O amigo Delmiro: Uma análise da “visão do outro” no conto de Gonzalo Navaza

Tiago Correia

Aluno de Lingua e Cultura Galega na Universidade Federal da Bahia

RESUMO: O artigo busca analisar a narrativa “O amigo Delmiro” presente em “Erros e Tánatos” (2002), de Gonzalo Navaza, tendo como principal base teórica Homi. K. Bhabha e o seu conceito sobre a construção da visão do outro. A análise problematiza o conto a partir da ideia de estereótipo construído pelo colonizador. E assim, tenta diagnosticar de que forma ele se manifesta e o quanto nos encaminha a fazer pré-julgamentos de sujeitos.

INTRODUÇÃO

Minha proposta é apresentar e problematizar o conto, O amigo Delmiro, que compõe o livro, Erros e Tánatos, do escritor galego Gonzalo Navaza. Pretendo desenvolver e articular a discussão da narrativa a partir da visão do outro. Entretanto, não me abstenho dos desvios que possa acontecer ao longo do desenvolvimento das questões pensadas, como afirma Barthes (1973), o prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.

Mas, antes de qualquer levantamento sobre os aspectos da literatura presentes no texto literário, entendo como de grande importância situar quem é o autor do conto e o lugar em que se passa a narrativa.

O AUTOR

Gonzalo Ramón Navaza Blanco, nascido na cidade de Lalín no dia 28 de fevereiro do ano de 1957. É um escritor contemporâneo premiado, que tem sua obra literária passeando por diversos gêneros, cito-os: Poesia, Narrativa, Ensaios e Tradução. Atualmente, é professor titular de literatura na Universidade de Vigo.

 O CONTO

O conto – O amigo Delmiro – acontece na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Entre as capitais do nordeste brasileiro, é a maior delas e a terceira de todo o território nacional. Localiza-se em uma península pequena, em formato de triângulo, separando a Baía de Todos os Santos das águas abertas do Oceano atlântico.

A cidade é conhecida mundialmente por sua beleza tropical, pela arquitetura do período da colonização e pela culinária que sofreu influências dos portugueses e dos negros africanos escravizados. Além disso, possui praias famosas como as do Porto da Barra, Rio Vermelho, Ondina e a de Itapuã que serviu de inspiração aos músicos e poetas Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes.

O soteropolitano é um povo conhecido por ser acolhedor e hospitaleiro. Muitos dos que desembarcam na cidade pela primeira vez, ao se sentirem acolhidos, quase sempre escolhem regressar para visitá-la novamente, como quem visita um amigo ou familiar, enquanto, outros, escolhem morar em definitivo, como afirmar Júlia Kristeva, a partir do momento em que os estrangeiros têm uma atitude ou uma paixão, eles fixam raízes.

Antes de o conto ser iniciado, aparecem no texto em epígrafe dois versos da música O Quereres do cantor e compositor baiano Caetano Veloso. Os versos são: Onde queres revólver sou coqueiro / e onde queres dinheiro sou paixão. Os dois trechos da música recepcionam o leitor antes de iniciar a leitura do conto, e através das figuras de linguagem presentes, os versos antedizem o que podemos esperar no decorrer da leitura da narrativa. Em síntese, aparecem nos versos, violência e passividade em oposição. Um leitor atento ao que antecede o texto poderá iniciá-lo, esperando ao que porventura o pré-texto disse.

O ESTEREÓTIPO

Um dos aspectos que busco problematizar e apresentar neste artigo é de como o estereótipo influencia em determinadas atitudes e na criação de imagens que são consideradas como modelo. A relação de poder e saber terá grande influência na recepção e realização do estereótipo, uma vez que, saber e poder estarão vinculados a um grupo minoritário, mas que exerce fortes influências diante da maioria, quase sempre desinformada e subalternizada.

A zona conflituosa da narrativa em – O amigo Delmiro – é alimentada a partir dos estereótipos aos quais fomos submetidos a internalizar e ter como verdade. Percebemos a força deste ponto, quando buscamos desconstruir os estereótipos e vemos que vestígios das ideias conservadoras ainda nos atravessam.

