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Aspectos da desordem urbana: imigrantes ibéricos e a contravenção no Rio de Janeiro republicano (1880-1930)

Érica Sarmiento / Lená Medeiros de Menezes

Professoras de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

*Artigo publicado na revista Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 41, n. 1, p. 164-180, jan.-jun. 2015.

Resumo

A imigração ibérica no Rio de Janeiro do período da Grande Imigração (1880-1930) ocupou lugar de destaque nas principais freguesias da cidade. Nos espaços populares e nas tensões cotidianas que faziam parte do cenário urbano, os espanhóis criaram assentamentos étnicos e concentraram-se em determinados ofícios e profissões, formando redes de solidariedade. Sua participação em atividades consideradas ilícitas, de caráter eminentemente popular, como o jogo do bicho, demonstra o entrosamento desses grupos com a sociedade carioca e a sua inserção e adaptação no cotidiano da cidade. Através de fontes históricas como os processos policiais e os processos de expulsão, esse estudo busca reconstruir algumas histórias de encontros e conflitos, apoio e repulsão, que envolveram os imigrantes ibéricos


A tendência da História em registrar os sucessos tem como resultado o esquecimento lançado sobre empreendimentos mal sucedidos e sobre as trajetórias descritas nos bastidores. Dessa forma, ela acaba por reforçar estereótipos e mitos, como o do imigrante português enriquecido pelo comércio e transformado em comendador.

Certamente muitos foram os que conseguiram ascender socialmente – e até enriquecer – fora de sua terra natal, mas também é verdade que outros amargaram derrotas ou enveredaram pelo mundo do crime e da contravenção. Vários destes buscaram, nos jogos de azar, o caminho da sobrevivência ou o sonho, por um golpe de sorte, de garantir uma vida de maiores facilidades.

No caso de muitos destes contraventores, a circulação pelas delegacias policiais tornou-se rotina, em um jogo de delito e perseguição crivado por distanciamentos sociais que acabavam penalizando os que jogavam nas esquinas ou através de estratégias de ocultamento em quiosques e pequenas casas comerciais, em detrimento dos que apostavam em estabelecimentos de luxo que reproduziam o requinte da burguesia europeia; caso das corridas de cavalo.

No caso dos jogos populares, dispersos por toda a cidade, como denunciavam jornais de época, um importante elemento a destacar é, justamente, a participação de portugueses e espanhóis – em especial de galegos – quer como apostadores, quer como apontadores, quer como banqueiros.

Portugueses e galegos: solidariedade, distanciamentos e tensões    

   As relações entre portugueses e galegos no Rio de Janeiro é anterior ao período da Grande Imigração (1880-1930), embora deva ser considerado que, na segunda metade do Oitocentos, tornou-se visível que os espaços de solidariedade representavam um instrumento de defesa em um mercado de trabalho que se tornava cada vez mais competitivo e instável. Garantir melhores condições de vida significou, para muitos portugueses e galegos, monopolizar determinados “nichos” de mercado. Em tal empreendimento, os imigrantes contavam com a influência de redes de parentesco, compadrio e amizade para obter créditos na praça, comprar imóveis em sociedade e conseguir cartas de boa conduta com comerciantes de prestígio. O comportamento corporativo dos imigrantes portugueses e galegos deu origem, assim, a assentamentos étnicos e à concentração da coletividade em determinados ofícios e profissões.[1]

É possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro […] Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia.

Após terem se estabelecido no Brasil, os imigrantes pioneiros chamariam parentes ou conhecidos oriundos da mesma localidade para trabalharem em seus estabelecimentos, alimentando dessa forma, através do que se convencionou denominar “cadeias migratórias”, os fluxos. Esses precursores passaram, assim, a garantir o assentamento espacial e laboral dos patrícios que chegavam a um país desconhecido, sobre o qual, muitas vezes, só tinham as informações que estes lhes forneciam. As cadeias migratórias funcionavam, dessa forma, como um mecanismo integrador, capaz de atrair e introduzir o imigrante no mercado de trabalho. As próprias “leis” do comércio, bem como as hierarquias estabelecidas no universo comercial, moviam-se através de critérios extraeconômicos como as relações interpessoais e a confiança que o credor tinha naquele que lhe pedia empréstimos ou favores.

Em uma análise diacrônica, é possível dizer que o mercado ambulante foi um dos espaços ocupados pelos pioneiros ibéricos que se fixaram na cidade do Rio de Janeiro, antes do período de deslocamento dos fluxos massivos que caracterizaram a virada do século XIX para o XX. Vendendo produtos pelas ruas da cidade, portugueses e galegos se beneficiavam dos laços de solidariedade que os unia, exercendo ora a função de fiador, ora a de ambulante, como exemplifica o caso abaixo:

Antonio Ferreira da Cunha, português, morador a Ladeira do Seminário, n° 45, freguesia de São José quer licença para andar ao ganho. Apresenta para seu fiador Domingos da Silva Manahu, estabelecido com quiosque, n.114, morador na Rua Santo Antonio, n.5.[2]

Portugueses e espanhóis/galegos ambulantes, no contexto histórico do Rio de Janeiro de segunda metade do Novecentos, concentravam-se, majoritariamente, nas freguesias centrais da cidade, especialmente nas freguesias de São José e Santo Antonio. O fiador acima mencionado, por exemplo, era dono de um quiosque no Largo da Carioca (freguesia de Santo Antonio) e tinha sob sua tutela dois ambulantes espanhóis e um português. Na Ladeira do Seminário – onde residia o português que solicitava licença para “andar ao ganho”- viviam, também, quatro espanhóis e seis portugueses.[3] Exemplos emblemáticos, os dois imigrantes são demonstração inequívoca das estratégias de sobrevivência e de inserção na sociedade carioca.

As relações entre os imigrantes ibéricos e o mundo do trabalho podem, também, ser analisadas através de uma fonte rica em elementos do cotidiano: os processos policiais. Depositados no Arquivo Nacional, situado na cidade do Rio de Janeiro, esses processos, para além das relações no espaço do trabalho, relatam o grau de tensão e violência que permeava as relações no mercado de trabalho, bem como os embates travados entre a policia e entre as clases populares em um contexto da transformação da capital brasileira em uma cidade disciplinar.

Os casos de violência no interior do mercado de trabalho, em especial, são importantes para o estudo das relações de dominação cotidiana. Dentre outros aspectos, porque, além de motivações materiais, elas contêm motivações subjetivas no contexto de relações permeadas pela violencia..[4] Dessa forma, o cotidiano aparece como a dimensão que homogeniza e unifica a experiência do grupo, como no caso dos galegos e dos portugueses que se apropriaram do espaço urbano carioca, concentrando-se em determinados bairros e atuando no pequeno comércio. Os processos policiais contra alguns instaurados transformam-se, assim, em fontes históricas que nos permitem comprender, através da atuação da policía, o comportamento das elites e as imagens relativas aos imigrantes. Outrossim, os processos possibilitam visualizar as interpretações que cada grupo elaborava a respeito dos mecanismos de dominação social.

Em sua obra Proletários de Casaca, Trabalhadores do comércio carioca (1850-1911), Fabiane Popinigis, analisa 1.112 processos de ofensas físicas e homicídios. Ao analisar o pequeno comércio das áreas centrais do Rio de Janeiro, a autora, inevitavelmente, depara-se com a presença ibérica, majoritária na cidade.[5]

Um dos processos analisados por Popinigis refere-se às desavenças ocorridas, no ano de 1901, entre o caixeiro espanhol José Cavenhago Pumar, de 19 anos, e o caixeiro português Alberto da Silva Peixoto, de 28 anos. Ambos trabalhavam nos arredores da Freguesia de Santo Antonio, um dos espaços de grande concentração de imigrantes provenientes da Península Ibérica. Assim, portugueses e galegos reelaboravam o cotidiano e construíam suas estratégias de sobrevivência.

Jogos de azar: prática do citidiano

A inserção dos imigrante na terra de acolhida ultrapassava, porém, o estereótipo do estrangeiro honesto e trabalhador, tendo em vista os espaços ocupados nos mundos da contravenção e do crime. Era o caso, por exemplo, do envolvimento de imigrantes portugueses e galegos nos jogos de azar. O ritual inerente ao jogo fomenta sempre uma relação de reciprocidade, onde podem ser verificados valores como os de compromisso e lealdade, envolvendo apostadores e banqueiros.

