX seria ressuscitada, principalmente na poesia de uma mulher, Rosalía de Castro. Portanto, se nos Séculos de Ouro medievais as cantigas de mulher, mesmo que escritas por homens, marcavam a especificidade galega desses cantos no contexto europeu, seriam também poemas de mulher, desta vez autorais, que iniciariam o Rexurdimento pleno da literatura galega.

O Rexurdimento. Rosalía de Castro

Todos sabemos que o século XIX, no mundo ocidental, presencia ao fortalecimento dos Estados nacionais, a par da Revolução burguesa, assentada na indústria e no Liberalismo. Nesse contexto se instaura o Romantismo nas artes, promovendo a valorização do popular e das raízes medievais dos povos enquanto marcas de sua identidade. Sob esses ímpetos popular-nacionalistas, na Galiza caberia a Rosalía de Castro, nascida em Santiago de Compostela, 1837, e falecida em Padrón, 1885, papel primacial no revigoramento da identidade galaica. Isto se deu através dos seus Cantares Gallegos, obra escrita em galego e desde o título comprometida com a galeguidade, publicada em 1863, seguida por Follas novas, de 1880. O 17 de maio, dia da publicação dos Cantares gallegos, foi transformado no Dia das Letras Galegas, no qual a cada ano se homenageia um intelectual galego de destaque.

A poesia da autora marca-se inclusive pela perquirição existencial, por um caráter intimista em que são motivos recorrentes a dor, a sombra, a morte. Mas é o seu lado combativo e galeguista que nos interessa no momento observar. Este é ainda mais admirável se pensarmos no contexto adverso em que se inscrevia marginalmente, como mulher culta e inteligente e como galega, sendo seu país e sua língua então duramente menosprezados.

Documenta nos seus poemas não apenas a língua falada do povo, mas as suas cantigas e romances. Diria num deles: Cantart’ei, Galicia, / Teus dulces cantares, / Qu’asi mô pediron / Na veira do mare. // Cantart’ei, Galicia, / Na lengua gallega, / Consolo dos males, / Alívio das penas (CASTRO, 1992, p. 17-18).

O drama da emigração, a que eram empurrados os galegos por motivo da negra situação político-econômica que atravessavam, tornaria o seu canto ainda mais dolente que o das amigas ancestrais, preocupadas com questões erótico-sentimentais. Tal se percebe no poema que glosa o mote popular Adios, rios, adios, fontes; / Adios, regatos pequenos; / Adios, vista dos meus ollos, / Non sei cando nos veremos. Aí, com dorida meiguice a personagem se despede da natureza amada – da ortiña, das figueiriñas, dos paxariños piadores, etc. -, da casa, dos amigos…, com a consciência de que deixa amigos por extraños, a veiga pó lo mar… enfim, que deixa canto ben quer” (CASTRO, 1992, p. 84).

Se o destino é Castela, dirá Rosalía em outro poema, denunciando a exploração e o descaso de que eram vítimas os galegos: Cando foi, iba sorrindo, / cando veu, viña morrendo (…) Foi a Castilla por pan / e saramagos lle deron… (CASTRO, 1992, p. 155). Mas era Havana o grande foco de atração para os emigrantes da época. Por isso registraria, no livro As viudas d’os vivos e as viudas d’os mortos, passagens sofridas dos que !Van a deixá-la patria!… / Forzoso, mais supremo sacrificio. / A miseria está negra en torno d’eles, / !ay!, !y adiant’está o abismo!… ( CASTRO, 1975, p. 125).

A imagem da solidão feminina, muito mais triste, por ser duradoura e mesmo por vezes definitiva a ausência masculina, do que a das donzelas nas cantigas de amigo medievais, é retomada no poema abaixo:

Tecín soia a miña tea,

Sembrei soia o meu nabal,

Soia vou por leña ó monte,

Soia a vexo arder no lar.

Nin na fonte nin no prado,

Así morra coa carrax,

El non há de virm’ e a erguer,

El xa non me pusará.

!Que tristeza! O vento soa,

canta o grilo ó seu compás…

Ferve o pote… mais meu caldo,

Soíña t’hei de cear.

Cala, rula, os teus arrulos

Ganas de morrer me dan;

Cala, grilo, que si cantas,

sinto negras soïdas.

O meu homiño perdeuse,

Ninguén sabe en onde vai…

Anduriña que pasache

Con el as ondas do mar;

Anduriña, voa, voa,

Ven e dime en ond’ está. (CASTRO,1880, Follas novas)

Sozinha, a mulher lutava pela subsistência, com os parcos recursos que a terra permite: “soia” (sozinha) tece, semeia, colhe. Os lugares de outrora para o encontro amoroso – as fontes, o prado…- estão vazios de amantes. A natureza festiva, na voz de grilos e rolinhas, só provoca as “negras” saudades. Mas os seus elementos, oraculares no passado, aqui representados pela andorinha, ainda são evocados para a obtenção de notícias do homem distante. E o mar novamente separa, agora de forma definitiva, os casais. Ao namorado cavaleiro que se dirigia ao “fossado” com el-rei para guerrear, ou que nas barcas se afastava para a luta, substituiu o marido obrigado, pela miséria, a emigrar, afrontando o imenso Mar Oceano.

Portanto, apesar de cantar um momento de agruras do povo galego, a voz de Rosalía faz retornar a dignidade da língua literária, reafirmando a identidade vilipendiada de um povo que ainda teria de enfrentar as perseguições do franquismo para, nos dias de hoje, viver uma nova “Idade do Ouro”, particularmente fecunda na literatura.

Atualidade áurea da literatura. Luz Pozo Garza.

Dentre os numerosos e excelentes escritores galegos da atualidade, muitas são as mulheres que constróem esse novo discurso literário galego.

Uma das primeiras a reescrever na língua matria, após a Guerra Civil de 1936-1939, foi Luz Pozo Garza (nascida em Ribadeo, 1922). Nela nos deteremos, na impossibilidade de por ora focalizarmos outras importantes vozes.

Sofreu a traumática experiência da perseguição franquista, sendo então o seu pai se exilado em Marrocos, onde ficaria com a família até 1940. Retornando à Galiza, estuda e publica os seus primeiros poemas em castelhano, devido à proibição de editoração de livros em galego, sendo que somente em 1947 tal situação seria modificada por Aquilino Iglesia Alvariño, com a obra Cómaros verdes.

Já em 1952, a poetisa iniciaria a sua etapa bilíngüe, sendo neste ano publicado o seu primeiro livro em galego, O paxaro na boca. Nos anos 80 e 90 assume o galego como língua literária única. Além das perseguições político-lingüísticas, sofreu a segregação machista da ditadura, só amainada nos anos 60-70, que relegava mais que nunca a mulher ao mundo privado e doméstico. Por isto, teria que figurar apenas como vice-diretora da revista Nordés, de poesia e crítica, a partir de 1975 ao lado do poeta Tomás Barros. A sua excepcionalidade é comprovada também pelo fato de tornar-se correspondente da Academia Galega logo após a publicação do seu primeiro livro, que teve uma entusiasta acolhida por boa parte da crítica, muito embora alguns críticos louvassem a beleza da autora, ao invés das suas qualidades poéticas (BLANCO, 1991, p. 25-37).

Além de poetisa, foi professora de língua e literatura, crítica literária e amante da música e da pintura, atividades que repercutiriam na sua obra. Esta se caracteriza principalmente por um caráter intimista e clássico, embora a época fosse de hegemonia do social-realismo nas artes. Além do já citado livro inaugural, O paxaro na boca (1952), escreveu em galego Verbas derradeiras (1972), Concerto de outono (1981), Códice calixtino (1986) e Poemeto a flor de loto (1992).

Códice calixtino, de 1986 (Ed. Sotelo Blanco), reeditado de forma crítica e mais completa em 1991 (Ed. Xerais), vem sendo considerado a sua principal obra, obra de síntese e plenitude (PANERO, 1993, p. 15) em que se observam, a par do intimismo já referido, o seu simbolismo imaginista e/ou neotrovadoresco que desembocam em profundas reflexões sobre a existência, sobre o amor e a morte, sobre o sentido da poesia, etc. Desde o título escolhido – o mesmo usado para denominar, no século XII, o conjunto de textos do Liber Sancti Iacobi, isto é, de textos relacionados ao culto de Santiago, à peregrinatio – configura-se o caráter existencialista e de síntese, que retoma desde o apogeu da Era Compostelana e do Trovadorismo, até a nostalgia, a sombra e a morte da poesia de Rosalía, além de espaços e cânones universais, transubstanciados pelo seu poder de recriação, de abstração, de contemplação intelectual e mística.   Aí, o sujeito da poesia se coloca “Coma Dante chegando ao paradiso“, partindo “do principio segredo que nos chama sem verbas / sem panos sem acenos / o exilio transvirado em limiar confidente...” (MORÁN, 1999, p. 262). Ou, num evidente diálogo com as marinhas de Martin Codax, declara o seu amor ao mar de Vigo – a luz, o espaço único, “os días indecisos“… – , que termina por contemplar acompanhada, não mais solitária como as amantes das cantigas ancestrais. Aliás, as cantigas medievais são um dos motivos recorrentes na sua obra, retomadas não apenas em poesia – veja-se ” En Vigo, no sagrado”, de Concerto de outono (VIEIRA, 1996, p. 135-136), em que, “a xeito de cantiga“, perscruta o “sagrado segredo” de Vigo através de ressonâncias de cantigas não apenas codaxianas, mas de Paio Gomes Charinho, Nuno Fernández, etc. Também as revisita em ensaio intitulado Ondas do mar de Vigo. Erotismo e consciência mítica nas cantigas de amigo (POZO GARZA, 1996).

Concluiremos lembrando um dos seus poemas, também de Concerto de outono, no qual dialoga com a “mãe” da poesia galega, Rosalía de Castro, intitulado “Preguntas a Rosalía”. Desde a epígrafe já percebemos tratar-se de uma perquirição fundamentalmente existencialista: “A buscar a táboa / De salvación para sobrevivir / Ao naufraxio vital.“, inspirada em “García-Sabell (Rosalía y su sombra)”. Mas sem deixar de ser galeguista, já que é guiada por Rosalía “Á percura da táboa / Nosa“. Vamos segui-las nesse percurso:

Noitébrega sibila

De palavras de cinza

Acórdanos o fado

Desta terra.

As aldeas pechadas

Esqueceron as verbas.

