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A identidade galega em palavras de mulher(es)

Amparo Maleval

Professora de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e fundadora do Programa de Estudos Galegos nesta Universidade

Começamos por lembrar que, no século XII, a mais concorrida peregrinatio do Ocidente alcançou o seu apogeu. Por esta época, para a Cidade Santa de Santiago de Compostela – a terceira da Cristandade, ao lado de Roma e Jerusalém – chegaria a acorrer anualmente cerca de meio milhão de pessoas. O túmulo do Apóstolo Tiago Maior, que acredita(va)-se estar sob o altar-mor da basílica compostelana, era, e continua sendo, a motivação para a maioria dos que empreendem tal peregrinação.

É nesse contexto que se registram as primeiras produções do Trovadorismo em língua escrita, galega (ou galego-portuguesa). No século seguinte alcançariam a sua floração máxima, quando já declinava o prestígio político-religioso de Compostela.

Certamente que a importância dessa capital místico-religiosa do Ocidente muito contribuiu para o desenvolvimento do Trovadorismo ibérico, e para que a língua literária, mesmo que sem rígida norma, fosse o galego-português. Além do mais, o Caminho permitiu a interação entre os trovadores occitânicos, da Provença e adjacências, mestres na arte de trovar sobre a “fin’amors”, e a tradição poética autóctone, a que certamente se filiavam os peculiares “cantos de mulher” galaico-portugueses.

O Trovadorismo. A cantiga de mulher autóctone 

Embora as cantigas de mulher não fossem exclusivas do noroeste da Península Ibérica, filiando-se a antiga tradição[1], aí alcançariam uma fecundidade e uma particularidade ímpares no contexto europeu. Escritas por homens, mas certamente por eles recriadas a partir de cânticos preexistentes, as denominadas cantigas de amigo galego-portuguesas davam voz a mulheres para expressão dos seus anseios (amorosos), das incertezas e saudades do amado, bem como das suas iniciativas para encontrarem namorado nas romarias, nas igrejas, nas fontes, junto ao mar ou sob as “avelaneiras frolidas”. Nelas o corpo tem um enfoque distinto dos demais gêneros, sendo louvado e, mesmo, sacralizado apesar de estigmatizado pela Igreja, tornado etéreo nas cantigas de amor masculinas, e ridicularizado nas cantigas d’escarnho e de maldizer.

O mais antigo espécime galego-português seria a cantiga “Ai eu, coitada, como vivo em gran cuidado”, se aceitarmos a lição de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1991), atribuindo-a a D. Sancho I, segundo rei de Portugal (1185 – 1211), ao invés de a Alfonso X, o Sábio, de Leão e Castela (1221 – 1284), como o fazem outros especialistas (BREA, 1996, p. 140):

Ai eu coitada! Como vivo en gram cuidado

Por meu amigo que ei alongado!

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada! Como vivo em gram desejo

Por meu amigo que tarda e non vejo!

Muito me tarda

o meu amigo na Guarda! (BREA, 1966, p. 139).

Nela o soberano português representaria a sua amante, que tinha por alcunha A Ribeirinha, lamentando-se da sua ausência na Guarda, localidade situada na Serra da Estrela, que fundara e estaria povoando, para proteger o reino da invasão dos inimigos, cristãos ou muçulmanos. O interessante para a questão da identidade galega é que essa paralelística, ao que parece incompleta, possui o ritmo irregular da muinheira (versos bipartidos de 8 a 11 sílabas), que a douta filóloga citada observara ser “som talvez preexistente, litúrgico e popular” (VASCONCELOS, 1991, p. 593). A muinheira, lembramos, ainda hoje é dança, ou a música que a acompanha, popular da Galiza.

Infelizmente os documentos que contêm as cerca de 500 cantigas de amigo são apógrafos italianos dos primórdios do século XVI: o Cancioneiro Colocci-Brancuti, hoje pertença da Biblioteca Nacional de Lisboa, e o Cancioneiro da Vaticana. A exceção é constituída pelo Pergaminho Vindel, que contém quase intactas as sete cantigas manuscritas de Martin Codax, seis delas acompanhadas das respectivas pautas musicais, e cuja transcrição remontaria a fins do século XIII, inícios do XIV.

Nesses documentos autênticos de uma época, o jogral galego Martin Codax do século XIII narra-nos liricamente uma história de amor, os seus encontros e desencontros, através da voz de uma jovem que se lamenta pela ausência do namorado, e indaga sobre o amigo, a Deus ou às ondas do mar de Vigo, como na cantiga:

Ondas do mar de Vigo

Se vistes meu amigo

E ay Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar llevado,

se vistes meu amado?

E ay, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo

O por que eu sospiro?

E ay Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado

Por que ey gran coydado?

E ay, Deus, se verrá cedo! (BREA, 1966, p. 611)

Observe-se que uma das cantigas codaxianas, precisamente a que se destaca do conjunto por ser a única sem notações musicais, apresenta em uma festa sagrada a iniciação amorosa da jovem: “Eno sagrado, en Vigo, / baylava corpo velido /(…) que nunca ouver’ amigo …” (BREA, 1996, p. 610). Escrita na terceira pessoa, o que também a diferencia das demais cantigas codaxianas e do gênero cantigas de amigo, em que o discurso é direto, constitui uma narrativa que sacraliza o corpo. Com isto, evoca ritos de fecundidade praticados por civilizações pré-cristãs.

Dentre as marcas de originalidade das cantigas de amigo há que se ressaltar a representação dos elementos da natureza em que se (con)fundem o significado literal e o simbólico, principalmente para firmarem o erotismo que a partir deles se insinua. Distanciam-se, dessa forma, da natureza estereotipada do exórdio primaveril da canção provençal, por representarem, antes do mais, a natureza mágica, que congrega em si a religião e a sexualidade.

É curioso observar que, dentre as que mais finamente dão conta do universo simbólico que remete à cosmogonia dos substratos autóctones, e onde se marca de forma inconfundível o papel da mulher na sedução amorosa e nos processos iniciáticos de uma espécie de “metafísica” da sensualidade, são quase que invariavelmente galegos, ou presumivelmente galegos, os seus autores ou recolhedores da tradição oral. Dentre eles, lembraríamos, além do já citado Martin Codax: Pero Meogo, notário compostelano, que imortalizou em paralelísticas exemplares os rituais amorosos em que se destacam fontes e cervos na simbologia evocada; Airas Nunes, clérigo compostelano da belíssima bailia, que focaliza o bailado das jovens sob as “avelaneiras frolidas”, também recolhida da tradição por João Zorro; Paio Gomes Charinho, almirante pontevedrense de inesquecíveis barcarolas, em que navegam “as flores” do amigo, desejadas pela jovem; e Meendinho – oriundo talvez de Vigo, cujo nome aparece ligado à antológica cantiga “Sedia m’eu na ermida de San Simion…”, que tão excelentemente ilustra o sincretismo religioso de então, em que um local de oração é novamente transformado em lugar de namoro e cópula.

Uma das provas mais evidentes do prestígio cultural da Galiza trovadoresca é que Afonso X (século XIII), apesar das suas iniciativas para centralizar na corte toledana o poder político, e também religioso-cultural, acataria o galego como koiné literária em suas produções não restritas aos Cancioneiros profanos. As cantigas de Santa Maria (METTMANN, 1981), apesar de raramente prestigiarem Santiago, ou até desmerecerem-no em prol da Virgem, ao serem escritas em galego atestariam a importância da cultura galega.

É lamentável que já no século seguinte ao XIII começasse o vertiginoso declínio dessa língua literária. A tal ponto que, em meados do século XV, o Marquês de Santilhana, dirigindo-se a D. Pedro, Condestável de Portugal, testemunhava que “non ha mucho tiempo qualesquier dezidores e trobadores destas partes, agora fuesen castellanos, andaluzes o de la Estremadura, todas sus obras escribían en lengua gallega o portuguesa” (LÖPEZ DE MENDONZA, 1988, p. 448).

Já era, pois, coisa do passado o prestígio da Galicia, iniciando-se os chamados Séculos Oscuros principalmente sob a ação centralizadora dos Reis Católicos nos séculos XV-XVI, em que a língua própria dos galegos ficaria relegada quase que exclusivamante à oralidade, à fala dos labregos. E a sua língua literária apenas no século XIX seria ressuscitada, principalmente na poesia de uma mulher, Rosalía de Castro. Portanto, se nos Séculos de Ouro medievais as cantigas de mulher, mesmo que escritas por homens, marcavam a especificidade galega desses cantos no contexto europeu, seriam também poemas de mulher, desta vez autorais, que iniciariam o Rexurdimento pleno da literatura galega.

O Rexurdimento. Rosalía de Castro

Todos sabemos que o século XIX, no mundo ocidental, presencia ao fortalecimento dos Estados nacionais, a par da Revolução burguesa, assentada na indústria e no Liberalismo. Nesse contexto se instaura o Romantismo nas artes, promovendo a valorização do popular e das raízes medievais dos povos enquanto marcas de sua identidade. Sob esses ímpetos popular-nacionalistas, na Galiza caberia a Rosalía de Castro, nascida em Santiago de Compostela, 1837, e falecida em Padrón, 1885, papel primacial no revigoramento da identidade galaica. Isto se deu através dos seus Cantares Gallegos, obra escrita em galego e desde o título comprometida com a galeguidade, publicada em 1863, seguida por Follas novas, de 1880. O 17 de maio, dia da publicação dos Cantares gallegos, foi transformado no Dia das Letras Galegas, no qual a cada ano se homenageia um intelectual galego de destaque.

A poesia da autora marca-se inclusive pela perquirição existencial, por um caráter intimista em que são motivos recorrentes a dor, a sombra, a morte. Mas é o seu lado combativo e galeguista que nos interessa no momento observar. Este é ainda mais admirável se pensarmos no contexto adverso em que se inscrevia marginalmente, como mulher culta e inteligente e como galega, sendo seu país e sua língua então duramente menosprezados.

Documenta nos seus poemas não apenas a língua falada do povo, mas as suas cantigas e romances. Diria num deles: Cantart’ei, Galicia, / Teus dulces cantares, / Qu’asi mô pediron / Na veira do mare. // Cantart’ei, Galicia, / Na lengua gallega, / Consolo dos males, / Alívio das penas (CASTRO, 1992, p. 17-18).

