Eis novamente o sagrado cálice: a Matéria de Bretanha na obra de Álvaro Cunqueiro. Thayrine Kleinsorgen

Esta semana deixamos para vocês o trabalho da ex-aluna de Literatura Galega I Thayrine Kleinsorguen sobre Álvaro Cunqueiro e a materia de Bretanha:

Eis novamente o sagrado cálice: a Matéria de Bretanha na obra de Álvaro Cunqueiro

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Ilustração de Francisca Aleñar

Lentamente, a brisa marítima sopra e, hasteada num mastro à beira-mar, uma bandeira tremula ao vento. Embora a brancura de sua superfície reluza sob o sol, isso não é suficiente para ofuscar nem a larga linha azul que liga, transversal, as pontas da bandeira, nem muito menos o cálice tornado brasão, para onde dirigimos o olhar pela centralidade do escudo, encimado pela coroa. Eis a bandeira de Estado da Galiza, esta que é a nazón de Breogán, de bardos e poetas, de labregos e marinheiros. Mas o que nos diz essa bandeira?

Para além dos outros elementos, ora fixemo-nos no cálice, que, na heráldica, é um símbolo relativamente comum, delineando-se em adorno junto a dragões, leões e espadas. Entretanto, em Galiza sua imagem muito significa, e não somente no que diz respeito ao estudo dos escudos, pois que este não é um cálice comum – é, antes, o cálice que porta o sangue vertido de Cristo, bastião da cristandade, que ainda vem empunhado na companhia de outros elementos cristãos, tais quais as cruzes e a hóstia. Não, de fato este não é um cálice comum; é um cálice mágico, o Santo Graal, a figurar no imaginário coletivo, tornando-se um elemento mítico-cultural importante desde, pelo menos, a Idade Média.

Em verdade, o Santo Graal é um motivo recorrente em histórias muito anteriores ao monoteísmo judaico-cristão. Que muito se diga acerca da capacidade sincrética das religiões e, em especial, do cristianismo, não é novidade nos círculos acadêmicos. Ao buscarmos uma origem que sugira alguma relação simétrica com outro símbolo, percebemos que este, o cálice, encontra sim correspondência em outro signo mitológico, sendo posterior a ele:

Pouco se poderá dizer que não seja sabido da significação do cálice para o mundo cristão. Porém, o cálice como recipiente mágico não era alheio na mitologia de raiz céltica, como a da Gallaecia. A associação de equivalência ou, ou de relação genealógica, entre o caldeirão mágico e o cálice ou Graal é evidente, por exemplo, no ciclo artúrico ou nos relatos galeses do Mabinogion.

(FERNÁNDEZ, 2002, p. 232).

 

Dessa forma, para as sociedades celtas, não era o cálice, mas o caldeirão mágico a adquirir importância simbólica. No cálice sagrado, portanto, ressoam as lendas do Caldeirão do deus Dagda, um mago, ou melhor, um druida: figura paterna a liderar o panteão celta. Assim como o Graal, o Caldeirão de Dagda era conhecido como o caldeirão da abundância, pois possuía certas habilidades que possibilitavam a ele ser capaz de prover alimentos e saciar todos os homens. Além disso, e principalmente, o caldeirão concedia aos cadáveres que eram ali mergulhados a dádiva do retorno à vida – qual Cristo, que ressuscitou ao terceiro dia. Assim, o Graal, que foi caldeirão, é símbolo do cristianismo e, ao mesmo tempo, herdeiro da simbologia de fertilidade e vida pagã, politeísta – uma herança que ainda se resguarda, embora silenciosa.

O Graal retratado na bandeira é prova não somente da importância do cristianismo para a construção cultural galega, que, penso, é uma conexão tão evidente que não há necessidade de ser aqui explicada. As históricas e famosas peregrinações a Santiago de Compostela, que não se perderam na Idade Média, mas que ainda hoje perduram como possibilidade turística e religiosa, falam por si mesmas. A ligação da cultura galega com o celtismo, por sua vez, encontra ressonância num movimento cultural e, sobretudo, literário, liderado por Pondal e Murguía à época do Rexurdimento, quando se afigurou a necessidade de se pensar a Galiza enquanto nação independente.

Entretanto, o mito do Graal se diz especialmente a partir das lendas que versam acerca da Matéria da Bretanha, ou Ciclo Bretão; em outras palavras, é nas histórias do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda que o símbolo empunhado na bandeira de Estado da Galiza ganha maior amplitude e relevância.

O Rexurdimento é um evento da história recente da Galiza, mas a fama e a ampla recepção do Ciclo Artúrico são muito anteriores ao século XIX. Embora a narrativa diga de uma experiência histórica bretã, pois que o rei Artur era nativo da região da Grã-Bretanha, seu mito tornou-se tão forte que não se recolheu somente à cinzenta ilha inglesa, mas se espalhou em direção ao continente, sendo especialmente relevante para a cultura medieval da Península Ibérica. Há quem diga que tal fato aconteceu porque também a Península conservou na memória os resquícios dos povos celtas que a povoaram. De qualquer forma, pelo motivo que fosse, por volta do século XV o livro intitulado A demanda do Santo Graal, de Chrétien de Troye, tornou-se febre nas cortes galego-portuguesas, remodelando toda a literatura e a poética posterior a ela. Assim, durante toda a Idade Média o noroeste ibero se viu repetindo, reproduzindo, recontando e recriando as mais diversas possibilidades de literatura cavalheiresca.

