A representação feminina nos contos populares galegos e brasileiros

Fernanda Lacombe

Aluna de Literatura Galega I na UERJ e pesquisadora

INTRODUÇÃO

Em Os arquétipos e o inconsciente coletivo, o psicanalista austríaco Carl G. Jung divide e o inconsciente humano em pessoal e coletivo. O primeiro possui caráter subjetivo, enquanto que o segundo possui caráter universal. Constituído de imagens presentes em todo o tempo e todo o lugar, o autor o compara ao superego de Sigmund Freud. Assim como neste se encontram as normas e regras da vida em sociedade, estas imagens – os arquétipos – estão por trás do comportamento de todo o ser humano.

Inicialmente inconscientes, os arquétipos passam por uma conscientização de diversas maneiras, entres elas os contos de fadas. Sendo universais, os mesmo arquétipos genéricos estão presentes em todas as narrativas humanas, mas são expressos de modo particular em cada cultura. A análise comparativa dos contos brasileiros e galegos permite perceber semelhanças e diferenças nas representações do arquétipo feminino, e desse modo semelhanças entre as duas culturas, fato que confirma uma certa herança galega no Brasil.

De acordo com o senso comum, os contos de fadas são narrativas infantis com o objetivo moralizante. Porém, suas origens remontam às camadas mais baixas da população. Tanto no Brasil quanto na Galícia, uma parcela significativa da povo não tinha acesso à cultura socialmente valorizada. Além disso, no caso da Galícia, as narrativas populares foram uma das únicas formas de literatura produzida em língua galega durante os “séculos oscuros”1.

Os contos galegos analisados foram retirados da coletânea Contos populares lançada em 1983 na Galícia e organizada por Maruxa Barrio e Enrique Harguindey. Para comparação com as narrativas brasileiras, foram selecionados os contos recolhidos por Silvio Romero e Câmara Cascudo, referidos na bibliografia desse artigo. Todas as narrativas escolhidas são de encantamento, devido ao rico material de símbolos e imagens arquétipicas contidas neste gênero.

Associados diretamente ao ambiente doméstico, e consequentemente feminino, muitos dos contos populares são metáforas que tratam do amadurecimento de crianças e jovens. No caso das mulheres, o contato com estas histórias é essencial para o desenvolvimento da psique feminina e transformação da criança na mulher adulta. Seu estudo nos permite uma melhor compreensão dos hábitos das mulheres de séculos anteiores e sua maneira de transmitir conhecimento entre gerações.

O XOGADOR E A FILLA DO DEMO: O AMADURECIMENTO DA SEXUALIDADE E A ESPERA.

O primeiro conto a ser analisado, O xogador e a filla do demo, possui uma personagem feminina que começa discreta, mas ganha espaço ao longo da narrativa. Este conto inicia-se com o jogador do título, um homem que vende sua alma ao diabo em troca de um baralho que permite que ele ganhe sempre. Ao cabo de cinco anos, o jogador precisa se apresentar ao diabo para entregar sua alma. Graças à intervenção do destino, ele conhece Brancaflor, filha do demo, que irá auxiliá-lo.

No primeiro momento em que surge, percebemos a importância de Brancaflor, pois é a única personagem que possui nome próprio, ao contrário dos outros personagens identificados por títulos genéricos – o jogador, o diabo, a mulher.

Depois de vencer todos os desafios propostos pelo diabo – com o auxílio da moça – o jogador e a filha do demo fogem juntos, porém o pai os segue. Durante a fuga, Brancaflor, que é dotada de poderes mágicos, transforma-os em diferentes elementos para despistar o diabo. Primeiro, ela transforma a si mesma em um cacho de uvas e o jogador em um vendedor. Depois, toma a forma de uma igreja e seu amado, a de um padre.

Estes elementos católicos, assim como o nome de Brancaflor – que sugere beleza e pureza – contrastam com sua filiação. Do mesmo modo, a transformação final da moça em braço de mar, para enganar seu pai, representa sua estreita relação com a natureza.

Como personagem da narrativa popular, Brancaflor representa as mulheres do campo. A junção de elementos pagãos com cristãos representa a dualidade destas mulheres, divididas entre as tradições campesinas e os costumes cristãos. De fato, nos contos fica claro que a religião do povo possuía uma série de características e superstições próprias. Não é de se espantar que a filha do diabo possa ser heroína de uma narrativa, do mesmo modo que, no Brasil, o diabo pratique boas ações em alguns contos.

