O feminino nas identidades brasileira e galega

Thayane Gaspar

Aluna de Literatura galega I, Lingua galega e Introdução à cultura galega na UERJ

Introdução

O nome Galícia tem a raiz “Gal” (encontrada também em Portu-Gal) que denúncia sua origem do corpus linguístico celta e tem a ver com o radical “cale” encontrado em outras denominações indo-europeias. Para o autor Fuco O’ Soer, esse radical é oriundo do termo que designa a Deusa Mãe celta, “Cal-leach”, já que os povos romanos tinham o costume de nomear povos conquistados com base no nome de seus deuses.

É por esse caminho que a identidade de Galícia começa a se formar, e toda a história, origem, e cultura parecem formar uma Galícia dotada de mitologia e elementos que lhe dão um aspecto feminino, a começar pela feminilidade que carrega no nome.

Buscando refletir sobre as relações e criar pontes entre Brasil e Galícia, esse trabalho comparará a imagem feminina galega que muito se assemelha com o mito de formação do Brasil expresso na obra Iracema de José de Alencar.


Origem celta

Muitos autores e livros de história não ousam reconhecer a origem celta em Galícia, mas não se pode ignorar que o legado celta está espalhado pelo território galego, enriquecendo ainda mais sua cultura.

Ainda há rituais, crenças, conjuros, construções, relações com a natureza, inscrições em pedras, comidas e símbolos que são resquícios dessa cultura.

E é a partir dos celtas, que a imagem feminina de Galícia começa a se delinear. Primeiramente pela origem do nome que estreita ainda mais as relações celtas e galegas. E o segundo e mais importante é o papel social da mulher nas tribos celtas.

A figura da mulher na sociedade celta é referência tanto religiosa quanto social, pela divergência em relação às demais culturas. A mulher celta tinha independência para ter bens e riquezas (se fossem maiores que de seu marido, ela se tornava chefe do casal), escolher o marido, e ter a opção do divórcio. Durante o ritual de casamento, a mulher representa o poder da Deusa e podia conceder poderes aos reis e aos heróis.

Do ponto de vista religioso, a mulher celta é considerada um aspecto vivo da criação por causa da menstruação (a semelhança com o processo de vida, morte e renascimento e com as fases da Lua) e da capacidade de gerar outra vida. Dergflaith é o nome celta dado à menstruação e significa “soberania vermelha”, assim como os mantos vermelhos e soberanos dos reis e representa em ambos os casos as mesmas coisas: a vida, o poder e a soberania Durante o período menstrual, a mulher ou se isolava ou participava da decisão em relação aos problemas da tribo.

A mulher tinha um papel igualitário e o mesmo direito de opinar em relação aos homens. Como se trata de um povo extremamente religioso, no qual a religião não é separada de nenhum aspecto social, a figura da Deusa-Mãe encontrada na mulher garantia a esse gênero os direitos que atualmente são exigidos pelas mulheres modernas. Com a distância do tempo entre a época que os celtas residiram na Europa (1800 a 1500 a.C) e a cultura atual, o legado celta se perdeu, embora algumas sementes da força feminina tenham encontrado um solo fértil em Galícia como será apresentado nos próximos itens.

Simbologia

A simbologia feminina da Galícia atual ainda está ligada com a cultura celta e a natureza, e serão ressaltados elementos significativos como: as águas (a chuva frequente na Galícia e o mar que a cerca), solo/terra, flores e frutos.

Apesar do clima oceánico no território galego e um breve período de seca durante o ano, o território possui um índice de pluviosidade muito significativo, ou seja, Galícia é um lugar que chove muito. E a água tem um significado muito bem delineado e de extremo valor na cultura celta importante para reforçar a imagem feminina do lugar.

A água e os outros meios aquáticos segundo a ideologia religiosa representavam o portal para o outro mundo, além de terem poderes mágicos e curativos. Segundo o portal Tempo de Avalon “o Mar é a água que está em nós, representa o Portal para o Outro Mundo, que sacia a sede e nos dá a vida – sem a água tudo perece e morre.” É portanto, ligado às mulheres pela dádiva de dar a vida.

Os celtas escolhiam sua localização baseados no mar, primeiro por conta do clima propício para o desenvolvimento e segundo por conta de seus rituais envolvendo a água. O autor Mircea Eliade justifica o valor sagrado das águas em muitas tradições por conta do seu papel como matriz e fonte de toda existência.

