Arquivo da tag: UFBA

O entroido galego

Rafaela Renata

Estudante de Letras Vernáculas e Francês na Universidade Federal da Bahia

INTRODUÇÃO:

A Galícia é uma comunidade autônoma da Espanha conhecida principalmente pelos aspectos únicos de sua cultura e por suas ricas tradições. Um desses aspectos é a celebração, ao longo do ano, das festas populares, que contribuem para manter as tradições de origem desse povo, ainda que alguns ritos e peculiaridades já tenham sido perdidos e outros estejam em processo de recuperação.

O Entroido (Carnaval) é uma dessas celebrações. É uma festa de caráter tradicional cujas raízes remontam a muitos séculos e demonstram a necessidade do povo de sair da rotina por alguns dias, trocando papéis, cantando, dançando, comendo e bebendo à vontade.

Essa festa é celebrada entre os meses de fevereiro e março, principalmente nas regiões de tradição católica, coincidindo com o período anterior à Quaresma. Desde que estejam disfarçados, todos podem participar e se divertir.

Celebrado com paixão nas vilas e aldeias galegas , o entroido possui ares particulares muito diferenciados entre as diversas localidades: são muito conhecidos aqueles de Xinzo de Limia, Laza, Verín, Viana do Bolo, Vila de Cruces, A Estrada, Vilabona e Vilaverde por exemplo, mas além destes existem muitos outros.

Atualmente, a importância do Entroido é tamanha, que sete deles exibem com orgulho a qualificação oficial de “Festa de Interesse Turístico” e de “Acontecimento turístico nacional” pelo Ministério de Turismo da Espanha. Pretende-se através deste trabalho, explicar de maneira breve como se celebra na Galícia ,esta tradição cultural tão importante. 

ORIGEM DA TRADIÇÃO:

Festivais relacionados à chegada da primavera e em honra à deidade responsável pela colheita, existiram entre vários povos desde a antiguidade. Foi através desses cultos aos deuses , agradecendo-os pela fertilidade do solo e pela produção, que na Grécia surgiu, entre os anos 600 e 520 a.C., o Carnaval.

Mais tarde, preocupados com as práticas perigosas dos pagãos durante as celebrações de primavera, a Igreja Católica decidiu pôr um fim no festival e em 590 d.C. o Papa Gregório I criou o Carnaval Cristão.

Por causa da Quaresma, o período de 40 dias no qual os Católicos devem jejuar em preparação para a Páscoa, o carnaval cristão teve que ser celebrado entre o sétimo domingo antes da Páscoa. E como esta última é uma festa móvel, a data do carnaval muda a cada ano, sendo comemorada no primeiro domingo depois do equinócio de primavera no hemisfério norte, então o carnaval cristão original era comemorado sempre entre 3 de fevereiro e 5 de Março.

O entroido é também conhecido como carnaval: em alguns países onde desapareceu por pressão eclesiástica ou policial, o entroido foi recuperado com o termo “carnaval”. A palavra entroido deriva do latim introitus, que significa “entrada” ou “começo”. Provavelmente isto se refere ao início da da primavera e do ressurgimento da vegetação. Também são consideradas “carnaval” as festas similares celebradas fora dos dias anteriores à Quaresma, como os carnavais de verão.

Existem várias teorias para a origem da palavra Carnaval: uma delas afirma que tal palavra vem do italiano carnevale, tendo como origem o latim vulgar carne-levare, que significava “abandonar a carne” (prescrição obrigatória para todo o povo durante todos as sextas-feiras da Quaresma). Outra afirma que a palavra italiana carnevale significaria que durante a época do carnaval a “carne vale”, ou seja, que se pode comer.Outra ainda propõe a expressão “carnis vallis” como origem do termo, significando “carne” e “prazeres” respectivamente. Também se propõe uma etimologia que provém da expressão latina carrus navalis, uma carroça decorada que posivelmente saía em desfile durante estas datas. Em algumas zonas da Espanha as denominações populares de carnestoltes ou carnestolendas, parecem indicar para alguns que esta é a opção etimológica mais sensata (do latim tolere, retirar).

O ENTROIDO NA GALÍCIA:

O entroido já era tradicional na Galícia desde o século XIII. Tolerado, ritualizado e institucionalizado pela igreja, acontecia em todo o território galego, principalmente nas localidades que hoje correspondem à província de Ourense. Na época, essa festa rural era celebrada por uma sociedade medieval majoritariamente camponesa, submetida às relações de vassalagem do feudalismo; e já tinha a mesma importância de outras festas do calendário litúrgico , cujas datas eram marcadas pela igreja para o pagamento anual de contratos aos mosteiros.

No século XIII, o entroido durava um dia (a terça-feira) e já no século XV, durava três: domingo, segunda e a terça-feira antes da quarta-feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma.

Além de pão e vinho, os alimentos típicos dessa festa rural eram cabritos, galinhas, azeite, ovos, castanhas secas, nozes e peixes : todo o tipo de alimento que fosse abundante na estação.

Mais tarde, segundo a tradição, na quinta-feira dos compadres, as mulheres participavam dos festejos. Elas faziam seus compadres, usando para isso, uma camisa e uma calça velha cheia de palha ,além de um chapéu. O compadre vencedor da eleição como o mais bonito, era colocado num burro bem adornado e levado para ser queimado na presença de outros compadres e mulheres.  À noite, se lhes colocava fogo e os homens tentavam impedir a queima. O mesmo acontecia na quinta-feira seguinte, mas de maneira inversa. Dessa vez, eram os homens que faziam suas comadres, enquanto as mulheres faziam o impossível para evitar a sua queima. De domingo à terça-feira de carnaval o costume era colocar as máscaras e ir andando com os demais participantes ao povoado vizinho, fazendo brincadeiras e com muito bom humor ao longo do caminho.

Depois da guerra civil, por ser considerado como anarquia, o carnaval foi proibido na Espanha; mas apesar disso, a Galícia foi um dos poucos lugares que resistiram e continuaram a celebrá-lo.

Atualmente, o Entroido é celebrado na Galícia com características particulares e muito diferenciadas entre as diversas povoações. Muitos deles são reconhecidos nacional e internacionalmente e todos, de alguma forma, contribuíram para que não se perdessem as origens do que talvez seja o entroido mais antigo da Espanha.

DENOMINAÇÕES:

Conhecido mais comumente na Idade Média como entroydo, nos dias de hoje o entroido galego também é chamado de Entróido/ Entróïdo e Entroito/ Entróito (no Bierzo); Antruido (em Bergantiños), Introido entre outras denominações. Na zona norte (A Mariña) e oeste (Monforte de Lemos, Fonsagrada e Viana do Bolo) da Galícia e em quase toda a província de Lugo, se emprega a terminologia “Antroido”, como no antroido ribadense. No sul é mais frequente entroido que é a forma que o DRAG[1] propõe como normativa. A palavra aparece citada desde o século XIII.

LOCALIDADES ONDE A FESTA É CELEBRADA:

Mais de 175 municípios da Galícia declaram festivas a segunda ou terça-feira de Entroido ou ainda a quarta-feira de cinzas. É assim em Laza, em Ourense, Verín, Manzaneda e   Vilariño de Conso, em Lugo, em aldeias como Santiago de Arriba, Nogueira e  Fión, em Entrimo, na fronteira com Portugal,  bem como em Salcedo. O entroido é celebrado em todo o território galego.

DATAS DE CELEBRAÇÃO:

O entroido é uma festa móvel celebrada nos dias anteriores à Quaresma. Nas diferentes vilas da Galícia, sua duração varia, chegando em alguns casos a ter até quinze dias. A terça-feira de entroido pode acontecer em fevereiro ou nos primeiros dias de março, mas as celebrações relacionadas podem começar já em janeiro. É o que se chama de“ciclo do entroido”.

Em Xinzo de Limia, a festa  dura 5 semanas, sendo esta uma das mais longas do mundo. São cinco domingos de comemoração: Domingo Fareleiro, Domingo Oleiro (celebrações exclusivas desta vila), Domingo Corredoiro, Domingo, Segunda e Terça-feira de Entroido e Domingo de Pinhata.

Em Laza o ciclo “começa” junto com as badaladas no dia de ano novo (com primeiro folión[2] ) e a data referencial é a segunda de entroido. Em Vilariño de Conso o ciclo começa no dia de “Candelas” (2 de fevereiro).

Em Verín, o ciclo começa no dia de “Santo Antón” (17 de janeiro) e celebra-se o xoves de compadres, o xoves de comadres, sexta, sábado e terça-feira de carnaval. No domingo há desfiles e à meia-noite de terça-feira os lardeiros[3] são queimados. Na quarta-feira de cinzas, há o enterro da sardinha.

Em Vilaverde a celebração acontece nos dias de domingo, segunda e terça-feira, sendo os dias de segunda (à noite) e terça de carnaval (à tarde) os mais importantes desta celebração . Na noite de segunda-feira , os habitantes do povoado e das proximidades se reúnem no centro cultural ao som de uma banda de gaitas, enquanto as pessoas se disfarçam. À meia-noite da segunda-feira acontecem as entremeses , peças dramáticas e jocosas de um só ato, protagonizadas por personagens de classes populares , satirizando as classes mais altas. No dia seguinte, à tarde , os povos vizinhos (Vilaverde e Barcia), se unem, em um de desfile de carroças, acompanhado por muita música.

Apesar de não terem sido conservadas em todas as festividades, as datas fundamentais dos diversos entroidos, por ordem, são:

Domingo fareleiro

Domingo oleiro

Xoves de compadres

Domingo corredoiro

Xoves de comadres

Domingo de entroido

Luns de entroido

Terça-feira de entroido

Mércores de cinza

Domingo de pinhata

 MÚSICAS:

As músicas entoadas nos entroidos são tocadas pelos gaiteiros, pelas charangas[4], e por todos os que estiverem animados à cantar. São também populares os refraneiros tais como o seguinte :

“ O entroido ao tizón, a pascua ao Sol.

Pascua con quen quixeres, entroidos coas túas mulleres.

A pascua onde quixeres, o antroido onde as mulleres.

O entroido coas túas mulleres, a pascua con quen quixeres.

Día de antroido ou de pascua, cada papón na súa casa.

O entroido coas súas artes, botou a san Matías fóra do martes.

Martes de entroido, cando has de vir? Casquiñas de ovos, case habedes de ruxir.

Entroido larafuzán, comíchesme a carne e deixáchesme o pan.

Non todos os martes son días de entroido.

Todos os días non son martes de entroido.

Se podas no martes de carnaval, desátase a viña e non dá uvas.

O día de entroido debes quentar o forno, cocer o pan e botar as cinzas na terra para ter bos nabos.

No día de entroido non comades verzas porque senón non saen os mosquitos enriba de ti.

Antroido árdelle o coiro, árdelle ben ata o ano que vén”

 PRATOS TÍPICOS:

O entroido galego é sempre regado à muita comida e bebida. É assim que se repõem as energias durante a festa. Os pratos principais incluem: carne de porco, batatas, greos, garavanzo, chourizos e lacóns. São exemplos disso, a tradicional cachucha (feita com a cabeça do porco) e o cocido. As androllas (especialmente em Viana do Bolo) e o “caldo” também não faltam na maioria dos folgares. Na comarca do Bierzo (provincia de Léon), por exemplo,  faz parte da tradição comer nesse período, o último botelo[5] da matanza, um ritual de sacrificio de porcos para a conservação da carne obtida .

Após o “banquete”, são servidas  bicas, filloas e orellas: sobremesas especiais que são os pratos mais típicos da festa . E para terminar, os participantes ainda aproveitam o licor café e o xastreu . Comer e beber até fartar-se é , assim um dos “mandamentos” do entroido .  

AS MÁSCARAS GALEGAS:

Como dissemos anteriormente, para participar dos festejos, basta estar disfarçado. Os trajes e máscaras são preparados com muita antecedência e zelo. Dependendo das zonas e comarcas, as  máscaras galegas apresentam traços diferentes. Podem-se distinguir dois grandes grupos:

As máscaras de Ourense[6] são habitualmente coloridas e feitas de madeira. Elas cobrem o rosto, e tem como missão assustar aos participantes da festa e/ou fazê-los correr. Ainda que às vezes ajam em grupo, em geral esses mascarados agem individualmente. São exemplos : os cigarróns de Verín, os peliqueiros de Laza, piliqueiros de Castro de Laza; os felos de Maceda, os boteiros de Vilariño de Conso, de O Bolo, de Manzaneda e de Viana do Bolo, os irrios de Castro Caldelas, as charrúas de Allariz, as pantallas de Xinzo, os vergalleiros de Sarreaus, os murrieiros de Teixeira, os troteiros de Bande, os vellarróns de Riós, os zarramanculleiros de Cualedro e os chocallóns de Vilardevós.

As máscaras da zona atlântica[7], são também trajes coloridos, mas que frequentemente deixam o rosto descoberto. Os mascarados agem coletivamente, embora o trabalho de elaboração do traje seja individual. É o caso dos xenerais de Deza e de Ulla, as damas e galáns de Cangas e Vilaboa e as madamitas e madamitos do entroido de Cotobade.

assss
Xenerais da Ulla

Existem ainda outros figurinos, tais como os Mecos bonitos e mecos feos de Froxás das Vinhas; os Volantes da Ribeira do Minho ; o Oso de Salcedo, em Salcedo ; e o merdeiro em Vigo. Se estiverem sem disfarce, os participantes correm o risco de sofrer alguns castigos, tais como ter que pagar uma rodada de vinhos, ser “alvo” de lançamentos de farinha de cascas de cereais (farelo) ou ainda , de terra com formigas vivas.  