A atitude do senhor Antonio Castro, em ir caminhar na praia, não se encaixa ao padrão dos que caminhavam na orla da cidade “Saía de casa a media manã, sombreiro de palla algo ladeado e cana e despreocupado pola avenida adiante, satisfeito do bem que respondían as pernas e de súa imaxe de vello mozo com seus desportivos brancos.”, e ele tem consciência da imagem a que está relacionado. Após caminhar na orla, o senhor Antonio Castro refugia-se na sombra duma das barracas da praia da barra para ler, comer e beber alguma coisa.

Este lugar – a sombra duma barraca da praia da barra – em que o senhor Antonio Castro busca para descansar ao final da caminhada, é muito mais próximo do lugar em que a sociedade relaciona a uma pessoa idosa.

Neste contexto, existe o que chamarei de (des)pintura do quadro social a que se insere vários grupos da sociedade. Um paradoxo, ao qual entendo como uma tentativa de não relacionar um sujeito a uma única imagem, mas que existe uma pluralidade que os sujeitos podem exercer.

Os filhos e os netos do senhor Antonio Castro não ficavam tranquilos com suas saídas para caminhar na orla da cidade. Consideravam que ele, o idoso, seria um tipo fácil de isca para pessoas de má índole se aproveitar. Pois aos idosos estão ligados a adjetivos que os classificam como sujeitos de pouca força física e incompetência numa reação rápida de autodefesa. Estes estereótipos subalternizam a condição da pessoa de mais idade diante das outras e o impedem de praticar inúmeras atividades comumente exercidas por pessoas mais jovens.

Em uma classificação preliminar Homi K. Bhabha nos traz o seguinte:

[…]   o estereótipo   é um modo de representação complexo, ambivalente e contraditório, ansioso na mesma proporção em que é afirmativo, exigindo não apenas que ampliemos nossos objetivos críticos e políticos mas que mudemos o próprio objeto da análise. (BHABHA, 1998, p. 110).

O narrador busca justificar a preocupação dos filhos e netos do senhor Antonio Castro, fazendo um retrato marginalizado e de precarização da cidade de Salvador. Organiza em um único parágrafo fragmentos da cidade e une-os, formando uma imagem contrária àquela que é comercializada nos países europeus. Este retrato legitima o discurso de preocupação sobre a falta de competência física para se defender dos inúmeros perigos que a cidade oferece.

Incomodado com a situação a qual é submetido pelos filhos e netos, o senhor Antonio Castro diz “Que se algún día lle saía um ladrón lle os poucos cartos que levase encima e vía. Que había mais de sessenta anos que estaba naquela cidade e que sempre soubera gobernase pela súa conta. Que non estaba disposto a renunciar, simplesmente por medo a um moleque…”. A incompatibilidade de visão e a não renúncia das atividades por causa dos supostos perigosos da cidade gera conflito sobre as atitudes tomadas pelo senhor Antonio Castro.

Nenhum obstáculo o retém e todos os sofrimentos, todos os insultos, todas as rejeições lhe são indiferentes na busca desse território invisível e prometido, desse país que não existe mas que ele traz no seu sonho e que deve realmente ser chamado de um além. (KRISTEVA, 1994, p. 13).

Segundo o narrador, houve um tempo em que na cidade de Salvador habitava a tranquilidade, mas com os anos passados, a rotina da capital da Bahia estava irreconhecível. Os bairros de classe média alta tiveram os casarões abandonados por seus moradores que os trocaram por arranha-céus. As casas abandonadas destes bairros foram tomadas por pessoas que estavam à margem da sociedade.

Diferentemente dos seus filhos e netos, o olhar que esse homem estrangeiro de setenta anos lança e busca na cidade é tentando encontrar o que lhe fora prometido um dia, ou que talvez, ele já viveu, mas que, na atualidade, não existe mais, acabou. Neste momento, existe no estrangeiro uma força maior que o torna incapaz de aceitar que a terra prometida deixou de existir, ou sequer nunca existiu, de fato.

O medo que os filhos e os netos sentem com a circulação do senhor Antonio pela cidade irá afetar a imagem do nativo – o amigo Delmiro. É a partir do seu surgimento na narrativa que as visões dos personagens ganham combustível e vão sendo reveladas pelo narrador.

