O nacionalismo na literatura galega entre as décadas de 1920 e 1930

Luísa Zanni Capitoni

Estudante de Literatura Galega II na UERJ 

O anseio de uma parte da sociedade galega pela independência da Galícia não é algo recente. O poder político e econômico, bem como a influência cultural que a Espanha surte sobre Galiza data desde antes da Idade Média. Nada é mais justo, portanto, que o empenho apresentado pela população galega em reafirmar seus valores culturais e sua língua, que em tantos âmbitos se mostram diferentes da cultura e língua castelhana.

Raciocinando por este viés é que foi criada a organização nomeada Irmandades da Fala, e o periódico A Nosa Terra, que veiculou as ideias do Partido Galeguista, fundado em 1931, tendo sua relevância na Segunda República Espanhola.

O Partido redatou um Estatuto de Autonomia para Galiza, que chegou a ser aprovado majoritariamente em plebiscito, embora nunca tenha entrado em vigor. Para sua fundação, convocou-se uma assembleia da qual participaram diversas organizações nacionalistas. Entre elas, a supramencionada Irmandades da Fala, cujos membros, a partir de sua fundação em maio de 1916, divulgaram seus ideais nacionalistas através de seu periódico; disseminaram o uso da língua galega nos mais diversos âmbitos da sociedade: escolar, judicial, midiático, etc.; publicaram normas de uso da língua galega, visando sua unificação; criaram o Seminario de Estudos Galegos, entre outras iniciativas que objetivavam a apreciação, divulgação e fortalecimento da língua galega, além da busca pela autonomia integral para a Galiza.

Da poesia galega em princípios do século XX, destacam-se nomes como Noriega Varela e Ramón Cabanillas, sendo Varela, envolvido no movimento agrarista, o que trouxe à sua obra um tom intimista e de apreciação à natureza (lirismo de natureza), ademais da temática dos costumes (hábitos, festas, tradições, etc.). Cabanillas, por sua vez, foi membro das Irmandades e do Seminario de Estudos Galegos, e apostou em novos estilos, temas e gêneros literários, embasado em sua ideologia nacionalista, a qual se nota, por exemplo, no poema a seguir:

Himno de acción galega

¡Irmáns! ¡Irmáns galegos!

Desde Ortegal ó Miño

a folla do fouciño

fagamos rebrillar!

Que vexa a vila podre,

coveira da canalla,

a aldea que traballa

disposta pra loitar.

Antes de ser escravos,

¡irmáns, irmáns galegos!

que corra o sangue a regos

desde a montaña ó mar.

 

¡Ergámonos sen medo!

¡Que o lume da toxeira

envolva na fogueira

o pazo señorial!

Xa o fato de caciques

ladróns e herexes fuxe

ó redentor empuxe

da alma rexional!

Antes de ser escravos,

¡irmáns, irmáns galegos!

que corra o sangue a regos

desde a montaña ó val.

O “refrão” do poema de Cabanillas faz lembrar o escudo desenhado por Castelao – sobre quem discorrerei ao longo do texto –, que trazia em si a máxima “Denantes mortos que escravos”. A exaltação da militância era facilmente encontrada na poesia e na arte da época.

O seguinte poema de Varela ilustra seu gosto pelo lirismo de natureza, fazendo das sutilezas seu objeto poético e das paisagens naturais e belas, seu cenário:

Toda humilde belleza…

Vago xirón de brétema, atavío
soberbio de irta xesta, reidora,
fulgurante doíña de rocío
(pazo do sol e lágrima da aurora);

raiola de lunar que bica o río,
flor mareliña que entre espiñas chora,
ou das redes da a araña un tenue fío,
toda humilde belleza me namora.

É un vermiño de luz o amigo caro
do meu nume saudoso… Antes reparo
na nudez adorable dunha estrela

que nas rosas dos vales, que sorríen,
que nos mantos dos pinos, que se engríen,
que nas blondas do mar, que se rebela.

Com o mesmo intuito de exaltação da identidade galega que inspirou a Cabanillas e Varela, marca também a cultura galega a Xeración Nós, um grupo de intelectuais galegos, marcado fortemente por ideais nacionalistas, responsável pela publicação da Revista Nós.

