A ressonância do mito de Tristão e Isolda no conto “Tristán Garcia”, de Álvaro Cunqueiro

Asafe Lisboa

Aluna de Introdução à Cultura Galega na UERJ

Na literatura, as figuras de Tristão e Isolda aparecem primeiramente nos versos de Béroul e Thomas da Inglaterra, ambos poetas do século XII. No entanto, apesar da contemporaneidade dos autores, a trajetória do casal adquire feições díspares de acordo com a narrativa em questão: a de Béroul é, de certa forma, um pouco mais agressiva, flertando com o épico, ao passo que Thomas da Inglaterra imprime com mais força os traços do amor cortês e da paixão trágica.

Posteriormente, após a difusão dessas duas versões primordiais, entre tantas variações acerca do tema surge “Tristão em prosa”, obra que através do ciclo da Post-Vulgata ligará Tristão ao ciclo arturiano. O ciclo arturiano, também designado Matéria de Bretanha, alcançou enorme popularidade no noroeste da península Ibérica.

Antes de prosseguirmos é preciso responder a duas questões iniciais: por quê incorporar as lendas de Tristão e Isolda no ciclo arturiano e por quê a Matéria de Bretanha foi mais cultivada em Portugal e em Galiza, se foi primeiramente conhecida em Castela?

O ciclo arturiano, bem como o mito de Tristão e Isolda, possui origens bem mais remotas do que as literárias. Ambos têm suas raízes fixas na tradição ancestral do povo celta. Essa tese, sustentada pelo romanista Gastão Paris, “Parte do princípio de que os escritores se limitam a dar corpo e feição artística ao material folclórico pré-existente.” (LAPA, 1981, p.241). Tomando-a por base, torna-se justificável aproximar literariamente Tristão e Arthur, pois poderíamos concluir que essas personagens compartilham o passado mítico e o berço cultural.

"Tristram and Isolde", pintura de John William Waterhouse (1916)
“Tristram and Isolde”, pintura de John William Waterhouse (1916)

O florescer intenso da Matéria de Bretanha e do mito de Tristão e Isolda no ideário galego-português pode ser explicado através da hipótese de que Portugal e Galiza tenham sofrido forte influência dos celtas. Segundo Lapa (1981, p.243)

[…] a arqueologia e a etnografia, activamente cultivadas na Galiza, têm demonstrado que houve comunicação entre o noroeste da Península e os povos bretões. Um fundo comum de remota civilização patenteia-se na flagrante semelhança dos petroglifos, dos castros e seus despojos. Nos próprios produtos de arte cristã, em que se denuncia a sobrevivência de antigos ritos, como nas cruzes de pedra, tão frequentes na Galiza, há uma dedada inconfundível, que os aproxima estranhamente de monumentos congéneres da Bretanha, como ficou provado pelos trabalhos do artista galego Castelao. O substratum céltico parece, pois, um facto cientificamente provado e não apenas, como muitos cuidam, uma fantasia literária.

Os vestígios celtas evidenciam uma ligação antiga que, apesar do aparente desvanecimento, ressurge de tempos em tempos jamais poderá ser ignorada. Tal como os castros e os petroglifos, as (re)criações literárias são como os monumentos do passado e servem de provas cabais do processo de transculturação.

Álvaro Cunqueiro, expoente do neotrovadorismo, no conto “Tristán Garcia” faz uma releitura cômica, mas ao mesmo tempo profunda e singela do mito de Tristão e Isolda. Em Cunqueiro, o protagonista desconhece as origens do próprio nome: “Este Tristán do que conto nunca soubo por que lle puxeran este nome no sacramento do bautismo, nin coñecía ninguén que se chamase como el.”

Por essa razão, Tristán Garcia estava alheio ao destino de seu célebre homônimo e também alheio ao seu próprio. A trama tem a reviravolta decisiva quando Tristán lê em “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” sobre a paixão arrebatadora vivida pelo Tristão da novela e decide partir em busca de sorte semelhante. O que acontece em seguida, deixarei que as palavras de Cervantes em “Dom Quixote” digam com mais clareza: “Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que perdeu o juízo.