Ao final dos assim chamados Século Escuros, quando do regresso das letras galegas e do levante do galeguismo nas artes, nada mais justo do que haver uma retomada daquilo que foi mais representativo nos anos de ouro da literatura galega, ou seja, a Idade Média. Nesta retomada literária, os autores galegos acabaram voltando-se para o que então acreditava-se haver de mais próprio e mais expressivo, ou seja, o cancioneiro trovadoresco e, em alguma medida, o celtismo. Este, por sua vez, deu voz e abriu espaço para a retomada da Matéria da Bretanha na literatura contemporânea.

Diversos autores galegos tornaram-se expoentes desse movimento, relembrando as estranhas e longevas narrativas acerca de Camelot e dos seus personagens míticos, instaurando um novo gênero, o gênero bretão genuinamente galego. Aqui, destacamos Ramón Cabanillas – o Poeta da Raza –, com poemas que evocam a figura de Artur, como em Na noite estrellecida; Méndez Ferrín, com Percival e outras histórias; e Álvaro Cunqueiro, com o famoso Merlín e familia.

Bueno, houbo un período no que me gostou unha especie de remitificación, que poderíamos dicir galega ou algo semellante, de Merlín a consecuencia dos libros de cabaleirías. Eu traio ao mago de Bretaña a terras de Miranda, na província de Lugo, para que alí faga as súas maxias: unhas maxias inocentes, non as grandes maxias que facía na corte do rei Artur, claro. Despois, cando ainda pensaba que Galicia era céltica, foi cando escribín. As crónicas do sochantre, e da Bretaña. (CUNQUEIRO, apud ÁLVAREZ-FAEDO, 2003, p. 87).

 

Merlín e família foi pela primeira vez publicado em 1955 e logo se tornou uma das principais obras a levantar a bandeira do ciclo artúrico na literatura galega contemporânea. Escrita por Álvaro Cunqueiro, essa novela é um livro de memórias: idoso, um certo Felipe de Amancia narra, como um aedo memorialista ou uma avó ao pé do fogo, alguns acontecimentos que ele experimentou na juventude, quando habitava junto a um certo mago Merlín.

Contudo, esse exercício mnemônico não fala apenas da banalidade do cotidiano, não se propõe a somente contar as meras atividades do dia a dia; na mesma medida, também não poderíamos dizer o contrário, quer dizer, é na mesma medida errôneo declarar que o que Felipe de Amancia nos conta são relatos meramente épicos, grandiosos e apoteóticos, de guerreiros e guerreiras a travar guerras que mudam o curso da história. Não. O que Cunqueiro nos apresenta, na voz do pajem, é um casamento entre histórias míticas e fantásticas que, como tal, participam do âmbito do maravilhoso, da marabilia, mas que, além disso, não se perdem nesse universo, pois que tratam também das cotidianidades presentes na vida e nos afazeres simples do povo galego. Cunqueiro faz, assim, a comunhão entre o culto e o popular, entre a literatura de costumes e a literatura de relatos lendários e históricos.

Dessa forma, retirado do invólucro distante e mitológico, a Matéria da Bretanha foi, para Cunqueiro, um assunto muito caro desde a infância. O autor teve contato com essas narrativas míticas quando criança, ouvindo de uma ama as aventuras desses personagens.

Coido que unha enorme parte vénme de minha infância e das minas raigañas… Vénme das cousas escoitadas nos meus días infantís… Vénme do meu país, do meu contorno, da miña memoria deformante, da miña afección polos prodixios e polos milagres, de meu amor polas cousas que no son da realidade senón do soño… No me é nada doado dicir onde están as claves. Tamén deberon ter influído, supoño, certas lecturas de infância e mocidade, igual que os romances que escoitei cuando neno ás xentes da miña bisbarra, as historias que eu ouvín contar. (CUNQUEIRO, apud ÁLVAREZ-FAEDO, 2003, p. 86).

 

A história se desenvolve, portanto, numa colcha de retalhos, quase que se tornando um emaranhado de pequenos contos, retirados de narrativas populares e relatos mitológicos que se sedimentaram no fundo da memória galega. Cunqueiro, como os poetas compiladores do Romantismo, que viajavam pelos seus países buscando recolher a literatura oral e transformá-la em escrita, reúne uma série de histórias de grandes personagens do cânone cavalheiresco e os humaniza.