INTERESSE TURÍSTICO:

Conforme mencionado anteriormente, existem na Galícia sete entroidos que tem reconhecimento de interesse turístico. Dois são reconhecidos como “Festas de Interesse Turístico Nacional”: o entroido de Xinzo de Limia (com as pantallas) e o entroido de Verín (com os cigarróns). Cinco deles tem o reconhecimento de “Festas da Galicia de Interesse Turístico”: o carnaval de Cobres (com as damas e os galáns), o entroido de Laza (com seus peliqueiros), o entroido de Viana do Bolo (com os boteiros ),  o folión tradicional do entroido de Manzaneda (com as máscaras) e os xenerais de Ulla.

Xinzo, Verín e Laza, essas três localidades próximas, são muito importantes para o turismo na época do carnaval. Em Xinzo, no domingo fareleiro, há uma batalha de farinha. No domingo corredoiro, as pantallas saem às ruas para perseguir os vizinhos. O domingo de entroido é um dos dias principais da festa, que se acaba com o domingo de pinhata, já em plena Quaresma. É na terça-feira de entroido que Xinzo acolhe a multidão de turistas atraídos por suas carroças. As pantallas, nunca sobem nas carroças; sua principal função é perseguir à todos que não estejam disfarçados. Caso a pessoa sem disfarce seja uma mulher, dançam ao redor dela; caso seja um homem, este é levado até o bar mais próximo para que pague uma rodada de vinho.

Em Verín, são os cigarróns que merecem destaque: debaixo de seus trajes de aproximadamente 25 kilos, eles batem com a fusta (uma espécie de bastão) naqueles que saem da missa, no domingo corredoiro. É uma função que se passa de pai para filho, de geração em geração. Ali ,os principais dias de festa são: o xoves de compadres, o domingo corredoiro, a xoves de comadres, o venres de compadreo, o domingo de entroido , o luns fareleiro e o martes de entroido .

Em Laza, o entroido começa no venres de folión, quando uma comparsa noturna corre nas ruas fazendo muito barulho para afugentar os espíritos malignos. No domingo de entroido entram em cena os peliqueiros. Depois é servida a deliciosa bica. O principal dia de festa em Laza é o luns de entroido : é a segunda-feira quando se celebra a Farrapada, a Xitanada e a Baixada da Morena.

A Farrapada , uma espécie de “batalha” em que se usam trapos manchados de barro, acontece pela manhã e antecede a chegada da Morena , um personagem vestido com uma manta e uma cabeça postiça de vaca, em madeira. Ele simula atacar as mulheres enquanto sua comitiva joga farinha ou terra com formigas no público.

O entroido de Cobres conta com referências escritas desde o século XVIII. As damas e os galáns correm as ruas ao ritmo das charangas. Todos trajam vestimentas especiais e as damas, usam chapéus que chegam a pesar até 7 kg. Ali, o galo é protagonista dos jogos: há a “corrida do galo”, o “galo no rio” e o “galo na vara”. Antigamente galos vivos eram usados nas brincadeiras, mas eles substituídos por sacos de terra , por exemplo. Em cada um desses jogos há muita diversão e prêmios para os vencedores.

Graças à sua localização no alto da montanha, Manzaneda manteve as tradições do entroido quase intocadas. As representações teatrais ali realizadas são dignas de destaque. Os Xenerais da Ulla, por sua vez, ridicularizam as guerras vividas na comarca desde a primeira metade do século XIX. No lombo de seus cavalos, eles galopam por Teo, Boqueixón, Padrón, Vedra, A Estrada, Silleda, Vila de Cruces, Touro e Santiago de Compostela. Ao longo do caminho eles celebram a festa, mas se encontram um “inimigo” uma “batalha” se inicia.

Em Viana do Bolo, um dos entroidos mais antigos, a duração da festa é de três dias, de domingo à terça-feira. Pelas manhãs o desfile de mecos faz o povo sair correndo pelas ruas. À tarde carroças de mecos bonitos e feos, entretém o público. O oso  “ataca” a todos a quem encontra, enquanto seu “amo” o domina com uma corda. Outra tradição bastante antiga é a de “parir a pita”. É principalmente no “domingo gordo” que os participantes , com seus tambores e ferramentas, espantam os maus espíritos. Todos os anos , essas celebrações atraem cada vez mais pessoas, interessadas na riqueza cultural e gastronômica da festa.

O ENTERRO DA SARDINHA: 

Para despedir-se do carnaval, os galegos realizam o “enterro da sardinha”: mulheres e homens vestidos de mulheres choram a morte da sardinha.

Há duas versões para a origem dessa comemoração :segundo a primeira , o costume de enterrar a sardinha nasceu em Madri, durante as festas que antecediam a Quaresma , há três séculos . Enterrava-se um porco num canal que se costumava chamar cerdin; o nome teria causado uma confusão linguística que foi se espalhando juntamente com a tradição. A segunda versão conta que o rei Carlos III ordenou trazer sardinhas para a celebração do final do entroido. Como os dias estavam muito quentes, as sardinhas estragaram e tiveram que ser enterradas para espantar o mau-cheiro. Atualmente, é com o enterro dessa sardinha simbólica, feita de papelão (e/ou com a queima de grandes sardinhas feitas de papel) que se marca o fim do carnaval e o início da Quaresma.

CONCLUSÃO:

Ao longo deste trabalho pudemos perceber que os entroidos galegos compartilham muitos pontos em comum, mas também muitas diferenças. Percebemos que apesar de sua proibição, o povo galego não deixou essa tradição acabar e com isso contribuiu em muito para a manutenção deste símbolo cultural.

Através dos tempos, essa tradição chegou até outras localidades (principalmente através das grandes massas de galegos imigrantes) , influenciando costumes de outros povos , como é o caso de alguns carnavais tradicionais celebrados nos dias de hoje, no mundo inteiro.

Essa festa, com milhares de anos de tradição, não se resignou à morrer e está ressurgindo com toda a potência e entusiasmo de uma gente jovem ; baseada na profundidade e na beleza de uma tradição que todos os galegos tem como herança de seus antepassados .

BIBLIOGRAFIA:

BALADO FRAN. Guía rápida del entroido em Galicia. La voz de Galicia.es . 2014 Disponível em: http://www.lavozdegalicia.es/noticia/galicia/2014/02/26/guia-rapida-entroido-galicia/00031393444223648812684.htm  acessado em 19 abr 2014 às 10:24.

BUENO, Eva Paulino. O enterro da Sardinha : O carnaval na Espanha . Revista espaço acadêmico n.70. 2007. Disponível em :http://www.espacoacademico.com.br/070/70bueno.htm acessado em 19 abr 2014 às 10:13

DE CAMARGO, PATRÍCIA. Enterro da Sardinha ?!!!- Carnaval em Las Palmas. Turomaquia. 2009. Disponível em: http://turomaquia.com/enterro-da-sardinha-carnaval-em-las-palmas/ acessado em 24 abr 2014 às 13:21

Orixen do enterro da xardiña . Blog da Biblioteca do CPI Cova Terreña. 2010. Disponível em : http://bibliocontame.blogspot.com.br/2010/02/orixen-do-entero-da-xardina.html acessado em 24 abr 2014 às 13:30

PERUCHELA. El Carnaval em Galicia. Aldeas Galegas. Disponível em : http://aldeasgallegas.com/ocarnaval.html          acessado em 19 abr 2014 às 10:40

ROLÁN, NIEVES AMADO. O Entroido Galego Na Idade Media. Referencias documentais . 2013. Disponível em : file:///C:/Users/Administrador/Downloads/youblisher.com-809557-O_Entroido_galego_na_Idade_Media_Referencias_documentais_Nieves_Amado_Rol_n.pdf  acessado em 24/04/2014 às 17:20

XIS, XULIO. El carnaval em Galicia – “La magia suprema del carnaval” . Turismo Galicia . Disponível em : http://entroido.galiciadigital.com/es acessado em 19 abr 2014 às 10:29

XUNTA DE GALICIA. Carnaval en Galicia. 2014. Disponível em : http://www.turgalicia.es/docs/mdaw/mtu0/~edisp/turga154816.pdf?langId=es_ES acessado em 24 abr. 2014 às 17:43.

XUNTA DE GALICIA. O Entroido en Galicia . Galicia o bo camiño. 2013 Disponível em : http://www.turgalicia.es/o-entroido-en-galicia acessado em 19 abr 2014 às 10:58.

[1] Dicionario da Real Academia Galega.

[2] Comparsas (espécie de fanfarras) de 30 à 40 pessoas de todas as idades que tocam seus tambores e instrumentos agrícolas nas ruas, com o intuito de afastar os maus espíritos.

[3] Bonecos cheios de palha e fogos de artifício vestidos de homem (compadre) ou mulher (comadre).

[4] Grupo de músicos com instrumentos de sopro e percussão.

[5]     Chouriço feito de carne de porco e condimentos. É feito com a tripa ou o estômago do animal.

[6] Essas máscaras pertencem aos entroidos de vilas que vão desde Maceda e Allariz , estendendo-se pelo sul da província e chegando, pelo leste , à Ribeira Sacra.

[7] Essas outras pertencem aos entroidos realizados numa zona não contínua que vai desde Cangas e Vilaboa ao sul até as comarcas do Deza e da Ulla.

Anúncios

Os galegos à mesa em Salvador

Fabiana Viana

Doutoranda em Antropologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Há importantes pesquisas sobre a chegada e adaptação dos primeiros imigrantes galegos em Salvador nas Ciências Sociais, destacando aquelas realizadas por Jeferson Bacelar, Célia Maria Leal Braga e Maria del Rosário Suárez Albán, que além de lingüista, escreveu artigos sobre o cotidiano dos galegos na Bahia enfatizando aspectos sócio-culturais.

Apesar destes trabalhos, pouco se fala sobre a imigração galega para a Bahia e o cotidiano dos imigrantes e seus descentes a partir da segunda metade do século XX, e esta quantidade se torna ainda menor quando consideramos o século XXI. Não obstante este número reduzido de pesquisas publicadas sobre a presença galega em Salvador há o agravante de não haver qualquer trabalho, no âmbito da antropologia, que aborde a alimentação dos imigrantes galegos e seus descendentes na capital baiana, sobretudo na contemporaneidade.

O imigrante galego ao sair de sua terra natal e se fixar no Brasil é proclamado por seus pares galegos como “brasileiros”, ao mesmo tempo em que é visto e categorizado pelos cidadãos brasileiros como “galegos”, assim, ele se encontra em uma situação limítrofe entre ser galego e ser brasileiro, preservando marcadores identitários da Galícia no Brasil, e, simultaneamente, diferenciando-se dos pares galegos que permanecem nas aldeias, por reproduzirem, consciente ou inconscientemente, costumes e práticas brasileiros.

A segunda geração, já nascida em Salvador, recebe dupla formação. Pois os filhos dos imigrantes galegos simultaneamente comungam da cultura galega no âmbito doméstico, principalmente através dos pais, e são inseridos na cultura brasileira, sobretudo através de instituições sociais públicas e amigos. A partir da terceira geração, a cultura brasileira predomina, mas os traços da cultura galega não são completamente esquecidos, principalmente através das associações galegas e nas comemorações e convívio familiares, tais como nas refeições, principalmente as festivas, celebradas em família.

As associações fundadas e mantidas por galegos em Salvador durante os séculos XIX e XX buscavam promover a sociabilidade entre os pares, a formação das redes – importantes para relações comerciais e matrimoniais – e o auxílio mútuo entre os conterrâneos durante este período. Algumas destas já não existem mais, outras foram submetidas a mudanças para se manterem.

No entanto, ainda é possível identificar associações galegas em Salvador que se mantém ativas no objetivo de manter a cultura galega na Bahia. Elas celebram festas de caráter cultural e religioso para o grupo galego e, na maioria destas celebrações, são oferecidas comidas e bebidas que estabelecem vínculo afetivo e mnêmico ao grupo.

As comidas de festas se diferenciam das comidas cotidianas. Enquanto a cozinha galega – através dos callos, das empanadas e dos cocidos – está mais presente nas ocasiões festivas ou quando há maior quantidade de comensais na mesa, no dia-a-dia dos galegos e descendentes em Salvador predomina a cozinha brasileira tradicional, com a famosa tríade feijão-arroz-carne, seguindo-se inclusive o horário para as tomadas de refeições usuais na sociedade brasileira, entre 12:00 horas e 13:00 horas normalmente. A cozinha baiana também é servida em momentos pré-estabelecidos, muitas vezes com vínculo religioso, tal como a Sexta-feira da Paixão, onde é comum a oferta de caruru, vatapá e moquecas nas mesas em Salvador.

A adição de ingredientes tipicamente brasileiros nas receitas galegas dos imigrantes que estabeleceram moradia em Salvador e seus descendentes que já nasceram aqui, incluindo em seus pratos-totem, indica a existência de uma “mestiçagem gastronômica” entre este grupo étnico na capital baiana. A mestiçagem gastronômica refere-se às contínuas alterações (adição, substituição e suprimento de ingredientes) que ocorrem nas receitas originais quando preparadas em outros locais.

Os ensinamentos gastronômicos podem ser transmitidos através das gerações de distintas formas, podendo acontecer através do ensinamento de mães para filhos, a partir de trocas entre os pares, ou ainda por aulas ministradas por chefes de cozinha ou experientes cozinheiros em cursos de culinária temáticos promovidos por associações e instituições hipano-galegas em Salvador. Os livros de receitas e os sites disponíveis na internet também são alternativas atuais.

A alimentação não é fixa, ela se renova a todos os momentos. A escolha do menu, a eleição e a substituição dos ingredientes, a forma de preparo, os meios de armazenamento e descarte e a presença dos comensais ao redor da mesa vão além da ideia primordial de nutrição e manutenção do corpo e se diferenciam a partir das gerações; enquanto a primeira geração possui maior vínculo com o lar, principalmente as mulheres, a partir da segunda observou-se menor índice de dedicação exclusiva ao ambiente doméstico, aliando a atividade doméstica ao mercado de trabalho. A terceira geração, e as seguintes, apresentaram-se mais resistentes aos ensinamentos gastronômicos e mais adeptas a novos alimentos e formas de consumo.