Ónde quedou a espranza

que percute no peito?

Unha roda de chumbo

Vai calcinando a pedra.

Non me ves desvelada

Sobor da terra moura

Sobor da terra núa?

Si ollas na miña ialma

Ollas tamén Galicia.

Que sorte

       norte

       morte

                           nos agarda?

(VIEIRA, 1966, p. 137-138)

Enfim, mesmo que sem realizar uma poesia abertamente ufanista, Luz Pozo Garza firma a identidade galega não apenas por escrever em galego, ou por refletir sobre a condição de ser galego, ou por retomar a melhor tradição da poesia galega, dos Trovadores a Rosalía. Mas por colocar-se, ela própria, como uma amostra daquele que é, conforme destacamos de início, um dos traços identificadores da sua terra: a poesia. A ponto de já estar se tornando um lugar-comum a máxima: Galicia, terra de poetas…, onde, acrescentamos, as mulheres sobressaem.

Nota: artigo publicado, com pequenas diferenças, em MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (Org.). Estudos Galegos III. Niterói: EdUFF, 2002, p. 113-122.

Referências bibliográficas

BLANCO, Carmen. “Introducción” a POZO GARZA, Luz. Códice Calixtino. Ed. crít. Xerais; Vigo, 1991.

CASTRO, Rosalía de. Obra poética. 8. ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1975.

_______. Poesía galega completa. I – Cantares gallegos. Santiago de Compostela: Sotelo Blanco Ed., 1992.

LÓPEZ DE MENDONZA, Iñigo (Marqués de Santillana). Obras completas. Ed., int. y notas de Angel Gómez Moreno. Maximiliam P.A.M. Kerkhof, 1988.

MALEVAL, Maria do Amparo Tavares. Peregrinação e poesia. Rio de Janeiro: Ed. Ágora da Ilha, 1999.

________ (Org.). Estudos galegos III. Niterói: EdUFF, 2002.

METTMANN, Walter. Cantigas de Santa María, de Afonso X, o Sabio. Ed. crítica. Vigo: Xerais, 1981. Vol. II.

MORÁN, César. Río de son e vento. Unha antoloxía da poesía galega. Vigo: Xerais, 1999.

PANERO, Carmen. Códice calixtino de Luz Pozo Garza. Pontevedra: Edicións do Cumio, 1993.

POZO GARZA, Luz. Códice Calixtino. Ed. de Carmen Blanco. Vigo: Xerais, 1991.

————. Concerto de outono. Sada, A Coruña: Edicións do Castro, 1981.

————. Ondas do mar de Vigo. Erotismo e conciencia mítica nas cantigas de amigo. A Coruña: Espiral Maior, 1996.

VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de. Cancioneiro da Ajuda. Halle, 1904 – Reimp. Lisboa: IN/CM, 1990. 2 vols, vol. II, p. 593-59.

VIEIRA, Yara Frateschi (Org.). Antologia de poesia galega. Campinas: Ed. da UNICAMP. 1966.

[1] Desenvolvemos reflexões sobre a ancianidade das cantigas de mulher em MALEVAL, 1999, p. 47-51.

Aspectos da desordem urbana: imigrantes ibéricos e a contravenção no Rio de Janeiro republicano (1880-1930)

Érica Sarmiento / Lená Medeiros de Menezes

Professoras de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

*Artigo publicado na revista Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 41, n. 1, p. 164-180, jan.-jun. 2015.

Resumo

A imigração ibérica no Rio de Janeiro do período da Grande Imigração (1880-1930) ocupou lugar de destaque nas principais freguesias da cidade. Nos espaços populares e nas tensões cotidianas que faziam parte do cenário urbano, os espanhóis criaram assentamentos étnicos e concentraram-se em determinados ofícios e profissões, formando redes de solidariedade. Sua participação em atividades consideradas ilícitas, de caráter eminentemente popular, como o jogo do bicho, demonstra o entrosamento desses grupos com a sociedade carioca e a sua inserção e adaptação no cotidiano da cidade. Através de fontes históricas como os processos policiais e os processos de expulsão, esse estudo busca reconstruir algumas histórias de encontros e conflitos, apoio e repulsão, que envolveram os imigrantes ibéricos


A tendência da História em registrar os sucessos tem como resultado o esquecimento lançado sobre empreendimentos mal sucedidos e sobre as trajetórias descritas nos bastidores. Dessa forma, ela acaba por reforçar estereótipos e mitos, como o do imigrante português enriquecido pelo comércio e transformado em comendador.

Certamente muitos foram os que conseguiram ascender socialmente – e até enriquecer – fora de sua terra natal, mas também é verdade que outros amargaram derrotas ou enveredaram pelo mundo do crime e da contravenção. Vários destes buscaram, nos jogos de azar, o caminho da sobrevivência ou o sonho, por um golpe de sorte, de garantir uma vida de maiores facilidades.

No caso de muitos destes contraventores, a circulação pelas delegacias policiais tornou-se rotina, em um jogo de delito e perseguição crivado por distanciamentos sociais que acabavam penalizando os que jogavam nas esquinas ou através de estratégias de ocultamento em quiosques e pequenas casas comerciais, em detrimento dos que apostavam em estabelecimentos de luxo que reproduziam o requinte da burguesia europeia; caso das corridas de cavalo.

No caso dos jogos populares, dispersos por toda a cidade, como denunciavam jornais de época, um importante elemento a destacar é, justamente, a participação de portugueses e espanhóis – em especial de galegos – quer como apostadores, quer como apontadores, quer como banqueiros.

Portugueses e galegos: solidariedade, distanciamentos e tensões    

   As relações entre portugueses e galegos no Rio de Janeiro é anterior ao período da Grande Imigração (1880-1930), embora deva ser considerado que, na segunda metade do Oitocentos, tornou-se visível que os espaços de solidariedade representavam um instrumento de defesa em um mercado de trabalho que se tornava cada vez mais competitivo e instável. Garantir melhores condições de vida significou, para muitos portugueses e galegos, monopolizar determinados “nichos” de mercado. Em tal empreendimento, os imigrantes contavam com a influência de redes de parentesco, compadrio e amizade para obter créditos na praça, comprar imóveis em sociedade e conseguir cartas de boa conduta com comerciantes de prestígio. O comportamento corporativo dos imigrantes portugueses e galegos deu origem, assim, a assentamentos étnicos e à concentração da coletividade em determinados ofícios e profissões.[1]

É possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro […] Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia.

Após terem se estabelecido no Brasil, os imigrantes pioneiros chamariam parentes ou conhecidos oriundos da mesma localidade para trabalharem em seus estabelecimentos, alimentando dessa forma, através do que se convencionou denominar “cadeias migratórias”, os fluxos. Esses precursores passaram, assim, a garantir o assentamento espacial e laboral dos patrícios que chegavam a um país desconhecido, sobre o qual, muitas vezes, só tinham as informações que estes lhes forneciam. As cadeias migratórias funcionavam, dessa forma, como um mecanismo integrador, capaz de atrair e introduzir o imigrante no mercado de trabalho. As próprias “leis” do comércio, bem como as hierarquias estabelecidas no universo comercial, moviam-se através de critérios extraeconômicos como as relações interpessoais e a confiança que o credor tinha naquele que lhe pedia empréstimos ou favores.

Em uma análise diacrônica, é possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro, antes do período de deslocamento dos fluxos massivos que caracterizaram a virada do século XIX para o XX. Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia, exercendo ora a função de fiador, ora a de ambulante, como exemplifica o caso abaixo:

Antonio Ferreira da Cunha, português, morador a Ladeira do Seminário, n° 45, freguesia de São José quer licença para andar ao ganho. Apresenta para seu fiador Domingos da Silva Manahu, estabelecido com quiosque, n.114, morador na Rua Santo Antonio, n.5.[2]

Portugueses e espanhóis/galegos ambulantes, no contexto histórico do Rio de Janeiro de segunda metade do Novecentos, concentravam-se, majoritariamente, nas freguesias centrais da cidade, especialmente nas freguesias de São José e Santo Antonio. O fiador acima mencionado, por exemplo, era dono de um quiosque no Largo da Carioca (freguesia de Santo Antonio) e tinha sob sua tutela dois ambulantes espanhóis e um português. Na Ladeira do Seminário – onde residia o português que solicitava licença para “andar ao ganho”- viviam, também, quatro espanhóis e seis portugueses.[3] Exemplos emblemáticos, os dois imigrantes são demonstração inequívoca das estratégias de sobrevivência e de inserção na sociedade carioca.

As relações entre os imigrantes ibéricos e o mundo do trabalho podem, também, ser analisadas através de uma fonte rica em elementos do cotidiano: os processos policiais. Depositados no Arquivo Nacional, situado na cidade do Rio de Janeiro, esses processos, para além das relações no espaço do trabalho, relatam o grau de tensão e violência que permeava as relações no mercado de trabalho, bem como os embates travados entre a policia e entre as clases populares em um contexto da transformação da capital brasileira em uma cidade disciplinar.

Os casos de violência no interior do mercado de trabalho, em especial, são importantes para o estudo das relações de dominação cotidiana. Dentre outros aspectos, porque, além de motivações materiais, elas contêm motivações subjetivas no contexto de relações permeadas pela violencia..[4] Dessa forma, o cotidiano aparece como a dimensão que homogeniza e unifica a experiência do grupo, como no caso dos galegos e dos portugueses que se apropriaram do espaço urbano carioca, concentrando-se em determinados bairros e atuando no pequeno comércio. Os processos policiais contra alguns instaurados transformam-se, assim, em fontes históricas que nos permitem comprender, através da atuação da policía, o comportamento das elites e as imagens relativas aos imigrantes. Outrossim, os processos possibilitam visualizar as interpretações que cada grupo elaborava a respeito dos mecanismos de dominação social.

Em sua obra Proletários de Casaca, Trabalhadores do comércio carioca (1850-1911), Fabiane Popinigis, analisa 1.112 processos de ofensas físicas e homicídios. Ao analisar o pequeno comércio das áreas centrais do Rio de Janeiro, a autora, inevitavelmente, depara-se com a presença ibérica, majoritária na cidade.[5]

Um dos processos analisados por Popinigis refere-se às desavenças ocorridas, no ano de 1901, entre o caixeiro espanhol José Cavenhago Pumar, de 19 anos, e o caixeiro português Alberto da Silva Peixoto, de 28 anos. Ambos trabalhavam nos arredores da Freguesia de Santo Antonio, um dos espaços de grande concentração de imigrantes provenientes da Península Ibérica. Assim, portugueses e galegos reelaboravam o cotidiano e construíam suas estratégias de sobrevivência.

