Galícia e Nordeste: Uma comparação de identidade através da música

Jean de Oliveira Quinelato

Aluno de Língua Galega na UERJ

É possível dizer que nos dias de hoje o termo “documento’ não se limita mais somente a algo escrito em um papel, mas algo que vai além disso, já que superada essa visão, o documento pode ser um filme, uma música, uma pintura, etc.. José Geraldo de Moraes explica que “a partir de uma perspectiva interdisciplinar, como as relações entre história, cultura e música popular podem desvendar processos pouco conhecidos” (MORAES, 2000:203). Com isso em mente, o seguinte trabalho tentará analisar em algumas músicas do grupo galego Luar na Lubre e de Miro Casabella aspectos da Galícia, no que se refere a identidade do povo e temas pertinentes a essa terra, contrapondo os mesmos temas no cenário musical brasileiro.

O grupo Luar na Lubre foi criado em 1986 na cidade de A Coruña e segundo site do grupo:

O traballo que desenvolve a banda está enfocado dende a óptica de entender que a música é un dos factores culturais máis importantes para a afirmación do dereito á diferenza enriquecedora do pobo galego. O grupo pretende que na Galiza predomine a súa cultura aínda que non rexeita influenzas que melloren a súa proposta sen deturpar o carácter central do seu proxecto.” ¹

O grupo se inclui na vertente musical conhecida como folk e utiliza instrumentos típicos galegos como gaitas, acordeón e zanfoña. Além de seu grande acervo de músicas instrumentais, também há uma grande variedade de músicas com voz, em sua grande maioria regravações de músicas tradicionais da galícia ou poemas musicados e que através de uma análise de suas letras é possível identificar elementos da identidade desse povo.

O já citado Moraes ressalta em seu artigo três aspectos que considera relevantes para se refletir ao se trabalhar com a canção popular: “a linguagem da canção, a visão de mundo que ela incorpora e traduz, e, finalmente, a perspectiva social e histórica que ela revela e constrói” (MORAES, 2000:218).

As músicas que serão analisadas aqui são “O meu país” e “Desterro”, ambas releituras do grupo Luar na Lubre das músicas de Miro Casabella. O músico, nascido em 1946, integrou o coletivo “Voces Ceibes” durante a ditadura franquista e foi um grande difusor da língua galega, participando ainda do grupo DOA, além de sua carreira solo. A primeira a ser analisada é a música “O meu país”, de 1977.

Luar na lubre
Luar na lubre

O meu país/ é verde e neboento
É saudoso e antergo,/ é unha terra e un chan.
O meu país/ labrego e mariñeiro
É un recuncho sin tempo/ que durme nugallán.

Q quece na lareira,/ alo na carballeira
Bota a rir.
E unha folla no vento/ alento e desalento,
O meu país.

O meu país/ tecendo a sua historia,
Muiñeira e corredoira / agocha a sua verdá

O meu país/ sauda ao mar aberto
Escoita o barlovento/ e ponse a camiñar

Cara metas sin nome/ van ringleiras de homes
E sin fin.
Tristes eidos de algures,/ vieiros para ningures,
O meu pais.

O meu país/ nas noites de invernía
Dibuxa a súa agonía/ nun vello en un rapaz.
O meu país/ de lenda e maruxias
Agarda novos días/ marchando de vagar.

Polas corgas i herdanzas
Nasce e morre unha espranza/ no porvir.
E unha folla no vento/ alento e desalento
O meu país. ¹

A canção mostra alguns aspectos sociais e geográficos da Galícia. É perceptível na letra imagens frequentes quando se pensa nela, primeiramente as duas profissões mais características tradicionalmente, o do agricultor e do pescador, e o carvalho, árvore típica da Galícia. Escrita em 1977, a letra canta um país sofrido não só, simbolizado pela agonia do velho, no passado, mas também no agora e no futuro, sem grandes esperanças no porvir.

Miro Casabella lança essa música logo após o fim do regime franquista, e se utilizando o que Moraes escreve, a visão de mundo que o músico traduz na letra da música é de uma Galícia, mesmo após o regime ditatorial, com poucas esperanças no futuro, seguindo em um ritmo lento, tentando se reerguer.

“Eran uns anos cheos de tristura para min, lonxe da casa e da terra, sentíame como nun desterro do que sempre quería fuxir. Anos duros, faltos de liberdade e cunha lingua e cultura marxinada e sometida. Só as cancións como un paxariño me achegaban á miña querida terra”²

Esse comentário é de Miro Casabella sobre o ano de 1966, quando escreveu “Desterro” em Barcelona, longe de casa.

Miro Casabella
Miro Casabella

Corre, voa o paxariño
levalle o meu corazón
pendorado no biquiño
dille que eu seu fillo son

corre, voa o paxariño
levalle o meu corazón
pendorado no biquiño
dille que eu seu fillo son

dille que eu quero volver
e de novo nas túas rías
nalgun espello me ver
quero outear as campiñas
arrencender teus airiños
antes que poida morrer

corre, voa o paxariño
levalle o meu corazón
pendorado no biquiño
dille que eu seu fillo son

dille que eu quero voltar
e de novo nas tuas rías
as maus e ialma a lavar
quero voltar branca flor
que neste desterro maldito
estou morrendo de amor

corre, voa o paxariño
levalle o meu corazón
pendorado no biquiño
dille que eu seu fillo son
dille que eu seu fillo son
dille que eu seu fillo son²

A música trata de um dos temas mais recorrentes e que permeia a vida dos galegos, a saída de sua terra. Seja indo em direção à própria Espanha, ou em direção à América, o tema permeia a cultura galega, o “desterro” se definiria por sair da sua terra em direção a outra, um exílio.

