Nos arredores de si e das vias urbanas: Otero Pedrayo e João do Rio. Rasuras identitárias na cidade grande

Claudia Amorim

Professora de Literatura Portuguesa na UERJ e coordenadora do Programa de Estudos Galegos (PROEG)

Introdução

Ainda hoje, no início do século XXI, podemos perceber como alguns escritores, cujas obras se publicaram nos primeiros decênios do século XX, fixaram seus olhares e atenções sobre as transformações urbanas que, àquela altura, se faziam notáveis a todos que entravam na terceira fase da chamada modernidade1, segundo M. Berman. Àquela época, o viajante ou um simples caminhante, inserido em uma cidade em constante mudança, apreciava as transformações da urbe e delas falava num misto de desconfiança e fascínio.

O projeto da modernidade, como sabemos, está intimamente associado ao nomadismo, aos deslocamentos. No fim do século XIX e início do XX, esses deslocamentos se tornavam imperiosos, uma vez que se operava uma grande transformação que fazia da cidade – e consequentemente da vida urbana – a protagonista dos novos tempos. Atraídos pelas oportunidades que a vida urbana oferecia, muitos se deslocavam das áreas mais rurais às grandes cidades ou capitais em busca de felicidade, conhecimento, novas experiências.

A vida urbana se revelava, então, múltipla, diversificada, cheia de possibilidades. Às artes tradicionais – que naturalmente se beneficiavam desse momento de explosão da esfera pública – somavam-se as novas forças tecnológicas como a fotografia e o cinema, e, desse modo, imprimiam em suas imagens as vertiginosas pinturas urbanas em movimento.

No entanto, não eram apenas através do olhar que as transformações urbanas eram percebidas. Para decifrar os novos tempos, todos os sentidos se mobilizavam, mas era, sobretudo, o olhar que vislumbrava os novos tempos, uma vez que as mudanças na paisagem urbana eram demasiado sensíveis: multidões nas ruas, tráfico urbano associado à velocidade, grandes avenidas abertas, prédios novos tomando lugar de antigos prédios, verticalização dos olhares, etc.

As ruas despertavam a atenção de todos e especialmente de poetas, romancistas, cronistas que buscavam transpor para a escrita as impressões captadas por suas retinas permanentemente estimuladas por rápidas mudanças de cenário. Se nas sociedades industrializadas, essas mudanças se faziam absolutas, nos países da periferia do capitalismo, o cotidiano da urbe também seguiu os modelos desenvolvimentistas impostos, alterando o cenário em que contrastavam o novo e o velho.

João do Rio (1881-1921) e Ramón Otero Pedrayo (1888-1976), os dois autores que aqui focalizaremos, são naturais de regiões localizadas na periferia do grande capitalismo. Através da obra desses dois autores, podemos vislumbrar dois espaços distintos, mas ligados historicamente por laços linguísticos e culturais – o Rio de Janeiro (Brasil) e a Galiza. Contudo, esses espaços têm em comum algo mais do que a mesma matriz linguística. A essa época, iguala-os a sua condição periférica dentro da óptica capitalista num mundo em vertiginosa transformação.

João do Rio, nome artístico de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou simplesmente Paulo Barreto, natural do Rio de Janeiro, e publicou, entre outras obras, um livro de crônicas intitulado A alma encantadora das ruas. As crônicas que compõem o livro forma escritas durante o governo de Rodrigues Alves, entre os anos de 1904 e 1907, e publicadas no jornal carioca A Gazeta de Notícias e na Revista Kosmos, quando a cidade do Rio de Janeiro passava por grandes transformações paisagísticas.

Ramón Otero Pedrayo, nascido em Ourense, na Galiza, um dos maiores nomes do Grupo Nós, foi um político atuante e profícuo escritor da primeira metade do século XX. Em 1930, publicou o romance Arredor de si, no qual se lê, através da trajetória do personagem Adrián Solovio, a descoberta da Galiza, de sua identidade, moldada pela dialética do afastamento e da aproximação com o espaço de origem.

Nas duas obras, a dialética do trânsito, do deslocamento, se faz presente. Nas crônicas de João do Rio, o deslocamento se dá pelas ruas da cidade, que se mostra e se esconde nas avenidas, ruelas, becos; que abriga os ricos e os pobres, que os coloca anonimamente em trânsito. No romance de Pedrayo, Adrián Solovio experimenta o contraste entre a vida simples da aldeia, na Galiza, e o movimento nervoso e europeu de Madrid e de outras cidades europeias. O processo de deslocamento inscrito nessa obra aponta para a possibilidade de viajar, retornar, e recontar, em algum momento, a experiência vivida, o que contribui para a composição de um discurso histórico, literário ou etnológico.

