Os estudos galegos em Niterói (RJ)

Xoán Lagares

Professor de Letras na Universidade Federal Fluminense (UFF)

O Núcleo de Estudos Galegos (NUEG) da Universidade Federal Fluminense tem já uma história longa, que se remonta a mais de vinte anos atrás. Durante todo esse tempo, mesmo sem contar com a presença de um professor leitor, o NUEG manteve uma programação constante de atividades que supõem uma efetiva intervenção na vida acadêmica no Instituto de Letras da universidade. O principal desafio de um centro de estudos galegos conveniado com a Xunta de Galicia é precisamente inserir a “questão galega”, suas particularidades linguísticas e culturais, nos principais debates do contexto acadêmico em que se localiza, permitindo um diálogo horizontal, direto e sem intermediações, com as outras culturas do mundo. Para uma cultura minoritária como a nossa, essa dimensão dialógica que faz da Galiza “célula de universalidade” é vital. Como muito bem sabia o galeguismo histórico, ela é uma condição imprescindível para a sua sobrevivência.

No Brasil, por causa dos vínculos linguísticos e históricos que nos unem, as formas de inserção da cultura galega na vida cultural e acadêmica encontram diversos caminhos para transitar. De fato, já em 1991, antes mesmo da inauguração do NUEG, que aconteceu oficialmente na universidade em 10 de janeiro de 1994, a professora Maria do Amparo Tavares Maleval, uma importante medievalista brasileira, idealizadora do projeto e fundadora do Núcleo, organizou um curso de extensão sobre Língua e Literatura Galegas, ministrado pela professora Teresa Fandinho Barreiro, com a colaboração do governo autonômico galego. No encerramento do curso é que foram realizadas as I Jornadas UFF de Cultura Galega. Os textos daquelas conferências foram publicados na revista da Faculdade, os Cadernos de Letras, no seu número 5 (Aspectos de Cultura Galega).

O convênio com a Xunta de Galicia se inicia no ano 1994, quando se realizam umas II Jornadas de Cultura Galega no Instituto de Letras. Os anais desse encontro foram publicados em Santiago de Compostela, pela Consellería de Educación e Ordenación Universitaria. Com a aposentadoria da professora Maleval, o professor Fernando Ozório Rodrigues passou a ser o Diretor do NUEG, auxiliado por mim como Vice-diretor.

Desde a sua fundação o NUEG não deixou de desempenhar atividades para divulgar a língua, a literatura e a cultura galegas, oferecendo cursos de extensão, promovendo ciclos de palestras, seminários e mesas redondas, projetando filmes seguidos de debates, publicando livros, editando CDs e possibilitando a participação de alunos e professores da UFF no Curso de Verão de língua e cultura galegas da Universidade de Santiago de Compostela.

Nestes anos diversos estudiosos e estudiosas da Galiza e do Brasil ministraram aulas em cursos de extensão organizados pelo NUEG; dentre eles, Carlos Paulo Martínez Pereiro, Francisco Singul, María Sol López Martínez, Lydia Fontoira, Beatriz Gradaílle, Reynaldo Valinho Álvarez, Baltasar Pena Abal, María Belén Posada, Diego Bernal, Denis Vicente Rodríguez, Susana Martínez, Elias Torres, Francisco Dubert, Elisa Fernández Rei, Rosario Álvarez, Henrique Monteagudo, Fernando Ozório e eu mesmo. Alguns desses cursos de extensão foram oferecidos em colaboração com o programa de pós-graduação de Estudos de Linguagem da UFF, fazendo parte das atividades desenvolvidas no Instituto de Letras para a formação de pesquisadores.

Em 2010 conseguimos implementar também um convênio CAPES-DGPU, inserido num programa de parceria acadêmica entre os respectivos ministérios da Educação do Brasil e da Espanha, entre a UFF e a Universidade de Santiago de Compostela, para a realização de seminários internacionais que explorassem a relação histórica entre o galego e o português brasileiro, com o título: “Galego e Português Brasileiro: história, variação e mudança”. Como produto desse convênio, houve um intercâmbio de pesquisadores galegos e brasileiros que possibilitou a elaboração de um projeto conjunto de pesquisa, que conta desde 2014 com apoio da CAPES brasileira e da DGPU espanhola. Daí resultaram novos intercâmbios de professores e estudantes, participações conjuntas em congressos e diversas publicações.

Sob a direção da professora Maria do Amparo Tavares Maleval foram publicados, entre 1996 e 2007, cinco números do periódico Estudos Galegos, com artigos sobre temas de língua e cultura galegas, desde o medievalismo até à idade contemporânea. Após a sua aposentadoria, e em colaboração com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a professora Maleval dirige uma coleção da Editora da UFF (EDUFF), chamada “Estante Medieval”, onde o NUEG vem publicando estudos inéditos sobre literatura e cultura medieval galego-portuguesa, como, por exemplo, Os cavaleiros que fizeram as cantigas: aproximação às origens socioculturais da lírica galego-portuguesa, de autoria do professor José António Souto Cabo, da Universidade de Santiago de Compostela, ao mesmo tempo que vem reeditando estudos e edições clássicas como, por exemplo, As cantigas de D. Joan Garcia de Guilhade e estudos dispersos, de autoria do filólogo alemão Oskar Nobiling, organizado pela professora Yara Frateschi Vieira.

Os caminhos percorridos para o diálogo com o mundo acadêmico brasileiro no nosso caso privilegiam, como vemos, os estudos medievais e os linguísticos. As atividades sobre cultura medieval não se reduzem à publicação de livros, pois o NUEG produziu, em parceria com grupos de música da UFF, três CDs: em 1997, o CD Cânticos de amor e louvor, gravado pelo Conjunto de Música Antiga da UFF, com “Cantigas de Amigo” de Martin Codax e “Cantigas de Santa Maria”; em 1999, o CD Annua Gaudia, a Música do Caminho de Santiago, gravado pelo Conjunto Longa Florata; e em 2005, o CD Medievo-Nordeste, também gravado pelo Música Antiga da UFF.

Durante o ano 2010 foi realizado um ciclo de palestras sobre políticas normativas, que deu lugar a um livro coletivo organizado por mim e pelo professor da Universidade de Brasília Marcos Bagno, publicado na Parábola Editorial em 2011 com o título Políticas da norma e conflitos linguísticos. Em 2012 foi publicado pela EDUFF o livro com os estudos dos seminários internacionais galego-brasileiros realizados no ano anterior, com o título Galego e Português Brasileiro: história, variação e mudança.

Neste momento estamos em processo de elaboração de um dossiê sobre galego-português na revista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Labor Histórico. Também estamos realizando um novo site para o NUEG, onde informaremos sobre as nossas atividades, disponibilizaremos as nossas publicações e ofereceremos portas de entrada a recursos linguísticos e literários e a instituições e associações da cultura galega. Atualmente, é possível acompanhar as nossas atividades na página do Núcleo no Facebook: https://www.facebook.com/nueg.uff/.

O próximo curso de extensão projetado, sobre o Caminho de Santiago, será ministrado precisamente pela fundadora do NUEG, a professora Maleval. Os caminhos só existem enquanto são transitados. Quando são abandonados, eles somem entre o mato, que apaga os seus rastos. O do Núcleo de Estudos Galegos da UFF continua sendo um caminho muito trilhado e por onde todo o mundo pode passar.

 

 

 

 

 

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