Jogos de azar: prática do citidiano

A inserção dos imigrante na terra de acolhida ultrapassava, porém, o estereótipo do estrangeiro honesto e trabalhador, tendo em vista os espaços ocupados nos mundos da contravenção e do crime. Era o caso, por exemplo, do envolvimento de imigrantes portugueses e galegos nos jogos de azar. O ritual inerente ao jogo fomenta sempre uma relação de reciprocidade, onde podem ser verificados valores como os de compromisso e lealdade, envolvendo apostadores e banqueiros.

No Brasil, a repressão a alguns dos jogos, considerados de “azar” surgiu com a República e, nesse combate, as diferenciações sociais jogaram papel de relevo, principalmente com relação aos jogos populares, situados à margem da orden constituída. Observe-se que as relações travadas no universo dos jogos populares implica sempre valores de compromisso e lealdade entre o apostador e o banqueiro. É isso que assegura a confiabilidade e sustenta o processo. Esses valores podem ser demonstrados pela prisão em flagrante e os autos do processo que envolve cinco imigrantes portugueses e um de origem galega. Segundo esses autos, no dia 26 de julho do ano de 1902, em um sobrado localizado na Rua Visconde do Rio Branco, n.39, no centro da Cidade,

… foi dada busca na casa e apreendidos: uma pequena lata com um orifício na tampa em que se achava na mesa formada para o jogo, diversos baralhos de cartas que também se achavam sobre a mesa formada para o jogo, um macho, uma taboa, dois cavaletes e tais bancos…[6]

A polícia deteve e encaminhou delegacia todos os presentes, acusados de praticarem jogos ilícitos à delegacia. Eles encontravam-se, segundo os investigadores, jogando o chamado “jogo do monte”. Segundo os autos, o galego Benito Pouza foi encontrado com um baralho de cartas servindo de banqueiro do referido jogo, em uma casa de propriedade de um português, natural de Villa Real: Antonio Joaquim Oliveira.

Durante o interrogatório, o galego José Benito Pousa e o português Francisco Rodrigues construíram seus depoimentos com base nos mesmos argumentos. Ambos alegaram não participavam do jogo e eram simples assistentes do jogo que os outros imigrantes praticavam. Justificando sua inocência, ambos afirmaram não haver qualquer motivo para serem levados à delegacia. Outro acusado, por outro lado, Manuel Ferreira da Silva, defendeu-se com a argumentação de que havia se dirigido ao local somente para buscar uns amigos. O depoimento do quarto acusado, Antonio Joaquim Gomes, foi, no mínimo surpreendente pois, para se livrar da acusação, explicou que estava “a procura de uma meretriz que residia neste local e que havia sido informado que ela havia mudado de residência justamente naquele dia”. O último imigrante a depor, José Pereira Gomes, negou estar no recinto e alegou ter sido preso pela polícia quando estava caminhando pela rua. Verdadeiras ou falsas, todas as declarações negavam o envolvimento dos imigrantes nos jogos de azar. Com exceção de um dos portugueses, nenhum dos demais declarou conhecer os acusados, como estratégia para evitar a detenção, alegando que se protegiam, dessa forma, da perseguição policial.

Vale ressaltar que, nos primeiros decênios do século XX, no contexto do combate amplo aos imigrantes considerados indesejáveis,[7] a polícia carioca perseguiu todos aqueles que se envolvessem em atos de desordem, em prol de uma limpeza moral e material condizente com o projeto de civilização que a república queria empreender. Segundo Marcos Bretas, parte da população carioca, pelo menos, aderia às cruzadas morais em defesa da ordem pública e apresentava suas queixas contra vagabundos envolvidos em apostas ou em jogos de futebol.[8]

Na segunda fase do processo que vimos relatando, somente dois réus compareceram: Antonio José Pereira Gomes e Antonio Joaquim de Oliveira, ambos soltos após pagarem fiança. É importante frisar que, apesar de, nas primeiras declarações dos envolvidos, não haver menção da relação que os unia para além do jogo, a situação parece ter mudado nos autos de defesa. As testemunhas arroladas eram formadas, também, por imigrantes: um italiano e dois portugueses. Em seus depoimentos, todas confirmaram que os acusados – os portugueses e o galego – não viviam do sustento do jogo, sendo, ao contrário, homens laboriosos e bem empregados. Quem eram, porém, essas testemunhas? Todos eles eram negociantes na Rua Visconde do Rio Branco, a mesma rua onde os acusados foram pegos em flagrante. Após as testemunhas se pronunciarem, o processo foi encerrado e os réus absolvidos. Percebemos, assim, comportamentos que tendem a se repetir nos processo: a proteção aos patrícios e as vantagens de ter boas relações na praça. Palavras como “honradez”, “honestidade”, quando proferidas por um conceituado comerciante, transformavam-se em defesa valiosa para um estrangeiro acusado, que podia valer a absolvição, considerando os perigos que rondavam as classes populares frente à verdadeira cruzada em que se constituía a caça aos vadios e vagabundos que “contaminavam”, com sua presença, a “saúde” social. Nesse sentido, as redes de solidariedade eram não só importantes quanto mecanismos de defesa.

O problema das jogatinas e a perseguição aos imigrantes, ao longo de toda a chamada Primeira República (1889-1930), com destaque para os ibéricos, continuaram a ser responsáveis pela instauração de muitos processos, no contexto da repressão à vadiagem e da definição do trabalho como valor social.

“Jogo do bicho”: o mais popular dentre os jogos de azar

Uma nova modalidade de jogos de azar foi criada no final do século XIX: o “jogo do bicho”, idealizado, em 1892, por João Baptista Vianna Drummond, conhecido como o Barão de Drummond, proprietário do zoológico do Rio de Janeiro, localizado no bairro de Vila Isabel e fundado em 1884. Os sorteios e as apostas atraiam multidões, que passaram a difundir o jogo para além das portas do zoológico. O ritual da aposta se projetou no imaginário urbano, originando uma rede de intermediários para o seu financiamento. O jogo ganhou as ruas e passou a ser “apontado” em pequenos estabelecimentos da cidade, surgindo, então, a figura dos “banqueiros do bicho” (“bicheiros”), contraventores que se enraizariam na sociedade carioca.

Nos pequenos estabelecimentos, a população jogava através de curiosas estratégias e anotações nos cadernos de dívidas do estabelecimento, narradas por Luís Edmundo ao descrever o Rio de Janeiro “do seu tempo”:

Quem paga o bicho é a patroa, porque, quando elas chegam à casa, não esquecem de dizer:

– Qual esse seu Manoel da esquina está ficando cada vez mais careiro! Veja só se isso está direito, patroa, olhe só para estes quatro de alhos e quatro de cebolas! Não falam no dinheiro que apostam, incluído, também, no preço daquilo que compraram.[9]

Observe-se que, no caso acima ilustrado, o jogo foi feito por uma empregada doméstica, que lançou os custos do jogo por ela feito nas dívidas da patroa. O local de registro do jogo é um estabelecimento de víveres, de propriedade de um português ou de um galego: seu Manoel; um dentre tantos imigrantes de igual nome espalhados pelas “esquinas” da cidade. A estratégia de ocultamento, por outro lado, explicava-se não apenas pela intenção da criada em não arcar com os custos do vício, mas, também, devido à proibição e perseguição policial que fazia, muitas vezes, com que os apostadores literalmente engolissem suas apostas, de modo a escapar do flagrante.

A primeira proibição do “bicho” data de 1895 e foi explicada pela concorrência do jogo – extremamente popular – com o sistema de loterias federais, este legalizado. Por outro lado, “jogar no bicho” tornou-se ação definidora de vagabundagem, o que reproduzia, em última instância, estereótipos e preconceitos com relação às classes populares.[10] A popularidade do jogo, entretanto, era tanta que ele se tornou ato cotidiano entre as classes populares que, diariamente, passaram a apostar no “bicho”.

A relação de portugueses e galegos com o jogo do bicho é antiga, tendo sido iniciada em época que antecedeu a sua proibição. Ao que tudo indica, o precursor da venda de bilhetes foi um imigrante galego chamado Manoel Cavanelas. Segundo entrevistas realizadas com patrícios e contemporâneos de Cavanelas, esse galego – que alcançou uma importante ascensão socioeconômica na primeira metade do século XX – chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1894, com somente 17 anos de idade. A partir desse momento, começou a vender bilhetes do jogo do bicho a encargo de seu patrão, o Barão de Drummond. Quando Cavanelas passou a gerenciar as lojas de loterias do Barão, sua ascensão econômica foi surpreendente. Os dois se tornaram muito amigos e o Barão pediu ao galego que abrisse uma casa de loteria na Praça Olavo Bilac, número 9. Anos mais tarde, com o progresso dos negócios, Cavanelas comprou todo o edifício. A partir daí, abriu outros tipos de comércio como o negócio de luvas; comprou lojas e outros imóveis, passando a viver de rendas.[11]

A história de Cavanelas, fundador da casa de repouso do Recreio dos Anciãos,[12] e sua inserção no jogo do bicho, foi preservada na memória de imigrantes que compartilharam trajetórias, mantendo-se vivas até o presente. Nesse, como em outros casos, o que os depoimentos revelam, outros documentos comprovam. Percorrendo documentos referentes à freguesia de Santo Antonio, bairro com grande índice de imigração galega e portuguesa, por exemplo, deparamo-nos com um processo instaurado no ano de 1905, referente ao galego Romão Villanova e ao português João Bento, presos em flagrante à rua do Riachuelo:

… os Réus presentes João Bento e Romão Villanova foram presos em flagrante pelo Doutor Delegado por serem encontrados a jogar o denominado jogo do “Bicho” sendo que João Bento era o banqueiro e Romão Villanova comprava o jogo, isto é, era o jogador.” [13]

João Bento, português, e Romão Villanova, galego, foram presos “por estar bancando o jogo denominado do Bicho”. No caso do espanhol, também pelo fato do mesmo “por estar jogando ou comprando o referido jogo”. Segundo os autos do referido processo:

…esse jogo é uma rifa que corre anexa à loteria da Capital Federal, determinando o grupo que ganha o final do primeiro prêmio da referida loteria com os denominantes de Antigo Rio Moderno e Salteado, como se verifica das listas encontradas em poder do réu João Bento e que são as mesmas que lhe são apresentadas nesta ocasião.[14]

Romão Villanova, ao se pronunciar, tentou se justificar perante às aiutoridades, alegando que tinha domicilio certo e profissão honesta, levando à delegacia duas testemunhas para atestar a sua condição de imigrante trabalhador. Ambas as testemunhas eram de origem estrangeira: um espanhol e um italiano. O primeiro deles, Pedro Martinez, espanhol de trinta e dois anos, casado, negociante, morador à rua do Lavradio cento e vinte e nove, sabendo ler e escrever, declarou o seguinte: “que conhece o prontificante, Ramon Villanova, há cerca de dez anos como homem serio e trabalhador, sendo atualmente empregado como pespontador e morador à Rua do Lavradio cento e sessenta e nove.[15]” Segundo o depoimento do acusado, ele entrou no negócio do português “afim de tomar um “alcoólico”, visto a casa ser um depósito de bebidas”.