Walter Benjamin, em suas considerações sobre a figura do narrador, analisa a importância desse tipo de discurso para a literatura e, consequentemente, para a cultura, diferenciado duas categorias de narradores. O primeiro tipo de narrador seria o narrador-marinheiro que se caracteriza por ser um comerciante que viaja e sempre tem alguma experiência para relatar, o segundo tipo de narrador seria o narrador-camponês que, apegado ao espaço de origem, não se desloca, mas está sempre disposto a passar adiante a tradição local, o que só se torna viável para aquele que permanece em casa. Benjamin considera que ambos são fundamentais para a arte de narrar.

Nas obras que analisaremos, está presente o primeiro tipo de narrador, caracterizado por Benjamin, o narrador-marinheiro. Em A alma encantadora das ruas, João do Rio, o cronista, é o próprio narrador-marinheiro que se desloca pelas ruas da cidade, sempre diferentes a seus olhos, sempre mutantes e, por isso, surpreendentes. Em Arredor de si, de Otero Pedrayo, o narrador-marinheiro é Adrián Solovio, que saído da Galiza (noroeste da Espanha), se desloca até Madrid, cidade cosmopolita, nas quais as mudanças paisagísticas se operam em vertiginosa velocidade, provocando no personagem, durante sua vivência na capital, uma necessidade de busca interior.

  1. As ruas e os homens: o olhar exterior

João do Rio nasceu no Rio de Janeiro em 1881, demonstrando logo cedo um verdadeiro talento para a escrita, especialmente a jornalística. Antes de completar 18 anos, escreveu seu primeiro artigo que é publicado no jornal A Tribuna. Prolífico escritor, entre 1900 e 1903, colaborou sob diversos pseudônimos em vários periódicos da impensa carioca, entre os quais se destacam O Paiz, O Dia, Correio Mercantil entre outros. Em 1903, por indicação de Nilo Peçanha, iniciou sua colaboração para o jornal A Gazeta de Notícias. Foi justamente escrevendo para esse jornal que nasceu o cronista João do Rio, seu pseudônimo mais famoso.

Observador atento da realidade cotidiana, o grande personagem da crônica de João do Rio era o cidadão urbano, e até mesmo, em certo sentido, a própria cidade, que passava por mudanças físicas cotidianas. Ao publicar em 1908 o conjunto das crônicas dadas à lume n’A Gazeta de Notícias e na Revista Kosmos, o cronista contribuiu para traçar um perfil da nova cidade do Rio de Janeiro que, no início do século XX, se delineava como uma cidade cosmopolita, ignorando sua condição periférica para incorporar os signos das grandes metrópoles.

Integrando-se no rol das grandes cidades urbanas, a identidade do Rio de Janeiro – então capital do Brasil – cambiava de significados. As ressignificações da cidade imprimiam uma nova identidade não só a urbe carioca, mas ao próprio Brasil, como se pode observar no fragmento abaixo:

A musa das ruas é a musa que viceja nos becos e rebenta nas praças, entre o barulho da populaça e a ânsia de todas as nevroses, é a musa igualitária, a musa-povo, que desfaz os fatos mais graves em lundus e cançonetas, é a única sem pretensões porque se renova como a própria Vida. Se o Brasil é a terra da poesia, a sua grande cidade é o armazém, o ferro-velho, a aduana, o Belchior, o grande empório das formas poéticas. Nesta Cosmópolis, que é o Rio, a poesia brota nas classes mais heterogêneas. A câmara regurgita de vates, o hospício tem dúzias de versejadores, as escolas grossas de nefelibatas, a cadeia formada de elegíacos. Onde for o homem lá estará à sua espera, definitiva e teimosa, a musa.

Se tomardes um bonde modesto, encontrareis o palpite do bicho em verso nas costas do recibo, se entrais no tramways de Botafogo, o recibo V.Exa. Numa quadra a ir a Copacabana. Os cafés são focos de micróbio rítmico, os blocos de folhinha, as balas de estalo, as adivinhações dos pássaros sábios, as polianteias, esse curioso gênero de engrossamento tipográfico e indireto, as tabuletas, os reclamos, os jornais proclamam incessantemente a preocupação poética da cidade, o anônimo mas formidável anseio de um milhão de almas pelo ritmo, que é a pulsação arterial da palavra. O verso domina, o verso rege, o verso é o coração da urbs, o verso está em toda a parte como o resultado absoluto das circunvoluções da cidade. E a musa urbana, a musa anônima, é o riso e o soluço, a chalaça e o suspiro dos sem-nome e dos humildes. (RIO, 2007: 144).

