O ‘Xabarín Club’ e a política linguística que deu resultado

Ghabriel Ibrahim Ermida

Aluno de Introdução à Cultura Galega e Literatura Galega I na UERJ

Ao longo do segundo semestre de 2015 entrei em contato pela primeira vez com o galego, língua falada na Galícia -no noroeste da Península Ibérica- desde o século IX, e também com a própria cultura galega. Embora esse idioma tenha sido de fato aquele que originou inicialmente a língua que nós falamos no Brasil, recebe pouca atenção em nosso país mesmo no meio acadêmico. Isso, porém, tem explicação: após a independência de Portugal do Reino da Galiza, no século XII, período no qual o idioma galego era falado igualmente na Galícia como em Portugal, o Reino galego se tornará parte do reino de Castela e entra assim em um período conturbado politicamente, o que acaba gerando uma série de medidas políticas de imposição do castelhano na Galícia por parte dos Reis Católicos.

Por um longo período o idioma e a cultura do povo galego foram desprestigiados, situação que começa a mudar de modo relevante apenas no século XIX com um movimento intelectual conhecido como Rexurdimento. O início do século XX, porém, não trouxe uma melhora significativa na situação da língua galega: com a Guerra Civil espanhola e depois o Franquismo, tal idioma seria mais uma vez deixado num segundo plano. Contudo, após o fim do período da ditadura na Espanha, começam aos poucos a surgir políticas com o intuito de reerguer algumas identidades marginalizadas durante esse período sombrio, incluindo aí a identidade galega. Pretendo, neste breve artigo, abordar a relevância de um programa da Companhia de Rádio e Televisão da Galícia (CRTVG), canal surgido em 1984, na recuperação desta identidade. O programa em questão é o “Xabarín Club”.

Segundo dados do IGE, houve clara redução dos falantes de galego e aumento dos falantes de castelhano nos últimos 30 anos. Isso tem, é claro, relação com a política linguística de baixa intensidade adotada pelo governo galego desde os anos 80. Mas causa preocupação aqueles que enxergam especialmente o fato de que, segundo o mesmo instituto, quase a metade das crianças de 5 a 14 anos utiliza sempre o castelhano para se comunicar na atualidade(IGE 2013), algo que nunca tinha acontecido na história da Galícia.

Isso decerto ocorre por não se sentirem ligados ao seu idioma de maneira significativa. De acordo com alguns estudos, aqueles que conviveram diariamente com o “Xabarín Club” na TVG, especialmente nos anos 90 e começos dos 2000, era exatamente isso que a esse programa proporcionava. Segundo Marcos Perez Pena, que escreve para o jornal Praza Pública “Xabarín era moito máis que un simple programa de televisión, provocou un impacto xeracional que aínda perdura e converteuse se cadra na mellor ferramenta de normalización lingüística entre unha mocidade maioritariamente castelanfalante.”

E a razão deste sucesso deriva certamente do fato de que a proposta do programa era não a apresentação do galego como algo que precisa de proteção, tampouco a apresentação de situações construídas com o intuito de incutir o idioma nos mais jovens, como cartilhas ou algo do tipo, mas sim inserir o galego em um espaço de lazer que tem capacidade de dialogar diretamente com o contexto do período. Não era visto como uma faixa educacional, não “pregava” o galego, e justamente por isso cumpria com honras o objetivo da TVG, isto é, a “promoção, difusão e impulso da língua galega”: conseguia criar laços afetivos entre os espectadores e a língua, algo fundamental se levarmos em conta a inevitabilidade do contato com o castelhano no local.

Na infância é desenvolvida a autoimagem, o aprendizado de línguas se dá de maneira mais fácil e há a apreensão de padrões básicos de comportamento. Além do mais, tende a ser um período nostálgico, mesmo levando em conta boa parte dos conflitos intra e interpessoais que ocorrem durante o período. Assim, os laços afetivos criados no período tendem a se manter. Isso é muito bem ilustrado por Jon Amill no texto já citado de Marcos Perez Pena. Jon afirma: “Para min a miña infancia e o Xabarín Club son unha mesma cousa. Aínda hoxe, cando escoito sintonía do Xabarín, teño a sensación de que en calquera momento vai vir a miña nai co bocata de nocilla“.

É claro também que a relação familiar é fundamental para o desenvolvimento de laços com a língua galega, mas é também inegável que, a partir do momento em que há um maior entendimento acerca de conceitos como o certo e o errado, e há também o início de uma tentativa de demonstrar sua individualidade na sociedade, essa relação não é o único item capaz de influenciar as crianças. Um personagem virtuoso, mas ao mesmo tempo falho e por vezes inexperiente como Goku, de Dragon Ball, grande sucesso do programa, é capaz de fazer com que as crianças se identifiquem e ao mesmo tempo se inspirem. O fato de verem esse herói falando galego com certeza pesa a favor do idioma, embora a animação não tenha em si grande relação com a cultura da Galícia. Cito novamente o artigo de Marcos Perez Pena para ilustrar a situação: “cando apareceu o Xabarín, de súpeto, vías cantar as cancións do Xabarín no parque e nas escolas, vías os nenos xogando ao Son Goku gritando “Onda vital… XA!”

