O meu caminho. Experiência no curso de verão de galego

Thayane Gaspar

Pesquisadora em Literatura Galega no Programa de Estudos Galegos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Não acredito que estou na Galícia!”. Essa foi a primeira frase que eu falei quando eu saí do aeroporto de Santiago e me deparei com todo aquele verde. “Onde começam as pedras?” perguntei me referindo ao que eu conhecia sobre aquela cidade e sobre o que eu tinha imaginado durante todo os 12 meses em que me dediquei a estudar tudo relacionado à Galícia.

Eu achei que depois de estudar literatura, cultura e língua galega durante um ano, eu ia chegar no curso de Galego Sen Fronteiras e ver tudo o que eu tinha visto em fotos, lido em textos, interpretado em poemas, escutado em músicas tradicionais, que eu conheceria as ruas, reconheceria os parques. Contudo, quando eu cheguei a Compostela, parecia que eram as ruas que me conheciam e os parques que me reconheciam. Parecia que Galícia estava me esperando de alguma forma.

Éramos 16 países reunidos em 4 turmas, o que aconteceu nas primeiras semanas não parecia um choque cultural, mas um caos cultural que nunca chegou a acontecer. Éramos tão diferentes, falávamos línguas diversas, não nos entendemos nos primeiros encontros dentro e fora do curso até que as aulas começaram. Quando as aulas começaram e nossas línguas começaram a falar galego sem que nós nos déssemos conta, pareceu incrível ter 16 países tão diferentes falando uma única língua, tendo o mesmo interesse e ouso a dizer até a mesma paixão pelos “x”, pelos “nh” do galego.

Acontece que uma língua não é só feita de fonemas e aulas de gramática, e enquanto aprendíamos a língua aprendíamos também a triste e romântica história do idioma e a importância que ele ganhava quando nós o falávamos. Aprendíamos a beber café como galegos, a comer empanadillas, tortillas e muitas, muitas e muitas tapas. Aprendíamos a parar durante a sesta e a voltar à universidade depois dela. As ruas de Compostela pareciam uma extensão da universidade: não importava para qual direção, parque, bar ou museu íamos, aprendíamos também a ser galegos.

Aprendemos tudo sobre a hospitalidade galega, aprendendo sobre as superstições, colocávamos moedas nas pedras do bar e fazíamos pedidos, falávamos das meigas, cantávamos e dançávamos ao som da gaita, bebíamos queimada e líamos o coxuro, e o mais importante: nunca abríamos o guarda-chuva quando chovia, porque não era qualquer chuva, era a chuva de/em Santiago.

Na universidade víamos filmes sobre a imigração galega, ouvíamos músicas de Roi Casal, tínhamos palestras com as figuras mais importantes nos estudos sobre Galícia na atualidade, líamos contos de autores galegos contemporâneos e íamos correndo à livraria antes do almoço para pegá-la aberta e comprávamos livros sobre o que tínhamos aprendido naquela manhã. Fazíamos teatro com os colegas para mostrar à professora como sabíamos improvisar em galego (e aproveitar em galego).

Fazíamos excursões nas quais entrávamos e saíamos de igrejas, visitávamos hórreos, paisagens e quando não estávamos fazendo isso, estávamos conhecendo pessoas que moravam naquelas cidades e então elas nos apresentavam algo novo, que não estava no roteiro da viagem. E dava a impressão que só estando na Galícia é que se aprende sobre ela.

Ensaiamos durante algumas semanas canções tradicionais galegas para cantarmos numa confraternização. Os professores esperavam que naquele momento nós falássemos sobre os nossos países de origem através das nossas músicas e danças. E nós falamos, dançamos e cantamos nas 16 línguas. E quando foi a hora de cantarmos a canção galega, a nossa origem parecia ser uma origem comum, já éramos galegos naquele momento. Cantamos e dançamos como galegos.

Quando dizíamos aos galegos que não éramos dali, eles nos perguntavam se estávamos na Galícia para fazer o caminho de Santiago. Eu respondia que não, “Vim estudar galego”. Na última semana do curso, estávamos falando que metade dos presentes que compramos para levar para as nossas casas tinham uma vieira estampada e um amigo disse “Não quero levar nada relacionado à vieira e ao caminho, não vim fazê-lo.” Perguntamos se ele sabia o significado da vieira, que as suas linhas significavam que todos os caminhos levavam a um mesmo lugar. E foi então que nós entendemos que viemos de 16 caminhos diferentes para o mesmo destino. Compostela tem mesmo algo a dizer sobre isso, quando ficamos muito tempo vivendo lá, parece que a cidade nos coloca de volta à nossa rota e nos deixa mais perto do nosso destino.

Fizemos juntos pela última vez o caminho até e universidade e nos demos conta de que algumas ruas nas quais passávamos faziam parte de algum caminho de Santiago, naquele dia me disseram: “Você não veio aqui só para estudar, você também fez uma parte do caminho, ‘mira’” e apontaram para uma vieira dourada no chão. E agora eu vejo que eu realmente não só estudei galego. Eu vivi a Galícia. Eu vivi Santiago de Compostela. E é por isso que nós, estudantes de galego, saímos de Santiago mas que Santiago não sai da gente.

Voltamos para as nossas casas com as lembranças, (muitos) livros, novos amigos e tendo uma intimidade com a língua galega que só a experiência do curso conseguiu proporcionar. Voltamos tendo a impressão de que havia uma estranha familiaridade entre nós e os lugares que visitamos e os galegos que conhecemos. Voltamos tendo uma confortável sensação de que pertencíamos de alguma forma àquela cidade. Voltamos tão galegos que trouxemos conosco uma mala cheia daquela boa e velha “morriña”.

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