Os réus foram absolvidos, pois segundo a defesa, as irregularidades do processo eram evidentes, o que determinou seu encerramento por falta de prova da existência da contravenção e por insuficiência das declarações daqueles que haviam testemunhado o flagrante. Nesse sentido, o processo se justificaria pela tentativa de incriminar o português dono da venda e o espanhol que lá ia consumir um “alcoólico”. Na falta de auto de apreensão das listas do jogo e devido ao fato dos depoimentos não terem sido tenham sido lidos às testemunhas, os réus foram considerados inocentes.

Torna-se evidente, assim, que o jogo do bicho demonstra um controle do território que se apresenta como área de força, fazendo surgir diferentes redes de solidariedade e apoio. A implantação da ordem sobre os espaços ligados ao comércio popular levou à criminalização de práticas já enraizadas no cotidiano da cidade.[16] No caso do processo crime acima relatado, os imigrantes presos mostram-se representantes das tensões étnicas e sociais existentes, utilizando as possibilidades e atividades marginais que lhes eram oferecidas.

A popularidade do “bicho” e a inserção de galegos e portugueses em um jogo que, mesmo ilegal, desafiou as proibições, despertou o interesse em diversos trabalhos acadêmicos. Esmeralda Broullón Acuña, em artigo sobre os espanhóis no Brasil, relata o romance de Jorge Díaz, intitulado Los números del elefante. A trama de Díaz aborda a história social do jogo do bicho e apresenta, como protagonista, a Bernardo, imigrante espanhol que chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1954. Ele se converteu em vendedor de bilhetes do jogo do bicho. O autor do livro aborda a questão das máfias controladas por galegos: a máfia da venda de bilhetes de loterias do jogo do bicho[17]. Outro exemplo do interesse acadêmico pela criminalidade dos jogos é a tese de Amy Chazel, Laws of Chance, Brazil´s Clandestine lottery and the making of urban public life. A autora analisa vários processos crimes, todos vinculados a jogos ilícitos, chamando a atenção para a presença de imigrantes portugueses acusados de serem banqueiros do jogo do bicho. Da mesma forma que no processo referente ao galego Romão Villanova e o português João Bento, acima analisado, os imigrantes, analisados por Amy Chazel, também foram absolvidos, ao alegarem em sua defesa, serem comerciantes, terem boa conduta e viverem há muito tempo na cidade Rio de Janeiro.

Todos eram “galegos”

Os processos analisados reúnem elementos valiosos para compreender não só aspectos do cotidiano dos imigrantes quanto as formas pelas quais eles se integraram à sociedade de acolhida. A sobrevivência, adaptação ou modificação das culturas de origem possibilitava que os imigrantes modificassem os seus hábitos de forma a se adaptar à nova organização e espacialização da cidade que os acolhia. No caso dos ibéricos, os laços horizontais e verticais existentes entre eles reproduziam inúmeras formas de associação e solidariedade; solidariedade que, como em todas as relações sociais, admitia hierarquias. Dessa forma, seu viver não representava uma “cópia” da sociedade de origem, mas novas formulações formadas em país estrangeiro, com um processo de adaptação e respeito às instituições e à forma de viver dos brasileiros.

O vocábulo “galego” deixa de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

No tocante às hierarquias, podem ser citadas: a que se formava dentro das redes étnicas e aquela que já estava estabelecida na sociedade receptora; círculos intercomunicantes de sistemas de valores distintos que se confrontavam ou caminhavam paralelamente na cotidianidade das ruas do Rio.

Quando se fala em galego no Rio de janeiro, por outro lado, devemos levar em consideração alguns “deslizamentos” de sentido, que explica que o vocábulo “galego” deixe de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

A questão do significado do “ser galego” tem origens históricas, que remontam às querelas e conflitos do início da República brasileira. O termo “galego”, por exemplo, foi muito utilizado no Jacobinismo,[18] movimento antilusitano estreitamente vinculado à recém-consolidada República e liderado por grupos pertencentes às camadas médias urbanas emergentes. Utilizava-se, então, a expressão “galego vai para tua terra!”, como uma forma de rechaço à população portuguesa que, além de ter a sua postura política associada ao monarquismo, também provocava a inimizade dos nativos da terra devido ao monopólio de muitos setores do pequeno comércio da sociedade carioca, estreitamente ligados às classes populares, como pensões, bares e botequins ou padarias. Aos antigos colonizadores, eram atribuídos, assim, vários males pelos quais a jovem República passava.

O sentido que prevaleceu no imaginário da cidade foi o do “galego português”, inserido majoritariamente no setor do comércio, em contato direto com a população em geral. Esse imaginário, contextualizado em um âmbito histórico específico – o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX – pode ser apreendido no processo movido contra os galegos Manoel Facal Peres e Laureano Taboada.

Segundo os autos do processo, tudo teria começado na casa de pasto de propriedade de um espanhol. Entre brigas e ofensas, o galego insultou o português, chamando-o de “galego”!

… pediu o prato da cozinha da casa de pasto onde é empregado a Rua Visconde do Rio Branco, ao cozinheiro Manoel Facal Peres, um caldo especial para servir a um freguez da casa, que havendo demora elle declarante dirigio-se a porta da cozinha e pedia novamente do cozinheiro Manoel o caldo, que Manoel lhe dirigio pesado insulto e em seguida disse: “seu gallego[19] leve isso lá para fora, apresentando-lhe o caldo; …

Assim como no primeiro processo analisado, vinculado ao jogo de cartas, esses galegos estavam envolvidos com imigrantes portugueses, na conhecida Rua Visconde do Rio Branco, sendo, assim, mais um caso de uma história envolvendo imigrantes galegos e portugueses no espaço comercial carioca do período da Primeira República.

No dia 7 de agosto de 1909, os réus Manoel Facal Peres e Laureano Taboada foram indiciados por ofensas físicas, após terem agredido o português Joaquim Gomes dos Santos. Em seu depoimento, Joaquim Gomes fez questão de enfatizar que o espanhol utilizou a palavra “galego” para insultá-lo e isso não teria sido por acaso, pois o português tinha consciência do peso que a palavra tinha no imaginário dos trabalhadores galegos e portugueses.

A frase “seu galego leve isso lá para fora”, fora enfatizada no momento em que Joaquim estava pedindo ao cozinheiro (Manoel) que agilizasse o serviço. A tensão se iniciou quando Manoel, na posição de caixeiro, exigiu melhores serviços do cozinheiro galego. Não nos interessa analisar qual dos depoimentos apresenta maior veracidade e poder de convencimento, mas sim remarcar a ofensa de um galego a um português, ao insultar a este de “galego”. Assim, quando Manoel Esteves “xingou” o português Joaquim Gomes de “galego” ele estava reproduzindo elementos do imaginário que afetava os portugueses no cotidiano carioca do começo do século XX.

No processo acima analisado, apresentaram-se três testemunhas e dois acusados, todos estrangeiros. O dono do estabelecimento era o espanhol Indalecio Quintelo, que interferiu na confusão armada por seus empregados, os já citados cozinheiros Manoel Facal, Laureano Taboada e o caixeiro Joaquim Gomes. A primeira testemunha é um português, de 33 anos, lavador de prato da casa de pasto. A versão que predominou em todos os depoimentos foi a de que, após uma acirrada discussão, os cozinheiros galegos arremessaram pratos no português, causando-lhe graves ferimentos. Concluímos, então, que na casa de pasto, da Rua Visconde do Rio Branco, n.17, havia uma pequena rede de emigrantes da península ibérica, inseridos no comércio carioca. Para os brasileiros, todos eram “galegos”.

O jogo como motivação para a expulsão

Em alguns casos, os jogos clandestinos constituíram-se em motivo para a instauração de processos de expulsão, conforme determinavam as leis que regulamentavam a entrada e a permanência de estrangeiros no país.[20]

No conjunto de processos de expulsão analisados no livro Os Indesejáveis,[21] embora os processos contra jogadores, apostadores e banqueiros representem pequeno número frente a outras contravenções e crimes, eles trazem importantes indícios para análise. Em primeiro lugar, destaca-se a constatação da maioria dos processados estar constituída por imigrantes portugueses (apenas um era italiano e um era argentino, possivelmente naturalizado). Em segundo lugar, o fato de apenas um dos casos referir-se a outro tipo de jogo que não o jogo do bicho. Finalmente, a constatação de que os processados acabaram escapando da expulsão, apesar do caráter inquisitorial dos processos que, em última instância, tinham decisão praticamente predeterminada.

