Rosalia de Castro e a Literatura Brasileira

Thayane Verçosa

Aluna de Introdução à Cultura Galega na UERJ

Introdução

Rosalia de Castro é uma das maiores poetisas galegas do século XIX. Ela escreveu na época do Rexurdimento Galego, período no qual as obras literárias em língua galega voltaram a aparecer, depois de séculos sem produções escritas, época conhecida como Séculos Escuros. Cantares gallegos, obra de Rosalia, escrita em 1863, pode ser vista como um marco do Rexurdimento, pois a maior parte dos poemas que compõem o livro fala da Galícia. Alguns cantam os hábitos e costumes da população, outros, a situação de exílio enfrentada por inúmeros habitantes e mais alguns descrevem a natureza local e as festas, assemelhando-se muitas vezes a cantigas trovadorescas, especialmente às conhecidas como cantigas de amigo. De uma forma geral, pode-se notar que o tema central do livro é a Galícia e suas características culturais. Dessa maneira, pode-se pensar que a amplitude temática da obra é grande e pode ser relacionada com a literatura de vários países. Afinal, sempre há períodos literários que irão ter como temática central a cultura e a identidade do seu país. Isso é um assunto muito recorrente na literatura ao redor do mundo. Na Literatura Brasileira, a questão de narrar a cor local, a saudade da pátria ou os hábitos populares é muito comum. Dessa forma, é possível realizar um estudo comparativo das obras de Rosalia de Castro com diferentes autores brasileiros, situados em distintos períodos literários. Isto mostra a pluralidade e o valor da obra de uma das maiores poetisas galegas. É importante ressaltar que não é só Cantares gallegos que pode ser relacionado. A obra Follas novas também tem temas semelhantes que podem ser associados com a Literatura Brasileira de diferentes épocas.

Vida e obra de Rosalia de Castro

Rosalía de Castro
Rosalía de Castro

Nascida em 1837, Rosalia passou a infância na Galícia rural e a juventude em Santiago de Compostela. Durante a mocidade, conviveu com os maiores nomes do liberalismo político e jornalístico galego. No ano de 1857 lança a sua primeira coletânea de poemas, conhecida como La Flor, publicada em castelhano. Em 1858 casa-se com Manuel Murgía, que era um escritor e investigador funcionário do Estado. No ano de 1859, nasce a sua primeira filha. Começa a publicar textos em castelhano e galego no ano de 1861. Finalmente, em 1863, publica Cantares gallegos, a primeira obra escrita em língua galega depois de séculos sem produções literárias escritas com a língua da Galícia. O livro tem tanta importância, não só por ter sido feito em galego, mas por ter conseguido trazer de volta o sentimento de identificação cultural, através da descrição dos feitios e hábitos da população, além da descrição da natureza e da beleza local. Em 1880 publica Follas Novas. Essa obra também foi escrita em Língua Galega e trata de questões mais subjetivas e mais individualistas. Rosalia morreu de câncer no útero no ano de 1885, na cidade de Padrón, onde havia passado seus últimos anos. As publicações em Galego de Rosalia de Castro não se restringem somente a esses dois livros. A autora publicou novelas em galego também, que não alcançaram a mesma notoriedade das obras mencionadas acima.

Literatura Brasileira

Geralmente, as obras literárias de qualquer país são estudadas a partir de um recorte temporal. A historiografia literária parte de temas frequentes, estruturas comuns e mesmos períodos históricos para caracterizar e classificar a literatura de cada época. Apesar de frequente, a historiografia não está livre de falhas, pois existem autores literários que tendem a se distanciar da produção de seu tempo, ficando, muitas vezes, à margem do que estava sendo feito, e acabam por iniciar um novo período da literatura. No Brasil, o estudo das produções literárias não se difere do formato descrito acima. As nossas produções são divididas em movimentos e, muitas vezes, dentro desses movimentos, são separadas também pelo formato da produção, se é prosa ou poesia, etc.. Alguns dos períodos mais famosos da Literatura Brasileira são: o Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, Modernismo, etc.. Como foi dito anteriormente, a temática da obra de Rosalia é passível de ser relacionada com autores de distintos períodos e estilos literários brasileiros.

