História Troiana: aspectos de uma novela do ciclo clássico

Nina Barbieri Pacheco

Doutoranda em Literatura Comparada na UERJ

Tão pouco conhecida entre os pesquisadores das novelas de cavalaria medieval, a Historia Troiana nos brinda com muitas possiblidades investigativas. Os questionamentos acerca não só do mito de Medeia – a somar com o sem número de releituras do mesmo – mas também acerca da literatura em registro galaico-português.

Entretanto, nosso enfoque aqui é na visão medieval que permeia o texto e que ao retomar uma lenda muito difundida acaba deixando emergir a personagem grega instigante e violenta. Medeia é vivificada justamente em seu poder e autonomia em uma abordagem que oscila entre uma ilustração hesitante e enfática: e irrompe em voz. Sem coyta, sem doo…

O ciclo clássico

Texto literário em prosa relacionado com o período trovadoresco, a novela de cavalaria tem caraterísticas muito particulares que fogem a outros gêneros tanto anteriores como posteriores. Na península ibérica essa narrativa frutificou e imprimiu nessa literatura o amor cortês, entoado por trovadores em cantigas de amor, ao mesmo tempo em que desenvolveu uma religiosidade e uma vassalagem aos ideais cavalheirescos de seus personagens. Seja a temática que tivesse, as novelas de cavalaria tinham sempre rasgos sentimentais de sofrimento amoroso, bem como elementos bélicos e de cristandade.

Os romans antics, que vieram da França, chegaram à península e encontraram terreno propício para se propagarem. As novelas de tema clássico foram, na prosa, uma espécie de transição do mundo antigo para o medieval. Um olhar único que a sociedade feudal tinha sobre o passado greco-romano. Embebidos de sentimentos e costumes muito próprios de sua época e da sua sociedade, os textos, apesar disso, miravam à antiguidade clássica greco-latina. As novelas de cavalaria do ciclo clássico que circularam em manuscritos, entre versões e traduções em francês, castelhano e galego-português tratavam da matéria de Troia.

Desta forma, a guerra de Troia ou os temas derivados da mesma, que no período clássico circulavam entre épicas, peças teatrais e pela própria oralidade, retornaram na Idade Média, como novelas de cavalaria. Uma tradição épica mesclada à cortesã: armas e heróis ao lado das vicissitudes que a temática amorosa traz.

Mas sabemos que foram as novelas do ciclo Bretão, de tema arturiano, as narrativas que conquistaram mais espaço no período, e também na posteridade. Alguns estudiosos defendem que os modelos latinos cerceavam de certa forma a evolução do gênero novelesco. Se um ciclo temático se sobressaiu em detrimento do outro por esta possibilidade criativa e pela curiosidade que os elementos do maravilhoso presentes nas lendas celtas suscitavam, se pela simples qualidade superior, ou se por algum outro motivo, não sabemos. Mas temos claro o fato de que a matéria de Bretanha logrou maior êxito.

Apesar disso, as obras e os autores clássicos tinham o espaço canônico na Idade Média nas mais diversas formas de conhecimento e não poderiam ficar de fora no modelo de narrativa que ganhou as graças da população do medievo ibérico: as novelas de cavalaria. Assim, ofuscadas por Galaazes, Lancelotes, e Amadises, novelas como a Crónica Troiana e a Historia de Troia caíram no esquecimento de pesquisadores das narrativas galego-portuguesas do período em questão por muito tempo. Mas, aos poucos, alguns pesquisadores, sobretudo galegos e brasileiros, retomam os estudos dessas narrativas.

A Historia Troiana

A novela que ora analisamos é um texto em castelhano com longas interpolações em galego. Um manuscrito do século XIV, fruto do ambiente artístico-cultural ibérico que tinha como veículo de expressão, sobretudo, o galego-português. Provavelmente o manuscrito que chegou a nós era uma tradução de um original em castelhano, mas que nesta versão divide-se nesta língua e em trechos redigidos em romanço galego-português – aparentemente de forma aleatória.

A novela é uma cópia que segue o Roman de Troie, de Benoît de Saint-Maure, mas também incorpora trechos da General Estoria castelhana nas passagens escritas em galego-português. É, de toda a forma, uma novela que trata de matéria grega. Ela narra a história de Jasão e Medeia. A famosa personagem grega que já na Antiguidade se sobressaia pela força feminina e intensidade visceral de sua paixão por Jasão, bem como a consequente violência de seus atos, com os filhos e com o irmão, encontra aqui um enfoque medieval.