O drama da emigração, a que eram empurrados os galegos por motivo da negra situação político-econômica que atravessavam, tornaria o seu canto ainda mais dolente que o das amigas ancestrais, preocupadas com questões erótico-sentimentais. Tal se percebe no poema que glosa o mote popular Adios, rios, adios, fontes; / Adios, regatos pequenos; / Adios, vista dos meus ollos, / Non sei cando nos veremos. Aí, com dorida meiguice a personagem se despede da natureza amada – da ortiña, das figueiriñas, dos paxariños piadores, etc. -, da casa, dos amigos…, com a consciência de que deixa amigos por extraños, a veiga pó lo mar… enfim, que deixa canto ben quer” (CASTRO, 1992, p. 84).

Se o destino é Castela, dirá Rosalía em outro poema, denunciando a exploração e o descaso de que eram vítimas os galegos: Cando foi, iba sorrindo, / cando veu, viña morrendo (…) Foi a Castilla por pan / e saramagos lle deron… (CASTRO, 1992, p. 155). Mas era Havana o grande foco de atração para os emigrantes da época. Por isso registraria, no livro As viudas d’os vivos e as viudas d’os mortos, passagens sofridas dos que !Van a deixá-la patria!… / Forzoso, mais supremo sacrificio. / A miseria está negra en torno d’eles, / !ay!, !y adiant’está o abismo!… ( CASTRO, 1975, p. 125).

A imagem da solidão feminina, muito mais triste, por ser duradoura e mesmo por vezes definitiva a ausência masculina, do que a das donzelas nas cantigas de amigo medievais, é retomada no poema abaixo:

Tecín soia a miña tea,

Sembrei soia o meu nabal,

Soia vou por leña ó monte,

Soia a vexo arder no lar.

Nin na fonte nin no prado,

Así morra coa carrax,

El non há de virm’ e a erguer,

El xa non me pusará.

!Que tristeza! O vento soa,

canta o grilo ó seu compás…

Ferve o pote… mais meu caldo,

Soíña t’hei de cear.

Cala, rula, os teus arrulos

Ganas de morrer me dan;

Cala, grilo, que si cantas,

sinto negras soïdas.

O meu homiño perdeuse,

Ninguén sabe en onde vai…

Anduriña que pasache

Con el as ondas do mar;

Anduriña, voa, voa,

Ven e dime en ond’ está. (CASTRO,1880, Follas novas)

Sozinha, a mulher lutava pela subsistência, com os parcos recursos que a terra permite: “soia” (sozinha) tece, semeia, colhe. Os lugares de outrora para o encontro amoroso – as fontes, o prado…- estão vazios de amantes. A natureza festiva, na voz de grilos e rolinhas, só provoca as “negras” saudades. Mas os seus elementos, oraculares no passado, aqui representados pela andorinha, ainda são evocados para a obtenção de notícias do homem distante. E o mar novamente separa, agora de forma definitiva, os casais. Ao namorado cavaleiro que se dirigia ao “fossado” com el-rei para guerrear, ou que nas barcas se afastava para a luta, substituiu o marido obrigado, pela miséria, a emigrar, afrontando o imenso Mar Oceano.

Portanto, apesar de cantar um momento de agruras do povo galego, a voz de Rosalía faz retornar a dignidade da língua literária, reafirmando a identidade vilipendiada de um povo que ainda teria de enfrentar as perseguições do franquismo para, nos dias de hoje, viver uma nova “Idade do Ouro”, particularmente fecunda na literatura.

Atualidade áurea da literatura. Luz Pozo Garza.

Dentre os numerosos e excelentes escritores galegos da atualidade, muitas são as mulheres que constróem esse novo discurso literário galego.

Uma das primeiras a reescrever na língua matria, após a Guerra Civil de 1936-1939, foi Luz Pozo Garza (nascida em Ribadeo, 1922). Nela nos deteremos, na impossibilidade de por ora focalizarmos outras importantes vozes.

Sofreu a traumática experiência da perseguição franquista, sendo então o seu pai se exilado em Marrocos, onde ficaria com a família até 1940. Retornando à Galiza, estuda e publica os seus primeiros poemas em castelhano, devido à proibição de editoração de livros em galego, sendo que somente em 1947 tal situação seria modificada por Aquilino Iglesia Alvariño, com a obra Cómaros verdes.

Já em 1952, a poetisa iniciaria a sua etapa bilíngüe, sendo neste ano publicado o seu primeiro livro em galego, O paxaro na boca. Nos anos 80 e 90 assume o galego como língua literária única. Além das perseguições político-lingüísticas, sofreu a segregação machista da ditadura, só amainada nos anos 60-70, que relegava mais que nunca a mulher ao mundo privado e doméstico. Por isto, teria que figurar apenas como vice-diretora da revista Nordés, de poesia e crítica, a partir de 1975 ao lado do poeta Tomás Barros. A sua excepcionalidade é comprovada também pelo fato de tornar-se correspondente da Academia Galega logo após a publicação do seu primeiro livro, que teve uma entusiasta acolhida por boa parte da crítica, muito embora alguns críticos louvassem a beleza da autora, ao invés das suas qualidades poéticas (BLANCO, 1991, p. 25-37).

Além de poetisa, foi professora de língua e literatura, crítica literária e amante da música e da pintura, atividades que repercutiriam na sua obra. Esta se caracteriza principalmente por um caráter intimista e clássico, embora a época fosse de hegemonia do social-realismo nas artes. Além do já citado livro inaugural, O paxaro na boca (1952), escreveu em galego Verbas derradeiras (1972), Concerto de outono (1981), Códice calixtino (1986) e Poemeto a flor de loto (1992).

Códice calixtino, de 1986 (Ed. Sotelo Blanco), reeditado de forma crítica e mais completa em 1991 (Ed. Xerais), vem sendo considerado a sua principal obra, obra de síntese e plenitude (PANERO, 1993, p. 15) em que se observam, a par do intimismo já referido, o seu simbolismo imaginista e/ou neotrovadoresco que desembocam em profundas reflexões sobre a existência, sobre o amor e a morte, sobre o sentido da poesia, etc. Desde o título escolhido – o mesmo usado para denominar, no século XII, o conjunto de textos do Liber Sancti Iacobi, isto é, de textos relacionados ao culto de Santiago, à peregrinatio – configura-se o caráter existencialista e de síntese, que retoma desde o apogeu da Era Compostelana e do Trovadorismo, até a nostalgia, a sombra e a morte da poesia de Rosalía, além de espaços e cânones universais, transubstanciados pelo seu poder de recriação, de abstração, de contemplação intelectual e mística.   Aí, o sujeito da poesia se coloca “Coma Dante chegando ao paradiso“, partindo “do principio segredo que nos chama sem verbas / sem panos sem acenos / o exilio transvirado em limiar confidente...” (MORÁN, 1999, p. 262). Ou, num evidente diálogo com as marinhas de Martin Codax, declara o seu amor ao mar de Vigo – a luz, o espaço único, “os días indecisos“… – , que termina por contemplar acompanhada, não mais solitária como as amantes das cantigas ancestrais. Aliás, as cantigas medievais são um dos motivos recorrentes na sua obra, retomadas não apenas em poesia – veja-se ” En Vigo, no sagrado”, de Concerto de outono (VIEIRA, 1996, p. 135-136), em que, “a xeito de cantiga“, perscruta o “sagrado segredo” de Vigo através de ressonâncias de cantigas não apenas codaxianas, mas de Paio Gomes Charinho, Nuno Fernández, etc. Também as revisita em ensaio intitulado Ondas do mar de Vigo. Erotismo e consciência mítica nas cantigas de amigo (POZO GARZA, 1996).

Concluiremos lembrando um dos seus poemas, também de Concerto de outono, no qual dialoga com a “mãe” da poesia galega, Rosalía de Castro, intitulado “Preguntas a Rosalía”. Desde a epígrafe já percebemos tratar-se de uma perquirição fundamentalmente existencialista: “A buscar a táboa / De salvación para sobrevivir / Ao naufraxio vital.“, inspirada em “García-Sabell (Rosalía y su sombra)”. Mas sem deixar de ser galeguista, já que é guiada por Rosalía “Á percura da táboa / Nosa“. Vamos segui-las nesse percurso:

Noitébrega sibila

De palavras de cinza

Acórdanos o fado

Desta terra.

As aldeas pechadas

Esqueceron as verbas.

Ónde quedou a espranza

que percute no peito?

Unha roda de chumbo

Vai calcinando a pedra.

Non me ves desvelada

Sobor da terra moura

Sobor da terra núa?

Si ollas na miña ialma

Ollas tamén Galicia.

Que sorte

       norte

       morte

                           nos agarda?

(VIEIRA, 1966, p. 137-138)

Enfim, mesmo que sem realizar uma poesia abertamente ufanista, Luz Pozo Garza firma a identidade galega não apenas por escrever em galego, ou por refletir sobre a condição de ser galego, ou por retomar a melhor tradição da poesia galega, dos Trovadores a Rosalía. Mas por colocar-se, ela própria, como uma amostra daquele que é, conforme destacamos de início, um dos traços identificadores da sua terra: a poesia. A ponto de já estar se tornando um lugar-comum a máxima: Galicia, terra de poetas…, onde, acrescentamos, as mulheres sobressaem.

Nota: artigo publicado, com pequenas diferenças, em MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (Org.). Estudos Galegos III. Niterói: EdUFF, 2002, p. 113-122.

Referências bibliográficas

BLANCO, Carmen. “Introducción” a POZO GARZA, Luz. Códice Calixtino. Ed. crít. Xerais; Vigo, 1991.

CASTRO, Rosalía de. Obra poética. 8. ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1975.

_______. Poesía galega completa. I – Cantares gallegos. Santiago de Compostela: Sotelo Blanco Ed., 1992.

LÓPEZ DE MENDONZA, Iñigo (Marqués de Santillana). Obras completas. Ed., int. y notas de Angel Gómez Moreno. Maximiliam P.A.M. Kerkhof, 1988.

MALEVAL, Maria do Amparo Tavares. Peregrinação e poesia. Rio de Janeiro: Ed. Ágora da Ilha, 1999.

________ (Org.). Estudos galegos III. Niterói: EdUFF, 2002.

METTMANN, Walter. Cantigas de Santa María, de Afonso X, o Sabio. Ed. crítica. Vigo: Xerais, 1981. Vol. II.

MORÁN, César. Río de son e vento. Unha antoloxía da poesía galega. Vigo: Xerais, 1999.

PANERO, Carmen. Códice calixtino de Luz Pozo Garza. Pontevedra: Edicións do Cumio, 1993.

POZO GARZA, Luz. Códice Calixtino. Ed. de Carmen Blanco. Vigo: Xerais, 1991.

————. Concerto de outono. Sada, A Coruña: Edicións do Castro, 1981.

————. Ondas do mar de Vigo. Erotismo e conciencia mítica nas cantigas de amigo. A Coruña: Espiral Maior, 1996.

VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de. Cancioneiro da Ajuda. Halle, 1904 – Reimp. Lisboa: IN/CM, 1990. 2 vols, vol. II, p. 593-59.

VIEIRA, Yara Frateschi (Org.). Antologia de poesia galega. Campinas: Ed. da UNICAMP. 1966.

[1] Desenvolvemos reflexões sobre a ancianidade das cantigas de mulher em MALEVAL, 1999, p. 47-51.

[vídeo] O Dia de Rosalía na Bahia

Elena Veiga

Professora-leitora de Galego na Universidade Federal da Bahia

A voz de Amancio Prada encheu os jardins da UFBA o dia 24 de fevereiro. Era difícil que numa das tardes habituais dos arredores da universidade um grupo de pessoas lendo poemas chamasse a atenção, naquele clima sempre constante de expressões artísticas e conexão com a terra: Ao nosso lado, quatro homens deitados na lama tentavam sentir a terra mãe ao ritmo de tambores africanos. A dez metros, bem na frente da entrada da Biblioteca, uma mulher com os olhos vendados se jogava água encima ao som de Céline Dion, numa performance hipnótica que reivindicava em cartazes escritos com pintura de dedo a necessidade de nos vermos, de viver em sociedade.

Rosalía berrou mais alto. Berrou-na Amancio desde um CD dos anos noventa. Berraram-a todos os alunos das matérias de Estudos da Literatura Galega Contemporânea e Noções de língua e literatura galegas, na que foi a primeira atividade do ano.

Houve quem disse que Rosalía podia ser melhor lida na praia. O homem que vendia cocadas com publicidade de Star Wars esteve de acordo, lembrou-nos que nem tudo podia ser perfeito mas que sempre era melhorável, “com as cocadas vai além”. Ganhou bastante e conheceu Rosalía.

Lemos Rosalía en Cantares Gallegos, en Follas Novas e até em Lois Pereiro. Lemos a Rosalía Pop e Underground. Houve até quem leu Rosalía em Frida Kahlo, entendendo-a como mito imortal por não lhe cantar aos pombos nem às flores, como ela bem disse. Outros leram-a nas vidas dos avós emigrados à Bahía e emocionaram-se ao tempo que tiravam do bolso um pano com o mapa da Galícia onde alguém há anos tinha sublinhado Ponte Caldelas, estando bem longe da terra.

Ao final conectamo-nos nós também com a terra mãe, prometendo-nos continuar cantando à Galícia em língua galega.

2ª Semana Cultural – Convergências Portugal-Galiza

 

Vendo-os assim tão pertinho, / a Galiza mail’ o Minho, / são como dois namorados / que o rio traz separados / quasi desde o nascimento.

Deixal-os, pois, namorar / já que os paes para casar / lhes não dão consentimento.

Estes versos do poeta raiano João Verde refletem muito bem a filosofia da Semana Cultural Convergências Portugal-Galiza, um acontecimento nascido em 2015 e que chega à sua segunda edição entre os dias 20 e 27 de fevereiro de 2016. Uma iniciativa que surgiu para homenagear ao Zeca Afonso, pelo seu passamento, e à Rosalia de Castro, pelo seu nascimento, mas que começa agora a converter-se num evento de maior envergadura. Uma semana que, em 2016, partilha atividades entre Portugal e a Galiza.

Este ano, os atos comemorativos começam na Galiza com uma homenagem ao Zeca Afonso, mais concretamente em Santiago e em Padrón. Ali, no parque que tem o seu nome, no Burgo das Nacións, uma Delegação composta por representantes da Associação José Afonso (AJA), da União de Freguesias de Nogueiró e Tenões de Braga e do Grupo Canto D ´Aqui levarão a cabo um ato de homenagem que inclui a colocação de um ramo de flores precisamente no lugar onde José Afonso, pela primeira vez, em 1972, cantou “Grândola Vila Morena”.

Depois, os “festejos” continuarão na Fundación Rosalía de Castro em Padrón. De início, haverá uma conferência do professor Eduardo Pires de Oliveira “Minho/Galiza – 2000 anos de mãos dadas” seguido de um concerto do Grupo Canto D’Aqui de Braga.

Terminada a parte galega, os atos da Semana Cultural e da homenagem ao Zeca retomam-se na terça-feira, dia 23, já em Braga com a apresentação, a cargo de Paulo Esperança (Vice-presidente da Associação José Afonso), do livro José Afonso Andarilho nas Astúrias com a presença do autor, Mário Correia. Durante o ato, haverá momentos musicais e colaboração do guitarrista e professor Artur Caldeira e a participação do Coletivo Irmãos de Fala.

Já nos dias 24 e 25, a vez será para o concerto-homenagem ao nascimento de Rosalia, o descerramento de uma placa alusiva á convergência Portugal (Minho) Galiza na rua Rosalia de Castro de Braga e o colóquio com convidados e convidadas excecionais na cultura galego-portuguesa. Serão a Uxía e os Galandum Galundaina os encarregados de montar uma festa sem igual no Conservatório de Musica Calouste Gulbenkian.

A pessoas que vão participar no colóquio-tertúlia (que também será amenizado com momentos musicais) serão: Henrique Barreto Nunes, bibliotecário; Rosalía Morlán Vieites, poeta; Eduardo Pires de Oliveira, historiador de arte na Universidade de Lisboa; Anxo Angueira, presidente da Fundação Rosalía de Castro; Valentín García Gómez, secretário geral de Politica Lingüística da Xunta de Galiza; Eunice Maria da Silva Ribeiro, responsável pelo Centro de Estudos Galegos e Presidente do ILCH da Universidade do Minho; e Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga e Vice-presidente do Eixo Atlântico. Será Aida Alves, diretora da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, quem modere o evento.

Na sexta, a festa luso-galaica continuará com os concertos dos grupos Primo Convexo (Braga) e Pédopôté (Mondariz) no Teatro do Liceu Sá de Miranda de Braga. E já no sábado, uma clausura (encerramento) vertiginoso, com o concerto do grupo Canto D’Aqui (Braga) e da banda de Roi Casal (Catoira) no Theatro Circo.

Nos diferentes dias serão o Fernando Pena, a Marisa Moreda e o Camilo Silva os encarregados de apresentar toda esta gala do património cultural galego-portugués.

Como complemento à Semana Cultural, o Centro de Estudos Galegos da Universidade do Minho levará a cabo um workshop sobre aspetos da cultura galega. Nele participarão o professor Eduardo Pires de Oliveira com a comunicação “Minho/Galiza – 2000 anos de mãos dadas” e a poeta Rosalía Morlán com uma intervenção que leva por título “Qual é o segredo de como nasce e se cria uma poeta”.

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A emigração como mote do sentimento romântico em Rosalía de Castro

Ghabriel Ibrahim

Aluno de Literatura Galega I e Introdução à Cultura Galega na UERJ

O século XIX na Galícia foi bastante conturbado. Durante a primeira metade deste século, a população galega mostrava crescimento acentuado, representando quase 12% da população total da Espanha. Este crescimento, porém, se dava sobre um modelo insustentável, visto que a Galícia não demonstrava diversidade econômica e ainda caminhava no âmbito industrial. Embora produzisse linho, o consumo do material de proveniência galega sofreu duro golpe a partir do início da importação de produtos ingleses. Era uma sociedade majoritariamente rural, e as técnicas para produção no campo eram pouco modernizadas, além da existência de uma série de impostos cobrados sobre a produção campestre, os chamados “trabucos”. Além disso tudo, a Galícia demorou a ser incluída na malha ferroviária espanhola, sendo incorporada de maneira relevante apenas em 1883.

A crise era iminente, e nos anos 50 chega com muita força. De 1852 a 1855, a Galícia sofre com chuvas torrenciais, geadas e infestações constantes de pragas, o que, em uma sociedade rural como a galega da época, é capaz de instaurar o caos. Com as colheitas sendo afetadas de maneira intensa, inicia-se um período de fome. No ano de 1853, o governo espanhol legalizou a emigração, o que acabou por gerar um movimento migratório massivo, sobretudo para a América, por parte dos galegos. Somado ao movimento legal, havia também a imigração ilegal, tamanho o desespero por parte dos cidadãos de evadir o pagamento dos trabucos, que chegaram a triplicar durante o período, bem como a vontade de escapar do recrutamento forçado. Estima-se que 340 mil galegos, em sua maioria do sexo masculino, incluindo crianças de até 12 anos deixaram seus lares em busca de uma melhora na condição de vida e não retornaram.

Na segunda metade do século XIX também tem início um movimento de resgate da cultura e da língua galega. O “Rexurdimento” buscava revitalizar o galego como instrumento de expressão social e cultural, além de reavivar sentimentos nacionalistas adormecidos durante o período dos Séculos Escuros. Ocorre paralelamente à “Renaixença” catalã, que possuía propósito similar. Embora antes de 1863 houvesse publicações na língua galega no século XIX, estas foram consideradas obras precursoras do movimento, que geralmente tem seu início apontado neste ano, com a publicação de “Cantares Galegos”, de Rosalía de Castro.

Rosalía, filha de um membro do clero e uma fidalga solteira de poucos recursos, cresceu na Galícia e lá aprendeu seu idioma e conviveu com a cultura do país. Não foi privada de educação formal, e em 1856 se mudou para Madrid, onde conheceu Manuel Murguía, outro escritor fundamental no Rexurdimento galego, com quem se casou. Em Madrid escreveu sua primeira grande obra, “Cantares Gallegos”, de importância já mencionada. A obra teve grande influência do Romantismo e da cultura popular. Não detinha grande complexidade: a obra contava com um vocabulário simples, e não tinha grandes construções imagéticas a partir de figuras de linguagens de difícil compreensão. Parte dos poemas presentes nessa compilação era quase um “quadro de costumes”, descrevendo de maneira leve e poética hábitos do povo galego. Disso se constituía sua tentativa de fazer rutilar sua cultura: fazendo uma literatura de qualidade com temas de intensa relação com o povo.

Era também uma mulher muito ligada em questões políticas e sociais, e portanto não poderia deixar de abordar a questão das emigrações em seus textos. O poema “Adiós, ríos” é um bom exemplo desse tipo de literatura que produziu.

Adiós ríos, adiós fontes
adiós, regatos pequenos;
adiós, vista dos meus ollos,
non sei cándo nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde m’eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.

Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña d’o meu contento.

Muiño dos castañares,
noites craras do luar,
campaniñas timbradoiras
da igrexiña do lugar.

Amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adiós para sempre adiós!

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conoso,
por un mundo que non
vin!

Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga polo mar;
deixo, en fin, canto ben quero…
¡quén puidera non deixar!