As justificativas para a restituição da liberdade, por outro lado, reproduzem o exposto em outros processos: tratar-se de proprietário de casa comercial ou indivíduo trabalhador, ao que se acrescenta o fato do indivíduo já estar respondendo a processo instaurado pelo mesmo motivo. Como aparece na defesa de um dos processados, “em virtude da independência dos poderes, a faculdade outorgada ao Executivo de expulsar os estrangeiros não pod[ia] ser exercitada quando este [o indivíduo] se acha[sse] sob a ação direta do Judiciário”.[22]

Serafim Augusto de Almeida, português de Coimbra, foi processado com a idade de 49 anos, no ano de 1930, quando intensa repressão era desencadeada contra o “bicho”. Morador na Lapa, ele era solteiro e alfabetizado e havia chegado ao Brasil no ano de 1911, quando tinha 28 anos. Acusado de infringir o artigo 31 da lei nº 2321, foi qualificado como “bicheiro”. Preso e processado, constituiu advogado que impetrou habeas corpus no qual alegava “a improcedência da prisão vista a quantidade de pessoas que jogavam no bicho”: 30 milhões segundo o advogado, que acrescentava, em sua petição, o fato de, “nas campanhas policiais que de vez em quando [eram] postas em prática”, com vistas a “sufocar os jogos de azar”, elas serem dirigidas não contra os “compradores”, mas apenas “contra os vendedores”, o que, segundo ele, era um absurdo.[23]

Português de Viseu, Antonio Gonçalves de Moraes era empregado no comércio, casado e tinha 30 anos quando foi processado em 1930. Vivia no Rio de Janeiro desde os 13 anos e já fora preso processado outras vezes pelo mesmo motivo: o jogo do bicho. Como possuía vários bens no Brasil e estava casado há cinco anos com brasileira, provando, também, ser trabalhador, escapou da expulsão.[24]

Sapateiro por profissão, casado, analfabeto (só assinava o nome), Anibal Serrano, natural de Lisboa, tinha 39 anos quando foi processado em 1930, tendo entrado no Brasil quando tinha apenas 12 anos. Nos autos do processo consta um número da Revista Criminal, datada de fevereiro de 1929, que traz a notícia da prisão, com vistas expulsão, do estrangeiro e contesta a ação da polícia, declarando que ela era ilegal, tendo em vista que o acusado era proprietário de uma casa comercial, “não podendo, portanto, ser considerado vadio e estar sob ação da justiça.” Serrano acabou sendo posto em liberdade em 14 de abril do ano do processo: 1930.[25]

A análise destes processos aponta para duas questões importantes. Em primeiro lugar, o fato do jogo do bicho, por sua popularidade, ter grande capilaridade entre a população, encaminhando várias formas de resistência. Por outro lado as tensões permanentes entre os que estavam envolvidos com o jogo e a polícia, não raras vezes constituída por agentes que também gostavam do jogo, fingiam não ver a jogatina, espalhada por toda parte ou cobravam propina para não realizarem sua tarefa, acobertando a prática que se tornara generalizada.

A partir dessas observações, é possível dizer que

… também no Brasil, coexistiram diferentes atitudes perante o jogo ou, segundo as reflexões e palavras de Thompson, “persistiram atitudes populares em relação ao crime [e a contravenção], chegando a constituir um código não escrito totalmente diferente das leis do país”. Para Thompson, a “distinção entre o código legal e o código popular não escrito” pode ser observada em qualquer época,[26] razão pela qual – guardados os devidos distanciamentos temporais – consideramos que a existência paralela desses dois “códigos” – o não escrito e o legal – se manifesta no tocante à permanência do jogo do bicho como arma popular de resistência nos séculos que se seguiram a sua popularização.[27]

A coexistência acima enunciada mostra-se presente, também, nas formas pelas quais os jornais cariocas – destaque para o Jornal do Brasil – davam “dicas”[28] à população sobre o “bicho” do dia,[29] dispersando desenhos de animais pelas páginas do jornal, relatando sonhos, propondo adivinhações e outras tantas estratégias de disfarce, amplamente conhecidas pelos adeptos do jogo, que corriam às bancas de jornais, em busca dessas indicações; hábito tornado diário em uma cidade que, segundo o advogado de Serafim de Almeida, 30 milhões de pessoas jogavam.

Referências bibliográfica

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Medeiros, Simone (2014), Resistência e rebeldia nas fazendas de Café de São Carlos (1880-1914). Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.

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Menezes, Lená Medeiros de, Os Indesejáveis. Protesto, crime e expulsão na Capital Federal (1890-1930), Rio de Janeiro, EdUERJ, 1986.

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Sarmiento, Érica (2013), “Convívio e conflito nos trópicos: portugueses e galegos no Rio de Janeiro”, en Arruda, Jobson; Ferlini, Vera Lúcia Amaral; Matos, Maria Izilda Santos; Sousa, Fernando (coord.) (2013), De colonos a Imigrantes. I (E) migração portuguesa para o Brasil, São Paulo: Alameda, 2013, pp. 119- 130.

Thompson, E. P (1987), A formação da classe operária inglesa – I. A árvore da liberdade, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

[1] Sarmiento, Érica 2013, pp. 119- 130.

[2] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879, p.125.

[3] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879.

[4] Medeiros, Simone (2014).

[5] Popinigs, Fabiana (2007).

[6] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 703.

[7] Menezes (1996).

[8] Marcos Bretas ( 1997).

[9] Luís Edmundo (1967), v. 4, pp. 873-4.

[10] Chazkel, Amy (2011).

[11] Entrevista realizada no ano de 2000 a M. B. A identidade do imigrante foi preservada.

[12] Funciona até os dias atuais, localizada no bairro da Tijuca, ainda sob a gerência de imigrantes e descendentes galegos.

[13] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 1264. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

[14] Idem.

[15] Idem.

[16] Chazkel, Amy (2011), p. 50.

[17] Broullón Acuña, Esmeralda (2011), pp. 133-150.

[18] O tema da emigração portuguesa e do jacobinismo está bem desenvolvido no livro de Ribeiro. Ribeiro, Gladys Sabino (1987), P. 51.

[19] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. Depoimento da testemunha Joaquim Gomes dos Santos. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 2346. Grifo nosso.

[20] Vejam-se os decretos nº 1641 de 07 de janeiro de 1907 emº 4247 de 06 de janeiro de 1921. BR. Colecção das Leis da República de 1907 e 1921.

[21] Menezes, Lená Medeiros de (1996).

[22] BR. Arquivo Nacional. Setor do Poder Judiciário (SPJ), módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[23] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[24] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[25] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[26] Thompson, E. P. (1987), p. 62.

[27] Menezes. No prelo para publicação.

[28] Corruptela de “indicações”.

[29] V. Meira, Selena (1995).

Morte de Rei, de Darío Xohán Cabana: reescrever o passado para conhecer o presente

Angélica Batista

Estudante de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

cando haberá na nosa terra un rei que faga

florecer por onde pise o seu cabalo?

Morte de rei, p. 82

Resumo: Sabe-se que Morte de rei (1994), romance do escritor galego Darío Xohán Cabana (1952), é um modo de repensar sobre a escrita literária escrita em galego e uma revisão do que se convencionou chamar de galeguidade. Se a identidade nacional é uma comunidade imaginada composta por símbolos e representações (Cf. HALL, 2006), a Literatura e a História se comportam como “narrativas fundadoras” de uma comunidade. O texto escolhido, desta forma, coloca-se como uma resposta do presente a partir do olhar atento ao passado.

1)Morte de rei: um romance de enfrentamento

Um texto (ficcional ou não) está imerso em um sistema de valores sociais e, como discurso, pode também ser encarado nas perspectivas diacrônica e sincrônica, já que “o texto tem um contexto, e talvez a forma passe a ter sentido tanto por meio da inferência do receptor em relação a um ato de produção quanto por meio do próprio ato de recepção” (HUTCHEON, 1991, p.111). Morte de rei, de Darío Xoan Cabana, é um romance escrito em galego do fim do século XX e reconta a história de D. García II, último rei de Galiza, morto em 1090. Tanto seu tema como sua língua são escolhas não fortuitas que podem ser explicadas contextualmente. O conhecimento da história da literatura da Galiza e da revitalização da língua galega contribui no sentido de que é importante se refletir a importância da obra condutora dentro da cultura em que foi produzida.

2)História e cultura galegas: momentos de resistência

Durante parte da Idade Média, a língua galaico-portuguesa era a língua oficial das cantigas trovadorescas na época em que Portugal e Galiza formavam o mesmo território, antes da independência do primeiro e da unificação da Espanha (MARIÑO PAZ, 1998). Além das cantigas, as primeiras obras narrativas escritas em língua galega foram as de matéria artúrica, o que se constituiu em base para a construção do imaginário céltico da identidade galega. É inegável a influência da matéria de Bretanha e das gestas na literatura galega como um todo.

No período compreendido entre os séculos XIV e XVIII, conhecidos como os séculos de decadência, a língua galega sofre declínio, sendo desconsiderada como língua culta: o galego é substituído pelo castelhano, adotado como língua oficial espanhola. A unificação da Espanha pelos reis católicos fortalece os poderes de Castela e deprecia a língua e cultura galegas, transformando-as em objeto de escárnio. Por séculos, tentativas de utilização da língua galega como língua formal foram ignoradas, como, por exemplo, a do padre Martín Sarmento (1695-1772), que escreveu no decorrer de sua vida compêndios de botânica e medicina, além de dicionários de galego.

A partir do século XIX este cenário começa a mudar. O ideal romântico de volta às origens também aglutina intelectuais da ciência e da arte em um movimento cultural de afirmação galega. Como marco, pode-se eleger a publicação de Cantares galegos de Rosalía de Castro como forte pressão para a dignidade e reconhecimento da cultura da Galiza, já que foi um livro todo escrito em galego e se utilizou de imagens do cotidiano da província. Livros como o dicionário de Francisco Xavier Rodrigues e a gramática de Francisco Mirás (só para deixar como exemplo), em galego-castelão, também começaram a surgir como expressão do regionalismo crescente (Cf. ZAS, 1999). Deste modo, era necessária uma literatura

(…) que demonstrase a existência dunha nación diferenciada e, por tanto, con dereito a ser tratada como tal no conxunto do Estado español. Esta función identitária da literatura galega conforma unha das súas características fundamentais e, até fins do século XX, camiñou unidas aos movementos ideolóxicos e políticos que tiñan como obxetivo a defensa dos intereses galegos (FONTAÍÑA, 2004, p. 09).

No início do século XX, mais intelectuais adentraram na luta de valorização do galego. Infelizmente, estas vozes foram sufocadas pela Guerra civil e a ditadura de Franco. Manifestos, ensaios e assembleias eram atividades que ajudavam a fortificar o ideário do nacionalismo galego, que exigia em especial a autonomia da Galiza em relação ao resto da Espanha, além de uma organização que unisse Portugal a Galiza (ideia-embrião do conceito de Ibéria Atlântida, em que Portugal e Galiza eram uma só nação) pela língua, posto que o galego possui muitos traços do distante galaico-português e estaria mais próximo da língua portuguesa, e não da espanhola. Para Flavio García:

Para muitos romanistas, filólogos e linguistas – principalmente galegos, portugueses, brasileiros –, a língua falada na Galiza é uma variante cultural do sistema lusófono e, ainda que essa posição não seja unânime, a discussão é efetiva e efervesce os círculos linguístico e políticos da Galiza, já que atinge, diretamente, a questão fundamental da identidade e da autonomia. Enfim, as semelhanças são tão inegáveis que se pode mesmo falar de uma região homogênea no litoral atlântico ocidental da Península Ibérica (GARCÍA, 1999).