Brancaflor também encarna uma imagem típica da mulher galega no momento seguinte da história. Depois de fugirem ela e o jogador do diabo, a moça pede a seu noivo que não abrace ninguém, pois se o fizesse o jovem a esqueceria. O rapaz não segue sua advertência. Assim, esquecida por seu noivo, Brancaflor torna-se costureira e todos da vizinhança comentam sua beleza.

Dentro do imaginário galego, a figura da tecedeira – aqui simbolizada pela costureira – já é uma imagem comum. Desde Penélope aguardando Ulisses, o que remete ao legado cultural grego herdado pela península Ibérica, até as componesas que esperam seus maridos que imigraram e as moças das cantigas de amigo que aguardam o retorno do amigo (namorado) que partiu em missão com o rei, a espera e a fiação do tempo estão entrelaçados. O ato de tecer e o próprio fio possuem múltiplos significados, desde a passagem do tempo e a sexualidade, até o próprio ato de contar histórias.

Estas três significações se aplicam a este conto. Enquanto aguarda que o jogador se lembre dela, Brancaflor não apenas costura, mas recria em sua memória e história dos dois para mantê-la viva. E, ao mesmo tempo em que faz seu trabalho de costureira, atrai os jovens da região.

Como dito na introdução, os contos de encantamento não são narrativas infantis. Consequentemente, detalhes da vida comum como a sexualidade estão presentes, metafórica ou explicitamente.

O ato de fiar também como representação da sexualidade também é encontrado no conto brasileiro A princesa do sono sem fim, retirado da recolha de Câmara Cascudo. Amaldiçoada quando criança, a protagonista pica seu dedo em um fuso ao completar quinze anos, e cai em um sono de muitos anos. Inicia-se um período de espera, causado pela iniciação precoce na sexualidade, metaforizada no fuso e fiar. Deste modo, ela deve aguardar – em estagnação – até o momento certo de se relacinar com o sexo oposto, representado pela chegada do príncipe ao castelo.

Brancaflor também passa por este momento de espera, seduzindo os jovens da região – entre eles o próprio jogador desmemoriado – sem realizar nenhum tipo de relação sexual com nenhum deles. No momento adequado, ela abandona seu posto de espera e revela a verdade a seu noivo, casando-se com ele no final.

O próximo conto também tem com tema o amadurecimento. Mais precisamente, o do desenvolvimento da capacidade feminina de detectar seu predador.

O CONTO DO LAGARTO: O FIM DA INOCÊNCIA E O NOIVO PREDADOR

Afirmar que os contos de encantamento não possuíam um objetivo inicial de moralização não é o mesmo que excluir qualquer forma de ensinamento por parte deles. Como muitas outras formas de cultura popular, estes contos estão repletos de ensinamentos, porém não de maneira óbvia ou direta. Um exemplo disto é o segundo conto galego a ser analisado.

Narra o conto que um caçador está realizando seu ofício quando se depara com um enorme lagarto. Sua postura inicial é de matá-lo, mas a criatura diz que pode fazê-lo muito rico, basta que o homem lhe entregue uma de suas filhas. O homem volta para a casa e conversa com as meninas. A única que aceita é a mais nova que diz não se importar com o que pode lhe acontecer, desde que sua família fique rica.

A menina é levada então ao lagarto, que lhe entrega uma concha e determina uma tarefa: deve buscar trabalho por um ano, e então retornar a seu encontro. A menina parte e passa por uma série de peripécias até que retorne para a criatura.

Talvez seu comportamento de desapego seja encarado de maneira altruísta ou até solidária. Porém, representa a atitude de uma mulher jovem, que ainda não é capaz de sondar todos os perigos que a espreitam. No Dicionario dos seres míticos galego, o lagarto é definido como uma criatura venenosa e inimigo natural das mulheres. Diz o dicionário que os lagartos são responsáveis por causar dores de cabeça nelas e por isso, as persegue. Sendo assim, a figura do noivo em forma de lagarto representa um perigo para qualquer mulher, principalmente para aquela que seja muito jovem para perceber os riscos que corre no relacionamento amoroso/sexual.