(…)

O poema segue por mais oito estrofes, mas para fins ilustrativos essa primeira parte já será bem útil. Já na forma se faz claro o caráter popular da poesia de Rosalía de Castro, sendo a primeira estrofe constituída de versos octossílabos remetendo à produção lírica folclórica. Além disso, nessa primeira parte há apenas quartetos, e em todos eles se repete a rima entre o segundo e o quarto verso. Isso confere ao poema simplicidade, e faz deste um texto capaz de tocar mesmo os leitores inexperientes como era o caso da maioria do povo galego da época. Mostra também que o idioma galego é tão capaz de provocar um impacto estético e emocional como qualquer outro, grande conquista da autora. Nas palavras de Luis Seoane:

 “…la poesía de Rosalía de Castro, poeta total sin lugar a duda, capaz de apoderarse de sentimientos individuales  que conmoverán a la consciência colectiva, cumpliendo así la conditio sine qua non de la creación artística esencialmente dirigida a la comunicación, en otras palabras, su función social. “

No seu segundo livro, publicado em 1880 (“Follas Novas”), Rosalía atinge outra profundidade poética, com uma lírica mais intimista e esquemas rítmicos e sonoros mais complexos. Isso confere um caráter mais universal à poesia presente neste livro, já que a obra em “Cantares Galegos” trazia inúmeras referências à arte popular galega em diversos campos. Mantém-se aqui a preocupação com o social por parte da autora, e o tema da emigração segue servindo de mote para a produção literária. Neste livro há uma seção dedicada a este tema intitulada “As viudas d’os vivos e as viudas d’os mortos”, em que a expressão “Viudas d’os vivos” é cunhada e desde então é comumente referenciada quando se trata de emigração na Galícia no século XIX. Um exemplo de interessante abordagem do assunto pode ser visto em “A gaita galega”, poema do qual transcreverei um fragmento:

[IV]

Probe Galicia, non debes
chamarte nunca española,
que España de ti se olvida
cando eres, ¡ai!, tan hermosa.
Cal si na infamia naceras,
torpe, de ti se avergonza,
i a nai que un fillo despreza
nai sin corazón se noma.
Naide por que te levantes
che alarga a man bondadosa;
naide os teus prantos erixuga,
i homilde choras e choras.
Galicia, ti non tes patria,
ti vives no mundo soia,
i a prole fecunda túa
se espalla en errantes hordas,
mentras triste e solitaria
tendida na verde alfombra
ó mar esperanzas pides,
de Dios a esperanza imploras.
Por eso anque en son de festa
alegre á gaitiña se oia,
eu podo decirche:
Non canta, que chora.

No poema, a autora usa sua sensibilidade e personifica Galícia, caracterizando-a como uma mãe saudosa, triste, e cada vez mais solitária devido ao fenômeno migratório. Quando diz “Galícia, ti non tes pátria”, afirma o descaso e abandono da Espanha com ela, abandono este que não se verifica no momento da cobrança de impostos, por exemplo. Reforça a tristeza que o processo da migração causa nessa “mãe”, tão intensa que faz com que a gaita galega, símbolo cultural, tenha seu som ligado ao som de um choro.

É interessante notar o sucesso que esse livro fez fora da Galícia, sobretudo devido ao grande número de imigrantes galegos em países como Cuba, por exemplo, local onde Rosalía se fez muito reconhecida no período. O poder catártico de sua obra é inegável, uma vez que atinge inclusive pessoas que não consumiam arte que não aquela vinda do povo – mais popular – mas também atinge intelectuais e estudiosos, ilustrando a potência da obra da autora. Além disso, é importante notar que, embora o sentimento nacionalista fosse comum na época e portanto muito utilizado como inspiração poética, Rosalía utiliza de sua sensibilidade como mãe sofrida e mulher para criar uma nova de despertar este sentimento em seus leitores: personificando sua nação, sensibiliza seus nativos quanto ao seu papel na construção de uma identidade nacional forte, dando ao povo papel de protagonista nesta situação. Com isso, demonstra entender a situação política de seu lugar, há muito maltratado e desrespeitado, com um povo ferido, pouco a pouco docilizado, quase naturalizando a triste realidade vivida, e por isso era fundamental que fosse reavivado nele o sentimento não só de pertencimento à pátria, mas também o sentimento de que é importante para que tal conceito exista.

Referências:

Graña, J. L. “Adiós ríos, adiós fontes”: Rosalía de Castro y los galegos de Cuba

Porrua, M. C. El tema de la emigracion em la poesia de Rosalia de Castro y su proyeccion em dos poetas galegos

González López, Emilio (2012 [1986]). “Achegamento lírico e alonxamento dramático: o tema da emigración”. En Actas do Congreso Internacional de estudios sobre Rosalía de Castro e o seu tempo (i). Santiago de Compostela: Consello da Cultura Galega / Universidade de Santiago de Compostela, 317-326. Reedición en poesiagalega.org.Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura.

<http://www.poesiagalega.org/arquivo/ficha/f/1681&gt;.

A mulher na lírica galega: Rosalía de Castro e a poesia contemporânea de Emma Pedreira e Yolanda Castaño

Ana Carolina Guedes

Graduada em Filosofia (UFRJ) e aluna de Literatura Galega II na UERJ

  1. INTRODUÇÃO

A história da literatura galega é marcada por etapas fundamentais que merecem destaque. Inicialmente, identifica-se o florescimento medieval do período galego-português, no qual prevalece a lírica. Esta época é marcada pela vasta produção de cantigas de amor, de amigo e de escárnio/maldizer. É importante ressaltar que a participação das mulheres nesse contexto se caracteriza por uma ausência absoluta.

Em seguida, há uma época de decadência – os chamados Séculos Escuros – que se caracteriza por uma “pobreza criadora”. Nesse contexto, o idioma e a literatura galega entram em um período de decadência. Diversos foram os fatores que provocaram este progressivo declínio, dentre os quais cabe destacar: o assentamento de uma nobreza estrangeira, intransigente com a cultura e a língua galegas e a crescente política centralista e intervencionista de Castilla.

A terceira etapa que merece destaque é a de progressiva recuperação e consolidação de uma literatura de resistência que adquire aos poucos pretensões de uma literatura nacional. Deste modo, acelera-se também um importante movimento “regaleguizador” de resistência, dentro do qual a literatura possui um papel fundamental.

Nesse sentido, nas palavras de Carmen Blanco (1995):

El discurrir literario gallego está en estrecha relación con el desarrollo histórico del movimiento galleguista y el despertar nacionalista de este signo, de la misma manera que la historia particular de la literatura de las mujeres se acompasará, en buena medida, al ritmo del proceso feminista, entendido en sentido amplio, como el fenómeno de reconocimiento social de los sujetos femeninos.

Ainda segundo Blanco (1995), sabe-se que a entrada das mulheres na literatura galega ocorre no século XVI e que esta coincide com a abertura humanística que propiciou o acesso de uma minoria feminina privilegiada à cultura e às letras.

No século XVIII, “se da el paso, así, desde la exclusión (de las mujeres) como regla, confirmada por las excepciones, a la posterior inclusión marginal y discriminatoria, pero inclusión al fin” (BLANCO, 1995, p.30). Neste contexto, as mulheres começam a adentrar pouco a pouco na vida pública e a clamar por seus direitos enquanto cidadãs, denunciando as injustiças a que estavam submetidas. Esse é o momento em que a classe média feminina começa – de modo significativo – a ler e a escrever revolucionando, como leitoras e escritoras, o âmbito literário.

  1. ROSALÍA DE CASTRO: A VOZ FEMININA NA LITERATURA GALEGA

Nascida em Santiago de Compostela, em 1837, Rosalía de Castro é considerada não somente a representante máxima e pioneira do Rexurdimento galego, mas sim uma das maiores figuras representante da literatura da Galícia dentro do contexto universal, pois é a personalidade feminina mais reconhecida fora dos limites linguísticos próprios. Nesse sentido, nas palavras de Blanco (1995):

En el contexto gallego ella es, como hemos dicho, la que propiamente inaugura una época, pues las autoras anteriores en la lengua autóctona de Galicia, aunque importantes como precursoras, son tan sólo anecdóticas en el sentido de que no llegan a publicar en libro.

Rosalía publicou seu primeiro livro de poemas em língua castelhana aos vinte anos, em Madri, intitulado La Flor. Identificam-se nesta obra influências de leituras de poetas românticos como Espronceda. Destacam-se os temas do abandono, da morte e do pessimismo.

Em 1869, a escritora publica a novela Hija del mar e em 1863, Cantares Gallegos, uma de suas principais obras. Esta marca o início do Rexurdimento galego e representa o conhecimento profundo e a interiorização da cultura galega, traços característicos da obra rosaliana. Segundo Silva (2013) nesse livro, Rosalía percorre toda a tradição oral galega, explicitando a permanência dos temas e da estética trovadoresca, além dos traços da cultura celta. Esta poética feminina popular estará também presente em alguns versos de Follas novas (1880). Nesta obra, predominam o protesto social e a meditação metafísica, além de temas relacionados à natureza e às terras galegas.

É fundamental ressaltar que Rosalía foi uma escritora que se afastou do modelo tradicional feminino e este fato pode ser identificado pela própria autora em um famoso poema de Follas Novas:

Daquelas que cantan as pombas i as frores

todos din que ten alma de muller;

pois eu que non as canto, Virxe da Paloma,

¡Ai!, ¿de qué a teréi? (CASTRO, 1993)

Identifica-se neste fragmento que Rosalía reconhece sua distinção em relação à escrita de outras mulheres, pois se aparta de temas comuns considerados femininos, como os de cunhos religiosos e amorosos. Além disso, observa-se que sua presença foi essencial para o cenário da literatura feminina, pois segundo González Liaño (2003) Rosalía mostra-se como o primeiro estandarte intelectual das reivindicações sociológicas das mulheres, ainda que não fosse deliberadamente feminista, nem plenamente consciente do trabalho que estava desenvolvendo através de suas obras.

A autora abordou e denunciou a situação de inferioridade e marginalização a qual estavam submetidas as mulheres da sociedade patriarcal a que pertencia. Ainda, nas palavras de González Liaño (2003) “as súas protestas foron rotundas pero veladas, debido aos condicionamentos sociais da época”. Para tal, utilizou-se de metáforas, sátira e ironia com a finalidade de expor o comportamento masculino em relação às mulheres e a posição secundária destas em relação àqueles.

Desta forma, a problemática social e, principalmente, a das mulheres constituem a base das obras rosalianas que, sobretudo, refletem sobre a dura realidade existencial. Ainda, nota-se um afã de liberdade em suas obras. Essa exaltação encontra-se presente no prólogo da primeira novela de Rosalía, La Hija del Mar (1859), em Flavio (1861) e em Las Literatas (1866).