O amigo Delmiro: Uma análise da “visão do outro” no conto de Gonzalo Navaza

Tiago Correia

Aluno de Lingua e Cultura Galega na Universidade Federal da Bahia

RESUMO: O artigo busca analisar a narrativa “O amigo Delmiro” presente em “Erros e Tánatos” (2002), de Gonzalo Navaza, tendo como principal base teórica Homi. K. Bhabha e o seu conceito sobre a construção da visão do outro. A análise problematiza o conto a partir da ideia de estereótipo construído pelo colonizador. E assim, tenta diagnosticar de que forma ele se manifesta e o quanto nos encaminha a fazer pré-julgamentos de sujeitos.

INTRODUÇÃO

Minha proposta é apresentar e problematizar o conto, O amigo Delmiro, que compõe o livro, Erros e Tánatos, do escritor galego Gonzalo Navaza. Pretendo desenvolver e articular a discussão da narrativa a partir da visão do outro. Entretanto, não me abstenho dos desvios que possa acontecer ao longo do desenvolvimento das questões pensadas, como afirma Barthes (1973), o prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.

Mas, antes de qualquer levantamento sobre os aspectos da literatura presentes no texto literário, entendo como de grande importância situar quem é o autor do conto e o lugar em que se passa a narrativa.

O AUTOR

Gonzalo Ramón Navaza Blanco, nascido na cidade de Lalín no dia 28 de fevereiro do ano de 1957. É um escritor contemporâneo premiado, que tem sua obra literária passeando por diversos gêneros, cito-os: Poesia, Narrativa, Ensaios e Tradução. Atualmente, é professor titular de literatura na Universidade de Vigo.

 O CONTO

O conto – O amigo Delmiro – acontece na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Entre as capitais do nordeste brasileiro, é a maior delas e a terceira de todo o território nacional. Localiza-se em uma península pequena, em formato de triângulo, separando a Baía de Todos os Santos das águas abertas do Oceano atlântico.

A cidade é conhecida mundialmente por sua beleza tropical, pela arquitetura do período da colonização e pela culinária que sofreu influências dos portugueses e dos negros africanos escravizados. Além disso, possui praias famosas como as do Porto da Barra, Rio Vermelho, Ondina e a de Itapuã que serviu de inspiração aos músicos e poetas Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes.

O soteropolitano é um povo conhecido por ser acolhedor e hospitaleiro. Muitos dos que desembarcam na cidade pela primeira vez, ao se sentirem acolhidos, quase sempre escolhem regressar para visitá-la novamente, como quem visita um amigo ou familiar, enquanto, outros, escolhem morar em definitivo, como afirmar Júlia Kristeva, a partir do momento em que os estrangeiros têm uma atitude ou uma paixão, eles fixam raízes.

Antes de o conto ser iniciado, aparecem no texto em epígrafe dois versos da música O Quereres do cantor e compositor baiano Caetano Veloso. Os versos são: Onde queres revólver sou coqueiro / e onde queres dinheiro sou paixão. Os dois trechos da música recepcionam o leitor antes de iniciar a leitura do conto, e através das figuras de linguagem presentes, os versos antedizem o que podemos esperar no decorrer da leitura da narrativa. Em síntese, aparecem nos versos, violência e passividade em oposição. Um leitor atento ao que antecede o texto poderá iniciá-lo, esperando ao que porventura o pré-texto disse.

O ESTEREÓTIPO

Um dos aspectos que busco problematizar e apresentar neste artigo é de como o estereótipo influencia em determinadas atitudes e na criação de imagens que são consideradas como modelo. A relação de poder e saber terá grande influência na recepção e realização do estereótipo, uma vez que, saber e poder estarão vinculados a um grupo minoritário, mas que exerce fortes influências diante da maioria, quase sempre desinformada e subalternizada.

A zona conflituosa da narrativa em – O amigo Delmiro – é alimentada a partir dos estereótipos aos quais fomos submetidos a internalizar e ter como verdade. Percebemos a força deste ponto, quando buscamos desconstruir os estereótipos e vemos que vestígios das ideias conservadoras ainda nos atravessam.

A atitude do senhor Antonio Castro, em ir caminhar na praia, não se encaixa ao padrão dos que caminhavam na orla da cidade “Saía de casa a media manã, sombreiro de palla algo ladeado e cana e despreocupado pola avenida adiante, satisfeito do bem que respondían as pernas e de súa imaxe de vello mozo com seus desportivos brancos.”, e ele tem consciência da imagem a que está relacionado. Após caminhar na orla, o senhor Antonio Castro refugia-se na sombra duma das barracas da praia da barra para ler, comer e beber alguma coisa.

Este lugar – a sombra duma barraca da praia da barra – em que o senhor Antonio Castro busca para descansar ao final da caminhada, é muito mais próximo do lugar em que a sociedade relaciona a uma pessoa idosa.

Neste contexto, existe o que chamarei de (des)pintura do quadro social a que se insere vários grupos da sociedade. Um paradoxo, ao qual entendo como uma tentativa de não relacionar um sujeito a uma única imagem, mas que existe uma pluralidade que os sujeitos podem exercer.

Os filhos e os netos do senhor Antonio Castro não ficavam tranquilos com suas saídas para caminhar na orla da cidade. Consideravam que ele, o idoso, seria um tipo fácil de isca para pessoas de má índole se aproveitar. Pois aos idosos estão ligados a adjetivos que os classificam como sujeitos de pouca força física e incompetência numa reação rápida de autodefesa. Estes estereótipos subalternizam a condição da pessoa de mais idade diante das outras e o impedem de praticar inúmeras atividades comumente exercidas por pessoas mais jovens.

Em uma classificação preliminar Homi K. Bhabha nos traz o seguinte:

[…]   o estereótipo   é um modo de representação complexo, ambivalente e contraditório, ansioso na mesma proporção em que é afirmativo, exigindo não apenas que ampliemos nossos objetivos críticos e políticos mas que mudemos o próprio objeto da análise. (BHABHA, 1998, p. 110).

O narrador busca justificar a preocupação dos filhos e netos do senhor Antonio Castro, fazendo um retrato marginalizado e de precarização da cidade de Salvador. Organiza em um único parágrafo fragmentos da cidade e une-os, formando uma imagem contrária àquela que é comercializada nos países europeus. Este retrato legitima o discurso de preocupação sobre a falta de competência física para se defender dos inúmeros perigos que a cidade oferece.

Incomodado com a situação a qual é submetido pelos filhos e netos, o senhor Antonio Castro diz “Que se algún día lle saía um ladrón lle os poucos cartos que levase encima e vía. Que había mais de sessenta anos que estaba naquela cidade e que sempre soubera gobernase pela súa conta. Que non estaba disposto a renunciar, simplesmente por medo a um moleque…”. A incompatibilidade de visão e a não renúncia das atividades por causa dos supostos perigosos da cidade gera conflito sobre as atitudes tomadas pelo senhor Antonio Castro.

Nenhum obstáculo o retém e todos os sofrimentos, todos os insultos, todas as rejeições lhe são indiferentes na busca desse território invisível e prometido, desse país que não existe mas que ele traz no seu sonho e que deve realmente ser chamado de um além. (KRISTEVA, 1994, p. 13).

Segundo o narrador, houve um tempo em que na cidade de Salvador habitava a tranquilidade, mas com os anos passados, a rotina da capital da Bahia estava irreconhecível. Os bairros de classe média alta tiveram os casarões abandonados por seus moradores que os trocaram por arranha-céus. As casas abandonadas destes bairros foram tomadas por pessoas que estavam à margem da sociedade.

Diferentemente dos seus filhos e netos, o olhar que esse homem estrangeiro de setenta anos lança e busca na cidade é tentando encontrar o que lhe fora prometido um dia, ou que talvez, ele já viveu, mas que, na atualidade, não existe mais, acabou. Neste momento, existe no estrangeiro uma força maior que o torna incapaz de aceitar que a terra prometida deixou de existir, ou sequer nunca existiu, de fato.

O medo que os filhos e os netos sentem com a circulação do senhor Antonio pela cidade irá afetar a imagem do nativo – o amigo Delmiro. É a partir do seu surgimento na narrativa que as visões dos personagens ganham combustível e vão sendo reveladas pelo narrador.

O nativo é descrito pelo senhor Antonio Castro a partir de algumas das suas características físicas, “[…] apareceu por primeira vez aquel home, un cara de idade indefenida, forte e suorento, achegándoselle á mesa cun amplo sorriso”. No imaginário popular, os atributos usados para caracterizar o nativo faz entender que o homem que lhe chegou à mesa com um amplo sorriso seja afrodescendente.

A figura estereotipada do homem negro foi construída a partir de princípios morais brancos conservadores que encara o afrodescendente como um sujeito marginalizado. O estereótipo de violento e perigoso provém da resistência manifestada que os negros tiveram contra ao processo histórico escravista no Brasil por Portugal.

O estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença… constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e socais. (BHABHA, 1998, p.117).

No período escravista, Salvador foi porta de entrada aos negros africanos trazidos pelos portugueses para ser escravizados na colônia portuguesa. E em decorrência disso, é considerada a cidade com maior índice populacional de negros fora do continente africano.

 […] “Onde quer que eu vá”, lamenta Fanon, “o negro permanece negro” – sua raça se torna signo não-erradicável da diferença negativa nos discursos coloniais. Isto porque o estereótipo impede a circulação e a articulação do significante de “raça” a não ser em sua fixidez enquanto racismo. Nós sempre soubemos que os negros são licenciosos… […] (BHABHA, 1998, p. 117).

O nativo se apresenta ao estrangeiro com o nome de Delmiro, amigo do Waldo Castro, um dos seus filhos, e o senhor Antonio Castro também se identifica. A identificação do estrangeiro faz com que o nativo tenha uma reação impulsiva que o faz repetir seu nome e dizer que é amigo de um dos filhos do senhor Antonio. A não- anonimização dos sujeitos possibilita-os a dialogar, sabendo da identidade d’outro. Neste caso, isso permitiu que o Delmiro pedisse permissão para se sentar à mesa – “Non lhe importa que sente?”.

 Saber o nome do nativo e que ele é amigo de um dos seus filhos, não bastou para que não houvesse desconfianças sobre a figura daquele indivíduo que lhe chegou à mesa “suorento e com um sorriso largo”. O narrador diz que Delmiro “Apartou unha cadeira e ofreceulla sem deterse a pensar que aquel home aparentada polo menos dez anos mais ca calquera dos seus filhos”. O senhor Antonio Castro é movido de uma desconfiança sobre aquele homem que lhe chegou de repente dizendo ter um passado atravessado com o seu.

A desconfiança é provocada decorrência das notícias que circulam na cidade sobre homens que se aproveitam de pessoas frágeis para poder golpeá-las. E, claro, essas pessoas são marcadas caracteristicamente por um estereótipo que é desenhado pelo homem branco colonizador.

[…] o estereótipo dá acesso a uma “identidade” baseada na dominação e no prazer, na ansiedade e na defesa, pois é uma forma de crença múltipla e contraditória em seu reconhecimento da diferença e recusa da mesma. Esse conflito… dominação/defesa… tem uma significação fundamental para o discurso colonial. (BHABHA, 1998, p. 116).

O estrangeiro também passa pelo processo de perda de identidade, entretanto, não como sujeito à margem da lei. A marginalização a que o estrangeiro é submetido é aquela em que há a perda da singularidade, mas que não o subalterniza, ao contrário de como acontece com o negro. O nativo deixa de nomear o estrangeiro pelo nome de cartório e passa a chamá-lo de acordo com sua naturalidade ou descendência “… Waldo Castro, si señor; ainda que eu sempre lle chamei Castro. Tamén lle chamabamos Español porque vostedes son españois, non é?”.

A identidade desse sujeito não oferece perigo no mundo ocidental, pois as relações a que ele se submeterá com o nativo tenderão a ser agradáveis e de compartilhamento de culturas. Além disso, o estrangeiro aparenta não oferecer perigos ao nativo, pois seu comportamento é lido como quem se encontra perdido e tenta encontrar um eixo para se encaixar.

El viajero es ante todo un extranjero, un intruso, un “marginal”, como afirma Simmel. él se aleja de su mundo propio e ingresa en territorio ajeno, su condinción liminar se expressa en las costumbres de diversos pueblos. (ORTIZ, 1998, p. 3).

O amigo Delmiro confessa ao senhor Antonio que fazia alguns anos que estava sem notícias do Waldo Castro e que não sabia da sua mudança para trabalhar como diretor duma agência em São Paulo. Em seguida, Delmiro segue com o senhor Antonio até a sua casa, lá o amigo pegaria o número de contato do Waldo. Ao chegar à casa como bom anfitrião, o velho oferece ao amigo do filho uma caipirinha feita por sua neta Rosiña.

A INTRIGA

No conto, a figura da neta aparece para manifestar questões que estão vinculadas ao estereótipo sobre a figura do nativo afrodescendente. Se o estrangeiro branco tende a ser considerado sujeito inocente, tranquilo e desnorteado territorialmente; o nativo é encarado como indivíduo duvidoso. E se o nativo em pauta for o homem negro, é atribuído a ele adjetivos que o subalternizam e inferiorizam diante dos demais grupos populacionais e sociais.

A primeira manifestação de desconfiança que a neta tem com a presença do Delmiro, aparece quando o narrador diz “no corredor, apegada á porta, estaba a súa neta com cara de alarma”. Neste trecho fica entendida a suspeição sentida pela neta e as falas que o sucedem reforçam esta impressão. A partir deste momento, inicia-se o conflito que colocará em questão a legitimidade do estereótipo de que o nativo afrodescendente é licencioso e o estrangeiro/nativo-branco, sujeito íntegro, incorrupto etc.

– Quen é ese tipo que vén con vostede, avó? – perguntou em voz baixa.

