A língua galega e a sua história: uma situação exemplar

Claudio César Henriques

Professor de Língua Portuguesa na Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

[Resenha da Gramática Histórica Galega, de Manuel Ferreiro]*

Os dois volumes da Gramática Histórica Galega, de autoria do professor Manuel Ferreiro, da Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha, constituem uma valiosa fonte de estudos para os pesquisadores que se debruçam sobre as questões das línguas românicas, em especial os que buscam se aprofundar nos estudos das línguas ibéricas e, em nosso caso, nos temas da história da língua portuguesa, na qual o idioma galego tem significativa importância.

O primeiro volume, subintitulado “Fonética e Morfossintaxe”, começa com uma Nota Preliminar que esclarece por exemplo a intenção do autor de enfatizar a história interna do galego, tendo pretendido “organizar detalhada e arrazoadamente a evolução produzida desde o latim até o galego” (p. 10). Este volume contém dois alentados capítulos. O de Fonética concentra-se na evolução do vocalismo e do consonantismo, nomeia metaplasmos e descreve os variados tipos de alteração fonética que ocorreram na formação da língua galega. O de Morfossintaxe aborda os fenômenos que envolvem, nesta ordem, o nome, os pronomes pessoais, o artigo, os demonstrativos, os possessivos, os relativos, os indefinidos, os numerais, os verbos, o advérbio, a preposição, a conjunção e a interjeição.

O segundo volume, subintitulado “Lexicologia”, está dividido em três capítulos, começando por “A constituição do léxico galego”, no qual é descrito como se deu a transmissão do léxico latino e se investiga a etimologia dos nomes próprios de pessoas e lugares – a onomástica do galego, incluindo-se aí o relevante tema da castelhanização, demorado e intencional processo que as autoridades espanholas realizaram ao longo de séculos na região: “entraram como hordas de tártaros no nomenclatório da Galiza e não deixaram pedra sobre pedra” (p. 51).

O capítulo seguinte, “O acrescentamento lexical interno”, fala da transcategorização léxico-funcional, estuda a formação de palavras, explica os processos de derivação prefixal, derivação sufixal, parassintética e regressiva. Nele, destaca-se o cuidado do autor na organização de um inventário exaustivo das ocorrências de prefixos de origem latina e grega, de sufixos referenciais e científicos e na menção aos neoprefixos, neosufixos e neocompostos. Complementam esse capítulo o estudo da redução vocabular e da criação onomatopaica e a interpretação das mudanças semânticas (por metáfora, metonímia, etimologia popular ou elipse).

O último capítulo, “O acrescentamento lexical externo”, focaliza os empréstimos linguísticos, classificando-os e descrevendo sua tipologia.

Cada um dos volumes é encerrado com um “Índice de palavras galegas citadas” (43 páginas no vol. I e 60 no vol. II), o que representa uma relevante fonte de auxílio para o leitor e para o estudioso do léxico. Além disso, a “Bibliografia Fundamental” incluída em cada volume fornece ricas indicações e revela – como não poderia deixar de ser – a contribuição de muitos autores normalmente citados nas listas de consulta dos estudos do português.

Como informa o autor na Nota Preliminar do volume I, desde 1909, quando D. Vicente Garcia de Diego publicara em Burgos os seus Elementos de Gramática Histórica Galega, os estudos linguísticos do galego careciam de uma publicação que pudesse atender as pessoas interessadas na história da língua. Os dois volumes de Manuel Ferreira representam, nesse sentido, uma relevante contribuição e certamente têm ajudado a formar com mais qualidade as novas gerações de filólogos da Galiza.

Para os pesquisadores da língua portuguesa, a obra presta-se também como referência, ajustando-se entre outras possibilidades aos estudos do comparativismo linguístico, para examinar como as mudanças fonéticas e morfossintáticas, ao lado das consequências das pressões internas e externas, bifurcaram o original romance galego-português, proveniente desde o séc. VII da antiga província Gallaecia et Asturica, se concordarmos com a afirmação de que já por volta do ano 600 o latim vulgar não era falado em nenhuma região do antigo Império Romano.

A comparação entre as duas línguas comprovará a grande proximidade de ambas, como o fato de apenas esses dois idiomas, entre todas as línguas românicas, terem os artigos definidos “o, a, os, as” e disporem do chamado “infinitivo flexionado”, para ficar em apenas dois exemplos. Mostrará, também, como o idioma galego não se descaracterizou – apesar da implacável influência do castelhano –, mantendo sua feição particular, ainda hoje bem mais perto de sua origem galego-portuguesa.

Se a tradição dos estudos linguísticos na Galiza é escassa e muito recente, devemos reconhecer que, nas últimas décadas, o panorama mudou consideravelmente, sendo dignos de nota os avanços conquistados desde a implantação, na década de 60, das disciplinas de Filologia e Linguística na Universidade de Compostela e da criação, em 1971, do Instituto de Língua Galega (ILGA). É neste recorte recente que se constata o incremento da investigação técnica e científica no campo da linguística galega, diacrônica e sincrônica; a formação de especialistas em língua galega e a reciclagem de profissionais integrados no campo da linguística galega, especialmente no ensino elementar e médio; o assessoramento técnico relacionado com a normalização da língua galega; a promoção de reuniões científicas, seminários e atividades análogas, todos com o intuito principal de colocar em evidência o propósito de afirmação da língua galega.

Por esses motivos, a frase a respeito da história da língua galega com que Manuel Ferreira encerra sua Nota Preliminar também serve como desfecho desta pequena resenha, pois vale para todas as línguas de todos os tempos: o conhecimento da história lingüística de um povo é parte essencial de si mesmo.

*Artigo publicado com anterioridade no volume 4 da revista Estudos Galegos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense.

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