Os personagens da narrativa fazem sim parte das referências mitológicas que ainda hoje nos chegam, mas quase nada têm da pomposidade mítica que impera no imaginário coletivo quando o assunto é sobre cavaleiros, príncipes, reis, magos e sereias. A começar pelo D. Merlín de Cunqueiro, que continua sendo um mago e um sábio, como nas narrativas originais. Apesar disso, na releitura que se faz em Merlín e familia, muito pouco resta da representação de Merlín como um homem cheio de poderes previdentes e artimanhas, sendo, por isso mesmo, perigoso; ao contrário, ele é transformado num homem quase comum, um patriarca com quem facilmente encontraríamos, andando distraído pela cidade.

Além dos personagens, também o cenário do enredo se transmuta. A Matéria da Bretanha, para Cunqueiro, não fala da Bretanha, de personagens e países estrangeiros. Ela acontece ali, no solo galego. Assim, ele explica numa entrevista de 1979:

Yo soy un gallego que utiliza Galicia como un telón de fondo. Y esto ocurre de modo permanente. No quiero salir de esta geografía. Es un paisaje físico y humano que he utilizado para todo: incluso cuando escribí Las mocedades de Ulises, que aparentemente se desarrollaba en Grecia, era Galicia la que estaba en el trasfondo. (CUNQUEIRO apud EL PAÍS, 2013, n.p.).

 

A bem da verdade, tanto a realocação de qualquer história para o ambiente galego quanto a transformação de personagens caracteristicamente mitológicos em gente comum, do povo, são um movimento característico da obra de Álvaro Cunqueiro. Nesta novela, especificamente, esses elementos adquirem grande importância, pois que Cunqueiro se propõe a retratar o seu povo no que ele tem de próprio: o mito é despido de seu caráter épico e, assim, torna-se mais próximo do cotidiano.

El mito se nos presenta, de este modo, cercano en el tiempo y en el espacio. Cunqueiro desmitifica al mito y lo aproxima a la realidad. Los ejemplos son numerosos a lo largo de Merlín y familia. Baste con acudir a los dos primeros capítulos en los que se describe el entorno físico y los personajes que convivirán en esta fábula. En palabras de Diego Martínez Torrón: ‘Los mitos están vaciados de contenido, al igual que los personajes míticos. Lo que cuenta de ellos es su fuerza de evocación. Vaciados de su interior, los mitos son pura referencia cultural’. (PRIETO, [2018], n.p.).

 

Merlín e família divide-se em dois momentos: no primeiro, Felipe narra as aventuras acontecidas enquanto ele era um serviçal na casa de D. Merlín; no segundo, que é dividido em outras duas partes, Felipe, tendo já saído da casa de D. Merlín, relata histórias que viu e ouviu numa hospedaria, para onde convergiam vários peregrinos, e conta, ainda, uma narrativa que leu enquanto ainda estava na casa de D. Merlín.

Ao rememorar essa narrativa permeada de personagens míticos, Felipe de Amancia descreve-nos um Merlín que não é andarilho, mas que permanece. Os outros é que vão em busca dele, na esperança de encontrar conselhos, poções mágicas, encantamentos e soluções das mais diversas para seus problemas. Daí o título do livro: nessa interação dos personagens, cria-se a imagem de uma típica família galega, que, apesar de ter a figura feminina (Ginebra) e masculina (Merlín), talvez não seja uma família tradicional, posto a falta de filhos. Ainda assim, Merlín é uma figura paternal que acolhe todos aos seus cuidados, criando a possibilidade de criação de laços e elos fraternos.

Dessa maneira, Merlín e familia é uma obra cujo teor já se anuncia no título, em prenúncio e em aviso. O épico galego, a maravilha e o fantástico desta gente estão guardados, justamente, no seio familiar, na tradição arqueológica da oralidade, na concretude singela do cotidiano popular: no povo, enfim.

 

Referências

 

ÁLVAREZ-FAEDO, Maria José. Avalon revisited. Reworkings of the Arthurian myth. 2003. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=f5-uKpcOMhMC&pg=PA87&lpg=PA87&dq=merlin+y+familia+materia+breta%C3%B1a&source=bl&ots=JUhhTjozlt&sig=TYld3Niy3BhmyZuamsJsp0LUjNI&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjl3MOu58TZAhVRu1MKHWJdBx0Q6AEIczAO#v=onepage&q=merlin%20y%20familia%20materia%20breta%C3%B1a&f=false&gt;. Acesso em: 27 fev. 2018.

 

CUNQUEIRO, Álvaro. Merlín e familia. Galiza: Galáxia, 2003.

 

FERNÁNDEZ, Tomás Rodríguez. A bandeira sueva do Reino da Gallaecia revista. Agália, n. 102, 2º semestre de 2010.

 

EL PAÍS. ‘Merlín y familia’, de Álvaro Cunqueiro. El deslumbrante realismo mágico del escritor gallego, en la colección de El País. El País, Espanha, 15 nov. 2003. Disponível em: < https://elpais.com/diario/2003/11/15/cultura/1068850810_850215.html&gt;. Acesso em: 27 fev. 2018.

 

PRIETO, Rosa Castro. Merlín, un personaje real. Centro Virtual Cervantes, [2018]. Disponível em: <https://cvc.cervantes.es/actcult/cunqueiro/quehacer/narrativa_02.htm&gt;. Acesso em: 27 fev. 2018.

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