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A opera omnia de Rosário Suárez Albán e a revitalização dos estudos galegos na Bahia

Juan Boullosa

 Bolsista do Centro de Estudos de Língua e Cultura Galega (CELGA) da Universidade Federal da Bahia

Ganhador do 1º prémio ao melhor trabalho galego convocado pelo Centro de Estudos da Língua Galega (CELGA) do ano 2015 na Universidade Federal da Bahia.

 RESUMO

Este ensaio tem como objetivos principais apresentar o projeto de edição da opera omnia de Profa. Rosário Suárez Albán[1], fundadora do de Estudos da língua e Cultura Galegas (CELGA) – núcleo acadêmico vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) – e problematizar de que forma este contribui para a revitalização dos estudos galegos em Salvador. Tal projeto toma como base o conjunto de obras da mencionada investigadora, docente aposentada desta instituição universitária, que pelo trabalho exímio e idôneo desenvolvido junto ao Centro de Estudos Galegos (CEG) e posteriormente ao CELGA, destacou-se pelas diversas pesquisas na área. Estão catalogadas até o momento em torno de 20 obras, algumas de sua autoria e outras de autoria compartida. São publicações próprias, artigos, livros, comunicações etc. Todas essas obras formam então o corpus do projeto e será através dele que trataremos da revalorização da cultura da Galícia. Salientamos que este corpus ainda está em construção, dada a situação de dispersão em que se encontram as obras. Apresentado o projeto, discutiremos as dificuldades e os percalços inerentes a este labor filológico e os critérios adotados para a sua solução. Por fim, traçando este panorama e as contribuições deste projeto para os estudos galegos, almejamos tecer algum comentário sobre o futuro destes e do próprio CELGA na Bahia.

1 INTRODUÇÃO

Muitos anos se passaram desde as primeiras emigrações ocorridas na Galícia. Estamos falando de mais de cem anos de história. Uma história sofrida, feita de muitos homens e mulheres que “abandonaram” seu passado e seu presente para garantir um futuro melhor. Enorme é a quantidade de relatos que se tem dessa época, de jovens que saíram sozinhos em busca de um emprego, de homens que deixaram filhos e esposa para trás, de mulheres que nunca mais tiveram notícia de seus entes queridos…. Hoje, o que temos como fruto dessas corajosas e muitas vezes dolorosas iniciativas são comunidades galegas espalhadas por todo o mundo. Alemanha, Argentina, Chile, Cuba, Estados Unidos da América (EUA), França, Brasil, estes são apenas alguns dos vários destinos escolhidos pelos desbravadores galegos. Sim, desbravadores, porque apesar do medo e do horizonte incerto que tinham, não recuaram, seguiram adiante, explorando esse mundo novo. Estes galegos deixaram marcas nas cidades aonde chegaram. Não se trata somente de marcas materiais, mas também socioculturais, que se expressam de maneira mais ou menos acentuada não só pela linguagem, mas também pela intensa forma de produção e apropriação do espaço a sua volta.

Os galegos e galegas foram verdadeiros agentes dentro do processo de formação cultural por onde passaram, criando, alterando esses espaços e deles se apropriando conforme sua própria lógica. Segundo Harvey apud Corrêa (1997), a cidade pode ser considerada uma expressão concreta de processos sociais construídos sobre o espaço, refletindo, por extensão, as características da sociedade. Por isso, nos casos em questão, é impossível dissociar cada uma dessas sociedades da comunidade galega que acolheram. Sendo evidente a importância desses emigrantes para a construção da história galega e de tantas outras culturas, justifica-se a necessidade de um estudo que abranja os aspectos culturais, linguísticos e históricos galegos na sociedade baiana, mormente a soteropolitana.

2 UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O PROJETO

Podemos dizer que o projeto toma como seu objeto de estudo não um daqueles desbravadores, mas o fruto desse desbravamento. Rosário Suárez Albán, filha de emigrantes galegos, torna-se uma importante representante dentro deste âmbito histórico e linguístico. Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestra em Língua Portuguesa pela mesma instituição (pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística), desenvolveu ao longo dos anos diversas pesquisas sobre o desempenho linguístico dos galegos na Bahia. Serão estes estudos o foco do nosso trabalho. Foram mais de trinta anos de magistério e várias produções, divididas entre artigos, livros, comunicações em eventos, dissertações, material que compõe o corpus do plano de pesquisa, que nasce inspirado pelo valor do legado material e imaterial de tais escritos para os estudos linguísticos e literários sobre a língua, cultura e literatura galegas. Apesar da relevância dos de Suárez Albán, suas obras encontram-se esparsas, algumas delas praticamente inacessíveis, fazendo-se então necessária uma compilação fidedigna desse material e uma possível recuperação daqueles que por ventura estiverem deteriorados. Trata-se de um labor filológico que parte do resgate, visando a publicação e disponibilização deste espólio para todo o público, dilatando o alcance da obra.

2.1 BREVE TRAJETÓRIA ACADÊMICA DE ROSÁRIO SUÁREZ ALBÁN[2] 

Antes de prosseguir com a explanação sobre o projeto, é cogente mencionar a trajetória acadêmica desta que deu origem a todo este diálogo e que honra sua ascendência galega com toda a sua competência e vida dedicados à língua galega. Como já foi dito em caráter introdutório, Maria del Rosário Suárez Albán, é filha de imigrantes galegos radicados na Bahia. Após os estudos primários e secundários, ingressa, em 1970, através da seleção do vestibular, no curso de graduação em Letras Vernáculas da UFBA, dando início, em 1976, ao seu Mestrado, desenvolvendo pesquisa sobre o desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia, sob a orientação da Profa. Myrian Barbosa da Silva, havendo defendido sua dissertação em 1978. Já no primeiro ano de seu curso de mestrado, é admitida — via concurso público — como docente efetiva do Departamento de Letras Vernáculas desta mesma universidade, múnus que desempenharia eximiamente por quase três décadas. Foram 30 anos de magistério dedicados a ministrar disciplinas como: Análise Textual da Língua Portuguesa, Dialetologia do Português, Estudo das Normas Urbanas Cultas Brasileiras, História da Língua Portuguesa, Introdução ao Estudo Científico da Língua Portuguesa, Literatura Popular, Língua Portuguesa na Comunicação de Massas, Morfossintaxe Sincrônica da Língua Portuguesa e Iniciação Científica da Língua Portuguesa no 1º e 2º graus.

Suárez Albán lecionou também em cursos de pós-graduação lato sensu (circunscritos à UFBA, à UEFS ou à UNIFACS), principalmente a disciplina Técnicas de Redação. Participou de inúmeras atividades de extensão universitária e o exerceu funções administrativas dentro da UFBA, mas a esfera em que se destacou foi no desenvolvimento de rotas de pesquisa científica, muitas vezes em parceria acadêmica com a sua eminente colega Doralice Fernandes Xavier Alcoforado (in memoriam), no âmbito dos projetos Norma Urbana Culta Brasileira (NURC) e Documentos da Memória Cultural. A obra de Suárez Albán por si só já testemunha a sua dedicação às áreas do saber às quais consagrou toda a sua trajetória intelectual e docente: os estudos linguísticos e literários em geral; os estudos sobre a língua, cultura e literatura galego-portuguesas, em particular. Devotada à sua terra natal, a Galícia, construiu uma produção quantitativa e qualitativamente considerável sobre diversos temas ligados a essa comunidade autônoma, mormente sobre o seu romanceiro popular trazido ao território cultural baiano e nele encrustado, o desempenho linguístico de imigrantes galegos e o delineamento do próprio processo histórico da migração de seus compatrícios.

2.2 ESCOPOS E METAS DA PROPOSTA

Pormenorizando, tem-se como objetivos principais do projeto:

  • A edição de todos os trabalhos da pesquisadora para criar um volume que contenha sua opera omnia, a modo de homenagear a sua trajetória profissional e intelectual na UFBA.
  • O estudo crítico da sua obra, em especial sobre aspectos concernentes à linguística comparativa entre o galego e o português e os fundamentos teóricos e metodológicos que a sustentam, abarcando também os trabalhos referentes à literatura de tradição oral dos imigrantes galegos na Bahia.
  • O resgate destas obras do abandono em que se encontram para trazê-las novamente à luz de novas discussões.

2.3 ASPECTOS METODOLÓGICOS: A ROTA DE INVESTIGAÇÃO

A metodologia traçada está baseada, inicialmente, no rastreamento das obras. Grande parte delas está disponibilizada na Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa (BURMC) e facilmente localizadas por um buscador online[3] desenvolvido pela própria UFBA e de livre acesso aos estudantes. Contudo, existe outra parte, não menos importante, que está fora dos limites da universidade e, por isso, de difícil contabilização. É aquela que está sob os cuidados de familiares, amigos, colegas que participaram de alguma forma da vida acadêmica da fundadora do CELGA. Estes materiais, até então desconhecidos, chegam até a equipe responsável pelo projeto através de uma árdua pesquisa e consulta feita com cada um desses potenciais mantenedores. Tudo isso acaba dificultando o andamento das atividades, que ficam dependentes do aparecimento de uma nova obra a ser incorporada, o que nos faz considerar tal labor como fluido e escorregadio, pois é aberto.

Após a compilação dos materiais que formariam o corpus do projeto, surge a segunda etapa, que é a digitalização e digitação dessas produções. A digitalização em si é um processo “simples”, pois se resume a separar e escanear as obras. Sendo a intenção salvaguardar os documentos e disponibilizá-los em meios mais acessíveis, a digitalização seria o suficiente. Porém, muitas obras estão com seu suporte deteriorado pela força do tempo, o que impossibilita o escaneamento, sob a pena de danificar os originais.

Temos também a questão da publicação de um livro abrangendo essa opera omnia e por questões de formatação, os arquivos com extensões como: JPEG, BMP, TIF, PNG, GIF, PBM, PGM e PPM, dificultariam a produção do mesmo. Tomando como ideal então a edição no formato DOCX – textos produzidos pelo Microsoft Office Word – optamos por digitar as obras ou utilizar programas que convertam estes formatos para o standard do projeto. Feita essa passagem das produções para um formato digital, entra em ação a última etapa, que é a da edição. Todos os textos digitados são minuciosamente examinados e passam por alguns critérios de edição semi-diplomática, respeitando-se ao máximo o original e fazendo apenas algumas alterações indispensáveis. Fazendo parte do escopo a autenticidade das obras e o respeito às características originais das mesmas, tem-se como um dos critérios, e talvez o mais importante, manter o mais fidedigno possível o texto digitado ao correspondente original. Permite-se apenas a atualização de alguns constituintes sem a perda ou mudança do valor atribuído a ele, como ocorre com a questão ortográfica e com a tabela utilizada nas transcrições fonéticas, por exemplo. Toda e qualquer mudança que possa ocasionar, de alguma forma, algum tipo de perda do conteúdo original será devidamente explicada através de notas. Isso porque, segundo Bassetto (2001, p.43),

[…] o trabalho filológico tem por objetivo a reconstituição do texto, total ou parcial, ou a determinação e o esclarecimento de algum aspecto relevante a ele relacionado. Estende-se desde a crítica textual, cujo objeto é o próprio texto, até as questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade, a datação etc., e o estudo e a exegese do pormenor.

2.4 O CORPUS

Em sua trajetória acadêmica-intelectual, Rosário Suárez Albán edificou um espólio bibliográfico de relevância, abrangendo desde alguns temas mais intrinsecamente linguísticos (voltados à dialectologia, à sociolinguística, à linguística textual), até aqueles mais achegados à esfera da literatura e da cultura (romanceiro tradicional, contos populares, imigração). Salientando que este projeto se encontra numa fase inicial, até então são estes os constituintes principais de seu corpus:

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (2000). As versões orais de A Nau Catarineta no Romanceiro Geral Português. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA ORAL DO NORDESTE, 2., 2000. Salvador. Do oral ao escrito: 500 anos de história do Brasil. Salvador: Universidade do Estado da Bahia. p. 31-36.

______. (1999). Romanceiro galego na Bahia: sua face lingüística. In: Congresso Internacional de Estudos Galegos, 5., 1997. Trier. Actas… Galícia: s/n. Vol. II. p. 917-926.