– É um amigo do teu pai. Quere o seu número de telefono – respondeu o avó tranquilamente.

– Amigo do meu pai? Amigo do meu pai! Como pode crer que sexa amigo do meu pai um   fulano com esa pinta? (grifo meu) (NAVAZA, 2002, p. 37-38).

Os termos grifados podem ser considerados problemáticos, pois quando inseridos num contexto conflituoso, em que as relações narradas estão atravessadas de estereótipos e preconceitos baseados em características físicas e históricas, passam a ter carga semântica que nos possibilitam compreender a que tipo de sujeito a neta está se referindo.

No diálogo entre o senhor Antonio Castro e Rosiña (a neta) também fica manifestado um tipo de hierarquização e separação entre branco e preto. Como se ela tentasse impedir as águas escuras do Rio Negro e as águas claras do Rio Solimões, no Amazonas, de se tocar. A analogia com os dois rios serve para exemplificar e dizer que os dois, negros ou claros, não deixam de serem rios, de ter peixes, alimentar os ribeirinhos e ter o próprio curso.

A visibilidade do Outro racial/colonial é ao mesmo tempo um ponto de identidade (“Olha, um negro”) e um problema para o pretendido fechamento do interior do discurso. Isto porque o reconhecimento da diferença como pontos “imaginários” de identidade e origem – tais como preto e branco – é perturbado pela representação da cisão no discurso. (BHABHA, 1998, p. 124).

O senhor Antonio tenta explicar para Rosiña como conheceu o Delmiro, mas ela, incontestada, não dá ouvidos ao avô e responde, dizendo que a história que ele a conta é igual a que soube por uma vizinha. E usa o argumento de que “Casos semelhantes cóntase a centos, avó. Tal como anda o Brasil, os vellos son presa fácil e apertecible para estes desalmados”. Novamente aparece na fala da neta a ideia de que pessoas de mais idade estão propicias a serem vítimas de indivíduos maliciosos. E aterroriza dizendo:

– Entroulle na casa, fixole as do demo e torturouna ata que lle dixo as claves das tarxets de crédito, e logo deixouna atada mentres lle baleiradaba as contas dos bancos. E non a matou de milagre. (NAVAZA, 2002, p. 38).

A neta tem uma visão alterada da realidade, uma vez que, além de sua fala estar atravessada por ideais moralistas, idealizados pelo colonizador, a sua visão, também, possui características exagerada, dramática e   trágica, assim como, humorística, uma vez que percebemos que a narrativa ganha velocidade e conflito a partir de sua entrada no conto.

Tentando tranquilizar Rosiña, o senhor Antonio busca convencê-la de que o sujeito em questão é amigo do Waldo Castro e que ele sabe de histórias do seu filho: “Sabe que é avogado, e que somos españois, e que Waldo estivo a punto de morrer afogado cando tiña vinte anos. Estou seguro de que non hai ningunha razón para a desconfianza.”. Inconvencível com o que é dito pelo avô, a garota adverte-o, dizendo “Que vostede é espanhol pode notalo calquera polo acento!”. E propõe que o avô faça o amigo Delmiro ligar para Waldo Castro naquele instante.

O senhor Antonio seguiu o plano da neta e deu o contato do filho Waldo Castro e sugeriu que o amigo Delmiro ligasse ali mesmo. Enquanto dizia tais palavras, observava na fisionomia do nativo se ele tinha alguma reação que levantasse suspeita e correspondesse às desconfianças da neta, mas nada o fez despertar dúvidas.

Segundo o narrador, enquanto Waldo e Delmiro conversavam ao telefone, “o vello observábao compracido.”. Então, a desconfiança da neta que por um momento lhe havia feito duvidar sobre a índole do nativo, agora, fazia-o respirar aliviado e rir dos medos dela.

Apesar do velho se encontrar certo de que o filho e o amigo Delmiro estavam realmente na linha telefônica conversando e relembrando de episódios da vida que viveram juntos, a neta aparece “novamente no corredor, detrás da porta” sem se deixar convencer, volta a insultar o avô e causar nele outra dúvida: se realmente Waldo e Delmiro estavam conversando ao telefone ou se Delmiro estava apenas encenando que conversava com Waldo.

A desconfiança da neta é o combustível para que a problemática se desenrole, esta suspeita insaciável é alimentada a partir das ideias conservadoras que sempre aparecem no seu discurso. Além disso, ela transporta essa dúvida sobre o caráter do amigo Delmiro ao avô que, mesmo após acreditar que o rapaz é amigo do filho, recua com os argumentos levantados pela neta.

Insatisfeita com o que consegue ouvir, a neta entra na sala com o avô e solicita ao amigo Delmiro que também deseja falar com o seu pai, Waldo Castro. Para ela, o fato de escutar o diálogo do nativo é insuficiente, existe uma necessidade de comprovar e testar sua veracidade.

A este sujeito é cobrado a todo instante sua identidade, o seu cartão de visita e comprovação de bom caráter. O nativo afrodescendente, morador da capital baiana, em especial, passa todos os dias por este policiamento, por uma necessidade interminável de cobrança para querer saber quem ele é.

A situação em que se encontra Delmiro na narrativa não é particular a ele, existem muitos outros   “Delmiros” em Salvador que passam por episódios semelhantes. O mais trágico dessa situação é que o moralismo colonizador elitista está atravessado em nós, e manifesta-se tanto do homem branco para o homem afrodescendente como no homem afrodescendente contra o próprio homem afrodescendente, raramente do afrodescendente contra o branco e o estrangeiro.

O negro é um animal, o negro é mau, o negro é ruim, o negro é feio; olha, um preto, está fazendo frio, o preto está tremendo de frio, o preto está tremendo porque está com frio, o menininho está tremendo porque está com medo do preto […] mamãe, o preto vai me comer. (BHABHA, 1998, p. 126).

O DESFECHO

Ironicamente quando a neta se aproxima do Delmiro, a ligação sofre uma falha e começa a cortar “– Castro? Castro? Podes oírme? Castro…? Oh, parece que se cortou…” então, a moça que não suportava a ideia da existência da amizade entre Delmiro e Waldo, seu pai, interpreta a falha da ligação como uma encenação para convencê-la e ao avô de que o corte impediu a continuidade da conversa entre eles. Isso foi suficiente para Rosiña julgá-lo e condená-lo como sujeito mau caráter e que suas desconfianças estavam coerentes, como afirma Bhabha (1998), a população colonizada é então tomada como a causa e o efeito do sistema, presa no círculo da interpretação.

Numa tentativa de autodefesa, após o julgamento do sujeito que o narrador enumerou sendo “individuo… impostor perigoso” (grifo meu), Rosiña corre para o corredor e volta segurando numa das mãos um revólver, em estado psíquico completamente fora de si e exaltada ordena “– Arriba as mans, arriba as mans!”.

Descontrolada, a neta dispara um tiro que acerta o teto, enquanto os três – o avô, o amigo Delmiro e Rosiña – começaram a gritar, assustados. O amigo tentou se esconder atrás de algum móvel da casa, mas a neta enlouquecida com a arma na mão saiu atrás dele e lhe disparou dois ou três tiros na porta do prédio. De volta para casa e eufórica ela chama a polícia. Em seguida, procura pelo avô que estava imóvel desde o primeiro tiro contra o teto.

Esta última cena resulta da realização prática do que compõem os estereótipos a que o homem negro é submetido. Os tiros disparados podem ser compreendidos como tecnologia que tem como função solucionar os problemas de violência que circula a cidade. Segundo as ideais moralistas constituídas pelo colonizador, o homem que oferece perigo é justamente aquele que foi escravizado, agredido e que possui um passado histórico sofrido pela violência do colonizador.

O negro nessa sociedade e principalmente na cidade de Salvador é encarado com esta visão agressiva e preconceituosa. Enquanto os habitantes brancos, que tem em sua pele a cor do colonizador, não despertam desconforto e desconfiança sobre a sua índole e suas intenções para com o outro.

No conto, ao mesmo tempo em que o nativo afrodescendente é encarado como sujeito violento e duvidoso com base em estereótipos, o branco/estrangeiro é visto como sujeito pacífico. Mas, no conto, as reações violentas não partem do “amigo Delmiro”, e sim da neta Rosiña, que aparece na narrativa como agente problematizadora e, ao mesmo tempo, solucionadora da problemática.

As atitudes realizadas pelo nativo são todas suspeitas e colocadas em questão, enquanto as de Rosiña são encaradas como autodefesa. O sujeito que colocam como agressor é quem é agredido. Entretanto, ele não sai como injustiçado e sim como quem foi combatido. Ratifico, esta reação de combate tem como base os estereótipos que colocam o negro numa posição subalternizada e desfavorável nas sociedades modernas, como afirma Kristeva (1994), o estrangeiro continua a se sentir ameaçado pelo território de outrora, tragado pela lembrança de uma felicidade ou de um desastre– sempre excessivos.

Enquanto de longe se ouvia a sirene do carro da polícia, no telefone em que o amigo Delmiro conversava com Waldo, soou uma voz que dizia: “– Ainda segue aí o Delmiro? Estabamos falando… e de repente cortouse a chamada.”.

No telefone, após a linha recuperada, o amigo do Delmiro, Waldo Castro, o chama, enquanto ele, ensanguentado, fica estendido em frente ao prédio do senhor Antonio Castro ao tempo em que a neta se dá conta do que acabou de fazer.

Portanto, o nativo é endemonizado, tomando-se por base estereótipos que o marginalizam e subalternizam. Enquanto o estrangeiro é idealizado como sujeito pertencente à entidade pura e do bem e que necessita ficar alerta aos perigos que o nativo lhe oferece. Ambas as ideias são carregadas de inocência e preconceitos. O que está em jogo é a imagem do outro, não suas atitudes, e ela aparece sendo suficiente para julgamento.

Referências Bibliográficas:

BHABHA, Homi K. O local da Cultura / Homi K. Bhabha; tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

BARTHES, Roland, 1915-1986. O prazer do texto/ Roland Barthes; (tradução J. Guinsburg), São Paulo: Perspectiva, 2015. (Elos; 2/ dirigida por J. Guinsburg).

NAVAZA, Gonzalo. Erros e Tánatos / Ed. La Voz da Galícia, 2002

KRISTEVA, Júlia, 1941 – Estrangeiros para nós mesmos / Júlia Kristeva; tradução

Maria Carlota Carvalho Gomes. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

ORTIZ, Renato.Otro Território/ Renato Ortiz; Traducido por Carlos E. Córtés Sánchez– Santafé de Bogotá: Convenio Andrés Bello, 1998.

Dia Nacional da Galícia em Salvador de Bahia

A próxima segunda-feira dia 25 de julho é o Dia Nacional da Galícia. Na Universidade Federal da Bahia, para comemorá-lo, terá lugar, a sala de videoconferências PAFII a seguinte atividade:

  • Palestra sobre o Dia da Galicia e o caminho de Santiago a cargo de Luciano Santos Borges, da Associação Bahiana de Amigos do Caminho de Santiago.
  • Projeção do documentário Afranio, de Víctor Coyote (2009), sobre como o deputado Alonso Ríos tenta fugir pela ribeira do Minho no início da Guerra Civil espanhola.

Feliz Dia Nacional da Galícia a todas e todos os leitores do Quilombo Noroeste!

13719626_585344144986594_8922525991391858925_o.jpg

A opera omnia de Rosário Suárez Albán e a revitalização dos estudos galegos na Bahia

Juan Boullosa

 Bolsista do Centro de Estudos de Língua e Cultura Galega (CELGA) da Universidade Federal da Bahia

Ganhador do 1º prémio ao melhor trabalho galego convocado pelo Centro de Estudos da Língua Galega (CELGA) do ano 2015 na Universidade Federal da Bahia.

 RESUMO

Este ensaio tem como objetivos principais apresentar o projeto de edição da opera omnia de Profa. Rosário Suárez Albán[1], fundadora do de Estudos da língua e Cultura Galegas (CELGA) – núcleo acadêmico vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) – e problematizar de que forma este contribui para a revitalização dos estudos galegos em Salvador. Tal projeto toma como base o conjunto de obras da mencionada investigadora, docente aposentada desta instituição universitária, que pelo trabalho exímio e idôneo desenvolvido junto ao Centro de Estudos Galegos (CEG) e posteriormente ao CELGA, destacou-se pelas diversas pesquisas na área. Estão catalogadas até o momento em torno de 20 obras, algumas de sua autoria e outras de autoria compartida. São publicações próprias, artigos, livros, comunicações etc. Todas essas obras formam então o corpus do projeto e será através dele que trataremos da revalorização da cultura da Galícia. Salientamos que este corpus ainda está em construção, dada a situação de dispersão em que se encontram as obras. Apresentado o projeto, discutiremos as dificuldades e os percalços inerentes a este labor filológico e os critérios adotados para a sua solução. Por fim, traçando este panorama e as contribuições deste projeto para os estudos galegos, almejamos tecer algum comentário sobre o futuro destes e do próprio CELGA na Bahia.

1 INTRODUÇÃO

Muitos anos se passaram desde as primeiras emigrações ocorridas na Galícia. Estamos falando de mais de cem anos de história. Uma história sofrida, feita de muitos homens e mulheres que “abandonaram” seu passado e seu presente para garantir um futuro melhor. Enorme é a quantidade de relatos que se tem dessa época, de jovens que saíram sozinhos em busca de um emprego, de homens que deixaram filhos e esposa para trás, de mulheres que nunca mais tiveram notícia de seus entes queridos…. Hoje, o que temos como fruto dessas corajosas e muitas vezes dolorosas iniciativas são comunidades galegas espalhadas por todo o mundo. Alemanha, Argentina, Chile, Cuba, Estados Unidos da América (EUA), França, Brasil, estes são apenas alguns dos vários destinos escolhidos pelos desbravadores galegos. Sim, desbravadores, porque apesar do medo e do horizonte incerto que tinham, não recuaram, seguiram adiante, explorando esse mundo novo. Estes galegos deixaram marcas nas cidades aonde chegaram. Não se trata somente de marcas materiais, mas também socioculturais, que se expressam de maneira mais ou menos acentuada não só pela linguagem, mas também pela intensa forma de produção e apropriação do espaço a sua volta.