O nativo é descrito pelo senhor Antonio Castro a partir de algumas das suas características físicas, “[…] apareceu por primeira vez aquel home, un cara de idade indefenida, forte e suorento, achegándoselle á mesa cun amplo sorriso”. No imaginário popular, os atributos usados para caracterizar o nativo faz entender que o homem que lhe chegou à mesa com um amplo sorriso seja afrodescendente.

A figura estereotipada do homem negro foi construída a partir de princípios morais brancos conservadores que encara o afrodescendente como um sujeito marginalizado. O estereótipo de violento e perigoso provém da resistência manifestada que os negros tiveram contra ao processo histórico escravista no Brasil por Portugal.

O estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença… constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e socais. (BHABHA, 1998, p.117).

No período escravista, Salvador foi porta de entrada aos negros africanos trazidos pelos portugueses para ser escravizados na colônia portuguesa. E em decorrência disso, é considerada a cidade com maior índice populacional de negros fora do continente africano.

 […] “Onde quer que eu vá”, lamenta Fanon, “o negro permanece negro” – sua raça se torna signo não-erradicável da diferença negativa nos discursos coloniais. Isto porque o estereótipo impede a circulação e a articulação do significante de “raça” a não ser em sua fixidez enquanto racismo. Nós sempre soubemos que os negros são licenciosos… […] (BHABHA, 1998, p. 117).

O nativo se apresenta ao estrangeiro com o nome de Delmiro, amigo do Waldo Castro, um dos seus filhos, e o senhor Antonio Castro também se identifica. A identificação do estrangeiro faz com que o nativo tenha uma reação impulsiva que o faz repetir seu nome e dizer que é amigo de um dos filhos do senhor Antonio. A não- anonimização dos sujeitos possibilita-os a dialogar, sabendo da identidade d’outro. Neste caso, isso permitiu que o Delmiro pedisse permissão para se sentar à mesa – “Non lhe importa que sente?”.

 Saber o nome do nativo e que ele é amigo de um dos seus filhos, não bastou para que não houvesse desconfianças sobre a figura daquele indivíduo que lhe chegou à mesa “suorento e com um sorriso largo”. O narrador diz que Delmiro “Apartou unha cadeira e ofreceulla sem deterse a pensar que aquel home aparentada polo menos dez anos mais ca calquera dos seus filhos”. O senhor Antonio Castro é movido de uma desconfiança sobre aquele homem que lhe chegou de repente dizendo ter um passado atravessado com o seu.

A desconfiança é provocada decorrência das notícias que circulam na cidade sobre homens que se aproveitam de pessoas frágeis para poder golpeá-las. E, claro, essas pessoas são marcadas caracteristicamente por um estereótipo que é desenhado pelo homem branco colonizador.

[…] o estereótipo dá acesso a uma “identidade” baseada na dominação e no prazer, na ansiedade e na defesa, pois é uma forma de crença múltipla e contraditória em seu reconhecimento da diferença e recusa da mesma. Esse conflito… dominação/defesa… tem uma significação fundamental para o discurso colonial. (BHABHA, 1998, p. 116).

O estrangeiro também passa pelo processo de perda de identidade, entretanto, não como sujeito à margem da lei. A marginalização a que o estrangeiro é submetido é aquela em que há a perda da singularidade, mas que não o subalterniza, ao contrário de como acontece com o negro. O nativo deixa de nomear o estrangeiro pelo nome de cartório e passa a chamá-lo de acordo com sua naturalidade ou descendência “… Waldo Castro, si señor; ainda que eu sempre lle chamei Castro. Tamén lle chamabamos Español porque vostedes son españois, non é?”.

A identidade desse sujeito não oferece perigo no mundo ocidental, pois as relações a que ele se submeterá com o nativo tenderão a ser agradáveis e de compartilhamento de culturas. Além disso, o estrangeiro aparenta não oferecer perigos ao nativo, pois seu comportamento é lido como quem se encontra perdido e tenta encontrar um eixo para se encaixar.