______. (1998a). Os ecos do Romanceiro Ibérico no Litoral Norte da Bahia: temas e formas. A Cor das Letras, n.02, p.79-89.

______. (1998b). Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. v. I. 246p.

______. (1998c). Confronto temático entre o romanceiro ibérico e o brasileiro coletados na Bahia. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO DE LINGÜÍSTICA E FILOLOGIA DA AMÉRICA LATINA, 4, 1990, Campinas. Atas… Vol. V. p. 247-253.

______. (1998d). Ser Galego na Bahia: Ontem e Hoje. In: SIMPÓSIO DA LÍNGUA E CULTURA GALEGAS, 1., 1998, Salvador. Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 235-246.

______. (1997). O Romance/cantado/recitado/narrado na Bahia. In: JORNADA SERGIPANA DE ESTUDOS MEDIEVAIS, 2., 1996, Aracaju. Atas… Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura. Vol. I.

______. (1996a). Em busca do Romanceiro: seis anos depois. Revista Internacional de Língua Portuguesa, n.15.

______ . (1996b). O Romanceiro ibérico na Bahia. Euro América – Uma Realidade Comum, p. 165-187.

______. (1996c). O que marcar e o que não marcar na transcrição de textos orais. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA E O ENSINO DA LÍNGUA MATERNA, 1., 1993, Salvador. Diversidade Lingüística e o Ensino da Língua Materna. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 165-181.

______. (1992). A memória do religioso no Romanceiro ibérico. In: Encontro Nacional da ANPOLL, 7., 1992, Porto Alegre. Atas… Vol. VII.

______. (1989). A inmigración galega na Bahía. Revista da Comisión Galega do V Centenário, v. I, n. I, p. 21-47.

______. (1984). Aspectos de interferência lexical no português de imigrantes galegos. Estudos, n.01, p.6-29.

______. (1983). A imigração galega na Bahia. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Centro de Estudos Baianos, 1983. 29 p.

______. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

A este conjunto se somam outras publicações em anais de congressos, produções de matiz artístico-culturais e comunicações em seminários, mesas-redondas e simpósios científicos da área de Letras.

2.5 DIFICULDADES

Desde o aparecimento da escrita e seu uso na comunicação interpessoal, o homem já apontava a necessidade de constituir um conjunto de normas e procedimentos para auxiliar a transcrição textual, com o objetivo de evitar alterações, reduções e acréscimos que os copistas, por descuido ou incúria, intercalavam ao texto, gerando problemas. No caso das obras analisadas, o cuidado recai sobre os seguintes aspectos:

2.5.1 Imagens

Muitas imagens utilizadas estão escurecidas devido ao tempo ou ao método utilizado para a sua reprodução no papel, como é o caso da imagem de Castelao (figura 01) presente na dissertação de mestrado de Suárez Albán. Outras, como os gráficos utilizados neste mesmo estudo (figura 02), estão desbotadas ou até rasuradas e, por isso a importância de sua edição e tratamento. Para as imagens optamos por trabalhar com os originais, dada a raridade de algumas delas, enquanto para os gráficos preferimos refazê-los, respeitando sempre as respectivas diretrizes.

Figura 01. In: Suárez Albán (1979, p.22).

Sin título

Figura 02. In: Suárez Albán (1979, p.71).

 Sin título.png 

2.5.2 Textos 

Ao longo do processo de digitação, diversos problemas foram aparecendo, alguns bem simples (de caráter ortográfico, cuja solução adotada foi a sua respectiva atualização) e outros de formatação, que foram analisados caso a caso. Cada um foi problematizado e interpretado segundo o seu uso, forma e contexto. A tabela abaixo ilustra alguns exemplos das irregularidades mais comuns encontradas no corpus:

Original Área da mudança Modificação
lingüística Questões ortográficas linguística
contacto; dialectología contato; dialetologia
sócio-cultural sociocultural
espaçamento, fonte, tamanho, recuo etc. Questões de formatação *variável

2.5.3 Transcrição fonética 

Na dissertação de Suárez Albán também há uma tabela fonética utilizada para transcrever as falas de seus entrevistados. Como destaca Rodríguez (em artigo no prelo), coautor do projeto, a transcrição utilizada é fundamentalmente ortográfica, daí ser o vocábulo mórfico e não o fonético-fonológico, a unidade básica do estudo. Contudo, assinalamos por meio de transcrição fonética certos fatos linguísticos relevantes, em especial quando mostram interferências entre o galego e o português. Devemos ter em conta, portanto, que a autora nunca pretendeu fazer uma descrição fónica exaustiva dos materiais e que a escolha dos símbolos esteve condicionada pelos recursos mecanográficos disponíveis.

Transcrevemos:

  1. a) a expressão correspondente a vocábulos mórficos exclusivos do galego como [em’sebre] (pgt. típico), [ke’dow] (pgt. ficou), [‘fiso] (pgt.fez);
  2. b) o segmento fônico que revela uma interferência do galego, como fi[s]era, pa[rt]e, nó[s], m[ayr] f[ay] (pgt. mas faz), ou vários segmentos para não interromper a representação da unidade silábica, como [ceha’ba]mos em vez de [c]e[h]a[b]amos;
  3. c) o segmento fônico que revela uma flutuação na seleção de fonemas do português, como [‘azu] por acho.

Na edição, optamos por refazer a transcrição utilizando o Alfabeto Fonético Internacional (IPA). Rodríguez (em artigo no prelo) ainda salienta algumas dificuldades derivadas dessa modificação:

  1. a) A vogal anterior semifechada [e] e a vogal central semifechada [ə] transcrevem-se com o mesmo símbolo [e].
  2. b) A vogal central aberta [a] e a vogal anterior entre aberta e semi-aberta, que interpretamos como [ɑ], transcrevem-se com o mesmo símbolo [a].
  3. c) Os alófonos aproximantes das oclusivas sonoras [b], [d] e [g], que a autora define como “variantes posicionais com oclusão incompleta”, transcrevem-se com os mesmos símbolos [b], [d] e [g].
  4. d) Os alófonos palatalizados das oclusivas dentais, que a autora define como “variantes posicionais com diversos graus de palatalização”, transcrevem-se com os símbolos [tʲ] e [dʲ]. Embora saibamos que se está a referir a variantes africadas ([ʧ], [ʤ]) com elemento oclusivo mais ou menos marcado, achamos preciso preservar a fidelidade à definição da autora e colocar o símbolo [ʲ] do Alfabeto Fonético Internacional para indicar esses “diversos graus de palatalização”.
  5. e) O símbolo [ ͜ ], que serve para marcar a formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte, foi suprimido, pois atualmente se encontra em desuso.

Destas revisões surge então uma nova tabela de transcrição, contendo os símbolos originais e os seus respectivos correspondentes do IPA:

Quadro de correspondências entre símbolos fonéticos

VOGAIS
i vogal anterior fechada

ex.: gal. e ptg. rio; gal. aprendín; ptg. doce

i
vogal anterior semifechada / vogal central semifechada

ex.: gal. e ptg. poder; gal. xente, entón

e
vogal anterior semia-berta

ex.: gal. e ptg. festa; gal. alguén

ɛ
a vogal central aberta / vogal anterior entre aberta e semi-aberta

ex.: gal. e ptg. casa; gal. irmán

a
vogal posterior semi-aberta

ex.: gal. e ptg. porta

ɔ
vogal posterior semifechada

ex.: gal. e ptg. hoxe / hoje; gal. lobo, non

o
u vogal posterior fechada

ex.: gal. e ptg. outubro; gal. fun; ptg. portu

u
SEMIVOGAIS OU SEMICONSOANTES
y anterior fechada / palatal sonora

ex.: gal. e ptg. mais, cantei; cast. ocasión

j
w posterior fechada / velar sonora

ex.: gal. e ptg. meu, água

w
CONSOANTES
p oclusiva bilabial surda

ex.: gal. e ptg. porto

p
b oclusiva bilabial sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. baixo; gal. verde; gal. e cast. estábamos

b
m bilabial nasal

ex.: gal. e ptg. mar

m
t oclusiva línguo-alveolar surda

ex.: gal. teño, tiña; ptg. tenho

t
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. tinha, gente

d oclusiva línguo-alveolar sonora / variante posicional de oclusão incompleta d
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. disse, verde

n línguo-alveolar nasal

ex.: gal. e ptg. nariz; gal. ninguén

n
linguopalatal nasal / variante posicional com diversos graus de palatalização

ex.: gal. tiña, teñen; ptg. ninho

ɲ
k oclusiva linguovelar surda

ex.: gal. e ptg. carro, quero

k
ɡ oclusiva liguovelar sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. gordo, agora

ɡ
ŋ linguovelar nasal

ex.: gal. corazón (+ e paragógica)

ŋ
f fricativa labiodental surda

ex.: gal. e ptg. festa

f
v fricativa labiodental sonora

ex.: gal. e ptg. vaca, livre

v
θ fricativa interdental surda / variante posicional sonora

ex.: gal. e cast. veces; gal. voz meiga

θ
s fricativas predorso e ápico-alveolares surdas (co-variantes do galego e do castelhano)

ex.: ptg. e gal. sal, negocio; gal. soidades, nós

s
z fricativa línguo-alveolar sonora

ex.: ptg. casa azul, existit

z
fricativa linguopalatal surda

ex.: gal. xóia, fixo; ptg. chegar

ʃ
fricativa linguopalatal sonora

ex.: ptg. já, gente, acarajé

ʒ
africada linguopalatal surda

ex.: gal. chegar, chamar, falaches

ʧ
l lateral línguo-alvaolar

ex.: gal. e ptg. lugar; gal. último

l
lateral linguopalatal

ex.: gal. filloga; cast. gallego

ʎ
r vibrante simples línguo-alveolar

ex.: gal. e ptg. dinheiro; gal. serán

ɾ
vibrante múltipla línguo-alveolar

ex.: gal. rapaza, carro

r
h fricativa faríngea surda (co-variante da oclusiva velar sonora do galego e co-variante da vibrante múltipla línguo-alveolar do português)

ex.: gal. gañar, agora; ptg. rua, carro

ħ
x fricativas velar e uvular surdas (co-variantes do castelhano)

ex.: cast. Jesús, gente, dijo

x
OUTROS SÍMBOLOS
* fones não identificados *
ˈ indica sílaba acentuada, precedendo-a ˈ
[ ] delimitação da transcrição fonética [..]
͜ formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte de acordo com as regras de fonética sintática do galego  
(…) trecho suprimido (…)
(= ) tradução para o português, também indicada por (ptg. ) (= )
(RAP) emissão muito rápida de um segmento precedente (RAP)
(ENF) emissão em tom enfático de um segmento precedente (ENF)
(ININT) trecho ininteligível (ININT)
(SUPERP) trecho de audição prejudicada pela superposição da fala do documentador ou de terceiros (SUPERP)
(RINDO) emissão acompanhada de riso; do mesmo modo, outras expressões ou gestos (RINDO)
DOC. documentador DOC.
INF. informante INF.
INTERL. um terceiro participante do inquérito INTERL

2.6 RESULTADOS PARCIAIS

Das produções selecionadas para o corpus, já estão finalizadas, quanto à digitalização e digitação: Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia; o Romanceiro ibérico na Bahia; a comunicação: Ser galego na Bahia: ontem e hoje, apresentada no Simpósio de Língua e Imigração na América Latina e o livro Vozes do ouro: a tradição oral em jacobina. O projeto foi apresentado em muitos eventos, destacando-se o I Encontro Brasileiro de Estudos Galegos (I EBEG), pela difusão internacional que teve e pela participação de grandes investigadores da Galícia. Esperamos conclui-lo no ano de 2016 ou 2017, e com a sua eventual publicação em formato digital e físico.

