A opera omnia de Rosário Suárez Albán e a revitalização dos estudos galegos na Bahia

Juan Boullosa

 Bolsista do Centro de Estudos de Língua e Cultura Galega (CELGA) da Universidade Federal da Bahia

Ganhador do 1º prémio ao melhor trabalho galego convocado pelo Centro de Estudos da Língua Galega (CELGA) do ano 2015 na Universidade Federal da Bahia.

 RESUMO

Este ensaio tem como objetivos principais apresentar o projeto de edição da opera omnia de Profa. Rosário Suárez Albán[1], fundadora do de Estudos da língua e Cultura Galegas (CELGA) – núcleo acadêmico vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) – e problematizar de que forma este contribui para a revitalização dos estudos galegos em Salvador. Tal projeto toma como base o conjunto de obras da mencionada investigadora, docente aposentada desta instituição universitária, que pelo trabalho exímio e idôneo desenvolvido junto ao Centro de Estudos Galegos (CEG) e posteriormente ao CELGA, destacou-se pelas diversas pesquisas na área. Estão catalogadas até o momento em torno de 20 obras, algumas de sua autoria e outras de autoria compartida. São publicações próprias, artigos, livros, comunicações etc. Todas essas obras formam então o corpus do projeto e será através dele que trataremos da revalorização da cultura da Galícia. Salientamos que este corpus ainda está em construção, dada a situação de dispersão em que se encontram as obras. Apresentado o projeto, discutiremos as dificuldades e os percalços inerentes a este labor filológico e os critérios adotados para a sua solução. Por fim, traçando este panorama e as contribuições deste projeto para os estudos galegos, almejamos tecer algum comentário sobre o futuro destes e do próprio CELGA na Bahia.

1 INTRODUÇÃO

Muitos anos se passaram desde as primeiras emigrações ocorridas na Galícia. Estamos falando de mais de cem anos de história. Uma história sofrida, feita de muitos homens e mulheres que “abandonaram” seu passado e seu presente para garantir um futuro melhor. Enorme é a quantidade de relatos que se tem dessa época, de jovens que saíram sozinhos em busca de um emprego, de homens que deixaram filhos e esposa para trás, de mulheres que nunca mais tiveram notícia de seus entes queridos…. Hoje, o que temos como fruto dessas corajosas e muitas vezes dolorosas iniciativas são comunidades galegas espalhadas por todo o mundo. Alemanha, Argentina, Chile, Cuba, Estados Unidos da América (EUA), França, Brasil, estes são apenas alguns dos vários destinos escolhidos pelos desbravadores galegos. Sim, desbravadores, porque apesar do medo e do horizonte incerto que tinham, não recuaram, seguiram adiante, explorando esse mundo novo. Estes galegos deixaram marcas nas cidades aonde chegaram. Não se trata somente de marcas materiais, mas também socioculturais, que se expressam de maneira mais ou menos acentuada não só pela linguagem, mas também pela intensa forma de produção e apropriação do espaço a sua volta.

Os galegos e galegas foram verdadeiros agentes dentro do processo de formação cultural por onde passaram, criando, alterando esses espaços e deles se apropriando conforme sua própria lógica. Segundo Harvey apud Corrêa (1997), a cidade pode ser considerada uma expressão concreta de processos sociais construídos sobre o espaço, refletindo, por extensão, as características da sociedade. Por isso, nos casos em questão, é impossível dissociar cada uma dessas sociedades da comunidade galega que acolheram. Sendo evidente a importância desses emigrantes para a construção da história galega e de tantas outras culturas, justifica-se a necessidade de um estudo que abranja os aspectos culturais, linguísticos e históricos galegos na sociedade baiana, mormente a soteropolitana.