O amor, a paixão e a traição são exatamente os elementos que costumam ser o diferencial nas releituras medievais cavalheirescas do tema clássico. A tradição grega trata dos sentimentos ardorosos de Medeia que achariam lugar para coitas de amor, lamentos longos e discursos apaixonados e raivosos. Mas veremos que não é esse o aspecto mais explorado aqui.

O texto é muito fragmentado, mas temos a parte da narrativa em que os principais são introduzidos na trama. E é interessante notar que em meio às descrições singulares que os autores medievais davam às personagens (masculinas e femininas) nas novelas de cavalaria, a personagem-chave deste texto ganha um silêncio descritivo.

Vejamos antes de qualquer coisa o exemplo da princesa troiana Policena, personagem construída sob um olhar medieval em que o físico e o moral eram uma coisa uma e cada traço luminoso correspondia a um indício de honradez. Na Crónica Troiana a mesma personagem é descrita ao lado de todos os outros (cada personagem minimamente citado nesta novela recebe um episódio próprio contendo a descrição de suas feições, ou feituras) de forma muito simular a que ocorre na Historia Troiana. Retiramos desta última um pequeno trecho de modo a elucidar o destaque do olhar medieval da personagem:

Das feituras de Polícena

O moi noble e moi fremoso parescer que havía Polícena, esto non o podería contar ja nengún en um ano; nen por min non poderían ser ditas nen contadas súas beldades.

Pero que direi por Daires o que del aprendí: sabede que Polícena era grande e de moi bõo talho, e havía os cabelos brunos e moi longos, e os olhos verdes e as sobrancelhas delgadas e enfestas para cima, e a face moi blanca e o rostro moi fresco e moi vivo, ca máis fresco era o seu rostro e a súa cara que ua rosa quando nace. E bem semelhava que a súa boca era de donzela atán aposta que semelhava que rija. (Antoloxía, s/d, p. 243)

A luz que Policena exala, seja pela face branca, pelo frescor do rosto ou pelos olhos verdes, vão de encontro a sua nobreza, sua cortesia e demais qualidades do espírito afeitas ao casamento, como mais adiante se vê: “[…] ca tan leda era e tanto era em ela o plazer do coraçón e em tal guisa que todo home se pagava de falar com ela, porque se razoava tan bem que a todos aplazía quanto ela dizia.” E é assim com os demais personagens, tanto nesta novela, como na Crónica Troiana, conforme dissemos acima.

Mas ao introduzir Medeia (no episódio Dos filhos e filhas que el-rei Oeta havia), o narrador abre mão de qualquer descrição deste feitio. Na verdade, é conferida a ela apenas uma frase, em um longo parágrafo, que cita apenas sua sabedoria: “[…] e a ua das filhas dizían Medea e aa outra Gorge. E esta Infanta Medea era das mais sabedores donas que eno mundo havia em aquel tempo, e sobre todo ena arte mágica e das estrelas.” (Antoloxía, s/d, p. 234).

Essa mulher forte e poderosa ganha, entretanto, mais a frente, voz para falar de sua própria grandeza. Questionada pela irmã sobre um possível casamento com Jasão, ela afirma seu querer e, indo além, fala mal de sua família e sua pátria e se coloca em um lugar de divindade. Vai, neste trecho, contra todas as instituições medievais: da família à pátria, passando pela religião.

Assim, a Medeia da Historia Troiana conquista o espaço narrativo (que lhe foi negado em descrição) pela voz e pela ação: “[…] – Fazer-lo quero, e acorrer a Jasón, e ir-me-ei com el, ca meu padre cruel é, e a minha terra bárbara, fascas bruta e neicia, e meu irmão pequeno. E dos dioses de minha irmãa comigo xe son. E grande deus é dentro de min.” (Antoloxía, s/d, p. 234-235).

Enquanto a paixão de Medeia por Jasão não ocorre aqui como motivo de sua decisão de casar-se e fugir com ele, mesmo sabendo que as vicissitudes amorosas poderiam ser exploradas com eficácia pela novela, espera-se que nas peripécias cavalheirescas de a narrativa seja mais esmerada. Mas também não é neste aspecto que a novela se detém. Um exemplo de trecho que demonstra a distância entre o alargamento dos feitos de Medeia e dos feitos de Jasão está abaixo no episódio denominado Como Jasón havía de adormentar o dragón e como dizía súas palavras de encantamento para o adormentar e depois tomar a lãa dourada:

Coidava Jasón de adormentar o dragón com palavras e com heras. E era aquel dragón moi espantoso por ua crista que havía ena cabeça. E era estraio e de temer por tres léngoas que havía ena boca. E os dentes havía recurvados. E este dragón era feito desta guisa: era de natura que nunca dormía; e este era gardador da lãa dourada. (Antoloxía, s/d, p. 240)

E após curtíssima narração, no mesmo episódio, o texto retoma Medeia. Jasão volta vitorioso com a lã para enfado do rei. E em meios aos abraços dos gregos, compatriotas de Jasão, a novela nos diz – referindo-se ao texto original em que ela se baseia (de Daires e de Beîto):

E aquí diz o autor sobre Medea:

– Tu, bárbara, querías abraçar ao vencedor moi de bõa voontade, mais a vergonça te estorva que o non faças. E outrossí te estorva a honra da túa fama, que te non quesiste enfamar nem mostrar-te alí. E feziste o que te convinha de fazer: porque calaste e te alegraste em túa voontade. E agradeciste-o moito aos teus encantamentos e aos teus dioses. (Antoloxía, s/d, p. 241)

Este tipo de diálogo entre o copista, o tradutor, e o autor do texto em que a versão se baseia é comum nestas novelas. Mas é, também, uma forma de o autor da versão em questão, ou seja, da Historia Troiana, no caso, inserir seu próprio discurso, sua visão. E aqui ela é usada para ampliar a personagem de Medeia, com informações acerca de sues sentimentos e também atitudes. Aqui isto é feito sem que seja dado a ela um episódio, como convinha fazer, já que o tema deste era o sucesso da empreitada de Jasão. Contudo o destaque a Medeia, por isso mesmo, acaba sendo maior. E a personagem nem precisaria de tanta ênfase em face do que estaria por vir. A famosa violência e frieza de Medeia são narrados a seguir na novela:

E disso a Jasón:

Vai adeante e non me cates, que quero fazer algua cousa que non nos alcance meu padre.

E tomou ua espada e degolou seu irmão, e deitou a cabeça em pus si por tal que se detevesse seu padre quando esto visse. E levou o corpo consigo. (Antoloxía, s/d, p. 242)

Medeia, então, na fuga com Jasão, degola o irmão e o desmembra. Seu intento cruel é ir aos poucos descartando partes do corpo da criança pelo caminho, certa de que o desespero do pai, e seu intuito de dar a cada uma dessas partes um enterro digno, o atrasará na perseguição. O trecho não se prolonga em detalhes, é cru como o é Medeia. E também é curto como costumam ser breves as peripécias narradas nas novelas do ciclo clássico, que privilegiam os elementos do amor cortês e os desdobramentos de relações cavalheiro-dama às questões de armas.

Sabendo que este manuscrito nos chegou muito fragmentado e cientes, ainda, de que a fidelidade aos modelos a que se refere era o objetivo buscado no período medieval, procuramos trazer à luz a dubiedade com que a personagem de Medeia é ilustrada na Historia Troiana. Uma figura tão desconcertante em qualquer período, mas, sobretudo, no católico medievo ibérico, ela recebe por vezes o silêncio e por outros a voz. O destaque em ações livra o autor da novela de inseri-la como uma dama feudal semelhante às demais personagens e sua fala irrompe em outros momentos para frisar sua condição bárbara e sua capacidade de premeditar infanticídios. Mas sua intensidade e seu poder transbordam do texto tomando o espaço que sua autonomia exige.

O que se pretendeu foi apresentar com brevidade que o olhar medieval sobre o clássico deixa claro que sempre há de emergir o que se não pode conter. Neste caso, do mundo da Antiguidade o que fica – e que é animado pela novela de cavalaria – é a magnitude singular de Medeia.

Referências bibliográficas:

Antoloxía da prosa literaria medieval. Edicíon de: Xosé R. Freixeiro Mato. Vigo: A Nosa Terra, s/d.

ECO, UMBERTO. Arte e Beleza na Estética Medieval. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Historia Troiana. K. M. Parker, CSIC-Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos: Santiago de Compostela, 1975.

LORENZO, Ramón. Crónica Troiana. A Coruña: Real Academia Galega (Colección Documentos Históricos, 1985).

VILAVEDRA, Dolores. Historia da literatura galega. Vigo: Galaxia, 1997.

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2 opiniões sobre “História Troiana: aspectos de uma novela do ciclo clássico”

    1. Sim, há muitas cópias, versões e traduções de novelas francesas de tema clássico. Mas a que nos chegou completa foi a “Crónica Troiana”, que retoma a Guerra de Troia. Está na bibliografia do artigo. 😉

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