  1. A POESIA CONTEMPORÂNEA DE EMMA PEDREIRA E YOLANDA CASTAÑO

Atualmente, a poesia escrita por mulheres se transformou em um valioso objeto de interesse para um grande número de estudiosos e críticos. Porém, como se sabe a ausência de vozes femininas marcou a história da literatura galega durante um longo espaço de tempo.

O início da década de noventa trouxe mudanças impactantes e fundamentais para este movimento. Em relação a esse contexto, é importante ressaltar que:

En el caso gallego, los cambios se han visto ralentizados por la marginalidad histórica de esta cultura. La urgencia por reconstruir los discursos político y literario ha interferido –y a veces confluido– con algunas formulaciones estéticas (la vanguardia a comienzos de la centuria pasada) y de género” (NOGUEIRA PEREIRA, 2011).

Esta ampla eclosão de vozes femininas que versavam geralmente em uma escrita de gênero ocorreu exatamente neste momento em que se iniciava um fenômeno que se estende até os dias atuais e que se considera como o boom da poesia feminina, não apenas na Literatura Galega.

Esta proliferação de escritoras galegas, em sua maioria poetas, variam de idade, procedência e formação. Porém, guardam um desejo comum: o de criar uma poesia centrada na voz da mulher e nas suas revindicações, contrariando, desta forma, a visão estereotipada criada por uma tradição patriarcal. Conforme apontado por Comesaña Besteiros (2005) “estas autoras exprésanse e reivindican un eu feminino, un suxeito que actúa, desexa, pensa e sente desde un corpo que, espido de obxectualizacións, pasa a ocupar o lugar central do discurso”.

Inicialmente, é importante considerarmos alguns conceitos básicos, como sexo, gênero e performance. Tomando como base a teoria desenvolvida por Gayle Rubin (1975), o sexo se assimila aos caracteres biológicos que os seres humanos apresentam e que permitem dividi-los en duas realidades diferentes e complementárias, homens e mulheres. Por outro lado, o gênero é entendido como o conjunto de características que a cultura associa aos homes e às mulheres. Vale ressaltar que o conceito de gênero apresenta ainda problemas de definição. A performance, por sua vez, consiste na representação que o sujeito faz de si mesmo, de modo mais ou menos consciente.

Em uma tentativa de apreciar, valorizar e lançar um novo olhar sobre o corpo da mulher, tradicionalmente considerado como um objeto e menosprezado por muitos, algumas autoras dão voz a um novo erotismo. Nesse contexto, encontra-se a figura de Yolanda Castaño. Podem-se identificar na obra desta autora diversos exemplos que confirmam essa posição. Nos seus primeiros livros de poemas Elevar as pálpebras (1995), Delicia (1998) e Vivimos no ciclo das erofanías (1998) à luz do estudo de Comesaña Besteiros (2005), Yolanda expressa o erotismo e a sensualidade através de uma linguagem artificiosa e de um eu lírico fortemente erotizado, o que gera certa provocação. Ainda segundo a estudiosa, identificamos que:

En Elevar as pálpebras domina o erotismo e unha sensualidade expresada a través dos sentidos nunha acumulación de sabores, cheiros ou tactos, co obxectivo de mostrar un corpo en toda a súa potencialidade erótica. (…) En Delicia continúa a liña de sensualidade e de erotismo, expresados a través dunha linguaxe enchida de sonoridade. Vivimos no ciclo das erofanías continúa a liña de poesía erótica en que o eu describe a súa relación co amante, así como o seu propio estado de ánimo como partícipe dunha relación que se representa como plenamente satisfactoria e que eleva ao eu da súa feitura humana, tal e como o facía a poesía (COMESAÑA BESTEIROS, 2005)

Nesse sentido, encontra-se na obra Elevar as pálpebras fragmentos como “Abecedarios de azar amargurado. / Beixos de baldíos balorentos. / Camposas cansas de cinza cega. / Chairas de chumbo chaguazoso. / Dor de debuxos desfigurados. / Esvaemento de esperanzas ebrias […]” (1995: 21), que confirmam a atmosfera erótica e sensual criada pela autora. Ainda, percebe-se a utilização de recursos léxicos que transmitem sensações visuais, táteis e olfativas ao leitor.

Em Delicia o sexo ganha status, importância e alcança o seu clímax em fragmentos como “Se penso nas cousas que fixemos” (1998: 53-56). Deste modo, o leitor se depara com uma figura feminina provida de anseios e com capacidade de ação, distanciando-se do modelo de “passividade” criado pela tradição conservadora patriarcal.

Vivimos no ciclo das erofanías segue com a linha erótico-sensual característica da autora. Nesta obra, observa-se a descrição de uma relação do eu lírico com seu amante. Este “eu”, por sua vez, encontra-se imerso em uma atmosfera de euforia, desejos e febre amorosa. Deste modo, a mulher surge como sujeito ativo de toda ação.

Outra escritora igualmente brilhante merece destaque. Trata-se de Emma Pedreira. Esta autora possui uma vasta produção literária, que se estende da prosa à poesia. Nas palavras Comesaña Besteiros (2005) “Emma Pedreira evidencia no seu discurso que o corpo feminino desexoso rebélase contra calquera forma de represión, moito máis cando esta pretende impoñerse desde o propio útero, é dicir, valéndose do mito da maternidade”.

Nesse sentido, o eu lírico luta contra a ideia do sujeito feminino ser reduzido a mero objeto e recipiente, no qual o objetivo é reproduzir a “linhagem” masculina. Expõe-se que a única maneira de romper com esta opressão é a negação de perpetuar este sistema, evitando a reprodução do dito modelo social. Deste modo, o sujeito feminino da obra proclama “a súa firme decisión de non parir, co claro obxectivo de dinamitar o sistema desde a base. Sen novos nacementos, o mantemento da sociedade faise, sinxelamente, insostible.” (COMESAÑA BESTEIROS, 2005).

Pode-se identificar claramente esta premissa no poema “Irta sobre a materia escura” (2001c: 19-20):

Na sombra os espellos reproducen o meu corpo callado en xeso e leite / que non dará a vida. […] / o útero péchaseme como un atrapamento histérico / sobre a pinacoteca estéril da dor” ou “Xa non seremos paridoras de matrias nin proporción láctea / […] Xa non peligrará sobre nosoutras o inmenso poder do sexo / […] Xa non nos terá a historia a nosoutras como recinto inmaterial” (2001c: 11).

Outro tema recorrente na obra de Pedreira é o silêncio da mulher, pois (o corpo) “como obxecto de consumo, acaba por caer no mutismo e na afasia” (Buzzatti e Salvo 2001: 25). Exemplos dessa temática são os versos “e calo / como sempre calamos” (2001c: 14), “e por si fora pouco / silenciada” (2001c: 20), “e a voz última que se / fai dor e se fai silencio” (2001c: 34), “E me atravesa o silencio” (2001c: 13).

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em síntese, tanto a poesia de Castaño e de Pedreira quanto a das autoras renovadoras das décadas de 80 e 90 em sua maioria, convergem em determinados pontos, a saber: enunciação a partir de um eu claramente identificado como feminino, defesa da liberdade do corpo da mulher, nascimento de um erotismo e de desejos sexuais, no qual o corpo não desempenha o papel de mero objeto, pois transforma-se em sujeito.

Conclui-se, portanto, que “a profusión de textos e autoras supón, en aparencia, un éxito, tanto para a literatura escrita por mulleres como, tamén, para todo o sistema literario galego” (COMESAÑA BESTEIROS, 2005). Deste modo, a mulher alcança e nos mostra sua plenitude nos textos da brilhante e fundamental figura de Rosalía de Castro e atinge a devida visibilidade na conteporaneidade com autoras como Yolanda Castaño e Emma Pedreira.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLANCO, Carmen. Literatura gallega de las mujeres: fundación y refundación. 1995.

BUZZATTI, Gabriela e SALVO, Anna. El cuerpo-palabra de las mujeres. Madrid: Cátedra, 2001.

CASTAÑO, Yolanda (1995). Elevar as pálpebras. A Coru- ña: Espiral Maior, 1998.

_____. Vivimos no ciclo das erofanías. A Coru- ña: Espiral Maior,1998.

_____. Delicia. A Coruña: Espiral Maior. (2000).

CASTRO, Rosalía de. Cantares gallegos. 11 ed. Madrid: Cátedra, 2001.

______. Obras completas. Madrid: Turner, 1993.v.2.

COMESAÑA BESTEIROS, María (2011 [2005]). “aproximación á representación do xénero na poesía galega de muller: emma Pedreira, Yolanda Castaño e Lupe Gómez”. Anuario Grial de Estudos Literarios Galegos: 2005, 48-63. reedición en poesiagalega.org. Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura. .

GONZÁLEZ LIAÑO, Iria. Socioloxía das literatas na Galicia do Rexurdimento. A singularidade do pensamento feminista de Rosalía de Castro, 2003.

NOGUEIRA PEREIRA, María Xesús.“Voces femeninas en la poesía gallega actual”. Revista de Erudición y Crítica: 5, 90-99. reedición en poesiagalega.org. Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura, 2011.

PEDREIRA, Emma. Velenarias. A Coruña: Espiral Maior, 2001.

SILVA, Tais Matheus da. A representação da voz da mulher na poesia de Rosalía de Castro. 2013

Que agora non: ais, ardis e alba em acalanto

Giovanna Giffoni

Doutora em Letras pela UFRJ e estudante/pesquisadora na UERJ

Ora, meu meniño, ora

quén vos ha de dar a teta,

si tua nai vai no muiño,

e teu pai na leña seca?

(Rosalía de Castro. Cantares Galegos)

Dentre os gêneros poéticos de transmissão oral, a cantiga de ninar é seguramente um dos mais tradicionais e populares, abarcando para si de uma só vez os três grandes elementos de desprestígio no mundo letrado regido pela literatura. Oral, tradicional e popular, remonta à longínqua Suméria de onde nos chegou o exemplo mais antigo que se conhece – “Acalanto para um filho de Shulgi”. Nas ruínas desse texto observa-se a fundação de seus princípios, de algumas características do gênero que o embalam com mais ou menos força em diferentes contextos até os nossos dias. Já nas primeiras linhas, ouvimos uma espécie de encantamento nos versos de bendizer, como presentes ofertados ao recém-nascido:

Ah, ah, que com meu canto ele cresça forte, que ele prospere com o meu cantar1

Este “ouro-incenso-e-mirra” dialoga com um outro tipo tradicional, também encontrado em arquivos sumérios, de felicitação à parturiente e boas-vindas ao rebento, que incrivelmente sobrevive em algumas regiões do Brasil, onde grupos de mulheres, geralmente idosas, costumam ir à porta das casas saudar com cantigas tradicionais o novo nascimento de um menino ou uma menina. Voltando ao exemplo sumério, o encantamento de bom agouro dá lugar mais adiante ao encantamento para fazer dormir, uma das principais funções desempenhadas pelos arrolos e que parece ter sobrepujado todas as outras:

Sono vem, sono vem, sono vem pro meu neném, sono bem depressa [?] vem!

