Como entender o celtismo na Galiza e Irlanda?

Erick Carvalho de Mello

Doutorando em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Falar sobre celticismo galego e irlandês não é tarefa das mais simples. Afinal, é muito fácil se perder no emaranhado de definições que cercam as representações do celtismo na modernidade. Em verdade, o debate sobre o entendimento moderno de uma identidade étnica celta não pode ser entendido apenas pelas apropriações atuais do que é ser celta, até mesmo porque sua própria estruturação é influenciada pelo que se entende dos antigos celtas na mesma proporção que estes são definidos pelo que modernamente entendemos por celtas.

É interessante pensar nesta relação inclusive. Uma via de mão dupla une a definição moderna e antiga de celticidade e, sobretudo, celtitude. Dizemos aqui que a relação é uma via de mão dupla, pois as duas definições surgem ao mesmo tempo e em caráter interdependente. Um estudo que se pretenda entender como se forma e atua a celticidade moderna por meio de suas fronteiras étnicas deve antes buscar como se elabora as definições acadêmicas acerca dos antigos celtas para assim melhor compreender o que se entende por “céltico” em plenitude e desta maneira melhor promover possíveis correlações entre o entendimento acadêmico dos já sedimentados estudos célticos com as apropriações contemporânea de uma celticidade geradora de uma identidade celta.

Neste sentido, é de todo necessário explicitarmos a diferença entre Celticidade e Celtitude, dois conceitos chave na formação identitária céltica. Para melhor compreendermos estas ideias, baseamo-nos nas ideias do antropólogo Michael Dietler que define Celticidade como um sentimento de identificação emocional centrado em uma conexão direta com a ideia existente em certas características definidas como celtas que não demandam necessariamente alguma ligação direta com genealogia, território ou mesmo língua, mas apenas o que Bowman chamaria de “cardiac celts”. Ao contrário de Celtitude que como Dietler define, se traduz como um largo sentimento de orientação etno-nostálgica encontrado, por exemplo, nos movimentos de migração irlandesa e escocesa ao redor do mundo. Para Dietler, a construção de Celtitude envolve ”algum tipo de re-essencialização” em um senso específico de pertencimento étnico baseado em uma visão de comunidade construída.

Estas definições são até hoje base do debate que legitima a pertença étnica e mantêm muitas das tradições inventadas que buscam aninhar-se dentro do escopo étnico. Todas estas definições que remetem a antiguidade seguem uma linha bem nítida traçada pelos atores políticos da franja céltica européia e se pauta em diversificadas “tradições inventadas” como para Eric Hobsbwam em “A Invenção das tradições” sendo “um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica automaticamente uma continuidade em relação ao passado (…)” (HOBSBAWM et al, 2008: 9).

Esta definição por certo atende a formação identitária céltica, pois o uso da antiguidade enquanto construção é base da justificativa do reconhecimento de uma identidade étnica céltica legitimadora das ações e da coesão grupal imaginada pela comunidade pan-céltica, e relembradas nas memórias coletivas dos movimentos de identidade resistente céltica nos mais variados locais onde esta se apresenta.

No entanto, estas buscas etno-nostálgicas geram quase sempre uma falta de perspectiva com relação ao que é ser celta. Existe a interferência do campo politico seja na construção de uma resistência quanto de uma domesticação dos “valores célticos” e isso acaba por gerar uma falta de perspectiva futura em muitos casos sobre o uso destes elementos célticos.

Sanar esta falta de perspectiva de um futuro que norteou a busca incansável pela celtitude na Galiza, inclusive. Afinal, falar de celtitude na Galíza é falar de galeguismo e seu desenvolvimento até a formação de um nacionalismo galego.

Dentro do galeguismo podemos identificar diferentes períodos. Do Provincialismo entre 1840 a 1885, passando pelo rexionalismo dos anos 1885 até 1915 e por fim estruturando-se em uma nacionalismo a partir de 1916. Nestes períodos, por meio da intelectualidade galega, nós vemos a celtitude se desenvolvendo de maneira concomitante, bem como o celtismo galego como um todo.

Os elementos célticos em Galiza não são fruto unicamente do século XIX. Apesar de entendermos que o marco histórico das teorias acadêmicas sobre o celtismo galego surgem com o História de Galícia de José Verea y Aguiar, suas influências residem no século XVIII com autores como o frei Martín Sarmiento e Juan Francico Masdeu que a partir da crítica de leituras acerca do celtismo na França desenvolve leituras próprias ligadas a Galiza.

Durante o desenrolar do século XIX, nós encontramos o celtismo na galiza se desenvolvendo ao lado de um projeto político como na atuação de Antolín Faraldo junto ao provincialismo e mais a frente já no rexionalismo com a figura do historiador Manuel Murguía e do poeta Eduardo Pondal.

Durante o provincialismo, Faraldo nos fornecerá os alicerces do entendimento céltico galego. Veremos a ideia dos celtas como grandes ancestrais galegos e mais do que isso, os celtas galegos como o centro da franja céltica atlântica, como podemos atestar por seus escritos no El Recreo Compostelano em 1842, onde se firma a ideia da Galiza como uma nação celta bem próxima das outras reconhecidamente atlânticas, pois“ os costumes da Irlanda, da Escocia, e ainda Francia, son irmãos dos nossos”[1].

