A mulher na lírica galega: Rosalía de Castro e a poesia contemporânea de Emma Pedreira e Yolanda Castaño

Ana Carolina Guedes

Graduada em Filosofia (UFRJ) e aluna de Literatura Galega II na UERJ

  1. INTRODUÇÃO

A história da literatura galega é marcada por etapas fundamentais que merecem destaque. Inicialmente, identifica-se o florescimento medieval do período galego-português, no qual prevalece a lírica. Esta época é marcada pela vasta produção de cantigas de amor, de amigo e de escárnio/maldizer. É importante ressaltar que a participação das mulheres nesse contexto se caracteriza por uma ausência absoluta.

Em seguida, há uma época de decadência – os chamados Séculos Escuros – que se caracteriza por uma “pobreza criadora”. Nesse contexto, o idioma e a literatura galega entram em um período de decadência. Diversos foram os fatores que provocaram este progressivo declínio, dentre os quais cabe destacar: o assentamento de uma nobreza estrangeira, intransigente com a cultura e a língua galegas e a crescente política centralista e intervencionista de Castilla.

A terceira etapa que merece destaque é a de progressiva recuperação e consolidação de uma literatura de resistência que adquire aos poucos pretensões de uma literatura nacional. Deste modo, acelera-se também um importante movimento “regaleguizador” de resistência, dentro do qual a literatura possui um papel fundamental.

Nesse sentido, nas palavras de Carmen Blanco (1995):

El discurrir literario gallego está en estrecha relación con el desarrollo histórico del movimiento galleguista y el despertar nacionalista de este signo, de la misma manera que la historia particular de la literatura de las mujeres se acompasará, en buena medida, al ritmo del proceso feminista, entendido en sentido amplio, como el fenómeno de reconocimiento social de los sujetos femeninos.

Ainda segundo Blanco (1995), sabe-se que a entrada das mulheres na literatura galega ocorre no século XVI e que esta coincide com a abertura humanística que propiciou o acesso de uma minoria feminina privilegiada à cultura e às letras.

No século XVIII, “se da el paso, así, desde la exclusión (de las mujeres) como regla, confirmada por las excepciones, a la posterior inclusión marginal y discriminatoria, pero inclusión al fin” (BLANCO, 1995, p.30). Neste contexto, as mulheres começam a adentrar pouco a pouco na vida pública e a clamar por seus direitos enquanto cidadãs, denunciando as injustiças a que estavam submetidas. Esse é o momento em que a classe média feminina começa – de modo significativo – a ler e a escrever revolucionando, como leitoras e escritoras, o âmbito literário.

  1. ROSALÍA DE CASTRO: A VOZ FEMININA NA LITERATURA GALEGA

Nascida em Santiago de Compostela, em 1837, Rosalía de Castro é considerada não somente a representante máxima e pioneira do Rexurdimento galego, mas sim uma das maiores figuras representante da literatura da Galícia dentro do contexto universal, pois é a personalidade feminina mais reconhecida fora dos limites linguísticos próprios. Nesse sentido, nas palavras de Blanco (1995):

En el contexto gallego ella es, como hemos dicho, la que propiamente inaugura una época, pues las autoras anteriores en la lengua autóctona de Galicia, aunque importantes como precursoras, son tan sólo anecdóticas en el sentido de que no llegan a publicar en libro.

Rosalía publicou seu primeiro livro de poemas em língua castelhana aos vinte anos, em Madri, intitulado La Flor. Identificam-se nesta obra influências de leituras de poetas românticos como Espronceda. Destacam-se os temas do abandono, da morte e do pessimismo.