No Brasil, a repressão a alguns dos jogos, considerados de “azar” surgiu com a República e, nesse combate, as diferenciações sociais jogaram papel de relevo, principalmente com relação aos jogos populares, situados à margem da orden constituída. Observe-se que as relações travadas no universo dos jogos populares implica sempre valores de compromisso e lealdade entre o apostador e o banqueiro. É isso que assegura a confiabilidade e sustenta o processo. Esses valores podem ser demonstrados pela prisão em flagrante e os autos do processo que envolve cinco imigrantes portugueses e um de origem galega. Segundo esses autos, no dia 26 de julho do ano de 1902, em um sobrado localizado na Rua Visconde do Rio Branco, n.39, no centro da Cidade,

… foi dada busca na casa e apreendidos: uma pequena lata com um orifício na tampa em que se achava na mesa formada para o jogo, diversos baralhos de cartas que também se achavam sobre a mesa formada para o jogo, um macho, uma taboa, dois cavaletes e tais bancos…[6]

A polícia deteve e encaminhou delegacia todos os presentes, acusados de praticarem jogos ilícitos à delegacia. Eles encontravam-se, segundo os investigadores, jogando o chamado “jogo do monte”. Segundo os autos, o galego Benito Pouza foi encontrado com um baralho de cartas servindo de banqueiro do referido jogo, em uma casa de propriedade de um português, natural de Villa Real: Antonio Joaquim Oliveira.

Durante o interrogatório, o galego José Benito Pousa e o português Francisco Rodrigues construíram seus depoimentos com base nos mesmos argumentos. Ambos alegaram não participavam do jogo e eram simples assistentes do jogo que os outros imigrantes praticavam. Justificando sua inocência, ambos afirmaram não haver qualquer motivo para serem levados à delegacia. Outro acusado, por outro lado, Manuel Ferreira da Silva, defendeu-se com a argumentação de que havia se dirigido ao local somente para buscar uns amigos. O depoimento do quarto acusado, Antonio Joaquim Gomes, foi, no mínimo surpreendente pois, para se livrar da acusação, explicou que estava “a procura de uma meretriz que residia neste local e que havia sido informado que ela havia mudado de residência justamente naquele dia”. O último imigrante a depor, José Pereira Gomes, negou estar no recinto e alegou ter sido preso pela polícia quando estava caminhando pela rua. Verdadeiras ou falsas, todas as declarações negavam o envolvimento dos imigrantes nos jogos de azar. Com exceção de um dos portugueses, nenhum dos demais declarou conhecer os acusados, como estratégia para evitar a detenção, alegando que se protegiam, dessa forma, da perseguição policial.

Vale ressaltar que, nos primeiros decênios do século XX, no contexto do combate amplo aos imigrantes considerados indesejáveis,[7] a polícia carioca perseguiu todos aqueles que se envolvessem em atos de desordem, em prol de uma limpeza moral e material condizente com o projeto de civilização que a república queria empreender. Segundo Marcos Bretas, parte da população carioca, pelo menos, aderia às cruzadas morais em defesa da ordem pública e apresentava suas queixas contra vagabundos envolvidos em apostas ou em jogos de futebol.[8]

Na segunda fase do processo que vimos relatando, somente dois réus compareceram: Antonio José Pereira Gomes e Antonio Joaquim de Oliveira, ambos soltos após pagarem fiança. É importante frisar que, apesar de, nas primeiras declarações dos envolvidos, não haver menção da relação que os unia para além do jogo, a situação parece ter mudado nos autos de defesa. As testemunhas arroladas eram formadas, também, por imigrantes: um italiano e dois portugueses. Em seus depoimentos, todas confirmaram que os acusados – os portugueses e o galego – não viviam do sustento do jogo, sendo, ao contrário, homens laboriosos e bem empregados. Quem eram, porém, essas testemunhas? Todos eles eram negociantes na Rua Visconde do Rio Branco, a mesma rua onde os acusados foram pegos em flagrante. Após as testemunhas se pronunciarem, o processo foi encerrado e os réus absolvidos. Percebemos, assim, comportamentos que tendem a se repetir nos processo: a proteção aos patrícios e as vantagens de ter boas relações na praça. Palavras como “honradez”, “honestidade”, quando proferidas por um conceituado comerciante, transformavam-se em defesa valiosa para um estrangeiro acusado, que podia valer a absolvição, considerando os perigos que rondavam as classes populares frente à verdadeira cruzada em que se constituía a caça aos vadios e vagabundos que “contaminavam”, com sua presença, a “saúde” social. Nesse sentido, as redes de solidariedade eram não só importantes quanto mecanismos de defesa.

O problema das jogatinas e a perseguição aos imigrantes, ao longo de toda a chamada Primeira República (1889-1930), com destaque para os ibéricos, continuaram a ser responsáveis pela instauração de muitos processos, no contexto da repressão à vadiagem e da definição do trabalho como valor social.

“Jogo do bicho”: o mais popular dentre os jogos de azar

Uma nova modalidade de jogos de azar foi criada no final do século XIX: o “jogo do bicho”, idealizado, em 1892, por João Baptista Vianna Drummond, conhecido como o Barão de Drummond, proprietário do zoológico do Rio de Janeiro, localizado no bairro de Vila Isabel e fundado em 1884. Os sorteios e as apostas atraiam multidões, que passaram a difundir o jogo para além das portas do zoológico. O ritual da aposta se projetou no imaginário urbano, originando uma rede de intermediários para o seu financiamento. O jogo ganhou as ruas e passou a ser “apontado” em pequenos estabelecimentos da cidade, surgindo, então, a figura dos “banqueiros do bicho” (“bicheiros”), contraventores que se enraizariam na sociedade carioca.

Nos pequenos estabelecimentos, a população jogava através de curiosas estratégias e anotações nos cadernos de dívidas do estabelecimento, narradas por Luís Edmundo ao descrever o Rio de Janeiro “do seu tempo”:

Quem paga o bicho é a patroa, porque, quando elas chegam à casa, não esquecem de dizer:

– Qual esse seu Manoel da esquina está ficando cada vez mais careiro! Veja só se isso está direito, patroa, olhe só para estes quatro de alhos e quatro de cebolas! Não falam no dinheiro que apostam, incluído, também, no preço daquilo que compraram.[9]

Observe-se que, no caso acima ilustrado, o jogo foi feito por uma empregada doméstica, que lançou os custos do jogo por ela feito nas dívidas da patroa. O local de registro do jogo é um estabelecimento de víveres, de propriedade de um português ou de um galego: seu Manoel; um dentre tantos imigrantes de igual nome espalhados pelas “esquinas” da cidade. A estratégia de ocultamento, por outro lado, explicava-se não apenas pela intenção da criada em não arcar com os custos do vício, mas, também, devido à proibição e perseguição policial que fazia, muitas vezes, com que os apostadores literalmente engolissem suas apostas, de modo a escapar do flagrante.

A primeira proibição do “bicho” data de 1895 e foi explicada pela concorrência do jogo – extremamente popular – com o sistema de loterias federais, este legalizado. Por outro lado, “jogar no bicho” tornou-se ação definidora de vagabundagem, o que reproduzia, em última instância, estereótipos e preconceitos com relação às classes populares.[10] A popularidade do jogo, entretanto, era tanta que ele se tornou ato cotidiano entre as classes populares que, diariamente, passaram a apostar no “bicho”.

