Galícia: a terra nai do adeus

Thayane Gaspar

Aluna de Literatura Galega II na UERJ e pesquisadora do Programa de Estudos Galegos

INTRODUÇÃO

Um dos movimentos de vanguarda do século XX mais importantes na poesia pré-guerra foi o neotrobadorismo graças à recuperação, divulgação e estudo da lírica medieval. As cantigas trovadorescas foram resgatas com o intuito de resgatar o prestígio do idioma galego na literatura e assim resgatar também a sua cultura.

Há controvérsia a respeito de quem teria inaugurado o neotrobadorismo, e alguns apontam Carles Ribas e outros Eduardo Pondal, mas admite-se com frequência que Pondal com seu poema O Canto do Vígia teria sido o precursor do movimento. Contudo, é o nome de Bouza-Brey que de destaca por ter sido o autor que mais acreditou na possibilidade de usar a estética medieval.

Eduardo Pondal

Por muito tempo, estudiosos consideraram a Idade Média o período das Trevas, mas em Galícia esse mesmo período é considerado a Idade do Ouro, no qual a língua galega tinha prestígio e, politicamente, Galícia contava nessa época com maior soberania, sem imaginar um futuro tão dominado pela Espanha.

A geração do neotrobadorismo tinha passado por consequências históricas devido a Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa e a criação de regimes fascistas na Europa. A imigração começa no século XIX com os problemas socioeconômicos enfrentados no país, e ela se intensifica no século XX.

Logo, o retorno ao medievo talvez esteja além do plano político e ideológico. A visão que as cantigas (principalmente as de amigo) apresentavam estão novamente em frente aos olhos do povo galego: as mulheres esperando seus namorados/maridos voltarem, os homens partindo sem nenhuma certeza de retorno, o mar que os leva, e a natureza que conversa com quem fica e que faz chorar quem partiu.

MORRIÑA X SAUDOSISMO

Segundo o Dicionário da Real Academia Galega, morriña tem três significados, mas o que nos interessa é a definição de “sentimento e estado de ánimo melancólico e depresivo, em particular o causado pela nostalxia da terra.”. Esse é um sentimento particular da cultura galega e também um mito que surgiu no século XIX por conta das imigrações e a saudade causada pela distância.

Porém, a morriña não é um sentimento exclusivo daquele galego imigrante que partiu contra a sua vontade e que deseja retornar à sua pátria. Outro tipo de morriña também era sentida pelas mulheres e pelos filhos quando o homem era obrigado a deixar o lar.

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A migração por mar a América foi contínua para as galegas e galegos de finais do século XIX e durante o século XX

A palavra saudade existe em galego, mas a morriña é mais que isso. A morriña, o lirismo, o sentimentalismo, todos esses elementos traçam uma imagem tradicionalmente feminina da Galícia. Para Helena Miguélez-Carballeira, da Universidade de Bangor (Gales), esse sentimentalismo serviu para que o Estado espanhol freasse o nacionalismo galego e a singularização da nação. Sendo assim, a morriña seria oriunda de relações de desigualdade causadas principalmente pela dominação espanhola.

A autora em seu livro Galicia, a sentimental nation critica também a passividade do povo galego e alega que há uma difusão da visão “chorona e lacrimóxena” de Rosalía de Castro.

Com o viés político empregnando essa palavra, pode-se aproximar morriña do saudosismo português. Principalmente se formos analisar a morriña dentro do neotrobadorismo, que busca resgatar seu período de glória, prestígio e soberania. O que acontece de forma muito semelhante no saudosismo português, no qual Portugal deseja ser novamente “a cabeça” da Europa.

O saudosismo português foi um movimento social, político e estético do século XX em Portugal, e assim como a morriña, viveu no coletivo. O saudosismo foi consequência da decadência das expansões martítimas, da morte de D. Sebastião e da dominação pela coroa espanhola. O saudosismo é o marco da decadência de Portugal, assim como também marca a crise na identidade da pátria, pois esta é colocada em questão.