Observando a poesia das ruas, o cronista prossegue flanando pelo espaço urbano. A certa altura questiona-se sobre o que é a rua, que alma tem. Sem chegar a uma conclusão, as ruas das crônicas são personificações da vida moderna, mas carregam, também, como ruas da periferia do capitalismo, as suas contradições.

Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glória e sofrimentos, matando-as ao cabo de um certo tempo. Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medoras, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…

Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à mais leve sobre de perigo. Esse beco inferno de pose, de vaidade,de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmente oposicionista, criou o boato, o “diz-se”…”aterrador” e o “fecha-fecha” prudente. Começou por cahmar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. (RIO, 2007: 4)

Utilizando frases curtas e um certo humor em tom de crítica, a crônica de João do Rio assemelha-se ao instantâneo de uma fotografia. O cronista desloca-se num à vontade pelas ruas da capital brasileira do início do século XX, tentanto recriar com as palavras as impressões visuais que as mudanças da urbe provocam.

Através desses instantâneos fotográficos, o olhar em movimento vai recolhendo imagens do que vê e com elas compõem uma leitura particular da cidade em transformação. Michel de Certeau (1994) sublinha que o pedestre “lê” a cidade, extraindo-lhe os fragmentos essenciais, compondo dessa maneira um discurso particular, pois cria “algo descontínuo, seja efetuando triagens nos significantes da ‘língua’ espacial, seja deslocando-os pelo uso que faz deles” (Certeau, 1994: 178). Para o autor, isso constitui uma retórica da caminhada.

O discurso composto de frases curtas, como a compor um instante fotográfico, não afasta o texto cronístico de João do Rio da rica experiência do narrador-marinheiro, citado por Walter Benjamin. O discurso é mais direto, em alguns momentos quase poético, em outros momentos beira o riso crítico, porém esse discurso se constrói com as infinitas possibilidades de se narrar o que se vê.

O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria, ligada às fábricas importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes cidades, esmiúça no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano, deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não faz outra coisa na vida senão vender calças velhas e anéis de plaquet, aí tens uma profissão de miséria, ou se quiseres, da malandrice – que é sempre a pior das misérias. Muito pobre diabo por aí pelas pacas parece sem oficio, sem ocupação. Entretanto, coitados! O ofício, as ocupações, não lhes faltam, e honestos, trabalhosos, inglórios, exigindo o faro dos cães e a argúcia dos reporters.

Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas, dos ratos, dos magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade, os que apanham o inútil para viver, os inconscientes aplicadores à vida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na natureza. A polícia não os prende, e, na boêmia das ruas, os desgraçados são ainda explorados pelos adelos, pelos ferros-velhos, pelos proprietários das fábricas… (Rio, 2007: 14).

Assim, de crônica em crônica, a narrativa segue multiplicando as imagens do cotidiano. Como um caminhante que se ocupa em observar para poder relatar, o olhar do cronista vai captando as imagens multifacetadas da cidade, na qual aparecem os ricos e os pobres, o velho e o novo, o tradicional e o moderno, numa sobreposição de imagens, tempos e histórias que põe por terra qualquer tentativa de decifrar o novo tempo.

Ao olhar de flâneur atento, não espacam as visões de uma cidade que crescia desordenadamente, deixando entrever as diferenças sociais que a política da Belle Époque preferia ignorar.

E começamos a ver o rés do chão, salas com camas enfileiradas como nos quartéis, tarimbas com lençóis encardidos, em que dormiam de beiço aberto, babando, marinheiros, soldados trabalhadores. Uns cobriam-se até o pescoço. Outros espapacavam-se completamente nus (…). Trepamos todos por uma escada íngreme (…). Era a seção dos quartos reservados e a sala das esteiras. Os quartos estreitos, asfixiantes, como camas largas, antigas e lençóis por onde corriam percevejos (…) à luz de vela, encontrávamos quatro e cinco criaturas, emborcadas, suando, de língua de fora; homens furiosos, cobrindo com o lençol a nudes, mulheres tapando o rosto, marinheiros (…). Havia com efeito mais um andar, mas quase não se podia chegar lá, estando a escada de cheia de corpos, gente enfiada em trapos, que se estirava nos degraus, gente que agarrava os balaústres dos corrimãos – mulheres receosas da promiscuidade, de saias erodilhadas (…). Eu tapava o nariz. A atmosfera sufocava. Mais um pavimento e arrebentaríamos. Parecia que todas as respirações subiam, envenenando as escadas, e o cheiro, o fedor, um fedor fulminante, impregnara-se nas nossas próprias mãos, desprendia-se das paredes, do assoalho carcomido, do teto, dos corpos sem limpeza. (Rio, 2007: 159).

