Os contos populares galegos e brasileiros

Fernanda Lacombe

Aluna de Literatura Galega II na UERJ

Há quem acredite que a primeira invenção do homem foi a arte de contar histórias. Antes que a ciência se desenvolvesse e fosse capaz de explicar os fenômenos da natureza, os homens criaram histórias que o fizessem. Em seu famoso texto, “O narrador”, Walter Benjamin prevê um futuro negro para a contação de histórias.Felizmente, as previsões de Benjamin não se realizaram: a informação encontrou seu ápice no século XXI, mas não foi capaz de substituir os contos de fadas, histórias populares ou a simples narrativa de um caso que presenciamos no ônibus.

No livro, O poder do mito, o estudioso de mitologia Joseph Campbell ressalta a importância do mito para a sociedade. Segundo o autor, os mitos são uma forma de inserir os jovens mo mundo adulto e dentro de suas regras. Se nas sociedade primitivas havia rituais de passagem, atualmente as histórias se encarregaram deste papel, e por isso sua importância. A partir deles é possível compreender os códigos que regem este mundo, além de encontrar exemplos de como resolver suas próprias questões pessoais.

Obviamente, os contos populares galegos não poderiam ser diferentes. Em 1983, os escritores Maruxa Barrio e Enrique Harguindey publicaram Contos Populares, uma antologia de contos populares galegos. Nas palavras de Barrio, na introdução da obra, ” Hai nestas historias algo moi importante do nosso modo de ser e da nossa maneira de pensar(…)No fondo, faláse de todos nós.”. A autora também relembra o valor social destes contos, afinal, durante muitos séculos foram a única forma de literatura a que teve contato a população rural.

No Brasil a situação não é diferente.Durante séculos a população analfabeta se viu excluída da literatura da elite. Mas produziu dentro de seu bojo contos de valor inestimável para a cultura do país. Talvez seja este o grande trunfo dos contos de tradição oral : são acessíveis a qualquer nível de instrução, pois dependem apenas de habilidade humana natural de contar histórias

Ao longo deste trabalho, serão analisados três contos da antologia de Barrio e Harguindey. Lembrando que o livro é dividido em três partes : contos de animais, sobre a vida da gente galega e , por último, de encantamento. As narrativas escolhidas estão contidas na terceira parte. O critério para a escolha foi a existência de uma versão similar destas histórias nas antologias de contos populares brasileiros. Serão levantados os principais elementos do enredo e particularidades na versão galega com relação a de outros países e línguas.

Contos populares galegos, de Enrique Harguindey e Maruxa Barrio

O primeiro O afillado da morte, também é encontrado nas coletâneas dos irmãos Grimm e em antologias de folclore brasileiro. Na narrativa, um homem pobre sai a procura de um padrinho para o filho recém-nascido. No caminho, encontra primeiro com o diabo, que o homem rejeita. Em seguida, encontra com Deus, que também se oferece como padrinho da criança. O pai não aceita, respondendo que ” vostede tampouco me vale que non é moi bo, pois a uns dálle-lo todo namentras que a outros non lles da nada se non son traballos”. Por fim, o homem segue caminhando ate encontrar a morte. Esta faz como os outros e é aceita , pois : ” E xusticeira: tanto leva aos probes coma aos ricos, que todos somos filllos da morte”. Esta fica tão satisfeita, que promete tornar rico seu afilhado.

E assim o faz. Quando o menino já está crescido, faz dele médico sem estudos: sempre que entrar no quarto de um doente e a morte estiver próxima a cabeça do paciente, não há remédio: se , porém, ela estiver aos pés dele, basta algumas ervas e ele irá sobreviver. E assim o rapaz começa sua carreira da médico , acumulando muito dinheiro. Um dia porém , um homem muito rico bateu em seu consultório. A morte se postou a sua cabeça, mas ao ver a fortuna oferecida pela família , o médico enganou sua madrinha: virando o paciente, colocou seus pés próximos da morte.O home foi salvo. O afilhado, porém, não teve a mesma sorte. A um aceno do padrinho, caiu morto ali mesmo.