2 UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O PROJETO

Podemos dizer que o projeto toma como seu objeto de estudo não um daqueles desbravadores, mas o fruto desse desbravamento. Rosário Suárez Albán, filha de emigrantes galegos, torna-se uma importante representante dentro deste âmbito histórico e linguístico. Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestra em Língua Portuguesa pela mesma instituição (pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística), desenvolveu ao longo dos anos diversas pesquisas sobre o desempenho linguístico dos galegos na Bahia. Serão estes estudos o foco do nosso trabalho. Foram mais de trinta anos de magistério e várias produções, divididas entre artigos, livros, comunicações em eventos, dissertações, material que compõe o corpus do plano de pesquisa, que nasce inspirado pelo valor do legado material e imaterial de tais escritos para os estudos linguísticos e literários sobre a língua, cultura e literatura galegas. Apesar da relevância dos de Suárez Albán, suas obras encontram-se esparsas, algumas delas praticamente inacessíveis, fazendo-se então necessária uma compilação fidedigna desse material e uma possível recuperação daqueles que por ventura estiverem deteriorados. Trata-se de um labor filológico que parte do resgate, visando a publicação e disponibilização deste espólio para todo o público, dilatando o alcance da obra.

2.1 BREVE TRAJETÓRIA ACADÊMICA DE ROSÁRIO SUÁREZ ALBÁN[2] 

Antes de prosseguir com a explanação sobre o projeto, é cogente mencionar a trajetória acadêmica desta que deu origem a todo este diálogo e que honra sua ascendência galega com toda a sua competência e vida dedicados à língua galega. Como já foi dito em caráter introdutório, Maria del Rosário Suárez Albán, é filha de imigrantes galegos radicados na Bahia. Após os estudos primários e secundários, ingressa, em 1970, através da seleção do vestibular, no curso de graduação em Letras Vernáculas da UFBA, dando início, em 1976, ao seu Mestrado, desenvolvendo pesquisa sobre o desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia, sob a orientação da Profa. Myrian Barbosa da Silva, havendo defendido sua dissertação em 1978. Já no primeiro ano de seu curso de mestrado, é admitida — via concurso público — como docente efetiva do Departamento de Letras Vernáculas desta mesma universidade, múnus que desempenharia eximiamente por quase três décadas. Foram 30 anos de magistério dedicados a ministrar disciplinas como: Análise Textual da Língua Portuguesa, Dialetologia do Português, Estudo das Normas Urbanas Cultas Brasileiras, História da Língua Portuguesa, Introdução ao Estudo Científico da Língua Portuguesa, Literatura Popular, Língua Portuguesa na Comunicação de Massas, Morfossintaxe Sincrônica da Língua Portuguesa e Iniciação Científica da Língua Portuguesa no 1º e 2º graus.

Suárez Albán lecionou também em cursos de pós-graduação lato sensu (circunscritos à UFBA, à UEFS ou à UNIFACS), principalmente a disciplina Técnicas de Redação. Participou de inúmeras atividades de extensão universitária e o exerceu funções administrativas dentro da UFBA, mas a esfera em que se destacou foi no desenvolvimento de rotas de pesquisa científica, muitas vezes em parceria acadêmica com a sua eminente colega Doralice Fernandes Xavier Alcoforado (in memoriam), no âmbito dos projetos Norma Urbana Culta Brasileira (NURC) e Documentos da Memória Cultural. A obra de Suárez Albán por si só já testemunha a sua dedicação às áreas do saber às quais consagrou toda a sua trajetória intelectual e docente: os estudos linguísticos e literários em geral; os estudos sobre a língua, cultura e literatura galego-portuguesas, em particular. Devotada à sua terra natal, a Galícia, construiu uma produção quantitativa e qualitativamente considerável sobre diversos temas ligados a essa comunidade autônoma, mormente sobre o seu romanceiro popular trazido ao território cultural baiano e nele encrustado, o desempenho linguístico de imigrantes galegos e o delineamento do próprio processo histórico da migração de seus compatrícios.