A relação de portugueses e galegos com o jogo do bicho é antiga, tendo sido iniciada em época que antecedeu a sua proibição. Ao que tudo indica, o precursor da venda de bilhetes foi um imigrante galego chamado Manoel Cavanelas. Segundo entrevistas realizadas com patrícios e contemporâneos de Cavanelas, esse galego – que alcançou uma importante ascensão socioeconômica na primeira metade do século XX – chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1894, com somente 17 anos de idade. A partir desse momento, começou a vender bilhetes do jogo do bicho a encargo de seu patrão, o Barão de Drummond. Quando Cavanelas passou a gerenciar as lojas de loterias do Barão, sua ascensão econômica foi surpreendente. Os dois se tornaram muito amigos e o Barão pediu ao galego que abrisse uma casa de loteria na Praça Olavo Bilac, número 9. Anos mais tarde, com o progresso dos negócios, Cavanelas comprou todo o edifício. A partir daí, abriu outros tipos de comércio como o negócio de luvas; comprou lojas e outros imóveis, passando a viver de rendas.[11]

A história de Cavanelas, fundador da casa de repouso do Recreio dos Anciãos,[12] e sua inserção no jogo do bicho, foi preservada na memória de imigrantes que compartilharam trajetórias, mantendo-se vivas até o presente. Nesse, como em outros casos, o que os depoimentos revelam, outros documentos comprovam. Percorrendo documentos referentes à freguesia de Santo Antonio, bairro com grande índice de imigração galega e portuguesa, por exemplo, deparamo-nos com um processo instaurado no ano de 1905, referente ao galego Romão Villanova e ao português João Bento, presos em flagrante à rua do Riachuelo:

… os Réus presentes João Bento e Romão Villanova foram presos em flagrante pelo Doutor Delegado por serem encontrados a jogar o denominado jogo do “Bicho” sendo que João Bento era o banqueiro e Romão Villanova comprava o jogo, isto é, era o jogador.” [13]

João Bento, português, e Romão Villanova, galego, foram presos “por estar bancando o jogo denominado do Bicho”. No caso do espanhol, também pelo fato do mesmo “por estar jogando ou comprando o referido jogo”. Segundo os autos do referido processo:

…esse jogo é uma rifa que corre anexa à loteria da Capital Federal, determinando o grupo que ganha o final do primeiro prêmio da referida loteria com os denominantes de Antigo Rio Moderno e Salteado, como se verifica das listas encontradas em poder do réu João Bento e que são as mesmas que lhe são apresentadas nesta ocasião.[14]

Romão Villanova, ao se pronunciar, tentou se justificar perante às aiutoridades, alegando que tinha domicilio certo e profissão honesta, levando à delegacia duas testemunhas para atestar a sua condição de imigrante trabalhador. Ambas as testemunhas eram de origem estrangeira: um espanhol e um italiano. O primeiro deles, Pedro Martinez, espanhol de trinta e dois anos, casado, negociante, morador à rua do Lavradio cento e vinte e nove, sabendo ler e escrever, declarou o seguinte: “que conhece o prontificante, Ramon Villanova, há cerca de dez anos como homem serio e trabalhador, sendo atualmente empregado como pespontador e morador à Rua do Lavradio cento e sessenta e nove.[15]” Segundo o depoimento do acusado, ele entrou no negócio do português “afim de tomar um “alcoólico”, visto a casa ser um depósito de bebidas”.

Os réus foram absolvidos, pois segundo a defesa, as irregularidades do processo eram evidentes, o que determinou seu encerramento por falta de prova da existência da contravenção e por insuficiência das declarações daqueles que haviam testemunhado o flagrante. Nesse sentido, o processo se justificaria pela tentativa de incriminar o português dono da venda e o espanhol que lá ia consumir um “alcoólico”. Na falta de auto de apreensão das listas do jogo e devido ao fato dos depoimentos não terem sido tenham sido lidos às testemunhas, os réus foram considerados inocentes.

Torna-se evidente, assim, que o jogo do bicho demonstra um controle do território que se apresenta como área de força, fazendo surgir diferentes redes de solidariedade e apoio. A implantação da ordem sobre os espaços ligados ao comércio popular levou à criminalização de práticas já enraizadas no cotidiano da cidade.[16] No caso do processo crime acima relatado, os imigrantes presos mostram-se representantes das tensões étnicas e sociais existentes, utilizando as possibilidades e atividades marginais que lhes eram oferecidas.

A popularidade do “bicho” e a inserção de galegos e portugueses em um jogo que, mesmo ilegal, desafiou as proibições, despertou o interesse em diversos trabalhos acadêmicos. Esmeralda Broullón Acuña, em artigo sobre os espanhóis no Brasil, relata o romance de Jorge Díaz, intitulado Los números del elefante. A trama de Díaz aborda a história social do jogo do bicho e apresenta, como protagonista, a Bernardo, imigrante espanhol que chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1954. Ele se converteu em vendedor de bilhetes do jogo do bicho. O autor do livro aborda a questão das máfias controladas por galegos: a máfia da venda de bilhetes de loterias do jogo do bicho[17]. Outro exemplo do interesse acadêmico pela criminalidade dos jogos é a tese de Amy Chazel, Laws of Chance, Brazil´s Clandestine lottery and the making of urban public life. A autora analisa vários processos crimes, todos vinculados a jogos ilícitos, chamando a atenção para a presença de imigrantes portugueses acusados de serem banqueiros do jogo do bicho. Da mesma forma que no processo referente ao galego Romão Villanova e o português João Bento, acima analisado, os imigrantes, analisados por Amy Chazel, também foram absolvidos, ao alegarem em sua defesa, serem comerciantes, terem boa conduta e viverem há muito tempo na cidade Rio de Janeiro.

Todos eram “galegos”

Os processos analisados reúnem elementos valiosos para compreender não só aspectos do cotidiano dos imigrantes quanto as formas pelas quais eles se integraram à sociedade de acolhida. A sobrevivência, adaptação ou modificação das culturas de origem possibilitava que os imigrantes modificassem os seus hábitos de forma a se adaptar à nova organização e espacialização da cidade que os acolhia. No caso dos ibéricos, os laços horizontais e verticais existentes entre eles reproduziam inúmeras formas de associação e solidariedade; solidariedade que, como em todas as relações sociais, admitia hierarquias. Dessa forma, seu viver não representava uma “cópia” da sociedade de origem, mas novas formulações formadas em país estrangeiro, com um processo de adaptação e respeito às instituições e à forma de viver dos brasileiros.

O vocábulo “galego” deixa de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

No tocante às hierarquias, podem ser citadas: a que se formava dentro das redes étnicas e aquela que já estava estabelecida na sociedade receptora; círculos intercomunicantes de sistemas de valores distintos que se confrontavam ou caminhavam paralelamente na cotidianidade das ruas do Rio.

Quando se fala em galego no Rio de janeiro, por outro lado, devemos levar em consideração alguns “deslizamentos” de sentido, que explica que o vocábulo “galego” deixe de ter relação com o indivíduo procedente da Galiza, abrangendo, também, indivíduos originários das terras portuguesas.

A questão do significado do “ser galego” tem origens históricas, que remontam às querelas e conflitos do início da República brasileira. O termo “galego”, por exemplo, foi muito utilizado no Jacobinismo,[18] movimento antilusitano estreitamente vinculado à recém-consolidada República e liderado por grupos pertencentes às camadas médias urbanas emergentes. Utilizava-se, então, a expressão “galego vai para tua terra!”, como uma forma de rechaço à população portuguesa que, além de ter a sua postura política associada ao monarquismo, também provocava a inimizade dos nativos da terra devido ao monopólio de muitos setores do pequeno comércio da sociedade carioca, estreitamente ligados às classes populares, como pensões, bares e botequins ou padarias. Aos antigos colonizadores, eram atribuídos, assim, vários males pelos quais a jovem República passava.

O sentido que prevaleceu no imaginário da cidade foi o do “galego português”, inserido majoritariamente no setor do comércio, em contato direto com a população em geral. Esse imaginário, contextualizado em um âmbito histórico específico – o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX – pode ser apreendido no processo movido contra os galegos Manoel Facal Peres e Laureano Taboada.

Segundo os autos do processo, tudo teria começado na casa de pasto de propriedade de um espanhol. Entre brigas e ofensas, o galego insultou o português, chamando-o de “galego”!

… pediu o prato da cozinha da casa de pasto onde é empregado a Rua Visconde do Rio Branco, ao cozinheiro Manoel Facal Peres, um caldo especial para servir a um freguez da casa, que havendo demora elle declarante dirigio-se a porta da cozinha e pedia novamente do cozinheiro Manoel o caldo, que Manoel lhe dirigio pesado insulto e em seguida disse: “seu gallego[19] leve isso lá para fora, apresentando-lhe o caldo; …

Assim como no primeiro processo analisado, vinculado ao jogo de cartas, esses galegos estavam envolvidos com imigrantes portugueses, na conhecida Rua Visconde do Rio Branco, sendo, assim, mais um caso de uma história envolvendo imigrantes galegos e portugueses no espaço comercial carioca do período da Primeira República.