El viajero es ante todo un extranjero, un intruso, un “marginal”, como afirma Simmel. él se aleja de su mundo propio e ingresa en territorio ajeno, su condinción liminar se expressa en las costumbres de diversos pueblos. (ORTIZ, 1998, p. 3).

O amigo Delmiro confessa ao senhor Antonio que fazia alguns anos que estava sem notícias do Waldo Castro e que não sabia da sua mudança para trabalhar como diretor duma agência em São Paulo. Em seguida, Delmiro segue com o senhor Antonio até a sua casa, lá o amigo pegaria o número de contato do Waldo. Ao chegar à casa como bom anfitrião, o velho oferece ao amigo do filho uma caipirinha feita por sua neta Rosiña.

A INTRIGA

No conto, a figura da neta aparece para manifestar questões que estão vinculadas ao estereótipo sobre a figura do nativo afrodescendente. Se o estrangeiro branco tende a ser considerado sujeito inocente, tranquilo e desnorteado territorialmente; o nativo é encarado como indivíduo duvidoso. E se o nativo em pauta for o homem negro, é atribuído a ele adjetivos que o subalternizam e inferiorizam diante dos demais grupos populacionais e sociais.

A primeira manifestação de desconfiança que a neta tem com a presença do Delmiro, aparece quando o narrador diz “no corredor, apegada á porta, estaba a súa neta com cara de alarma”. Neste trecho fica entendida a suspeição sentida pela neta e as falas que o sucedem reforçam esta impressão. A partir deste momento, inicia-se o conflito que colocará em questão a legitimidade do estereótipo de que o nativo afrodescendente é licencioso e o estrangeiro/nativo-branco, sujeito íntegro, incorrupto etc.

– Quen é ese tipo que vén con vostede, avó? – perguntou em voz baixa.

– É um amigo do teu pai. Quere o seu número de telefono – respondeu o avó tranquilamente.

– Amigo do meu pai? Amigo do meu pai! Como pode crer que sexa amigo do meu pai um   fulano com esa pinta? (grifo meu) (NAVAZA, 2002, p. 37-38).

Os termos grifados podem ser considerados problemáticos, pois quando inseridos num contexto conflituoso, em que as relações narradas estão atravessadas de estereótipos e preconceitos baseados em características físicas e históricas, passam a ter carga semântica que nos possibilitam compreender a que tipo de sujeito a neta está se referindo.

No diálogo entre o senhor Antonio Castro e Rosiña (a neta) também fica manifestado um tipo de hierarquização e separação entre branco e preto. Como se ela tentasse impedir as águas escuras do Rio Negro e as águas claras do Rio Solimões, no Amazonas, de se tocar. A analogia com os dois rios serve para exemplificar e dizer que os dois, negros ou claros, não deixam de serem rios, de ter peixes, alimentar os ribeirinhos e ter o próprio curso.

A visibilidade do Outro racial/colonial é ao mesmo tempo um ponto de identidade (“Olha, um negro”) e um problema para o pretendido fechamento do interior do discurso. Isto porque o reconhecimento da diferença como pontos “imaginários” de identidade e origem – tais como preto e branco – é perturbado pela representação da cisão no discurso. (BHABHA, 1998, p. 124).

O senhor Antonio tenta explicar para Rosiña como conheceu o Delmiro, mas ela, incontestada, não dá ouvidos ao avô e responde, dizendo que a história que ele a conta é igual a que soube por uma vizinha. E usa o argumento de que “Casos semelhantes cóntase a centos, avó. Tal como anda o Brasil, os vellos son presa fácil e apertecible para estes desalmados”. Novamente aparece na fala da neta a ideia de que pessoas de mais idade estão propicias a serem vítimas de indivíduos maliciosos. E aterroriza dizendo:

– Entroulle na casa, fixole as do demo e torturouna ata que lle dixo as claves das tarxets de crédito, e logo deixouna atada mentres lle baleiradaba as contas dos bancos. E non a matou de milagre. (NAVAZA, 2002, p. 38).

A neta tem uma visão alterada da realidade, uma vez que, além de sua fala estar atravessada por ideais moralistas, idealizados pelo colonizador, a sua visão, também, possui características exagerada, dramática e   trágica, assim como, humorística, uma vez que percebemos que a narrativa ganha velocidade e conflito a partir de sua entrada no conto.