Os galegos e galegas foram verdadeiros agentes dentro do processo de formação cultural por onde passaram, criando, alterando esses espaços e deles se apropriando conforme sua própria lógica. Segundo Harvey apud Corrêa (1997), a cidade pode ser considerada uma expressão concreta de processos sociais construídos sobre o espaço, refletindo, por extensão, as características da sociedade. Por isso, nos casos em questão, é impossível dissociar cada uma dessas sociedades da comunidade galega que acolheram. Sendo evidente a importância desses emigrantes para a construção da história galega e de tantas outras culturas, justifica-se a necessidade de um estudo que abranja os aspectos culturais, linguísticos e históricos galegos na sociedade baiana, mormente a soteropolitana.

2 UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O PROJETO

Podemos dizer que o projeto toma como seu objeto de estudo não um daqueles desbravadores, mas o fruto desse desbravamento. Rosário Suárez Albán, filha de emigrantes galegos, torna-se uma importante representante dentro deste âmbito histórico e linguístico. Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestra em Língua Portuguesa pela mesma instituição (pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística), desenvolveu ao longo dos anos diversas pesquisas sobre o desempenho linguístico dos galegos na Bahia. Serão estes estudos o foco do nosso trabalho. Foram mais de trinta anos de magistério e várias produções, divididas entre artigos, livros, comunicações em eventos, dissertações, material que compõe o corpus do plano de pesquisa, que nasce inspirado pelo valor do legado material e imaterial de tais escritos para os estudos linguísticos e literários sobre a língua, cultura e literatura galegas. Apesar da relevância dos de Suárez Albán, suas obras encontram-se esparsas, algumas delas praticamente inacessíveis, fazendo-se então necessária uma compilação fidedigna desse material e uma possível recuperação daqueles que por ventura estiverem deteriorados. Trata-se de um labor filológico que parte do resgate, visando a publicação e disponibilização deste espólio para todo o público, dilatando o alcance da obra.

2.1 BREVE TRAJETÓRIA ACADÊMICA DE ROSÁRIO SUÁREZ ALBÁN[2] 

Antes de prosseguir com a explanação sobre o projeto, é cogente mencionar a trajetória acadêmica desta que deu origem a todo este diálogo e que honra sua ascendência galega com toda a sua competência e vida dedicados à língua galega. Como já foi dito em caráter introdutório, Maria del Rosário Suárez Albán, é filha de imigrantes galegos radicados na Bahia. Após os estudos primários e secundários, ingressa, em 1970, através da seleção do vestibular, no curso de graduação em Letras Vernáculas da UFBA, dando início, em 1976, ao seu Mestrado, desenvolvendo pesquisa sobre o desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia, sob a orientação da Profa. Myrian Barbosa da Silva, havendo defendido sua dissertação em 1978. Já no primeiro ano de seu curso de mestrado, é admitida — via concurso público — como docente efetiva do Departamento de Letras Vernáculas desta mesma universidade, múnus que desempenharia eximiamente por quase três décadas. Foram 30 anos de magistério dedicados a ministrar disciplinas como: Análise Textual da Língua Portuguesa, Dialetologia do Português, Estudo das Normas Urbanas Cultas Brasileiras, História da Língua Portuguesa, Introdução ao Estudo Científico da Língua Portuguesa, Literatura Popular, Língua Portuguesa na Comunicação de Massas, Morfossintaxe Sincrônica da Língua Portuguesa e Iniciação Científica da Língua Portuguesa no 1º e 2º graus.

Suárez Albán lecionou também em cursos de pós-graduação lato sensu (circunscritos à UFBA, à UEFS ou à UNIFACS), principalmente a disciplina Técnicas de Redação. Participou de inúmeras atividades de extensão universitária e o exerceu funções administrativas dentro da UFBA, mas a esfera em que se destacou foi no desenvolvimento de rotas de pesquisa científica, muitas vezes em parceria acadêmica com a sua eminente colega Doralice Fernandes Xavier Alcoforado (in memoriam), no âmbito dos projetos Norma Urbana Culta Brasileira (NURC) e Documentos da Memória Cultural. A obra de Suárez Albán por si só já testemunha a sua dedicação às áreas do saber às quais consagrou toda a sua trajetória intelectual e docente: os estudos linguísticos e literários em geral; os estudos sobre a língua, cultura e literatura galego-portuguesas, em particular. Devotada à sua terra natal, a Galícia, construiu uma produção quantitativa e qualitativamente considerável sobre diversos temas ligados a essa comunidade autônoma, mormente sobre o seu romanceiro popular trazido ao território cultural baiano e nele encrustado, o desempenho linguístico de imigrantes galegos e o delineamento do próprio processo histórico da migração de seus compatrícios.

2.2 ESCOPOS E METAS DA PROPOSTA

Pormenorizando, tem-se como objetivos principais do projeto:

  • A edição de todos os trabalhos da pesquisadora para criar um volume que contenha sua opera omnia, a modo de homenagear a sua trajetória profissional e intelectual na UFBA.
  • O estudo crítico da sua obra, em especial sobre aspectos concernentes à linguística comparativa entre o galego e o português e os fundamentos teóricos e metodológicos que a sustentam, abarcando também os trabalhos referentes à literatura de tradição oral dos imigrantes galegos na Bahia.
  • O resgate destas obras do abandono em que se encontram para trazê-las novamente à luz de novas discussões.

2.3 ASPECTOS METODOLÓGICOS: A ROTA DE INVESTIGAÇÃO

A metodologia traçada está baseada, inicialmente, no rastreamento das obras. Grande parte delas está disponibilizada na Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa (BURMC) e facilmente localizadas por um buscador online[3] desenvolvido pela própria UFBA e de livre acesso aos estudantes. Contudo, existe outra parte, não menos importante, que está fora dos limites da universidade e, por isso, de difícil contabilização. É aquela que está sob os cuidados de familiares, amigos, colegas que participaram de alguma forma da vida acadêmica da fundadora do CELGA. Estes materiais, até então desconhecidos, chegam até a equipe responsável pelo projeto através de uma árdua pesquisa e consulta feita com cada um desses potenciais mantenedores. Tudo isso acaba dificultando o andamento das atividades, que ficam dependentes do aparecimento de uma nova obra a ser incorporada, o que nos faz considerar tal labor como fluido e escorregadio, pois é aberto.

Após a compilação dos materiais que formariam o corpus do projeto, surge a segunda etapa, que é a digitalização e digitação dessas produções. A digitalização em si é um processo “simples”, pois se resume a separar e escanear as obras. Sendo a intenção salvaguardar os documentos e disponibilizá-los em meios mais acessíveis, a digitalização seria o suficiente. Porém, muitas obras estão com seu suporte deteriorado pela força do tempo, o que impossibilita o escaneamento, sob a pena de danificar os originais.

Temos também a questão da publicação de um livro abrangendo essa opera omnia e por questões de formatação, os arquivos com extensões como: JPEG, BMP, TIF, PNG, GIF, PBM, PGM e PPM, dificultariam a produção do mesmo. Tomando como ideal então a edição no formato DOCX – textos produzidos pelo Microsoft Office Word – optamos por digitar as obras ou utilizar programas que convertam estes formatos para o standard do projeto. Feita essa passagem das produções para um formato digital, entra em ação a última etapa, que é a da edição. Todos os textos digitados são minuciosamente examinados e passam por alguns critérios de edição semi-diplomática, respeitando-se ao máximo o original e fazendo apenas algumas alterações indispensáveis. Fazendo parte do escopo a autenticidade das obras e o respeito às características originais das mesmas, tem-se como um dos critérios, e talvez o mais importante, manter o mais fidedigno possível o texto digitado ao correspondente original. Permite-se apenas a atualização de alguns constituintes sem a perda ou mudança do valor atribuído a ele, como ocorre com a questão ortográfica e com a tabela utilizada nas transcrições fonéticas, por exemplo. Toda e qualquer mudança que possa ocasionar, de alguma forma, algum tipo de perda do conteúdo original será devidamente explicada através de notas. Isso porque, segundo Bassetto (2001, p.43),

[…] o trabalho filológico tem por objetivo a reconstituição do texto, total ou parcial, ou a determinação e o esclarecimento de algum aspecto relevante a ele relacionado. Estende-se desde a crítica textual, cujo objeto é o próprio texto, até as questões histórico-literárias, como a autoria, a autenticidade, a datação etc., e o estudo e a exegese do pormenor.

2.4 O CORPUS

Em sua trajetória acadêmica-intelectual, Rosário Suárez Albán edificou um espólio bibliográfico de relevância, abrangendo desde alguns temas mais intrinsecamente linguísticos (voltados à dialectologia, à sociolinguística, à linguística textual), até aqueles mais achegados à esfera da literatura e da cultura (romanceiro tradicional, contos populares, imigração). Salientando que este projeto se encontra numa fase inicial, até então são estes os constituintes principais de seu corpus:

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (2000). As versões orais de A Nau Catarineta no Romanceiro Geral Português. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA ORAL DO NORDESTE, 2., 2000. Salvador. Do oral ao escrito: 500 anos de história do Brasil. Salvador: Universidade do Estado da Bahia. p. 31-36.

______. (1999). Romanceiro galego na Bahia: sua face lingüística. In: Congresso Internacional de Estudos Galegos, 5., 1997. Trier. Actas… Galícia: s/n. Vol. II. p. 917-926.

______. (1998a). Os ecos do Romanceiro Ibérico no Litoral Norte da Bahia: temas e formas. A Cor das Letras, n.02, p.79-89.

______. (1998b). Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. v. I. 246p.

______. (1998c). Confronto temático entre o romanceiro ibérico e o brasileiro coletados na Bahia. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO DE LINGÜÍSTICA E FILOLOGIA DA AMÉRICA LATINA, 4, 1990, Campinas. Atas… Vol. V. p. 247-253.

______. (1998d). Ser Galego na Bahia: Ontem e Hoje. In: SIMPÓSIO DA LÍNGUA E CULTURA GALEGAS, 1., 1998, Salvador. Língua e Imigração Galegas na América Latina. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 235-246.

______. (1997). O Romance/cantado/recitado/narrado na Bahia. In: JORNADA SERGIPANA DE ESTUDOS MEDIEVAIS, 2., 1996, Aracaju. Atas… Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura. Vol. I.

______. (1996a). Em busca do Romanceiro: seis anos depois. Revista Internacional de Língua Portuguesa, n.15.

______ . (1996b). O Romanceiro ibérico na Bahia. Euro América – Uma Realidade Comum, p. 165-187.

______. (1996c). O que marcar e o que não marcar na transcrição de textos orais. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA E O ENSINO DA LÍNGUA MATERNA, 1., 1993, Salvador. Diversidade Lingüística e o Ensino da Língua Materna. Salvador: EDUFBA. Vol. I. p. 165-181.

______. (1992). A memória do religioso no Romanceiro ibérico. In: Encontro Nacional da ANPOLL, 7., 1992, Porto Alegre. Atas… Vol. VII.

______. (1989). A inmigración galega na Bahía. Revista da Comisión Galega do V Centenário, v. I, n. I, p. 21-47.

______. (1984). Aspectos de interferência lexical no português de imigrantes galegos. Estudos, n.01, p.6-29.

______. (1983). A imigração galega na Bahia. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Centro de Estudos Baianos, 1983. 29 p.

______. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

A este conjunto se somam outras publicações em anais de congressos, produções de matiz artístico-culturais e comunicações em seminários, mesas-redondas e simpósios científicos da área de Letras.

2.5 DIFICULDADES

Desde o aparecimento da escrita e seu uso na comunicação interpessoal, o homem já apontava a necessidade de constituir um conjunto de normas e procedimentos para auxiliar a transcrição textual, com o objetivo de evitar alterações, reduções e acréscimos que os copistas, por descuido ou incúria, intercalavam ao texto, gerando problemas. No caso das obras analisadas, o cuidado recai sobre os seguintes aspectos:

2.5.1 Imagens

Muitas imagens utilizadas estão escurecidas devido ao tempo ou ao método utilizado para a sua reprodução no papel, como é o caso da imagem de Castelao (figura 01) presente na dissertação de mestrado de Suárez Albán. Outras, como os gráficos utilizados neste mesmo estudo (figura 02), estão desbotadas ou até rasuradas e, por isso a importância de sua edição e tratamento. Para as imagens optamos por trabalhar com os originais, dada a raridade de algumas delas, enquanto para os gráficos preferimos refazê-los, respeitando sempre as respectivas diretrizes.

Figura 01. In: Suárez Albán (1979, p.22).

Sin título

Figura 02. In: Suárez Albán (1979, p.71).

 Sin título.png 

2.5.2 Textos 

Ao longo do processo de digitação, diversos problemas foram aparecendo, alguns bem simples (de caráter ortográfico, cuja solução adotada foi a sua respectiva atualização) e outros de formatação, que foram analisados caso a caso. Cada um foi problematizado e interpretado segundo o seu uso, forma e contexto. A tabela abaixo ilustra alguns exemplos das irregularidades mais comuns encontradas no corpus:

Original Área da mudança Modificação
lingüística Questões ortográficas linguística
contacto; dialectología contato; dialetologia
sócio-cultural sociocultural
espaçamento, fonte, tamanho, recuo etc. Questões de formatação *variável

2.5.3 Transcrição fonética 

Na dissertação de Suárez Albán também há uma tabela fonética utilizada para transcrever as falas de seus entrevistados. Como destaca Rodríguez (em artigo no prelo), coautor do projeto, a transcrição utilizada é fundamentalmente ortográfica, daí ser o vocábulo mórfico e não o fonético-fonológico, a unidade básica do estudo. Contudo, assinalamos por meio de transcrição fonética certos fatos linguísticos relevantes, em especial quando mostram interferências entre o galego e o português. Devemos ter em conta, portanto, que a autora nunca pretendeu fazer uma descrição fónica exaustiva dos materiais e que a escolha dos símbolos esteve condicionada pelos recursos mecanográficos disponíveis.