2.2 ESCOPOS E METAS DA PROPOSTA

Pormenorizando, tem-se como objetivos principais do projeto:

  • A edição de todos os trabalhos da pesquisadora para criar um volume que contenha sua opera omnia, a modo de homenagear a sua trajetória profissional e intelectual na UFBA.
  • O estudo crítico da sua obra, em especial sobre aspectos concernentes à linguística comparativa entre o galego e o português e os fundamentos teóricos e metodológicos que a sustentam, abarcando também os trabalhos referentes à literatura de tradição oral dos imigrantes galegos na Bahia.
  • O resgate destas obras do abandono em que se encontram para trazê-las novamente à luz de novas discussões.

2.3 ASPECTOS METODOLÓGICOS: A ROTA DE INVESTIGAÇÃO

A metodologia traçada está baseada, inicialmente, no rastreamento das obras. Grande parte delas está disponibilizada na Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa (BURMC) e facilmente localizadas por um buscador online[3] desenvolvido pela própria UFBA e de livre acesso aos estudantes. Contudo, existe outra parte, não menos importante, que está fora dos limites da universidade e, por isso, de difícil contabilização. É aquela que está sob os cuidados de familiares, amigos, colegas que participaram de alguma forma da vida acadêmica da fundadora do CELGA. Estes materiais, até então desconhecidos, chegam até a equipe responsável pelo projeto através de uma árdua pesquisa e consulta feita com cada um desses potenciais mantenedores. Tudo isso acaba dificultando o andamento das atividades, que ficam dependentes do aparecimento de uma nova obra a ser incorporada, o que nos faz considerar tal labor como fluido e escorregadio, pois é aberto.

Após a compilação dos materiais que formariam o corpus do projeto, surge a segunda etapa, que é a digitalização e digitação dessas produções. A digitalização em si é um processo “simples”, pois se resume a separar e escanear as obras. Sendo a intenção salvaguardar os documentos e disponibilizá-los em meios mais acessíveis, a digitalização seria o suficiente. Porém, muitas obras estão com seu suporte deteriorado pela força do tempo, o que impossibilita o escaneamento, sob a pena de danificar os originais.

Temos também a questão da publicação de um livro abrangendo essa opera omnia e por questões de formatação, os arquivos com extensões como: JPEG, BMP, TIF, PNG, GIF, PBM, PGM e PPM, dificultariam a produção do mesmo. Tomando como ideal então a edição no formato DOCX – textos produzidos pelo Microsoft Office Word – optamos por digitar as obras ou utilizar programas que convertam estes formatos para o standard do projeto. Feita essa passagem das produções para um formato digital, entra em ação a última etapa, que é a da edição. Todos os textos digitados são minuciosamente examinados e passam por alguns critérios de edição semi-diplomática, respeitando-se ao máximo o original e fazendo apenas algumas alterações indispensáveis. Fazendo parte do escopo a autenticidade das obras e o respeito às características originais das mesmas, tem-se como um dos critérios, e talvez o mais importante, manter o mais fidedigno possível o texto digitado ao correspondente original. Permite-se apenas a atualização de alguns constituintes sem a perda ou mudança do valor atribuído a ele, como ocorre com a questão ortográfica e com a tabela utilizada nas transcrições fonéticas, por exemplo. Toda e qualquer mudança que possa ocasionar, de alguma forma, algum tipo de perda do conteúdo original será devidamente explicada através de notas. Isso porque, segundo Bassetto (2001, p.43),

[…] o trabalho filológico tem por objetivo a reconstituição do texto, total ou parcial, ou a determinação e o esclarecimento de algum aspecto relevante a ele relacionado. Estende-se desde a crítica textual, cujo objeto é o próprio texto, até as questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade, a datação etc., e o estudo e a exegese do pormenor.