2.7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante um largo período, o CEG desenvolveu diversas atividades relacionadas ao galego, sob a coordenação de Rosário Albán. Muitos artigos e ensaios de cunho linguístico e cultural foram apresentados e também uma peça de teatro, Os vellos non deben de namorarse, a primeira e até o momento única peça apresentada totalmente em galego no Brasil. Porém, com o passar dos anos o CEG, já sob a forma de CELGA, teve suas atividades consideravelmente reduzidas com o afastamento da Profa. Albán. Sucessivas trocas de coordenadores e um período sem direção fizeram com que este que fora um grande e producente instituto quase caísse no esquecimento. Durante o ano 2013, por exemplo, produziram-se numerosos problemas administrativos com relação a oferta de disciplinas de galegos na UFBA, o que acabou obrigando que os alunos se inscrevessem durante períodos extraordinários de matrícula. Mas o novo quadro de gestores do CELGA e o estabelecimento de uma boa relação com os diferentes órgãos da universidade e de outras instituições nacionais ou estrangeiras possibilitaram a superação dessas e de outras adversidades. Desde então, além das matérias de galegos que passaram a ser disponibilizadas no sistema da universidade, muitos eventos relacionados à língua galega foram ofertados pelo centro. Amostras de filmes, seminários e simpósios de linguística e filologia, produções de artigos, projetos de pesquisa etc., são apenas alguns exemplos das atividades elaboradas muito recentemente pelo CELGA.

Sem sombra de dúvida, a opera omnia da fundadora figura entre os principais projetos deste núcleo, que vem se destacando na revitalização dos estudos galegos na Bahia. Esperamos que, com esse breve escrito, tenhamos oferecido uma pequena amostra da vitalidade que vem sendo recuperada no que concerne à ponte sociocultural, histórica e linguística entre a Galícia e Bahia.

REFERÊNCIAS

BASSETTO, Bruno Fregni. (2005). Elementos de Filologia Românica. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 43.

BOULLOSA, Juan; RODRÍGUEZ, David; LOPES, Mailson. (2015). Um tesouro a ser revelado: o projeto opera omnia de Rosario Suárez Albán e as suas derivações. In: EBEG — ENCONTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS GALEGOS, 1., 2015. Salvador: Programación e Resumos… Salvador: EDUFBA. p.34-35.

CORRÊA, Roberto Lobato. (1997). Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

[1]Idealizado e posto em andamento a partir da atuação conjunta (e profícua parceria acadêmico-institucional) dos Professores David Rodríguez e Mailson Lopes, respectivamente, Ex-Leitor e atual Coordenador do CELGA.

[2]Seção essencialmente baseada no estudo Notícia de um projeto de edição da opera omnia de Rosário Suárez Albán, de autoria de Lopes & Rodríguez (no prelo), apresentado por eles no VII Seminário de Estudos Filológicos (VII SEF), na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em agosto/2014.

[3]http://www.pergamum.bib.ufba.br/pergamum/biblioteca/index.php.

O ‘Xabarín Club’ e a política linguística que deu resultado

Ghabriel Ibrahim Ermida

Aluno de Introdução à Cultura Galega e Literatura Galega I na UERJ

Ao longo do segundo semestre de 2015 entrei em contato pela primeira vez com o galego, língua falada na Galícia -no noroeste da Península Ibérica- desde o século IX, e também com a própria cultura galega. Embora esse idioma tenha sido de fato aquele que originou inicialmente a língua que nós falamos no Brasil, recebe pouca atenção em nosso país mesmo no meio acadêmico. Isso, porém, tem explicação: após a independência de Portugal do Reino da Galiza, no século XII, período no qual o idioma galego era falado igualmente na Galícia como em Portugal, o Reino galego se tornará parte do reino de Castela e entra assim em um período conturbado politicamente, o que acaba gerando uma série de medidas políticas de imposição do castelhano na Galícia por parte dos Reis Católicos.

Por um longo período o idioma e a cultura do povo galego foram desprestigiados, situação que começa a mudar de modo relevante apenas no século XIX com um movimento intelectual conhecido como Rexurdimento. O início do século XX, porém, não trouxe uma melhora significativa na situação da língua galega: com a Guerra Civil espanhola e depois o Franquismo, tal idioma seria mais uma vez deixado num segundo plano. Contudo, após o fim do período da ditadura na Espanha, começam aos poucos a surgir políticas com o intuito de reerguer algumas identidades marginalizadas durante esse período sombrio, incluindo aí a identidade galega. Pretendo, neste breve artigo, abordar a relevância de um programa da Companhia de Rádio e Televisão da Galícia (CRTVG), canal surgido em 1984, na recuperação desta identidade. O programa em questão é o “Xabarín Club”.

Segundo dados do IGE, houve clara redução dos falantes de galego e aumento dos falantes de castelhano nos últimos 30 anos. Isso tem, é claro, relação com a política linguística de baixa intensidade adotada pelo governo galego desde os anos 80. Mas causa preocupação aqueles que enxergam especialmente o fato de que, segundo o mesmo instituto, quase a metade das crianças de 5 a 14 anos utiliza sempre o castelhano para se comunicar na atualidade(IGE 2013), algo que nunca tinha acontecido na história da Galícia.

Isso decerto ocorre por não se sentirem ligados ao seu idioma de maneira significativa. De acordo com alguns estudos, aqueles que conviveram diariamente com o “Xabarín Club” na TVG, especialmente nos anos 90 e começos dos 2000, era exatamente isso que a esse programa proporcionava. Segundo Marcos Perez Pena, que escreve para o jornal Praza Pública “Xabarín era moito máis que un simple programa de televisión, provocou un impacto xeracional que aínda perdura e converteuse se cadra na mellor ferramenta de normalización lingüística entre unha mocidade maioritariamente castelanfalante.”

E a razão deste sucesso deriva certamente do fato de que a proposta do programa era não a apresentação do galego como algo que precisa de proteção, tampouco a apresentação de situações construídas com o intuito de incutir o idioma nos mais jovens, como cartilhas ou algo do tipo, mas sim inserir o galego em um espaço de lazer que tem capacidade de dialogar diretamente com o contexto do período. Não era visto como uma faixa educacional, não “pregava” o galego, e justamente por isso cumpria com honras o objetivo da TVG, isto é, a “promoção, difusão e impulso da língua galega”: conseguia criar laços afetivos entre os espectadores e a língua, algo fundamental se levarmos em conta a inevitabilidade do contato com o castelhano no local.

Na infância é desenvolvida a autoimagem, o aprendizado de línguas se dá de maneira mais fácil e há a apreensão de padrões básicos de comportamento. Além do mais, tende a ser um período nostálgico, mesmo levando em conta boa parte dos conflitos intra e interpessoais que ocorrem durante o período. Assim, os laços afetivos criados no período tendem a se manter. Isso é muito bem ilustrado por Jon Amill no texto já citado de Marcos Perez Pena. Jon afirma: “Para min a miña infancia e o Xabarín Club son unha mesma cousa. Aínda hoxe, cando escoito sintonía do Xabarín, teño a sensación de que en calquera momento vai vir a miña nai co bocata de nocilla“.

É claro também que a relação familiar é fundamental para o desenvolvimento de laços com a língua galega, mas é também inegável que, a partir do momento em que há um maior entendimento acerca de conceitos como o certo e o errado, e há também o início de uma tentativa de demonstrar sua individualidade na sociedade, essa relação não é o único item capaz de influenciar as crianças. Um personagem virtuoso, mas ao mesmo tempo falho e por vezes inexperiente como Goku, de Dragon Ball, grande sucesso do programa, é capaz de fazer com que as crianças se identifiquem e ao mesmo tempo se inspirem. O fato de verem esse herói falando galego com certeza pesa a favor do idioma, embora a animação não tenha em si grande relação com a cultura da Galícia. Cito novamente o artigo de Marcos Perez Pena para ilustrar a situação: “cando apareceu o Xabarín, de súpeto, vías cantar as cancións do Xabarín no parque e nas escolas, vías os nenos xogando ao Son Goku gritando “Onda vital… XA!”

Não só de desenhos era feito o “Xabarín Club”: era rotineira a apresentação de videoclipes com bandas novas que não só cantavam em galego, mas cantavam para os galegos. As letras de muitas das músicas apresentadas eram repletas de expressões idiomáticas e referências à vida na Galícia, e os estilos musicais eram contemporâneos. Algumas bandas, como “Diplomáticos de Monte Alto”, incorporavam elementos típicos da música galega como a gaita em seu repertório. A música sempre foi elemento importante na socialização e na formação de grupos sociais. O chamado Rock Bravú, estilo de música predominante no Xabarín Club, foi capaz de atingir diferentes grupos com seu estilo irreverente e ao mesmo tempo ligado à terra, e por isso foi muito influente na geração que cresceu com o programa.

Cabe lembrar também que eram apresentados artistas falantes do português de várias partes do mundo, como Kussondulola, grupo angolano de reggae. Creio que a recuperação do orgulho em usar o idioma galego passa pelo conhecimento da cultura relacionada ao português, pois esta é uma língua imensamente relevante no contexto global e com relação intensa com o galego. Assim, concordo com a mestra Nívea Guimarães Doria, em artigo publicado neste mesmo site Quilombo Noroeste, quando afirma quea corrente autonomista, ao isolar o galego de uma língua que lhe é praticamente transparente como o português, acaba por relegá-la a mero dialeto dentro de território espanhol, de maneira a legitimar o sentimento de inferioridade que muitos de seus falantes podem trazer. Por esse motivo, é chamada de “isolacionismo” por seus opositores reintegracionistas. O galego seria uma língua falada por um povo ruralista, ignorante e de um idioma hermético, que pode até ter sua semelhança com outras línguas dos arredores, porém algo que não apenas identifica, como alija seus falantes de um contexto mais internacional.”

Apesar disso, e de parecer claro para mim que uma política que procure isolar o galego do seu espaço internacional pode estar está fadada ao fracasso (pensando o sucesso como um reestabelecimento do galego como idioma da esmagadora maioria dos habitantes da Galícia, como vem se tornando o catalão na Catalunha), não sou particularmente afeito ao reintegracionismo. Se já há aqueles que defendem, no cenário linguístico internacional, uma maior separação entre o português falado em Portugal e aquele praticado no Brasil, me parece exagero afirmar, mesmo com todas as semelhanças, a existência do idioma “portugalego”. Contudo, penso ser fundamental a inserção de elementos lusófonos no cotidiano galego, bem como pensa o doutor Xoán Lagares, visto que seria fundamental para um maior entendimento da língua e da cultura do ponto de vista histórico, além de ser um contrapeso fundamental à castelanização corrente do idioma derivada da política linguística em vigor.

Por fim, gostaria apenas de deixar um fragmento de Xurxo Souto com o qual estou em total consonância, sendo importante atentar a relação intrínseca entre o que é expresso por ele e o que foi feito sobretudo durante a década de 90 pela faixa infantil da TVG:

A presenza do galego en espazos subvencionados onde aparece tratado dun xeito paternalista, como unha lingua que precisa de mimo e coidado, non axuda en nada a aumentar o seu prestixio. Cando, polo contrario, os contidos de maior interese agroman nos medios expresados nesta lingua, o triunfo na audiencia é total e o efecto de normalización inmediato.” (Souto 2008: 201).

Referências:

CID, A. O patrimonio arroutado: O Rock Bravú e a pulsión normalizadora da “tropa da tralla”.

PENA, M. P. A potencia da ‘Xeración Xabarín’. Disponível em http://praza.gal/cultura/3868/a-potencia-da-xeracion-xabarin/. 22/11/2015

LOMBAO, D. O Xabarín Club agora dá a ‘bienvenida’. Disponível em http://praza.gal/movementos-sociais/6566/o-xabarin-club-agora-da-a-bienvenida/ 22/11/2015.

LAGARES, X. XOÁN LAGARES: “SÓ TEMOS A GANHAR COM O CONTATO COM O PORTUGUÊS”. Disponível em: https://quilombonoroeste.wordpress.com/2015/11/18/xoan-lagares-so-temos-a-ganhar-com-o-contato-com-o-portugues/. 22/11/2015

DORIA, N. G. O REINTEGRACIONISMO GALEGO: REFLEXÕES ACERCA DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS DA GALIZA E SUA RELAÇÃO COM O BRASIL: Disponível em:< https://quilombonoroeste.wordpress.com/2015/08/06/o-reintegracionismo-galego-reflexoes-acerca-das-politicas-linguisticas-da-galiza-e-sua-relacao-com-o-brasil/> 22/11/2015

Xoán Lagares: “Só temos a ganhar com o contato com o português”

Xoán Lagares (A Coruña 1971) é professor no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Niterói, onde faz parte do Núcleo de Estudos Galegos. Doutor pela Universidade da Corunha (2000), foi professor-leitor de galego na Universidad de Salamanca (Espanha) e posteriormente professor de Linguística Histórica na Universidade de São Paulo (USP). As suas áreas de pesquisa vão desde a linguística histórica até a sociolinguística. Nos últimos anos tem contribuído também ao debate em torno ao papel do galego além das fronteiras da Galiza.

