A homossexualidade escarnecida: a sodomia nas cantigas medievais galego-portuguesas

Luiz Paulo Labrego de Matos

Mestrando em Literatura Portuguesa na UERJ

Introdução

As cantigas medievais galego-portuguesas de escárnio e maldizer sempre foram objeto de estudo daqueles que se debruçam sobre a lírica da época. No entanto, percebemos que alguns temas têm sido deixados de lado pelos grandes estudiosos das sátiras. Um desses é a sodomia. Presente em cerca de 40 cantigas desse gênero satírico, a sodomia foi relegada ao esquecimento e ao trabalho superficial em que até hoje habita sem que houvesse grandes trabalhos desenvolvendo uma minuciosa análise acerca da temática.

A proposta do presente trabalho é pensar a questão da sodomia partindo da análise de uma cantiga de Estêvão da Guarda, ressaltando os elementos medievais, presentes no exemplo do trovador, para que sirva de interesse para futuros estudos que versem sobre a temática do sexo entre homens na Idade Média europeia.

A sodomia na Idade Média

De uma forma geral, a sexualidade era tema problemático na Idade Média. Mesmo o sexo praticado entre homem e mulher era recriminado se não tivesse por finalidade a procriação da espécie. Homens e mulheres não poderiam tomar o ato sexual como um momento de deleite carnal em que duas pessoas gozam a saborosa arte da deusa vênus.

A Igreja, grande detentora de poder político e de prestígio social, instituição responsável por carimbar o passaporte celestial dos seres humanos, propagava ideais de castidade para os seus fiéis que deveriam segui-los para conseguir uma vida plena e abundante. A regra era clara: quanto menos sexo, mais vitórias, mais conquistas, mais proximidade com Deus e, consequentemente, mais glórias. Gallaz era o exemplo do grande cavaleiro cristão puro e casto que alcança todas as vitórias como nenhum outro na demanda do santo Graal.

Se aos homens já era proibido sentir o prazer que o sexo, solitário ou partilhado, pode proporcionar, às mulheres, eram negados ainda mais os prazeres da carne que levavam os cristãos ao pecado. Afinal, em se tratando de sexo inferior e sem vontade e desejo, não caberia a elas o deleitar que uma relação sexual pode gerar. O sexo maculava, manchava, desvirtuava tanto o homem quanto a mulher e, assim, deveria ser buscado apenas por fim de procriação e nada mais.

Agora imaginemos o sexo praticado por dois homens. Não procriava, era contra natura e contra os costumes e apenas servia para o deleite carnal dos envolvidos. Apesar de todo ambiente perseguidor e repressor que plainava pela Europa na época, há registros de grandes personalidades históricas reconhecidamente homossexuais, como é o caso do Ricardo Coração de Leão1.

Isso evidencia que nem sempre as normas legais condizem com as condutas, ou seja, o que era ditado como certo ou errado pela Igreja e pelos reis poderia não ser levado a sério pela população. Se por um lado a Igreja tentava como nunca frear os impulsos demoníacos do sexo entre iguais, por outro, o desenvolvimento das cidades contribuiu muito para que a homossexualidade fosse posta em evidência e que a prática de atos sodomíticos entrassem em cena na sociedade medieval como nunca antes. A revitalização das cidades e da vida urbana chegou mesmo a criar locais reconhecidamente homossexuais, sobretudo nas cidades italianas como Florença e Veneza2.

A lei Las Siete Partidas (1265) e o Fuero Real (1255) são bons exemplos para ilustrarem como o poder real, influenciado diretamente pelos valores cristão da época, lidava com a questão da sodomia praticada nos reinos da Península Ibérica. Os dois manuais legais de conduta foram confeccionados no reinado de Afonso X – apesar de o Fuero Real ter começado a ser escrito no reinado de Fernando III – e são os principais documentos oficiais para estudar o assunto.

E debese guardar todo ome deste yerro, proque nacen del muchos males, e denuesta, e deffama asi mismo el q[ue] lo faze […] por tales yerros embia nuestro señor Dios sobre la tierra, hambre e pestilencia, e tormentos, e otros males muchos que non podria contar. (LAS SIETE PARTIDAS, Título XXI. “De los que fazen pecado de luxuria contra naturam”)(Citado por SANTOS, 2014, p.5)

Maguer que nos agravia de fablaren cosa que es muy sin guisa de cuydar, e muy mas sin guisa de facer: pero porque mal pecado alguna vez aviene que uno cobdicia a otro por pecar conél contra natura, mandamos que cualesquier que sean que tal pecado fagan, que luego que fuer sabido, que amos a dos sean castrados ante todo el pueblo, e despues al tercer dia que sean colgados por las piernas fasta que mueran, e nunca dende sean tollidos (Lei II, Tìtulo IX – De los que Dexan laOrden e de los sodomitas, Fuero Real, 1251-1254, p. 120.).