Álvaro Cunqueiro
Álvaro Cunqueiro

Ao ler as histórias de Tristão e Isolda, Tristán imagina a grandeza que lhe rondava o nome e apropria-se dela, como, se pelo simples fato de se chamar Tristán, fosse seu destino irrevogável reviver os episódios do romance. A homonímia é a razão prima da demanda da personagem e também é objeto de seu desejo; por se chamar Trístán sua paixão só poderia ser satisfeita única e exclusivamente por uma mulher de nome Isolda (VEGAS, 1995, p.300).

A importância do nome é dos aspectos mais notáveis de “Tristán Garcia”. É o nome que lhe sela o destino, funcionando como elemento mágico que lhe arrebata o poder de decisão e o mergulha em uma paixão irresistível. Tristán imagina que, quando a encontrar, Isolda não terá outra escolha a não ser amá-lo, exatamente porque se chama Isolda. Os nomes nos remetem a “le philtre”, a poção bebida pelo casal de “Le verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” e que os torna tão apaixonados, independentemente de suas ações e das consequências que elas possam vir a ter.

Outro ponto interessante do conto de Cunqueiro é o fato de que Tristán não se apaixona pela mulher Isolda, até porque não conhecia pessoa que assim se chamasse, mas pela Isolda que não existia, a Isolda da novela. Em uma adaptação televisiva de “Tristán Garcia”, exibida na “Televisão de Galicia” em 1989, o protagonista diz “estar apaixonado por uma mulher que não conhece”. Na verdade Tristán não estava enamorado de nenhuma entidade realizada no mundo, mas sim de um sentimento provocado pela leitura que fizera. A paixão pelo sentimento e não pelo indivíduo, o anseio pelo ideal, pelo que é impassível de concretização e uma certa saudade são impressões típicas do substratum céltico:

A expressão mais intensa e elevada da saudade encontra-se no anelo mais característico dos poetas célticos, o anelo do impossível. Esta é a saudade pura, porque não pode ver-se satisfeita, e nela tem relativamente pouca importância o desejado em comparação com o acto de desejar. Esta forma de saudade revela-nos que nela o fundamental é o anelo e não o anelado… (Castro apud LAPA, 1981, p.345)

A paixão que independe de corpo, supera a vontade e subjuga a consciência tem sua razão de ser porque aponta para um fim: o amor eterno. Qualquer paixão que se realize tem um prazo determinado para acabar: o prazo do corpo. O corpo é a condição sine qua nom para existência da vontade e da consciência; com a morte do corpo, qualquer sentimento que se baseie nesses princípios cessa. Porém um sentimento como o de Tristão de “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” ou do Tristán de “Tristán Garcia”, que se nutre de si mesmo, extrapola os limites da vida e morte e do tempo e espaço. O amor que não se realiza parece fugir de um sentimento que o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche descreveu como “a melancolia da coisa acabada”. Uma vez que se concretiza no corpo e na esfera do real, o amor, agora melancólico, fica restrito a este âmbito. É grande apenas aquilo que é impossível, que não se concretiza e aí novamente vemos ressurgir o anelo saudoso dos celtas.

"Os outros feirantes", novela de Álvaro Cunqueiro na que se acha o relato "Tristán García"
“Os outros feirantes”, novela de Álvaro Cunqueiro na que se acha o relato “Tristán García”

Tristán Garcia ouve falar de uma tal Isolda, viúva e vendedora de churros, que vive em Venta de Baños e quase que imediatamente sai para encontrá-la. A naturalidade com que Cunqueiro vai conduzindo a narrativa para o seu clímax, bem como a ambientação cotidiana e prosaica, não diminuem a ordem de grandeza do desfecho. Pelo contrário, torna-a mais vívida para nós que hoje vivemos em tempos tão diferentes daqueles em que se deu “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda”. Ao chegar ao local onde Isolda vende seus churros, Tristán se depara com “unha velliña co cabelo branco, fermosos ollos negros, a pel tersa, as mans moi graciosas…” e é ela a Isolda que tanto procurou. Ao se apresentar como Tristán e dizer que estava ali para conhece-la, escuta de Isolda o seguinte:

– ¡Tristán! ¡Tristán querido!, puido dicir ao fin. ¡Toda a miña mocidade agardando a coñecer un mozo que se chamase Tristán! ¡E como non viña, casei cun tal Ismael, que era de Madrid!