No dia 7 de agosto de 1909, os réus Manoel Facal Peres e Laureano Taboada foram indiciados por ofensas físicas, após terem agredido o português Joaquim Gomes dos Santos. Em seu depoimento, Joaquim Gomes fez questão de enfatizar que o espanhol utilizou a palavra “galego” para insultá-lo e isso não teria sido por acaso, pois o português tinha consciência do peso que a palavra tinha no imaginário dos trabalhadores galegos e portugueses.

A frase “seu galego leve isso lá para fora”, fora enfatizada no momento em que Joaquim estava pedindo ao cozinheiro (Manoel) que agilizasse o serviço. A tensão se iniciou quando Manoel, na posição de caixeiro, exigiu melhores serviços do cozinheiro galego. Não nos interessa analisar qual dos depoimentos apresenta maior veracidade e poder de convencimento, mas sim remarcar a ofensa de um galego a um português, ao insultar a este de “galego”. Assim, quando Manoel Esteves “xingou” o português Joaquim Gomes de “galego” ele estava reproduzindo elementos do imaginário que afetava os portugueses no cotidiano carioca do começo do século XX.

No processo acima analisado, apresentaram-se três testemunhas e dois acusados, todos estrangeiros. O dono do estabelecimento era o espanhol Indalecio Quintelo, que interferiu na confusão armada por seus empregados, os já citados cozinheiros Manoel Facal, Laureano Taboada e o caixeiro Joaquim Gomes. A primeira testemunha é um português, de 33 anos, lavador de prato da casa de pasto. A versão que predominou em todos os depoimentos foi a de que, após uma acirrada discussão, os cozinheiros galegos arremessaram pratos no português, causando-lhe graves ferimentos. Concluímos, então, que na casa de pasto, da Rua Visconde do Rio Branco, n.17, havia uma pequena rede de emigrantes da península ibérica, inseridos no comércio carioca. Para os brasileiros, todos eram “galegos”.

O jogo como motivação para a expulsão

Em alguns casos, os jogos clandestinos constituíram-se em motivo para a instauração de processos de expulsão, conforme determinavam as leis que regulamentavam a entrada e a permanência de estrangeiros no país.[20]

No conjunto de processos de expulsão analisados no livro Os Indesejáveis,[21] embora os processos contra jogadores, apostadores e banqueiros representem pequeno número frente a outras contravenções e crimes, eles trazem importantes indícios para análise. Em primeiro lugar, destaca-se a constatação da maioria dos processados estar constituída por imigrantes portugueses (apenas um era italiano e um era argentino, possivelmente naturalizado). Em segundo lugar, o fato de apenas um dos casos referir-se a outro tipo de jogo que não o jogo do bicho. Finalmente, a constatação de que os processados acabaram escapando da expulsão, apesar do caráter inquisitorial dos processos que, em última instância, tinham decisão praticamente predeterminada.

As justificativas para a restituição da liberdade, por outro lado, reproduzem o exposto em outros processos: tratar-se de proprietário de casa comercial ou indivíduo trabalhador, ao que se acrescenta o fato do indivíduo já estar respondendo a processo instaurado pelo mesmo motivo. Como aparece na defesa de um dos processados, “em virtude da independência dos poderes, a faculdade outorgada ao Executivo de expulsar os estrangeiros não pod[ia] ser exercitada quando este [o indivíduo] se acha[sse] sob a ação direta do Judiciário”.[22]

Serafim Augusto de Almeida, português de Coimbra, foi processado com a idade de 49 anos, no ano de 1930, quando intensa repressão era desencadeada contra o “bicho”. Morador na Lapa, ele era solteiro e alfabetizado e havia chegado ao Brasil no ano de 1911, quando tinha 28 anos. Acusado de infringir o artigo 31 da lei nº 2321, foi qualificado como “bicheiro”. Preso e processado, constituiu advogado que impetrou habeas corpus no qual alegava “a improcedência da prisão vista a quantidade de pessoas que jogavam no bicho”: 30 milhões segundo o advogado, que acrescentava, em sua petição, o fato de, “nas campanhas policiais que de vez em quando [eram] postas em prática”, com vistas a “sufocar os jogos de azar”, elas serem dirigidas não contra os “compradores”, mas apenas “contra os vendedores”, o que, segundo ele, era um absurdo.[23]

Português de Viseu, Antonio Gonçalves de Moraes era empregado no comércio, casado e tinha 30 anos quando foi processado em 1930. Vivia no Rio de Janeiro desde os 13 anos e já fora preso processado outras vezes pelo mesmo motivo: o jogo do bicho. Como possuía vários bens no Brasil e estava casado há cinco anos com brasileira, provando, também, ser trabalhador, escapou da expulsão.[24]

Sapateiro por profissão, casado, analfabeto (só assinava o nome), Anibal Serrano, natural de Lisboa, tinha 39 anos quando foi processado em 1930, tendo entrado no Brasil quando tinha apenas 12 anos. Nos autos do processo consta um número da Revista Criminal, datada de fevereiro de 1929, que traz a notícia da prisão, com vistas expulsão, do estrangeiro e contesta a ação da polícia, declarando que ela era ilegal, tendo em vista que o acusado era proprietário de uma casa comercial, “não podendo, portanto, ser considerado vadio e estar sob ação da justiça.” Serrano acabou sendo posto em liberdade em 14 de abril do ano do processo: 1930.[25]

A análise destes processos aponta para duas questões importantes. Em primeiro lugar, o fato do jogo do bicho, por sua popularidade, ter grande capilaridade entre a população, encaminhando várias formas de resistência. Por outro lado as tensões permanentes entre os que estavam envolvidos com o jogo e a polícia, não raras vezes constituída por agentes que também gostavam do jogo, fingiam não ver a jogatina, espalhada por toda parte ou cobravam propina para não realizarem sua tarefa, acobertando a prática que se tornara generalizada.

A partir dessas observações, é possível dizer que

… também no Brasil, coexistiram diferentes atitudes perante o jogo ou, segundo as reflexões e palavras de Thompson, “persistiram atitudes populares em relação ao crime [e a contravenção], chegando a constituir um código não escrito totalmente diferente das leis do país”. Para Thompson, a “distinção entre o código legal e o código popular não escrito” pode ser observada em qualquer época,[26] razão pela qual – guardados os devidos distanciamentos temporais – consideramos que a existência paralela desses dois “códigos” – o não escrito e o legal – se manifesta no tocante à permanência do jogo do bicho como arma popular de resistência nos séculos que se seguiram a sua popularização.[27]

A coexistência acima enunciada mostra-se presente, também, nas formas pelas quais os jornais cariocas – destaque para o Jornal do Brasil – davam “dicas”[28] à população sobre o “bicho” do dia,[29] dispersando desenhos de animais pelas páginas do jornal, relatando sonhos, propondo adivinhações e outras tantas estratégias de disfarce, amplamente conhecidas pelos adeptos do jogo, que corriam às bancas de jornais, em busca dessas indicações; hábito tornado diário em uma cidade que, segundo o advogado de Serafim de Almeida, 30 milhões de pessoas jogavam.

Referências bibliográfica

Bretas, Marcos Luiz (1997), Ordem na cidade. O exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro:1907-1930, Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

Chazkel, Amy (2011), Laws of chance clandestine. Brazil ‘s clandestine lottery anda the making of urban public life, New York: Duty University Press.

Medeiros, Simone (2014), Resistência e rebeldia nas fazendas de Café de São Carlos (1880-1914). Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.

Meira, Selena de Mattos, (1995), O papel da imprensa no jogo do bicho, Rio de Janeiro: UERJ, Dissertação de Mestrado, Departamento de História.

Menezes, Lená Medeiros de, Os Indesejáveis. Protesto, crime e expulsão na Capital Federal (1890-1930), Rio de Janeiro, EdUERJ, 1986.