Assim, torna-se evidente a tentativa tanto real quanto religiosa de controlar a sodomia nos fins da Idade Média. Entretanto, cabe aqui perceber se de fato tais leis eram efetivas e até que ponto servem como espelho do comportamento sexual de alguns membros daquela sociedade, pois que não se pode confundir os valores ou os ideais com as normas, nem nenhuma destas ou daqueles com o que é habitual e efetivamente se faz (MATTOSO, 2004, P.13).

As cantigas de escárnio e maldizer: sodomia escarnecida

A matéria das cantigas medievais galego-portuguesas está afastada tanto do nosso tempo quanto do espaço em que estamos inseridos. São assuntos e questões que hoje em dia já não fazem tanto sentido como faziam na época em que foram confeccionadas. Código do amor cortês, amor irrealizável, coita de amor, amigo como namorado, amante como servo são elementos que já não mais encontramos em nossa literatura, o que dificulta o seu estudo. Mais árduo ainda é o trabalho quando nos debruçamos sobre as cantigas satíricas, porque além de todo o vocabulário complexo e dos temas de trova distintos, há as palavras cobertas que precisamos decifrar.

Exposto isso, não faremos aqui minuciosa análise sobre as cantigas de escárnio e maldizer, mas tão-somente uma breve introdução para gerar interesse naqueles que por ventura tenham contato com este texto.

Ressaltamos que a proposta não é trabalhar com certezas e verdades, mas com possibilidades de leituras que gerem interpretações e, acima de tudo, o deleite criado por esse tema tão divertido, diferente e execrado pela tradição literária.

Estêvão da Guarda

Do que eu quigi, per sabedoria,

d’Alvar Rodriguiz seer sabedor

e dest’infante mouro mui pastor,

end’eu sei quanto saber queria

per maestr’Ali, de que aprendi

que lhi diss’Alvar Rodriguiz assi:

que já tempo há que o mouro fodia.

Com’el guardou de frio e de fome

este mouro, poilo tem em poder,

mailo devera guardar de foder,

pois com el sempre alberga e come;

ca maestr’Ali jura per sa fé

que já d’Alvar Rodriguiz certo é

que fod’o mouro como fod’outr’home.

Alá guarde tod’a prol, em seu seo,

Alvar Rodriguiz que por en tirar

daquesto mouro, que nom quis guardar

de seu foder, a que tam moço veo;

ca maestr’Ali diz que dias há

que sabe d’Alvar Rodriguiz que já

fod’este mouro a caralho cheo.

Estevão da Guarda (1280 – 1364) foi um trovador português que iniciou suas atividades artísticas ainda no reinado de D. Dinis. Compôs quatro cantigas tratando do tema da sodomia.

Na cantiga, encontramos logo na segunda cobra (verso) a alusão a um indivíduo nomeado: Álvar Rodriguiz. De acordo com algumas outras cantigas de Estêvão da Guarda e uma outra do conde D. Pedro, é possível que o sodomita citado na cantiga fosse malado, vinicultor, casado, monteiro maior. Além disso, que fizesse parte da corte, sendo funcionário de D. Dinis.

Álvar Rodriguiz é motivo de escárnio devido à sua inclinação sexual sodomítica. Tudo indica que se trata de uma continuação de uma outra cantiga de Estevão da Guarda na qual Álvar também é satirizado. Há referência ao sodomita como sendo casado, ou seja, não há qualquer ideia, na época, sobre a homossexualidade como uma condição sexual, por isso, o sexo entre iguais estava ligado exclusivamente a uma prática sexual e não a aspectos sentimentais. O sodomita era condenado por praticar tal ato e não por ter uma identidade homossexual ou bissexual. Por esse motivo, quando falamos do sexo entre homens nas cantigas, é fundamental que pensemos como os medievais pensavam à época.