Tentando tranquilizar Rosiña, o senhor Antonio busca convencê-la de que o sujeito em questão é amigo do Waldo Castro e que ele sabe de histórias do seu filho: “Sabe que é avogado, e que somos españois, e que Waldo estivo a punto de morrer afogado cando tiña vinte anos. Estou seguro de que non hai ningunha razón para a desconfianza.”. Inconvencível com o que é dito pelo avô, a garota adverte-o, dizendo “Que vostede é espanhol pode notalo calquera polo acento!”. E propõe que o avô faça o amigo Delmiro ligar para Waldo Castro naquele instante.

O senhor Antonio seguiu o plano da neta e deu o contato do filho Waldo Castro e sugeriu que o amigo Delmiro ligasse ali mesmo. Enquanto dizia tais palavras, observava na fisionomia do nativo se ele tinha alguma reação que levantasse suspeita e correspondesse às desconfianças da neta, mas nada o fez despertar dúvidas.

Segundo o narrador, enquanto Waldo e Delmiro conversavam ao telefone, “o vello observábao compracido.”. Então, a desconfiança da neta que por um momento lhe havia feito duvidar sobre a índole do nativo, agora, fazia-o respirar aliviado e rir dos medos dela.

Apesar do velho se encontrar certo de que o filho e o amigo Delmiro estavam realmente na linha telefônica conversando e relembrando de episódios da vida que viveram juntos, a neta aparece “novamente no corredor, detrás da porta” sem se deixar convencer, volta a insultar o avô e causar nele outra dúvida: se realmente Waldo e Delmiro estavam conversando ao telefone ou se Delmiro estava apenas encenando que conversava com Waldo.

A desconfiança da neta é o combustível para que a problemática se desenrole, esta suspeita insaciável é alimentada a partir das ideias conservadoras que sempre aparecem no seu discurso. Além disso, ela transporta essa dúvida sobre o caráter do amigo Delmiro ao avô que, mesmo após acreditar que o rapaz é amigo do filho, recua com os argumentos levantados pela neta.

Insatisfeita com o que consegue ouvir, a neta entra na sala com o avô e solicita ao amigo Delmiro que também deseja falar com o seu pai, Waldo Castro. Para ela, o fato de escutar o diálogo do nativo é insuficiente, existe uma necessidade de comprovar e testar sua veracidade.

A este sujeito é cobrado a todo instante sua identidade, o seu cartão de visita e comprovação de bom caráter. O nativo afrodescendente, morador da capital baiana, em especial, passa todos os dias por este policiamento, por uma necessidade interminável de cobrança para querer saber quem ele é.

A situação em que se encontra Delmiro na narrativa não é particular a ele, existem muitos outros   “Delmiros” em Salvador que passam por episódios semelhantes. O mais trágico dessa situação é que o moralismo colonizador elitista está atravessado em nós, e manifesta-se tanto do homem branco para o homem afrodescendente como no homem afrodescendente contra o próprio homem afrodescendente, raramente do afrodescendente contra o branco e o estrangeiro.

O negro é um animal, o negro é mau, o negro é ruim, o negro é feio; olha, um preto, está fazendo frio, o preto está tremendo de frio, o preto está tremendo porque está com frio, o menininho está tremendo porque está com medo do preto […] mamãe, o preto vai me comer. (BHABHA, 1998, p. 126).

O DESFECHO

Ironicamente quando a neta se aproxima do Delmiro, a ligação sofre uma falha e começa a cortar “– Castro? Castro? Podes oírme? Castro…? Oh, parece que se cortou…” então, a moça que não suportava a ideia da existência da amizade entre Delmiro e Waldo, seu pai, interpreta a falha da ligação como uma encenação para convencê-la e ao avô de que o corte impediu a continuidade da conversa entre eles. Isso foi suficiente para Rosiña julgá-lo e condená-lo como sujeito mau caráter e que suas desconfianças estavam coerentes, como afirma Bhabha (1998), a população colonizada é então tomada como a causa e o efeito do sistema, presa no círculo da interpretação.

