Análise comparativa entre Percival e outras historias e Crónica de nós de X.L. Méndez Ferrín

Guilherme Monteiro

Aluno de Língua e Literatura Galega na Universidade Nova de Lisboa

Falar de Méndez Ferrín é falar da necessidade da Galiza em descobrir-se. Poder-se-ia dizer tal coisa sobre qualquer escritor galego, mas abrimos uma excepção para Ferrín, não só pelos seus argumentos técnicos, inegáveis na qualidade, mas sobretudo pelo período temporal que a sua obra já abarca, desde a publicação do seu primeiro livro de narrativa, um dos aqui tratados, Percival e outras historias, em 1958, quando o autor contava apenas vinte anos, até aos dias de hoje; são quase 60 anos de carreira literária, dentro dos quais o Mundo, Espanha, Galiza e o próprio autor muito mudaram. Se, ao longo destes anos, a língua galega e a própria noção de Galiza foram repensadas e reformuladas, tendo a sua identidade reconhecida inclusive com as Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego, em 1982, foi também devido ao trabalho e contributo dos artistas, nomeadamente dos escritores (“o inimigo potencial do idioma”, como diria Cortázar), que o galego, enquanto instrumento de comunicação, expressão e construção poética se pôde cimentar. Destacam-se vários nomes ao longo dos tempos, começando por Rosalía de Castro a Castelao, mas é em Méndez Ferrín (MF) que a literatura e língua galega , se afirmam e se recriam.

Focamo-nos particularmente em MF, mas para compreender alguns aspectos da sua obra, é necessário compreender a circunstância em que o autor aparece. Segundo Lorenzana [pseudónimo de Francisco Fernández del Riego], que prefacia Percival e outras historias, MF pertence à geração do “conto galego contemporáneo”, distante já do “tradicional”. Lorenzana diz:

Denantes abundaban os escritores que, á hora da criación, confundían o folklórico co trascendente; e outros hai que desprecian, por nimias ou anecdóticas, realidades do noso carácter que constitúen cabalmente o cordón umbilical. (Ferrín, 1958: 9, 10)

Será fundamental para compreender, adiante, a obra por este texto prefaciada, a noção e distinção de folklórico e transcendente, enquanto conceitos singulares mas conciliáveis; até porque, se aquele excerto critica aqueles que renegam o “cordón umbilical” que definiria a literatura galega, o que Lorenzana afirma no seu seguimento coloca esta nova geração na linha dos “grandes mestres americanos, dende Anderson e Aikens até Faulkner, Caldwell e Saroyan”:

As aportaciós técnicas realizadas pólos narradores americanos, atinguiron singular fortuna antre moitos dos seus colegas europeos [galegos]. Sen que nos propoñamos entrar en detalles, lembraremos as principás: A de intrigas enlazadas, ou relatos superpostos; a incorporación ó relato de sucesos reás; o pruralismo de esceas, con frecuente troque de perspectiva; a elusión de acontecementos importantes (Ferrín, 1958: 10)

Estas tentativas de enquadrar MF numa geração (não num movimento), com predecessores e modelos servem-nos para criar uma base e um ponto comum numa obra que, por atravessar tão longo período, foi amadurecendo a sua forma, a sua técnica, a sua filosofia. Isto porque Crónica de nós, publicado em 1980, vinte e dois anos após o seu primeiro livro, é uma obra de um outro fôlego e de uma outra voz que aos 18 anos não se teria.

Não nos parece adequado, ou sequer seguro, tratar de comparar as duas obras propostas e já citadas, Percival e outras historias e Crónica de nós de forma absoluta e simétrica, ou seja, conto a conto, como se as duas obras fossem dois caminhos paralelos que, embora por vias diferentes, chegassem ao mesmo fim, e que por isso pudessem ser sobrepostas, tal qual um espelho, e averiguar as singularidades dos seus reflexos. Propomos antes uma aproximação a três contos de cada obra, de forma a tentar extrair o que da obra em geral se semeia e, aí sim, poder olhar para aquilo que muda, aquilo que se mantém, e aquilo que, mantendo-se, assume outra forma.

É um exercício interessante a relação entre as temáticas abordadas por MF e a sua idade, ou melhor, o seu amadurecimento. Assim, na origem da obra de Ferrín encontramos uma outra forma de origem: o retorno e revolvo a uma época pseudo-arturiana, diluída, claro está, noutras épocas, outros lugares, outros costumes. Percival, o famoso cavaleiro da Távola Redonda, com o “elmo empenado de penas brancas (…) espada (…) escudo (…) lanzón” (1958: 19), dono e senhor do “Xardín das Outas Árbores”, é o mesmo que, pouco antes de para ali se aventurar, “fechou a radio, non lle gostaba Offgent”; aquele que passeia por aquela floresta “moitas veces”, vezes tantas que são enunciadas apenas três aventuras (semelhante nisso ao nosso presente método) – é evidente uma certa abulia nestes passeios; o assassínio despreocupado de Leonlobisco; a contemplação dos dois homens que, como se de Vladimir e Estragon se tratassem, lutam sem fim nem propósito (“Meu señor, meu dono, que felicidade vos ter enriba de min!”); a amada que apenas o cansa, que o faz voltar a casa, para ser aconselhado a não lá retornar.