Semelhanças acabam aparecendo entre os dois movimentos quando colocados em parelelos, principamente se admitir que foram causados direta ou indiretamente pela dominação da Espanha. A passividade galega citada por Miguélez-Carballeira também é encontrada no saudosismo português. Portugal não reage à dominação espanhola porque nesse momento o país estava passando por dificuldades na economia, e a Espanha gozava de uma melhor economia, então a nobreza portuguesa acreditou que se beneficiaria de alguma forma. E os galegos? Por que não resistiram? Como diz Bouza-Brey no poema Trova Infinita:

Teño aínda aberto os beizos

onde findou a canzón

que agora quere ser bico

xa que deixou de ser voz.

Uma semelhança estética entre os dois conceitos é a forma da sociedade nostálgica e melancólica se expressar através do gênero lírico. É através desse lirismo que abro espaço para um intertexto já que a morriña e o saudosismo são caracterizados pela melancolia.

Freud em seu texto “Luto e melancolia” (1917) compara esses dois sentimentos traçando um quadro de sintomas comum aos dois. Ele diz: “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante.”. E essas causas geram melancolia em pessoas pré-dispostas patologicamente.

Segundo Freud, o luto se curava com o tempo e portanto não deveria haver interferência no processo. A melancolia se distinguiria por ser um desânimo profundo e penoso, desinteresse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, diminuição da autoestima, auto recriminação e até uma expectativa de punição.

A melancolia é enigmática. O melancólico tem uma baixa extraordinária da autoestima, um empobrecimento do ego, o que não acontece no luto. “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.” Essa questão sobre a baixa autoestima e o ego empobrecido parece responder ou justificar um pouco a passividade galega. O povo galego aceitou o estereótipo de ser falante de uma língua “inculta”, sem prestígio, de ser homem do campo, rude (o termo “galego” frequentemente é pejorativo nos dicionários), incivilizado, passivo. E como se encontra em estado melancólico, o galego não consegue lutar contra o estereótipo porque seu ego está prejudicado, e ele não enxerga seu valor.

FERMÍN BOUZA-BREY

Analisaremos dois poemas extraídos do livro Nao senlleira (1933) para ilustrar a morriña, o psicológico e o social decorrente das imigrações, a melancolia e a baixo autoestima galega. O próprio título do livro já traz o elemento de despedida: a nao que leva o povo galego para longe da sua terra nai. E o adjetivo senlleira (solitário ou singular) que pode ser lido de duas maneiras, uma positiva e outra negativa. Senlleira como o galego melancólico que se vê sozinho no estrangeiro ou àquele que reconhece seu valor cultural, histórico, social, literário, e linguístico e reconhece sua singularidade, que se achá único.

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Fermin Bouza-Brey

O primeiro poema escolhido é “Tríades no mar e na noite”.

Meu navío leva ao vento

no mastro eterno da noite

o treu do meu pensamento.

Leda vai a nao

na proa unha frol:

a rosa albariña

do meu corazón.

Amiguiña, crara estrela,

dáme a aguillada de un bico

para apurrar a gamela.

Leda vai a nao, et sic.

Por navegar ao desvío

varei a miña chalana

no teu corazón-baijío.

Leda vai a nao, et sic.

Os agros van de ruada.

Vinde ruar pol-as ondas

levarés a herba mollada.

Leda vai a nao, et sic.

O faro de Corrubedo

co seu ollo largasío,

ai amor, púxome medo,

Leda vai a nao, et sic.

Deitouse o mar, foise o vento,

no mastro da noite albean

os liños do pensamento

Leda vai a nao

abordo un amor;

é granada a rosa

do meu corazón.

