O celtismo na literatura galega

Thayane Gaspar

Aluna de Literatura Galega II na UERJ e pesquisadora do Programa de Estudos Galegos

RENASCENÇA CÉLTICA

Em 1893 ocorreu na Irlanda o movimento conhecido como Renascença Céltica, cujo objetivo era valorizar a cultura e literatura gaélica até então menosprezada e ridicularizada.

Não só a cultura irlandesa vinha sendo ignorada, como a língua nativa estava praticamente inativa. A literatura nacional retoma sua força quando Standish Hayes O’Grady publica em 1892, Silva Gadélica, uma antologia de contos oriundos dos clássicos irlandeses, e quando em 1897 George Sigerson publica Bards of the Gael and Gall, uma antologia de poesia antiga traduzida em irlandês.

Bandeiras das sete nações célticas: Escócia, Irlanda, Bretanha, Cornualha, Ilha de Man, Gales e a Galícia

Esse renascimento cultural também tem uma explicação política já que a Irlanda até o momento era governada segundo o Ato de União de 1800, como parte do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Além disso, a população irlandesa assolada pela fome, por doenças e pela emigração em massa diminuiu drasticamente no período conhecido como Grande Fome. Esse episódio trouxe consequências sociais, demográficas, econômicas, políticas e culturais.

A renascença céltica na literatura e cultura chega até a Galícia através da poesia de Eduardo Pondal e pela pesquisa de fundo histórico de Manuel Murguía. Curiosamente, o movimento acontece nos dois lugares quase simultaneamente e estes guardam características comuns principalmente em relação à situação da cultura e língua galega no contexto histórico.

RAMÓN CABANILLAS

Ramón Cabanillas Enríquez (1876 – 1959) nasceu em Cambados, Pontevedra, como a maioria dos galegos de seu tempo, emigrou para Cuba onde residiu por cinco anos e publicou as No desterro (1913) e Vento mareiro (1915). Ao voltar para Galiza, Cabanillas teve contato com a luta agrária e seu livro de poemas Da terra asoballada ( 1926) é a representação de uma das suas quatro vertentes literárias: a poesia social e combativa.

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Ramón Cabanillas

Além dessa vertente, as obras de Cabanillas se dividem em: poesia intimista, literatura com elementos modernos e de cunho nostálgico; poesia costumista, que narra o cotidiano unindo a lírica e a paisagem e por último a poesia mítico-saudosista que recria lendas celtas e as do rei Artur com o intuito de reconstruir o passado galego.

Cabanillas estreia essa vertente mítica-saudosista com a publicação do longo poema narrativo Na noite estrelecida (1926), quarenta anos após a publicação de Queixumes dos Pinos de Eduardo Pondal. Em seu poema, Cabanillas funde lendas arturianas, a tradição medieval francesa com motivos celtas, ossiânicos e pondalianos.

Contudo esse celtismo literário está presente também em seu livro Da terra asoballada, escolhido como objeto de estudo para esse trabalho. O livro traz 34 poemas divididos em dois tomos. Os poemas giram em torno das péssimas condições de trabalho no campo e a dominação que os galegos sofrem de Castela.

O livro, porém, não deixa de recolher tradições galegas, as consequências da imigração e o culto a paisagem presente desde a lírica medieval, e mais que isso, alguns poemas falam explicitamente da possível origem celta de Galiza. Um exemplo disso é o poema O Carballo.

O CARBALLO

Cando soio, ó serán, vou paseniño

cara ó fogar, de volta do traballo,

sempre detén meus ollos um carballo

ergueito nun mallón, sobre o camiño.

Lanzal o tronco, as ponlas alongadas,

o follaxe em dosel, forte, senlleiro,

ten a medosa traza dun guerreiro

vixiante de castros e valgadas.

Ó chegar ó pé del na atardecida,

da lexendaria idade saudoso,

quixérao ver cadeira frorecida

dun rei celta, barbudo, fazañoso,

ou soleada, verdecente ermida

dun santiño aldeán e miragroso.

Em O Carballo os elementos celtas já estão presentes no próprio título. O Carvalho é uma árvore típica da Galiza e frequentemente associada aos celtas e aos druidas. Como a madeira do carvalho é muito forte, suas raízes muito profundas e galhos extremamente expansivos, essa árvore é reconhecida como símbolo da resistência e da durabilidade. O carvalho tem uma longa simbologia que passa pela Bíblia e até pela epopeia de Homero, a Odisseia. Na cultura celta, essa árvore era como um templo e até mesmo uma divindade, uma fusão de força e conhecimento. Na Irlanda, as igrejas eram chamadas de dairthech, “casas de carvalho” por esse motivo.

