O ressurgimento da língua galega como expressão literária

Anderson Maranhão

Aluno de Língua Galega na UERJ

Em trabalho anterior publicado neste blog, amplamente baseado em artigo da autoria do professor Marcos Bagno intitulado O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego, busquei apresentar a política sistemática de apagamento das raízes galegas do idioma português. Como dito anteriormente, tal política tinha por finalidade aproximar o português da sua pretensa língua materna, o Latim, a fim de levar a cabo seu projeto imperialista de unificação dos povos por eles dominados. Daí ter afirmado que “o Português se tornaria o elemento de unificação do império que estava para ser criado, assim como o Latim o fora para o Império Romano.” Não é de se estranhar, portanto, que as verdadeiras raízes do idioma que hoje falamos tenham sido completamente omitidas mesmo em tempos mais próximos, a exemplo do que fizeram os estudiosos do século XIX ao denominarem o idioma falado naquela região desde o século VIII de “Galego-Português.” Acontece que, como bem salienta Marcos Bagno, esta língua já era falada muito antes mesmo que viesse a existir uma entidade política chamada Portugal.1

O português era falado muito antes mesmo que viesse a existir uma entidade política chamada Portugal.1

Desde o final do século VIII até 1492 ocorre o movimento da Reconquista, período em que os reinos cristãos travaram luta contra os mouros estabelecidos na Península Ibérica desde 711. Durante este período, ocorreram diversos conflitos políticos que culminaram com a Batalha de Ourique no ano de 1139, em que o conde Afonso Henriques, após uma vitória contra os muçulmanos, se autoproclamou “Rei de Portugal”, rompendo definitivamente com a vassalagem do condado com relação à coroa de Leão. A partir de então, os reis portugueses passaram a estender, conforme prosseguiam em batalha contra os mouros, os seus domínios cada vez mais ao sul, com Lisboa sendo conquistada em 1147. Portugal finalmente fixa os limites de seu território em 1249, com a tomada de Faro. Assim, tem início a expansão da língua românica falada na antiga Gallaécia em direção ao sul junto com os colonizadores que passam a ocupar as terras de onde os mouros foram expulsos.2

É neste período que se dá a época áurea da literatura galega, exatamente durante os reinados de Fernando II e Afonso IX, quando ocorre um grande desenvolvimento por conta da expansão das redes comerciais. O surgimento de uma rica literatura, com o Trovadorismo, legava grande prestígio cultural ao idioma galego. Prestígio este que começa a sofrer declínio quando a Galiza passa a formar parte da coroa de Castela e Leão em 1230, perdendo a sua autonomia política em favor de Castela e com a variedade da língua desenvolvida em torno da capital Lisboa se tornando a língua da corte e dos documentos oficiais do reino de Portugal.3 O galego é então relegado às camadas mais populares da sociedade, e entre os séculos XVI e XVIII experimenta uma perda considerável de sua produção literária, levando este período a ser conhecido como os Séculos Escuros.4

O século XIX promoveria um ambiente de revalorização de um sentimento nacionalista que vê na língua sua maior bandeira. Neste período, surge na Galícia um movimento poético que, tendo como seus maiores representantes os poetas Eduardo Pondal e Rosalia de Castro, reafirmaria a grande importância do galego como língua literária no que ficou conhecido como Rexurdimento. A produção literária de então se fixaria na denúncia da injustiça e na exaltação nacionalista.5 Segundo o que nos diz Henrique Samin, em seu artigo intitulado A Cantora e o Bardo: a construção da identidade galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal, “a um projeto político, concebido dentro do ideário iluminista, que propunha a recuperação da singularidade econômica, histórica, linguística e literária da Galiza, até então soterrada sob o domínio político e cultural espanhol, uniu-se uma valorização, de feições românticas, dos sinais identificadores do povo galego: sua língua, seus costumes e suas tradições” e, por isto, “o Rexurdimento foi constituído por um duplo movimento, de resgate e criação, uma vez que envolveu, simultaneamente, uma recuperação de tradições e costumes percebidos como próprios da cultura galega e uma construção da identidade galega, na medida em que a valorização da língua, determinadas práticas culturais e um repertório de símbolos foram associados na composição daquilo que representaria a própria essência da Galiza.”6