Assim como a mulher celta em seu ciclo menstrual passa pelas etapas da vida, a água também é vida, morte, criação e destruição. A água assume a simbologia de agente fecundante, “conservadora de vida como o útero materno. A água, então, fecunda, gesta, gera, alimenta e até mesmo, destrói.” É também na água que elementos femininos, sedutores e traiçoeiros aparecem, como é o caso das sereias e as ninfas, demonstrando a dualidade do símbolo e até do papel da mulher na sociedade (ora sagrada, destruidora, profana, sedutora, pecadora. Nenhum adjetivo novo dado às figuras femininas icônicas universais).

O autor Bernard Sergent traz em seus estudos a figura da água como um ser animado, ligado ao feminino por conta do fator fecundante. E reforça sua ideia demonstrando a quantidade de nomes femininos dados aos rios europeus (as deusas celtas geralmente são associadas aos rios, e eles levam seu nome)

Para a mitologia céltica, a água articula às virtudes e às origens. É na água que acontecem as transformações da vida, e sua geração. Nos relatos irlandeses a associação calor/fogo/homem e o frio/água/mulher ressalta essa simbologia. A psicanálise comprova essa correlação e traduz sonhos com pessoas saindo do mar ou da água com o momento do parto. Na mitologia, o nascimento de muitos deuses é retratado como suas figuras saindo/nascendo das águas.

Não é à toa que em relatos mitológicos e nas cantigas medievais, as mulheres estejam sempre próximas a algum elemento aquático e sempre descritas como belas. A água também é fonte de conhecimento, dialogando com o símbolo que representa o elemento feminino chamado Espelho de Vênus, pois o espelho é um elemento de vaidade, de conhecimento, associado ao diabo, e muitas vezes também chamado de portal.

A figura do feminino indissociavelmente do elemento água aparece em outras culturas como a brasileira. Iara é uma sereia que atrai homens para o mar, lugar de onde nunca voltam. Ela é conhecida como “mãe das águas”, e sua história está intrinsecamente ligada com a morte (um dos princípios da criação pelo qual a água é responsável) já que ela foi assassinada e após virar metade humana e metade peixe, costuma matar os homens. Exatamente como a palavra africana “calunga” que é a mesma palavra para “mar” e “morte”. Essas duas culturas partilham um grande exemplo, o orixá afro-brasileiro, Iemanjá, conhecida como rainha/deusa dos mares, seu nome significa “mãe cujos filhos são peixes”.

Iemanjá, rainha/deusa dos mares, seu nome significa “mãe cujos filhos são peixes”
Iemanjá, rainha/deusa dos mares, seu nome significa “mãe cujos filhos são peixes”

A mulher parece ser o espelho da natureza, por isso a personificação da natureza é denominada como “Deusa-mãe”, a maternidade, exclusiva da mulher a torna imprescindível, assim como a natureza é imprescindível para a criação e manutenção de todo o mundo. A terra faz esse papel por ser capaz de imitar uma gestão como faz com a semente. A terra é demonstração máxima do poder feminino. Dentro desse grande tópico, destaca-se a simbologia da flor.

A flor, segundo a psicanálise e outras correntes, é entendida como o signo para órgão genital feminino, é lido também como pureza e virgindade. Por isso, a perda da virgindade é chamada de “defloração”. Há uma forte conotação sexual pelo fato das flores sofrerem polinização, o que seria equivalente ao ato sexual, já que o vento assume a figura masculina em muitas culturas, como a grega, na qual o deus do vento é Zéfiro.

O ato sexual leva à geração de outro ser, que pode ser entendido como os frutos das árvores. Na literatura da Idade Média, cantigas faziam referência a mulheres grávidas através da imagem de “avelaneiras froridas”, “milgranadas”, ou seja, grávidas.


Literatura

A literatura também é uma forma viável para se entender a cultura de um povo, e para falar do feminino e sua representação em Galícia, precisa-se conhecer a figura de Rosalía de Castro, a figura universal da literatura galega e pioneira no feminismo.

download
Rosalía de Castro

O fato de Rosalía ser uma das poucas mulheres nesse período a ter educação, escrever sobre o cenário rural e tudo que concerne ao povo e ter sido marginalizada, mostra que as sementes da cultura celta não prosperaram até o século XIX. Entretanto, há muitos aspectos femininos a serem considerados em sua obra, ainda que a autora tenha se desvencilhado dos temas comuns escritos por mulheres (paisagem, amor romântico e religião).

