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Dia Nacional da Galícia em Salvador de Bahia

A próxima segunda-feira dia 25 de julho é o Dia Nacional da Galícia. Na Universidade Federal da Bahia, para comemorá-lo, terá lugar, a sala de videoconferências PAFII a seguinte atividade:

  • Palestra sobre o Dia da Galicia e o caminho de Santiago a cargo de Luciano Santos Borges, da Associação Bahiana de Amigos do Caminho de Santiago.
  • Projeção do documentário Afranio, de Víctor Coyote (2009), sobre como o deputado Alonso Ríos tenta fugir pela ribeira do Minho no início da Guerra Civil espanhola.

Feliz Dia Nacional da Galícia a todas e todos os leitores do Quilombo Noroeste!

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A memória franquista na literatura galega (A partir dos contributos de Xosé Luís Méndez Ferrín)

Gil Gonçalves

Aluno de Língua e Literatura Galega na Universidade Nova de Lisboa

Os anos da guerra civil espanhola e, sobretudo, aqueles que se sucederam à vitória franquista no conflito foram particularmente danosos para a língua galega, que se vinha desenvolvendo paulatinamente no plano literário desde a segunda metade do século XIX, depois de uns “Séculos Escuros” a que agora se queria novamente remetida, nessa nova conjuntura pouco dada às liberdades intelectuais. O desejo do “generalíssimo” de criar um estado forte e, por isso, centralizado, só se realizaria com o saneamento do maior número possível de especificidades “regionais”. A língua, nos mais variados contextos, sempre fora uma das armas fundamentais nas lutas nacionalistas, tendo o caso galego ainda a particularidade da associação de alguns dos vultos mais proeminentes do seu movimento literário a grupos não só galeguistas mas também adeptos de ideologias de esquerda mais “radical” e anti-sistémica, nomeadamente influenciada por correntes marxistas ou mesmo anarquistas.

            Tinha, pois, de se pôr em funcionamento um mecanismo de repressão linguística. Tinha de se impor o castelhano em todos os recantos dessa Grande Espanha idealizada como uma unidade política e cultural sem mácula. Um dos mais descaradamente claros registos dessa campanha chega-nos através de um folheto, datado de 1942 e impresso na Corunha, intitulado (de forma bastante elucidativa quanto aos seus propósitos) “Hable Bien” e que diria o seguinte àqueles que residiam em comunidades com línguas que não a oficial espanhola:

Sea patriota – no sea bárbaro. Es cumplido caballero que Vd. hable nuestro idioma oficial o sea el castellano. Es ser patriota. VIVA ESPAÑA Y LA DISCIPLINA Y NUESTRO IDIOMA CERVANTINO. ARRIBA ESPAÑA!! (in Freitas Juvino, 2008).

Seriam estas políticas de exaltação e defesa de um nacionalismo espanhol a ditar a dura repressão que se abateu sobre os grupos que vinham defendendo a língua galega e o galeguismo. Os homens mais activos das Irmandades da Fala (por alturas da guerra já enquadrados quase na sua totalidade no Partido Galeguista) passariam à clandestinidade e muitos dos seus elementos, juntamente com todos os simpatizantes da causa que fossem vistos como particularmente refractários, teriam de sofrer o drama do exílio. Ainda que se tenham constituído fortes e dinâmicos grupos que continuariam a defesa da fala nessa condição de proscritos, sobretudo nas Américas e em particular nessa quinta província galega que era Bos Aires (onde Castelao terminará de escrever um dos textos base do nacionalismo galego, Sempre en Galiza[1]), dificilmente se poderiam mitigar os danos irreparáveis de uma censura agressiva, durante longos anos, na pátria que foram obrigados a abandonar. A presença única e obrigatória do castelhano nos documentos oficiais conduziria ao progressivo abandono do galego – que desde logo não podia ser ensinado nas escolas –, sobretudo em meio urbano. Se a Galiza era um universo maioritariamente rural, será também nesse período que as cidades se começam a tornar grandes polos de atracção. Instala-se um bilinguismo diglóssico em que há um idioma que, por oficial, prevalece sobre esse outro, “bárbaro”, que deveria ser remetido, quanto muito, a um uso doméstico. Se outras línguas (como o basco e o catalão) viram a sua utilização mais terminantemente proibida, no caso do galego foi esse estigma de inferioridade que exerceu uma pressão psicológica suficiente sobre as populações para que estas a fossem progressivamente deixando cair em desuso. A aparente permissividade estatal é colmatada com a classificação do idioma, de forma iminentemente paternalista, através de epítetos como “rural, lírica ou inofensiva” (Bermúdez Montes, 2010, p. 107).