Não só de desenhos era feito o “Xabarín Club”: era rotineira a apresentação de videoclipes com bandas novas que não só cantavam em galego, mas cantavam para os galegos. As letras de muitas das músicas apresentadas eram repletas de expressões idiomáticas e referências à vida na Galícia, e os estilos musicais eram contemporâneos. Algumas bandas, como “Diplomáticos de Monte Alto”, incorporavam elementos típicos da música galega como a gaita em seu repertório. A música sempre foi elemento importante na socialização e na formação de grupos sociais. O chamado Rock Bravú, estilo de música predominante no Xabarín Club, foi capaz de atingir diferentes grupos com seu estilo irreverente e ao mesmo tempo ligado à terra, e por isso foi muito influente na geração que cresceu com o programa.

Cabe lembrar também que eram apresentados artistas falantes do português de várias partes do mundo, como Kussondulola, grupo angolano de reggae. Creio que a recuperação do orgulho em usar o idioma galego passa pelo conhecimento da cultura relacionada ao português, pois esta é uma língua imensamente relevante no contexto global e com relação intensa com o galego. Assim, concordo com a mestra Nívea Guimarães Doria, em artigo publicado neste mesmo site Quilombo Noroeste, quando afirma quea corrente autonomista, ao isolar o galego de uma língua que lhe é praticamente transparente como o português, acaba por relegá-la a mero dialeto dentro de território espanhol, de maneira a legitimar o sentimento de inferioridade que muitos de seus falantes podem trazer. Por esse motivo, é chamada de “isolacionismo” por seus opositores reintegracionistas. O galego seria uma língua falada por um povo ruralista, ignorante e de um idioma hermético, que pode até ter sua semelhança com outras línguas dos arredores, porém algo que não apenas identifica, como alija seus falantes de um contexto mais internacional.”

Apesar disso, e de parecer claro para mim que uma política que procure isolar o galego do seu espaço internacional pode estar está fadada ao fracasso (pensando o sucesso como um reestabelecimento do galego como idioma da esmagadora maioria dos habitantes da Galícia, como vem se tornando o catalão na Catalunha), não sou particularmente afeito ao reintegracionismo. Se já há aqueles que defendem, no cenário linguístico internacional, uma maior separação entre o português falado em Portugal e aquele praticado no Brasil, me parece exagero afirmar, mesmo com todas as semelhanças, a existência do idioma “portugalego”. Contudo, penso ser fundamental a inserção de elementos lusófonos no cotidiano galego, bem como pensa o doutor Xoán Lagares, visto que seria fundamental para um maior entendimento da língua e da cultura do ponto de vista histórico, além de ser um contrapeso fundamental à castelanização corrente do idioma derivada da política linguística em vigor.

Por fim, gostaria apenas de deixar um fragmento de Xurxo Souto com o qual estou em total consonância, sendo importante atentar a relação intrínseca entre o que é expresso por ele e o que foi feito sobretudo durante a década de 90 pela faixa infantil da TVG:

A presenza do galego en espazos subvencionados onde aparece tratado dun xeito paternalista, como unha lingua que precisa de mimo e coidado, non axuda en nada a aumentar o seu prestixio. Cando, polo contrario, os contidos de maior interese agroman nos medios expresados nesta lingua, o triunfo na audiencia é total e o efecto de normalización inmediato.” (Souto 2008: 201).

Referências:

CID, A. O patrimonio arroutado: O Rock Bravú e a pulsión normalizadora da “tropa da tralla”.

PENA, M. P. A potencia da ‘Xeración Xabarín’. Disponível em http://praza.gal/cultura/3868/a-potencia-da-xeracion-xabarin/. 22/11/2015

LOMBAO, D. O Xabarín Club agora dá a ‘bienvenida’. Disponível em http://praza.gal/movementos-sociais/6566/o-xabarin-club-agora-da-a-bienvenida/ 22/11/2015.

LAGARES, X. XOÁN LAGARES: “SÓ TEMOS A GANHAR COM O CONTATO COM O PORTUGUÊS”. Disponível em: https://quilombonoroeste.wordpress.com/2015/11/18/xoan-lagares-so-temos-a-ganhar-com-o-contato-com-o-portugues/. 22/11/2015

DORIA, N. G. O REINTEGRACIONISMO GALEGO: REFLEXÕES ACERCA DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS DA GALIZA E SUA RELAÇÃO COM O BRASIL: Disponível em:< https://quilombonoroeste.wordpress.com/2015/08/06/o-reintegracionismo-galego-reflexoes-acerca-das-politicas-linguisticas-da-galiza-e-sua-relacao-com-o-brasil/> 22/11/2015

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