Numa tentativa de autodefesa, após o julgamento do sujeito que o narrador enumerou sendo “individuo… impostor perigoso” (grifo meu), Rosiña corre para o corredor e volta segurando numa das mãos um revólver, em estado psíquico completamente fora de si e exaltada ordena “– Arriba as mans, arriba as mans!”.

Descontrolada, a neta dispara um tiro que acerta o teto, enquanto os três – o avô, o amigo Delmiro e Rosiña – começaram a gritar, assustados. O amigo tentou se esconder atrás de algum móvel da casa, mas a neta enlouquecida com a arma na mão saiu atrás dele e lhe disparou dois ou três tiros na porta do prédio. De volta para casa e eufórica ela chama a polícia. Em seguida, procura pelo avô que estava imóvel desde o primeiro tiro contra o teto.

Esta última cena resulta da realização prática do que compõem os estereótipos a que o homem negro é submetido. Os tiros disparados podem ser compreendidos como tecnologia que tem como função solucionar os problemas de violência que circula a cidade. Segundo as ideais moralistas constituídas pelo colonizador, o homem que oferece perigo é justamente aquele que foi escravizado, agredido e que possui um passado histórico sofrido pela violência do colonizador.

O negro nessa sociedade e principalmente na cidade de Salvador é encarado com esta visão agressiva e preconceituosa. Enquanto os habitantes brancos, que tem em sua pele a cor do colonizador, não despertam desconforto e desconfiança sobre a sua índole e suas intenções para com o outro.

No conto, ao mesmo tempo em que o nativo afrodescendente é encarado como sujeito violento e duvidoso com base em estereótipos, o branco/estrangeiro é visto como sujeito pacífico. Mas, no conto, as reações violentas não partem do “amigo Delmiro”, e sim da neta Rosiña, que aparece na narrativa como agente problematizadora e, ao mesmo tempo, solucionadora da problemática.

As atitudes realizadas pelo nativo são todas suspeitas e colocadas em questão, enquanto as de Rosiña são encaradas como autodefesa. O sujeito que colocam como agressor é quem é agredido. Entretanto, ele não sai como injustiçado e sim como quem foi combatido. Ratifico, esta reação de combate tem como base os estereótipos que colocam o negro numa posição subalternizada e desfavorável nas sociedades modernas, como afirma Kristeva (1994), o estrangeiro continua a se sentir ameaçado pelo território de outrora, tragado pela lembrança de uma felicidade ou de um desastre– sempre excessivos.

Enquanto de longe se ouvia a sirene do carro da polícia, no telefone em que o amigo Delmiro conversava com Waldo, soou uma voz que dizia: “– Ainda segue aí o Delmiro? Estabamos falando… e de repente cortouse a chamada.”.

No telefone, após a linha recuperada, o amigo do Delmiro, Waldo Castro, o chama, enquanto ele, ensanguentado, fica estendido em frente ao prédio do senhor Antonio Castro ao tempo em que a neta se dá conta do que acabou de fazer.

Portanto, o nativo é endemonizado, tomando-se por base estereótipos que o marginalizam e subalternizam. Enquanto o estrangeiro é idealizado como sujeito pertencente à entidade pura e do bem e que necessita ficar alerta aos perigos que o nativo lhe oferece. Ambas as ideias são carregadas de inocência e preconceitos. O que está em jogo é a imagem do outro, não suas atitudes, e ela aparece sendo suficiente para julgamento.

Referências Bibliográficas:

BHABHA, Homi K. O local da Cultura / Homi K. Bhabha; tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

BARTHES, Roland, 1915-1986. O prazer do texto/ Roland Barthes; (tradução J. Guinsburg), São Paulo: Perspectiva, 2015. (Elos; 2/ dirigida por J. Guinsburg).

NAVAZA, Gonzalo. Erros e Tánatos / Ed. La Voz da Galícia, 2002

KRISTEVA, Júlia, 1941 – Estrangeiros para nós mesmos / Júlia Kristeva; tradução

Maria Carlota Carvalho Gomes. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

ORTIZ, Renato.Otro Território/ Renato Ortiz; Traducido por Carlos E. Córtés Sánchez– Santafé de Bogotá: Convenio Andrés Bello, 1998.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s