Em 1857, Rosalía publica seu primeiro livro de poesia chamado La Flor, no qual ela faz uso da natureza para construir a expressividade do poema e codificar suas mensagens. O título é dotado de significado e rende muitas interpretações, pois a flor carrega uma bagagem simbólica já discutida, e dentro do contexto no qual a escritora produz sua literatura, La flor pode ser entendida uma crítica às mulheres que só produzem textos sobre temas fúteis e por Rosalía ser diferente o título poderia se tratar uma autorreferência, principalmente pelo artigo que acompanha a palavra flor, porque particulariza a tal flor; uma possível interpretação associando vida e obra da autora é a flor como a inocência e feminilidade que se perde no mundo de injustiças, abandonos e pouco favorável às mulheres no qual Rosalía luta através da literatura. Ou possivelmente, o título pode se referir à tentativa da autora em fazer “florescer” uma literatura galega para os galegos.

Em 1859, é publicada sua novela Hija del mar, a qual novamente traz no título outro elemento rico em significado para o feminino. A história tem como tema principal as mulheres, e conta como personagem uma mulher que tem sua vida marcada por tragédias. O enredo da obra enobrece ainda mais o signo do mar e do feminino, a partir do pensamento de que o mar é salgado e o sal possui uma conotação sexual por conta do corpo humano que também possui essa característica. E não só sexual, o suor, as secreções e principalmente as lágrimas, sendo está última o encaixe perfeito entre signo e obra.

No famoso poema em que Rosalía clama à Virgem de Paloma e pergunta que tipo de alma tem por ser diferente das mulheres que cantam sobre flores e pombas, a autora tem consciência da sua diferença, mas talvez não do seu valor dentro da literatura galega e no resgate da forma feminina que foi enterrada junto com a cultura celta.


Literatura brasileira e o feminino

A obra brasileira escolhida para o elemento feminino ser des-coberto é o romance do século de XIX, Iracema de José de Alencar. Apesar de Brasil e Galícia terem histórias diferentes, os dois vivem no século XIX um momento de construção de identidade: Galícia deseja ser dona de sua própria cultura/literatura em relação à Espanha, enquanto o Brasil recém independente tem o mesmo desejo em relação a Portugal.

Iracema, de José de Alencar
Iracema, de José de Alencar

Iracema foi escrito com um propósito claro: explicar o mito de criação do Brasil através de um argumento histórico que é a chegada dos portugueses no Ceará e o nascimento do primeiro brasileiro por meio de relações entre a índia Iracema e o guerreiro português Martim.

Assim como acontece com Galícia, a cultura que origina o Brasil, a cultura indígena, é extremamente ligada à natureza. Embora a mulher indígena não tenha a força da mulher celta ou sua independência, o que chama a atenção é a visão da esterilidade feminina como castigo divino, reforçando a ideia da maternidade e enfatizando o único papel da mulher na tribo: trabalhos domésticos e zelo pela família.

Iracema é uma índia bem diferente, pois ela não é submissa nem ao pai, chefe da tribo, ou aos homens guerreiros, cujo grupo seu irmão faz parte. Essa índia em particular se assemelha à mulher celta, pela força e importância dentro da comunidade a qual faz parte e seu relacionamento com a natureza, na qual fazem parte dessa relação os seres vivos, como sua ave de “estimação”.

Nesse contexto histórico, ainda que independente, os europeus enxergam os novos países, ex colônias, como um todo. Brasil é a América, e a América é o Brasil até o nascimento da criança da história. A partir desse enredo, os elementos femininos presentes no Brasil do século XIX começam a ficar aparentes.

Estudioso enxergam no nome indígena Iracema o anagrama de América, portanto o continente ganha as formas femininas e tudo que vem junto dela. Iracema representa a selvageria, a pureza, a incivilidade e o mistério que as terras brasileiras pareciam ter diante dos olhos portugueses. Ao mesmo tempo, essa mulher é sedutora, e possui uma cultura e não só a selvageria que desperta o interesse português.