Em meados do século XX, um grupo de escritores que depois foram denominados de a Nova Narrativa Galega, influenciados pelo Novo romance e autores como Kafka, Joyce, Faulkner enriquecem a literatura galega com novas propostas estético-conceituais. Após esse movimento fortemente politizado, outros escritores iniciaram a luta que era escrever em galego. Para Manuel Forcadela

Unha vez máis, como unha Ave Fénix que renace das súas borrallas, mesmo depois de que moitos certificasen para sempre a súa morte, Galicia era quen de manifestar a súa vontade de ser no nacional e no político a través dunha serie de escritores que, sen poderen dar conta directa da súas ideas por mor das imposicións da censura franquista, conseguían que o só feito de escribir em galego, de dar conta do pulo creativo    deu a nosa língua seguía a ter, mesmo depois de ficar relegada ao máis completo dos olvidos oficiais, facendo que o mellor da xeración de escritores nacidos em Galicia ao mesmo tempo que se estaba a librar a contenda fratricida no resto do ámbito do estado decantase a súa práctica creadora da continuidade dos traballos abandonados polos exiliados e os vencidos (FORCADELA, 1993, p. 17).

Já para Mercedes Zas,

O obxectivo común a todos eles era a vontade de normalización do galego na escrita e o afán de renovación de temas e formas narrativa da nosa tradición literária. Así por exemplo, vaise producir um achegamento á cultura urbana e a súa problemática social, multiplicación de vocês narrativas, introdución do monólogo interior, ruptura no tratamento do tempo – analepses temporais –, uso moderno da língua que fai que aparezan cultismos e tecnicismos de diferentes disciplinas, ademais os galicismos ou anglicismos, e, póla contra, aisencia de hiperenxebrismos, tan ccomúns na época de Nós, dado o pouco afán diferencialista dos novos narradores/as. (ZAS,1999, p.58)

Após a queda do regime, novas editoras, jornais e revistas escritas na língua nativa surgiram. As crianças são alfabetizadas em galego e possuem programa próprio. No entanto, a importância do castelhano é ainda esmagadora e o número de falantes de galego decresce. Mesmo assim, a literatura galega tomou rumos bem interessantes. Para Gonzáles-Millán, a crítica normalmente destaca características como

contraste entre o vanguardismo rupturista da poesía e a lenta evolución da narrativa; (…) a consolidación de autores cunha obra significativa anterior a estes anos (…) a progressiva relevância da novela sobre o relato, e a expansión de determinadas modalidades narrativas (a infantil e a xuvenil, e a denominada novela de xénero), fenómenos estes últimos que adquirirían um espacial protagonismo n década seguinte, polo impacto cada vez máis visible da cultura urbana no imaxinario literário (GONZÁLES-MILLAN,1996,p. 19).

Para o autor, a dinâmica da literatura galega pós-1975 se dá pelas profundas mudanças que ocorreram na Galiza e no sistema literário como um todo: formação de prêmios literários importantes, consolidação de associação de escritores a cooficialidade do galego na administração pública e no ensino, além de métodos diferenciados para a renovação do galego. A confluência destes fatores modificaram a produção e consumo da literatura galega e deu a ela autonomia e legitimação. Como macrotemas da narrativa pós-franquista, pode-se destacar

a memoria, a identidade colectiva, o (auto)biografismo, a infância e a xuventude, a experiência urbana(…) a tensión (cada vez menos maniquea) entre mundo urbano e mundo rural e entre realidade e fantasia, a guerra civil, o paraíso perdido, a visión apocalíptica, o vello mito da Terra-Nai, a emigración e a autoconciencia da escrita literária. Sem dúbida, a representación da experiencia urbana debe figurar como un dos indicadores máis importantes nas transformacións temáticas da narrativa galega destes anos (GONZÁLES-MILLÁN, 1996, p. 55).

O nacionalismo literário tão caro a muitos autores galegos vem sendo paulatinamente abandonado pela geração pós-franquista, mas ainda atua na formação do imaginário galego “fundamentalmente porque as solucións políticas e sociais non teñen acadado a efectividade necesaria e desexada polos sectores máis comprometidos da sociedade” (Gonzáles-Millán, 1996, p.44). É nesta esteira que se encontra o autor estudado.

Darío Xohán Cabana iniciou sua carreira como poeta e tradutor. Em determinado momento, começou a escrever narrativas em que recuperava figuras do imaginário galego, além de literatura infanto-juvenil e ensaios acadêmicos. Como exemplos mais emblemáticos dessa recuperação de figuras histórico-míticas ou de cenários medievais em sua produção literária, estão os romances Galvan em Saor (1989), Cándido Branco e o Cabaleiro Negro (1992), Cervo na torre (1994), Morte de Rei (1996), além de poemas esparsos em vários livros que recontam as histórias advindas do imaginário galego. Grande tradutor e cultor da literatura nacional, Darío Xoan Cabana afirma

A literatura galega é unha literatura maior. ¿Ou acaso hai nas Españas un poeta de setenta anos coma Méndez Ferrín, ou unha poeta de trinta coma Olga Novo? O único que lle falta á literatura galega é a independencia nacional, pero iso fáltanos a todos, non só ós escritores. E sobrar non vexo que sobre nada: que nazan cen flores e que florezan cen escolas. Incluso os libros mediocres fan de base prós altos cumes. E os malos de todo, con non lelos xa está (http://armandorequeixo.blogaliza.org/)

Fortemente galeguista, Cabana tem como foco a identidade política e cultura da Galiza, pensando em sua província como uma nação contra-hegemônica que enfrenta Castela desde sempre. Sua preocupação com a formação e permanência de uma “mitologia galega” escoa em suas obras de forma contundente

Deste modo, percebe-se que a história e a literatura galegas sempre estiveram imbrincadas. Nada mais natural que o romance escolhido seja eco destes momentos de avanços e recuos na resistência de Galiza.

3)Aspectos de Morte de rei

Sabe-se que D. García II foi filho de D. Fernando I, o Magno, considerado por muitos o primeiro unificador do futuro reino da Espanha, e D. Sancha de Leão. D. Fernando I teve um reinado repleto de lutas e conquistas territoriais, obtendo, assim, a possibilidade de transformar, em reinos, três espaços para seus filhos varões: D. Sancho II, o forte, ficou com Castela; D. Afonso VI, o bravo, com Leão e coube a D. García II o reino de Galiza. Quanto às mulheres, Urraca ficou com o território de Zamorra e Elvira, com o de Toro, além das rendas de monastérios dos reinos.

A insatisfação de D. Sancho com o enlace paterno foi ignorada até a morte de D.Sancha em 1067. Logo após, ele iniciou uma luta entre os irmãos e tentou conquistar os seus reinos. Mancomunado com D. Afonso, resolveu dividir com este o reino de Galiza e aprisionou o irmão caçula em Santarém. Este conseguiu fugir e ficou exilado no Taifa (território mouro subserviente ao rei) de Sevilha por um ano. Nesse ínterim, D. Afonso, cujo reino também fora arrebatado pelo irmão mais velho, não aceitou ser seu vassalo e desistir de seu reinado e também partiu para o exílio em Toledo. Com isso, D. Sancho se intitulou rei de Castela, Leão e Galiza.

No entanto, D. Urraca não aceitou a soberania do irmão e continuou a resistir a seu mando e a conspirar com D. Afonso. No cerco à cidade de Zamorra, D. Sancho é atraiçoado pelo cavaleiro Vellino Dolfos em uma caçada. D. García II se aproveita e retorna à Galiza. Pouco tempo depois, contudo, D. Urraca e D. Afonso decidem se unir mais uma vez e convidam D. García II para uma reunião. Quando D. García II chega ao local, percebe que foi uma armadilha e seus cavalheiros foram desarmados ou mortos. Todas as tentativas de insurreição dos nobres galegos foram sufocadas e D. García, não aceitando a tonsura sugerida por seu irmão e autoproclamado rei de Castela, Leão e Galiza, foi preso. O rei traído permaneceu no castelo de Luna até a sua morte. Faleceu, finalmente, em 1090 e está enterrado no panteão de reis de Santo Isidoro em Leão com os grilhões que o acompanharam em seus últimos anos.

  1. Afonso VI, o Bravo, unificou os reinos de Leão, Castela e Galiza, tendo como conselheira principal sua irmã mais velha. Após a morte de D. García II, não houve mais reis com pensamento em uma Galiza independente. Mesmo havendo depois reis que se intitularam galegos, a política de centralização espanhola só ficou mais forte.

Morte de rei é um romance dividido em dois tempos de narrativa. O primeiro, com D. García ancião, encarcerado e com grilhões nas mãos e pés, retrata a visita de Amaro Érniz, ainda fiel vassalo, e a conversa de ambos sobre os acontecimentos do extinto reino. Nota-se uma tentativa por parte de Amaro em animar seu rei para iniciar uma rebelião, ideia rechaçada por um homem já descrente e alquebrado. O segundo tempo é o da juventude e início do esperançoso reinado de D. García II, notadamente construído como rei cavalheiro cristão e suas dificuldades em unificar a Galiza tentando cumprir sua promessa de dar pão a todos os galegos.

Percebe-se que há uma dicotomia nos dois tempos narrados: o primeiro é dividido pela esperança de um lado, representada por Amaro Érniz, e o fastio e desilusão por outro, de D. García. O segundo é impossibilidade do jovem rei de manter os direitos dos nobres e do clero, que entravam em choque com a promessa de restaurar o sentido de igualdade e liberdade entre os galegos. Tais sentimentos contrastantes se colocam como reflexo de uma sociedade fortemente hierarquizada e excepcionalmente mutável, que era a da Idade Média. Há, então, um clima de perda no romance. Existiu a possibilidade de se fazer um reino bom, justo e cristão, mas forças contrárias derrubaram e aprisionaram D. García II e o sonho dos galegos.

