Adrián Dios: “A Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza”

Adrián Dios é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de Santiago de Compostela (2012), onde também realizou o Mestrado em Desenvolvimento Econômico e Inovação (2013). Atualmente é doutorando no Departamento de História Econômica da mesma universidade galega. No passado dia 23 de setembro lecionou na UERJ o Seminário Aberto “Galiza. Identidades nacionais e soberania na Europa do século XXI. História e desafios de futuro”.

1.Você esteve morando dois meses em Maringá, no estado do Paraná. Como é para um galego o contato com o português brasileiro?

Em realidade foi muito simples. Após uma primeira semana de adaptação ao sotaque, a capacidade de comunicação é bastante alta. Ademais, a surpresa da imensa maioria de pessoas ao saberem que existe uma língua tão próxima ao português brasileiro, como é o galego, facilitou-me muito a comunicação.

2.Encontrou a situação do Brasil melhor ou pior do que você achava que ia encontrar vindo aqui? Como é visto o Brasil na Galiza?

Muito melhor. Pode ser porque eu vivi na zona sul, mas o nível de vida que achei foi elevado em relação à ideia que se pode ter na Europa da América Latina. Talvez questões como a burocracia deveriam melhorar, mas achei uns bons serviços na Universidade e uma sociedade incrivelmente cosmopolita e muito aberta. Isto último foi uma mudança para mim em relação aos preconceitos que existem na Europa sobre o Brasil, onde só se pensa em samba, calor e praia.

3. O título do seu Seminário inclui a associação entre a Galiza e “identidade nacional”. Sabemos que não é reconhecida assim na Constituição espanhola mas sim o foi pelo IX Congresso de Nacionalidades Europeias no ano 1933. É Galiza uma nação?

Com certeza. A questão não pode resolver-se pelo que diz uma constituição num momento determinado, deve ir além disso. Se tivermos em conta qualquer definição de nação, Galiza se adapta perfeitamente a esses parâmetros, ao ser uma comunidade histórica, cultural, linguística e mesmo socioeconômica diferenciada.

Do mesmo jeito, uma parte importante da sociedade galega se define a sim própria como galega, um elemento fundamental para transitar da ideia de nação em sim, a nação para sim. Com certeza esse sentimento identitário não tem por que entrar em contradição com o sentimento espanhol, que também existe em parte da sociedade galega.

4. Nos últimos meses teve lugar na Escócia um referendo de independência na Catalunya vários partidos políticos, com maioria parlamentária, reclamam também o direito a decidir. Que está acontecendo na Europa nos últimos tempos?

Pois é muito simples, existem nações na Europa que chegaram à conclusão de que precisam ganhar instrumentos soberanos para poder governar-se a si próprias. A Escócia e a Catalunya são os exemplos de mais atualidade, mas esta realidade existe ao longo de todo o continente europeu, com maior ou menor grau de intensidade. Infelizmente, muitos governos e instituições olham isso como um perigo, mas deveria reconhecer-se uma obviedade: não param de se acrescentar novos estados no mundo nas últimas décadas, e estas nações são tão viáveis como o resto e muitas vezes são também o mecanismo de resolução de muitos conflitos em estados onde parte dos seus membros não se sentem reconhecidos.

5. No seu Seminário fez uma análise histórica da perda da soberania da Galícia. A que foi devido esse processo e como tem influenciado na situação atual do país?

Possivelmente a uma mistura de fatores políticos e econômicos.  A história da Galiza tem vezes que é a história de uma derrota continuada. O processo de introdução da administração castelhana no Reino da Galiza deriva da derrota do poder político galego desde a Meseta, o que determinará que a toma de decisões deixará de estar autocentrada.

Quando esta situação aconteceu, o decrescimento econômico e a incapacidade de participar da Revolução Industrial até uma época muito tardia (por incapacidade tecnológica mas também pela toma de decisões econômicas e criação de taxas de alfândega desde o poder político central) provocou uma subordinação cada vez maior da posição da Galiza sobre outros territórios. A ausência de poder político próprio e a ausência de poderes econômicos inevitavelmente leva à desaparição de soberania.

6. Ainda que o sentimento nacional tem aumentado nos últimos anos em lugares como a Catalunya ou a Escócia esse processo não se deu na Galícia. Por que a Galícia se encontra numa situação diferente?