Rosalia e o Romantismo

Uma das correntes literárias mais estudadas e conhecidas do Brasil é o Romantismo. Na terra descoberta por Pedro Álvares Cabral, o Romantismo teve uma vertente com escritores que produziam em prosa e outra com os que escreviam em formato de poesia. Para a associação com Rosalia de Castro o mais interessante é a vertente de poesia do Romantismo. Esta parte do movimento é dividida didaticamente em três gerações: a Primeira Geração, Indianista, a Segunda Geração, também conhecida como Ultrarromantismo, e a Terceira Geração, apelidada de Condoreirismo. A Primeira Geração teve forte influência da Independência do Brasil, conquistada em 1822 e, consequentemente, buscava criar uma identidade nacional, através da exaltação dos valores da pátria, das belezas naturais do Brasil e da utilização dos índios como heróis nacionais, visto que eram os habitantes da terra antes da chegada dos portugueses. Dessa forma, a poesia da Primeira Geração terá poemas remetendo a natureza nacional de uma forma idealizada e exacerbada, colocando as paisagens do país como superiores, mais belas, mais puras, etc.. Os poetas mais famosos do período são Gonçalves Dias e Gonçalves de Magalhães. A Segunda Geração, por sua vez, surgiu em meados do século XIX, apresentando temas completamente distintos dos da Primeira. Os autores do período tinham suas poesias voltadas para: pessimismo exagerado; apego pela morte; foco em sentimentos idealizados e exacerbados; medo de concretização do amor; melancolia; devaneios, causados por substâncias entorpecentes, como o álcool, por exemplo; sentimentos mórbidos; uma busca pelo retorno ao passado; saudades da infância, etc.. Logo, comparando a Segunda Geração com a Primeira, é possível notar uma diferença temática enorme. Os poetas do Ultrarromantismo, também conhecido como Mal do Século, não se preocupavam com a Pátria ou questões nacionais, o foco era os sentimentos do eu lírico, que vivia perdido em sonhos e devaneios. Muitas vezes, os acontecimentos do poema são tão complexos, que não é fácil definir o que é sonho ou realidade na história contada. A infância também é um tema muito recorrente do período. Os poetas falavam dela e das suas memórias com muito apreço e valor. Essa fase da vida era vista de forma idealizada, pois, nela, os poetas não tinham os sofrimentos nem os problemas que tem na vida adulta. Então, há um desejo de retorno a essa fase de inocência e pureza. Existem vários autores famosos desta Geração, mas Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu são dois dos principais nomes. Já a Terceira Geração tem um aspecto social e político que não apareceu anteriormente. Ela surgiu em meados da década de 60 do século XIX e durou até o fim do Romantismo, que pode ser datado aproximadamente em 1880. Os poetas do período estão preocupados com as mazelas sociais. Logo, o eu lírico foi tirado de foco e os problemas e injustiças da sociedade foram explorados. Dessa forma, a Terceira Geração apresenta uma crítica e denúncia das explorações a que alguns estratos da sociedade eram submetidos. O abuso sofrido pelos escravos é um tema muito presente. Os principais nomes do período são: Castro Alves e Sousândrade. Da obra Cantares gallegos existem vários poemas que podem ser relacionados com o Romantismo Brasileiro. Porém, existe um em que o eu lírico encontra-se no exílio, sentindo falta da sua pátria, dos seus familiares e dos seus costumes, que pode ser facilmente associado a um dos poemas mais conhecidos da Primeira Geração do Romantismo: “Canção Do Exílio”.

Gonçalves Dias
Gonçalves Dias

O poema, escrito em 1843 por Gonçalves Dias, descreve a situação de um exilado que sente saudades da sua terra e passa a comparar diferentes características do lugar em que se encontra com o que há na sua pátria, concluindo que tudo na sua terra é melhor. Dessa forma, o poema mistura saudades, exaltação da natureza e um sentimento de exílio. O poema número 15 da obra de Rosalia de Castro, apesar de ter um tamanho maior, traz as mesmas angústias e sofrimentos da Canção de Gonçalves Dias. Ele trata de uma situação de exílio, na qual o eu lírico, além de sentir saudades da família, dos hábitos, dos costumes, sofre com receio de não poder mais presenciar e viver tudo o que tinha na Galícia.

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossa, várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar – sozinho, à noite –

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

Airiños, airiños aires

Airiños, airiños aires,

airiños d’a miña terra;

airiños, airiños aires,

airiños, leváime á ela.

Sin ela vivir non podo,

on podo vivir contenta;

qu’adonde queira que vaya

cróbeme unha sombra espesa.

Cróbome unha espesa nube

al preñada de tormentas,

tal de soidás preñada,

qu’a miña vida envenena.

Leváime, leváime, airifios,

com’unha follina seca,

que seca tamén me puxo

a calentura que queima.

¡Ai!, si non me levás pronto,

airiños d’a mina terra:

si non me levás, airiños,

quisáis xa non me coñesan;

qu’á frebe que de min come,

vaime consumindo lenta,

e n-o meu corazonciño

tamén traidora se ceiba.