A crônica de João do Rio registra a cidade em mutação. Logicamente, as transformações citadinas apontam para as mudanças que se operam na vida de todos os habitantes. Enquanto caminha pelas ruas, o cronista produz com a palavra flashes do cotidiano do Rio de Janeiro e seu olhar não é inocente. As mutações da paisagem urbana suscitam naquele que se desloca pelas ruas um sentimento de fascínio, mas também de estranheza. A necessidade de narrar instaura-se e os jornais são veículos dessa narração cronística. O narrador não precisa deslocar-se por espaço tão extenso, basta circular na cidade. De uma esquina à outra, certamente haverá o que narrar.

O que o cronista registra é a alma da cidade, sua identidade cambiante que guarda feições do passado e do presente, num jogo de espelhos que distorcem as tradicionais ideias sobre a identidade carioca.

  1. Nos arredores da cidade e de si mesmo: impressões de viagem

Ramón Otero Pedrayo (1888-1976) foi um dos importantes escritores que integrou o Grupo Nós, cujas obras, desde 1920 até à sublevação militar de 1936 (que deu origem à Guerra Civil espanhola e à posterior ditadura de Franco), apresentavam a defesa do patrimônio cultural da Galiza. Na obra de Otero Pedrayo, conjugam-se renovação estética e preocupação cultural, especialmente no que diz respeito à discussão e consolidadação da ideia de nação e de identidade galega.

Os integrantes do Grupo Nós empenharam-se em buscar um discurso de corte identitário para a Galiza, sem descartar a ideia de um europeísmo, uma vez que buscavam um diálogo criativo em consonância com o que de mais moderno e inovador se produzia naqueles primeiros anos do século XX em uma Europa efervescente.

Combinando nacionalismo e universalismo, respeito pela tradição e abertura à inovação e conjugando ainda ideário estético e compromisso ideológico, a literatura galega vai se renovar profundamente a essa época em seus mais variados campos (ficção, poesia, teatro etc.). Além disso, a temática igualmente se ampliava e um diálogo fecundo se abria com a tradição, especialmente no que diz respeito à reapropriação de temas populares, que eram recriados sob uma nova linguagem, inspirada nas correntes estéticas em voga à época.

A produção de Otero Pedrayo e a de alguns outros nomes do Grupo Nós revolucionou radicalmente a literatura galega do início do século XX, de modo que as gerações seguintes ainda se pautavam pelos caminhos trilhados pelos integrandes do Grupo Nós.

Nesse momento, os integrantes do Grupo Nós, e entre eles Otero Pedrayo, convertem a narrativa num veículo privilegiado para a apresentação e discussão de temas fundamentais para o projeto de uma construção nacional. Entre esses temas, encontramos a representação do caráter simbólico da terra, da paisagem galega, a ficcionalização da história, a presença do celtismo etc. Assim, ampliando a temática ficcional, com a presença de temas – denominados por Carme Pérez-Sanjulián2 como ideologemas nacionalitários – a ficção publicada pelos membros do Grupo Nós, nesse momento, renova a literatura da Galiza.

Arredor de si (1930) constitui-se no romance que o autor publica logo após ter lançado Os camiños da vida (1927). Em Arredor de si, acompanhamos a trajetória do intelectual Adrián. Após suas andanças por Madrid, cidade na qual se insere na cultura europeia, Adrián vive uma crise identitária que o leva de volta à Galiza. No caminho de volta, Adrián encontra a si mesmo, as suas origens, a sua história.

A vida em Madrid não lhe fora fácil. Mesmo vivendo grande tempo na cidade grande, sua história não se misturava à história dos habitantes citadinos, embora o desejasse em muitos momentos.