Transcrevemos:

  1. a) a expressão correspondente a vocábulos mórficos exclusivos do galego como [em’sebre] (pgt. típico), [ke’dow] (pgt. ficou), [‘fiso] (pgt.fez);
  2. b) o segmento fônico que revela uma interferência do galego, como fi[s]era, pa[rt]e, nó[s], m[ayr] f[ay] (pgt. mas faz), ou vários segmentos para não interromper a representação da unidade silábica, como [ceha’ba]mos em vez de [c]e[h]a[b]amos;
  3. c) o segmento fônico que revela uma flutuação na seleção de fonemas do português, como [‘azu] por acho.

Na edição, optamos por refazer a transcrição utilizando o Alfabeto Fonético Internacional (IPA). Rodríguez (em artigo no prelo) ainda salienta algumas dificuldades derivadas dessa modificação:

  1. a) A vogal anterior semifechada [e] e a vogal central semifechada [ə] transcrevem-se com o mesmo símbolo [e].
  2. b) A vogal central aberta [a] e a vogal anterior entre aberta e semi-aberta, que interpretamos como [ɑ], transcrevem-se com o mesmo símbolo [a].
  3. c) Os alófonos aproximantes das oclusivas sonoras [b], [d] e [g], que a autora define como “variantes posicionais com oclusão incompleta”, transcrevem-se com os mesmos símbolos [b], [d] e [g].
  4. d) Os alófonos palatalizados das oclusivas dentais, que a autora define como “variantes posicionais com diversos graus de palatalização”, transcrevem-se com os símbolos [tʲ] e [dʲ]. Embora saibamos que se está a referir a variantes africadas ([ʧ], [ʤ]) com elemento oclusivo mais ou menos marcado, achamos preciso preservar a fidelidade à definição da autora e colocar o símbolo [ʲ] do Alfabeto Fonético Internacional para indicar esses “diversos graus de palatalização”.
  5. e) O símbolo [ ͜ ], que serve para marcar a formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte, foi suprimido, pois atualmente se encontra em desuso.

Destas revisões surge então uma nova tabela de transcrição, contendo os símbolos originais e os seus respectivos correspondentes do IPA:

Quadro de correspondências entre símbolos fonéticos

VOGAIS
i vogal anterior fechada

ex.: gal. e ptg. rio; gal. aprendín; ptg. doce

i
vogal anterior semifechada / vogal central semifechada

ex.: gal. e ptg. poder; gal. xente, entón

e
vogal anterior semia-berta

ex.: gal. e ptg. festa; gal. alguén

ɛ
a vogal central aberta / vogal anterior entre aberta e semi-aberta

ex.: gal. e ptg. casa; gal. irmán

a
vogal posterior semi-aberta

ex.: gal. e ptg. porta

ɔ
vogal posterior semifechada

ex.: gal. e ptg. hoxe / hoje; gal. lobo, non

o
u vogal posterior fechada

ex.: gal. e ptg. outubro; gal. fun; ptg. portu

u
SEMIVOGAIS OU SEMICONSOANTES
y anterior fechada / palatal sonora

ex.: gal. e ptg. mais, cantei; cast. ocasión

j
w posterior fechada / velar sonora

ex.: gal. e ptg. meu, água

w
CONSOANTES
p oclusiva bilabial surda

ex.: gal. e ptg. porto

p
b oclusiva bilabial sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. baixo; gal. verde; gal. e cast. estábamos

b
m bilabial nasal

ex.: gal. e ptg. mar

m
t oclusiva línguo-alveolar surda

ex.: gal. teño, tiña; ptg. tenho

t
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. tinha, gente

d oclusiva línguo-alveolar sonora / variante posicional de oclusão incompleta d
variante posicional da consoante precedente com diversos graus de palatalização

ex.: ptg. disse, verde

n línguo-alveolar nasal

ex.: gal. e ptg. nariz; gal. ninguén

n
linguopalatal nasal / variante posicional com diversos graus de palatalização

ex.: gal. tiña, teñen; ptg. ninho

ɲ
k oclusiva linguovelar surda

ex.: gal. e ptg. carro, quero

k
ɡ oclusiva liguovelar sonora / variante posicional com oclusão incompleta

ex.: gal. e ptg. gordo, agora

ɡ
ŋ linguovelar nasal

ex.: gal. corazón (+ e paragógica)

ŋ
f fricativa labiodental surda

ex.: gal. e ptg. festa

f
v fricativa labiodental sonora

ex.: gal. e ptg. vaca, livre

v
θ fricativa interdental surda / variante posicional sonora

ex.: gal. e cast. veces; gal. voz meiga

θ
s fricativas predorso e ápico-alveolares surdas (co-variantes do galego e do castelhano)

ex.: ptg. e gal. sal, negocio; gal. soidades, nós

s
z fricativa línguo-alveolar sonora

ex.: ptg. casa azul, existit

z
fricativa linguopalatal surda

ex.: gal. xóia, fixo; ptg. chegar

ʃ
fricativa linguopalatal sonora

ex.: ptg. já, gente, acarajé

ʒ
africada linguopalatal surda

ex.: gal. chegar, chamar, falaches

ʧ
l lateral línguo-alvaolar

ex.: gal. e ptg. lugar; gal. último

l
lateral linguopalatal

ex.: gal. filloga; cast. gallego

ʎ
r vibrante simples línguo-alveolar

ex.: gal. e ptg. dinheiro; gal. serán

ɾ
vibrante múltipla línguo-alveolar

ex.: gal. rapaza, carro

r
h fricativa faríngea surda (co-variante da oclusiva velar sonora do galego e co-variante da vibrante múltipla línguo-alveolar do português)

ex.: gal. gañar, agora; ptg. rua, carro

ħ
x fricativas velar e uvular surdas (co-variantes do castelhano)

ex.: cast. Jesús, gente, dijo

x
OUTROS SÍMBOLOS
* fones não identificados *
ˈ indica sílaba acentuada, precedendo-a ˈ
[ ] delimitação da transcrição fonética [..]
͜ formação de uma sílaba com a consoante final de uma palavra e a vogal inicial da palavra seguinte de acordo com as regras de fonética sintática do galego  
(…) trecho suprimido (…)
(= ) tradução para o português, também indicada por (ptg. ) (= )
(RAP) emissão muito rápida de um segmento precedente (RAP)
(ENF) emissão em tom enfático de um segmento precedente (ENF)
(ININT) trecho ininteligível (ININT)
(SUPERP) trecho de audição prejudicada pela superposição da fala do documentador ou de terceiros (SUPERP)
(RINDO) emissão acompanhada de riso; do mesmo modo, outras expressões ou gestos (RINDO)
DOC. documentador DOC.
INF. informante INF.
INTERL. um terceiro participante do inquérito INTERL

2.6 RESULTADOS PARCIAIS

Das produções selecionadas para o corpus, já estão finalizadas, quanto à digitalização e digitação: Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia; o Romanceiro ibérico na Bahia; a comunicação: Ser galego na Bahia: ontem e hoje, apresentada no Simpósio de Língua e Imigração na América Latina e o livro Vozes do ouro: a tradição oral em jacobina. O projeto foi apresentado em muitos eventos, destacando-se o I Encontro Brasileiro de Estudos Galegos (I EBEG), pela difusão internacional que teve e pela participação de grandes investigadores da Galícia. Esperamos conclui-lo no ano de 2016 ou 2017, e com a sua eventual publicação em formato digital e físico.

2.7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante um largo período, o CEG desenvolveu diversas atividades relacionadas ao galego, sob a coordenação de Rosário Albán. Muitos artigos e ensaios de cunho linguístico e cultural foram apresentados e também uma peça de teatro, Os vellos non deben de namorarse, a primeira e até o momento única peça apresentada totalmente em galego no Brasil. Porém, com o passar dos anos o CEG, já sob a forma de CELGA, teve suas atividades consideravelmente reduzidas com o afastamento da Profa. Albán. Sucessivas trocas de coordenadores e um período sem direção fizeram com que este que fora um grande e producente instituto quase caísse no esquecimento. Durante o ano 2013, por exemplo, produziram-se numerosos problemas administrativos com relação a oferta de disciplinas de galegos na UFBA, o que acabou obrigando que os alunos se inscrevessem durante períodos extraordinários de matrícula. Mas o novo quadro de gestores do CELGA e o estabelecimento de uma boa relação com os diferentes órgãos da universidade e de outras instituições nacionais ou estrangeiras possibilitaram a superação dessas e de outras adversidades. Desde então, além das matérias de galegos que passaram a ser disponibilizadas no sistema da universidade, muitos eventos relacionados à língua galega foram ofertados pelo centro. Amostras de filmes, seminários e simpósios de linguística e filologia, produções de artigos, projetos de pesquisa etc., são apenas alguns exemplos das atividades elaboradas muito recentemente pelo CELGA.

Sem sombra de dúvida, a opera omnia da fundadora figura entre os principais projetos deste núcleo, que vem se destacando na revitalização dos estudos galegos na Bahia. Esperamos que, com esse breve escrito, tenhamos oferecido uma pequena amostra da vitalidade que vem sendo recuperada no que concerne à ponte sociocultural, histórica e linguística entre a Galícia e Bahia.

REFERÊNCIAS

BASSETTO, Bruno Fregni. (2005). Elementos de Filologia Românica. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 43.

BOULLOSA, Juan; RODRÍGUEZ, David; LOPES, Mailson. (2015). Um tesouro a ser revelado: o projeto opera omnia de Rosario Suárez Albán e as suas derivações. In: EBEG — ENCONTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS GALEGOS, 1., 2015. Salvador: Programación e Resumos… Salvador: EDUFBA. p.34-35.

CORRÊA, Roberto Lobato. (1997). Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

SUÁREZ ALBÁN, Maria del Rosário. (1979). Desempenho linguístico de imigrantes galegos na Bahia. 2 v. 229 p. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) — Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

[1]Idealizado e posto em andamento a partir da atuação conjunta (e profícua parceria acadêmico-institucional) dos Professores David Rodríguez e Mailson Lopes, respectivamente, Ex-Leitor e atual Coordenador do CELGA.

[2]Seção essencialmente baseada no estudo Notícia de um projeto de edição da opera omnia de Rosário Suárez Albán, de autoria de Lopes & Rodríguez (no prelo), apresentado por eles no VII Seminário de Estudos Filológicos (VII SEF), na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em agosto/2014.

[3]http://www.pergamum.bib.ufba.br/pergamum/biblioteca/index.php.

As Letras Galegas ’16 em Salvador

Três são as atividades que terão lugar em Salvador para comemorar as Letras Galegas ’16, este ano dedicadas ao poeta chairego Manuel María.

Terça-feira 17 de Maio.

-Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. A professora Elena Veiga lecionará o minicurso A Galícia através das cantigas medievais dos trovadores galegos: Johan de Cangas, Martin Códax e Meendinho na Sala 204 das 13:00 às 14:40.

Associação Caballeros de SantiagoDas 19:00 às 21:15 horas aconteceram várias atividades para homenagear Manuel Maria: apresentação de documentários, palestras, música ao vivo, lançamento de livros e até degustação gastronômica:

13233429_10206191228234900_1345933908_n

Terça-feira 24 de Maio.

-Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. A partir das 17:00 horas haverá a apresentação de documentários, palestras, petiscos, foliada musical, sarau com leitura de poemas e se darão os prémios do Concurso CELGA 2016. Toda a informação poderá ser consultada no site do Centro de Estudos da Língua e Cultura Galegas.

Os Estudos Galegos na Bahia

Elena Veiga

Professora-leitora de galego na Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Para compreender a importância do Centro de Estudos da Língua e cultura Galegas (CELGA) na Bahia é preciso que conheçamos também a importância da universidade na que se integra. A Universidade Federal da Bahia é uma instituição pública de ensino superior fundada o 18 de fevereiro de 1808, quando o Príncipe Regente Dom João VI instituiu a Escola de Cirurgia da Bahia, primeira titulação universitária do Brasil. Ainda no século XIX, incorporou os diplomas de Farmácia (1832) e Odontologia (1864), a Academia de Belas Artes (1877), Direito (1891) e a Escola Politécnica (1896). No século XX, Isaías Alves cria a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (1941) à que está ligada o CELGA.

A UFBA é hoje considerada a maior e mais influente universidade do Estado da Bahía. Tem a sua sede na cidade de Salvador e um campus avançado no interior, localizado em Vitória da Conquista. É uma instituição mantida pelo Governo Federal do Brasil, vinculada ao Ministério de Educação e que possui regime jurídico de autarquia. Oferece até 112 titulações de grau diferentes e 165 cursos de pós-graduação. Conta com mais de 41.000 alunos e 2.400 professores.

A tradição dos estudos galegos na cidade de Salvador começa no 1975, ano em que vários professores e alunos da área de Letras Vernáculas da UFBA fundaram o CEG (Centro de Estudos Galegos). Porém, não foi até 1995 quando se cria o novo CELGA, fruto do convênio de colaboração assinado pela UFBA e a Secretaria Geral de Política Linguística da Xunta de Galicia.