Dentre os elementos destacados temos “tríade”, pois mitologicamente o número três tem uma grande importância para a cultura celta, mas em especial nesse poema o número três pode se explicado ao final (retomaremos a tríade). “Noite” que também está no título é assinalada porque a noite significava o tempo dos amantes no trovadorismo, mas nunca se escrevia sobre ela, e sim sobre o amanhecer, a despedida dos amantes. Nesse poema é como se a despedida pudesse acontecer a qualquer hora e a noite agora pudesse ser também ter esse duplo significado: despedida e encontro.

Leda” está descatada apenas por remeter ao vocabulário medieval e pelo eu poético enxergar na despedida, na imigração algo de belo. Provavelmente a esperança ou o cumprimeito de um dever. “Vento” está destado também por remeter ao léxico das cantigas medievais, fazendo referência a ordem do sexual, da virilidade e da força do homem.

Rosa albariña” é importante por dois motivos: a rosa nas cantigas medievais eram sinônimo de um relógio. A rosa indicava o tempo de primavera, o tempo de despedida dos amantes e também o tempo que a mulher tinha para engravidar. Outro motivo para assinalar a expressão é porque essa rosa é tida como luz, claridade, opondo-se ao cenário noturno, melancólico e sombrio da noite. O próximo adjetivo reforça essa ideia de luminosidade quando denomina a amiga de “estrela crara”.

Aguillada de um bico” representa o beijo de despedida de forma áspera, dolorosa, já que aguillada é um pau com a ponta de ferro para estimular o gado. Essa analogia traz a ideia de que esse beijo é estímulo para eles se afastarem e também para mostrar que a imigração era tão intensa que os homens se tornavam gados, trabalhavam feito animais e nas condições de um.

Gamela” e “chalana” são embarcações que ajudam a reforçar esse aspecto migratório do povo galego e sua relação com o mar. “Agros” traz a paisagem campesina das cantigas de amigo com uma outra conotação. Enquanto na Idade Média o campo servia para que a mulher dialogasse com a natureza, nesse poema o campo, o lugar de trabalho, vira a “ruada”, ou seja, o lugar das reuniões, das festas, demonstrando esses dois aspectos do campo no século XX.

É justamente no final do poema que se entende a tríade quando o eu lírico se refere à amada, como “granada rosa”. Significa que ela está grávida, e o bebê que ela espera forma a tríade junto do homem e da mulher que protagonizam esse poema. Além disso, o poema sugere que quem está partindo é a mulher, representando outro aspecto da imigração, o aspecto de quando até as mulheres partem em busca de melhores condições deixando Galícia para trás.

O segundo poema é chamado “Regueifa”:

A balandra dos “Ultreya

leva os corazós por vela;

navega cara ao Futuro…

¡toda Galiza vai nela!

Toda Galiza vai nela,

prenda do meu paladar.

¡Os mares polo Infinito

que leviáns son de pasar!

Que leviáns son de pasar,

prenda do meu corazón,

os astros forman trisqueles

en cada constelazón.

En cada constelazón

oise cantar unha estrela:

“Velaivén a fror das naos,

¡toda Galiza con ela!

Novamente a imigração aparece como fundo do poema. “Balandra” é uma embarcação também e divide espaço no poema com palavras como “navega”, “mares”, “vela”, “naos” criando no leitor essa ambientação de despedida, de viagem. “Ultreya” é uma palavra de um canção francesa e acabou virando símbolo da peregrinação nos caminhos de Santiago, reforçando a Galícia como um território de passagem onde em breve haverá despedida.

A palavra “prenda” tem alguns significados e geralmente diz respeito a algo que será dado como garantia ou diz respeito a alguém que se quer muito. E podemos interpretar como a partida da terra como uma penhora do sentimento galego para se alcançar alguma coisa, e que depois do êxito, se retornará para Galícia, pois é uma terra querida pelos galegos que estão imigrando. “Trisqueles” palavra que designa um símbolo celta que significa “três pernas” e simboliza o movimento da vida.