A retomada da história vivida pelas personagens com distância temporal auxilia uma maior compreensão por parte de D. García II sobre os aspectos politico-ideológicos que moveram seus irmãos para unificar a Espanha passando por cima da hegemonia galega. O velho rei admite no romance que sua atuação na história da Galiza foi apagada por meio de estratégias de poder e troca de favores. Como exemplo “real” dessa manipulação intuída no romance, a canção El cantar de Mio Cid, que trata da unificação espanhola e registra os jogos de poder dos irmãos de D. García II, não cita seu nome. Para Miguel Salás Diáz:

No es la selección de este episodio histórico lo que convierte este relato en mitología nacionalista; al fin y al cabo, en todos los mitos se entrelazan, con naturalidad, la realidad y la fantasía. Lo que hace de este relato un acto de manipulación política es el hecho de que su autor convierta una figura histórica real en una figura claramente mesiánica. Para ello renuncia al rigor histórico, a la verosimilitud –veremos que la novela está llena de anacronismos– y opta por convertir la historia de Galicia en un relato maniqueo, de tintes religiosos y escatológicos, en el que el Bien -representado por los galegos– y el Mal -que encaman los españoles – libran una batalla que solamente puede terminar en la victoria de la bondad y la consecuente llegada de una nueva Edad de Oro (DIÁZ, p. 337)

Outro aspecto a ser levado em conta é a presença do epílogo com o glossário de personagens históricos que são citados no decorrer da narrativa. São resumos das biografias das personagens da época e como foram importantes para a história da Península Ibérica. Neste aspecto, o Glossário com as personagens seria ao mesmo tempo uma informação histórica para os que não conhecem a época descrita e uma retomada do texto em sua forma discursiva mais ampla, fazendo uma ponte entre a escrita literária e a verdade histórica. A percepção da leitura do Glossário frente à ficcionalização da história é profícua no que tange à comparação entre a Literatura e a História.

Essa problematização se dá de forma cabal na presença do paratexto do romance condutor. O conceito de Gerard Genette de paratexto se faz importante quando se pensa nesse glossário como fonte de conhecimento histórico e estratégia narrativa bem orquestrada, já que paratexto estende e ressignifica o sentido do texto. Para Genette, os elementos de um paratexto “propiciam ao texto um encontro (variável) e às vezes um comentário, oficial ou oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado à erudição externa nem sempre pode dispor tão facilmente quanto ele gostaria e pretende” (apud ARAUJO, 2010,p.2).

Deste modo, Morte de rei é uma narrativa que revela os meandros politico-ideológicos que perpassam o imaginário galego. Voltar ao passado é uma estratégia de enfrentamento de questões ainda atuais. Repensar os documentos históricos ficcionalmente é buscar o desvelamento da história galega.

4)D. García II: o rei prometido?

Na obra de Darío Xoan Cabana como um todo, a figura de D. García II se faz presente como a de um herói puro, quase mítico. Em seu livro Galvan em Saor (1989), por exemplo, há a presença desta personagem comparada ao rei Artur. Ambos, García e Artur, são tratados como reis há muito desaparecidos, mas ainda presentes no imaginário de seus povos nos “contos de vellas”. D. García II é apresentado como o cervo que anda pelos montes.

Não será aqui aprofundada a influência da tradição artúrica na obra de Cabana (que também se alastra em seus poemas), mas é inegável que as imagens de um rei e de um passado perdidos se atualizam na construção da figura de D. García II. Ele apresenta características heroicas muito delineadas e luminosas: é alto, loiro, bom e superior física e moralmente. Isto é perceptível em especial no segundo capítulo de Morte de rei, quando o servo Erno Cernui, responsável pela educação do infante D. García e pai de Amaro Érniz, conta-lhe a lenda de um antigo rei galego, loiro (como o menino), vestido de ouro e seda branca que “por onde cabalgaba o rei as flores agromaban ainda que fose inverno, porque daquela non xeaba nunca e a neve duraba pouco tempo” (CABANA, 1996, p. 29). Erno Cernui deseja que García tome o rei mítico como exemplo. Percebe-se que esta lenda na construção da narrativa prenuncia todo comportamento de D. García II, rei muito preocupado em estar à altura de tão bonita figura lendária.

A história ocorre em uma Galiza mítica, uma terra sem fome e sem pobres. Como toda boa lenda, possui um herói perfeito cujos dois erros destruíram o destino de sua terra (o que demonstra que a morte do rei é a morte da terra, como ocorre com Artur). Quando avisado de que haveria uma grande tempestade anunciada por uma estrela cadente que resplandecia no céu por várias noites, o rei guardou todo o trigo do reino e deixou as chaves dos celeiros nas mãos dos barões. Este foi o primeiro erro do grande rei. O segundo erro foi o rei abandonar a sua terra por ter vontade de se casar com uma estrangeira. O rei sumiu no mar e nunca mais voltou. Os barões tomaram conta dos celeiros, colocaram um mau rei no lugar e transformaram homens livres em servos.

É muito singular essa lenda por ser posta em um momento em que o infante se pergunta o que é ser um bom rei. O servo Erno Cernui utiliza-se da historieta e conclui

Ti queres ser bon rei,e un bon rei non ten servos. O malo é que ser bon rei quizais era doado no principio do mundo, pero agora é difícil, porque o pecado da cobiza encheu a nosa terra, e hai moitos agravios e moitas feridas que curar, e tamén moitas soberbias que domear. Seres bon rei serache moi difícil, pero eu farei tanto canto puider pra che axudar, e onde non poida morrerei por ti (CABANA, 1996, p.31).

Percebe-se aqui a configuração do ideal de um herói diferenciado. Sentindo-se herdeiro de uma tradição imemorial, D. García II tenta atualizar a lenda buscando em toda a narrativa a volta dos tempos sem fome e sem servos, tendo como bússola a justiça e a igualdade. É um herói não de conquistas e de guerras, mas de distribuição das riquezas do reino, o que causou sua morte, visto que para a nobreza e clero “non convén a rei ocuparse em mesteres de viláns e de servos, que nin sequera cadran ben no máis pobre fidalgo” (CABANA, 1996, p. 187).

Outro ponto a ser evidenciado aqui é o prenúncio de homens que seguirão o jovem rei até a morte. Erno Cernui, assim como vários habitantes de Nemedón (povoado dos homens livres que escolhem seguir D. García II em sua fome de justiça), morre em nome do rei e da liberdade de lavrar em paz em um mundo destituído de cobiça e de servilismo. O rei prometido é o rei de um tempo áureo, e D. García II e seus seguidores querem instaurar esse tempo.

Esta luta se exprime nas palavras do servo quando ele defende as andanças do já rei em outro momento: “(…) A nosa xente agora come pan, graças ó que el nos dá. E algún día termos terras boas, cando haxa paz e seguranza enteira. Entremente iremos a onde el vaia, pois dános gusto ver facer xustiza” (CABANA, 1996, p. 119). Esta fome de igualdade e de liberdade é a causa da morte de todos e da culpa do velho rei, que se recusa a desistir do reinado mesmo quando prisioneiro.

Todo herói deve lutar por um ideal. O símbolo principal da política de D. García II é o pão. Percebe-se a presença do pão em toda a obra de diferentes formas: em refeições, em discussões teológicas, em brigas políticas. Esse ideal aparece logo no início da narrativa, quando o infante se perde na floresta e encontra uma velha que, não sabendo que está diante do futuro regente, oferece o pão que possui. Eis o diálogo que marca a vida do herói:

– este pan é moi raro.(…) Pero está bastante duro, e amarga un pouco moito.

– Porque é ferraxón de millo e landras, meu homiño. A boa gra no dura todo o ano na casa dos pobres.(…)

– (…) Agora que eu, cando sexa rei, hei de mirar porque haxa pan de trigo pra todo o ano en todas as casas de meu reino (CABANA, 1996, p. 23)

Logo após, a senhora descobre que o menino é realmente quem diz ser e pede: “mira polo pan dos pobres, filliño, e así serás bon rei” (CABANA, 1996, p. 25). A promessa do jovem é motivo de desespero do moribundo D. García II que, mesmo às portas da morte, pergunta como foram as colheitas e se haverá pão para os lavradores.

O pão é o motivo de discordância da personagem principal com todos os representantes de poder. A sua distribuição fere a ordem de exploração característica da Idade Média. D. Sancha avisa o protagonista que sua escolha pode ser desastrosa:

– Tamén os teus celeiros! ¡Gastas em trigo o máis das páreas que che mandan os mouros!

– ¿E se viñer um ano mao? ¿Que han de comer os pobres? Os frades non lles abren as súas tullas. Agás tomando em troca as terras que ainda non perderon. (…) ¿ E quen lle podo facer mal xuntando gra pra um ano de laceira?

– Ti mesmo o estás dicindo: a quen espera gañar terras cando faltar o pan nas casas. ¡Ai, meu filliño! Se teus irmáns se volven contra ti, non lles han de faltar axudadores nos teus propios vasalos (CABANA, 1996, p. 120).

Mesmo com os avisos da mãe e de outros amigos, D. García II continua com sua política de igualdade e deixa muitos descontentes. Seus vassalos murmuram contra seu reinado e deixam os servos em um estado de miséria, corroendo assim suas conquistas. O bispo Diego Páiz, porta-voz dos descontentes, afirma em dado momento:

Pensa que es dono do teu reino só por nós e pra nós; a nós nos debes facer ben, pois facéndonos ben afirmaste no trono. Pensa, señor, que levas a coroa de ouro: ¿ que podes ter que ver com rústicos de capucha de estopa? ¿ Que é o que che importa a ti que esa xentiña pase estreituras um inverno? Culpa será dos seus pecados, ou onde nos da súa imprevision. (…) ¿ Onde se viu xamais um rei facer tantas loucuras por homes baixos e servís que nada porteñen? (CABANA, 1996, p. 188)

Ignorando os maus, D. García II segue com o que considera certo e traz com a sua imprevidência e ingenuidade juvenis o enfraquecimento de Galiza. Pouco a pouco, perde seus territórios e seus vassalos e encontra deslealdades nos espaços mais importantes de seu reinado. Seus companheiros leais morrem e o inverno chega com grande fome.

A promessa de instituir uma nova Galiza, de formar uma nação pura e equânime é malograda. O cervo dourado foi esquecido e o pão não foi repartido. Grande dor e desesperança tomam conta da narrativa. Mesmo assim, percebe-se que o fraco rei ainda é uma ameaça pois

O medo ás represálias fai prudentes os homes: ainda pode xurgir outra vez a rebelión e abalar os três reinos baixo dos pés dun rei traidor. Eso temen alguns, mas Amaro Érniz nos o espera; e Don García de Galiza menos, mais Amaro nos quere dicirle ó rei encadeado que poucos amigos lle quedan xa entre os que teñen poder e a forza (CABANA, 1996, p. 15)

Mesmo morrendo e sem muitos vassalos, D. García II é uma força a ser reconhecida. A não aceitação do rei traidor é uma realidade. Se D. Afonso VI estivesse completamente acomodado em sua posição, não precisaria temer a revolta de D. García II, muito menos pedir sua tonsura reiteradamente. Esta fraca, mas constante pulsão da Galiza –incorporada por seu rei – é a resistência inequívoca da língua e cultura galegas frente à força estrangeira. Galiza nunca mais reconheceu outro soberano.