O noivo-animal é um símbolo recorrente nos contos de fadas e representa não só o ser do gênero masculino, mas também uma força inata na psique feminina, que a aprisiona em seu próprio lado sombrio. A ação desta força se manifesta exteriormente por um período de desânimo e autodestruição. É o predador da pisque também o responsável pela sabotagem a relacionamentos afetuosos e permanência em situações de abuso e opressão, sem que a mulher dê conta disto. Perceber o predador inato da psique é essencial ao amadurecimento feminino, e tem como consequência a capacidade de perceber os predadores da vida.

Nas palavras da Drª Clarissa Estés :

Todas as criaturas precisam aprender que existem predadores. Sem esse conhecimento, a muher será incapaz de se movimentar com segurança dentro de sua própria floresta sem ser devorada. Compreender o predador significa tornar-se um animal maduro e pouco vulnerável à ingenuidade, inexperiência ou insensatez” ( ESTÉS, 2014, p.60)

Na coletânea Contos tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, encontramos figura semelhante no conto O noivo lagartão. Diz o conto que um rei e uma rainha queriam muito ter um filho. A rainha rezava todos os dias, a ponto de pedir a Deus que lhe desse qualquer criança, mesmo um lagarto. Em seguida ao estranho pedido, são atendidos, pois a rainha dá à luz um lagarto.

Logo nos primeiros anos, o príncipe aterrorizou as mulheres do reino. Muitas amas de leite foram chamadas, porém ele sempre acabava por feri-las ao mamar. Por fim, uma orfã muito jovem e muito inteligente, chamada Maria, se oferece para o cargo de ama de leite e encontra uma solução: usar um molde de ferro em formato de seio, que impedia o príncipe de feri-la. Alguns anos depois, o lagarto chega à idade de se casar. Os reis oferecem o maior dote possível, porém nenhuma noiva aceita casar com seu filho. Este, então, diz que deseja se casar com Maria, aquela que o havia amamentado. A moça pede três dias para pensar, e então aceita a proposta.

O que Maria e a menina do conto galego possuem em comum é a sua ingenuidade e a pouca idade, seja biológica ou psíquica. As duas jovens não são capazes de perceber o caráter maléfico do lagarto, presente na cultura galega e encontrado também na brasileira.

Nos dois contos, as duas protagonistas precisam passar por uma jornada, um rito de passagem para ganhar conhecimento e vencer o aspecto maléfico de seus noivos. Na narrativa galega, a menina segue seu caminho até chegar a uma casa onde um casal não consegue acalmar seu bebê. Pedindo a ajuda da concha que traz consigo, a moça faz com que a criança se cale e ganha a simpatia dos pais. Mais adiante, ao conseguir emprego de padeira, é assediada por três estudantes das redondezas. De maneira parecida com Brancaflor em O xogador e a filla do demo, a moça concorda em fazer amor com os rapazes, mas, na realidade, pede a concha que os mantenha toda a noite fazendo seu trabaho de assar pães.

A concha é um símbolo de tudo que gira em torno do feminino, sendo inclusive utilizado o termo de maneira pejorativa na língua espanhola. Seu uso como objeto mágico, que auxilia a protagonista do conto, representa a capacidade de a moça tomar conta de si, deixando de ser um instrumento alheio. Ao contrário da menina do início da história, esta agora é dotada de experiência e capaz de não ser um simples instrumento dos homens, mas inclusive usá-los. O encontro com o lagarto, o homem predador, a tornou mais experiente e capaz.

No conto brasileiro, Maria casa-se com o príncipe e na noite de núpcias nota que ele retira sete capas de seu corpo, até assumir a aparência de um homem normal. Ela conta isto a sua sogra no dia seguinte e ela diz que a moça deve ela mesma vestir sete camisas na noite seguinte, e retirá-las conforme o marido tira suas capas. A cada camisa tirada ela deve rezar uma ave-maria, e depois furar o dedo do lagarto com um espinho da coroa do Cristo, dado a ela pela sogra. Este trecho representa um rito de passagem, um momento em que a mulher jovem e inexperiente ganha conhecimento, associado também à simbologia cristã que afasta todo o mal. O casamento em si também representa o encontro com o homem predador, e o conhecimento que advém desta experiência, mesmo que negativa. É graças ao ritual que Maria encara seu noivo de frente, deixando para trás a jovem submissa.

Ambas as narrativas terminam com os noivos se desinfeitiçando. Isto não significa que o caráter animalesco dos temidos lagartos tenha se extinguido, mas após lidar com o marido-animal e amadurecer, as mulheres tornaram-se capazes de distinguir entre o predador e o humano e, por isso, podem alcançar a felicidade.