Menezes, Lená Medeiros de, Portugueses no Rio de Janeiro: histórias, lugares e trajetórias, Rio de Janeiro. Original digitado, no prelo para publicação, Editora Ephesus.

Popinigs, Fabiana (2007), Proletários de Casaca, Trabalhadores do comércio carioca (1850-1911), São Paulo: Editora Unicamp.

Ribeiro, Gladys Sabina (1987), Cabras e pés de chumbo: os rolos do tempo. O ntilusitanismo no Rio de Janeiro da República Velha, Niterói: UFF, Dissertação de Mestrado, Departamento de História.

Sarmiento, Érica (2013), “Convívio e conflito nos trópicos: portugueses e galegos no Rio de Janeiro”, en Arruda, Jobson; Ferlini, Vera Lúcia Amaral; Matos, Maria Izilda Santos; Sousa, Fernando (coord.) (2013), De colonos a Imigrantes. I (E) migração portuguesa para o Brasil, São Paulo: Alameda, 2013, pp. 119- 130.

Thompson, E. P (1987), A formação da classe operária inglesa – I. A árvore da liberdade, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

[1] Sarmiento, Érica 2013, pp. 119- 130.

[2] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879, p.125.

[3] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Códice 44 -1-49, ganhadores livres, agosto de 1879.

[4] Medeiros, Simone (2014).

[5] Popinigs, Fabiana (2007).

[6] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 703.

[7] Menezes (1996).

[8] Marcos Bretas ( 1997).

[9] Luís Edmundo (1967), v. 4, pp. 873-4.

[10] Chazkel, Amy (2011).

[11] Entrevista realizada no ano de 2000 a M. B. A identidade do imigrante foi preservada.

[12] Funciona até os dias atuais, localizada no bairro da Tijuca, ainda sob a gerência de imigrantes e descendentes galegos.

[13] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 1264. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

[14] Idem.

[15] Idem.

[16] Chazkel, Amy (2011), p. 50.

[17] Broullón Acuña, Esmeralda (2011), pp. 133-150.

[18] O tema da emigração portuguesa e do jacobinismo está bem desenvolvido no livro de Ribeiro. Ribeiro, Gladys Sabino (1987), P. 51.

[19] BR. Arquivo Nacional. Processos criminais. Depoimento da testemunha Joaquim Gomes dos Santos. 5ª Pretoria, Freguesia de Santo Antonio, 0I 2346. Grifo nosso.

[20] Vejam-se os decretos nº 1641 de 07 de janeiro de 1907 emº 4247 de 06 de janeiro de 1921. BR. Colecção das Leis da República de 1907 e 1921.

[21] Menezes, Lená Medeiros de (1996).

[22] BR. Arquivo Nacional. Setor do Poder Judiciário (SPJ), módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[23] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7148.

[24] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[25] BR. Arquivo Nacional. SPJ, módulo 101, pacotilha IJJ7132.

[26] Thompson, E. P. (1987), p. 62.

[27] Menezes. No prelo para publicação.

[28] Corruptela de “indicações”.

[29] V. Meira, Selena (1995).

As Letras Galegas ’16 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

O Programa de Estudos Galegos tem o prazer de divulgar a programação da Jornada de Letras Galegas 2016. Esse ano, o evento não só homenageará o poeta galego, Manuel María, como também tem o intuito de apoiar à greve da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a qual se iniciou em março e que denuncia o sucateamento da UERJ, a falta de investimentos para preservar sua manutenção e a crise que tem vivenciado nos últimos anos. Por isso, decidimos realizar nosso evento como uma atividade de greve e num formato mais compacto.

Iniciaremos a Jornada às 11h, no hall térreo com a apresentação do PROEG, do evento e do autor homenageado, além de uma breve exposição sobre o centenário das Irmandades da Fala e leitura de poemas. Finalizaremos o primeiro bloco do evento com um grupo de músicos e dançarinos de música tradicional galega da Casa de España. Após o intervalo de almoço retomaremos nossas atividades às 14h, no Salão Nobre no Instituto de Letras, 11º andar, para exibição do documentário “Manuel María: Eu son a fala e a terra desta Miña Terra”.

Esperamos a presença de todos os alunos e alunas e professores/as da comunidade acadêmica para nos inspirarmos nos poemas de luta e resistência de Manuel María, para assim realizarmos nossa própria luta.

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Os Estudos Galegos no Rio de Janeiro

Denis Vicente

Professor-leitor de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2014-2015)

O Programa de Estudos Galegos (PROEG) foi criado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro no ano 1996. Segundo os seus próprios estatutos, os objetivos do programa são:

• desenvolver, estimular, dar apoio e assistência a atividades relativas ao ensino, à pesquisa e à extensão em áreas do conhecimento que envolvam ou se relacionem com a língua, a literatura e a cultura galega.

• promover o intercâmbio cultural com a Galiza.

Buscando alcançar estes objetivos, o PROEG oferece 4 disciplinas eletivas universais no Instituto de Letras, e promove eventos diversos sobre a cultura galega. As eletivas do PROEG são: Língua Galega; Introdução à Cultura Galega; Literatura Galega I e Literatura Galega II. O número de alunado inscrito tem sido bastante elevado nos últimos anos, contando com 57 alunos e alunas no 2014 e com 58 no ano 2015, fundamentalmente de Letras, mas também de História, Relações Internacionais, Trabalho Social ou mesmo de Física.

No ano 1998, foi assinado um convênio de colaboração entre a Consellaria de Educación e Ordenación Universitaria da Xunta de Galicia e a UERJ, que continua vigente, para a criação de um Leitorado, envio de um professor de galego vindo da Galiza, no PROEG. Assim, desde este momento vários foram os galegos e galegas que atuaram como professores na UERJ: Beatriz Gradaille, Baltasar Pena ou Diego Rico, entre outros/as.

Quanto à direção, desde o início, e até o ano 2014, o programa foi coordenado pela professora Amparo Maleval, reconhecida especialista no estudo da lírica medieval galego-portuguesa. Na atualidade, a coordenadora é Claudia Amorim, professora de literatura especialista nas literaturas do XIX em diante em língua portuguesa, e que no âmbito galego tem pesquisado sobre Otero Pedrayo ou Eduardo Blanco Amor.

Além do trabalho do leitor e da coordenadora, colaboram no PROEG diferentes bolsistas e pesquisadores/as, que fazem que o Programa seja conhecido em toda a faculdade e que as atividades possam acontecer com sucesso. Entre os bolsistas podemos destacar nos últimos anos a Gabriel Kaizer, pela sua intensa colaboração, e entre os pesquisadores e pesquisadoras a Thayane Gaspar, que na atualidade faz pesquisa sobre Cabanillas e o celtismo na literatura galega comparativamente com o celtismo em Portugal e na Irlanda; Fernanda Lacombe, no âmbito da literatura galega de mulher e o papel da literatura de transmissão oral; ou Nina Barbieri, que faz o seu doutorado sobre a prosa medieval galego-portuguesa, concretamente sobre a Crónica Troiana, entre muitos outros e outras.

O Leitorado de Galego do PROEG vem promovendo também a difusão da língua, literatura e cultura galegas mediante a realização de diversas atividades dentro e fora da UERJ. Todos os anos se realizam atividades comemorativas do Dia das Letras Galegas, 17 de maio (palestras, recitais poéticos, exibição de filmes, exposições de imagens e textos, mostras de musica galega, etc.) e também se vêm participando, com caráter anual, no Programa UERJ Sem Muros, com o objetivo de dar a conhecer o Programa na UERJ e na comunidade carioca.

Aliás, nos últimos dois anos a atividade foi constante, como se pode comprovar nas publicações deste mesmo blogue, que serviu para a divulgação das atividades do programa e para a postagem de artigos de interesse inicialmente de alunado das matérias oferecidas na faculdade. Assim, tiveram lugar palestras de professores e pesquisadores galegos como Isabel Cabanas (USC) sobre o caminho de Santiago; Rosario Álvarez (USC), Elisa Fernández Rei (USC) ou Francisco Dubert (USC) sobre questões linguísticas; Malores Villanueva, Afonso Monxardín ou Gonzalo Vázquez sobre literatura e cultura galega contemporânea; Adrian Dios (USC) sobre o aspeto mais político da Galiza atual; ou Mateo Verdeal e Maite Insua sobre o uso do galego na juventude. Aliás, nas jornadas das Letras Galegas, participaram inúmeros professores e professoras, entre os que podemos destacar os sociolinguísticas Xoán Lagares (UFF) e Dante Luchessi (UFBA); a historiadora Erica Sarmiento (UERJ) ou a prática totalidade do professorado de Letras da UERJ, UFRJ e UFF com pesquisa galega. Aliás, nos últimos dois anos teve lugar a Semana Audiovisual Galega, com projeção de filmes como Doentes, Trece badaladas ou Vilamor, documentários e música ao vivo.

