Que agora non: ais, ardis e alba em acalanto

Giovanna Giffoni

Doutora em Letras pela UFRJ e estudante/pesquisadora na UERJ

Ora, meu meniño, ora

quén vos ha de dar a teta,

si tua nai vai no muiño,

e teu pai na leña seca?

(Rosalía de Castro. Cantares Galegos)

Dentre os gêneros poéticos de transmissão oral, a cantiga de ninar é seguramente um dos mais tradicionais e populares, abarcando para si de uma só vez os três grandes elementos de desprestígio no mundo letrado regido pela literatura. Oral, tradicional e popular, remonta à longínqua Suméria de onde nos chegou o exemplo mais antigo que se conhece – “Acalanto para um filho de Shulgi”. Nas ruínas desse texto observa-se a fundação de seus princípios, de algumas características do gênero que o embalam com mais ou menos força em diferentes contextos até os nossos dias. Já nas primeiras linhas, ouvimos uma espécie de encantamento nos versos de bendizer, como presentes ofertados ao recém-nascido:

Ah, ah, que com meu canto ele cresça forte, que ele prospere com o meu cantar1

Este “ouro-incenso-e-mirra” dialoga com um outro tipo tradicional, também encontrado em arquivos sumérios, de felicitação à parturiente e boas-vindas ao rebento, que incrivelmente sobrevive em algumas regiões do Brasil, onde grupos de mulheres, geralmente idosas, costumam ir à porta das casas saudar com cantigas tradicionais o novo nascimento de um menino ou uma menina. Voltando ao exemplo sumério, o encantamento de bom agouro dá lugar mais adiante ao encantamento para fazer dormir, uma das principais funções desempenhadas pelos arrolos e que parece ter sobrepujado todas as outras:

Sono vem, sono vem, sono vem pro meu neném, sono bem depressa [?] vem!

A seguir, a mãe (quem parece estar cantando) é pródiga nos votos ao bebê, desejando-lhe esposa e filho, e a este uma alegre aia que o embale e amamente, numa passagem que se inicia carregada de simbologia erótica:

No meu jardim, só alfaces reguei, e entre todas a mais nobre colhi. Que o senhor coma sua alface!2Que com esta nana eu lhe dê uma esposa, que eu possa lhe dar uma esposa (…)

Mais uma vez nos impressiona este sussurro, tão distante em tempo e espaço, vigorar ainda até bem poucas décadas na história do “pé-de-alface”, contada às crianças como explicação fantasiosa sobre concepção e nascimento, da mesma forma que a história da cegonha. Esta primeira nana ainda está, pois, a nos embalar com a sua música, tão tradicional e popular, e é com ela também que até hoje tomamos contato com a primeira forma de medo:

Você é incansável… tenho medo, estou tão quieta [?] contemplando as estrelas e a lua crescente que brilha em minha face. Seus ossos podem ir de encontro ao muro e o guarda do muro lamentará!

No ruído reconfortante de run run, rorró, arrorró, as primeiras máscaras do medo que contemplamos. Uma máscara que, como Górgona, traz a morte nos olhos. Uma morte mais branda, o sono, e sob sua ameaça fechamos os nossos. É um medo primeiro que ela embala sempre em fórmulas muito precisas que dão destaque especial à careta. Assim canta o acalanto tradicional no Brasil, que exorta a criança a dormir bem depressa sob a ameaça apavorante:

Boi, boi, boi,

Boi da cara preta

Pega este menino

Que tem medo de careta

Muito já se falou sobre a perversidade das músicas infantis – não só dos acalantos – na tradição brasileira, especialmente em contraposição a exemplos nórdicos bem mais suaves a embalar o sono dos bebês. Mas o fato é que o medo não é aí um elemento de sadismo, mas uma forma de aprendizagem, o primeiro grande ensinamento, que as anainas, como primeira música proverbial, nos dão a conhecer. Espécie de mal necessário, esse medo que nos petrifica na mais tenra idade é vário e assume muitas formas, como o “boi da cara preta”, ou a figura da “cuca”, e usos distintos, como o deste “gato” em cima do telhado, colhido no folclore galego, encarnando uma ameaça a um outro tipo inocente que está a dormir – o marido traído:

quen é este ghatiño

que está no tellado

que o meu maridiño

está aquí deitado

válghame dios

que non me comprendedes

esta noite nonhe

mañá volveredes

o ronrón ronrón

mañá si e hoxe non3

Assim vemos que a versatilidade do gênero é proporcional às inúmeras formas de pavor, denotando também sua grande popularidade, que o faz emprestar a voz suave a cantilenas “picantes”, como este exemplo semelhante, musicado pelo grupo galego Fuxan os Ventos:

Rorró

Cabeza de burro
que nada entende,
o pai do neno
na cama se tende.

Ai rorró, ai rorró
que agora non.

Que nada entendes
cabeza de burro,
o pai do neno
observa tudo.

Ai rorró…

O tom erótico aí presente possui uma identidade próxima à do gênero Alba da tradição trovadoresca, que, como se sabe, relata em geral uma despedida furtiva de amantes ao amanhecer, mas, em alguns casos, faz justamente da aurora a hora propícia, o que é bem mais sensato em se ratando de amores adúlteros. Por isso, alguns estudiosos defendem que este seja tradicionalmente o tema, ligeiramente modificado pelos trovadores, moralizando-o ao omitir menção explícita ao adultério. Nesse contexto, é importantíssimo o papel do vigia, que tanto pode ser cúmplice dos amantes, ou uma metáfora para a figura opressora do marido, o “pai do neno” que “observa tudo”, como nesta kharja4 aljamiada, recolhida por García Gómez da poesia da Espanha muçulmana:

Alba de mew fogore!

Alma de mew ledore!

Non estand’ar-Raqibe5

Esta nojte ker’amore

Pode-se observar nos versos acima que o(a) amante está planejando um encontro fora da hora costumeira – a alba –, mudança proporcionada pela ausência do vigia. Este vigia, como já se disse, pode ser também favorável ao casal, avisando do perigo que se aproxima. Neste papel encontramos muitas vezes elementos da natureza, o canto de um pássaro6, por exemplo. Quando desfavorável, aproxima-se daquele medo primordial, que, nas mais recentes releituras, pode vir carregado de pessimismo existencialista, como no acalanto de Fernando Pessoa7:

Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada,

Achou-a em confusão,

Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia

Para quem quer achar,

Nem paz nem alegria

Para quem, por amar,

Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos

Tecem docéis sem ser

Ficar como ficamos,

Sem pensar nem querer,

Dando o que nunca damos.

Ainda, assumindo todas as formas de opressão política, a vigilância do vigia pode ser apenas passageira, e um outro futuro pode estar velando esse menino que dorme, como uma nação que em breve despertará de seus sonos intranquilos. Assim esta cantiga de berce, belo exemplo de acalanto de cunho político:

Durme meu neno, durme,
sen máis pranto,
que o tempo de chorare,
vai pasando
Que a terra na que vives,
no que bágoas,
precisa homes inteiros,
pra libertala.
Durme meu neno, durme,
colle forzas,
que a vida que che agarda,
pide loita.
Recollera-lo froito
sementado,
no inverno escuro e frio,
no que estamos.


Semente feita en sangue por un pobo
que xurde dende a hestoria, dende o sono,
un sono cheo de aldraxe e miserento,
un sono de inxusticias e silencio.
Mira a língoa que falo, despreciada,
por ser língoa de probes, língoa escrava,
son o orgullo que temos, língoa de probes.
Só neles hai verdade e máis honores.
Durme meu neno, durme, niste colo,
que esta terrra de escravos non tén odio.
Tén séculos de espranza, agardada,
que pón hoxe nos fillos que amamanta.
8