Este conto apresenta alguns detalhes interessantes, principalmente em suas versão galega. Tanto para os Grimm quanto para os brasileiros, existe uma justificativa das ações de Deus. Logo após rejeitá-lo, o autor explica que o homem não tem consciência dos motivos de Deus, e por isso se comporta daquele jeito. Na narrativa galega não: Deus é equiparado ao diabo, e esta passagem é uma crítica e um alerta a cerca das condições de vida da população rural. A escolha da morte como madrinha não deixa de ser significativa. Para um povo abandonado pelas elites e até pela religião, a morte é a única figura justa e familiar. Tanto o homem deste conto quanto qualquer camponês estão acostumados com a morte em seu cotidiano, fruto de má condição de vida.

Contos dos irmãos Grimm
Contos dos irmãos Grimm

O método de trabalho do filho também aponta para está questão : o único tratamento que usa são ervas, remédio típico do homem rural. Se estão não podem ajudar, então só resta esperar a morte. Outro detalhe peculiar é quanto a diferença entre os finais de cada versão. Tanto na alemã quanto na brasileira, o médico entra em conflito ao precisar curar a filha do rei, uma moça bonita que ele não deseja ver morta. Após enganar a madrinha , é levado por ela ao mundo dos mortos, onde arde a vela da vida de cada pessoa. O rapaz percebe que sua vela está muito pequena e pede que a madrinha acenda uma nova vela para ela. A morte finge que irá colocar o toco de vela em cima de uma nova, mas no último instante dá um jeito de apagá-la. O afilhado ingrato morre.

Ao contrário de outros povos, a narrativa galega é menos romântica: a dúvida do rapaz é por razões financeiras, não afetivas. Percebe-se que apesar de contar com elementos do sobrenatural, está história não se assemelha aos contos de fadas tradicionais: é apenas a história de um camponês preocupado com a melhora de vida. Os personagens deste conto não são ruins: o pai que rejeita o diabo mostra isso. Mas desejam sobreviver e de modo confortável, como os ricos que conhecem. A única força do mundo que age sobre suas vidas é a morte. São os filhos dela. Mas, como todo ser humano, são incapazes de enganá-la.

O segundo conto a ser analisado é um dos mais peculiares da coletânea: Conto da cachaporra narra a história de um menino que nasce com força e tamanhos descomunais para sua idade. O concello da cidade decide então lançá-lo ao mundo, com alguns itens de sobrevivência: catorze quartos de vinho, um porco e uma bengala (cachaporra) de dezesseis quilates. O garoto segue seu caminho e topa com alguns tipos curiosos: Arrasalumbeiro, Arrancapinos e Sorberríos, cujos nomes já explicitam suas habilidades especiais. Os quatro passam a viver juntos até que são atacados por um gigante que rouba sua comida.Até que o dono da bengala consegue arrancar uma de suas orelhas e se torna mestre do gigante.

Seu primeiro desejo é saber onde está a filha encantado do rei. Caso o gigante o desobedeça, ele roí a orelha decepada, até conseguir o que deseja. O rapaz vai até a princesa e consegue salvá-la. Em seguida, curam o rei, que trazia um piolho do tamanho de um carneiro na cabeça. Com a pele do piolho, fazem um pandeiro.

O da bengala volta a sua casa e descobre que o rei irá realizar uma festa. Ele então roi a orelha do gigante e pede roupas melhores do que as do próprio rei, além de cavalos magníficos. Na festa o pandeiro estava sendo tocado, e o rei promete que aquele que adivinhar de que material o instrumento é feito, casará com a princesa. O rapaz acerta e a rainha propõe outro desafio: deverá trazer gente capaz de comer o suficiente por uma semana.

O protagonista convida seus amigos, que acabam com a comida rapidamente. E assim, o da bengala se casa com a princesa.