Em 1869, a escritora publica a novela Hija del mar e em 1863, Cantares Gallegos, uma de suas principais obras. Esta marca o início do Rexurdimento galego e representa o conhecimento profundo e a interiorização da cultura galega, traços característicos da obra rosaliana. Segundo Silva (2013) nesse livro, Rosalía percorre toda a tradição oral galega, explicitando a permanência dos temas e da estética trovadoresca, além dos traços da cultura celta. Esta poética feminina popular estará também presente em alguns versos de Follas novas (1880). Nesta obra, predominam o protesto social e a meditação metafísica, além de temas relacionados à natureza e às terras galegas.

É fundamental ressaltar que Rosalía foi uma escritora que se afastou do modelo tradicional feminino e este fato pode ser identificado pela própria autora em um famoso poema de Follas Novas:

Daquelas que cantan as pombas i as frores

todos din que ten alma de muller;

pois eu que non as canto, Virxe da Paloma,

¡Ai!, ¿de qué a teréi? (CASTRO, 1993)

Identifica-se neste fragmento que Rosalía reconhece sua distinção em relação à escrita de outras mulheres, pois se aparta de temas comuns considerados femininos, como os de cunhos religiosos e amorosos. Além disso, observa-se que sua presença foi essencial para o cenário da literatura feminina, pois segundo González Liaño (2003) Rosalía mostra-se como o primeiro estandarte intelectual das reivindicações sociológicas das mulheres, ainda que não fosse deliberadamente feminista, nem plenamente consciente do trabalho que estava desenvolvendo através de suas obras.

A autora abordou e denunciou a situação de inferioridade e marginalização a qual estavam submetidas as mulheres da sociedade patriarcal a que pertencia. Ainda, nas palavras de González Liaño (2003) “as súas protestas foron rotundas pero veladas, debido aos condicionamentos sociais da época”. Para tal, utilizou-se de metáforas, sátira e ironia com a finalidade de expor o comportamento masculino em relação às mulheres e a posição secundária destas em relação àqueles.

Desta forma, a problemática social e, principalmente, a das mulheres constituem a base das obras rosalianas que, sobretudo, refletem sobre a dura realidade existencial. Ainda, nota-se um afã de liberdade em suas obras. Essa exaltação encontra-se presente no prólogo da primeira novela de Rosalía, La Hija del Mar (1859), em Flavio (1861) e em Las Literatas (1866).

  1. A POESIA CONTEMPORÂNEA DE EMMA PEDREIRA E YOLANDA CASTAÑO

Atualmente, a poesia escrita por mulheres se transformou em um valioso objeto de interesse para um grande número de estudiosos e críticos. Porém, como se sabe a ausência de vozes femininas marcou a história da literatura galega durante um longo espaço de tempo.

O início da década de noventa trouxe mudanças impactantes e fundamentais para este movimento. Em relação a esse contexto, é importante ressaltar que:

En el caso gallego, los cambios se han visto ralentizados por la marginalidad histórica de esta cultura. La urgencia por reconstruir los discursos político y literario ha interferido –y a veces confluido– con algunas formulaciones estéticas (la vanguardia a comienzos de la centuria pasada) y de género” (NOGUEIRA PEREIRA, 2011).

Esta ampla eclosão de vozes femininas que versavam geralmente em uma escrita de gênero ocorreu exatamente neste momento em que se iniciava um fenômeno que se estende até os dias atuais e que se considera como o boom da poesia feminina, não apenas na Literatura Galega.

Esta proliferação de escritoras galegas, em sua maioria poetas, variam de idade, procedência e formação. Porém, guardam um desejo comum: o de criar uma poesia centrada na voz da mulher e nas suas revindicações, contrariando, desta forma, a visão estereotipada criada por uma tradição patriarcal. Conforme apontado por Comesaña Besteiros (2005) “estas autoras exprésanse e reivindican un eu feminino, un suxeito que actúa, desexa, pensa e sente desde un corpo que, espido de obxectualizacións, pasa a ocupar o lugar central do discurso”.