A seguir, a mãe (quem parece estar cantando) é pródiga nos votos ao bebê, desejando-lhe esposa e filho, e a este uma alegre aia que o embale e amamente, numa passagem que se inicia carregada de simbologia erótica:

No meu jardim, só alfaces reguei, e entre todas a mais nobre colhi. Que o senhor coma sua alface!2Que com esta nana eu lhe dê uma esposa, que eu possa lhe dar uma esposa (…)

Mais uma vez nos impressiona este sussurro, tão distante em tempo e espaço, vigorar ainda até bem poucas décadas na história do “pé-de-alface”, contada às crianças como explicação fantasiosa sobre concepção e nascimento, da mesma forma que a história da cegonha. Esta primeira nana ainda está, pois, a nos embalar com a sua música, tão tradicional e popular, e é com ela também que até hoje tomamos contato com a primeira forma de medo:

Você é incansável… tenho medo, estou tão quieta [?] contemplando as estrelas e a lua crescente que brilha em minha face. Seus ossos podem ir de encontro ao muro e o guarda do muro lamentará!

No ruído reconfortante de run run, rorró, arrorró, as primeiras máscaras do medo que contemplamos. Uma máscara que, como Górgona, traz a morte nos olhos. Uma morte mais branda, o sono, e sob sua ameaça fechamos os nossos. É um medo primeiro que ela embala sempre em fórmulas muito precisas que dão destaque especial à careta. Assim canta o acalanto tradicional no Brasil, que exorta a criança a dormir bem depressa sob a ameaça apavorante:

Boi, boi, boi,

Boi da cara preta

Pega este menino

Que tem medo de careta

Muito já se falou sobre a perversidade das músicas infantis – não só dos acalantos – na tradição brasileira, especialmente em contraposição a exemplos nórdicos bem mais suaves a embalar o sono dos bebês. Mas o fato é que o medo não é aí um elemento de sadismo, mas uma forma de aprendizagem, o primeiro grande ensinamento, que as anainas, como primeira música proverbial, nos dão a conhecer. Espécie de mal necessário, esse medo que nos petrifica na mais tenra idade é vário e assume muitas formas, como o “boi da cara preta”, ou a figura da “cuca”, e usos distintos, como o deste “gato” em cima do telhado, colhido no folclore galego, encarnando uma ameaça a um outro tipo inocente que está a dormir – o marido traído:

quen é este ghatiño

que está no tellado

que o meu maridiño

está aquí deitado

válghame dios

que non me comprendedes

esta noite nonhe

mañá volveredes

o ronrón ronrón

mañá si e hoxe non3

Assim vemos que a versatilidade do gênero é proporcional às inúmeras formas de pavor, denotando também sua grande popularidade, que o faz emprestar a voz suave a cantilenas “picantes”, como este exemplo semelhante, musicado pelo grupo galego Fuxan os Ventos:

Rorró

Cabeza de burro
que nada entende,
o pai do neno
na cama se tende.

Ai rorró, ai rorró
que agora non.

Que nada entendes
cabeza de burro,
o pai do neno
observa tudo.

Ai rorró…

O tom erótico aí presente possui uma identidade próxima à do gênero Alba da tradição trovadoresca, que, como se sabe, relata em geral uma despedida furtiva de amantes ao amanhecer, mas, em alguns casos, faz justamente da aurora a hora propícia, o que é bem mais sensato em se ratando de amores adúlteros. Por isso, alguns estudiosos defendem que este seja tradicionalmente o tema, ligeiramente modificado pelos trovadores, moralizando-o ao omitir menção explícita ao adultério. Nesse contexto, é importantíssimo o papel do vigia, que tanto pode ser cúmplice dos amantes, ou uma metáfora para a figura opressora do marido, o “pai do neno” que “observa tudo”, como nesta kharja4 aljamiada, recolhida por García Gómez da poesia da Espanha muçulmana:

Alba de mew fogore!

Alma de mew ledore!

Non estand’ar-Raqibe5

Esta nojte ker’amore

Pode-se observar nos versos acima que o(a) amante está planejando um encontro fora da hora costumeira – a alba –, mudança proporcionada pela ausência do vigia. Este vigia, como já se disse, pode ser também favorável ao casal, avisando do perigo que se aproxima. Neste papel encontramos muitas vezes elementos da natureza, o canto de um pássaro6, por exemplo. Quando desfavorável, aproxima-se daquele medo primordial, que, nas mais recentes releituras, pode vir carregado de pessimismo existencialista, como no acalanto de Fernando Pessoa7:

Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada,

Achou-a em confusão,

Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia

Para quem quer achar,

Nem paz nem alegria

Para quem, por amar,

Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos

Tecem docéis sem ser

Ficar como ficamos,

Sem pensar nem querer,

Dando o que nunca damos.

Ainda, assumindo todas as formas de opressão política, a vigilância do vigia pode ser apenas passageira, e um outro futuro pode estar velando esse menino que dorme, como uma nação que em breve despertará de seus sonos intranquilos. Assim esta cantiga de berce, belo exemplo de acalanto de cunho político:

Durme meu neno, durme,
sen máis pranto,
que o tempo de chorare,
vai pasando
Que a terra na que vives,
no que bágoas,
precisa homes inteiros,
pra libertala.
Durme meu neno, durme,
colle forzas,
que a vida que che agarda,
pide loita.
Recollera-lo froito
sementado,
no inverno escuro e frio,
no que estamos.


Semente feita en sangue por un pobo
que xurde dende a hestoria, dende o sono,
un sono cheo de aldraxe e miserento,
un sono de inxusticias e silencio.
Mira a língoa que falo, despreciada,
por ser língoa de probes, língoa escrava,
son o orgullo que temos, língoa de probes.
Só neles hai verdade e máis honores.
Durme meu neno, durme, niste colo,
que esta terrra de escravos non tén odio.
Tén séculos de espranza, agardada,
que pón hoxe nos fillos que amamanta.
8

Nascida ainda na aurora, mas sem uma certidão que contemple, na língua oficial, seus verdadeiros genitores, a pátria galega é um neno ou nena dormindo muitas vezes sob terríveis ameaças, que para além do mal que imprimem na sua pele, nos seus olhos bem fechados, doam também este conhecimento fundante e fundamental de lidar com os próprios medos. Desse modo, fortalecendo seu espírito nessa “longa noite de pedra”, o grande poeta Celso Emilio Ferreiro, soube embalar-se a si mesmo (e aos seus conterrâneos), compondo, talvez, em obra homônima, o maior repertório de acalantos onde está presente o tempo todo o vigia – seu próprio cárcere e o da nação – mas deixando entrever também a alba, que se infiltra como um “aire puro”:

Aire puro9

O aire puro da mañá procrama

o seu dereito a entrar en cada casa.

¡Ábrelle as portas, patria!

¡Dalle os teus seos, alma!

Deixa iste tufo acedo que te abafa,

esquece istas mortaxas,

estiña as túas bágoas,

fala,

canta,

arrumba a desespranza,

non deixes que te aldraxen; aldraxa.

Onte non.

Pensa nas albas

que han de vir, ponlle cerco ás lembranzas

que te atan.

Deixa entrar a mañá crara

na túa casa.

Verdadeiros cantos de liberdade, o poema de Ferreiro e a letra de Felix Otero não só velam nosso sono (muitas vezes pessimista, muitas vezes covarde), como nos ensinam que as cantigas de ninar também fazem despertar para essa alba por-vir.

Referências:

Cantiga de berce. (22 de abril de 2013). Galipedia, a Wikipedia en galego. Disponível em <http://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Cantiga_de_berce&oldid=2979931>. Acessado em 14 de julho de 2014.

DÉTIENNE, Marcel e VERNANT, Jean-Pierre. Métis: As astúcias da inteligência. São Paulo: Odysseus, 2008.

JACOBSEN, Thorkild. The harps that once… Sumerian poetry in translation. New Haven/ london: Yale University Press, 1987.

Nanar (verbete). Em CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro (J-Z). 3ª edição revista e aumentada. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972. p.589

PEPIÓ, Vicenç Beltran. A alba de Nuno Fernandez Torneol. Revista Galega do Ensino, no 17, Santiago de Compostela, novembro de 1997. pp. 89-109. Disponível em <http://dialnet.unirioja.es&gt;

REQUEIXO, Armando. A literatura galega de transmisión oral. Moenia, 8, 2002. pp. 209-221. Disponível em http://dspace.usc.es/bitstream/10347/5807/1/pg_211-224_moenia8.pdf

VERNANT, Jean-Pierre. A morte nos olhos – figuração do outro na Grécia Antiga: Ártemis e Gorgó. Tradução Clóvis Marques. 2ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

1 Lullaby for a son of Shulgi (Shulgi N): Translation. Oxford University. The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature. Disponível em: < http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/section2/tr24214.htm> (Tradução nossa do texto em inglês.)

2 A alface, significando o órgão sexual feminino, ou os pelos pubianos, aparece em diversos poemas amorosos sumérios como o que se inicia com o verso: Minha ‘lã’ sendo alface, ele irá regar. In: JACOBSEN, 1987, p. 93. (Tradução nossa do texto em inglês.)

4 Literalmente “saída”, a kharja é o mote que aparece na última estrofe da muaxaha, gênero poético árabe-andaluz, que floresceu entre os séculos IX e XI.

5 Vigia

6 E a cotovia amiga de Romeu e Julieta nos mostra a sobrevivência da Alba no Renascimento, assim como estes versos datados por volta de 1500, presentes no Cancionero Musical de Palacio: “Al alba venid, buen amigo,/ al alba venid”.

7 PESSOA, Fernando. Poesias Inéditas (1931-1935).

8 “Cantiga de Berce”. Música: Fuxan os Ventos. Letra: Felix Otero.