Existe uma diferença fundamental entre a Galiza e a Catalunya: a Galiza não tem uma burguesia nacional própria que atue como burguesia galega. Em quanto a Catalunya sofria um enorme incremento econômico e industrial, a Galiza continuou sendo em boa parte do século XX uma reserva agrária, o que impediu a acumulação de capital próprio. Esta burguesia sim existia na Catalunya, e entendeu que deviam governar-se a sim próprios para melhorar a sua situação.

Não é só governar o poder político como também que exista uma sociedade viva que represente os seus próprios interesses. Só tem que ver o mapa da mídia na Catalunya para ver que existem muitos instrumentos que permitem criar consciência nacional.

7.Quando falamos de soberania parece um tema bem abstrato. Em que mudaria a realidade dos galegos e galegas se a Galiza tivesse soberania?

Primeiramente, e mais importante, poderíamos decidir por nós próprios sobre o nosso. Parece uma abstração, mas isso quer dizer que podemos decidir quanto vamos pagar pela nossa tarifa de luz, ou gerir as nossas autoestradas. Faz sentido que a política pesqueira seja decidida em Madrid que nem tem litoral e que não possamos decidir nós sobre ela? São só alguns exemplos de coisas que se poderiam fazer se tivéssemos soberania, que não é mais que que os galegos e galegas tenham a capacidade de decisão sobre sim próprios. Aliás, a Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza.

8. Como tem influenciado a questão econômica e política na situação atual da língua e da cultura galega? 

Acho que de jeito fundamental. Existe muito auto-ódio em relação ao galego, junto com que a língua de prestígio é o espanhol há muitos séculos. E ser língua de prestígio tem uma relação fundamental com a economia: será a língua usada nas profissões de mais alta qualificação (médicos, advogados ou administração até há poucos anos), em quanto o galego vai-se associar ao rural, aos camponeses e até à falta de recursos. Por isso é tão normal na Galiza encontrar, ainda hoje, crianças que em casa falam galego mas na escola falam espanhol. Aliás, a inexistência de poder político próprio impediu até há pouco tempo qualquer tentativa e recuperação da nossa língua.

9. Nas últimas décadas embora o galego tenha se tornado oficial e tenha entrado em espaços como a televisão ou o a educação, está perdendo falantes. Que acha que se tem feito errado na política linguística e em que se poderia melhorar?

Sem ser um especialista no tema, acho que ainda fica muito por caminhar para a normalização da língua. O galego tem entrado em alguns espaços mas de jeito minoritário, como a televisão. Não temos nenhum jornal em papel na nossa língua atualmente. A situação de desvantagem do galego com o espanhol é evidente em todos os aspetos.

Possivelmente, em primeiro lugar, a política linguística errou em ser incapaz de criar medidas mais contundentes a favor da recuperação da língua. Do mesmo jeito, a sociedade mais ativa não conseguiu debater o discurso da “liberdade linguística” que o único que procurava era a ampliação do espanhol na sociedade, o que restou credibilidade à normalização do galego.

Por outra parte, é necessário reformular certos discursos sobre o galego: o elemento identitário é importante, mas também se deve avançar para a utilidade linguística. Como podemos ver nesta entrevista, com o galego estamos no mundo, e infelizmente muitos galegos e galegas não sabem disso.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

O melhor do Río: A sensação de tomar banho em Copacabana

O pior do Río: a calor (e isso que estive no Brasil no inverno!)

O melhor do Brasil: as pessoas

O pior do Brasil: A burocracia

Um lugar no Rio de Janeiro

O Pão de Açucar

Uma palavra do galego e uma do português brasileiro

Galego: bolboreta (Borboleta no Brasil)

Portugués brasileiro: Beleza

Um desejo para o futuro

Poder viver um dia inteiro exclusivamente na minha língua na Galiza

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2 comentários em “Adrián Dios: “A Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza””

  1. A constituição espanhol sim reconhece a Galiza como “Nacionalidade” no artigo 2. Não sei qual é a diferença semantica entre nação e nacionalidade, pra mim é o mesmo.

    1. Olá José,

      A constituiçao reconhece a Galiza como “nacionalidade histórica”, nao como naçao. A coisa nao é semántica (uma discusao menor, ao meu ver), senao de reconhecimento nacional. A efeitos práticos, o reconhecimento de nacionalidade histórica é muito mais achegar Galiza a uma regiao do que a uma naçao, com todo o que isso implica em termos de obter soberania propria.
      Um saúdo!

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