Árvore sem raízes

Árvore sem raízes

Thayane Gaspar

Minha árvore genealógica não tem raízes. Eu não me sinto conectada ao passado, e acho que tudo bem quanto a isso, porque as raízes ficam dentro da terra e ninguém vai perceber a ausência delas.

Meus bisavós são portugueses, não os conheci, mas sei que eles estão em algum galho dessa árvore. Toda vez que eu prendo os cabelos para trás, em um coque, minha avó diz: “Você parece uma autêntica portuguesa quando prende o cabelo assim, igualzinha a sua bisavó.” Então eu solto os cabelos porque eu não me sinto portuguesa de forma alguma.

Uma vez assisti a um filme no qual uma adolescente descobre que é adotada e passa a vida inteira procurando saber de onde ela veio, não queria saber quem eram seus pais biológicos, mas de que lugar do mundo a curva do seu nariz vinha, de que raça pertenciam os cabelos ondulados, e que língua materna deveria falar seus lábios finos.

Não partilho da lusofobia que alguns brasileiros alimentam, também não sou daquelas pessoas que olham o horizonte em algum porto procurando por Portugal com um olhar de pena. Acredito que meu olhar demonstra distância em relação a eles.

Mas sem raízes na minha árvore, qualquer brisa a chacoalhava impiedosamente. E num dia qualquer, um fruto caiu dela. Provei-o apesar de parecer maduro demais para ser suculento, e me espantei ao sentir um gosto familiar, gosto de literatura. Senti a língua salivar, e ao encontrar as sementes, cheirei-as e descobri que eram sementes galegas-portuguesas. Não pareciam estragadas. Engoli algumas.

Minhas árvore estava tombando, estava inclinada para o lado esquerdo, e algo em mim estava inclinado também, eu estava inclinada a aprender com aquele fruto. Eu estava certa de que o que eu tinha acabado de provar era um pedaço da minha história.

Perguntei por quem sempre tentaram me contar alguma coisa, e eu nunca pretendi ouvir. Descobri que a senhora com quem eu parecia quando prendia os cabelos se chamava Acélia, e tinha nascido no Miño e casado aqui no Brasil com José, que era de Barbeita. Ambos de Monção câmara municipal portuguesa na fronteira com a Galícia.

Fiquei surpresa por acrescentar essa informação a minha árvore genealógica. Porque ainda que o fruto que caiu da minha árvore seja português, a minha raiz é um pouco mais extensa, ela é galega-portuguesa. Eu sabia que eu dividia mais do que a origem da minha língua com os galegos, sabia que tinha que haver algo mais para fazer meu coração vibrar ao ouvir cantigas, ao ver as fotos do Mar de Vigo, e ao imaginar qual deve ser a sensação de estar olhando para uma “finis terrae”. Eu sabia no fundo do tronco de madeira da árvore, que minha origem fez da fronteira com a Galícia com Portugal uma corda bamba, e que tentou se equilibrar para pertencer aos dos lugares.

“Os mortos governam os vivos” disse Conte. E os mortos sustentam a minha árvore agora. Agora remendei minhas raízes, e procuro o restante delas, para achar algum parentesco mais direto com a Galícia para então justificar minha afinidade com ela. E se eu não encontrar, a língua vai me ligar para sempre, e a literatura será nosso elo porque aquelas sementes que engoli fizeram nascer raízes também em meu coração.

  Imaxe Thayane Gaspar, de Rio de Janeiro, é alumna de Literatura Galega I; Introdução à Cultura Galega e Língua Galega na UERJ.

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