No entanto, o celtismo galego ganha sua principal leitura a partir dos período político do Rexionalismo, onde um grupo de intelectuais dará corpo ao galeguismo por meio do movimento cultural e literário conhecido como o Rexurdimento. Neste período de profícua produção cultural galega que devemos localizar a atuação da cova céltica e em especial as obras de Manuel Murguía e Eduardo Pondal.

Com Murguía nós teremos o celtismo como elemento chave da formação étnica galega e de sua celtitude. Em seus escritos, a Galiza se torna oficialmente celta até mesmo ao se inserir no hino nacional galego como a Nação de Breogán.

Eduardo Pondal será igualmente importante neste projeto. Sua obra versará sobre os mitos celtas e os resignifica pensando em projeto futuro. O próprio conceito poético de resistência céltica galega vem e muito da obra de Pondal que trabalhará os elementos com maestria criando um significado forte entre o celtismo, a espacialidade galega e um projeto que identitário que se pensa resistente.

Não é muito difícil traçar paralelos entre o momento do Rexurdimento e a influência da cova céltica na Galiza, com o revivalismo céltico e a atuação das ligas gaélicas na Irlanda. Em verdade é muito fácil traçar um paralelo contemporâneo entre o trabalho de Murguía e Pondal e o que fez, por exemplo, o nacionalista Patrick Pearse e o poeta W.B.Yeats na Irlanda dada as devidas proporções e conjunturas de cada nação. No entanto, é justamente nesses paralelos históricos entre Irlanda e Galiza que a geração nacionalista pós 1915, a chamada xeración nós trabalhará o celtismo na Galícia afim de legitimar-se.

A Xeración nós, ligadas diretamente com os grupos nacionalistas em defesa da fala galega, as irmandades da fala, se tornará o principal expoente de disseminação do celtismo galego. A Revista nós traçará em diversos de seus números paralelos entre a Irlanda celta e a Galiza e será de vital importância para a formação da ligação cultural no imaginário coletivo galego entre as duas nações enquanto celtas. O Livro das invasões da Irlanda, um manuscrito medieval que fala da formação mítica e celta dos irlandeses, ocupa um papel chave nessas construções e será de grande uso para estes intelectuais que o traduzem para o galego, inclusive.

É neste grupo que destacamos a atuação de Vicente Risco, Ramón Otero Pedrayo e Florentino López Cuevillas não apenas na revista nós, mas em suas obras pessoais repletas de referências ao celtismo galego e o seu paralelo com a Irlanda, bem como sua integração com a cultura norte portuguesa.

Cuevillas fará isso no campo da arqueologia, publicando trabalhos consistentes sobre cultura material galega e evidenciando paralelos óbvios com as demais culturas atlânticas, mas com algumas afirmações tendenciosas. Com o franquismo essas análises perderam a força e com o tempo, foram rejeitadas.

É Otero Pedrayo que dirá abertamente em seu Ensaio Histórico da Cultura Galega que “(…) Irlanda, Cornualles, Gales, Bretaña e Galicia, saudáronse coma irmás oceânicas coa luz de seus faros e a confiança nos seus destinos”. Essa visão acerca do celtismo é a culminância de um desenvolvimento complexo e delicado de construção de uma Memória coletiva céltica que desde o provincialismo e por que não dizer, desde o século XVIII, trabalhará o material céltico galego cada vez mais atrelado a sua distinção da cultura de Madri.

É importante notarmos que a legitimação do celtismo galego é totalmente trabalhada em seu paralelo com as demais nações celtas, em especial a Irlanda. Galiza é como nas palavras de Vicente Risco a “Eirin do Sur” que deseja culturalmente e politicamente que a “estrela inmorrente do celtismo” brilhe sobre ela para que consiga levar seu projeto identitário resistente adiante. Os entraves para que isso ocorra são muitos. O medo de se elaborar teorias racistas ou xenófobas criou uma moda celtófoba entre alguns intelectuais galegos. Este panorama atual do celtismo galego é o que podemos chamar de no mínimo “esquizofrênico” e se mostra mais complexo do que a própria elaboração do celtismo nos últimos séculos.

Isso ocorre porque o Celtismo passa constantemente por uma revalidação de atributos romantizados e utiliza de uma sacralidade geográfica das terras célticas como meio de estimular uma nostalgia estereotipada de algo nobre que foi destruído pela dominação do Outro seja ele oriundo de Madri no caso galego ou de Londres no caso irlandês. O elemento político nacionalista é estruturador do aporte cultural articulador das fronteiras étnicas desde o momento inicial de suas construções nacionais.

Vale lembrar que estas bases étnicas são definidas por fronteiras étnicas célticas que não são, em hipótese algum, restritivas, sobretudo, por conta do papel da cultura que atua como um instrumento definidor étnico altamente mutável.

A prova viva disto é que o celtismo seja na Irlanda ou na Galiza continua em disputa. Suas lutas são fruto do conflito nacional destas populações e, principalmente, do elemento resistente que tanto irlandeses como galegos carregam em suas identidades para aguentar sua subalternização sofrida em diferentes níveis ao longo da História.

Referências

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SANTANA, Beatriz Díaz. Os Celtas em Galicia: Arqueoloxía e política na Creación da identidade galega. A Coruña: Editora Toxosouto, 2002.

[1] FARALDO, Antolín. Em “Galicia antes de lainvasión romana”. El RecreoCompostelano, 1842. Pp 72.

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