Sem dúvida, se há uma figura que se caracterize pela sua importância na fundação e desenvolvimento dos estudos galegos na Bahía, essa foi Rosario Suárez Albán, mulher que dedicou toda a sua trajetória acadêmica à Galícia, à sua língua, à sua literatura e à sua cultura. Filha de emigrantes galegos na Bahia, foi uma grande divulgadora da pesquisa sobre diversos aspetos relacionados com a terra dos seus antepassados, prestando especial atenção ao romanceiro galego. Várias foram as iniciativas que nos últimos anos tentaram homenagear a figura de Rosario Suárez Albán desde o CELGA da UFBA. Pensamos, por exemplo, no I Encontro Brasileiro de Estudos Galegos, que se celebrou na Universidade Federal da Bahia entre os dias 13 e 15 de abril de 2015. Constituiu um evento que congregou a boa parte das pessoas que desde o Brasil trabalha cuma perspectiva científica no estudo da língua, a cultura e a literatura galegas. Aliás, contou com a participação do Sr. Valentín García, Secretário Geral de Política Linguística da Xunta de Galicia, e de cinco grandes pesquisadores chegados da Galícia: Rosario Álvarez, Henrique Monteagudo, Pilar Cagiao, Ana Boullón e Gonzalo Navaza.

Aproveitou-se a ocasião para apresentar publicamente duas obras em que o equipo do CELGA leva tempo trabalhando: a opera omnia da professora Rosario Suárez Albán (vesão preliminar) e o documentário sobre a sua vida e a história dos estudos galegos na Bahia e no mundo.

As jornadas também foram importantes para a consolidação de projetos de pesquisa em que estão implicadas as universidades galegas e a UFBA (junto com outras universidades brasileiras), como o Tesouro do Léxico Patrimonial Galego e Português. Serviu também para promover a cooperação em outras áreas de estudo como a Sociolinguística, a Dialectologia e a Onomástica, em que a Galicia é referente mundial. Além disso, foi uma boa divulgação do sistema universitário galego, ao que cada vez mais brasileiros acodem para cursar os seus estudos de pós-graduação.

Contou com 74 participantes, oriundos de diversas partes do Brasil e da Galicia, com um número expressivo de sessões de comunicações, sessões coordenadas e conferências. Sem nenhuma dúvida, foi um evento que marcou a história dos estudos galegos universitários no Brasil, contando com menções elogiosas de parte de diversos órganos e instituições de prestígio.

O CELGA está integrado na estrutura do Instituto de Letras da UFBA, dentro do Departamento de Letras Românicas. Mailson dos Santos Lopes, professor titular do mesmo departamento, é o coordenador. Elena Veiga Rilo é a atual leitora.

Oferecem-se três matérias integradas no currículo de Letras: Noções de língua e literatura galegas, Cultura galega e Estudos de literatura galega contemporânea. São matérias eletivas, mas por causa da crescente demanda está-se lutando porque sejam estas matérias optativas. Essa crescente demanda de alunos que querem cursar as matérias é devida à promoção do CELGA através de atividades de extensão, também através de acordos com grupos de pesquisa locais e da posta em marcha de projetos comuns.

O fato de que cada ano o CELGA convoque um concurso de trabalhos que podem versar sobre qualquer aspeto da nossa língua ou da nossa cultura fez que o interesse pela escolha das matérias tenha aumentado. É um concurso aberto a todos os alunos que cursaram alguma das matérias de galego do currículo do Instituto de Letras da UFBA e o prêmio para o melhor original consiste numa viagem a Santiago de Compostela para assistir aos Cursos de verão de língua e cultura galegas para pessoas de fora da Galícia.

Tem-se colaborado desde há uns anos desde o CELGA com várias revistas que também ajudam a dar a conhecer o trabalho feito para visibilizar a língua, a literatura e a cultura galegas, como pode ser a Revista CRE.

Atualmente, para continuar com essa difusão, o CELGA está trabalhando na renovação do seu site oficial através da colaboração com o Centro de Processamento de Dados (CPD) da UFBA. A nova estrutura de conteúdos e o novo desenho permitirão aos usuários um melhor acesso à informação e facilitarão a interação com a equipa do CELGA, que poderá administrar o site de maneira autônoma. Deste jeito, se poderão dispor no portal os anúncios dos eventos programados, os temários das matérias, o histórico de produção científica ou links a ferramentas online fundamentais (como, por exemplo, o dicionário da Real Academia Galega), entre outras questões de interesse para os alunos e o público geral.

Criou-se um usuário e uma página do CELGA no facebook (www.facebook.com/ufbacelga), onde o Centro de Estudos da Língua e Cultura Galegas se faz mais visível e accessível.

[vídeo] O Dia de Rosalía na Bahia

Elena Veiga

Professora-leitora de Galego na Universidade Federal da Bahia

A voz de Amancio Prada encheu os jardins da UFBA o dia 24 de fevereiro. Era difícil que numa das tardes habituais dos arredores da universidade um grupo de pessoas lendo poemas chamasse a atenção, naquele clima sempre constante de expressões artísticas e conexão com a terra: Ao nosso lado, quatro homens deitados na lama tentavam sentir a terra mãe ao ritmo de tambores africanos. A dez metros, bem na frente da entrada da Biblioteca, uma mulher com os olhos vendados se jogava água encima ao som de Céline Dion, numa performance hipnótica que reivindicava em cartazes escritos com pintura de dedo a necessidade de nos vermos, de viver em sociedade.

Rosalía berrou mais alto. Berrou-na Amancio desde um CD dos anos noventa. Berraram-a todos os alunos das matérias de Estudos da Literatura Galega Contemporânea e Noções de língua e literatura galegas, na que foi a primeira atividade do ano.

Houve quem disse que Rosalía podia ser melhor lida na praia. O homem que vendia cocadas com publicidade de Star Wars esteve de acordo, lembrou-nos que nem tudo podia ser perfeito mas que sempre era melhorável, “com as cocadas vai além”. Ganhou bastante e conheceu Rosalía.

Lemos Rosalía en Cantares Gallegos, en Follas Novas e até em Lois Pereiro. Lemos a Rosalía Pop e Underground. Houve até quem leu Rosalía em Frida Kahlo, entendendo-a como mito imortal por não lhe cantar aos pombos nem às flores, como ela bem disse. Outros leram-a nas vidas dos avós emigrados à Bahía e emocionaram-se ao tempo que tiravam do bolso um pano com o mapa da Galícia onde alguém há anos tinha sublinhado Ponte Caldelas, estando bem longe da terra.

Ao final conectamo-nos nós também com a terra mãe, prometendo-nos continuar cantando à Galícia em língua galega.

Geografia linguística e diacronia: evolução de alguns fenômenos dialetais da língua galega

David Rodríguez

Professor-leitor  de Galego (2013-2014) na Universidade Federal da Bahia

Resumo: O grande projeto de Geografia Linguística na Galiza é o Atlas Lingüístico Galego (ALGa). Os trabalhos de campo para o levantamento de dados foram realizados entre 1974 e 1977. Existe um projeto anterior: o Altas Lingüístico de la Península Ibérica (ALPI), cujos inquéritos em território galego foram realizados entre 1934 e 1935. Em 2006 o Instituto da Língua Galega (ILG) começou os trabalhos para o aproveitamento dos dados do ALPI referentes à Galiza. Detectaram-se imediatamente algumas divergências entre as formas encontradas no ALPI e no ALGa para os mesmos pontos. Estas primeiras observações conduziram a um estudo mais sistemático que constatou o fato de alguns fenômenos mostrarem mudança enquanto outros permaneceram com a mesma distribuição. Resolveu-se fazer um novo levantamento de dados. O questionário para a Nova Enquisa (NEnq) foi desenhado com base nas coincidências entre os questionários anteriores e foi aplicado em 2008 nos 53 pontos que as redes de ALPI e ALGa compartem. Hoje temos uma base com dados comparáveis (pela homogeneidade na metodologia) obtidos em três momentos históricos diferentes e nos mesmos lugares. A análise contrastiva destes dados oferece a oportunidade de avaliar a mudança de alguns fenômenos linguísticos em tempo real.

Introdução

Consuetudo loquendi est in motu, escreveu Marcvs Terentivs Varro no seu De lingua latina. Com estas palavras estava fazendo referência ao fato de a norma linguística (COSERIU, 1982) mudar no tempo. Uma comunidade de falantes, determinada, por exemplo, pelo espaço geográfico que os seus componentes partilham, assume e manifesta certos traços que caracterizam a sua variedade. Porém, esse consenso pode mudar com o transcorrer do tempo e isto é algo que acontece continuamente.

A linguística diacrônica é a encarregada de estudar os processos de mudança das línguas no eixo temporal (MATTOS E SILVA, 2008). Com frequência associa-se esta disciplina à observação e análise de períodos temporalmente muito recuados, com base em textos escritos mais ou menos antigos. Contudo, o presente trabalho pretende demonstrar que é possível estudar desde uma perspectiva diacrônica variedades linguísticas de períodos relativamente recentes com base em dados de pesquisas científicas.

No âmbito da língua galega surgiu esta oportunidade graças à existência de três projetos de geografia linguística de que se falará na próxima seção. O uso dessas fontes comporta algumas vantagens, como as derivadas do fato de as informações estarem georreferenciadas e transcritas foneticamente.

Na atualidade é muito comum encontrar projetos como o Vertentes ou o pluridimensional Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), que procuram informantes de diferentes faixas etárias, permitindo observar assim a variação em tempo aparente. Por contra, o que aqui se propõe é analisar a variação em tempo real através do aproveitamento de dados tomados em momentos históricos diferentes.

Para mostrar isto serão utilizadas, a modo de exemplo, seis variáveis dialetais do galego, sendo duas morfossintáticas, duas fonético-fonológicas e duas léxico-semânticas.

Métodos e materiais

Atlas Lingüístico de la Península Ibérica (ALPI)

Ideado por Ramón Menéndez Pidal, o ALPI nasce à imitação do Atlas Linguistique Français (ALF), de Jules Guilliéron, com o intuito de dar conta da variação diatópica das línguas românicas da Península Ibérica, excluindo as variedades do vasco ou euskara (NAVARRO TOMÁS, 1962). Ainda que a iniciativa tenha surgido em 1914, o trabalho de campo não começaria até 1931. No caso concreto da Galiza, o levantamento de dados foi feito entre 1934 e 1935.

O diretor do projeto, Tomás Navarro Tomás, reuniu um grupo de especialistas com uma formação linguística avançada e com um conhecimento profundo dos domínios a explorar, sendo falantes nativos, na maior parte dos casos. A área galega foi percorrida por Aníbal Otero, ajudado em ocasiões por Aurelio M. Espinosa.

No desenho da rede de pontos prescindiu-se das grandes cidades e das entidades de muito escassa população. Escolheram-se 528 vilas que fossem referentes comarcais, 53 das quais pertencem a território administrativo galego. Disto resulta uma densidade aproximada de um ponto de inquérito a cada 557 km2.

As caraterísticas que deviam possuir os informantes eram as habituais neste tipo de estudos. Procuravam sujeitos preferivelmente homens, de idade madura —ainda que não excessivamente idosos —, analfabetos ou pouco instruídos, com uma dentadura bem conservada e boa dicção, que não estivessem fora da localidade por muito tempo e cujos familiares fossem também nascidos no lugar. O resultado é um falante que hoje chamaríamos de NORM — non-mobile, older, rural, male — (CHAMBERS & TRUDGIL, 2004).

O questionário compreende 1.259 itens e está dividido em dois grandes blocos: um gramatical, em que se incluem fenômenos fonéticos, morfológicos e sintáticos; e outro léxico-semântico e etnográfico.

O ALPI encontra-se inacabado, apenas chegou a publicar-se um primeiro volume de fonética (NAVARRO TOMÁS, 1962), com uma pequena introdução e 70 mapas com transcrição das respostas por ponto. Muitos dos cadernos originais em que se recolheram os dados estiveram esparsos por diversos lugares durante anos até que o professor canadiano David Heap (2008) os conseguiu reunir.

Atlas Lingüístico Galego (ALGa)

Na década de 60 e inícios de 70 realizaram-se na Galiza numerosas monografias léxicas dialetais com base em pesquisas parciais do território que permitiram dar conta da realidade linguística galega. Mas nem este material nem o do ALPI — inédito na sua maior parte — mostravam-se suficientes para oferecer uma descrição precisa e pormenorizada da variação diatópica do galego (FERNÁNDEZ REI, 1990a). Os professores Constantino García e Antón Santamarina idearam o ALGa com a pretensão de que este projeto conseguisse fornecer dados para um estudo exaustivo dos falares galaicos.

Entre 1974 e 1976, os pesquisadores Rosario Álvarez Blanco, Francisco Fernández Rei e Manuel González González, após receberem formação específica, percorreram os territórios de fala galega para realizar o levantamento de materiais. Um total de 167 localidades conformam a rede do ALGa, resultando uma densidade de aproximadamente um ponto a cada 190 km2, bem maior que a do ALPI.

Os requerimentos para a seleção dos informantes não variaram muito a respeito dos do ALPI, seguindo, no geral, o modelo NORM supracitado. Contudo, pode observar-se uma maior presença de informantes femininas no ALGa. A equipe desbotou o preconceito de os homens serem mais conservadores na fala, muito instalado na Dialetologia tradicional, e não tiveram problema em entrevistar mulheres que, por certo, não faziam serviço militar e tinham, em consequência, menor contato com variedades alheias.

O questionário consta de 2.711 perguntas, mas podem ultrapassar o número de 4.000 se são desglossadas algumas de resposta múltipla como, por exemplo, os meses do ano ou as refeições. As questões compreendidas entre a 1 e a 527 são de índole fonético-fonológica e morfossintática, enquanto as que vão da 528 à 2.711 pertencem ao âmbito léxico-semântico e estão agrupadas tematicamente.

Já foram publicados cinco volumes do ALGa: v.I,1 Morfoloxía verbal; v.I,2 Morfoloxía verbal; v.II Morfoloxía non verbal; v.III Fonética; v.IV Léxico. Tempo atmosférico e cronolóxico; v.V Léxico. O ser humano I. Está-se trabalhando na edição do v.VI O léxico do hábitat: terra, plantas e árbores e do v.VII Léxico. O ser humano II.