Além das aulas e das atividades culturais, o PROEG conta com uma série de publicações relacionadas, na sua imensa maioria, com temas galegos: Raízes; Estudos Galego-Brasileiros em colaboração com a Universidade da Corunha, ou Estudos Galegos, entre outros.

O PROEG conta, aliás, com uma biblioteca dotada de aproximadamente mil volumes, entre os existentes na Sala do Programa e os já colocados na Biblioteca de Letras, tanto publicados na Galiza ou a ela referentes.

Finalmente, o PROEG tem proporcionado a ida de alunos e professores anualmente à Galiza para cursos de verão de Língua Galega, como bolsistas.

Pelo anteriormente referido, o Programa de Estudos Galegos da UERJ é hoje uma referência nos estudos galegos no Brasil e em toda a comunidade internacional da nossa língua.

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Otero Pedrayo no Rio de Janeiro

Otero Pedrayo é uma das grandes figuras da literatura e da cultura galega do século XX, e possivelmente um dos melhores narradores da nossa história literária.

No ano 1947 ele faz uma viagem desde a Galícia para América, começando na Galícia em Tui, em Portugal no Porto e Lisboa e já além-mar em Montevideu, Buenos Aires… e também chega ao Rio de Janeiro. Deixamos aqui o que ele escreve sobre a cidade que encontrou no ano 47, e que se publicou posteriormente em livro baixo o título Polos vieiros da saudade. Celebramos assim, neste 17 de Maio, o Dia das Letras Galegas.

Rio de Janeiro

Bairro da Glória, Rio de Janeiro, 1947
Bairro da Glória, Rio de Janeiro, 1947

No Rio non sabemos si a néboa é alento da cor ou ela mesma a cor, a neboeira quente e doce, de tocar dondo, de folla, de froito, gostada nos beizos.

A bahía e a cidade teñen sido reflexadas por moitos viaxeiros. Nos países novos o tópico fai máis dano. No vello Mundo os modelos gardan desdéns e ironías para os vaidosos reflexos. O “academicismo” da vivencia estética e as dexeneracións da propaganda de Rio, facíannos pensar en dous problemas. A xustificación do tópico e o “academicismo” nas Américas.

Nós, ó ir e voltar, tivemos en Río o noviciado dunha vivencia pura da cor e das esencias cósmicas do calor e da luz en estaxe teoricamente inicial, gardando en sono “in potentia” a paleta dos grandes mestres e unha inocencia de materia da Estética denantes de ser traballada. Nun tempo ideal que pode ser o cumio do intelectualismo e por iso devalar no hialino vapor e néboa agarimosa da intuición.

Os fumes, algún feio mercante, un castelo no roquedo, lixaban o sedán tecido, mancaban a fina pel de cor. Íase establecemendo a ronda de fadas das arquitecturas dos pãos de sucre, e os píncaros en levían rubir de finas curvas, agromada da pedra un ordre de espazos impostos polos píncaros de luz cristalizada no agromar en estaxes de cor.

Só ó chegarmos ó peirao voltamos ó tempo da historia e da forma, coa neboeira quente do portugués e a grave presenza dos negros. Grave no senso de achegamento e pesadume case telúrica. A melanina fai dos homes de raza mellor, estratos de humos. “Humus”, humano. No Brasil ten África a súa liberación. As dúas masas continentais afondan en case parellas fonduras xeolóxicas. Entrambos misterios de tempo planetario, nos alicerces encobertos pola escura e podente vexetación da selva ecuatorial.

Cos negros entrou no Brasil o traballo, denantes cos portugueses a vivencia do ecuador por home branco e a tradución en formas de arte do tema do bosque, da fartura, do terror cósmico.

No Rio as artes portuguesas falan barroco. Leva a sona do barroquismo brasileiro, Bahia. Pero Rio mostra nos pazos e nas igrexas un respectuoso criterio para a cor. Impón o ouro, multiplica os seus reflexos, amesta as formas decorativas.

No café había para nós unha lonxana e amábel simpatía do Rocío: o falar portugués máis maino, coa ricaz dispaciosidade das augas grasas dos ríos dalgunhas falas americanas envolvía ós negros, algúns negros fumadores de cachimba. O negro de pendelongues no chileque, respeitoso traxe negro, cabelo aborrallado, só cos seus pensamentos na mesa do recanto; home de autoridade, amolecido na vellez, figuraba mal disposto para un fato de outros negros e algúns brancos axuntados e barullando en mesa grande. Falou o vello co mozo, e alongáballe a propina murmurando: “eses… son uns valentes!”, o ton dunha dozura triste.

Unha igrexa, perto do mercado das flores, adormecía coas celosías pechadas. Dentro, os ouros ían amencendo, devotiños, amodiño, conforme se descobrían as penduradas trubas. Os órganos axitábanse como grandes e ricos exvotos, cecáis regalos do vento. Hai a carón algúns balconciños dourados, xeitosos, bos para o recatado locimento e a exemplar devoción dunha morgadinha de quince anos.

Cantigaban as horas canónicas fermosos paxaros do Brasil en gaiolas como tecidas en figuranza das pingas. Eles falaban á morgadinha como a unha grande flor, amiga do levián peteirar dos paxaros xogantís.

Noutra ocasión temos falado da Rúa do Ouvidor. Estralos de seda, brilar de pedras finas e de ouros, recendos de flores. Tendas pequeneiras, xeitosas, comercio e trato case na rúa en cuxo espazo deitan as tendas ou prometen as súas riquezas. As mulleres na rúa do Ouvidor senten no corpo mesmo a chamada das cousas fermosas, do belido luxo, e camiñan randeando finamente -as brancas, as mestizas, as estranxeiras, as mulatas, as negras- as súas figuras no ambiente de bazar e exposición da rúa fina e vella, sen coches nin tranvías; aplausadas polo soar sedán, admiradas no cerne da vila, onde semellan tamén outas e leviáns ou preguizosas flores.

Sabemos da forza moderna, do rexo e claro pulo do Brasil en loita coa súa propia riqueza, en polémica da intelixencia -cecais a paisaxe, aireado “parque” co senso do bosque- co imperio vexetal. Orde, luz, nos degraus do cósmico ordenamento das masas verdes, da cor cada día anovada na quente atmósfera. Tampouco é de arestora no Brasil o pulo dunha política e economía intelixente. Os “paraísos” van sendo mitos sen o traballo. Mais calquera programa económico ten de recoñecer, en primeiro, a riqueza e título do Brasil.

As cidades alumiadas continúan a súa historia. Naquela latitude significa a conquista dun clima. Por estaxes, debuxando as curvas de nivel, a vella cidade portuguesa e decimonónica vai aniñando nos roquedos. Era como unha cidade enterrada no cerne duns podentes feitizos. Co engádego de Copacabana vaise alonxando o senso da verdadeira paisaxe do Rio. Pois alí en Honolulú, en Lobito, a xente non procura o disfrute respectuoso e harmónico de perfeita conxunción de procesos e formas en que consiste unha paisaxe escolleita. Quérese vivir cada forma e cada proceso para estrañalo no problema e no misterio do ser de cada un. O sol e a súa enerxía, as radiacións, as cores “terapéuticas” ou aquecedoras ou que ían esquencer o tempo non mesurado das áreas, a forma do horizonte, a luz. Vivir procesos e ritmos para fortecer os procesos e os ritmos do corpo e do espirito na tubra ulente e mesta de lembrazas e silencios, aneis de silencio e luces en grinaldas de constelación. Cecais unha zona non desemellante a aquil pousar da noite sobre a cor, do devalar atlántico no arquexado altentar do peito do Brasil, na bahía de Rio adormecendo a luz, ensoando a cor.