            A primeira inflexão e reacção a esse punitivo controlo estatal virá na década de 1950 com a emergência de uma nova geração de autores e com a fundação de uma editora dedicada em exclusivo à publicação de obras em galego, a Galaxia, fundamental para o despertar de um idioma silenciado. É então nesse quadro, já mais favorável, que Xosé Luís Méndez Ferrín publica os seus primeiros textos, enquadrando-se no espírito da Nova narrativa galega (ao mesmo tempo que ia também explorando o campo da poética), importadora de ideias e modelos de autores como Kafka ou Joyce e do nouveau roman francês, mas nunca perdendo de vista a tradição literária e política galega que incorporará de forma exímia nos seus trabalhos.

            Assumir a defesa de uma língua é, em si, um acto político. No caso galego, somar-se-á a isso muitas vezes a directa oposição ao franquismo, estando as duas lutas, obviamente, interligadas. O percurso de Méndez Ferrín será um dos mais evidentes a esse respeito. A sua participação em grupos de intelectuais como o Brais Pinto (influenciado pela cultura beat e assumindo-se como nacionalista de esquerda) e o seu papel na fundação da UPG (Unión do Povo Galego) em 1964 servem bem para ilustrar essa simbiose entre o campo literário/artístico e o da militância política. Fatalmente, teria de haver uma promiscuidade entre eles, assumindo muita da sua obra um forte cunho social e reivindicativo, sendo que muitos dos panos de fundo das suas narrativas têm na violência e na repressão do regime evocações frequentes. Esta atitude, e apesar desses tempos de maior tolerância, não passaria ao lado daqueles a quem não interessava nem uma nova pujança da língua galega nem muito menos a sua politização em sentido contrário à ordem estabelecida. A censura e a autocensura (consciente ou não) continuariam a ser condicionantes da liberdade criativa destes escritores, não escapando Méndez Ferrín a estas lógicas, que não vê ainda completamente ultrapassadas. Recorrer a formas de linguagem quase encriptada e ao universo do fantástico (cenários e personagens irreconhecíveis) eram alguns dos esquemas muitas vezes adoptados para se escapar às malhas censórias. Afirmaria a dada altura que:

Nunca teño conciencia de que me autocensurase ou de que sexa agora máis libre de escribir que naquel momento. En absoluto. E naquel momento inconscientemente había que ter algunha estratexia elíptica (in Bermúdez Montes, 2010, p. 105).

            Mas essa estratégia elíptica nem sempre foi utilizada e, quando assim era, as consequências iam para lá da simples apreensão da obra. Quando foi encontrado o manuscrito do seu romance O Corvo, a Figueira e a Fouce de Ouro – já em 1969 – seria preso durante dois anos e multado em 25.000 pesetas, sendo que o que estava nessa altura em causa era uma dedicatória feita a vários guerrilheiros antifranquistas. Claramente não houve aqui nenhuma espécie de preocupação com eventuais repercussões mas antes uma acção deliberada em busca de preservar uma memória que se queria reprimida. Será essa, pois, uma das demandas que mais marcam a obra de Méndez Ferrín, sempre em contra-corrente mesmo já nos anos posteriores à transição democrática onde as representações memorialísticas quer da guerra-civil quer do franquismo continuam a ser um muito problemático tabu. Para além dos aspectos directamente políticos, as medidas censórias atacariam também aquilo que entendiam ser ofensas à moral ou atentados ao bom gosto, optando-se pela omissão de certos termos coloquiais e todo o calão. As publicações em revistas clandestinas eram um outro mecanismo de divulgação das suas obras, acontecendo isto sobretudo na sua poesia, também não raras vezes politicamente conotada. Através do seu pseudónimo Heriberto Bens publicaria, por exemplo, um poema acerca dos vários episódios de fuga da Galiza pelo mar em 1936, que não raras vezes terminavam da pior forma. Sai em 1967 na revista Si la píldora supiera no la doraran por defuera (Méndez Ferrín e Angueira, 1999, p. 111).

            O enquadramento de Méndez Ferrín na literatura comprometida ligada ao movimento social-realista, fundador em certa medida de um renovado nacionalismo de esquerda, não seria feito sem um profundo processo de crítica a essa corrente, que inicialmente ajudou a desenvolver, acabando mesmo por superá-la a dada altura. A questionável qualidade de alguns desses textos, para além de não contribuir para a eficácia das denúncias que neles eram feitas, dada a sua perda de sentido, revelava, no seu entender, um profundo desconhecimento, desinteresse e desrespeito pela cultura galega, fruto talvez de uma influência excessiva do que era o social-realismo praticado em Espanha. O carácter subsidiário de muitas dessas obras em relação aos interesses e objectivos do PCE era igualmente apontado como um dos factores responsáveis pelo decréscimo do seu valor quer literário quer ideológico.