1. Como um pesquisador galego acaba dando aulas na USP e na UFF? A emigração galega ao Rio e ao Brasil começa já no século XIX, e as organizações de emigrantes do Estado espanhol estão lotadas de pessoas nativas da Galiza. É o Brasil um destino natural para as galegas e galegos?

O único que posso dizer é que a vida dá muitas voltas e que nunca sabemos o que pode acontecer… Vim ao Brasil por motivos pessoais, num momento em que eu era professor-bolsista de galego em Salamanca, com a tese já defendida, e com poucas chances naquele momento de emprego estável do outro lado do oceano. O concurso na Universidade de São Paulo foi o primeiro que aconteceu quando já estava com os meus diplomas revalidados no Brasil, tentei sorte, sem muita esperança, apenas para tomar conhecimento do ambiente acadêmico brasileiro, e acabei passando. Foram dois anos de muito aprendizado lá. Mas eu continuava indo e vindo cada semana entre Rio e São Paulo. Exatamente, quando a minha filha estava para nascer foi aberto o concurso na Universidade Federal Fluminense, e com ele a oportunidade de morar e trabalhar definitivamente no Rio. Estou aqui desde então.

Sem dúvida, o Brasil é sempre uma opção para as galegas e galegos. Não sei como isso era visto pelos primeiros emigrantes no século XIX, mas a língua facilita claramente a integração.

2. Você faz parte do Núcleo de Estudos Galegos e tem participado de iniciativas com outros centros de estudos galegos no Brasil. Qual é o objetivo destes centros para a sociedade brasileira, e que interesse pode ter o trabalho que aqui se faz para as galegas e galegos do país?

Cada centro tem a sua história e sobre os objetivos comuns haveria que perguntar à Secretaria Xeral de Política Linguística. Na realidade, eles surgem por iniciativa pessoal de pesquisadores brasileiros, que em algum momento desejam manter esse vínculo com a Galiza. Não há muito planejamento estratégico do outro lado, e isso é um problema. Eu no NUEG da UFF tento contribuir para manter um espaço permanente de presença da cultura galega na universidade, bem inserido no contexto acadêmico. Penso que essa deva ser a nossa contribuição. Para as galegas e galegos que moram aqui, os centros podem constituir um vínculo importante com o país que deixaram atrás. Os nossos cursos costumam ser frequentados por emigrantes e filhos de emigrantes, e também somos chamados para participar de atividades da comunidade galega em Niterói. E estamos sempre dispostos a colaborar com o que for necessário.

3. Há interesse na comunidade acadêmica brasileira pela cultura, literatura e língua da Galiza? Em que âmbitos se tem contribuído mais à pesquisa nos últimos anos?

A Galiza e o galego ainda são amplamente desconhecidos pela comunidade acadêmica brasileira em muitos sentidos. Temos contra nós o fato de sermos um país pequeno e de fazermos parte de um outro Estado-nação. E no Brasil, como penso que deva acontecer em todos os estados nacionais do “novo mundo”, as reivindicações nacionais dos povos sem estado da Europa não são entendidas facilmente. Por outro lado, não contamos até agora na Galiza com governos que tivessem uma política clara no sentido de promover esse conhecimento no Brasil ou em outros países lusófonos. As iniciativas são mais de tipo pessoal ou correspondem a departamentos universitários e associações culturais ou acadêmicas, com algumas poucas exceções institucionais, como o Consello da Cultura Galega. Mas há, sim, um interesse genuíno, e sem preconceitos, no Brasil por parte de quem conhece a cultura galega.

Não contamos até agora na Galiza com governos que tivessem uma política clara no sentido de promover o conhecimento do galego no Brasil ou em outros países lusófonos.

A pesquisa sobre Galiza no Brasil desenvolveu-se mais, até agora, no âmbito da história da emigração e na literatura, sobretudo a medieval. A fundadora do nosso Núcleo de Estudos Galegos, na UFF, e do Centro de Estudos Galegos da UERJ, por exemplo, Maria do Amparo Tavares Maleval, é uma destacada medievalista brasileira, e muito tem contribuído para isso.

Sobre questões linguísticas a coisa é mais complicada. Uma grande conhecedora e divulgadora do galego no Brasil é Valéria Gil Condé, da USP, hoje coordenadora da Cátedra de Estudos Galegos dessa universidade. Mas a sensação de que lidar com língua na Galiza é como mexer num vespeiro, considerando as nossas liortas normativas, não facilita essa aproximação. De alguma maneira, é de conhecimento comum que quem falar qualquer coisa sobre o galego pode “apanhar” de algum dos lados em permanente disputa. É lógico que as pessoas não queiram “comprar uma briga” que não é propriamente delas. Agora em julho aconteceu a terceira edição de um congresso eminentemente brasileiro de linguística histórica em Santiago de Compostela, que considero uma espécie de divisor de águas nesse sentido, e a consagração simbólica do lugar do galego na historiografia da língua portuguesa.

Quem falar qualquer coisa sobre o galego pode “apanhar” de algum dos lados em permanente disputa. É lógico que as pessoas não queiram “comprar uma briga” [no Brasil] que não é propriamente delas

4. Coordenou no ano 2011, junto com Marcos Bagno, Políticas da norma e conflitos linguísticos, no que publicou também um artigo relacionando norma, poder e identidade. Como valora a construção do galego legítimo desde os anos 80 até hoje? Foi positiva para a normalização do galego na Galiza?

A institucionalização do galego foi complexa, como costumam ser todos esses processos. A construção de um “galego comum” é um processo histórico longo e conflituoso. No momento em que o galego adquire a categoria de oficial na Comunidade Autônoma da Galiza, a fixação normativa se torna uma necessidade. Acho que, independentemente das lutas de poder e dos conflitos de autoridade que estouraram naquele momento, e cujas consequências sofremos até hoje, é urgente pensarmos seriamente sobre o modelo de “planificação de corpus” que se aplicou e como esse modelo de “normalização”, seja qual for a perspectiva normativa adotada, autonomista ou reintegracionista, está condicionado pela língua “normal” que mais conhecemos os galegos, que é, sem dúvida, o espanhol. Coisas aparentemente banais, como a política de dublagem de filmes na televisão, a rigidez e a falta de flexibilidade dos critérios de correção, a obsessão delimitadora, que passou a ver a presença na Galiza das mais diversas formas de português como uma ameaça para a língua dos galegos, pouco contribuiram para criar dinâmicas positivas de reconhecimento e de valorização da língua. É como se fosse construído um espaço muito bem delimitado para o galego brincar de língua grande, mas sem sair do confinamento, numa espécie de parquinho para crianças. Penso que houve também, e ainda há, por parte de todos os agentes (embora só alguns tenham tido, obviamente, responsabilidade institucional nesse processo), uma evidente confusão entre língua e norma, ou pior, entre língua e ortografia. As provas de galego nos concursos públicos, em muitas ocasiões totalmente focadas em questões normativas destinadas a purgar recém inventados “dialetalismos” ou “lusismos”, é o mais claro exemplo dessa obsessão normativa que identificamos, no imaginario, com a “normalidade linguística”.

A oficialização da língua aconteceu em condições bastante adversas, com um governo sustentado por um partido que, no início, era contrário à própria Autonomia política, mas que nela medrou e que acabou fagocitando as suas instituições. A política linguística caracterizou-se nestes anos pela verticalidade, como indica Xaime Subiela, e pela baixa intensidade, como denunciava Anxo Lorenzo até não faz muito tempo, aliadas a um conflito normativo que manteve à margem da oficialidade agentes muito ativos e dinâmicos. Até o acordo de 2003, a norma considerada oficial pelo governo não contava com o apoio de uma grande parte dos professores de língua galega do ensino médio, e isso dá uma ideia de como essa verticalidade não fez bem à “normalização” linguística.

A falta de flexibilidade dos critérios de correção, a obsessão delimitadora, que passou a ver a presença na Galiza das mais diversas formas de português como uma ameaça para a língua dos galegos, pouco contribuiram para criar dinâmicas positivas de reconhecimento e de valorização da língua. É como se fosse construído um espaço muito bem delimitado para o galego brincar de língua grande, mas sem sair do confinamento, numa espécie de parquinho para crianças.

5. Galego como língua autônoma ou como variante na Galiza do portugalego ou galego-português, língua internacional?

Tudo depende do que entendermos por “língua”. Após séculos de desenvolvimento autônomo, em condições históricas adversas, com o espanhol sobreposto durante boa parte desse tempo, não há como negar a “autonomia” da língua que falamos os galegos em relação às outras realidades do grupo portugalego. Cada uma delas também com sua própria história. Considerando que a norma linguística vai muito além da simples ortografia, também é óbvio para mim que existem, de fato, muitas normas sociais diferentes de uso da língua nesse grande e variado grupo linguístico. O mais razoável seria que o padrão não violasse a competência linguística que os falantes possuem em relação a elementos fundamentais da estrutura da língua, esses que ninguém espera até ir à escola para aprender e usar. Por exemplo, as crianças utilizam um sistema pronominal complexo antes de serem alfabetizadas. É absurdo que nesse momento alguém lhes diga que o que elas sabem não serve, que devem esquecê-lo e interiorizar para uso geral um sistema pronominal diferente.

Por outro lado, não existe, nunca existiu e nada indica que vá existir uma língua internacional denominada portugalego ou galego-português. Também não existe uma norma-padrão internacional no âmbito lusófono, mas uma tradição padronizadora (“autoral”, porque não conta com a autoridade de nenhuma instituição) que tenta segurar as pontas da uniformidade normativa. No Brasil é uma tarefa malsucedida e polêmica porque essa tradição se afasta bastante da forma como as pessoas efetivamente falam e escrevem.

Para mim, a questão da “unidade” não passa necessariamente pela norma. É possível ter várias normas-padrão, construidas partindo do respeito ao conhecimento que os falantes possuem sobre a sua própria língua, e manter mesmo assim certa noção de unidade linguística que permita a intercompreensão e o diálogo com falantes de outras variedades. A ideia de unidade, que não deve ser confundida com “uniformidade”, constroi-se pela interação e não por meio da imposição de um único padrão, como um mesmo corset que deva oprimir todos os corpos (uns mais do que outros, como é óbvio, porque não todos os corpos são iguais).

Não existe, nunca existiu e nada indica que vá existir uma língua internacional denominada portugalego ou galego-português. Também não existe uma norma-padrão internacional no âmbito lusófono, mas uma tradição padronizadora.

6. Os discursos de aproveitamento do espaço internacional da língua habitualmente reclamam uma mudança ortográfica para o galego se aproximar à ortografia oficial do português no mundo. Acha que a sociedade galega está preparada para uma mudança deste tipo ou poderia gerar reações negativas e um aumento importante da insegurança linguística nas pessoas que estudaram o galego oficial nos últimos 30 anos? É possível um melhor aproveitamento do galego no âmbito internacional sem uma reforma normativa?

No momento eu defendo um bi(ou tri)-normativismo flexível, por dizê-lo de alguma maneira. Tendo como objetivo a socialização do acesso a diversas formas de português, podem ser feitas coisas sem mexer agora na norma: a introdução do português (qualquer um) no ensino, como disciplina, e a integração da diversidade lusófona no próprio ensino do galego. Penso que o poder público devia tomar medidas, em todas as instâncias, para fazer normal a presença de bens culturais em português na Galiza, no cinema, no teatro, na televisião, nas rádios, etc. O argumento do medo à dissolução ou à perda de identidade do galego por causa do contato com a diversidade portugalega é absurdo, do meu ponto de vista, porque só temos a ganhar com esse contato e porque a ideia de uma língua incontaminada não passa de ser um delírio purista. Por outro lado, já temos isso tudo, e em doses de cavalo, em espanhol, que é claramente uma língua diferente (embora próxima), e aqui estamos, ainda falando (do) galego. A presença do português poderia ser um contrapeso fundamental. O desenvolvimento da lei Valentim Paz Andrade é um passo importante nesse sentido.