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O carvalho é uma das árvores máis típicas da Galícia

Nesse poema, a luta agrícola não é esquecida, o eu lírico já começa a falar da sua ida ao trabalho, como se esse movimento pendular entre a casa e o trabalho fosse o único feito por ele. A característica de seu passo (“paseniño”) serve para enfatizar que o ambiente de trabalho não é agradável e que o eu lírico não sente vontade de ir para lá. No meio do caminho, o narrador vê um carvalho erguido sobre um instrumento agrícola, e ele elogia a força, a beleza e como o carvalho é único. E diz que nele há uma traça de um guerreiro, e então em frente à árvore ele deseja que na velhice ele possa ver um rei celta enobrecido pelos seus feitos heroicos ou milagroso.

O poema é rico em significados a começar pelo encontro entre o eu lírico e o carvalho que só acontece porque o eu lírico está fazendo seu caminho até o trabalho. E o que une o trabalho do campo e o carvalho é justamente o que o carvalho representa: a força, o povo galego sempre fora um povo rural, trabalhador braçal, oprimido, e por isso dotado de força para aguentar o trabalho pesado e sua submissão em relação a Espanha. O fato dos galhos de carvalho serem expansivos, traduz as emigrações do povo galego que se intensificam a partir do século XIX. E a durabilidade, outra característica do carvalho, pode ser lida como a durabilidade da cultura galega e de sua história.

O último terceto do poema guarda o valor do carvalho respaldado na possível origem celta da Galiza, e do significado histórico, política e ideológico que o reconhecimento desse passado celta representaria: uma forma se individualizar da Espanha. O rei celta citado por Cabanillas é o heroico, pois traz valor à história galega, e milagroso porque poderá mudar o curso dela.

GALICIA

Ceo branco do luar,

ceo azul do medio día:

son dous anacos de ceo

a bandeira de Galicia.

¡Galicia! Nai e señora,

sempre garimosa e forte;

preto e lexos; onte, agora

mañán… na vida e na morte!

¡Galicia! A Galicia santa

de romeiros e xuglares!

¡A de historia que abrilanta

A Tradición nos fogares!

¡A que suspende e namora

co inespricabre segredo

da gaita que rindo chora

e do alalá triste e ledo!

¡A que sabe canturías

de Rodríguez do Padrón

e inda leva de Macías

a frecha no corazón!

A dos antiguos mosteiros

a dos prazos encantados,

a dos santos milagreiros

contra os entangarañados.

A das frotias valgadas,

a de barulleiro mar,

a das roibas alboradas

e as noitiñas de luar.

A do Sar maino e tristeiro,

pazo de almas enloitadas,

e o Miño casamenteiro

de trasnos, meigas e fadas.

A dos seráns campesinos,

a dos brilantes orballos,

a dos queixumes dos pinos

e as risadas dos carballos.

O pobo doutras edás,

traballador e guerreiro:

o das hirtas Irmandás,

do Medulio e do Cebreiro…!

¡Sempre Nai!, sempre señora,

con leda ou cativa sorte;

preto e lexos; onte, agora,

mañán… na vida e na morte!

A facenda, o creto, a vida,

o fogar…¡Todo por ela!

Con Castela, ben querida;

aldraxada… ¡sin Castela!

¡Irmáns! ¡rubamos o cume

desatrancando o camiño,

e botemos man do lume

onde non chegue o fouciño!

¡Todo pra nosa Galicia,

foro de tódalas virtudes;

pra sedenta de xustiza,

ferida de escravitudes!

Namentras a sangre vibre

en beizos e corazón…

¡a esperanza de vela libre

i este berro: ¡Redención!

¡Xuremos!

«Dereito ou torto,

sin máis alcuño ni achego,

doente ou san, vivo ou morto

galego… ¡soio galego!

No poema Galícia, Cabanillas ao mesmo tempo exalta sua terra e se posiciona em relação a Castela e à questão agrária, pedindo justiça e que o povo galego se mobilize de alguma forma contra seus opressores. O autor faz sua poesia de cunho social costurando sua crítica em elementos celtas.