2.4 O CORPUS

Em sua trajetória acadêmica-intelectual, Rosário Suárez Albán edificou um espólio bibliográfico de relevância, abrangendo desde alguns temas mais intrinsecamente linguísticos (voltados à dialectologia, à sociolinguística, à linguística textual), até aqueles mais achegados à esfera da literatura e da cultura (romanceiro tradicional, contos populares, imigração). Salientando que este projeto se encontra numa fase inicial, até então são estes os constituintes principais de seu corpus:

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (2000). As versões orais de A Nau Catarineta no Romanceiro Geral Português. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA ORAL DO NORDESTE, 2., 2000. Salvador. Do oral ao escrito: 500 anos de história do Brasil. Salvador: Universidade do Estado da Bahia. p. 31-36.

______. (1999). Romanceiro galego na Bahia: sua face lingüística. In: Congresso Internacional de Estudos Galegos, 5., 1997. Trier. Actas… Galícia: s/n. Vol. II. p. 917-926.

______. (1998a). Os ecos do Romanceiro Ibérico no Litoral Norte da Bahia: temas e formas. A Cor das Letras, n.02, p.79-89.

______. (1998b). Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. v. I. 246p.

______. (1998c). Confronto temático entre o romanceiro ibérico e o brasileiro coletados na Bahia. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO DE LINGÜÍSTICA E FILOLOGIA DA AMÉRICA LATINA, 4, 1990, Campinas. Atas… Vol. V. p. 247-253.

______. (1998d). Ser Galego na Bahia: Ontem e Hoje. In: SIMPÓSIO DA LÍNGUA E CULTURA GALEGAS, 1., 1998, Salvador. Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 235-246.

______. (1997). O Romance/cantado/recitado/narrado na Bahia. In: JORNADA SERGIPANA DE ESTUDOS MEDIEVAIS, 2., 1996, Aracaju. Atas… Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura. Vol. I.

______. (1996a). Em busca do Romanceiro: seis anos depois. Revista Internacional de Língua Portuguesa, n.15.

______ . (1996b). O Romanceiro ibérico na Bahia. Euro América – Uma Realidade Comum, p. 165-187.

______. (1996c). O que marcar e o que não marcar na transcrição de textos orais. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA E O ENSINO DA LÍNGUA MATERNA, 1., 1993, Salvador. Diversidade Lingüística e o Ensino da Língua Materna. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 165-181.

______. (1992). A memória do religioso no Romanceiro ibérico. In: Encontro Nacional da ANPOLL, 7., 1992, Porto Alegre. Atas… Vol. VII.

______. (1989). A inmigración galega na Bahía. Revista da Comisión Galega do V Centenário, v. I, n. I, p. 21-47.

______. (1984). Aspectos de interferência lexical no português de imigrantes galegos. Estudos, n.01, p.6-29.

______. (1983). A imigração galega na Bahia. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Centro de Estudos Baianos, 1983. 29 p.

______. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

A este conjunto se somam outras publicações em anais de congressos, produções de matiz artístico-culturais e comunicações em seminários, mesas-redondas e simpósios científicos da área de Letras.

2.5 DIFICULDADES

Desde o aparecimento da escrita e seu uso na comunicação interpessoal, o homem já apontava a necessidade de constituir um conjunto de normas e procedimentos para auxiliar a transcrição textual, com o objetivo de evitar alterações, reduções e acréscimos que os copistas, por descuido ou incúria, intercalavam ao texto, gerando problemas. No caso das obras analisadas, o cuidado recai sobre os seguintes aspectos:

2.5.1 Imagens

Muitas imagens utilizadas estão escurecidas devido ao tempo ou ao método utilizado para a sua reprodução no papel, como é o caso da imagem de Castelao (figura 01) presente na dissertação de mestrado de Suárez Albán. Outras, como os gráficos utilizados neste mesmo estudo (figura 02), estão desbotadas ou até rasuradas e, por isso a importância de sua edição e tratamento. Para as imagens optamos por trabalhar com os originais, dada a raridade de algumas delas, enquanto para os gráficos preferimos refazê-los, respeitando sempre as respectivas diretrizes.

Figura 01. In: Suárez Albán (1979, p.22).