O pracer de se perder na selva humana das rúas, a tinta fresca dos xornais, o Prado coas fontes prestixiosas, e o rolar dos coches brillantes sobre a Castellana redada, limpa, europea. Agora non sentía a satifacción de se apalpar no corazón de España. Seria quizais a primeira impresión. (Otero Pedrayo 2008: 28)

A viagem de Adrián do interior da Galiza para Madrid provoca-lhe estranhamento e fascínio. Em Madrid, Adrián tem consciência de que sua identidade galega se encontra em vias de ser absorvida pelo cotidiano da cidade grande. O contato com outro espaço, mais dinâmico, mais centralizado, mais europeu, promove uma revisão de sua identidade. Conforme afirma Bauman (2005), os deslocamentos nos revelam o quanto as fronteiras identitárias são permeáveis.

Tornamo-nos conscientes de que o ‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o ‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’. (Bauman 2005: 17).

Em Madrid, Adrián se torna cidadão do mundo, viaja por outras cidades, mas mesmo distante da Galiza, percebe que carrega em si mesmo as feições do local onde nasceu, ainda que muitas vezes não o entenda.

Adrián, furando nos cafés, ainda atoparía vellos xenerais esclerosados que foran capitáns con Peñaplata. A Galicia lonxana. A Provincia. Verba fea, guedelluda. Adrián sentíase máis novo e máis vello. Ficaba longe a verde soidade da aldea. Non a entendía. Non a entendería nunca. Algunha vez quixo vivir nela co espírito posto na Europa. Libros. Revistas. Fóra, indiferente a toda novidade do artigo ou do libro, debruzábase um longo solpor de outoniza. Tristura e prisión das mañás molladas. Tiña medo na aldea (…). (Otero Pedrayo 2008: 14)

A cidade grande, no entanto, inspira cuidados aos que lhe são estrangeiros. Também em muitos momentos a vida urbana não se compreende. Seus habitantes circulam rapidamente, seus referentes (construções, monumentos, transportes) se substituem com rapidez, passado e presente se sobrepõem sem que alguém se dê por isso. Algo se perde… mas ainda é a cidade grande.

Os dous señores galegos subían de a pé o paseo dos coches. Quizais sentido un pouco de saudade diante do triunfo dos aumomóbiles. No seu tempo, cando eles chegaron, un longo rolar de coches enchía o parque. Berlinas, cupés, victorias. Coches ducais, coches burgueses. O coche do político, do avogado famoso, do xeneral de quen se agardaba o golpe de Estado. O coche da dama, linda soiña, estraña, co seu canciño e o impoñente cocheiro. O coche sorridente e irónico das pecadoras tamén se acompasaba ó ton do paseo. Todo Madrid. Entón enxergábase dunha ollada. Dos tempos cabaleirescos quedaban os troncos escolleitos. Rodar de rodas, bater de cascos.

Os dous señores, conforme ganaban em anos tiñan máis aire de fidalgos galegos, a pesar do tempo que levaban en Madrid. E nos ollos, a mesma satisfacción do primeiro día que conseguiron un lugar no escalafón: a de se sentir en Madrid, lonxe da terra. (Otero Pedrayo 2008: 71-72).

Em Madrid, os galegos se encontram. Conversando sobre as diferenças entre a Galiza e o centro da Península Ibérica, sublinham a necessidade de se sair da Galiza para se tornar conhecido, para multiplicar as possiblidades de trabalho, reconhecimento etc. É na cidade grande que podem se tornar europeus, cosmopolitas. Em meio à conversa, um dos galegos declara:

Os galegos para se facer homes teñem que sair de Galicia. Todos melloran. Igual aqui que na América ?Que sería Carracido en Santiago? Non pasaría de auxiliar da Facultade ou de boticario en Padrón ou en Ordes, polas intrigas locais. Para mim o expoñente do que vale Galicia é o grande número de políticos e maxistrados e homes de ciencia que se teñem alá criado… Mais todos precisan vir aqui ó centro, ó corazón da Península. (Otero Pedrayo 2008: 75)

Adrián compreende que carrega a sua Galiza, ainda que dela se afaste. Buscando o cosmopolitismo, segue em frente em sua marcha pelas grandes cidades. Carrega, no entanto, a Galiza consigo e a memória lhe trai, trazendo-lhe lembranças que lhe ocupam o espírito.

Adrián entristecíase falando de Galicia. Comprendía escuramente que ela ocupaba, para ben ou para mal, un grande espacio no seu espírito. Endexamais se detivera a cavilar no xenio e na virtualidade de súa Terra. Ás veces, en instante de noxo ou de desacougo, outras veces conscientemente, querería botala fóra de si. Hoxe, volvendo para a casa, por primeira vez se lle representaba como un problema, un máis dos moitos que estaba obrigado a resolver. (Otero Pedrayo, 2008: 76).