5)A maldição de D. García II: o poder do sangue

É interessante perceber na construção narrativa faces contrastantes da figura de D. García II. Ao mesmo tempo em que é um herói cujo destino é resgatar a Galiza mítica, percebe-se desde seu nascimento entraves para este resgate: o seu sangue carrega a “estirpe de Caim”, ou seja, era destino da prole de D. Fernando I ser desmembrada e rasgada pelos pecados do pai, que matou o irmão e o cunhado para obter poder.

O fato de existir luz e sombra, destino e maldição no elaborar da figura do último soberano resgata a ideia defendida anteriormente de que não existe uma verdade única e simples na narrativa escolhida. A complexidade da personagem está também em suas raízes, que se desdobra em um jogo alegórico muito rico: o cervo solto nas montanhas tem como destino ser perseguido pelo lobo e pela raposa, além de ser picado pela víbora.

As figuras elencadas acima são fruto de um sonho de infância de D. García na mesma noite em que ele jura ao povo de Nemedón terras férteis para lavrar assim que fosse rei (terras que ainda a serem conquistadas, diga-se de passagem). O fato de acontecer o mesmo sonho no dia de seu juramento já demonstra o que ocorrerá no decorrer da trama. Eis o sonho:

Soñei que eu era un cervo xigantesco que ía brincando de cume en cume, e vía todo o reino de Galiza con todos os seus vales e cortinas e cidades e vilas e lugares e camiños e fragas. E vía prás estremas do Merídia sítios quentes e fértiles dos reis de mourindade, onde estender o meu reinado pra darlles terras libres ós homes bos de Nemedón que seguían o cervo que era rei. E de pronto aquel cervo que era eu comezou a volverse pequeniño, e xa non vía máis cós dous arrós dunha congstra embazada de esterpes e xardón, e o cervo ía sangrando, perseguido por un lobo feroz e um gran raposo negro. Eu corría ferido, pero non me collían, e entón metín o pé nunha carrouceira de herba má, e adentoume unha víbora e cain, e xa non me puiden levantar, e o lobo e o raposo xa chegaban coas súas bocas de dentes afiados… (CABANA, 1996, p. 67)

No decorrer da narrativa, vai sendo delineado quem são o lobo, a raposa e a víbora. D. Sancho II é o lobo: vocifera e ataca sem pensar. Não esconde seu descontentamento com a divisão do reino. Todas as suas aparições estão relacionadas a brigas familiares e guerras. Guerreiro notável e respeitado, quando prende o caçula, tenta dobra-lo por meio da força e diálogo entre eles é impossível. Como lobo, é passional e perigoso, mas é honesto em sua caçada e não possui subterfúgios.

Já D. Afonso VI é a raposa, não demonstra seus sentimentos e espera o melhor momento para atacar. Oportunista, tece uma rede de informantes e aliados que derruba os dois irmãos. Quando finalmente consegue o trono por meio de traição, imediatamente inicia uma campanha de fortalecimento de sua posição por meio de chantagem e troca de favores. Compra vassalos e arma intrigas. Tudo com o discurso de que está fazendo o melhor para o reino.

Por fim, a víbora é D. Urraca, uma figura muito dúbia mesmo na tradição histórica: ela é retratada tradicionalmente como uma mulher ardilosa e tomada pelas paixões. Sua relação incestuosa com o irmão Afonso é escancarada no texto de Cabana e só é aludida por D. García II com muita mágoa. Ele considera a mentora de todas as suas agruras e desde o primeiro momento do texto é apresentada como alguém cujo amor é apenas do irmão favorito.

A relação entre os quatro irmãos e a guerra entre eles é assim definida por D. García II:

Non foi Sancho que o empezou, por máis que Afonso o queira facer crer pra se xustificar (…) Quizabes foi Orraca quem o encirrou contra el…Orraca tamén tiña um grande agravio contra Sancho, maior se cadra ca comigo… ás veces creo que nos ser por ela, nosoutros ó mellor non chagabamos… mas esse non vale pra falar (…) Que Deus a faga arrepender com verdadeira contrición antes da morte corporal (CABANA, 1996, p. 166).

É Urraca que, mesmo não tendo muitas falas no romance, coloca-se como a grande causa da queda do irmão, que não a perdoa junto com o rei traidor. Tal sentimento não se estende ao D. Sancho II, não só por ser morto de forma vil, mas por ser honesto sobre suas atitudes.

O destino dos irmãos é anunciado na narrativa no momento em que D. Fernando I reflete sobre a vida de reis:

¿É igual a Lei de Deus prós reis ca pró resto dos homes? Se é igual ¿ por que nos fxo reis? (…) Matei coas minas mans o meu cuñado, fixen matar o meu irmán, matei e fixen matar milleiros doutros homes que tamén eran meus irmáns por nosso pai Adán, e tomei reinos e riquezas pola forza da espada. (…) Matei os meus irmáns, son da liñaxe de Caín. ¿Estamos condenados os reis ó fatricidio? (…) Crimes que nacen doutros crimes, maldición de Caín que nos persegue!(…) Deus faga que a túa vida nos se encontre coa espada fratricida, nin coas insidias que usa a covardia (CABANA, 1996, p. 80-81).

Após esta reflexão, D. Fernando I aconselha ao filho mais novo amar os irmãos, mas nunca confiar plenamente neles. A cobiça dos irmãos mais velhos é um contraste com a simplicidade do protagonista, que nasceu rei, mas não o desejava, ao contrário de seu pai, que cobiçou e ganhou a coroa por meio da espada.

Os pecados do pai reverberam na vida de seus filhos. D. Fernando I não consegue uma morte tranquila: enquanto agonizava, seus filhos lutavam por territórios e gritavam uns com os outros. Suas últimas palavras são um vaticínio revoltado:

Cheiro a cobiza! Maldita sexa nossa condición, e todos estes ruíns traidores que non agardan máis cá miña morte… a cabeza lles tiña que pinchar… ¡Ai, todo é caste de Caín! Magnates, bispos, infanzóns…¡Abel morreu sen inzo! A sangue e lume tiñas que… A puta da Babilonia… Agarda, agarda… A puta… Ouh, que trapela, fillo, que cilada…¡Ouh, como a armaron, o raposo e a bicha! Vólvete atrás, defende o reino, que non se che apoderen no teu reino… Os castelos… escoita, escoita… (CABANA, 1996, p. 128)

Percebe-se aqui que não era possível a restauração da Galiza, posto que o rei escolhido estava destinado a ser estraçalhado por seus irmãos da casta de Caim. Como Abel, D. García II somente precisou nascer para ser benquisto pelos pais e pelo povo galego. Como todo herói, chamou para si os olhares de vilões muito poderosos. Mas ao contrário dos heróis tradicionais, não conseguiu vencer seus oponentes com o poder da bondade e da justiça. Galiza ainda espera seu rei.

6)Reflexões

Na obra escolhida, a Literatura se utiliza da História e estende seu sentido. Em nenhum momento se constrói a ideia de que o passado é melhor ou pior que o presente, mas é uma história não terminada que fere as relações atuais. O romance condutor:

(…) confronta o passado com o presente, e vice-versa. Numa reação direta contra a tendência de nossa época no sentido de valorizar apenas o novo e a novidade, ele nos faz voltar a um passado repensado, para verificar o que tem valor nessa experiência passada, se é que ali existe mesmo algo de valor. Mas a crítica de sua ironia é uma faca de dois gumes: o passado e o presente são julgados um à luz do outro (HUTCHEON, 1991, p. 63).

Nesta perspectiva, o texto condutor é ponte para a reflexão da verdade na construção narrativa, tendo em vista a revisão do conceito de metaficção historiográfica. Esse conceito tem por característica a utilização de personagens e/ou acontecimentos históricos por meio da problematização da ideia de Literatura e de História a partir da autorreflexão da própria escritura literária. Para Linda Hutcheon

Mais do que negar, ela (a metaficcçao historiográfica) contesta as “verdades” da realidade e da ficção – as elaborações humanas por cujo intermédio conseguimos viver em nosso mundo. A ficção não reflete a realidade, nem a reproduz. Não pode fazê-lo. Na metaficção historiográfica não há nenhuma pretensão de mimese simplista. Em vez disso, a ficção é apresentada como mais um entre os discursos pelos quais elaboramos nossas versões da realidade, e tanto a elaboração como sua necessidade são o que se enfatiza no romance pós-modernista (HUTCHEON, 1991, p. 64).

É possível então dizer que está em xeque o conhecimento histórico e o acesso que temos do passado. A estruturação da personagem D. García II evoca um problema que transborda as páginas da obra e pergunta o que é memória e como o discurso histórico pode ser facilmente moldado pelos inimigos de um rei fracassado, tornando-se, assim, algo que pode ser editado, uma realidade fragmentada. O discurso histórico, editado pelo ficcional, é uma tentativa de relativizar os conceitos de real e de hegemônico na comunidade estudada

A personagem ficcional é ao mesmo tempo ícone de um passado que poderia ser glorioso e exemplo de uma ingenuidade estéril, sem ações válidas para a construção de uma Galiza forte e independente. No fim, há uma literatura pouco nostálgica que se utiliza da história moldada para construir um outro olhar, uma nova perspectiva dos problemas galegos. Erros do passado estão sendo repetidos no presente? Ou é o presente que, ao vislumbrar o passado, percebe seus erros?

Isto não significa que a partir de Morte de rei respostas serão achadas. Pelo contrário, há a negação de uma resposta do que é Galiza, do que é passado, do que é memória. O texto do século XX se coloca como uma versão, como contraponto de uma verdade que se atualiza e se questiona. Como os leitores lidarão com isto é motivo de outra discussão. Sabe-se, no entanto, que para um povo que até hoje não conseguiu sua plena autonomia político-social, o diálogo entre a literatura e a história é sim um caminho para se construir uma nova literatura e uma nova história.

Referências  

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