Sin título

Figura 02. In: Suárez Albán (1979, p.71).

 Sin título.png 

2.5.2 Textos 

Ao longo do processo de digitação, diversos problemas foram aparecendo, alguns bem simples (de caráter ortográfico, cuja solução adotada foi a sua respectiva atualização) e outros de formatação, que foram analisados caso a caso. Cada um foi problematizado e interpretado segundo o seu uso, forma e contexto. A tabela abaixo ilustra alguns exemplos das irregularidades mais comuns encontradas no corpus:

Original Área da mudança Modificação
lingüística Questões ortográficas linguística
contacto; dialectología contato; dialetologia
sócio-cultural sociocultural
espaçamento, fonte, tamanho, recuo etc. Questões de formatação *variável

2.5.3 Transcrição fonética 

Na dissertação de Suárez Albán também há uma tabela fonética utilizada para transcrever as falas de seus entrevistados. Como destaca Rodríguez (em artigo no prelo), coautor do projeto, a transcrição utilizada é fundamentalmente ortográfica, daí ser o vocábulo mórfico e não o fonético-fonológico, a unidade básica do estudo. Contudo, assinalamos por meio de transcrição fonética certos fatos linguísticos relevantes, em especial quando mostram interferências entre o galego e o português. Devemos ter em conta, portanto, que a autora nunca pretendeu fazer uma descrição fónica exaustiva dos materiais e que a escolha dos símbolos esteve condicionada pelos recursos mecanográficos disponíveis.

Transcrevemos:

  1. a) a expressão correspondente a vocábulos mórficos exclusivos do galego como [em’sebre] (pgt. típico), [ke’dow] (pgt. ficou), [‘fiso] (pgt.fez);
  2. b) o segmento fônico que revela uma interferência do galego, como fi[s]era, pa[rt]e, nó[s], m[ayr] f[ay] (pgt. mas faz), ou vários segmentos para não interromper a representação da unidade silábica, como [ceha’ba]mos em vez de [c]e[h]a[b]amos;
  3. c) o segmento fônico que revela uma flutuação na seleção de fonemas do português, como [‘azu] por acho.

Na edição, optamos por refazer a transcrição utilizando o Alfabeto Fonético Internacional (IPA). Rodríguez (em artigo no prelo) ainda salienta algumas dificuldades derivadas dessa modificação:

  1. a) A vogal anterior semifechada [e] e a vogal central semifechada [ə] transcrevem-se com o mesmo símbolo [e].
  2. b) A vogal central aberta [a] e a vogal anterior entre aberta e semi-aberta, que interpretamos como [ɑ], transcrevem-se com o mesmo símbolo [a].
  3. c) Os alófonos aproximantes das oclusivas sonoras [b], [d] e [g], que a autora define como “variantes posicionais com oclusão incompleta”, transcrevem-se com os mesmos símbolos [b], [d] e [g].
  4. d) Os alófonos palatalizados das oclusivas dentais, que a autora define como “variantes posicionais com diversos graus de palatalização”, transcrevem-se com os símbolos [tʲ] e [dʲ]. Embora saibamos que se está a referir a variantes africadas ([ʧ], [ʤ]) com elemento oclusivo mais ou menos marcado, achamos preciso preservar a fidelidade à definição da autora e colocar o símbolo [ʲ] do Alfabeto Fonético Internacional para indicar esses “diversos graus de palatalização”.
  5. e) O símbolo [ ͜ ], que serve para marcar a formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte, foi suprimido, pois atualmente se encontra em desuso.

