A Literatura como inspiração para o cenário musical na Galícia

Camila Novaes Maia

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

Introdução

A palavra precisa lançar o som à velocidade da luz”, esse é o primeiro verso da música Poemas de Arnaldo Antunes, Bernardo Vilhena e Wally Salomão, e mostra como a linha que separa a literatura da música é limítrofe, o próprio título dessa canção da música popular brasileira, mostra o quão próximas são essas duas manifestações artísticas. As duas artes se unem na categoria das que são comunicadas pela audição, já que a escrita é uma representação simbólica de sons.

Mas não é apenas por sua sonoridade, a relação entre elas vai além, afinal a música surgiu do canto, e no canto, o seu conteúdo era/é a poesia declamada. Na origem da relação entre música e literatura muita das composições que atualmente são definidas como sendo manifestações literárias eram vinculadas à música, as canções trovadorescas com seus diferentes tipos são o exemplo mais clássico: as odes, madrigais, as cantigas, as pastorelas, os rondós e etc. Além é claro das baladas (líricas e narrativas) e das barcarolas.

As duas artes, atualmente, são apresentadas como distintas, mas ainda se mantém ligadas, variando de acordo com a época e as diferentes culturas. As duas ainda são ligadas pela sonoridade, e isso são comprovados pelo uso de conceitos, vocábulos, antes pertencentes à apenas uma delas. A literatura incorporou da música nomes como leitmotiv, anacruse, dissonância, melodia, polifonia, dominante, harmonia às suas análises literárias. Já a música incorporou principalmente da poética, os termos: elegia, cesura. Sem falar da nomenclatura comum: período, frase, motivo, entoação, timbre, cadências, tema, metro, ritmo.

Mas as duas representações artísticas são ligadas pelo seu potencial de manifestação e crítica cultural. E é exatamente nisso que o trabalho irá se focar: em como a literatura na Galícia influenciou a produção musical no país, lar exatamente de sua manifestação mais evidente: as canções trovadorescas, com suas cantigas. E como a literatura, principalmente a produção poética, é até hoje uma grande influencia para a música galega, até mesmo como uma forma de crítica, e é claro manifestação cultural da Galícia.

A Literatura através da música na Galícia

As conexões entre música e literatura na Galícia são abundantes e sempre estiveram presentes na cultura do país. Lar das primeiras cantigas, um exemplo de canção trovadoresca, onde poesia e música se uniam como uma só, e que acabou sendo denominada como expressão literária, essa união continuou presente na cultura galega.

Desde cantigas e poemas (de literatura culta e popular) musicados, até mesmo os textos da chamada cancíon de protesta (música de intervenção ou de protesto), há muitas obras e autores que podem ser considerados os principais na relação entre música e literatura na Galícia.

O site Son de Poetas é uma compilação de uma parte importante da poesia galega musicada, desde a Idade Média até a atualidade. O estilo musical da maioria das poesias musicadas segue o estilo tradicional da Galícia, com seus instrumentos típicos galegos como gaitas, acordeón e zanfoña, mas há também outros estilos, como o rock e até mesmo o pop.

Rosalía de Castro, fundadora da literatura galega moderna, é uma das autoras que mais inspira no cenário musical galego. Um dos músicos que mais tem inspiração pelas obras da poetisa é Amancio Prada, que além da autora, mostra em suas músicas a paixão pela literatura galega em geral, e sempre trabalha em seu repertório textos galegos. Em seu primeiro álbum Vida e Morte (1974), há dois poemas de Rosalía musicados: Como chove miudiño e Um repoludo gaiteiro

Como chove miudiño, 
como miudiño chove;
 
como chove miudiño
 
pola banda de Laíño,
 
pola banda de Lestrove.
 

(Trecho de Como chove miudiño)

Em 1975, ele lançou o álbum intitulado Rosalía de Castro, trabalho totalmente dedicado às poesias da autora, acompanhado pelo violoncelista Eduardo Gattinoni. No álbum há os poemas mais conhecidos da poetisa musicados, como: Adiós rios, adiós fontes, Campanas de Batabales e ¡Pra Habana!

Adiós, ríos; adiós fontes
Adiós, regatos pequenos
Adiós, vista dos meus ollos
Non sei cando nos veremos

Miña terra, miña terra
Terra donde m’ eu criey
Ortiña que quero tanto
Figueiriñas que prantey

Prados, ríos, arboredas
Pinares que move o vento
Paxariños piadores
Casiña do meu contento

Muíño dos castañares
Noites craras de luar
Campaniñas trimbadoras
Da igrexiña do lugar

Amoriñas das silveiras
Que eu lle daba ó meu amor
CamiñIños antre o millo
Adiós, para sempre adiós!