A versão brasileira deste conto se mostra tão insólita quando a galega, com a diferença que ao invés do gigante há o personagem do saci, figura do folclore brasileiro. Nas pesquisas realizadas para este trabalho, a versão verde e amarelo desta história recebe o nome de Manuel-da-bengala e encontra-se no livro Histórias de tia Anastácia, de Monteiro Lobato. Ela chama atenção por contar com um herói pouco convencional: um home enorme, comilão e com amigos também pouco convencionais. Manuel não é o príncipe encantado. Não apresenta comportamento cavalheiresco : ou bate na cabeça do saci com sua bengala, ou rói a orelha de um gigante. Para os que leem o conto, também é difícil imaginá-lo como uma figura atraente.

Histórias de Tia Nastácia de Monteiro Lobato
Histórias de Tia Nastácia de Monteiro Lobato

Apesar disso, liberta a princesa, provando seu valor. E ao final, é justamente suas características peculiares que lhe possibilitam a vitória. Dentro da perspectiva de uma análise entre as duas versões, este conto se destaca. Não é difícil imaginar que tenha chegado ao Brasil através dos imigrantes portugueses ( que ouviram os galegos) ou dos próprios galegos, sofrendo algumas modificações posteriores. Inclusive, pode-se notar este gosto pelo insólito não convencional na narrativa popular galega e brasileira, como elemento comum entre as duas culturas.

O terceiro e último conto a ser analisado é O xogador e filla do demo.Neste caso específico, não foi encontrado exatamente uma versão brasileiro, mas um outro conto com uma passagem em comum. O protagonista do conto galego é um jogador inveterado que vende sua alma ao diabo em troca de mais algum dinheiro para seguir apostando. Após cinco anos, o homem deve voltar ao demônio para entregar sua alma. No caminho, encontra com uma senhora que lhe aconselha a conseguir a ajuda de uma moça que se banha num rio próximo dali. A moça pé Brancaflor, filha do diabo.

Após auxiliar o jogador em diversas provas impostas pelo demo, este percebe a intercessão da moça. Apesar de seu ódio, brancaflor e o jogador se apaixonam , decidindo em se casar e passar a noite juntos. Ao saber disso, o diabo decide matar ambos. Brancaflor então enche o quarto de saliva, de modo que quando o diabo bate a sua porta, a saliva responde e ele pensa se tratar da filha. A partir daí, Brancaflor e o jogador fogem juntos, numa perseguição que constitui o trecho em comum entre as duas versões.

Esta passagem, do quarto de Brancaflor, merece atenção especial. É sabido que contos de fadas surgiram em meio popular, e como eram contados por todos, apresentavam palavrões e o cotidiano da vida adulta, ao contrário de sua reprodução na atualidade. Porém, ao contrário de outras coletâneas, mesmo as que não são necessariamente destinadas ao público adulto, a contos populares apresentam a menção natural do sexo, sem nenhum tipo de disfarce. Assim como Brancaflor e o jogador, outros personagens de contos diversos decidem dormir juntos. A relação sexual não é descrita de forma explícita, mas a menção a elas ocorre sem pudor.

Este fato auxilia no entendimento do valor e da origem dos contos de fadas. Como diz Maruxa Barrio na introdução da obra, são histórias contadas por pessoas de diferentes idades. As versões atuais de coletâneas e antologias de histórias de encantamento tendem a infantilizar este gênero narrativo, eliminando parte do valor que teve em outros momentos históricos. São obras como contos populares que permitem uma análise dos contos mais detalhada e mais atenta para seu valor antropológico, e não somente como texto de fruição.

A partir da análise destes contos e suas versões americanas, percebemos a importância da tradição oral de contação de histórias. Tanto no Brasil, quanto na Galiza os contos populares consistem na forma de literatura de maior alcance popular, além de serem uma forma significativa de resistência da cultura, preservando os costumes e a memória do povo e , no caso específico da Galiza, foram também um meio de preservação da língua galega.

Referências
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia
BARRIO, Maruxa; HARGUINDEY, Enrique. Contos populares.Galaxia, 1983
ESTÉS, Dra. Clarissa Pinkola.Contos dos irmãos Grimm.Editora Rocco
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. 1998
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e Técnica, arte e política. São Paulo: ed. Brasiliense, 2000. BENJAMIN, Walter

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