O objetivo do grupo e da revista era levar a cultura galega a um patamar acima, de modo a estabelecer uma relação entre sua cultura e as demais culturas europeias, a fim de superar o isolamento rural de sua literatura. A Xeración é considerada o primeiro grupo galego cuja proposta era organizar, restaurar e divulgar a cultura local através de sua própria voz e perspectiva, participando ativamente da luta pela defesa de seu idioma e de sua autonomia.

Tendo a primeira edição em 1920, a Revista teve publicações até 1936 e foi impulsionada pelo poeta Vicente Risco, que buscou incessantemente colaboração de escritores de fora da Galiza; e tratava de temas literários, linguísticos, artísticos, políticos, etc.

Otero Pedrayo – que além de geógrafo, era também escritor – torna-se integrante da Revista, na qual dá prosseguimento à sua militância política e cultural:

O galeguismo tem posto como exemplo do que a Galiza poderia ser como naçom íntegra e soberana o facto de unha parte dela ter originado um Estado da importância histórica de Portugal”.

Otero Pedrayo

Outro membro de importante participação na Revista era Castelao, que se formou médico, segundo dizia, “por amor a seu pai”, e não exerceu a profissão “por amor à humanidade”. Dedicou-se, como os companheiros, à literatura e à militância política em Galiza, e exerceu também a atividade de pintor e desenhista. Foi incumbido por Risco à responsabilidade da direção artística da revista, pela qual o grupo buscava desenvolver uma estética galega.

Anos mais tarde, Vicente Risco se mostraria favorável ao franquismo, o que o fez ser considerado traidor dos ideais galegos pelos amigos em exílio.

…dicía Risco, cando Risco era alguén”.

Fragmento de Castelao sobre Risco, en “Sempre en Galiza”.


Na edição de número 18 da Revista, a Ditadura de Primo de Rivera suspendeu a publicação, que retorna somente em 1925, na Coruña, graças a Ánxel Casal. O último volume foi impresso pouco antes da intervenção militar de 1936, e não chegou a ser distribuído. Apenas dois exemplares foram salvos da queima do arquivo de Casal realizada pelos militares.

Embora a Galiza não tenha servido de cenário aos combates da Guerra Civil espanhola, a repressão que já existia sobre sua língua e cultura não só não cessou como se aprofundou, o que instigou o povo galego a seguir defendendo com afinco sua autonomia política, linguística, cultural, e em todos os âmbitos sociais nos quais se difere do país ao qual “pertence”.

Enquanto brasileira e estudante de Letras, me parece curioso perceber que, no cenário literário do Brasil, entre os anos 1920 e 1930, desenvolvia-se um movimento modernista cujo início inspirou-se em vanguardas europeias que ansiavam criar, no Brasil, uma literatura (e uma arte, em geral) genuinamente brasileira, através do que chamavam de antropofagia. Criar uma literatura que representasse a real identidade nacional brasileira, a partir da digestão das conquistas libertárias e novos ideais das vanguardas europeias que estavam em voga na época.

Tencionaram usar, como os galegos, o periódico como veículo de propagação de suas ideologias: o Manifesto Antropofágico e a dita “1ª Dentição” (1ª edição) da revista do movimento para propagar seus ideais que abarcavam o uso literário de uma língua mais aproximada à oralidade brasileira, como se percebe no poema abaixo.

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Oswald de Andrade

Noto que em algum ponto os anseios dos artistas galegos e brasileiros se intercruzam. No Brasil da década de 1920, os intelectuais e artistas não travavam propriamente uma luta por autonomia política, como foi e é o caso da Galiza, mas sim por uma identidade genuinamente nacional e sedimentada, que refletisse na cultura, na literatura, na língua.

Ora, se a arte é expressão e registro da ideologia de um povo em uma dada época e circunstância; se a língua e o instrumento maior de identidade cultural e de senso de nacionalidade, quem há de dizer que não há validade na luta dos artistas e intelectuais de vanguarda e de oposição, em qualquer que seja o país? O direito de usar sua própria língua em seu lugar de origem deveria ser um direito inalienável e indiscutível. O sentimento de pátria não se outorga em fronteiras invisíveis ou em bandeiras fincadas – muito menos no idioma.

Referências:

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