O mouro também é satirizado na cantiga. Na Idade Média, os muçulmanos estavam muito relacionados à sodomia, sobretudo devido a uma passagem do alcorão em que caberia a interpretação da não condenação desse tipo de sexualidade e de uma outra que está contida em uma carta enviada por um líder religioso para o seu filho no século XI3.

A cantiga versa sobre dois temas bastante injuriosos para a época: a sodomia e a religião muçulmana. É possível que o trovador tenha utilizado a figura do mouro sodomita para ajudar a criar um imaginário negativo sobre a religião muçulmana e o povo árabe.

No entanto, parafraseando o professor Paulo Roberto Sodré, especialista no tema, Álvar Rodríguiz talvez fosse apenas um funcionário heterossexual e leal à sua (nova?) fé. Talvez fosse mesmo um apóstata, sodomita e aproveitador de mourinhos sem abrigo, desafiando os tabus religiosos e sexuais.

Faltam certezas e sobram, graças a Alá, imaginações e leituras. Na verdade, o importante é resgatar temas que foram rechaçados ao longo dos estudos literários dominados, neste caso, por uma cultura heteronormativa.

Bibliografia:

ALFONSO X. Las siete partidas: antología. Selección de Francisco López Estrada y María Teresa López García-Berdoy. Madrid: Castalia, 1992.

DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens: do amor e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

FERNANDES, Raúl Cesar Gouveia. A cantiga de escárnio como instrumento de segregação social. Ângulo, Lorena, n. 125/126, p.8-15, abril/setembro, 2011. Disponível em: <http://publicacoes.fatea.br/index.php/angulo&gt;. Acesso em: 2 maio 2015.

LAPA, Manuel Rodrigues (ed.). Cantigas d´escarnho e de mal dizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses. 3. ed., Lisboa: Sá da Costa, 1995.

LOPES, Graça Videira. A sátira nos cancioneiros medievais galego-portugueses. Lisboa: Estampa, 1994.

LOPES, Graça Videira; FERREIRA, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. Disponível em: <http://cantigas.fcsh.unl.pt&gt>. Acesso em: 2 de maio de 2015.

MASSINI-CAGLIARI, Gladis. Cancioneiros medievais galego-portugueses: fontes, edições e estruturas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007.

MATTOSO, José. A sexualidade na Idade Média portuguesa. In: ANDRADE, Amélia Aguiar; SILVA, José Custódio Vieira da (Coord.). Estudos medievais: quotidiano medieval: imaginário, representação e práticas. Lisboa: Horizonte, 2004. p. 13-42.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Tradução Marco Antônio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

SANTOS, Giovanna Aparecida Schittini. Normatização e transgressão: imaginários cristãos sobre a sodomia masculina na península ibérica nos séculos XIII e XIV. IV Congresso Internacional de História; 23 a 25 de setembro de 2014;  Universidade Federal de Goiás. Jataí: Anais Eletrônicos <www.congresohistoriajatai.org>; 2014.

SODRÉ, Paulo Roberto. A sodomia no “jugar de palabras” de Estevão da Guarda. Aletria: Revista de Estudos Literários, Belo Horizonte, n. 13, p. 125-132, 2006a.

________. Ainda sobre a sodomia na sátira galego-portuguesa: a propósito da cantiga “Do que eu Quígi, per sabedoria”, de Estêvão da Guarda. Revista do Cesp, Belo Horizonte, v. 27, n. 37, p.123-149, janeiro/junho, 2007. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/cesp/download.htm&gt;. Acesso em: 2 maio 2015.

________. O riso no jogo e o jogo do riso na sátira galego-portuguesa. Vitória: EDUFES, 2010.

________. Os homens entre si: os “fodidos e seus maridos” nas cantigas de Pero da Ponte, séc. XIII. In: LOPES, Denilson et al. Imagem e diversidade: estudos da homocultura. São Paulo: Nojosa, 2004. p. 246-253.

________. Pero da Ponte e os trebelhos de Tisso Pérez: entre o retraer e o difamar. In: _____. (Org.). Multiteorias: correntes críticas, culturalismo, transdisciplinaridade. Vitória: Ufes/Programa de Pós-Graduação em Letras/Mestrado em Estudos Literários, 2006b. Disponível em: http://www.ufes.br/~mlb/multiteorias/

SPENCER, Colin. Homossexualidade: uma história. Tradução de Rubem Mauro Machado. Rio de Janeiro: Record, 1996.

1 RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Tradução Marco Antônio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.

2 Idem.

3 RICHARDS, Jeffrey. Op. Cit.

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