Destas revisões surge então uma nova tabela de transcrição, contendo os símbolos originais e os seus respectivos correspondentes do IPA:

Quadro de correspondências entre símbolos fonéticos

VOGAIS
i vogal anterior fechada

ex.: gal. e ptg. rio; gal. aprendín; ptg. doce

i
vogal anterior semifechada / vogal central semifechada

ex.: gal. e ptg. poder; gal. xente, entón

e
vogal anterior semia-berta

ex.: gal. e ptg. festa; gal. alguén

ɛ
a vogal central aberta / vogal anterior entre aberta e semi-aberta

ex.: gal. e ptg. casa; gal. irmán

a
vogal posterior semi-aberta

ex.: gal. e ptg. porta

ɔ
vogal posterior semifechada

ex.: gal. e ptg. hoxe / hoje; gal. lobo, non

o
u vogal posterior fechada

ex.: gal. e ptg. outubro; gal. fun; ptg. portu

u
SEMIVOGAIS OU SEMICONSOANTES
y anterior fechada / palatal sonora

ex.: gal. e ptg. mais, cantei; cast. ocasión

j
w posterior fechada / velar sonora

ex.: gal. e ptg. meu, água

w
CONSOANTES
p oclusiva bilabial surda

ex.: gal. e ptg. porto

p
b oclusiva bilabial sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. baixo; gal. verde; gal. e cast. estábamos

b
m bilabial nasal

ex.: gal. e ptg. mar

m
t oclusiva línguo-alveolar surda

ex.: gal. teño, tiña; ptg. tenho

t
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. tinha, gente

d oclusiva línguo-alveolar sonora / variante posicional de oclusão incompleta d
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. disse, verde

n línguo-alveolar nasal

ex.: gal. e ptg. nariz; gal. ninguén

n
linguopalatal nasal / variante posicional com diversos graus de palatalização

ex.: gal. tiña, teñen; ptg. ninho

ɲ
k oclusiva linguovelar surda

ex.: gal. e ptg. carro, quero

k
ɡ oclusiva liguovelar sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. gordo, agora

ɡ
ŋ linguovelar nasal

ex.: gal. corazón (+ e paragógica)

ŋ
f fricativa labiodental surda

ex.: gal. e ptg. festa

f
v fricativa labiodental sonora

ex.: gal. e ptg. vaca, livre

v
θ fricativa interdental surda / variante posicional sonora

ex.: gal. e cast. veces; gal. voz meiga

θ
s fricativas predorso e ápico-alveolares surdas (co-variantes do galego e do castelhano)

ex.: ptg. e gal. sal, negocio; gal. soidades, nós

s
z fricativa línguo-alveolar sonora

ex.: ptg. casa azul, existit

z
fricativa linguopalatal surda

ex.: gal. xóia, fixo; ptg. chegar

ʃ
fricativa linguopalatal sonora

ex.: ptg. já, gente, acarajé

ʒ
africada linguopalatal surda

ex.: gal. chegar, chamar, falaches

ʧ
l lateral línguo-alvaolar

ex.: gal. e ptg. lugar; gal. último

l
lateral linguopalatal

ex.: gal. filloga; cast. gallego

ʎ
r vibrante simples línguo-alveolar

ex.: gal. e ptg. dinheiro; gal. serán

ɾ
vibrante múltipla línguo-alveolar

ex.: gal. rapaza, carro

r
h fricativa faríngea surda (co-variante da oclusiva velar sonora do galego e co-variante da vibrante múltipla línguo-alveolar do português)

ex.: gal. gañar, agora; ptg. rua, carro

ħ
x fricativas velar e uvular surdas (co-variantes do castelhano)

ex.: cast. Jesús, gente, dijo

x
OUTROS SÍMBOLOS
* fones não identificados *
ˈ indica sílaba acentuada, precedendo-a ˈ
[ ] delimitação da transcrição fonética [..]
͜ formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte de acordo com as regras de fonética sintática do galego  
(…) trecho suprimido (…)
(= ) tradução para o português, também indicada por (ptg. ) (= )
(RAP) emissão muito rápida de um segmento precedente (RAP)
(ENF) emissão em tom enfático de um segmento precedente (ENF)
(ININT) trecho ininteligível (ININT)
(SUPERP) trecho de audição prejudicada pela superposição da fala do documentador ou de terceiros (SUPERP)
(RINDO) emissão acompanhada de riso; do mesmo modo, outras expressões ou gestos (RINDO)
DOC. documentador DOC.
INF. informante INF.
INTERL. um terceiro participante do inquérito INTERL