Afastando da Galiza, correndo a Europa, Adrián não podia afastar-se completamente de seu lugar de origem. Ao fim do seu percurso, o galego acaba por perceber com outros olhos sua relação com a terra natal.

Aquí remata o primeiro, longo e tráxico estadio do vivir de Adrián Solovio. A súa vida dende agora identifícase coa vida da Galicia; xa non é novela, nin experiencia psicolóxica. Xá é historia. Pois a Galicia tamém comenza a ser outra volta historia des que deprendeu os camiños para atopar a súa consciencia e deixou de andar como unha cega, arredor de si. (Otero Pedrayo 2008: 159).

À guisa de conclusão:

Na primeira metade do século XX, quando transformações na paisagem urbana se faziam de modo acelerado, impulsionadas pelas descobertas científicas e tecnológicas do fim do século XIX, alguns alguns intelectuais – homens de letras – especialmente aqueles que viviam na periferia do capitalismo, procuravam registrar em suas obras o quanto essas mudanças físicas apontavam para a recriação de novas imagens identitárias.

A essa época, na capital do Brasil, o jornalista João do Rio, deslocando-se pelas ruas cariocas, procurava captar-lhes a alma. Essa alma apresentava paradoxalmente o cosmopolitismo das grandes cidades (iguais em tudo) e o localismo da capital de um país periférico, ao mesmo tempo rico e pobre, feliz e triste. O grande personagem das crônicas é o cidadão anônimo a a própria rua, na sua diversidade. Percorrendo as ruas, descrevendo-as, o cronista afirma a sua necessidade de narrar, de compartilhar com outrem o esboço de um retrato em movimento.

Distante do Brasilf, na década de 1930, na Galiza, um grupo de escritores faz eclodir um debate sobre a questão identitária, quando a ditadura franquista pretende imprimir a sua política para toda a Espanha. Ramón Otero Pedrayo, escritor galego e um dos integrantes do Grupo Nós, será voz fundamental nesse momento de afirmação de uma cultura galega. Ativista político, escritor, ensaísta, Pedrayo traz para a ficção um debate que se fazia necessário.

Nesse romance, o personagem Adrián Solovio percorre a Europa, partindo da Galiza para Madrid e de Madrid para outras cidades europeias. Nesse deslocamento, a cidade grande, cosmopolita, europeia, traduz a essência da modernidade. No entanto, o personagem, ao se afastar de sua terra natal, também dela se aproxima, uma vez que a todo momento estabelece comparações entre sua terra galega e a terra na qual se encontra adaptado, mas estrangeiro. Deslocando-se pelas cidades, flanando por suas ruas, Adrián finalmente encontra em si mesmo a sua Galiza, da qual afinal não se afastara.

Os dois autores – por vias diferentes – lançam seu olhar sobre os espaços periféricos do capitalismo, no qual habitam, registram o modo de vida urbano do início do século XX e percebem como esse cotidiano das grandes cidades, imerso em contradições ou no confronto com o espaço aldeão, desencadeia um novo olhar sobre suas identidades.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt (2003): Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. (Tradução: Carlos Alberto Medeiros). Rio de Janeiro, Zahar.

BENJAMIN, Walter (1994): O narrador, in: Magia, técnica, arte e política. Obras escolhidas. Vol. 1, 197,221. São Paulo: Brasiliense.

BERMAN, Marshall (1986): Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras.

CERTEAU, Michel de (1994): A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes.

OTERO PEDRAYO, Ramón (2008): Arredor de si. Vigo: Editorial Galáxia.

PÉREZ-SANJULIÁN, Carme F (2003): A construción nacional do discurso literario de Ramón Otero Pedrayo. Vigo: A Nosa Terra.

RIO, João do (2007): A alma encantadora das ruas. São Paulo: Martin Claret.

1 Para Marshal Berman (1986), a modernidade nasce no século XV/XVI com a era das navegações e a revolução comercial, mas ela se divide em três períodos: o primeiro que iria do século XVI até o fim do século XVIII, com a Revolução Francesa; o segundo que seguiria desse acontecimento histórico até o fim do século XIX: e o terceiro que se inauguraria do fim do século XIX até os dias atuais.

2 Sobre esses ideologemas nacionalitários na obra narrativa de Otero Pedrayo, veja-se o estudo de Pérez-Sanjulián, Carme F. (2003).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s