Inicialmente, é importante considerarmos alguns conceitos básicos, como sexo, gênero e performance. Tomando como base a teoria desenvolvida por Gayle Rubin (1975), o sexo se assimila aos caracteres biológicos que os seres humanos apresentam e que permitem dividi-los en duas realidades diferentes e complementárias, homens e mulheres. Por outro lado, o gênero é entendido como o conjunto de características que a cultura associa aos homes e às mulheres. Vale ressaltar que o conceito de gênero apresenta ainda problemas de definição. A performance, por sua vez, consiste na representação que o sujeito faz de si mesmo, de modo mais ou menos consciente.

Em uma tentativa de apreciar, valorizar e lançar um novo olhar sobre o corpo da mulher, tradicionalmente considerado como um objeto e menosprezado por muitos, algumas autoras dão voz a um novo erotismo. Nesse contexto, encontra-se a figura de Yolanda Castaño. Podem-se identificar na obra desta autora diversos exemplos que confirmam essa posição. Nos seus primeiros livros de poemas Elevar as pálpebras (1995), Delicia (1998) e Vivimos no ciclo das erofanías (1998) à luz do estudo de Comesaña Besteiros (2005), Yolanda expressa o erotismo e a sensualidade através de uma linguagem artificiosa e de um eu lírico fortemente erotizado, o que gera certa provocação. Ainda segundo a estudiosa, identificamos que:

En Elevar as pálpebras domina o erotismo e unha sensualidade expresada a través dos sentidos nunha acumulación de sabores, cheiros ou tactos, co obxectivo de mostrar un corpo en toda a súa potencialidade erótica. (…) En Delicia continúa a liña de sensualidade e de erotismo, expresados a través dunha linguaxe enchida de sonoridade. Vivimos no ciclo das erofanías continúa a liña de poesía erótica en que o eu describe a súa relación co amante, así como o seu propio estado de ánimo como partícipe dunha relación que se representa como plenamente satisfactoria e que eleva ao eu da súa feitura humana, tal e como o facía a poesía (COMESAÑA BESTEIROS, 2005)

Nesse sentido, encontra-se na obra Elevar as pálpebras fragmentos como “Abecedarios de azar amargurado. / Beixos de baldíos balorentos. / Camposas cansas de cinza cega. / Chairas de chumbo chaguazoso. / Dor de debuxos desfigurados. / Esvaemento de esperanzas ebrias […]” (1995: 21), que confirmam a atmosfera erótica e sensual criada pela autora. Ainda, percebe-se a utilização de recursos léxicos que transmitem sensações visuais, táteis e olfativas ao leitor.

Em Delicia o sexo ganha status, importância e alcança o seu clímax em fragmentos como “Se penso nas cousas que fixemos” (1998: 53-56). Deste modo, o leitor se depara com uma figura feminina provida de anseios e com capacidade de ação, distanciando-se do modelo de “passividade” criado pela tradição conservadora patriarcal.

Vivimos no ciclo das erofanías segue com a linha erótico-sensual característica da autora. Nesta obra, observa-se a descrição de uma relação do eu lírico com seu amante. Este “eu”, por sua vez, encontra-se imerso em uma atmosfera de euforia, desejos e febre amorosa. Deste modo, a mulher surge como sujeito ativo de toda ação.

Outra escritora igualmente brilhante merece destaque. Trata-se de Emma Pedreira. Esta autora possui uma vasta produção literária, que se estende da prosa à poesia. Nas palavras Comesaña Besteiros (2005) “Emma Pedreira evidencia no seu discurso que o corpo feminino desexoso rebélase contra calquera forma de represión, moito máis cando esta pretende impoñerse desde o propio útero, é dicir, valéndose do mito da maternidade”.