Fun n-outro tempo encarnada

como o color d’a sireixa;

son hoxe descolorida

como os cirios d’as igrexas,

cal si unha meiga chuchona

a miña sangre bebera.

Vóume quedando muchiña

com’unha rosa qu’inverna:

vóume sin forzas quedando,

vóume quedando morena,

cal unha mouriña moura

filla de moura ralea.

Leváime, leváime, airiños,

leváime adonde me esperan

unha nai que por min chora,

un pai que sin min n’alenta,

un irmán por quen daría

a sangre d’as miñas venas,

y un amoriño a quen alma

e vida lle prometera.

Si pronto non me levades,

¡ai!, morrerei de tristeza,

soia n’unha terra extraña,

donde extraña m’alomean,

donde todo canto miro

todo me dice ¡extranxeira!

¡Ai, miña probe casiña!

¡Ai, mina vaca vermella!

Años, que balás n-os montes,

pombas, qu’arrulás n-as eiras;

mozos, qu’atruxas bailando,

redobre das castañetas,

xas-co-rras-chás d’as cunchiñas,

xurre-xurre d’as pandeiras,

tambor d’o tamborileiro,

gaitiña, gaita gallega:

xa non m’alegrás, dicindo

¡muiyeira!, ¡muiyeira!

¡Ai!, quén fora paxariño

de leves alas lixeiras!,

¡ai, con qué prisa voara

toliña de tan contenta,

para cantar a alborada

n-os campos d’a miña terra!

Agora mesmo partira,

partira com’unha frecha,

sin medo as sombras d’a noite,

sin medo d’a noite negra;

e que chovera ou ventara,

e que ventara ou chovera,

voaría e voaría

hasta qu’alcansas’á vel-a.

Pero non son paxariño

e irei morrendo de pena.

xa en lágrimas convertida,

xa en sospiriños desfeita.

Dóces galleguiños aires

quitadoiriños de penas,

encantadores d’as augas,

amantes d’as arboredas;

musica d’as verdes canas,

d’o millo d’as nosas veigas;

alegres compañeiriños,

run-run de todal-as festas,

leváime n-as vosas alas

com’unhá follina seca.

Non permitás qu’aquí morra,

airiños d’a miña terra,

qu’ainda penso que de morta

hei de sospirar por ela:

ainda penso, airiños aires,

que dimpois que morta sea,

e aló pol-o camposanto,

donde enterrada me teñan,

pasés n-a calada noite

runxindo antr’a folla seca,

ou murmuxando medrosos

antr’as brancas calaveras;

inda dimpois de mortiña,

airiños d’a miña terra,

heivos de berrar: ¡Ariños,

airiños, leváime a ela!

Rosalía de Castro

Como já foi dito anteriormente, os dois poemas tem o mesmo tema e apresentam o tom saudosista do exilado. Dessa forma, podem ser facilmente relacionados. Além de tais semelhanças, os dois poemas apresentam versos muito parecidos. Rosalia de Castro diz o seguinte: “Não permitais que aqui morra,”, enquanto Gonçalves Dias tratará do mesmo sentimento com palavras muito semelhantes: “Não permita Deus que eu morra,/Sem que eu volte para lá;”.

Rosalia e a literatura de cordel

A literatura de cordel foi trazida para o Brasil no século XVIII, através dos portugueses. No começo, ela foi muito estigmatizada, mas com o passar do tempo, vem se tornando mais popular, especialmente na região nordeste do Brasil, em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Esse tipo de literatura tem esse nome porque em Portugal, de onde veio, as obras ficavam expostas ao povo amarradas em cordões, estendidos em mercados populares, lojas pequenas ou nas ruas mesmo. Ela é uma modalidade de poesia popular, impressa, e seus folhetos de divulgação são ilustrados com processo de xilogravura. Por terem um custo muito baixo, geralmente são vendidas pelos próprios autores, em festas populares ou feiras. Os cordéis não tem objetivo de serem impessoais. Muitas vezes o autor coloca a sua opinião ou utiliza técnicas de persuasão para que o leitor acate a sua ideia. Seu sucesso é causado pelo baixo preço e pela temática popular. As obras de cordel geralmente tratam de fatos da vida cotidiana da cidade ou da região, com um tom humorístico. Festas, política, seca, disputa, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo e morte de personalidades são apenas alguns assuntos que podem servir de base para a produção de cordéis. Há também a forma cantada da literatura de cordel. Ela acontece quando os trovadores pegam suas violas e recitam os poemas em praça pública, muitas vezes, numa espécie de “confronto”. Um dos maiores nomes da literatura de cunho popular nordestina foi Patativa do Assaré, que nasceu em 5 de março de 1909 e faleceu em 8 de julho de 2002. O poeta tem tanto destaque porque superou o caráter tradicional da poesia de cordel, ao abordar outros temas de forma dissertativa e reflexiva, fugindo do tom humorístico tradicional. Patativa escreveu obras falando da pobreza do sertanejo, do latifúndio e do agregado, do retirante, da ética, do social, do perdão, da justiça, da igualdade, etc. Além de poeta, ele foi compositor, cantor e repentista. Dessa forma, é possível encontrar muitas de seus poemas em formato de canções. Uma delas foi até interpretada por Luís Gonzaga. Entre os inúmeros temas tratados por Patativa, a seca é recorrente. E ela, quando aparece, pode estar relacionada a um êxodo forçado do sertanejo, fazendo com que este parta para terras desconhecidas em busca de melhores condições de vida. O sentimento abordado por Patativa no poema “Triste Partida” é facilmente relacionado com o poema número 13 de Cantares gallegos da Rosalia de Castro. Os dois abordam a questão do abandono da vida e da terra natal para um lugar desconhecido em busca de melhorias de vida.