Don Ramón Otero Pedrayo

As galegas e galegos no Rio de Janeiro. Un bocadiño de historia

Pouco se ten escrito sobre os galegos e galegas na cidade de Rio de Janeiro. Nos últimos anos estudos interesantes comezan a agromar sobre esta temática, salientando especificamente os traballos de Erica Sarmiento, “O outro Río: A emigración galega a Río de Xaneiro.”, do ano 2006, e a tese de doutoramento do profesor na Universidade Federal de Goiás,  Antom Corbacho, “A Aculturação e os Galegos do Brasil: O Vazio Galeguista” do ano 2009. Como primeiro chanzo no coñecemento da situación das galegas e galegos no Brasil, deixamos hoxe este artigo breve de Mariana González L. Novaes, publicado en maio de 2013 polo Seminário Nacional de Memória Social.

OS “GALEGOS DA GALÍCIA” NO RIO DE JANEIRO
Mariana Gonzalez Leandro Novaes

PARTE I – O CONTEXTO BRASILEIRO
Quando em 1888 é assinada a Lei Áurea renunciando a escravidão, em pouco tempo o Segundo Reinado não se sustenta mais dando início à República Velha. Neste momento o plantio e exportação do café no Oeste Paulista estava em ascensão, enquanto que os produtores do Vale do Paraíba, principalmente após o fim do regime escravista, estava em decadência. Como ainda iniciavam sua produção, os paulistas rapidamente se readaptaram ao novo regime investindo na mão de obra européia imigrante para trabalhar em suas fazendas de café.

Desde esse período a identidade nacional brasileira era discutida. O indivíduo brasileiro era visto como o resultado da fusão das raças branca, negra e indígena. No entanto, tal mistura era vista de maneira negativa pelos pensadores1 do fim do século XIX, sobretudo a mistura com os negros e mestiços, que eram considerados de raça inferior.

Acreditava-se que devido à grande população de híbridos o Brasil não teria lugar entre as “nações civilizadas do mundo”. (OLIVEIRA, 2001, p. 9-10) Para Boris Fausto (2001) esse pensamento justificaria o motivo de os fazendeiros da época não empregarem os negros após a abolição optando por incentivar a mão de obra de imigrantes europeus para trabalhar em suas terras. Boris acredita que o preconceito por parte dos fazendeiros era tamanho ao ponto de impedir que se imaginasse uma mudança do regime de trabalho que aproveitasse a força de trabalho dos negros e, além disso, que seria pouco provável que após tanto tempo de servidão os negros se disponibilizassem a trabalhar para seus antigos senhores em uma situação não muito diferente da que já conheciam. (FAUSTO, 2001)

Seguindo esta linha de pensamento, intelectuais brasileiros do início do século XX criaram a teoria do “branqueamento” a qual norteou a política imigratória brasileira durante décadas. Acreditava-se que com o imigrante europeu o mestiço poderia ser melhorado dentro de três ou quatros gerações com a mestiçagem dando origem a uma população branca. Pensava-se que o imigrante não apenas seria uma força de trabalho, mas também que teriam papel fundamental na contribuição para o branqueamento da população brasileira fazendo submergir a cultura nacional através da assimilação dos imigrantes. (OLIVEIRA, 2001)

Durante a República Velha surgiu o problema dos “quistos sociais”, resultado da antiga política do Império de colonização de terras desocupadas. O enquistamento ocorria devido a difícil assimilação dos europeus chegados ao Brasil e o fato de que haviam sido enviados a regiões de difícil acesso e pouco contato com a sociedade brasileira, sendo o primeiro grupo a se manifestar neste sentido o alemão. Os teuto-brasileiros (tradução de Deutschbrasilianer) mantiveram o uso corrente de sua língua materna e se organizaram socialmente de maneira própria, criando o sentimento de germanidade entre os imigrantes alemães nas colônias do sul do Brasil. No começo do século XX começou-se a discutir o “perigo alemão” temendo a possível cristalização da etnicidade teuto-brasileira no território nacional, o que geraria grupos étnicos antagônicos e possíveis conflitos até mesmo armados entre nortistas e sulistas. (SEYFERTH, 1999).

Carné do Centro Galego de Río de Janeiro. A través de www.santacombanamemoria.es
Carné do Centro Galego de Río de Janeiro. A través de http://www.santacombanamemoria.es

Com isso, durante a República Velha as fazendas de café começaram a receber imigrantes de origem italiana, portuguesa e espanhola, pois eram de culturas próximas e seus idiomas têm a mesma origem do usado no Brasil, o que acreditavam ser um fator facilitador não somente para a comunicação como também para sua integração com os brasileiros, o que evitaria os enquistamentos e os imigrantes poderiam contribuir para o “branqueamento” da população negra e mestiça.

Outro critério de seleção dos imigrantes era sua capacidade de assimilação dentro da sociedade brasileira e, cada vez mais, consideravam o mais importante o seu potencial de reprodução, mesclando-se com os brasileiros, promovendo, assim, o “branqueamento” do povo. Pensavam que desta maneira iriam “melhorar a raça” ou inclusive criar uma “nova raça” no Brasil, uma vez que, para muitos, o povo brasileiro ainda estava em formação.

O que importava, em um primeiro momento, era a sua capacidade em desempenhar funções ou transmitir conhecimentos que atendessem aos interesses do país adotivo. No entanto, aparecia como sendo de extrema importância a questão do potencial reprodutor do imigrante. Falava-se em “braços” para a lavoura e a indústria, mas também em “sangue novo” ou “plasma de reprodução”, acreditando-se que os imigrantes viriam “aduzir sangue novo à nossa etnia” […].

A metáfora do sangue acompanhou a política nacional brasileira nos anos 30. Era preciso controlar a circulação desse fluxo sangüíneo representado pelo imigrante portador do “sangue-sêmen”, princípio da vida, mas também do “sangue-doença”, princípio da destruição e morte. A continuidade desse pensamento no período pós-guerra deixava clara a importância conferida ao sangue como símbolo formador da nacionalidade. (PERES, 2002, p. 91)

Para evitar os enquistamentos, a solução durante o governo de Vargas em sua campanha de nacionalização foi “o necessário ‘abrasileiramento sociocultu, o ‘caldeamento’” (SEYFERTH, 1999, p. 218). Logo, em 1937, uma das medidas do governo foi realizar uma reforma educacional proibindo o aprendizado em língua estrangeira, exigir que as instituições de ensino tivessem nomes brasileiros e que apenas brasileiros natos poderiam assumir cargos de direção. Em 1939 a campanha nacionalista se radicalizou proibindo o uso de língua estrangeira em ambientes públicos e qualquer atividade que tivesse cunho de exaltação às respectivas culturas nacionais em centros culturais e recreativos estavam proibidas. Além disso, também foi durante o período varguista que muitos estrangeiros foram expulsos do país por envolvimento com o comunismo. Tamanha era a preocupação com a postura dos imigrantes e sua “qualidade” como contribuidores para a formação do indivíduo brasileiro que em 1941 a imigração foi proibida. (PERES, 2002)

Terminada a Segunda Guerra Mundial, o processo migratório europeu voltou a crescer, o que acabou promovendo novas mudanças na política brasileira de imigração. Ainda que o Estado Novo varguista tivesse terminado, as políticas nacionalistas tiveram continuidade. A ideia de caldeamento da população brasileira com os imigrantes europeus seguiu com vigor, sempre unida ao pensamento de que esse era um dos caminhos para o progresso do país.

A imigração para o Brasil neste período foi subvencionada pelo Estado e organizações internacionais, mas também houve uma forte imigração espontânea. De 1945 até aproximadamente o momento do golpe militar, os principais imigrantes que entraram no país continuou sendo os portugueses, italianos e espanhóis, e o tipo ideal seguiu sendo o mesmo dos anos 1930: agricultores, técnicos e operários.
Dentro de todo este contexto de “criação do indivíduo ideal”, não era interessante que o imigrante viesse ao Brasil apenas para enriquecer e logo voltar a sua terra natal.