O argumento do medo à dissolução ou à perda de identidade do galego por causa do contato com a diversidade portugalega é absurdo porque só temos a ganhar com esse contato e porque a ideia de uma língua incontaminada não passa de ser um delírio purista

7. Nas últimas décadas a perda de falantes do galego não parou. Que acha que se está fazendo mal na política linguística galega? Que propostas faria para que a situação pudesse mudar?

As dinâmicas sociais são complexas e nem todos os fatores são diretamente controláveis pelo poder político. Mas penso que as coisas mudariam muito com um governo que realmente acreditasse nas potencialidades deste país e da sua língua, trocando a baixa intensidade pela alta intensidade da política linguística, e a verticalidade pela horizontalidade, apoiando as iniciativas que surgem na sociedade, sem exclusões. O efeito social do uso normal do galego, e não apenas ritual, por parte dos representantes públicos também seria notável. E, mais concretamente, acho urgente voltar ao processo de desenvolvimento do Plano de Normalização Linguística aprovado pelo Parlamento, com a restauração imediata do Decreto do galego no ensino que foi derrogado pelo governo de Feijóo.

Acho urgente voltar ao processo de desenvolvimento do Plano de Normalização Linguística aprovado pelo Parlamento, com a restauração imediata do Decreto do galego no ensino que foi derrogado pelo governo de Feijóo

8. A Marea Atlántica de Xulio Ferreiro ganhou neste ano as eleições locais na Corunha, a sua cidade natal. Como sabe, é talvez a cidade galega onde a presença pública do galego é mais reduzida, além das já históricas polêmicas sobre o topónimo da cidade ou os topônimos deturpados nos rueiros. Há espaço para uma política linguística diferente no âmbito local? Que medidas aplicaria se tivesse a oportunidade?

Há espaço, sim, para uma política linguística diferente. Lembro perfeitamente que quando foi restaurado o teatro Rosalia de Castro, em tempos de Paco Vázquez, aproveitaram para retirar a placa que fazia referência às Irmandades da Fala. Essa era a tônica da política local em relação à memoria galeguista da cidade. Un concelho pode cumprir um papel importante e necessário elaborando planos locais de normalização linguística, com avaliações periódicas. Mas penso que o simples uso normal do galego pelo Concelho e seus representantes institucionais já é uma intervenção relevante, junto com a recuperação de nomes de ruas e bairros em galego.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil: O melhor: a alegria do povo. O pior: a demofobia das elites.

Um lugar no Rio de Janeiro: Difícil. Vão dois: Santa Teresa e a praia de Ipanema.

Uma palavra do galego-português: ‘atrapalhar’ e seus derivados.

Uma autora ou autor galego e uma autora ou autor brasileiro: Rosalia de Castro e Clarice Lispector

Un desejo para o futuro: Justiça social.

O meu caminho. Experiência no curso de verão de galego

Thayane Gaspar

Pesquisadora em Literatura Galega no Programa de Estudos Galegos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Não acredito que estou na Galícia!”. Essa foi a primeira frase que eu falei quando eu saí do aeroporto de Santiago e me deparei com todo aquele verde. “Onde começam as pedras?” perguntei me referindo ao que eu conhecia sobre aquela cidade e sobre o que eu tinha imaginado durante todo os 12 meses em que me dediquei a estudar tudo relacionado à Galícia.

Eu achei que depois de estudar literatura, cultura e língua galega durante um ano, eu ia chegar no curso de Galego Sen Fronteiras e ver tudo o que eu tinha visto em fotos, lido em textos, interpretado em poemas, escutado em músicas tradicionais, que eu conheceria as ruas, reconheceria os parques. Contudo, quando eu cheguei a Compostela, parecia que eram as ruas que me conheciam e os parques que me reconheciam. Parecia que Galícia estava me esperando de alguma forma.

Éramos 16 países reunidos em 4 turmas, o que aconteceu nas primeiras semanas não parecia um choque cultural, mas um caos cultural que nunca chegou a acontecer. Éramos tão diferentes, falávamos línguas diversas, não nos entendemos nos primeiros encontros dentro e fora do curso até que as aulas começaram. Quando as aulas começaram e nossas línguas começaram a falar galego sem que nós nos déssemos conta, pareceu incrível ter 16 países tão diferentes falando uma única língua, tendo o mesmo interesse e ouso a dizer até a mesma paixão pelos “x”, pelos “nh” do galego.

Acontece que uma língua não é só feita de fonemas e aulas de gramática, e enquanto aprendíamos a língua aprendíamos também a triste e romântica história do idioma e a importância que ele ganhava quando nós o falávamos. Aprendíamos a beber café como galegos, a comer empanadillas, tortillas e muitas, muitas e muitas tapas. Aprendíamos a parar durante a sesta e a voltar à universidade depois dela. As ruas de Compostela pareciam uma extensão da universidade: não importava para qual direção, parque, bar ou museu íamos, aprendíamos também a ser galegos.

Aprendemos tudo sobre a hospitalidade galega, aprendendo sobre as superstições, colocávamos moedas nas pedras do bar e fazíamos pedidos, falávamos das meigas, cantávamos e dançávamos ao som da gaita, bebíamos queimada e líamos o coxuro, e o mais importante: nunca abríamos o guarda-chuva quando chovia, porque não era qualquer chuva, era a chuva de/em Santiago.

Na universidade víamos filmes sobre a imigração galega, ouvíamos músicas de Roi Casal, tínhamos palestras com as figuras mais importantes nos estudos sobre Galícia na atualidade, líamos contos de autores galegos contemporâneos e íamos correndo à livraria antes do almoço para pegá-la aberta e comprávamos livros sobre o que tínhamos aprendido naquela manhã. Fazíamos teatro com os colegas para mostrar à professora como sabíamos improvisar em galego (e aproveitar em galego).

Fazíamos excursões nas quais entrávamos e saíamos de igrejas, visitávamos hórreos, paisagens e quando não estávamos fazendo isso, estávamos conhecendo pessoas que moravam naquelas cidades e então elas nos apresentavam algo novo, que não estava no roteiro da viagem. E dava a impressão que só estando na Galícia é que se aprende sobre ela.

Ensaiamos durante algumas semanas canções tradicionais galegas para cantarmos numa confraternização. Os professores esperavam que naquele momento nós falássemos sobre os nossos países de origem através das nossas músicas e danças. E nós falamos, dançamos e cantamos nas 16 línguas. E quando foi a hora de cantarmos a canção galega, a nossa origem parecia ser uma origem comum, já éramos galegos naquele momento. Cantamos e dançamos como galegos.

Quando dizíamos aos galegos que não éramos dali, eles nos perguntavam se estávamos na Galícia para fazer o caminho de Santiago. Eu respondia que não, “Vim estudar galego”. Na última semana do curso, estávamos falando que metade dos presentes que compramos para levar para as nossas casas tinham uma vieira estampada e um amigo disse “Não quero levar nada relacionado à vieira e ao caminho, não vim fazê-lo.” Perguntamos se ele sabia o significado da vieira, que as suas linhas significavam que todos os caminhos levavam a um mesmo lugar. E foi então que nós entendemos que viemos de 16 caminhos diferentes para o mesmo destino. Compostela tem mesmo algo a dizer sobre isso, quando ficamos muito tempo vivendo lá, parece que a cidade nos coloca de volta à nossa rota e nos deixa mais perto do nosso destino.

Fizemos juntos pela última vez o caminho até e universidade e nos demos conta de que algumas ruas nas quais passávamos faziam parte de algum caminho de Santiago, naquele dia me disseram: “Você não veio aqui só para estudar, você também fez uma parte do caminho, ‘mira’” e apontaram para uma vieira dourada no chão. E agora eu vejo que eu realmente não só estudei galego. Eu vivi a Galícia. Eu vivi Santiago de Compostela. E é por isso que nós, estudantes de galego, saímos de Santiago mas que Santiago não sai da gente.

Voltamos para as nossas casas com as lembranças, (muitos) livros, novos amigos e tendo uma intimidade com a língua galega que só a experiência do curso conseguiu proporcionar. Voltamos tendo a impressão de que havia uma estranha familiaridade entre nós e os lugares que visitamos e os galegos que conhecemos. Voltamos tendo uma confortável sensação de que pertencíamos de alguma forma àquela cidade. Voltamos tão galegos que trouxemos conosco uma mala cheia daquela boa e velha “morriña”.

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O galego no XII Fórum de Estudos Linguísticos (FELIN) da UERJ

Entre a terça-feira 20 e a sexta-feira 23 de outubro terá lugar na UERJ o XII Fórum de Estudos Linguísticos (FELIN). Nesta XII edição a língua e literatura galega também estarão presentes, através de três comunicações na Mesa coordenada pela professora Claudia Amorim, baixo o título Identidade(s): Língua, Literatura, Cultura.

  • Thayane Gaspar: O celtismo na poesia de Ramón Cabanillas
  • Asafe LisboaGalego, português, uma questão de língua e familiaridade
  • Denis Vicente: A construção do galego legítimo. Identidades e ideologias

O celtismo na poesía de Ramón Cabanillas

Este trabalho busca investigar os elementos celtas usados na representação de uma identidade nacional na poesia de Ramón Cabanillas, revelando por meio deles a ligação entre Galícia e Irlanda. Com a análise dos poemas (“Irlanda!” e “A Brañas”) muito significativos no contexto do celtismo galego dos séculos XIX e XX, pode-se perceber como o poeta traz à tona as ideologias nacionalistas, o passado celta através das correntes chamadas de panceltista e atlantismo, mesclando literatura com as reivindicações daquela época. O poeta nacional se lança como o poeta messiânico, esperado num momento de renascimento da cultura, da língua e da história de Galícia. Para isso, serão analisados dois poemas presentes na obra Da Terra Asoballada, obra de cunho cívico, na qual o patriotismo e o nacionalismo depositam suas esperanças no sucesso obtido na renascença pela qual a Irlanda passou e por conta disso, a Irlanda se torna um modelo a ser seguido pelos galegos como demonstrarão os poemas.

Galego, português, uma questão de língua e familiaridade

É comum estudarmos a língua portuguesa e suas literaturas a partir das reminiscências mais óbvias. O resultado desse estudo geralmente conduz à paragens bem conhecidas, localizadas sobretudo na Península Ibérica, e a outras mais remotas, na Península Itálica. Uma região fundamental, entretanto, segue praticamente ignorada: a Galiza. O presente artigo busca apresentar uma perspectiva que leve em conta a estreita (e muitas vezes conflitante) relação entre o português e o galego. A partir da manifestação literária mais antiga da península ibérica, a lírica trovadoresca, constata-se o pleno florescer do galegoportuguês como língua de expressão poética. No âmbito da prosa, porém, há um esforço para denominar o que vem a ser estritamente galego e estritamente português. Essa tentativa de cisão, que se processa aparentemente apenas na literatura, na verdade é o gérmen de um apagamento deliberado da origem galega da língua portuguesa.

A construção do galego legítimo. Identidades e ideologias

A oficialização da primeira norma escrita do galego teve lugar no ano 1982. Até esse momento, por causa da perda de soberania da Galícia ao longo da sua história e a impossibilidade de criar instituições próprias em que o galego fosse língua oficial das administrações e da escola, a língua utilizada foi o castelhano, e o latim no âmbito eclesiástico. A criação da norma oficial da língua teve lugar em meio de muitas polêmicas, que atendem fundamentalmente a critérios ideológicos e identitários, a que papel deve ter o galego na sociedade e no marco internacional, e como deve ser a focagem da proposta glotopolítica de ‘normalização linguística’, de recuperação de espaços e usos para a língua na sociedade, após séculos de marginalização. Procuramos, assim, analisar este processo no seu marco histórico, e também as repercussões que teve para o galego no espaço do português, e nas políticas linguísticas aplicadas na Galícia.