Patativa do Assaré
Patativa do Assaré

No poema de Patativa, o sertanejo deixa sua casa, pois está havendo uma época de seca e ele não consegue mais viver da sua produção na agricultura. Logo, é forçado a largar tudo em busca de uma nova forma de sustento. No poema de Rosalia, o êxodo também é narrado. O eu lírico encontra-se deixando sua terra, seus valores e seus hábitos para trás, partindo para o desconhecido, onde ele tem certeza de que irá sentir falta da sua “terrinha” e de tudo o que foi deixado.

A triste partida

Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado, falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

– De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: – Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
– Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

Chegaro em São Paulo – sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra tão seca mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do su.

Patativa do Assaré

Adios ríos, adios fontes

Adios rios, adios fontes,
Adios regatos pequenos,
Adios vista dos meus ollos
Non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra,
Terra donde m’ eu criey,
Ortiña que quero tanto,
Figueiriñas que prantey.

Prados, ríos, arboredas,
Pinares que move o vento,
Paxariños piadores,
Casiña dó meu contento,

Muíño d’ os castañares,
Noites craras de luar,
Campaniñas trimbadoras
Dá igrexiña dó lugar,

Amoriñas d’ ás silveiras
Qu’ eu lle dab’ ó meu amor,
Camiñiños antr’ ó millo,
Adios, para sempr’ adios!

Adios groria! Adios contento!
Deixo á casa onde nacín,
Deixo á aldea que conoço,
Por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños,
Deixo á veiga pólo mar,
Feixo, en fin, canto ben quero…
¡Quen pudera non deixar!…

.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .

Mais son prob’ e mal pecado.
A miña terra n’ é miña,
Qu’ hastra lle dán de prestado
A veira por que camiña
O que naceu desdichado.

Téñovos pois que deixar.
Hortiña que tanto amei,
Fogueiriña dó meu lar,
Arboriños que prantei,
Fontiña do cabañar.

Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
Donde meu pai s’ enterrou,
Herbiñas que biquey tanto,
Terriña que nos criou.

Adios tamén, queridiña!….
Adios por sempre quizais!…
Dígoch’ este adios chorando
Desd’ a veiriña do mar.
Non m’ olvides, queridiña,
Si morro de soidás….
Tantas légoas mar adentro….
¡Miña casiña! meu lar!

Rosalía de Castro

Os dois poemas tem um tema muito parecido. Eles falam do êxodo, narrando a partida da terra local, com um tom de despedida e lamento. No poema de Patativa, o narrador vai descrevendo os elementos que serão deixados para trás: “E a linda pequena, tremendo de medo:/ – Mamãe, meus brinquedo!/ Meu pé de fulô!/ Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!/ E a minha boneca/ Também lá ficou.” e a falta que eles farão ou o que poderá acontecer com eles, sem que os “donos” estejam ali para cuidar. Rosalia faz algo bem semelhante: “Tenho-vos, pois, que deixar,/ hortinha que tanto amei,/ figueirinha do meu lar,/ arvorinhas que plantei,/ fontinha do cabanal.” Os dois também apresentam um tom de denúncia das injustiças sociais, pois vão dizer que a personagem descrita, em Patativa, e o eu lírico, em Rosalia, sofrem com as injustiças sociais e devem deixar a sua moradia em busca de melhores condições de vida e sobrevivência. Outra semelhança é a presença do elemento religioso. No poema de Patativa, antes de ter de abandonar a sua terra, o retirante pede ajuda a São José, clamando por chuva: “Apela pra maço, que é o mês preferido/ Do Santo querido,/ Senhô São José./ Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,/ Lhe foge do peito/ O resto da fé.”. Enquanto no poema de Rosalia, o exilado fala que vai levar a Virgem de Assunção com ele: “Adeus, Virgem da Assunção,/ branca como um serafim;/ levo-vos no coração;/ vós pedi-lhe a Deus por mim,/ minha Virgem da Assunção.”. Isso marca a religiosidade comum aos dois poemas.