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Bandeira da Galiza

A primeira estrofe que faz uma alusão ao dia e a noite pode ser interpretada segundo Manuel Murguía descreve em seu livro Galiza (1888) sobre o Culto dos Astros, como a soberania entre o sol diante da lua. O sol sendo o astro poderoso, personificado na figura do lobo, que devora a lua que é fraca, vencida, triste e solitária.

Essa personificação dos astros e a importância deles ao se caracterizar a bandeira de Galiza, diz muito a respeito de sua história. É como se sua história fosse feita da dominação que sofre pelo sol (Castela) e Galiza fosse relegada a interpretar a lua: vencida. Em outro poema do livro de Cabanillas, chamado A Basilio Álvarez (parte C), essa dicotomia dos astros. Nesse outro poema, a revindicação acontece à noite e seus elementos noturnos mais uma vez esbarram na origem celta “ as verbas bruxas dos antigos bardos”, “Hai siñales no ceo. Como o meigo conxuro dun encanto, Alá pola alta noite, ó porse a lua.” E na última estrofe: “¡Ven! ¡Ven que te agardamos! Si hai que mata-lo lobo…. ¡Cada home ten un sacho!”. Esses poemas mostram que o dia ainda é retratado como lobo, porque é durante o dia que o povo galego trabalha e é devorado por esse trabalho. O lobo é o dia, o trabalho quase escravo, é a Espanha.

A “Tradición nos fogares!” está destacada, pois é uma clara alusão ao hino galego no qual Galiza é denominada o “fogar”, “a nação de Breogán”. E é pelo mesmo motivo que “queixume dos pinos” também foi destacado. Ambos os fragmentos remetem a Pondal e ao seu celtismo.

Entangarañados, meigas, trasnos e fadas” estão destacados por serem seres sobrenaturais da cultura celta. “Entagangarañado é o como ficavam as pessoas que tinham contato com o Tangaraño, uma espécie de duende, diabolíco e maléfico que atacava as crianças provocando enfermidades e fraquezas. Tangaraño é o nome popular galego para”raquitismo”. Para serem curadas, as crianças deveriam tomar remédios seguidos de cerimônias supersticiosas e fazer romarias.

As meigas são uma espécie de fadas baseadas nas sacerdotisas celtas que eram poderosas tanto para o bem quanto para o mal, geralmente representada por mulheres de cabelo louro. As fadas são seres de luz, vestidas de branco, são boas, protetoras e benéficas.

Os trasnos são seres mitológicos que vivem dentro de casa e fazem brincadeiras. Esses seres são anões de barba escura, vestem-se de vermelho e são muito inquietos, são parecidos com os duendes. O Tangaraño é uma espécie de trasno.

CONCLUSÃO

Da terra asoballada é um livro de cunho social, no qual dentre suas possíveis leituras estão os elementos celtas, polêmicos, porém sempre vivos na cultura galega. Em alguns poemas, as referências sobre esse passado céltico são alusões sutis, em outros como ¡Irlanda! e A Brañas a presença celta é explícita. Galiza se vê como a lua, vencida e solitária, e enxerga na Irlanda a figura da “¡Irmanciña adourada que pasache-lo mar!” (¡Irlanda!, página 64) uma aliada com um passado heroico que vai emprestar a Galiza a força que lhe foi tomada durante sua história. Tanto a Irlanda quanto a Galiza apostam no celtismo literário como uma renovação cultural, ideológica e política para o seu povo que naquele momento tinha a língua, a cultura e literatura menosprezadas.


Referências Bibliográficas:

LOPES, María Jesús Lama. O celtismo e a matéria Bretaña na literatura galega: Cara á construcción dun contradiscurso histórico ficcional na obra de Xosé Luís Méndez Ferrín. Universitat de Barcelona. Barcelo, 2011.
MURGUÍA, Manuel.
Galicia, Barcelona, Daniel Cortezo, 1888 .
PARRA, Cláudia.
Literatura irlandesa: patrimônio cultural. Disponível em: < http://www.travessiasinterativas.com/_notes/vol4/art%20Cl%C3%A1udia%20PARRA%20vol%204.pdf > Acesso em Dezembro de 2014.
SÁNCHEZ, Manuel Martín.
Seres míticos y personajes fantásticos españoles. Portada. EDAF, 2002
In Infopédia . Simbologia do Carvalho. Porto: Porto Editora, 2003-2014. Disponível em : < http://www.infopedia.pt/$carvalho-(simbologia) > Acesso em Dezembro de 2014.

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