FELIN

Mais informação em http://www.felin.pro.br/

Debate sobre o galego na UERJ

Na próxima segunda-feira 19 de outubro terá lugar às 09:00h. no RAV112 do Instituto de Letras da UERJ o debate “A diversidade do grupo portugalego. A língua da Galicia”. Esta atividade, organizada pelo Programa de Estudos Galegos (PROEG), contará com a participação dos professores Elisa Fernández Rei e Francisco Dubert, da Universidade de Santiago, que apresentarão “A entonação do galego: entre duas águas” e “Um passeio pelos dialetos do galego” respetivamente.

palestra segunda

Elisa Fernández Rei

Son profesora Contratada Doutora do Departamento de Filoloxía Galega da Universidade de Santiago de Compostela. Licencieime en Filoloxía Galega con grao en 1992 e obtiven o título de doutora en 2002. Formo parte do ILG desde 1991, primeiro como bolseira de colaboración e, posteriormente, como contratada, ata que ingresei no Consello Científico ao acadar o título de doutora. Actualmente, son membro da Comisión Permanente do ILG e secretaria da Facultade de Filoloxía.

Os meus intereses investigadores céntranse na dialectoloxía da entoación e a prosodia do galego, así como no estudo perceptivo desta variación dialectal. Participo desde 2001 no proxecto AMPER (Atlas Multimédia Prosodique de l’Espace Roman) e coordino o equipo que leva a cabo as enquisas en Galicia. A estreita colaboración co equipo portugués deste proxecto, coordinado pola profesora Lurdes de Castro Moutinho da Universidade de Aveiro, está a facilitar a pescuda da variación e o cambio prosódicos no diasistema galego-portugués.

Outros dos meus intereses investigadores son a pronuncia e a prosodia nos medios de comunicación oral en galego e as tecnoloxías da fala (en especial, os sistemas de conversión texto-fala).

http://ilg.usc.es/gl/persoal/elisa-fernandez-rei

Francisco Dubert

Francisco Dubert García é profesor titular do Departamento de Filoloxía Galega da Universidade de Santiago Compostela desde o ano 2000. Entrou como bolseiro no ILG no ano 1989 para colaborar na edición do Atlas Lingüístico Galego (ALGa). A súa vinculación ó ALGa supuxo que comezara a interesarse polo estudo da variación lingüística en xeral e da dialectoloxía do galego en particular. Doutorouse en 1998 cunha tese sobre o galego falado no Concello de Santiago.

Francisco Dubert traballa tamén na descrición da fonoloxía e da morfoloxía flexiva da lingua galega, tanto desde a perspectiva sincrónica coma da diacrónica, pero tomando sempre como referencia os fenómenos de variación dialectal.

http://ilg.usc.es/gl/persoal/francisco-dubert-garcia

Maite Insua: “Co Decreto do Plurilingüismo a competencia en inglés do alumnado pode empeorar considerabelmente”

Maite Insua Cabanela é Graduada em Letras Inglês pela Universidade da Coruña (2009) onde também realizou o seu Mestrado em Ensino de Línguas (2010). Trabalhou como professora de língua inglesa na cidade da Corunha entre os anos 2010 e 2015. Após dar aulas na cidade de Zamora seis meses, na atualidade é professora no Ensino Médio na cidade de Puebla de Sanabria (Zamora).

Experimentar en primeira persoa o feito de que falando galego podemos comunicarnos sen problemas con millóns e millóns de falantes lusófonos do outro lado do Atlántico é unha sensación difícil de explicar. Estaba a miles de quilómetros da miña terra pero, dalgunha maneira, sentíame na casa.

1. O pasado 24 de agosto participaches da actividade O galego na juventude que aconteceu na UERJ. Como foi o acto?

Nunha soa palabra, eu diría que o acto para min foi un privilexio. Ter a oportunidade de falar da situación da lingua galega no ensino a máis de 8.000 quilómetros de distancia e notar que a xente se involucra e que empatiza coa nosa situación lingüística é algo moi especial.

2. Ti achegaches unha perspectiva sobre a situación das linguas no ensino actual da Galicia. Como profesora de inglés no ensino medio, ten contribuído este Decreto á mellora da competencia lingüística en inglés do alumnado?

Non podo predecir que pasará de aquí a uns anos se este Decreto continúa a estar en vigor, pero no presente podo dicir de primeira man que a competencia lingüística en inglés do alumnado, lonxe de mellorar, pode chegar a empeorar considerablemente. A grande maioría dos rapaces e rapazas do ensino medio que se enfrontan a unha educación “trilingüe” en galego, castelán e inglés non alcanzan o nivel suficiente nesta lingua estranxeira como para poder utilizala como lingua vehicular nas aulas. Parte do profesorado, por outro lado, tampouco está preparado para impartir as súas materias en inglés. Este sobreesforzo que se lle está a esixir tanto ao profesorado coma ao alumnado afecta negativamente ao proceso de aprendizaxe, xa que o profesorado está obrigado a impartir as súas materias nunha lingua que nin eles mesmos nin o alumnado dominan o suficiente.

O profesorado está obrigado a impartir as súas materias nunha lingua que nin eles mesmos nin o alumnado dominan o suficiente.

3. Como influiu este Decreto na situación do galego no sistema escolar?

O chamado “Decreto do Plurilingüismo” coloca ao mesmo nivel no eido educativo as dúas linguas cooficiais de Galicia (galego e castelán) e a unha lingua estranxeira como é o inglés, proporcionándolles a cada unha delas a porcentaxe do 33% do horario escolar. Coa introdución do inglés como lingua vehicular no ensino galego, a porcentaxe de materias impartidas en galego pasa dun mínimo do 50% esixido polo anterior Decreto a só unha terceira parte do total, algo que vai repercutir negativamente na competencia lingüística en lingua galega. Segundo a lexislación actual, débese garantir que o alumnado galego desenvolva unha dobre competencia en ambas linguas oficiais. Tendo en conta a situación do galego como lingua minorizada en Galicia, este novo Decreto non garante esa dobre competencia, imprescindible para asegurar a liberdade de elección á hora de empregar o galego no día a día. Como é lóxico, os rapaces e rapazas que se atopan na etapa do ensino secundario non poden empregar unha lingua na súa vida diaria se non se lles dan as ferramentas necesarias para desenvolverse nela con soltura.

Vouno exemplificar cunha anécdota, Hai un tempo, eu traballaba dando aulas nun curso de idiomas privado, onde tiña alumnado de tódalas idades posibles, dende rapaces e rapazas de Educación Primaria ata adultos. Unha das miñas alumnas máis novas estaba en segundo de Primaria (tiña 7 aniños), e sorprendentemente non viña a clases de reforzo de inglés senón de Science, o que anteriormente se chamaba Coñecemento do Medio, unha das materias que pasou de ser impartida en galego a ser en inglés. En cada clase que tiña con esta rapaza era máis evidente que o feito de usar o inglés como lingua vehicular para a materia de Science repercutía negativamente tanto na adquisición de contidos da materia de ciencias como na aprendizaxe do inglés. Nunha ocasión, a alumna díxome que tiña que estudar os músculos para unha proba que tiña ao día seguinte. A materia estaba enfocada en aprender listas interminables de vocabulario en inglés que nin sequera traducían ao galego ou ao castelán, co cal a rapaza sabía escribir calf ao lado dun debuxo dunha perna, pero se lle preguntabas onde estaba o músculo do xemelgo (a tradución de calf), non tiña nin idea. E digo “sabía escribir” e non “sabía dicir”, porque a súa mestra non estaba especializada en inglés senón en ciencias, co cal a pronunciación que lles ensinaba aos alumnos non era a correcta.

Este novo Decreto non garante a dobre competencia, imprescindible para asegurar a liberdade de elección á hora de empregar o galego no día a día.

4. Cal pensas que sería o modelo máis axeitado no ensino para garantir unha boa competencia na lingua propia da Galicia, o galego, e no castelán, inglés e outras linguas estranxeiras?

Un modelo que resulta moi efectivo noutros sistemas educativos como o catalán e o vasco é a inmersión lingüística, que consiste en converter a lingua menos empregada polo alumnado na principal lingua vehicular no ensino, de forma que a maioría de materias se impartan neste idioma. Esta inmersión garante un coñecemento suficiente da lingua minoritaria, pese a que o alumnado empregue outras linguas fóra do contexto escolar. Aplicando este modelo ao ensino de Galicia, se fóra da escola a lingua máis empregada polo alumnado é o castelán, a porcentaxe de materias impartidas en galego debería ser moito maior, permitindo así alcanzar esa dobre competencia da que falei antes nas dúas linguas oficiais do país.

Canto ao inglés e a outras linguas estranxeiras incluídas no currículo escolar, eu apostaría por aumentar o número de horas da materia de lingua estranxeira á semana e baixar a ratio nas aulas de idiomas. Para desenvolver unha competencia comunicativa na lingua estranxeira, é crucial que as aulas desa materia sexan o máis interactivas posible, algo que é inviable en aulas de máis de 25 alumnos coma as que permite a lexislación vixente. Tamén se deberían potenciar estancias no estranxeiro como medida de inmersión lingüística na lingua estranxeira, pero sen que iso implique reducir o número de horas adicadas ás dúas linguas oficiais en Galicia.

5. Na túa intervención fixeches tamén unha reflexión sobre a túa experiencia como neofalante. Por que decides mudar de lingua e comezar a falar galego no teu día a día?

Como expliquei na miña intervención, eu nacín e crecín nun entorno maioritariamente castelanfalante: meus pais e o resto da miña familia falaban comigo en castelán (pese a que entre eles falaron sempre en galego), os meus amigos falaban castelán tamén… Cando era pequena, o meu contacto coa lingua galega reducíase a algunhas aulas na escola, aos debuxos animados e series que vía na Televisión de Galicia, e a escoitar falar galego na casa, aínda que fose en conversacións alleas a min. Como consecuencia, eu asumía que falar castelán na vida diaria era o normal, o que todo o mundo facía.

Na miña adolescencia, comecei a ser consciente da situación da lingua galega e de como o número de galegofalantes se reducía co paso do tempo, pero naquela época esa conciencia lingüística non era o suficientemente forte aínda como para me facer mudar de lingua.

Decidín deixar de ver pasivamente como o galego desaparecía na mocidade e actuar para que iso non ocorra, aínda que sexa humildemente, sumando unha galegofalante máis.

Cando comecei a miña época universitaria, mudeime á cidade da Coruña para continuar os meus estudos alí. Pese a que A Coruña é unha cidade maioritariamente castelanfalante, alí coñecín a moita xente que era plenamente consciente da mala situación que estaba a vivir o galego, e que non só era consciente, senón que tamén facía todo o que estaba na súa man para inverter ese proceso de desgaleguización. Entón decateime de que eu tamén podía formar parte dese movemento, e así foi como decidín mudar de lingua e converterme en galegofalante no meu día a día. Decidín deixar de ver pasivamente como o galego desaparecía na mocidade e actuar para que iso non ocorra, aínda que sexa humildemente, sumando unha galegofalante máis.

6. Os últimos datos de uso mostran como o galego perdeu falantes nas últimas décadas, especialmente nas xeracións máis novas. É importante o papel dos neofalantes para o futuro da lingua?

Claro que é importante. Cada vez que unha persoa, aínda que só sexa unha, se converte en neofalante e vive a súa vida en galego, significa estar un paso máis preto da normalización lingüística que tanta falta lle fai á nosa lingua. Dende a miña experiencia persoal, cando eu comecei a falar en galego no día a día, algunha xente do meu entorno comezou a dirixirse a min en galego tamén; igual só o falan cando están comigo, pero independentemente diso, esa xente fala en galego en situacións nas que antes non o facía, e iso sempre é positivo.

7. Estiveches no Rio de Janeiro algo máis de 10 días. Para unha galega, como é o contacto co portugués brasileiro?

O portugués brasileiro foi unha revelación para min, xa que a pesar da distancia xeográfica que separa a Galicia do Brasil, resultoume bastante máis sinxelo de entender que a variante lingüística dos nosos veciños portugueses. Ademais, experimentar en primeira persoa o feito de que falando galego podemos comunicarnos sen problemas con millóns e millóns de falantes lusófonos do outro lado do Atlántico é unha sensación difícil de explicar. Estaba a miles de quilómetros da miña terra pero, dalgunha maneira, sentíame na casa.

8. Voltarás ao Rio de Janeiro?

Se a vida mo permite, por suposto! Unha ducia de días non son suficientes para poder desfrutar de todo o que o Rio de Janeiro ten para ofrecer. E xa por non falar do Brasil enteiro!

Agora brevemente…

O mellor e o peor do Rio e do Brasil

O mellor, a súa xente: ese carácter alegre e acolledor que fai que baixes á rúa a primeira hora da mañá cun sorriso na cara.