Essa fala concretiza em “Tristán Garcia” a projeção do mito ancestral. As duas personagens reconhecem a ligação que têm, cuja origem única está nos nomes que possuem e na história que seus homônimos viveram. Novamente o amor de Tristán e Isolda se encontra embargado, dessa vez pela diferença de idade. Outro fator que conecta “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda” e “Tristán Garcia” é o fato de que há outro homem que se interpõe entre os dois amantes: em uma história é o Rei Marcos da Cornualha e em outra é Ismael de Madrid (VEGAS, 1995, p.301). Se por um acaso do destino Tristán Garcia pudesse ter chegado até sua Isolda quando ela era uma mulher mais jovem, então toparia com seu marido e mais uma vez não poderia satisfazer seus anseios.

A beleza única de “Tristán Garcia” está no fato de Álvaro Cunqueiro ter conseguido, com uma maestria quase inacreditável, captar toda a sensibilidade presente no mito de Tristão e Isolda. É bem verdade que o cenário das narrativas difere muito entre si; o ingênuo Tristão e a velha simpática que é Isolda, fora os nomes, nada têm em comum com as personagens de “La verdadera historia de los amantes de Tristán e Isolda”. Ainda assim a grandeza do amor e o anelo impossível, através imagens tão simples, continuam reverberando em todos que leem “Tristán Garcia”. Álvaro Cunqueiro, longe desfigurar o mito, enriqueceu-o com tão profunda contribuição e fez com que ele chegasse a seus leitores. “Porque esta é a maneira do mito existir: variando.” (Guimarães apud FRANCH.INI & SEGANFREDO, 2013).

Álvaro Cunqueiro, além de eternizar o mito de Tristão e Isolda através de “Tristán Garcia”, engrandeceu singularmente a língua galega com tal narrativa. Por esse motivo ele afetou diretamente o povo galego, pois estava ciente de que “[…] la duración del idioma es la única posibilidad de nosotros duremos como pueblo. Se hoje, mil primaveras depois (quem sabe?) ainda ouvimos falar de Tristão e Isolda, que por Tristán Garcia”, por Álvaro Cunqueiro, por seu povo, cultura e língua, a Galiza dure mil primaveras mais.

***

Referências Bibliográficas

FRANCHINI, A.S; SEGANFREDO, Carmen. As 100 melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. Porto Alegre, L&PM, 2013.

LAPA, Manoel Rodrigues. Lições de literatura portuguesa. Coimbra, Coimbra Editora, 1981.

RITA, Clara Santana. Tristão e Isolda: mito e magia. Universidade Autónoma de Lisboa. 2010. Disponível na internet em:

< http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/viewFile/17/pdf_13> Acesso em 27/12/2014

VEGAS, Alicia Casado. Dos lécturas contemporáneas del mito de Tristán: Antonio Prieto y Álvaro Cunqueiro. Revistas Científicas Complutenses, n°13. Universidade Complutense de Madrid, 1995. Disponível na internet em:

< http://revistas.ucm.es/index.php/DICE/article/viewFile/DICE9595110295A/13098> Acesso em 27/12/2014

SITES

Gallicia Espallada: Unha recolleita da cultura galega.

galicia.swred.com

Link para o vídeo da readaptação de “Tristán Garcia” exibida pela Televisão de Galicia:

https://www.youtube.com/watch?v=Y8xHj6rOXyw

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