            Esse afastamento do fenómeno do social-realismo nunca se materializaria num abandono do carácter social dos seus textos. Já nos anos pós-transição democrática e da normalização linguística, publicaria contos como o “Episodio de Caza” (Crónica de Nós, 1980) em que descreve detalhadamente – remetendo para uma série de individualidades e espaços reais – aquilo que seria o planeamento de um assassinato por motivos políticos de um “fascista” conduzido por uma guerrilha galeguista que não só sai gorado como se revela um simples delírio, um sonho de um intelectual enfiado numa biblioteca que não era capaz de sair da sua redoma de passividade não fossem breves momentos de fuga imaginados no interior da mesma. Quase um pedido para que houvesse um despertar real para a causa independentista e para que se abandonasse uma retórica vazia, desprovida de uma componente prática, assumindo-se uma posição mais proactiva. Já no início dos anos 1990, obras como Arraianos voltariam a pintar esse doloroso retrato de uma repressão de décadas.

            Ainda que actualmente a questão da censura, pelo menos na sua forma mais directa, já não se coloque, as liberdades concedidas ao emprego da língua galega permanecem reduzidas por comparação a um castelhano que continua a ser francamente privilegiado. Os efeitos da opressão linguística franquista e a diglossia que a partir dela foi gerada prevalecem apesar de alguns esforços em sentido contrário. Será essa uma das heranças da ditadura que só poderá ser eficazmente combatida quando houver a capacidade para explorar e denunciar devidamente esse passado tão incómodo. Méndez Ferrín foi um daqueles que sempre o fez e que, nesse aspecto, poderia com propriedade liderar pelo exemplo.

Bibliografia:

BERMÚDEZ MONTES, Maria Teresa, “As poutas da censura franquista sobre a literatura galega. O caso da “nova narrativa”” in Revista de Investigación en Educación, Vigo, nº7, 2010.

FREITAS JUVINO, Maria Pilar, A represión lingüistica en Galiza no século XX, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 2008.

MÉNDEZ FERRÍN, Xosé Luís e ANGUEIRA, Anxo, Poesía enteira de Heriberto Bens, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1999.

 [1] Foi também a obra definidora do percurso literário e político de Xosé Luís Méndez Ferrín (vide Méndez Ferrín e Angueira, 1999, p. 13).

 

O cinema como reconstrução da memória: O lapis do carpinteiro

Rodrigo Moura

Mestrando em Literatura Comparada na UERJ

 

A literatura, o cinema e outros tipos de arte tiveram uma importância inimaginável no que tange ao processo de reconstrução da identidade e da memória galega, posto que através desses tipos de manifestações artísticas foi possível manter viva toda a cultura e história galega que durante muito tempo sofreu com a repressão e a censura do governo espanhol.

O filme  “O lápis do carpinteiro” dirigido por Antón Reixa é uma releitura do livro de mesmo nome do autor galego Manuel Rivas. Nesse longa que se passa em Santiago de Compostela e na Corunha, podemos ver a dura realidade galega durante o início da ditadura de Franco em meio a prisões, torturas e mortes.

O lápis do carpinteiro começa numa espécie de cabaré, localizado na fronteira entre Portugal e Galiza, em que um velho conta suas memórias a uma prostituta. Em um certo momento a mulher indaga sobre o lápis que o homem carrega na orelha e ele retruca perguntando se ela gostaria de saber a história daquele lápis e assim com o auxílio do “flashback” inicia o filme.

ImaxeMarisa e Daniel abraçados

Santiago de Compostela – 1936, “Pouco antes do Golpe de Estado”, diz uma legenda logo no início do filme. Logo após uma cena de uma reunião do Estatuto de Galicia, espécie de organização que luta pela Autonomia e pela causa galega, Daniel La Barca, médico e comunista, inicia um discurso sobre a importância do voto feminino e da participação efetiva das mulheres na vida política. Ele é intensamente aplaudido por Marisa que está totalmente apaixonada pelo médico.

Em uma outra cena, vemos a cúpula militar tramando contra os comunistas, anarquistas e socialistas com o auxílio de uma lista, típica de governos ditatoriais, onde o nome de Daniel consta como um dos principais inimigos dos militares. Com a ajuda de fotos, dados e informações, os militares descobrem que Daniel nasceu no México e que exerce a medicina em Santiago de Compostela, além de ter ao seu lado anarquistas e comunistas.

Daniel é preso sem motivo aparente pelos militares quando este visitava Marisa em uma loja de vestidos de Santiago de Compostela. Marisa e as outras mulheres gritam e aos berros chamam os militares de “cabróns”, pedindo a liberdade de Daniel.