Nascida ainda na aurora, mas sem uma certidão que contemple, na língua oficial, seus verdadeiros genitores, a pátria galega é um neno ou nena dormindo muitas vezes sob terríveis ameaças, que para além do mal que imprimem na sua pele, nos seus olhos bem fechados, doam também este conhecimento fundante e fundamental de lidar com os próprios medos. Desse modo, fortalecendo seu espírito nessa “longa noite de pedra”, o grande poeta Celso Emilio Ferreiro, soube embalar-se a si mesmo (e aos seus conterrâneos), compondo, talvez, em obra homônima, o maior repertório de acalantos onde está presente o tempo todo o vigia – seu próprio cárcere e o da nação – mas deixando entrever também a alba, que se infiltra como um “aire puro”:

Aire puro9

O aire puro da mañá procrama

o seu dereito a entrar en cada casa.

¡Ábrelle as portas, patria!

¡Dalle os teus seos, alma!

Deixa iste tufo acedo que te abafa,

esquece istas mortaxas,

estiña as túas bágoas,

fala,

canta,

arrumba a desespranza,

non deixes que te aldraxen; aldraxa.

Onte non.

Pensa nas albas

que han de vir, ponlle cerco ás lembranzas

que te atan.

Deixa entrar a mañá crara

na túa casa.

Verdadeiros cantos de liberdade, o poema de Ferreiro e a letra de Felix Otero não só velam nosso sono (muitas vezes pessimista, muitas vezes covarde), como nos ensinam que as cantigas de ninar também fazem despertar para essa alba por-vir.

Referências:

Cantiga de berce. (22 de abril de 2013). Galipedia, a Wikipedia en galego. Disponível em <http://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Cantiga_de_berce&oldid=2979931>. Acessado em 14 de julho de 2014.

DÉTIENNE, Marcel e VERNANT, Jean-Pierre. Métis: As astúcias da inteligência. São Paulo: Odysseus, 2008.

JACOBSEN, Thorkild. The harps that once… Sumerian poetry in translation. New Haven/ london: Yale University Press, 1987.

Nanar (verbete). Em CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro (J-Z). 3ª edição revista e aumentada. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972. p.589

PEPIÓ, Vicenç Beltran. A alba de Nuno Fernandez Torneol. Revista Galega do Ensino, no 17, Santiago de Compostela, novembro de 1997. pp. 89-109. Disponível em <http://dialnet.unirioja.es&gt;

REQUEIXO, Armando. A literatura galega de transmisión oral. Moenia, 8, 2002. pp. 209-221. Disponível em http://dspace.usc.es/bitstream/10347/5807/1/pg_211-224_moenia8.pdf

VERNANT, Jean-Pierre. A morte nos olhos – figuração do outro na Grécia Antiga: Ártemis e Gorgó. Tradução Clóvis Marques. 2ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

1 Lullaby for a son of Shulgi (Shulgi N): Translation. Oxford University. The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature. Disponível em: < http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/section2/tr24214.htm> (Tradução nossa do texto em inglês.)

2 A alface, significando o órgão sexual feminino, ou os pelos pubianos, aparece em diversos poemas amorosos sumérios como o que se inicia com o verso: Minha ‘lã’ sendo alface, ele irá regar. In: JACOBSEN, 1987, p. 93. (Tradução nossa do texto em inglês.)

4 Literalmente “saída”, a kharja é o mote que aparece na última estrofe da muaxaha, gênero poético árabe-andaluz, que floresceu entre os séculos IX e XI.

5 Vigia

6 E a cotovia amiga de Romeu e Julieta nos mostra a sobrevivência da Alba no Renascimento, assim como estes versos datados por volta de 1500, presentes no Cancionero Musical de Palacio: “Al alba venid, buen amigo,/ al alba venid”.

7 PESSOA, Fernando. Poesias Inéditas (1931-1935).

8 “Cantiga de Berce”. Música: Fuxan os Ventos. Letra: Felix Otero.

9 FERREIRO, Celso Emilio. Longa Noite de Pedra. 1962.

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