Rosalia e Cecília Meireles

Outra associação que pode ser feita a partir de Rosalia é com a poetisa Cecília Meireles. As duas autoras possuem poemas com temáticas semelhantes, mas com sensações contrárias, que serão explicadas posteriormente. Cecília foi uma escritora brasileira do século XX. Ela produziu poemas, contos, crônicas, obras de literatura infantil, entre outros. Por sua escrita e abordagens peculiares, Cecília não é vinculada a nenhuma escola literária, mas pode ser associada a alguns poetas do Simbolismo.

Cecilia Meireles
Cecilia Meireles

A autora produziu seu primeiro livro de poemas aos 18 anos. Sua poesia apresenta um tom intimista, reflexivo e filosófico, com uma profunda sensibilidade feminina, abordando temas como vida, amor e tempo. A musicalidade é uma marca dos seus poemas. Rosalia de Castro e Cecília Meireles podem ser associadas de maneira opositiva. Enquanto, em Cantares gallegos, a maioria dos poemas descreve a natureza de forma positiva, idealizada, trazendo paz, alegria e conforto para o eu lírico, alguns poemas de Cecília, que trazem o ambiente, apresentam-no como um lugar desconcertante e inquietante, como se a natureza permitisse uma introspecção que leva a reflexões interiores.

Transição

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia… – não consentidas,
mas recebidas e esperadas!)

Cecilia Meireles

III

Lugar mais hermoso
Non houbo na terra
Qu’ aquel qu’ eu miraba,
Qu’ aquel que me dera.

Lugar mais hermoso
No mundo n’ hachara,
Qu’ aquel de Galicia,
Galicia encantada!

Galicia frorida,
Cal ela ningunha,
De froles cuberta,
Cuberta de espumas.

D’ espumas qu’ o mare
Con pelras gomita,
De froles que nacen
A ó pé das fontiñas.

De valles tan fondos,
Tan verdes, tan frescos,
Qu’ as penas se calman
No mais que con velos.

Qu’ os anxeles neles
Dormidos se quedan,
Xa en forma de pombas,
Xa en forma de niebras.

Rosalía de Castro

Os dois poemas trazem visões bem diferentes da natureza. Enquanto Rosalia narra as belezas e as sensações boas que a paisagem traz, Cecília coloca a paisagem como um meio de reflexão interior. Quando ela olha a redor, ela se vê melhor e passa a um estado de humor muito complexo, com a mistura de alegria e tristeza. No poema de Rosalia somente os aspectos positivos da paisagem são mostrados, no de Cecília, a natureza é uma passagem para a introspecção. Logo, os dois tem uma perspectiva muito distinta em relação ao meio que cerca o eu lírico. Nesse sentido, eles quase se opõem.

Conclusão

Diante de todas as associações e relações que foram estabelecidas ao longo do trabalho, é possível notar a importância e a magnitude da poética de Rosalia de Castro. A autora não é fundamental somente na Literatura Galega. Ela pode ser pensada como um ícone da literatura ocidental, a partir dos seus feitios e produções. Por essa razão é tão fácil associá-la com diversos autores brasileiros de distintos períodos de tempo.

Bibliografia

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CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. O Romantismo no Brasil: primeira geração; O Ultrarromantismo; O Condoreirismo. In: ______. Português Linguagens 2: Literatura, Produção de Texto e Gramática. São Paulo: Atual, 1998. p. 58-64; 84-95; 113-120.
Cordéis e outros poemas, de Patativa do Assaré. Disponível em: <http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/c/cordeis_e_outros_poemas&gt; Acesso em 08 de dez. 2014.
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Gonzaga e “A triste partida” de Patativa do Assaré. Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/banco/gonzaga-e-a-triste-partida-de-patativa-do-assare&gt; Acesso em 08 de dez. 2014.
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Triste Partida. Disponível em: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=A+triste+partida,+Patativa+do+Assar%C3%A9&ltr=a&id_perso=5978&gt; Acesso em 08 de dez. 2014.
Vida e obra de Rosalia de Castro. Disponível em: <http://www.vidaslusofonas.pt/rosalia.htm&gt; Acesso em 07 dez. 2014

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