Em um mundo dominado por homens e que coloca a mulher em posição de submissão diante da família – o pai caçador – ou da sociedade – o rei e a rainha pais do lagarto – estas narrativas eram de extrema utilidade para as jovens prestes a casar-se, realizando escolhas sensatas e sem deslumbrar-se com promessas de riqueza e poder.

SANTA DORA: A INTUIÇÃO FEMININA E O CONTATO COM A NATUREZA.

O último conto a ser analisado, Santa Dora, é mais uma metáfora para a jornada do autoconhecimento feminino, e a importância do contato da mulher com sua intuição interior.

Santa Dora é uma jovem que vivia sozinha com suas irmãs. Um dia, um jovem rei passa por sua casa. A jovem lhe diz que, caso o rei se casasse com ela, lhe daria dois filhos com estrelas de ouro na testa. O rei aceita a proposta, levando Santa Dora e suas duas irmãs para viver em seu castelo. A jovem esposa cumpre sua promessa e dá a luz a gêmeos, um menino e uma menina, enquanto o marido está na guerra.

Invejosas, suas duas irmãs trocam as crianças por dois gatos pretos, e colocam-nas numa caixa rio abaixo. Os bebês são encontrados por um moleiro e sua esposa, e criados pelo casal, que já tinha um filho. Este, porém, não se comparava aos irmãos adotivos que, conforme cresciam, tornavam-se cada vez mais inteligentes e especiais.

Um dia, o irmão chama-os de “atopados”, o que motiva os meninos a questionarem seus pais sobre sua origem. Após ser revelada a verdade, os dois decidem ganhar mundo e chegam ao palácio do rei, seu pai biológico. Os dois passam a viver nos arredores e, no entorno do palácio, criam um belíssimo jardim, que chama a atenção de toda a vizinhaça, incluindo suas tias.

Estas decidem visitar os irmãos e, ao vê-los, reconhecem-nos pela tira de tecido que haviam amarrado em suas testas e ninguém fora capaz de retirar. Em seguida, as tias decidem consultar uma bruxa para saber como tirá-los dali e a muher decide se encarregar da tarefa. A bruxa então visita os irmãos e sugere que eles adornem o jardim com objetos mágicos: uma música harmoniosa, uma fonte preciosa e um pássaro que tudo fala. O irmão consegue buscar os dois primeiros objetos, mas, ao chegar até o pássaro, cai em uma armadilha e precisa ser resgatado pela irmã. Esta consegue trazer seu irmão e o pássaro para casa.Com o jardim completo, os dois recebem a visita do rei e o pássaro lhes revela todo o segredo dos irmãos.

Este conto apresenta a jornada repleta de peripécias encontrada em muitas outras narrativas brasileiras. Apesar de diferirem quanto às tarefas, todos têm em comum uma personagem feminina capaz de superar os homens naquilo que falham. Em narrativas brasileiras, como Maria Gomes e O sargento verde, elas chegam a travestir-se de homens e chamam a atenção por apresentar os valores mais nobres que um rapaz deveria possuir.

Nestas narrativas, as mulheres apresentam uma alta capacidade intuitiva, assim como uma conexão com a natureza ou o místico. Mesmo as figuras femininas, como as tias e bruxas, no fundo estão colocadas para o auxílio da protagonista. São a representação das partes sombrias da psique feminina. E necessárias, portanto, ao desenvolvimento. Afinal, amadurecer não é torna-se um ser perfeito, mas ser capaz de lidar com as piores partes de si mesmo. Por essa razão que muitos contos de fadas começam com a morte ou o abandono da mãe ou do núcleo familiar. É preciso que a menina aprenda a seguir sozinha, e, por isso, precisa enfrentar as piores partes de si mesma. Assim, encontramos as tias que abandonam os sobrinhos, e a família de Maria Gomes que a abandona.

A figura da bruxa é ainda mais relevante. Ela representa todo o conhecimento feminino primitivo, a conexão com o místico e a natureza. No conto brasileiro Dona Labismina, ela é substituída pela cobra, que dentro do imaginário galego está associado ao feminino2. Assim como a bruxa dá conselhos, que parecem prejudiciais mais na realidade trazem à tona toda a farsa das tias, a cobra em Dona Labismina auxilia a protagonista.