Nesse sentido, o eu lírico luta contra a ideia do sujeito feminino ser reduzido a mero objeto e recipiente, no qual o objetivo é reproduzir a “linhagem” masculina. Expõe-se que a única maneira de romper com esta opressão é a negação de perpetuar este sistema, evitando a reprodução do dito modelo social. Deste modo, o sujeito feminino da obra proclama “a súa firme decisión de non parir, co claro obxectivo de dinamitar o sistema desde a base. Sen novos nacementos, o mantemento da sociedade faise, sinxelamente, insostible.” (COMESAÑA BESTEIROS, 2005).

Pode-se identificar claramente esta premissa no poema “Irta sobre a materia escura” (2001c: 19-20):

Na sombra os espellos reproducen o meu corpo callado en xeso e leite / que non dará a vida. […] / o útero péchaseme como un atrapamento histérico / sobre a pinacoteca estéril da dor” ou “Xa non seremos paridoras de matrias nin proporción láctea / […] Xa non peligrará sobre nosoutras o inmenso poder do sexo / […] Xa non nos terá a historia a nosoutras como recinto inmaterial” (2001c: 11).

Outro tema recorrente na obra de Pedreira é o silêncio da mulher, pois (o corpo) “como obxecto de consumo, acaba por caer no mutismo e na afasia” (Buzzatti e Salvo 2001: 25). Exemplos dessa temática são os versos “e calo / como sempre calamos” (2001c: 14), “e por si fora pouco / silenciada” (2001c: 20), “e a voz última que se / fai dor e se fai silencio” (2001c: 34), “E me atravesa o silencio” (2001c: 13).

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em síntese, tanto a poesia de Castaño e de Pedreira quanto a das autoras renovadoras das décadas de 80 e 90 em sua maioria, convergem em determinados pontos, a saber: enunciação a partir de um eu claramente identificado como feminino, defesa da liberdade do corpo da mulher, nascimento de um erotismo e de desejos sexuais, no qual o corpo não desempenha o papel de mero objeto, pois transforma-se em sujeito.

Conclui-se, portanto, que “a profusión de textos e autoras supón, en aparencia, un éxito, tanto para a literatura escrita por mulleres como, tamén, para todo o sistema literario galego” (COMESAÑA BESTEIROS, 2005). Deste modo, a mulher alcança e nos mostra sua plenitude nos textos da brilhante e fundamental figura de Rosalía de Castro e atinge a devida visibilidade na conteporaneidade com autoras como Yolanda Castaño e Emma Pedreira.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLANCO, Carmen. Literatura gallega de las mujeres: fundación y refundación. 1995.

BUZZATTI, Gabriela e SALVO, Anna. El cuerpo-palabra de las mujeres. Madrid: Cátedra, 2001.

CASTAÑO, Yolanda (1995). Elevar as pálpebras. A Coru- ña: Espiral Maior, 1998.

_____. Vivimos no ciclo das erofanías. A Coru- ña: Espiral Maior,1998.

_____. Delicia. A Coruña: Espiral Maior. (2000).

CASTRO, Rosalía de. Cantares gallegos. 11 ed. Madrid: Cátedra, 2001.

______. Obras completas. Madrid: Turner, 1993.v.2.

COMESAÑA BESTEIROS, María (2011 [2005]). “aproximación á representación do xénero na poesía galega de muller: emma Pedreira, Yolanda Castaño e Lupe Gómez”. Anuario Grial de Estudos Literarios Galegos: 2005, 48-63. reedición en poesiagalega.org. Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura. .

GONZÁLEZ LIAÑO, Iria. Socioloxía das literatas na Galicia do Rexurdimento. A singularidade do pensamento feminista de Rosalía de Castro, 2003.

NOGUEIRA PEREIRA, María Xesús.“Voces femeninas en la poesía gallega actual”. Revista de Erudición y Crítica: 5, 90-99. reedición en poesiagalega.org. Arquivo de poéticas contemporáneas na cultura, 2011.

PEDREIRA, Emma. Velenarias. A Coruña: Espiral Maior, 2001.

SILVA, Tais Matheus da. A representação da voz da mulher na poesia de Rosalía de Castro. 2013

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