9 FERREIRO, Celso Emilio. Longa Noite de Pedra. 1962.

Rosalia de Castro e a Literatura Brasileira

Thayane Verçosa

Aluna de Introdução à Cultura Galega na UERJ

Introdução

Rosalia de Castro é uma das maiores poetisas galegas do século XIX. Ela escreveu na época do Rexurdimento Galego, período no qual as obras literárias em língua galega voltaram a aparecer, depois de séculos sem produções escritas, época conhecida como Séculos Escuros. Cantares gallegos, obra de Rosalia, escrita em 1863, pode ser vista como um marco do Rexurdimento, pois a maior parte dos poemas que compõem o livro fala da Galícia. Alguns cantam os hábitos e costumes da população, outros, a situação de exílio enfrentada por inúmeros habitantes e mais alguns descrevem a natureza local e as festas, assemelhando-se muitas vezes a cantigas trovadorescas, especialmente às conhecidas como cantigas de amigo. De uma forma geral, pode-se notar que o tema central do livro é a Galícia e suas características culturais. Dessa maneira, pode-se pensar que a amplitude temática da obra é grande e pode ser relacionada com a literatura de vários países. Afinal, sempre há períodos literários que irão ter como temática central a cultura e a identidade do seu país. Isso é um assunto muito recorrente na literatura ao redor do mundo. Na Literatura Brasileira, a questão de narrar a cor local, a saudade da pátria ou os hábitos populares é muito comum. Dessa forma, é possível realizar um estudo comparativo das obras de Rosalia de Castro com diferentes autores brasileiros, situados em distintos períodos literários. Isto mostra a pluralidade e o valor da obra de uma das maiores poetisas galegas. É importante ressaltar que não é só Cantares gallegos que pode ser relacionado. A obra Follas novas também tem temas semelhantes que podem ser associados com a Literatura Brasileira de diferentes épocas.

Vida e obra de Rosalia de Castro

Rosalía de Castro
Rosalía de Castro

Nascida em 1837, Rosalia passou a infância na Galícia rural e a juventude em Santiago de Compostela. Durante a mocidade, conviveu com os maiores nomes do liberalismo político e jornalístico galego. No ano de 1857 lança a sua primeira coletânea de poemas, conhecida como La Flor, publicada em castelhano. Em 1858 casa-se com Manuel Murgía, que era um escritor e investigador funcionário do Estado. No ano de 1859, nasce a sua primeira filha. Começa a publicar textos em castelhano e galego no ano de 1861. Finalmente, em 1863, publica Cantares gallegos, a primeira obra escrita em língua galega depois de séculos sem produções literárias escritas com a língua da Galícia. O livro tem tanta importância, não só por ter sido feito em galego, mas por ter conseguido trazer de volta o sentimento de identificação cultural, através da descrição dos feitios e hábitos da população, além da descrição da natureza e da beleza local. Em 1880 publica Follas Novas. Essa obra também foi escrita em Língua Galega e trata de questões mais subjetivas e mais individualistas. Rosalia morreu de câncer no útero no ano de 1885, na cidade de Padrón, onde havia passado seus últimos anos. As publicações em Galego de Rosalia de Castro não se restringem somente a esses dois livros. A autora publicou novelas em galego também, que não alcançaram a mesma notoriedade das obras mencionadas acima.

Literatura Brasileira

Geralmente, as obras literárias de qualquer país são estudadas a partir de um recorte temporal. A historiografia literária parte de temas frequentes, estruturas comuns e mesmos períodos históricos para caracterizar e classificar a literatura de cada época. Apesar de frequente, a historiografia não está livre de falhas, pois existem autores literários que tendem a se distanciar da produção de seu tempo, ficando, muitas vezes, à margem do que estava sendo feito, e acabam por iniciar um novo período da literatura. No Brasil, o estudo das produções literárias não se difere do formato descrito acima. As nossas produções são divididas em movimentos e, muitas vezes, dentro desses movimentos, são separadas também pelo formato da produção, se é prosa ou poesia, etc.. Alguns dos períodos mais famosos da Literatura Brasileira são: o Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, Modernismo, etc.. Como foi dito anteriormente, a temática da obra de Rosalia é passível de ser relacionada com autores de distintos períodos e estilos literários brasileiros.

Rosalia e o Romantismo

Uma das correntes literárias mais estudadas e conhecidas do Brasil é o Romantismo. Na terra descoberta por Pedro Álvares Cabral, o Romantismo teve uma vertente com escritores que produziam em prosa e outra com os que escreviam em formato de poesia. Para a associação com Rosalia de Castro o mais interessante é a vertente de poesia do Romantismo. Esta parte do movimento é dividida didaticamente em três gerações: a Primeira Geração, Indianista, a Segunda Geração, também conhecida como Ultrarromantismo, e a Terceira Geração, apelidada de Condoreirismo. A Primeira Geração teve forte influência da Independência do Brasil, conquistada em 1822 e, consequentemente, buscava criar uma identidade nacional, através da exaltação dos valores da pátria, das belezas naturais do Brasil e da utilização dos índios como heróis nacionais, visto que eram os habitantes da terra antes da chegada dos portugueses. Dessa forma, a poesia da Primeira Geração terá poemas remetendo a natureza nacional de uma forma idealizada e exacerbada, colocando as paisagens do país como superiores, mais belas, mais puras, etc.. Os poetas mais famosos do período são Gonçalves Dias e Gonçalves de Magalhães. A Segunda Geração, por sua vez, surgiu em meados do século XIX, apresentando temas completamente distintos dos da Primeira. Os autores do período tinham suas poesias voltadas para: pessimismo exagerado; apego pela morte; foco em sentimentos idealizados e exacerbados; medo de concretização do amor; melancolia; devaneios, causados por substâncias entorpecentes, como o álcool, por exemplo; sentimentos mórbidos; uma busca pelo retorno ao passado; saudades da infância, etc.. Logo, comparando a Segunda Geração com a Primeira, é possível notar uma diferença temática enorme. Os poetas do Ultrarromantismo, também conhecido como Mal do Século, não se preocupavam com a Pátria ou questões nacionais, o foco era os sentimentos do eu lírico, que vivia perdido em sonhos e devaneios. Muitas vezes, os acontecimentos do poema são tão complexos, que não é fácil definir o que é sonho ou realidade na história contada. A infância também é um tema muito recorrente do período. Os poetas falavam dela e das suas memórias com muito apreço e valor. Essa fase da vida era vista de forma idealizada, pois, nela, os poetas não tinham os sofrimentos nem os problemas que tem na vida adulta. Então, há um desejo de retorno a essa fase de inocência e pureza. Existem vários autores famosos desta Geração, mas Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu são dois dos principais nomes. Já a Terceira Geração tem um aspecto social e político que não apareceu anteriormente. Ela surgiu em meados da década de 60 do século XIX e durou até o fim do Romantismo, que pode ser datado aproximadamente em 1880. Os poetas do período estão preocupados com as mazelas sociais. Logo, o eu lírico foi tirado de foco e os problemas e injustiças da sociedade foram explorados. Dessa forma, a Terceira Geração apresenta uma crítica e denúncia das explorações a que alguns estratos da sociedade eram submetidos. O abuso sofrido pelos escravos é um tema muito presente. Os principais nomes do período são: Castro Alves e Sousândrade. Da obra Cantares gallegos existem vários poemas que podem ser relacionados com o Romantismo Brasileiro. Porém, existe um em que o eu lírico encontra-se no exílio, sentindo falta da sua pátria, dos seus familiares e dos seus costumes, que pode ser facilmente associado a um dos poemas mais conhecidos da Primeira Geração do Romantismo: “Canção Do Exílio”.

Gonçalves Dias
Gonçalves Dias

O poema, escrito em 1843 por Gonçalves Dias, descreve a situação de um exilado que sente saudades da sua terra e passa a comparar diferentes características do lugar em que se encontra com o que há na sua pátria, concluindo que tudo na sua terra é melhor. Dessa forma, o poema mistura saudades, exaltação da natureza e um sentimento de exílio. O poema número 15 da obra de Rosalia de Castro, apesar de ter um tamanho maior, traz as mesmas angústias e sofrimentos da Canção de Gonçalves Dias. Ele trata de uma situação de exílio, na qual o eu lírico, além de sentir saudades da família, dos hábitos, dos costumes, sofre com receio de não poder mais presenciar e viver tudo o que tinha na Galícia.

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossa, várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar – sozinho, à noite –

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

Airiños, airiños aires

Airiños, airiños aires,

airiños d’a miña terra;

airiños, airiños aires,

airiños, leváime á ela.

Sin ela vivir non podo,

on podo vivir contenta;

qu’adonde queira que vaya

cróbeme unha sombra espesa.

Cróbome unha espesa nube

al preñada de tormentas,

tal de soidás preñada,

qu’a miña vida envenena.

Leváime, leváime, airifios,

com’unha follina seca,

que seca tamén me puxo

a calentura que queima.

¡Ai!, si non me levás pronto,

airiños d’a mina terra:

si non me levás, airiños,

quisáis xa non me coñesan;

qu’á frebe que de min come,

vaime consumindo lenta,

e n-o meu corazonciño

tamén traidora se ceiba.

Fun n-outro tempo encarnada

como o color d’a sireixa;

son hoxe descolorida

como os cirios d’as igrexas,

cal si unha meiga chuchona

a miña sangre bebera.

Vóume quedando muchiña

com’unha rosa qu’inverna:

vóume sin forzas quedando,

vóume quedando morena,

cal unha mouriña moura

filla de moura ralea.

Leváime, leváime, airiños,

leváime adonde me esperan

unha nai que por min chora,

un pai que sin min n’alenta,

un irmán por quen daría

a sangre d’as miñas venas,

y un amoriño a quen alma

e vida lle prometera.

Si pronto non me levades,

¡ai!, morrerei de tristeza,

soia n’unha terra extraña,

donde extraña m’alomean,

donde todo canto miro

todo me dice ¡extranxeira!

¡Ai, miña probe casiña!

¡Ai, mina vaca vermella!

Años, que balás n-os montes,

pombas, qu’arrulás n-as eiras;

mozos, qu’atruxas bailando,

redobre das castañetas,

xas-co-rras-chás d’as cunchiñas,

xurre-xurre d’as pandeiras,

tambor d’o tamborileiro,

gaitiña, gaita gallega:

xa non m’alegrás, dicindo

¡muiyeira!, ¡muiyeira!

¡Ai!, quén fora paxariño

de leves alas lixeiras!,

¡ai, con qué prisa voara

toliña de tan contenta,

para cantar a alborada

n-os campos d’a miña terra!

Agora mesmo partira,

partira com’unha frecha,

sin medo as sombras d’a noite,

sin medo d’a noite negra;

e que chovera ou ventara,

e que ventara ou chovera,

voaría e voaría

hasta qu’alcansas’á vel-a.

Pero non son paxariño

e irei morrendo de pena.

xa en lágrimas convertida,

xa en sospiriños desfeita.

Dóces galleguiños aires

quitadoiriños de penas,

encantadores d’as augas,

amantes d’as arboredas;

musica d’as verdes canas,

d’o millo d’as nosas veigas;

alegres compañeiriños,

run-run de todal-as festas,

leváime n-as vosas alas

com’unhá follina seca.