Cabe lembrar que tantos os contos brasileiros quanto galegos sofreram influência da religião cristã. Quando seu irmão parte atrás dos objetos mágicos, a filha de Santa Dora recebe um pão que sangra caso o irmão se encontre em perigo. Em um processo semelhante, no conto OSargento verde, a bruxa dá lugar a Nossa Senhora. Percebemos aí a substituição ou a inclusão de símbolos cristãos, sem alterar, porém, o seu conteúdo original.

Em Santa Dora, no momento em que vai buscar o pássaro falante, o menino recebe o conselho de escolher aquele de aparência mais doente e miserável. Entretanto, ao chegar ao castelo onde se encontra o animal, opta pelo mais belo e saudável e acaba aprisionado. Sua irmã, ao contrário, é capaz de compreender a natureza e, por isso, escolhe o animal correto. Em O Sargento verde, a heroína travestida é desafiada a realizar as mais insólitas tarefas e é bem sucedida graças ao auxílio de seu cavalo encantado. Sua condição feminina lhe permite a conexão com o místico, e, assim, pode receber ajuda dele, independente da maneira com que se apresente.

CONCLUSÃO

Desde Sherazade, das Mil e uma noites, o ato de contar estórias está diretamente ligado às mulheres. Após analisar os símbolos contidos em algumas narrativas, percebemos que, além de um momento de lazer, esta prática representa uma resistência feminina. Em ambas as sociedades estudadas, elas – as mulheres – ocuparam uma posição de inferioridade com relação ao homem. Esta postura também era justificada pela visão negativa que a religião cristã apresenta da mulher, substituindo os cultos matriarcais anteriores e bastante fortes na sociedade galega, por exemplo, e associando a mulher à danação da alma masculina.

A transmissão destes contos permitiu a sobrevivência das tradições femininas, e a transmissão de conhecimento através das gerações. Infelizmente, muito de sua natureza foi deturpada em favor de valores capitalistas ou machistas,e para muitas mulheres, os contos de suas antepassadas resumem-se a blockbusters que estream a cada semana nas salas de cinema.

Como foi demonstrado, há muitos símbolos e representações comuns nos contos galegos e brasileiros, o que demonstra uma certa herança galega no Brasil e uma afinidade entre as mulheres das duas culturas. Estas narrativas não são exclusivas das mulheres, mas, ao escutá-las, damos voz a todas as donas de casa, escravas, babás e mulheres do campo que seguem sendo silenciadas ao longo da história das duas nações.

O estudo destes contos permite fazer uma justiça histórica a estas mulheres, além de trazer de volta seus ensinamentos. Espera-se que um dia o reconhecimento da produção cultural feminina ganhe a sua devida importância na cultura galega e brasileira, que, mesmo com um oceano a lhes separar, não são tão distantes quanto parecem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRIO, Maruxa; HARGUINDEY, Enrique. Contos populares. Galícia: Ed. Galaxia, 1983.

BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e Técnica, arte e política. São Paulo: ed. Brasiliense, 2000. 

CAMPBELL, Joseph. O poder do mito.Org. por Betty Sue Flowers; Trad. de Carlos Felipe Moisés. São Paulo : Palas Athena, 1990.

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo : Global editora, 2014.

CUBA, Xoán R. ; MIRANDA, Xosé; REIGOSA, Antonio. Dicionario dos seres míticos galegos. Vigo – Galícia : Edicións xerais de Galícia, 1999.

ESTÉS, Dra. Clarissa Pinkola.Contos dos irmãos Grimm. Trad. de Lia Wyler. Rio de Janeiro : Editora Rocco, 2005.

_______________________. Mulheres que correm com lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Trad. de Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2014.

JUNG, Carl G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Trad. de Maria Luiza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis – RJ : Editora Vozes, 2011.

___________. Símbolos da transformação. Trad. de Eva Stern; Revisão técnica Jette Bonaventura. Petrópolis – RJ: Editora Vozes, 2011.

LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. São Paulo : Editora Brasiliense, 1960.

VIEIRA, Yara Frateschi. Teia de tantos fios: a imagem da fiandeira na poesia galega. In: MALEVAL, Maria do Amparo Tavares.(Org.). Estudos Galegos. Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

1 Os ‘séculos oscuros’ compreendem o período do século XVI ao sXVIII , momento em que a língua galega limitou-se à esfera privada, e as produções literárias escritas em galego foram escassas.
2CUBA, Xoán R. ; MIRANDA, Xosé; REIGOSA, Antonio. Dicionario dos seres míticos galegos. Vigo – Galícia : Edicións xerais de Galícia, 1999.
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