(Trechos de Adiós rios, adiós fontes)

E ao longo de sua carreira, Amancio Prada vai continuar trabalhando com os poemas de Rosalía, musicando os poemas Negra Sombra no álbum Dulce vino Del olvido (1985), Mayo longo em Trovadores, místicos y românticos (1990) e em 2005 lançou o álbum que era uma autêntica homenagem à poetisa do Ressurgimento: Rosalía, siempre.

Mas não é só Rosalía de Castro que inspira a discografia de Prada, em Lelia Doura (1980) ele dedicou inteiramente aos trovadores galego-portugueses dos séculos XII e XIII, baseado nas Cantigas de Amor e de Amigo. No álbum ele interpreta alguns dos textos considerados mais belos da literatura galego-portuguesa medieval, como Sedíame eu na ermida de San Simón (Mendiño), A dona que eu amo (Bernal de Bonaval) e a canção que dá nome ao disco Lelia Doura baseado na cantiga Eu velida nom dormia (Pero Eanes Solaz)

Outro músico que usou a literatura em sua música é o tenor asturiano Joaquín Pixán, que em 2001 lançou um disco em homenagem ao poeta Ramón Cabanillas, no aniversário de 125 anos do escritor galego. O álbum continha músicas inspiradas nas obras: No desterro, Vento mareiro, Da terra asoballada e A rosa de cen follas.

Outro trabalho que une música e literatura galega, é o álbum A canción de concerto que foi gravado entre 1998 e 1999 em Santiago de Compostela pela soprano Laura Alonso e o pianista Manuel Burgueras. O álbum é uma antologia com vários compositores conceituados na Galícia, que inclui poemas de Rosalía de Castro, Manuel Curros Enríquez, Alfredo Brañas, Juan Barcia Caballero, Fanny Garrido, Francisco María de La Iglesia, Salvador Golpe Varela e Aureliano J. Pereira.

Um dos discos considerados o mais importante nessa conexão entre literatura e música na Galícia é A canción galega produzido pela BOA Music em 2001, patrocinado pelo Instituto Galego das Artes Escénicas e Musicais. A soprano Ángeles Blancas interpreta as canções, acompanhada pelo pianista Miguel Zanetti. O álbum possui canções de origem da literatura popular como Non te quero por bonita, porém a maioria é de autores como Rosalía de Castro (Negra Sombra) e Aureliano J. Pereira (Lonxe d’a terriña). A seleção dos textos visava à busca pela exaltação da Galícia rural e seus valores em contraponto da Galícia urbana e universalizada da atualidade.

Mas não é só a literatura culta que encontra sua vez no cenário musical galego, a literatura popular, com sua tradição oral na Galícia, também encontra terreno fértil na música, e mais uma vez Amancio Prada é o nome principal. Em Caravel de caraveles (1976), Prada interpreta várias canções de cunho popular como Unha noite no muíño, Eu teño um canciño e Vem bailar Carmiña. E em 1999 ele lança outro álbum inspirado na tradição oral popular chamado De mar e terra com músicas como Teño um amor na montaña, Nosa señora da Barca, e Airiños, airiños aires.

A cancíon de protesta (canção de protesto) é um movimento musical com uma estreta relação com a música e literatura populares na Galícia, que se inspira nas tradições populares exatamente para gerar uma identificação com o coletivo, usando de melodias tradicionais, e músicas baseadas na literatura popular. Criado nos anos 70, o movimento acabou coicindindo com os últimos anos da ditadura franquista e com o nascimento da democracia. Com um forte conteúdo ideológico nacionalista galego e progressista, esse gênero musical reivindicava a normalização da língua galega e trazia à tona os problemas do mundo agrário, basicamente se tratavam de músicas comprometidas com a Galícia e seus valores, como a dignificação de seu idioma e cultura.

Um dos grupos musicais mais conhecidos do gênero é Fuxan os Ventos, onde cantavam com frequência a situação política e cultural da Galícia na época, com melodias de origem popular. E ao longo da história a banda incorporou vários elementos da literatura de tradição oral, com vários textos populares e alguns cultos contendo reivindicações sociais.

Na atualidade a música galega continua a ser influencidada por sua literatura, porém agora não só com melodias tradicionais galegas, e sim de variados estilos: como rock, pop entre outros. Um bom exemplo é a banda de metal Não, que tem como uma de suas músicas no álbum As palabras espidas (2008) o poema A xusticia pola man da poetisa Rosalía de Castro, que contém uma crítica muito atual que é a violência contra a mulher, e como a justiça ainda é inapta para combatê-la, e injusta.

Conclusão:

A literatura tem uma forte influência no cenário musical galego, tanto a literatura culta, como a popular, e mostra o quão íntima é a relação entre essas duas produções artísticas, que antes, na própria Galícia, eram uma expressão só com suas cantigas. Vemos também que esse enfoque de resgate da literatura na música é uma das expressões mais fortes de crítica social e cultural, onde os galegos mostram sua paixão pela Galícia e seus valores, sua história. Moldando a música galega e homenageando seus escritores e toda a sua literatura.

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