O regresso ao passado, a procura de conforto naquilo que já houve ou que existe há muito, que neste conto se manifesta com estas súbitas (e aparentes, quiçá) mudanças espácio-temporais, surgem-nos noutros contos, como “O verdugo” ou “Lorelai”, em situações intimamente relacionadas com o próprio enredo e uma espécie de ethos que se vai formando a partir deste último. “Lorelai” funciona como uma variante do regresso do filho pródigo, uma vez mais uma história de retorno a uma origem, origem esta que mais uma vez nos pode parecer bizarra, pois a Lorelai, princesa da vila de Lee, que constrói uma torre para se lá fechar, é a mesma que vai até à vila de automóvel, “bruando coma un rinoceronte desbocado” (Ferrín, 1958: 55), aquela que casa com o “cabaleiro Dr. Nesjkllou Fael”, que lhe promete um tratamento para “deixar de ser un monstro”, passando dois anos em tratamentos (operações plásticas, quem sabe?). Dentro da inocência desta história, em que tudo desde logo aponta para que se termine num “final feliz”, há que realçar novamente o carácter da indefinição do tempo e do espaço, que naturalmente influenciam tudo o resto, e que culmina naquele simplicíssimo final, não longe do “viveram felizes para sempre”. Ingenuidade? Imaturidade?

É importante que não confundamos a suposta candura e clareza da narrativa de MF em Percival com algo simples ou simplório; consideremos esta abordagem para além da trama. O conto de uma história como estas separa o meramente “folklórico” e o confuso “trascendente”. A revisita contínua a um passado que não se separa de nós por completo cria e segura essa ponte que demarcaria com nitidez tanto este, como aquele. “Folklórico” começa e termina no mito, no enredo simples e transmissível; a transcendência pede já um segundo olhar, uma forma de ler, de observar, de estar de nos relacionarmos com ele. Como quando se enforca um homem, por exemplo: em “O verdugo”, o desejo de retorno revela-se com o desejo de uma execução, cujos contingentes sustentam a vila. A inexplicável “benevolencia do Dictador” altera e questiona o status quo – tal como Percival questiona as hierarquias entre os dois homens que lutam no “Xardín” – que é, idoneamente, subvertida ao reconhecimento da pena de morte, restando apenas a execução do verdugo, “pra borrar todo vestixio de erros denateriores.” (Ferrín, 1958: 65)

Começamos a denotar nestes textos um certo discurso em defesa de um direito que, se é amplo demais para ser considerado “político”, não é ingénuo o suficiente para ser apelidado de “humanista” (até pela óbvia associação em “O verdugo” à ditadura em vigor em Espanha naqueles tempos). Em Crónica de nós, MF expõe já uma filosofia política bastante esclarecida, e que irá marcar a sua actividade literária e civil ao longo dos anos. Não querendo tecer comentário aos textos mais programáticos [sic], o enfoque em contos como “Morrer en Laura”, “Odiado Amado” ou “Dictadura das cousas” permitem-nos constatar que, apesar de se manter o constante jogo espaço/tempo, evidente em “Morrer en Laura” (que se baseia na possibilidade física de viajar no tempo), o apelo à humanidade através do gesto político (mais individual e menos partidário) torna-se inseparável do conto em si; bastará ver as reflexões e considerações feitas em “Odiado Amado”, como aquele que tomou um mau caminho, ou em “Dictadura das cousas”, em que a presença ensurdecedora dos produtos que envolvem a personagem lembram o sempiterno “canto” das marcas comerciais em Rumor Branco de Don DeLillo.

A evolução da obra de Méndez Ferrín ao longo dos anos entra num diálogo intenso com a posição de Galiza no Mundo e a posição do Mundo sobre a Galiza. Naturalmente que fazer uma “ampliação” à sua obra, reduzindo-a dois títulos, e destes dois destacar três contos e presumir que se vai fazer uma análise profunda e metódica é absurda. Este trabalho serviu, acima de tudo, como exercício de discussão e interpretação de um autor que é do nosso maior interesse, particularmente no que toca a assuntos como o papel que a Galiza quer reservar e reclamar para si, nestes tempos e nos tempos vindouros, sem necessidade de voltar a origens ou mitos que a impeçam de enfrentar a actualidade.

BIBLIOGRAFIA

  • Ferrín, X.L. Méndez, Percival e outras historias (1958), Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 1993.
  • Ferrín, X.L. Méndez, Crónica de nós (1980), Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 1992.
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