Eduardo Pondal
Eduardo Pondal

Eduardo Pondal e Rosalía de Castro se destacam neste período por serem os responsáveis por definir as vias pelas quais o Rexurdimento procuraria alcançar os objetivos mencionados acima. Para tanto, Pondal buscaria os fundamentos míticos da nação galega reivindicando sua ascendência céltica. Já Rosalía utilizaria o que ela entendia ser a marca expressiva mais genuína do povo galego – seu lirismo – a fim de, através da estética, cantar as belezas e os costumes da Galiza, afirmando assim suas particularidades culturais e lingüísticas.7 E ambos os poetas dariam voz aos seus anseios através da criação de personagens que apareceriam frequentemente por toda a sua obra, a saber, o Bardo, na poesia de Pondal e a Cantora na poesia rosaliana. A seguir, veremos alguns trechos das obras Queixume dos Pinos, do primeiro, e Cantares Gallegos, da segunda.

Queixume dos Pinos

Que din os rumorosos
Na costa verdecente,
Ó rayo trasparente,
Do prácido luar…?
Que din as altas copas
D’escuro arume arpado,
Co seu ben compasado,
Monótono fungar…?

Do teu verdor cingido,
É de benígnos astros,
Confin dos verdes castros,
E valeroso chán,
Non dés a esquecemento,
Da injuria o rudo encono;
Despérta do teu sono,
Fogar de Breogán.

Os boos e generosos,
A nosa voz entenden;
E con arroubo atenden,
O noso rouco son;
Mas, sós os ignorantes,
E férridos e duros,
Imbéciles e escuros
No-nos entenden, non.

Os tempos son chegados,
Dos bardos das edades,
Q’as vosas vaguedades,
Cumprido fin terán;
Pois donde quer gigante,
A nosa voz pregóa,
A redenzón da bóa
Nazón de Breogán.

(Pondal, 1890)

Cantares Gallegos

Así mo pediron
na beira do río
que corre antre as herbas
do campo frorido.

Cantaban os grilos,
os galos cantaban,
o vento antre as follas
runxindo pasaba.

Campaban os prados,
manaban as fontes
antre herbas e viñas,
figueiras e robres.

Tocaban as gaitas.
Ó son das pandeiras
bailaban os mozos
cas mozas modestas.

¡Qué cofias tan brancas!
¡Qué panos con freco!
¡Qué dengues de grana!
¡Qué sintas! ¡Qué adresos!

¡Qué ricos mandiles!
¡Qué verdes refaixos!
¡Qué feitos xustillos
de cor colorado!

Tan vivos colores
a vista trubaban;
de velos tan váreos
o sol se folgaba.

De velos bulindo
por montes e veigas,
coidóu que eran rosas
garridas e frescas.

(Rosalía, 1863)

Rosalía de Castro
Rosalía de Castro

Infelizmente, apesar do impacto exercido pelo Rexurdimento em terras galegas, mais uma vez questões políticas impediriam que o idioma galego recuperasse definitivamente o prestígio outrora perdido com a guerra civil (1936-1939) e a ditadura franquista (1939-1975). O resultado é que, senão recuperado seu status de língua literária prestigiosa, seu uso estabeleceu-se como fundamental instrumento de resistência na atitude de uma nova geração que adota o falar galego como forma de manifestar seu orgulho por pertencer a uma nação que, mesmo alijada do direito à sua soberania, permanece soberana em seus corações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGNO, Marcos. O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego. In: Grial: Revista galega de cultura, Nº.191, 2011. Págs. 34-39.

SAMIN, Henrique. A Cantora e o Bardo: a construção da identidade galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal. In: Conexão Letras, Volume 2, Número 2. UERJ: 2006. P.86-103.

1 BAGNO, Marcos. O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego. P.34

2 Idem. P.36.

3 BAGNO, Marcos. O Português não Procede do Latim: Uma proposta de classificação das línguas derivadas do galego. P.37.

5 Idem.

6 SAMIN, Henrique. A Cantora e o Bardo: a construção da identidade galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal. P. 87-88.

7 Idem. P.91.

Anúncios

2 comentários em “O ressurgimento da língua galega como expressão literária”

  1. Se em Lisboa eu falar aos brasileiros como eu falo normalmente com outros lisboetas , eles não me entenderão.Há que falar-lhes devagar para me compreendam. Normalmente os brasileiros em Lisboa demoram dois a três dias a se habituarem e entenderem o sotaque lisboeta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s