O peor, a desigualdade social. Un dos momentos máis abrumadores para min durante a miña estancia no Rio de Janeiro foi cando saín de visitar o estadio de Maracanã, cheo de novas instalacións a todo luxo, e atoparme de fronte cunha favela que remataba máis alá do que me alcanzaba a vista.

Un lugar no Rio de Janeiro

O Pão de Açúcar, o Cristo do Corcovado, o morro de Dois Irmãos… Calquera lugar que che permita admirar a cidade dende as alturas. A orografía e a paisaxe da cidade do Rio de Janeiro son sobrecolledoras, únicas no mundo. Estaría horas e horas mirando para ela.

Unha palabra do galego e unha do portugués brasileiro

Difícil escolla. Aínda que pode soar como un tópico, quedaríame coa palabra galega morriña e coa palabra portuguesa, e tamén galega, saudade. Aínda que se tenten traducir a outras linguas, estas dúas palabras son as únicas que poden expresar ese sentimento que nos inunda cando pensamos nunha persoa ou nun lugar amado que está lonxe de nós.

Un desexo para o futuro

Que se siga loitando para que a lingua galega siga viva, mantendo así viva a nosa cultura e permitíndonos seguir comunicándonos con millóns de persoas en todo o mundo.

O galego na juventude. Palestra na UERJ

Na próxima segunda-feira 24 de agosto às 10:30 horas vai ter lugar no Salão Nobre do Instituto de Letras da UERJ a palestra O galego na juventude, organizada pelo Programa de Estudos Galegos (PROEG).

Na atividade intervirão Maite Insua Cabanela (Mestra em Letras pela Universidade da Corunha e atualmente professora de inglês no ensino médio), Mateo Verdeal González (Graduado em Direito pela Universidade de Santiago de Compostela) e Denis Vicente Rodríguez (Doutorando em Linguística pela Universidade de Vigo e atualmente professor-leitor de galego na UERJ).

Nesta palestra se apresentará uma panorâmica da situação atual da língua galega na juventude, mostrando dados de uso da língua na sociedade, e mostrando a vitalidade, ou não, do galego especialmente nos âmbitos da justiça e da educação. Aliás, falar-se-á também do fenômeno dos neofalantes na Galícia, pessoas que, num momento da sua vida, decidem começar a falar sempre em galego, sendo castelhano-falantes iniciais e habituais.

Cartaz palestra

Galego, português, uma questão de língua e familiaridade

Asafe Lisboa

Estudante de Literatura Galega I e pesquisador na UERJ

É, com efeito, de poder que se tratará aqui, indireta, mas obstinadamente.”

Roland Barthes em “Aula”

A primeira matéria que é tratada nas lições de literatura em língua portuguesa, tomando se o critério histórico-cronológico como fator preponderante do estudo, é a lírica trovadoresca. Essa manifestação poética, “[…] a primeira a surgir em língua romance, mais especificamente em provençal, foi tão importante “[…] que se pode dizer sem exagero que […] constitui a primeira etapa do lirismo europeu (TORRES,1987, p.5).

Mesmo que seu início tenha se dado nas regiões do sul da França, próximo ao fim do século XI, não demorou para que a arte de trovar penetrasse a Península Ibérica. Ali ela se cultiva nos moldes de um romance designado galego-português e posto que mantenha alguns dos preceitos do trovar provençal, desenvolve características que destoam totalmente deste, além de originar um tipo autóctone, original e exclusivo: a cantiga de amigo.

Ainda segundo Torres (1987, p.10) considerando-se que o texto mais antigo do “patrimônio poético galego-português” data de 1196 e que é de 1350 em diante que ocorrerá o fenômeno do “interregno poético” (Michaëlis apud PENA, 2002, p.88), para fins expositivos, tomaremos estas duas marcações como pontos inicial e final do trovadorismo, embora tenhamos consciência que as fronteiras históricas podem alargar-se ou recuar em virtude de uma série de fatores e classificações.

Dito isso, nesse período de cerca de cento e cinquenta anos, muito é produzido em galego-português, principalmente em verso. Torres (1987, p.10) fala em cerca de 1.685 textos; o número cresce em Pena (2002, p.105 – 107) que toma por base os registros dos cancioneiros da Biblioteca Nacional de Lisboa, doravante Colloci-Brancuti, da Vaticana e d’Ajuda e contabiliza mais de 3.000 textos.

No que diz respeito à prosa, no entanto, parece que a conjugação galego-português ou ainda literatura galego-portuguesa, já não soa tão apropriada e “[…] xorden voces […] desde o norte e o sur da fronteira, que buscan xa delimitar o que é <<galego>> e o que é <<portugués>>, ou xa reclamando tamén a totalidade desa producíón para unha das dúas rotulacíóns subliñadas.” (PENA, 2002, p.295).

Como conceber que o galego-português seja a língua comum apenas da produção lírica, e não da prosa da qual é contemporânea e conterrânea?

A pergunta que nos cabe formular neste ponto é a seguinte: a tentativa de cisão do koiné galego-português é motivada, apenas, por questões afetas às modalidades literárias? Como conceber que o galego-português seja a língua comum apenas da produção lírica, e não da prosa da qual é contemporânea e conterrânea? Estaremos diante de uma “[…]especializacíon linguística medieval por xéneros?” (PENA, 2002, p.295).

A LÍNGUA E OS MODELOS LITERÁRIOS

Do ponto de vista estritamente linguístico, a especialização por gêneros não é uma hipótese inverossímil, Monteagudo (1998, p.34) sinaliza que

[…] na idade media existia a curiosa tendencia a crear rexistros literários con base lingüística diferente segundo o xénero literario: así, no centro e occidente da península [Ibérica], durante o século XIII, o castelán foi a lingua preferida para a épica, mentres que o galego o foi para a lírica.

A mudança de códigos linguísticos para tratar de diferentes tipos de texto, por assim dizer, não é exclusividade da Península Ibérica nem do galego-português. Por exemplo, em vários períodos do medievo, principalmente naqueles em que o romance ainda não tinha definitivamente superado o latim, observa-se o uso deste sempre que se deseja explicitar o caráter sui generis de determinados registros (BURKE, 1995).

Entretanto há alguns aspectos que devem ser ressaltados quando se trata dessa mudança de códigos linguísticos. Um deles é que no século XIII as línguas romances eram muito mais parecidas entre si do que o são hoje. Muito provavelmente, com um mínimo de esforço, os falares da Península Ibérica e até mesmo provençal eram mutuamente compreensíveis. Então, a utilização do galego-português como língua preferida para a lírica, longe de constituir fator inibidor da produção, significava a observância, por parte dos próprios trovadores, de uma tradição na qual essa língua constituía o registro apropriado para a poesia lírica (MONTEAGUDO,1998).

Desenvolver além deste ponto o argumento da especialização linguística por gêneros nos daria o ad absurdum do galego-português como língua da poesia trovadoresca somente, tornando válida a hipótese de que a prosa, se houvesse, deveria estar codificada em outros romances, ou até mesmo no latim.

Não é necessário muito esforço para mostrar o contrário. Citando apenas aqueles documentos escritos totalmente em galego-português, Pena (2002, p.299 – 305) refere-se a Noticia de Torto e Testamento de Afonso II, provavelmente ambos de 1214, Testamento de Estevo Pérez, redigido entre 1230 e 1260, Cronica Troiana de 1373, Historia Troiana (documento bilíngue, em castelhano e galego) da segunda metade do século XIV, o Xosé de Arimatea, datado por volta de 1313, uma tradução de parte do original francês da Suite du Merlin, da primeira metade do século XIV e Demanda do Santo Graal, que se afigura como uma antologia que inclui os episódios da Matéria de Bretanha mais apreciados pelo público, do século XV. Há ainda, para não deixar de mencioná-los, uma infinidade de hagiografias e textos de cunho historiográficos, jurídicos e didáticos.

Pois bem, se muito se produziu em galego-português, também em prosa, por que se verifica uma insistente tentativa de cisão, de delimitar o que é estritamente galego e o que é estritamente português, apenas na prosa?

O SOM E A LETRA

Até aqui estivemos deliberadamente tratando da lírica trovadoresca como registro literário apenas, tal qual é nos Cancioneiros. Entretanto como o próprio nome sugere, a lírica antes de tudo é música. A poesia do trovador tinha o acompanhamento instrumentos musicais e não era feita para ser lida e sim para ser ouvida (TORRES, 1987). Mais do que isso, conforme nos diz Monteagudo (1998, p.24)

A poesía trobadoresca constituía, como acto comunicativo, en primeiro lugar, un espetáculo, pois chegaba ó seu público mediante unha actuación, […] executada por um ou vários interpretes: como mínimo, un xograr acompañado dun instrumento musical, pero existía a posibilidade de que participasen varios músicos/cantantes, e tamén bailaríns ou bailarinas.

Pelo seu caráter performático é natural que a lírica obtivesse um maior destaque e se disseminasse mais rapidamente pelas cortes. Isso, como já cuidamos ter exposto, não significa dizer que não houve uma prosa galego-portuguesa, mas ressalta uma diferença fundamental entre esses dois modelos literários. Pena (2002, grifo nosso), ao tratar da prosa galego-portuguesa diz que embora esta não tenha alcançado o esplendor nem os elevados níveis qualidade e originalidade da lírica, não se trata de uma produção menor, apenas menos vistosa.

Menos vistosa porque no âmbito da prosa, principalmente após a introdução das novelas de cavalaria, em vez de termos uma plateia que ouve uma música, teremos o surgimento de uma figura solitária que lê uma narração. Uma vez que ocorra essa drástica mudança do público-alvo, por assim dizer, a mudança do código linguístico é uma consequência quase que inevitável. Note o leitor que isso difere de uma especialização linguística por gêneros; o que está posto é que o fator determinante da mudança é a alteração do receptor.

No que concerne a lírica trovadoresca, o galego-português era o koiné da produção e também do registro nos cancioneiros. Os poetas adotavam suas convenções e particularidades porque estas já haviam se sagrado pelo uso e eram reconhecidas pelo grande público. Na prosa, não havia necessidade de tantas formalidades (nas acepções mais literais do termo); o que guiava a pena do escritor era a intenção de estabelecer ligação direta com um leitor. Para cumprir esse propósito cada autor

[…] semella utilizar aquela variedade [do galego-português] que ten máis á man. Dessa maneira[…] entendemos que o lóxico é asistirmos a unha manifestación das diversas falas, do conjunto de possibilidades que compoñen o romance occidental peninsular.” (PENA, 2002, p.297)

Respondendo, em parte, a indagação que fizemos anteriormente, concluímos que através da prosificação é possível, não delimitar o que é galego ou o que é português, mas compreender que o galego-português abarcava em si uma série de variedades regionais mais ou menos semelhantes. A busca pela distinção, à época, do que seria o galego e o português, tem sua razão de ser e seu pano de fundo linguístico e literário. Mas, reiterando a questão, será que seriam estes os únicos aspectos responsáveis pela diferenciação?

Através da prosificação é possível, não delimitar o que é galego ou o que é português, mas compreender que o galego-português abarcava em si uma série de variedades regionais mais ou menos semelhantes.

O PODER DA LÍNGUA

Nunca é demais lembrar que a questão dos nomes que se dá às línguas escapa da órbita dos especialistas (filólogos, gramáticos, linguistas) e se vincula muito mais a problemáticas de natureza política, cultural, econômica e ideológica.” (BAGNO, 2011, p. 34). A título de exemplificação do exposto, recorrerei mais uma vez a história da língua latina. O legado imanente do espírito grego conduziu o latim, língua lacônica, precisa e substancialmente denotativa, a uma vagarosa porém constante reorganização estilística que cindiu o idioma em duas modalidades: o sermo cultus, latim culto, ou ainda, latim clássico e o sermo vulgaris ou simplesmente latim vulgar. Como se pode imaginar, o sermo cultus era a variante utilizada pela elite instruída, ao passo que o sermo vulgaris era praticado pela plebe.