O poema mostra como esse sentimento de se despedir da sua pátria é nacional e coletivo (¡toda Galiza con ela!”) e que essa pátria é “a fror das naos”, a despedida também faz parte da sua caracterização.


O GALEGO DE ALUÍSIO AZEVEDO

Unindo agora o morriña galega, o saudosismo português e as imigrações veremos como a literatura brasileira enxergou esse imigrante galego através do livro O Cortiço (1890) de Aluísio Azevedo.

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O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

Por ignorância, confundia-se o estrangeiro imigrante da Europa falante do português (ou algo próximo ao idioma), seja de Portugal ou da Galícia, chamando-o de galego. E essa denominação era na maioria das vezes pejorativa. O estereótipo desse “galego” descrito por essa obra realista do século XIX é apresentado através do personagem Jerônimo.

Jerônimo é um português ou galego melancólico que vive com uma mulher igualmente imigrante e que não conseguem esquecer sua pátria. Ambos se recusam a assimilar a cultura brasileira e permanecem alimentando costumes culturais da sua origem como a gastronomia, os hábito, a educação e até mesmo a higiene.

Jerônimo é tipo como um rude e como inferior pela sua origem. Apesar disso, toda a rotina dele e da sua mulher demonstra que eles se orgulham de serem “galegos”, mas essa apreciação não é compartilhada pelos demais personagens como pode se inferir nessa fala dita por Rita Baiana retirada da obra: “Olha o bruto!… queixou -se esta, levando a mão ao lagar da pancada. Sempre há de mostrar que é galego!”

Contudo, no meio da narrativa, Jerônimo se apaixona pela personagem Rita Baiana (essa personagem tem um forte significado por conta da mestiçagem brasileira) e sofre uma metamorfose perdendo sua identidade. Ele deixa sua morriña ou seu saudosismo e adota pouco a pouco os costumes brasileiros. Ao cortar sua ligação com o seu passado, sua pátria e sua identidade, fica impossível que ele e sua mulher continuem juntos, pois mais nada os une.


CONCLUSÃO

Ao se levar em conta o momento histórico e social da Galícia pré-guerra, as imagens medievais descritas pelas cantigas parecem se aproximar bastante da nova realidade neotrobadoresca. A despedida e a morriña são elementos conservados mesmo nesse enorme lapso de tempo. Galícia parece ser a terra da despedida, a nai que tem que abrir mão dos seus filhos e estar fadada a esperar o retorno deles. E o retorno é um desejo tão grande entre os imigrantes que faz com que se acredite que a Galícia é a terra da despedida, mas a terra do retorno. Por isso as cantigas medievais “retornam”, pois os galegos querem se sentir galegos de novo, e se sentirem bem ao voltarem a sê-lo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Diário da Universidade de Vigo. A morriña, un estereotipo que xorde das desiguais relacións de poder entre Galicia e España. Disponível em: < http://duvi.uvigo.es/index.php?option=com_content&task=view&id=7830 > Acesso Novembro de 2014
LANDEIRA, Ricardo.
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ÁLVAREZ, Rosario; VILAVEDRA, Dolores. Cinguidos por unha arela común: homenaxe ó profesor Xesús Alonso Monteiro Volume 1
LAMAS, Jorge. A morriña galega, un mito nacido no XIX. Disponível em: < http://www.lavozdegalicia.es/noticia/sociedad/2013/11/13/morrina-galega-mito-nacido-xix/0003_201311G13P30992.htm > acesso Novembro de 2014
ALVAREZ, Enrique Rodríguez.
La Morriña… un sentimiento de identidad. Disponível em: < http://planetagalego.blogaliza.org/2001/06/01/30/ >
LÓPEZ,
Xesús M. Freire. História da Literatura Galega.
JORGE, Walter. ULTREYA E SUSEYA. Disponível em: < http://www.caminhodesantiago.com.br/walter/ultreya_suseya.htm > Acesso em Novembro de 2014.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Porto Alegre: L&PM, 1998

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