2.6 RESULTADOS PARCIAIS

Das produções selecionadas para o corpus, já estão finalizadas, quanto à digitalização e digitação: Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia; o Romanceiro ibérico na Bahia; a comunicação: Ser galego na Bahia: ontem e hoje, apresentada no Simpósio de Língua e Imigração na América Latina e o livro Vozes do ouro: a tradição oral em jacobina. O projeto foi apresentado em muitos eventos, destacando-se o I Encontro Brasileiro de Estudos Galegos (I EBEG), pela difusão internacional que teve e pela participação de grandes investigadores da Galícia. Esperamos conclui-lo no ano de 2016 ou 2017, e com a sua eventual publicação em formato digital e físico.

2.7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante um largo período, o CEG desenvolveu diversas atividades relacionadas ao galego, sob a coordenação de Rosário Albán. Muitos artigos e ensaios de cunho linguístico e cultural foram apresentados e também uma peça de teatro, Os vellos non deben de namorarse, a primeira e até o momento única peça apresentada totalmente em galego no Brasil. Porém, com o passar dos anos o CEG, já sob a forma de CELGA, teve suas atividades consideravelmente reduzidas com o afastamento da Profa. Albán. Sucessivas trocas de coordenadores e um período sem direção fizeram com que este que fora um grande e producente instituto quase caísse no esquecimento. Durante o ano 2013, por exemplo, produziram-se numerosos problemas administrativos com relação a oferta de disciplinas de galegos na UFBA, o que acabou obrigando que os alunos se inscrevessem durante períodos extraordinários de matrícula. Mas o novo quadro de gestores do CELGA e o estabelecimento de uma boa relação com os diferentes órgãos da universidade e de outras instituições nacionais ou estrangeiras possibilitaram a superação dessas e de outras adversidades. Desde então, além das matérias de galegos que passaram a ser disponibilizadas no sistema da universidade, muitos eventos relacionados à língua galega foram ofertados pelo centro. Amostras de filmes, seminários e simpósios de linguística e filologia, produções de artigos, projetos de pesquisa etc., são apenas alguns exemplos das atividades elaboradas muito recentemente pelo CELGA.

Sem sombra de dúvida, a opera omnia da fundadora figura entre os principais projetos deste núcleo, que vem se destacando na revitalização dos estudos galegos na Bahia. Esperamos que, com esse breve escrito, tenhamos oferecido uma pequena amostra da vitalidade que vem sendo recuperada no que concerne à ponte sociocultural, histórica e linguística entre a Galícia e Bahia.

REFERÊNCIAS

BASSETTO, Bruno Fregni. (2005). Elementos de Filologia Românica. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 43.

BOULLOSA, Juan; RODRÍGUEZ, David; LOPES, Mailson. (2015). Um tesouro a ser revelado: o projeto opera omnia de Rosario Suárez Albán e as suas derivações. In: EBEG — ENCONTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS GALEGOS, 1., 2015. Salvador: Programación e Resumos… Salvador: EDUFBA. p.34-35.

CORRÊA, Roberto Lobato. (1997). Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

[1]Idealizado e posto em andamento a partir da atuação conjunta (e profícua parceria acadêmico-institucional) dos Professores David Rodríguez e Mailson Lopes, respectivamente, Ex-Leitor e atual Coordenador do CELGA.

[2]Seção essencialmente baseada no estudo Notícia de um projeto de edição da opera omnia de Rosário Suárez Albán, de autoria de Lopes & Rodríguez (no prelo), apresentado por eles no VII Seminário de Estudos Filológicos (VII SEF), na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em agosto/2014.

[3]http://www.pergamum.bib.ufba.br/pergamum/biblioteca/index.php.

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