O projeto ALPI-Galicia e a Nova Enquisa (NEnq)

Em 2005, baixo a direção do professor Xulio Sousa, nasce o projeto ALPI-Galicia para tratar de aproveitar os materiais galegos do ALPI. Com os cadernos originais digitalizados, iniciaram-se os trabalhos para a elaboração de uma base de dados. Numa primeira observação dos materiais chamaram a atenção algumas diferenças em relação aos resultados do ALGa para as mesmas questões e nos mesmos pontos. Um estudo um pouco mais detalhado revelou que determinados fenômenos mostravam mudanças na sua distribuição diatópica ao se comparar os dados de ambos dois projetos.

O tempo transcorrido entre os inquéritos do ALPI e do ALGa é de aproximadamente 40 anos. O período demonstrou-se suficiente para apreciar mudanças significativas, pelo que se considerou que seria interessante fazer um novo inquérito, tendo em conta que já passaram mais de três décadas desde o levantamento de dados do ALGa. Assim, em 2008 procedeu-se ao desenvolvimento da Nova Enquisa (NEnq).

A rede de pontos da NEnq está formada exatamente pelas mesmas 53 localidades que a rede do ALPI tem em território administrativo galego. A equipe era consciente da menor densidade desta em relação com a do ALGa, mas havia que ter em conta, de uma parte, que o ALPI era o ponto de partida e, de outra, que não se pretendia fazer um novo atlas linguístico. A maioria destas localidades fazem parte também da rede do ALGa. Naqueles (poucos) casos em que não há uma correspondência absoluta, selecionaram-se para a comparação os pontos do ALGa mais próximos seguindo critérios fundamentalmente geográficos, mas também linguísticos. Por questões de praticidade foi mantida a numeração dos pontos do ALPI.

As caraterísticas exigidas aos informantes foram as mesmas que nos projetos anteriores. Como no ALGa, não houve preferências em relação ao sexo dos sujeitos. É óbvio que cada vez resulta mais difícil encontrar pessoas iletradas e que não viajaram. Contudo, também se intentou cumprir com estes requerimentos na medida do possível; quase a totalidade dos entrevistados contava apenas com estudos primários incompletos e não tinham permanecido fora da sua localidade natal por um tempo considerável.

O primeiro passo para a elaboração do questionário consistiu na seleção de todos aqueles itens coincidentes entre os questionários do ALPI e do ALGa, dando um total de 1.077. Em seguida escolheram-se 368 perguntas que foram consideradas como mais relevantes para o estudo de determinados fenômenos considerados chave nas descrições dialetais do galego (FERNÁNDEZ REI, 1990b).

Com os materiais levantados procedeu-se à elaboração de uma base de dados conjunta que facilitasse a comparação dos materiais dos três projetos. As gravações da NEnq foram transcritas em IPA e as formas recolhidas nos cadernos de ALPI e ALGa, transcritas com o alfabeto fonético da Revista de Filología Española (RFE), foram transportadas também para IPA, após a necessária determinação das equivalências (RODRÍGUEZ, 2008). Esta unificação dos critérios de transcrição e a geral homogeneidade metodológica existente entre os projetos (mesmas perguntas, mesmo tipo de informante, mesmo tipo de pesquisador) dá como resultado um corpus de dados comparáveis tomados em três momentos históricos diferentes, nos mesmos lugares.

Resultados

Distribuição das variantes ti / tu 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Em boa parte do território galego existe uma forma ti para o nominativo da segunda pessoa do singular. Provém da forma tónica para dativo (no sistema em que se dá produz-se, portanto, uma neutralização: ti suj estás facendo moito ruído / trouxen isto para ti ci) e, em última instância, da forma latina tibi. Na área restante mantem-se a forma etimológica tu e, por conseguinte, a distinção entre nominativo e dativo (MARIÑO, 1999).

Na figura 1 pode-se observar como a distribuição das duas formas sofre apenas uma pequena alteração no período estudado. Nos dados do ALPI, o ponto 118 mostra a variante tu, enquanto ALGa e NEnq mostram ti. Os dados sociolinguísticos revelam, para essa área, um maior prestígio da forma ocidental.

Distribuição das variantes ladróns / ladrós / ladrois

Este slideshow necessita de JavaScript.

Diferenciam-se três grandes blocos linguísticos galegos em função do modo de construir o plural dos nomes que acabam em -ón (FERNÁNDEZ REI, 1990b). Tomando como exemplo as formas representadas na figura 2, pode-se explicar a evolução histórica disto. O latino lātrōnes, após a queda no -n- intervocálico, dá uma forma ladrõẽs, comum a galego e português arcaicos. Na passagem à Idade Moderna, na maior parte da Galiza perdem-se as vogais nasais. O galego oriental vai desenvolver uma forma ladroes e, posteriormente, a forma ditongada atual ladrois. No resto do território, a partir de uma forma ladrõõs, o galego central vai desenvolver o atual ladrós pela perda total da nasalidade e a redução vocálica, enquanto o galego ocidental vai desenvolver o atual ladróns recuperando uma consoante nasal (MARIÑO, 1999).

No mapa do ALPI pode-se ver como o ponto 143 mostra duas respostas, ladróns e ladrós. O pesquisador anotou que a primeira foi pronunciada pelo informante principal e a segunda pelo filho. No mapa do ALGa constata-se o triunfo da forma preferida pelo mais novo. Na NEnq observa-se uma solução dupla no ponto 149. O sujeito informa que quando vai à capital de comarca assume a forma habitual lá, que é a do galego central.

Distribuição dos falares com e sem fricativa interdental surda /θ/ 

Este slideshow necessita de JavaScript.

A partir da africada pré-dorso-dental surda /ts/ existente no período arcaico, boa parte do galego desenvolveu uma fricativa interdental surda /θ/. Onde isto não se dá existem maioritariamente um sistema com fricativa ápico-alveolar surda /s̺/ ou um sistema com fricativa pré-dorso-alveolar surda /s/.

Na figura 3 pode-se apreciar que a distribuição dos falares com interdental permanece quase inalterada ao longo do período estudado. Apenas há uma mudança: na passagem do ALPI ao ALGa vê-se que o ponto 143, uma ilha rodeada de falares com interdental, acaba por se integrar no sistema majoritário.

Os falares sem interdental são tradicionalmente considerados como pouco prestigiados. Porém, os mapas mostram claramente que isto não deve ser motivo suficiente para a mudança, pois o seu espaço mantem-se quase sem modificações.

Distribuição da gheada

Este slideshow necessita de JavaScript.

A gheada é um fenômeno consistente em que no lugar do fonema oclusivo velar sonoro /g/ existe um fonema fricativo cujo ponto de articulação pode ir do véu do palato à glote e pode ter ou não sonoridade, mas que habitualmente é faringal surdo /ћ/. Em posição interior de palavra após nasal geralmente mantem-se. Além da distribuição diatópica, tem também distribuição social; em situações formais tende a evitar-se (ÁLVAREZ & XOVE, 2002) e costuma identificar-se como um signo de rusticidade e incultura.

Essa falta de prestígio deve ser a causa do aparente retrocesso do fenômeno que se pode apreciar na figura 4. O que se representa nos mapas é a porcentagem de respostas com gheada a um total de 19 perguntas selecionadas. Pode-se ver como, paulatinamente, o /ћ/ vai cedendo território ao /g/. No mapa do ALPI, o ponto 124 mostra 100% de respostas com gheada. Trata-se, no caso, de um fenômeno sem continuidade geográfica, uma ilha gheadófona que pode estar indicando que num tempo anterior a gheada ocupava um maior território (FERNÁNDEZ REI, 1990b).

Os dados do ALPI mostram uma porcentagem inferior a 50% de respostas com gheada para os pontos 119 e 126. No mapa do ALGa já se observa a ausência do traço nesses lugares. O ponto 121, com mais de 50% de respostas com gheada no ALPI, mostra no ALGa uma redução desse número a zero. Nos pontos 118, 148 e 151, de gheada plena no ALPI, perdem essa categoria no ALGa. Na passagem do ALGa à NEnq, a gheada desaparece dos pontos 114, 128, 129 e 151. Como se pode ver no mapa, em outros muitos pontos a porcentagem desce do 100%.

Da observação dos dados deduz-se uma tendência geral ao esmorecimento do fenômeno, num retrocesso do seu espaço em direção ao oeste. Poderia parecer que, de continuar com esta propensão, a gheada acabaria por desaparecer nos próximos anos. Contudo, é preciso sinalar que as localidades que formam a rede de pontos são “referentes comarcais” em que a caraterização negativa do mesmo pode pesar mais que em lugares menores, de ambiente mais rural, em que a gheada se mantém com maior vitalidade.

Distribuição nó / nudo

Este slideshow necessita de JavaScript.

A convivência das línguas galega e castelhana na Galiza tem produzido, como é óbvio, numerosas interferências nos dois sentidos. De maneira geral, as interferências do galego no castelhano costumam ser de tipo fonético e morfossintático, enquanto as do castelhano no galego costumam ser de tipo léxico-semântico (MONTEAGUDO, 1999).

Deve-se ter em conta que o contato não se dá em igualdade de condições, mas num marco diglóssico de tipo conflitivo (KLOSS, 1973). Isto significa que o castelhano é a língua com maior prestígio e que, portanto, as formas castelhanas tem uma alta probabilidade de triunfar inseridas no galego comum.

Na figura 5 mostra-se a distribuição da forma patrimonial galega e a forma de origem castelhana nudo. No mapa do ALPI, nudo aparece apenas em 16 pontos sem uma clara continuidade geográfica, sendo que em quatro deles foi recolhida como segunda forma, ao lado de . Nos dados do ALGa, os registros de nudo proliferam e nos casos de resposta dupla encontram-se notas que apontam a uma certa especialização semântica: faz referência “ao das plantas”, enquanto nudo alude ao ‘laço’. A NEnq mostra que nudo acabou estendendo-se por todo o território, deslocando, quase por completo, a forma patrimonial.

Distribuição tixola / cazola / sartén

Este slideshow necessita de JavaScript.

Por tratar-se de uma questão léxico-semântica as variantes obtidas para as designações galegas para ‘frigideira’ foram reduzidas a três. Ficaram fora, pois, variantes fonéticas como tixela (/tiˈʃɛla/) ou casola (/kaˈsɔla/, /kaˈs̺ɔla/). As formas agrupadas baixo o lema tixola e as agrupadas baixo o lema cazola são vozes galegas patrimoniais. A forma sartén é de origem castelhana.

Na figura 6, no mapa correspondente ao ALPI, pode-se ver como tixola e cazola constituem duas áreas relativamente compactas ao norte e sul do território respetivamente. Pela sua parte, sartén aparece registrada em até 32 pontos, em muitos dos quais é a primeira resposta, ao lado de uma das formas patrimoniais que vem marcada em nota como “antiga”. Nos dados do ALGa e, especialmente, nos do ALPI, percebe-se que as formas patrimoniais cedem ante o impulso da forma nova.

Conclusões

A representação cartográfica das respostas a essas seis perguntas, realizadas nos mesmos lugares, com a mesma metodologia e em diferentes momentos, permite observar a evolução dos fenômenos no eixo temporal. No caso, foram apresentadas algumas questões que não mostraram grandes mudanças ao longo do período estudado. A distribuição de ti / tu, a de ladróns / ladrós / ladrois e a dos sistemas com e sem fricativa interdental surda /θ/ apenas sofreram alterações. De outra parte, a distribuição da gheada, a de / nudo e a de tixola / cazola / sartén, sim experimentaram modificações notáveis. Nos três casos, a motivação para a mudança deve ser procurada em relação com questões de prestígio ou desprestígio de certas formas.

Contudo, cabe lembrar que os sistemas sem interdental não gozam da melhor consideração e, ainda assim, mantiveram o seu espaço geográfico quase intacto, segundo se depreende dos dados analisados. Deve ser, portanto, mais complexa a explicação da mudança / não-mudança linguística e devem ser inúmeros os fatores psicossociais envolvidos. Porém, com os dados disponíveis, o presente trabalho pretendia apenas descrever a evolução de alguns aspetos dialetais do galego e mostrar um método de trabalho para estudar a variação em tempo real. 

Referências

ÁLVAREZ, R.; XOVE, X. (2002). Gramática galega. Vigo: Galaxia.

COSERIU, E. (1982). Sistema, norma y habla. In: ______. Teoría del lenguaje y lingüística general. Madrid: Gredos. p. 11-113.

CHAMBERS, J. K.; TRUDGILL, P. (2004). Dialectology. Cambridge: Cambridge University Press.

FERNÁNDEZ REI, Francisco. (1990a). Atlas Lingüístico Galego, v.I,1-Morfoloxía Verbal. A Coruña: Instituto da Lingua Galega / Pedro Barrié de la Maza.

FERNÁNDEZ REI, Francisco. (1990b). Dialectoloxía da Lingua Galega. Vigo: Galaxia.

HEAP, David. (2008). The Linguistic Atlas of the Iberian Peninsula (ALPI): a geolinguistic treasure ‘lost’ and found. Toronto Working Papers in Linguistics, v.27, p.87-96.

KLOSS, Heinz. (1973). Explorations in Sociolinguistics. Bloomington: Indiana University.

MARIÑO, Ramón. (1999). Historia da lingua galega. Santiago de Compostela: Sotelo Blanco.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (2008). Caminhos da linguística histórica: ouvir o inaudível. São Paulo: Parábola.

MONTEAGUDO, Henrique. (1999). Historia social da lingua galega. Idioma, sociedade e cultura a través do tempo. Vigo: Galaxia.

NAVARRO TOMÁS, Tomás. (1962). Atlas Lingüístico de la Península Ibérica, v.1, Fonética-1. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas.

RODRÍGUEZ LORENZO, David. (2008). Evolución diatópica da gheada no século XX. Análise contrastiva dos materiais que ofrece a xeografía lingüística. 1 v. 103 p. Dissertação (Mestrado em Linguística). Instituto da Língua Galega. Universidade de Santiago de Compostela.