Esse interesse português nas terras brasileiras é romantizado no livro e transformado em um amor entre homem e mulher. Dessa transformação surgem signos como o fato de o Brasil representar a mulher, e por que a mulher? E fazer o leitor refletir sobre o papel dependente e submisso do país nessa época, enquanto a figura do homem é encaixada no português por sua coragem conhecida por desbravar os oceanos, pelo histórico de guerras e poder que Portugal tinha embora já começasse a perder. Logo a figura feminina é mal compreendida, é incontrolável, é indissociável do sexo. Enquanto o homem tem a bravura, a força e a civilidade.

A obra explora ainda mais a figura feminina, anunciando um tímido triângulo amoroso no qual participam Iracema, Martim e a esposa portuguesa que Martim deixou em Portugal. Essa esposa, descrita como branca, loira de olhos claros contrastando com a índia de pele escura, olhos e cabelos negros, representa outra figura feminina: a terra portuguesa. O triângulo expressa a cisão que acontece no coração português que se divide entre a curiosidade da nova terra e a saudade da sua terra de origem.

O mito de formação tem como sustentáculo o nascimento do primeiro brasileiro, trazendo consigo uma rede de significados já que a pessoa responsável pelo nascimento dessa figura só poderia ser uma mulher. E é aí que a superioridade do feminino toma conta da trama, justificando porque o Brasil assume a imagem de uma mulher na literatura: porque só as mulheres podem gerar vida. E naquele momento fértil, o Brasil precisava ser uma mulher e gerar brasileiros, literatura brasileira, cultura brasileira e todo material mais necessário para a construção de uma identidade nacional.


Conclusão

Embora diferentes culturalmente, Brasil e Galícia sempre parecem possuir um ponto de convergência que os aproxima. Ambos têm enraizados em sua origem culturas ligadas à natureza e que possuem um tratamento diferente em relação às mulheres comparando-as com as demais culturas e com a atualidade. Os tempos, contextos, e cultura mudaram, mas há laivos de símbolos, signos e significados do feminino que enriquecem a história por trás da história. Seja pelo mar, ou pela floresta, a força da mulher parece ter sido emprestada para as identidades brasileira e galega.

Referências bibliográficas

IGREJAS. Luís Magarinhos. Sobre a origem e significado das palavras Portugal e Galícia. Galiza, Fevereiro de 2005.
COSTA, Ana Elizabeth Cavalcanti da.
Celtas: magia, espiritualidade e sabedoria. Disponível em: < http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3725:celtas-magia-espiritualidade-e-sabedoria&catid=80:mythos >
História da sociedade celta. Disponível em: < http://www.historiadomundo.com.br/celta/sociedade-celta.htm >
OLIVIERI, Filippo Lourenço.
Os celtas e os cultos das águas: crenças e rituais. Disponível em: < http://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair/article/viewFile/559/483 >
SENEWEEN, Rowena Arnehoy.
Símbolos Celtas. Templo de Avalon. Disponível em: < http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=3 >
Lenda da Iara. Sua Pesquisa. Disponível em: < http://www.suapesquisa.com/folclorebrasileiro/lenda_iara.htm >
EVARISTO, Conceição.
África: âncora dos navios de nossa memória. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/viaatlantica/article/viewFile/51689/55754 >
SOUSA, Rainer.
Iemanjá. Disponível em: < http://www.brasilescola.com/religiao/iemanja.htm >
TAÍDE, Glauber.
Freud explica: por que as mulheres gostam de flores?. Disponível em: < http://www.rosasreijers.com.br/noticias.php?id=207 >
CASTRO, Rosalía de.
La flor. Disponível em: < http://severitorres.org/ampa/joomla/images/Biblioteca/C/castrorosalia/flor%20la.pdf >
Vida e obras de Rosalía de Castro. Disponível em: < http://www.rosaliadecastro.com/web_f.htm >
ROZIN, Arnei Júnior; LAZZAROTTO, Elizabeth Maria; SOUZA, Alcy Aparecida Leite; MEZA, Sheila Karina Lüders; BARATIERI Tatiane; VIDAL, Kiussa Taina Geteins; CINTRA, Hans Doner Eric & DELL’ARINGA, Fernando Kami. Aspectos culturais da mulher indígena Guarani. Disponível em: < http://eventos.uepg.br/seminariointernacional/agenda21parana/trabalho_cientifico/TrabalhoCientifico007.pdf >

 


Anúncios

Uma opinião sobre “O feminino nas identidades brasileira e galega”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s