Non permitás qu’aquí morra,

airiños d’a miña terra,

qu’ainda penso que de morta

hei de sospirar por ela:

ainda penso, airiños aires,

que dimpois que morta sea,

e aló pol-o camposanto,

donde enterrada me teñan,

pasés n-a calada noite

runxindo antr’a folla seca,

ou murmuxando medrosos

antr’as brancas calaveras;

inda dimpois de mortiña,

airiños d’a miña terra,

heivos de berrar: ¡Ariños,

airiños, leváime a ela!

Rosalía de Castro

Como já foi dito anteriormente, os dois poemas tem o mesmo tema e apresentam o tom saudosista do exilado. Dessa forma, podem ser facilmente relacionados. Além de tais semelhanças, os dois poemas apresentam versos muito parecidos. Rosalia de Castro diz o seguinte: “Não permitais que aqui morra,”, enquanto Gonçalves Dias tratará do mesmo sentimento com palavras muito semelhantes: “Não permita Deus que eu morra,/Sem que eu volte para lá;”.

Rosalia e a literatura de cordel

A literatura de cordel foi trazida para o Brasil no século XVIII, através dos portugueses. No começo, ela foi muito estigmatizada, mas com o passar do tempo, vem se tornando mais popular, especialmente na região nordeste do Brasil, em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Esse tipo de literatura tem esse nome porque em Portugal, de onde veio, as obras ficavam expostas ao povo amarradas em cordões, estendidos em mercados populares, lojas pequenas ou nas ruas mesmo. Ela é uma modalidade de poesia popular, impressa, e seus folhetos de divulgação são ilustrados com processo de xilogravura. Por terem um custo muito baixo, geralmente são vendidas pelos próprios autores, em festas populares ou feiras. Os cordéis não tem objetivo de serem impessoais. Muitas vezes o autor coloca a sua opinião ou utiliza técnicas de persuasão para que o leitor acate a sua ideia. Seu sucesso é causado pelo baixo preço e pela temática popular. As obras de cordel geralmente tratam de fatos da vida cotidiana da cidade ou da região, com um tom humorístico. Festas, política, seca, disputa, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo e morte de personalidades são apenas alguns assuntos que podem servir de base para a produção de cordéis. Há também a forma cantada da literatura de cordel. Ela acontece quando os trovadores pegam suas violas e recitam os poemas em praça pública, muitas vezes, numa espécie de “confronto”. Um dos maiores nomes da literatura de cunho popular nordestina foi Patativa do Assaré, que nasceu em 5 de março de 1909 e faleceu em 8 de julho de 2002. O poeta tem tanto destaque porque superou o caráter tradicional da poesia de cordel, ao abordar outros temas de forma dissertativa e reflexiva, fugindo do tom humorístico tradicional. Patativa escreveu obras falando da pobreza do sertanejo, do latifúndio e do agregado, do retirante, da ética, do social, do perdão, da justiça, da igualdade, etc. Além de poeta, ele foi compositor, cantor e repentista. Dessa forma, é possível encontrar muitas de seus poemas em formato de canções. Uma delas foi até interpretada por Luís Gonzaga. Entre os inúmeros temas tratados por Patativa, a seca é recorrente. E ela, quando aparece, pode estar relacionada a um êxodo forçado do sertanejo, fazendo com que este parta para terras desconhecidas em busca de melhores condições de vida. O sentimento abordado por Patativa no poema “Triste Partida” é facilmente relacionado com o poema número 13 de Cantares gallegos da Rosalia de Castro. Os dois abordam a questão do abandono da vida e da terra natal para um lugar desconhecido em busca de melhorias de vida.

Patativa do Assaré
Patativa do Assaré

No poema de Patativa, o sertanejo deixa sua casa, pois está havendo uma época de seca e ele não consegue mais viver da sua produção na agricultura. Logo, é forçado a largar tudo em busca de uma nova forma de sustento. No poema de Rosalia, o êxodo também é narrado. O eu lírico encontra-se deixando sua terra, seus valores e seus hábitos para trás, partindo para o desconhecido, onde ele tem certeza de que irá sentir falta da sua “terrinha” e de tudo o que foi deixado.

A triste partida

Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado, falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

– De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: – Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
– Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

Chegaro em São Paulo – sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra tão seca mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do su.

Patativa do Assaré

Adios ríos, adios fontes

Adios rios, adios fontes,
Adios regatos pequenos,
Adios vista dos meus ollos
Non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra,
Terra donde m’ eu criey,
Ortiña que quero tanto,
Figueiriñas que prantey.

Prados, ríos, arboredas,
Pinares que move o vento,
Paxariños piadores,
Casiña dó meu contento,

Muíño d’ os castañares,
Noites craras de luar,
Campaniñas trimbadoras
Dá igrexiña dó lugar,

Amoriñas d’ ás silveiras
Qu’ eu lle dab’ ó meu amor,
Camiñiños antr’ ó millo,
Adios, para sempr’ adios!

Adios groria! Adios contento!
Deixo á casa onde nacín,
Deixo á aldea que conoço,
Por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños,
Deixo á veiga pólo mar,
Feixo, en fin, canto ben quero…
¡Quen pudera non deixar!…

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .

Mais son prob’ e mal pecado.
A miña terra n’ é miña,
Qu’ hastra lle dán de prestado
A veira por que camiña
O que naceu desdichado.

Téñovos pois que deixar.
Hortiña que tanto amei,
Fogueiriña dó meu lar,
Arboriños que prantei,
Fontiña do cabañar.

Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
Donde meu pai s’ enterrou,
Herbiñas que biquey tanto,
Terriña que nos criou.

Adios tamén, queridiña!….
Adios por sempre quizais!…
Dígoch’ este adios chorando
Desd’ a veiriña do mar.
Non m’ olvides, queridiña,
Si morro de soidás….
Tantas légoas mar adentro….
¡Miña casiña! meu lar!

Rosalía de Castro

Os dois poemas tem um tema muito parecido. Eles falam do êxodo, narrando a partida da terra local, com um tom de despedida e lamento. No poema de Patativa, o narrador vai descrevendo os elementos que serão deixados para trás: “E a linda pequena, tremendo de medo:/ – Mamãe, meus brinquedo!/ Meu pé de fulô!/ Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!/ E a minha boneca/ Também lá ficou.” e a falta que eles farão ou o que poderá acontecer com eles, sem que os “donos” estejam ali para cuidar. Rosalia faz algo bem semelhante: “Tenho-vos, pois, que deixar,/ hortinha que tanto amei,/ figueirinha do meu lar,/ arvorinhas que plantei,/ fontinha do cabanal.” Os dois também apresentam um tom de denúncia das injustiças sociais, pois vão dizer que a personagem descrita, em Patativa, e o eu lírico, em Rosalia, sofrem com as injustiças sociais e devem deixar a sua moradia em busca de melhores condições de vida e sobrevivência. Outra semelhança é a presença do elemento religioso. No poema de Patativa, antes de ter de abandonar a sua terra, o retirante pede ajuda a São José, clamando por chuva: “Apela pra maço, que é o mês preferido/ Do Santo querido,/ Senhô São José./ Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,/ Lhe foge do peito/ O resto da fé.”. Enquanto no poema de Rosalia, o exilado fala que vai levar a Virgem de Assunção com ele: “Adeus, Virgem da Assunção,/ branca como um serafim;/ levo-vos no coração;/ vós pedi-lhe a Deus por mim,/ minha Virgem da Assunção.”. Isso marca a religiosidade comum aos dois poemas.

Rosalia e Cecília Meireles

Outra associação que pode ser feita a partir de Rosalia é com a poetisa Cecília Meireles. As duas autoras possuem poemas com temáticas semelhantes, mas com sensações contrárias, que serão explicadas posteriormente. Cecília foi uma escritora brasileira do século XX. Ela produziu poemas, contos, crônicas, obras de literatura infantil, entre outros. Por sua escrita e abordagens peculiares, Cecília não é vinculada a nenhuma escola literária, mas pode ser associada a alguns poetas do Simbolismo.

Cecilia Meireles
Cecilia Meireles

A autora produziu seu primeiro livro de poemas aos 18 anos. Sua poesia apresenta um tom intimista, reflexivo e filosófico, com uma profunda sensibilidade feminina, abordando temas como vida, amor e tempo. A musicalidade é uma marca dos seus poemas. Rosalia de Castro e Cecília Meireles podem ser associadas de maneira opositiva. Enquanto, em Cantares gallegos, a maioria dos poemas descreve a natureza de forma positiva, idealizada, trazendo paz, alegria e conforto para o eu lírico, alguns poemas de Cecília, que trazem o ambiente, apresentam-no como um lugar desconcertante e inquietante, como se a natureza permitisse uma introspecção que leva a reflexões interiores.

Transição

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia… – não consentidas,
mas recebidas e esperadas!)

Cecilia Meireles

III

Lugar mais hermoso
Non houbo na terra
Qu’ aquel qu’ eu miraba,
Qu’ aquel que me dera.

Lugar mais hermoso
No mundo n’ hachara,
Qu’ aquel de Galicia,
Galicia encantada!

Galicia frorida,
Cal ela ningunha,
De froles cuberta,
Cuberta de espumas.

D’ espumas qu’ o mare
Con pelras gomita,
De froles que nacen
A ó pé das fontiñas.

De valles tan fondos,
Tan verdes, tan frescos,
Qu’ as penas se calman
No mais que con velos.

Qu’ os anxeles neles
Dormidos se quedan,
Xa en forma de pombas,
Xa en forma de niebras.

Rosalía de Castro

Os dois poemas trazem visões bem diferentes da natureza. Enquanto Rosalia narra as belezas e as sensações boas que a paisagem traz, Cecília coloca a paisagem como um meio de reflexão interior. Quando ela olha a redor, ela se vê melhor e passa a um estado de humor muito complexo, com a mistura de alegria e tristeza. No poema de Rosalia somente os aspectos positivos da paisagem são mostrados, no de Cecília, a natureza é uma passagem para a introspecção. Logo, os dois tem uma perspectiva muito distinta em relação ao meio que cerca o eu lírico. Nesse sentido, eles quase se opõem.

Conclusão

Diante de todas as associações e relações que foram estabelecidas ao longo do trabalho, é possível notar a importância e a magnitude da poética de Rosalia de Castro. A autora não é fundamental somente na Literatura Galega. Ela pode ser pensada como um ícone da literatura ocidental, a partir dos seus feitios e produções. Por essa razão é tão fácil associá-la com diversos autores brasileiros de distintos períodos de tempo.

Bibliografia

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