Em relação ao galego-português, principalmente depois do período do Interregno Poético (1350 em diante), devido a circunstâncias essencialmente políticas, a língua vai sofrendo com a intromissão castelhana e seu desenvolvimento natural e seu continuum de transmissão cultural são interrompidos. É exatamente o que atesta Pena (2002, p.96)

Así pois, se triunfa o mundo trobadoresco galego (ou galego-português) na corte de D.Denís, ou naqueloutra de Fenando III, é porque se mantén ainda o poder – e polo tanto, os gustos, costumes, idioma … dominantes – dos nobres de procedencia galega em ambos os dous lugares. Cando isso xa non suceda así; cando dunha parte, Portugal deseñe novos rumbos e cando o conxunto formado por Castela, León e Galicia atope um novo eixo – Sevilla-Toledo-Burgos -; cando un novo poder, de solar castelán, se consolide e cando novas modas prevalezan nunha corte afastada de nós… daquela assistiremos aos momentos epigonais do centileo das cantigas

A decadência do mundo trovadoresco, e de certa forma do galego-português como língua de expressão literária, entretanto não são termos suficientes para nos fazer entrever o estritamente galego e o estritamente português. Quando falamos em decadência, não estamos dizendo que a produção em prosa, que aliás seguiu bastante intensa até o século XV, seja insignificante ou inferior mas relembramos que, conforme já exposto, era bem menos vistosa e uniforme. Essa falta de uniformidade, aliás a explicitação da variedade de possibilidades do galego-português proporcionada pelos registros em prosa, nos mostra um romance multifacetado, que apesar das diferenças, era mutuamente compreensível entre os povos do noroeste da Península Ibérica, bem como nas regiões centro-ocidentais.

Nos resta, parafraseando Bagno, assumir que as distinções e nomeações que dizem respeito a uma determinada língua se respaldam em conceitos totalmente alheios à gramática, à literatura e à linguística. A busca de uma designação entre o que é estritamente galego e o que é estritamente português é reflexo, dentre outros motivos, de um impulso de demarcação de fronteiras físicas e de uma autoafirmação nacional.

Para compreendermos como isso se aplica aos casos do galego e do português é preciso fazer uma breve incursão na história. Dentro dos limites da Gallaecia, província romana na Península Ibérica, foi se formando um romance de características muito particulares. Quando, nas vésperas do século XII, a lírica trovadoresca ganhou eco naqueles territórios foi porque “[…] a lingua tiña xa unha estructura e unha entidade que posibilitou a grandeza literaria […]” (QUEIZÁN, 1998, p.202) e também por que o “[…] país ofrecía unha madurez cultural relativamente avanzada, conseguida en boa parte durante o século XII gracias ó auxe da peregrinación a Santiago e a unhas condicíóns políticas favorables […]” (MONTEAGUDO, 1998, p.23). Condições políticas favoráveis explicitadas pelo próprio Monteagudo (1998, p.34)

Desde o final do século XI ata a metade do XIII, os condes de Traba ou Trastámara, a liñaxe máis importante da Galicia, constituíron ó mesmo tempo unha das liñaxes máis poderosas da Hispania cristiá, que portiña coas casas reais de Léon e de Portugal e mais coas familias máis empoleiradas da aristocracia castelá […] Precisamente, entre os seus familiares cóntanse aristócratas que á sua vez xogaram un papel moi importante na acollida da lírica occitana na península ibérica[…]

Visto que a tradição trovadoresca penetrou a Península Ibérica através da Galiza, se difundiu, principalmente, pelo esforço da nobreza galega, seguindo os moldes do romance que era há muito ali cultivado, por que chamar a língua das cantigas de galego-português?

De tódolos xeitos, hai que subliñar que a denominación que recebía a lingua empregada polos poetas da tradicíon trovadoresca galego-portuguesa era galego, ou polo menos así lle chama o trobador catalán Jofre de Foixá nas Regras de trobar, um manual de poesia cortés de contras os finais do século XIII (MONTEAGUDO, 1998, p.21)

Se nos detivermos um pouco mais nesta análise histórica veremos que embora Afonso Henriques, por meio de seus muitos êxitos militares e do reconhecimento de Afonso VII e do Papa Alexandre III, finalmente se torne rei do Condado Portucalense, em 1179, ainda é cedo para se falar em língua portuguesa. Isso por que a língua se falava no Condado Portucalense, à essa época, era a mesma que se falava na Galiza (BAGNO, 2011).

Por que chamar galego-português o romance que é anterior ao surgimento de Portugal (e até mesmo do Condado Portucalense), e que já era cultivado na Galécia, entidade político-geográfica que existia desde a época dos romanos?

E mesmo depois. Os seguintes serán anos de conquista, tempos de guerra, con rei e nobres analfabetos nos que non se pode esperar preocupacións idiomáticas.” (QUEIZÁN, 1998, p.201). Por mais que as fronteiras físicas de Portugal tenham se tornado mais fixas, no eidos da língua elas ainda permaneceriam ligadas a Galiza. Até que haja, de fato, uma fronteira linguística entre o galego e o português haveremos de presenciar o surgimento de outra dinastia em Portugal. Pois bem se galego e português eram um só até o século XIV, por que chamar galego-português o romance que é anterior ao surgimento de Portugal (e até mesmo do Condado Portucalense), e que já era cultivado na Galécia, entidade político-geográfica que existia desde a época dos romanos? (BAGNO, 2011) “Somente por uma necessidade ideológica de afirmação nacionalista é que se pode utilizar um termo anacrônico como ‘galego-português’ para designar uma língua que em tudo era galega […]” (BAGNO, 2011).

A nação de Portugal precisava de uma língua que se chamasse portuguesa, pois é a partir da língua que o poder é desenvolvido e exercido:

[…] o poder é o parasita de um organismo transsocial, ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política ,histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é:a linguagem — ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua. A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. (BARTHES, 1977, p.11)

Afirmar a existência de uma língua própria, contudo, ainda não é o suficiente. É preciso torna-la grande. Para tanto os gramáticos portugueses indicam a afiliação direta de sua língua, língua portuguesa, com o latim. Bagno (2011, p. 35), para ilustrar essa ideologia, transcreve trechos de Duarte Nunes de Leão (da obra “Origem da lingoa portuguesa”, de 1606):

E por a muita semelhança que a nossa língua tem com ela [a latina] e que é a maior que nenhuma língua tem com outra, & tal que em muitas palavras & períodos podemos falar que sejam juntamente latinos & portugueses.

E também de Manoel Severim de Faria (da obra “Discursos varios politicos”, de 1624):

E mostrando nós que a portugueza participa mais da latina, & que na cópia, pronunciação, brevidade, ortografia, aptidão para todos os estilos, não é inferior a nenhuma das modernas antes igual a algumas das antigas, com razão lhe poderemos dar o louvor de lingua perfeita, & de ser uma das melhores do mundo.

Observamos então que o que era galego transmuta-se, tal logo a ascensão e expansão políticas assim o demandem, em português, língua que por sua vez advém, supostamente, do latim. Pois bem, cogitando a hipótese de que isto realmente tenha ocorrido, teremos de imaginar que a língua se dissemina do sul para o norte, contrariando o caminho da Reconquista (QUEIZÁN, 1998).

A transformação do galego em português, filho do latim, além de prover uma língua para a nação de Portugal, ainda se presta a outro propósito: fazer esvanecer qualquer vestígio de procedência galega no idioma. Isso porque a Galiza, a partir de 1230, vai perdendo gradativamente sua autonomia política e resulta disso que o galego se torna um falar desprestigiado (BAGNO, 2011). Era necessário então fazer recuar as origens, em nome da política e do anseio de se afirmar como nação autônoma, e tomar como nascedouro o passado quase mitológico da antiguidade clássica.

Por fim

En realidade, o galego é o nome da lingua e o portugués é o nome político, derivado do Estado de Portugal. Ou sexa que o galego é ao portugués o mesmo que o castellano é ao español. Portugués e Español son os nomes políticos derivados do nome do Estado; o galego e o castellano son os nomes das linguas e do lugar onde se orixina. A diferencia está en que […] Ningúm español, sexa da Mancha, de Andalucía, ou As Canarias, ten problema en recoñecer que súa lingua […] é o castellano. Se polo contra, os portugueses negan que a súa lingua é o galego, é por claríssimas razóns políticas. (QUEIZÁN, 1998, p.203)

GALEGO – PORTUGUÊS?

Quando no início do trabalho aludimos às vozes que buscavam separar o que era galego e o que era português, mencionamos que algumas delas já reclamavam a totalidade da produção literária, ao menos da prosa, para uma dessas rotulações. Isso se deve ao fato de que “galego-português” nunca foi um termo utilizado naquela época.

O binômio “galego-português” faz supor que o português e galego eram uma só língua, e que se dividem, tornando-se completamente diferentes tão logo Portugal se torne independente (QUEIZÁN,1998). Reiteramos que o mero estabelecimento de fronteiras físicas não cinde o idioma instantaneamente; a língua que se falava no Condado Portucalense era a mesma que se falava na Galiza. Acontece que o designado “português” vai ser a língua oficial de um Estado, que se não era de todo independente, não media esforços para sê-lo. O galego por sua vez não poderia ter destino mais díspar. Queizán (1998) afirma que para evitar as confusões fomentadas pelo uso do par “galego-português, ele deve ser substituído pela terminologia Galego Medieval.

Se galego-português não é, nem nunca foi, o nome da língua da lírica e da prosa medieval produzida no noroeste da Península Ibérica, e tampouco é uma terminologia adequada para tratar do romance da Galiza, por que segue como presença constante nos livros de história e de literatura portuguesa e galega? Na verdade, o termo galego-português é recente, cunhado por especialistas e estudiosos portugueses, no século XIX. Sua aplicação prática satisfaz a duas necessidades: reconhecer o galego como língua da prosa e da poesia medievais, ao mesmo tempo em que incorpora essa produção literária ao patrimônio cultural português. (BAGNO, 2013)

CONCLUSÃO

Como já afirmamos anteriormente, o mero estabelecimento de fronteiras políticas, por si só, não estabelece uma fronteira linguística. Hoje, séculos após a Reconquista e o colonialismo do século XVI, o galego e o português ainda possuem enormes semelhanças. Semelhanças que não se restringem apenas a variante do português falado na Europa.

Uma familiaridade que atravessou mares e continentes. Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego. Assim a iniciativa de conhecer mais a língua galega torna-se instrumento de aproximação de povos que compartilham cultura e identidade.

Onde quer se fale a língua portuguesa, de um modo peculiar a cada região, fala-se também o galego.

É comum que desde sempre estudemos a língua portuguesa através de suas reminiscências mais óbvias. A tradição formalista da maioria das gramáticas do português no Brasil não nos deixa mentir. Mas tornou-se insustentável continuarmos a dirigir nossos olhares somente para a Lusitânia e para a Península Itálica. É preciso lembrarmos da Gallaecia.

Um de nossos maiores poetas cantou a língua portuguesa como a “última flor do Lácio”. Uma perspectiva um pouco lúgubre, a meu ver. Prefiro imaginar que a língua que falamos aqui no Brasil é uma folha nova. Uma folha de uma árvore que tem suas raízes assentadas não em Roma ou em Lusitânia, e que continua florescendo e frutificando. Uma folha da árvore da Galiza.

BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos. O português não procede do latim: uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego, 2011.

Disponível na internet em:

< http://www.editorialgalaxia.es/imxd/libros/doc/1320761642191_Marcos_Bagno.pdf&gt;

Acesso em 20/05/2015.

BARTHES, Roland. Aula: Aula inaugural da cadeira de semiologia literária do colégio de França. São Paulo: Cultrix, 2007.

BURKE, Peter. “Heu domine, adsunt turcae”: esboço para uma história social do latim pós medieval. In: A arte da conversação. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

MONTEAGUDO, Henrique. O marco histórico literário: a lírica trovadoresca galego-portuguesa. In: Três poetas medievais da Ría de Vigo: Martín Codax, Mendiño, Xoham de Cangas. Vigo: Editora Galaxia, 1998.

PENA, Xosé Ramón. Historia da literatura medieval galego-portuguesa, San Marcos – Santiago de Compostela: Sotelo Blanco Edicíons, 2002.

QUEIZÁN, María Xosé. A falacia do galego-português. In: Estudos Galegos 2. MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (ORG). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

TORRRES, Alexandre Pinheiro. Antologia da poesia trovadoresca galego portuguesa. Porto: Lello & Irmão Editores, 1987.