Pouco a pouco instaura-se o governo militar em Espanha, e Galiza vem sofrendo uma série de imposições culturais, como por exemplo: adotar o castelhano como única língua digna de ser falada. Pelas ruas ouve-se “Arriba España” e prisões sem motivos se espalham pela capital galega.

No Presídio Municipal, médicos, artistas, sindicalistas e professores se questionam sobre o porquê das prisões e sobre os novos rumos da República. Nesse momento um pintor se dá conta de que seu lápis está gasto de todo e um carpinteiro lhe dá um novo para que ele possa continuar suas caricaturas, uma forma de resistir, uma forma de sobreviver ao cárcere – a arte.

Marisa, que é filha de um grande fidalgo aliado aos militares, Don Beito, sofre com a prisão de Daniel e tenta encontrar alguma forma de vê-lo. Entretanto, seu pai deseja que ela case com um soldado.

Na prisão, o pintor começa a contar uma história a fim de manter os ânimos calmos e esquecer do cárcere. A história, na verdade uma lenda, fala sobre duas irmãs: uma chamada morte e outra vida. As duas tinham muitos pretendentes e resolveram fazer uma promessa de fidelidade eterna ao homem que melhor tocasse algum instrumento. Numa certa noite as duas foram a um baile, a irmã morte com seus sapatos brancos e a vida os negros, foram dançar em um lugar onde todos os rapazes da comarca ficavam. Durante a noite houve um naufrágio: “Esse é um país de naufrágios” brinca o pintor. Quando o barco afundou de todo alguns instrumentos chegaram até a costa e um pescador distraído encontrou um acordeon e tocou intensamente. A irmã vida apaixonou-se loucamente pelo pescador e a irmã morte, invejosa, ficou triste e agora vaga pelos caminhos, sobretudo no frio, procurando seu músico. Ela vai até a casa das pessoas e pergunta se alguém ouve o acordeonista e se não há respostas, a morte leva a pessoa consigo.

Após esse episódio, um soldado pede ao pintor que o acompanhe. Numa série de torturas e humilhações, o pintor é morto com um tiro na testa. O soldado antes de matá-lo pede desculpas e pega o lápis de carpinteiro que o pintor levava em sua orelha. No momento da morte, surge algumas cenas por meio de “flashback” em que o soldado vê seu pai matando um lobo e pede desculpas por fazê-lo. Nesse sentido, pode se fazer alusão à máxima de que “o homem é o lobo do homem”.

Daniel é transferido para uma espécie de Campo de Concentração na Corunha e Marisa fica sabendo. Ela vai até à Corunha visitá-lo, porém Daniel pede que a mulher se afaste dele e nunca mais volte a aquele lugar. Enquanto isso, nos campos mais mortes e torturas acontecem.

Imaxe Luís Tosar interpretando um soldado espanhol

O médico Daniel é levado a um campo de extermínio e sobrevive. Nesse momento, a Igreja entra em cena ao lado do governo fascista. Um padre dita as normas dessa nova sociedade espanhola e os presos respondem com uma crise de tosse que conseguem calar o padre. Os militares se espantam com a cena e gritam “Espanha” e os presos retrucam “Livre”.

Mais uma vez Daniel é levado pelos militares e sobrevive, fazendo jus a sua figura de herói romântico. De volta ao cárcere, Daniel encontra seus companheiros. Um deles, o cantor, inicia um belo canto “Foi coma un soño que nunca existiu”. Os militares, com sua intolerância, levam o cantor para a morte, mas ele deixa essa canção como grito de ordem para os que ainda resistem.

Daniel é julgado pelos militares e fica decidido que ele pode voltar ao México, seu país de origem. No trem que vai de Santiago para a Corunha, o médico encontra Marisa. Os dois, sob vigia dos militares, conseguem ter uma noite de amor no hotel onde Daniel se hospedara antes de voltar a seu país.

O filme termina como no início. O cabaré surge de novo em cena e o velho finda a história do casal, dizendo que Daniel e Marisa foram para o México e que só retornaram à Galiza com a morte do General Franco. O velho, debilitado, resolve sair do cabaré e encontra um cachorro raivoso. Ele saca a arma, pede desculpas e inicia os disparos, mas nenhum acerta o animal. O velho cai morto, é amparado pelas prostitutas e o filme termina de forma épica.

Como pudemos observar a partir dessa pequena resenha, o ato de “ser galego” foi quase um crime durante a ditadura franquista. Os galegos foram presos, torturados e mortos. E esse filme de Antón Reixa cujo fundo romanesco traz à tona inúmeras questões sobre a barbárie galega. O cinema, permite, então reavivar a memória galega para que esses capítulos terríveis jamais caiam no esquecimento.