Na canção Miro demonstra que sente saudades de sua terra, que ficar longe dela, das “rias”, “campinas” e “airiños” é um sofrimento. Nas palavras dele anteriormente citadas, Miro ressalta a importância da música enquanto esteve “desterrado” em Barcelona, já que sendo sua cultura e língua marginalizada, eram as canções que o reconfortava.

Um outro ponto perceptível na música se refere ao retorno, sempre desejado. Apesar das dificuldades na terra, das poucas oportunidades ou de até mesmo da vida sofrida que algumas pessoas levam (ponto já destacado na primeira música), o desejo do retorno a terra natal é sempre enfatizado.

No cenário brasileiro a migração e o retrato visual da região são também abordados. A música seguinte é “asa branca” de Luiz Gonzaga:

Luiz Gonzaga
Luiz Gonzaga

Quando olhei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de prantação
Por falta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração ³

Luiz Gonzaga, cantor, compositor e sanfoneiro, nasceu em 1912 em Exu, interior de Pernambuco, e talvez seja um dos maiores nomes da música nordestina e “asa branca” uma das canções mais famosas do Brasil. Na música é perceptível algumas características regionais do sertão nordestino como a falta d’água, a má colheita e até mesmo aspectos sociais como a típica festa de São João.

Aqui fica visível algumas diferenças dessa região do Brasil com a Galícia, já que na música “o meu país” a Galícia é descrita como “verde e nevoento”, o oposto dessa música, que descreve o sertão como uma terra de seca, onde o verde é escasso (Quando o verde dos teus olhos se espalhar na prantação). Apesar das diferenças geográficas, diversos aspectos compartilhados entre ambas as culturas são encontrados nas músicas como a imigração pela dificuldade econômica, a relação dos dois povos com a terra e a imigração, tema esse que será tratado também na música “mitologia gerimum” do grupo carioca O Rappa.

Vou, vou, vou voltar
Prá casa de novo

Eu tive que vir só
Não pude trazer você comigo
Às vezes eu me sinto
Um exilado político
Por ser um gabirú
Não tão lesado assim
Gabirú, gabirú, gabirú eh!

Vou, vou, vou voltar
Prá casa de novo

Troquei poeira por fuligem
Fiz um pacto em São Cristóvão
O couro da zabumba
Guarda um pedaço

Do dia em que o suor virar alegria
E os olhos tocarem na mãe
Brincando de aliviar
Um pouco do tempo que se foi

A um passo do precipício
A verdade é tão dura
Quanto o azulão contou
E se eu pensar no toque
Valeu a pena

Vale o meu corpo vira-latas
Mais forte do que
Muito homem de pedigree
Vale um copo de cachaça
Pago de maneira decente

Vale a fé que freqüenta
A mitologia gerimum
De Padre Cícero a Frei Damião
Porque nem a segunda casa
É capaz de sarar
As lembranças do chão
Que me fez
Do chão seco e ingrato
Mas o chão que me fez

Vou, vou, vou voltar
Pra casa de novo
4

Essa é outra música que reforça a migração que é também no caso dos nordestinos, um tema recorrente. Sem dúvida se há algo que mais se assemelha em ambas as culturas é o “desterro”, o “exílio”, a mudança para uma outra terra. Na música d’O Rappa, assim como a de Luiz Gonzaga, se expressa o fato de que apesar de a terra ser “ingrata” e das dificuldades enfrentadas, a saudade da terra está sempre presente, assim como a vontade de retornar à ela (Porque nem a segunda casa é capaz de sarar as lembranças do chão que me fez, do chão seco e ingrato, mas do chão que me fez / Espero a chuva cair de novo pra mim voltar pro meu sertão).

Assim é possível encontrar um tema extremamente comum na música galega e na nordestina, e portanto pode-se ser dito que é um caráter cultural que perpassa ambas as culturas, a saudade da terra. É interessante perceber como culturas que talvez, de início, não têm nada em comum, compartilham esse sentimento tão forte de ligação com a terra natal. Talvez, através de uma pesquisa profunda da música popular galega e brasileira/nordestina, seria possível encontrar outros elementos da identidade desses povos aparentemente tão distantes geograficamente, porém unidos em diversos aspectos sociais e como já analisado aqui culturais. Afinal, primordialmente somos todos seres-humanos.

Referências bibliográficas:

MORAES, José Geraldo Vinci de. “História e Música: Canção Popular e Conhecimento Histórico. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 20, nº 39, p. 203-221. 2000. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01882000000100009&script=sci_arttext&gt; Acesso em: 9 de Dezembro de 2014 às 20:35.

Luar na Lubre [Internet]. Disponível em: <http://www.luarnalubre.com/&gt; Acesso em 9 de Dezembro de 2014 às 20:44.

¹ Luar na Lubre, “o meu país” [Internet]. Disponível em: <http://www.luarnalubre.com/letras_disco.php?cat=70&id=107&idioma=gl&gt; Acesso em 9 de Dezembro de 2014 às 20:44.

² Luar na Lubre, “desterro” [Internet]. Disponível em: <http://www.luarnalubre.com/letras_disco.php?cat=71&id=84&idioma=gl Acesso em 9 de Dezembro de 2014 às 20:44.

³Luiz Gonzaga, “Asa Branca” [Internet]. Disponível em: < http://letras.mus.br/luiz-gonzaga/47081/&gt; Acesso em 13 de Dezembro de 2014 às 21:59.

4O Rappa, “Mitologia Gerimum” [Internet]. Disponível em: < http://letras.mus.br/o-rappa/76106/&gt; Acesso em 13 de Dezembro de 2014 às 21:54.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s