Havia a preocupação de que criassem raízes nas terras brasileiras pois apenas assim se misturariam com o povo brasileiro. No momento em que os estrangeiros são assimilados os riscos de que fossem criados quistos étnicos, como aconteceu com a colônia alemã do sul do país, diminuíam. A ideia era que se integrassem à sociedade que os acolhia e se esquecessem do que fosse exterior a ela.

PARTE II – O CONTEXTO GALEGO
A região da Galícia fica situada a noroeste da Península Ibérica, fazendo fronteira ao sul com o norte de Portugal e a oeste com o Oceano Atlântico. Além do uso do castelhano é uma região que tem seu próprio idioma, bastante similar ao português: o galego. “Os galegos sempre foram conhecidos por sua disposição de migrar para outras regiões da própria Espanha em busca de melhores oportunidades […], quando essa medida não trazia os beneficios financieiros esperados, migravam para países vizinhos”. (SOUZA, 2006, p. 31)
A presença dos galegos no Brasil pode ser percebida ainda antes da República Velha, mas foi depois da abolição que a entrada de estrangeiros teve um caráter massivo.

“Entre 1890-1929 entran no Brasil tres millóns e medio de emigrantes, dos que máis de medio millón son españois, número que a convertería na terceira colectividad extranxeira máis importante no Brasil, tras a portuguesa e a italiana” (VILLARES, 1996, p. 129).
Segundo os informes consulares, entre 60 e 70% dos espanhóis no Brasil são galegos. Tais índices podem ser explicados pela similaridade linguística do idioma galego com o português, a proximidade aos portos de embarque portugueses e a existência de uma corrente migratória prévia rumo ao Brasil intermediada por Portugal. (VILLARES, 1996)

“Entre 1890-1929 entran no Brasil tres millóns e medio de emigrantes, dos que máis de medio millón son españois (…) Segundo os informes consulares, entre 60 e 70% dos espanhóis no Brasil são galegos. Tais índices podem ser explicados pela similaridade linguística do idioma galego com o português, a proximidade aos portos de embarque portugueses e a existência de uma corrente migratória prévia rumo ao Brasil intermediada por Portugal.

Na República Velha 20% da sociedade carioca era composta por estrangeiros. Segundo o censo de 1906, havia um total de 210.515 de imigrantes no Rio, sendo 133.000 deste total portugueses, 25.557 italianos e pouco mais de 20.000 espanhóis. No censo de 1920 os espanhóis continuaram representando o terceiro grupo mais numeroso de imigrantes nesta cidade. Os imigrantes destes anos foram atraídos para o Brasil devido ao crescimento econômico que o país passava, sendo Rio de Janeiro uma das cidades mais desenvolvidas do sudeste e do sul, regiões que se concentrava 93,4% da população brasileira (SARMIENTO, 2006). Outro dado importante é que, dentro da comunidade espanhola do Rio de Janeiro, os imigrantes de origem galega também são os mais numerosos.

Érica Sarmiento destaca que:[…] antes do inicio da emigración masiva a Brasil (1890), xa había galegos que non só estaban estabelecidos na capital, cos seus negocios, senón que tamén daban traballo aos compatriotas da mesma aldea ou municipio. Podemos dicir que a pesar de non seren maioritarios, foron os pioneros e sentaron as bases do que sería a futura emigración galega a Río: espontánea, baseada en lazos de parentesco e dedicada principalmente ao ramo do comercio y hostelería.  (SARMIENTO, 2006, p. 42)

Os galegos que chegaram ao Rio de Janeiro em sua maioria imigraram de maneira espontânea e se instalaram no meio urbano. Dedicaram-se ao setor terciário, que lhes oferecia mais oportunidades de trabalho e permitia uma ascensão social mais rápida que o meio rural, ainda que a maioria fosse originária do meio agrário na Galícia. Muitas vezes tinham alguma propriedade em seu lugar de origem que poderia ser vendida ou alugada para que ajudasse nos gastos da viagem.

Nos anos 1930, a saída de galegos para a América diminuiu bastante por consequência da crise econômica, havendo inclusive um aumento do número de imigrantes retornando aos seus lugares de origem. Além disso, os países americanos começaram a mudar suas políticas imigratórias criando restrições para controlar melhor a entrada de pessoas em seus territórios. Em meados dos anos 1930, alguns países começam a superar a crise, o que acabou motivando outra vez o movimento migratório rumo à América. No entanto, a Guerra Civil Espanhola seguida da Segunda Guerra Mundial praticamente estancou em definitivo as correntes emigratórias espanholas até 1946. Com a abertura política da Espanha franquista em 1950, o investimento norte-americano e sua entrada nas Nações Unidas o país começou a dar sinais de recuperação. Porém, ainda assim, a vida seguia bastante difícil para muitos espanhóis, dando início a uma nova corrente emigratória que teve reflexos também no Brasil.

Elena Pajaro Peres assinala a peculiaridade da imigração galega para o Brasil “pelo fato de o Brasil ser um dos destinos preferidos nos anos 1950, pelo caráter rural da maioria desses imigrantes e, principalmente, por ser uma imigração não vinculada necessariamente ao antifranquismo.” (PERES, 2002, p. 37) […] a maioria dos espanhóis, nesse período, emigrou para o Brasil por conta própria, sem usufruir de qualquer assistência governamental. Entre esses, um grupo significativo provinha da Galícia […]. A emigração galega representou, em media, 39% de toda a emigração espanhola e, entre 1946 e 1960, 20% dos galegos que deixaram a Espanha vieram para o Brasil, que se tornou o terceiro destino mais procurado pelos galegos nesse momento, só perdendo para a Argentina com 35% e a Venezuela com 30%. (PERES, 2002, p. 35)

A partir da década de 1960, a emigração galega começa a diminuir e novas correntes em direção a outros países europeus são criadas. Além da proximidade geográfica com os demais países da Europa, este acontecimento pode ser explicado pelo fim do boom econômico dos países americanos e seu investimento nas migrações internas de pessoas do meio rural para os núcleos urbanos, e também pelo princípio da retomada da estabilidade econômica da Europa do pós-guerra.

Já antes do período da imigração massiva, os imigrantes que se instalaram não apenas no Rio, mas no Brasil de modo geral, eram majoritariamente homens, jovens e solteiros; tinham como destino a cidade. Sobre o caráter profissional, mais da metade eram agricultores e, ao chegarem ao Rio, se instalaram no ramo que anteriormente era monopólio dos imigrantes portugueses. (SARMIENTO, 2006)

PARTE III – OS GALEGOS NO RIO DE JANEIRO
Os espanhóis, assim como os portugueses e os italianos, eram os imigrantes que mais recebiam incentivo do governo brasileiro devido a sua proximidade cultural e linguística. No entanto, por que a presença dos espanhóis é tão pouco comentada? Este silêncio também se reflete nos estudos acadêmicos, havendo poucos trabalhos dentro desta temática no Brasil. Tal silêncio também é comentado por alguns estudiosos como Lucia Lippi de Oliveira (2006), Érica Sarmiento (2006) e Antón Corbacho Quintela (2009).

Os imigrantes galegos, além de mais numerosos entre os espanhóis, são indivíduos com cultura, língua e história própria. Por que é mais difícil ainda identificar-los? Érica Sarmiento crê que tal questão tem relação com a figura do imigrante português na sociedade carioca: Non só eran chamados galegos os naturais de Galicia, senón tamén os portugueses que estaban en Brasil. A palabra era empregada dunha forma pexoravitiva para aculmar os portugueses cando se quería insultalos. Posteriormente, o termo galego acabou estendéndose a todos os estranxeiros, e nalgunhas rexións brasileiras, a palabra define as persoas de pel moi clara e cabelos louros. Así, os verdadeiros galegos, cando non aparecen ocasionalmente en obras sobre a emigración, española en xeral, preséntanse camuflados baixo a figura dos portugueses, os emigrantes máis antigos e numerosos, debido a que foron os colonizadores até 1822, cando Brasil acadou a independencia.

Non só eran chamados galegos os naturais de Galicia, senón tamén os portugueses que estaban en Brasil. A palabra era empregada dunha forma pexoravitiva para aculmar os portugueses cando se quería insultalos. Posteriormente, o termo galego acabou estendéndose a todos os estranxeiros, e nalgunhas rexións brasileiras, a palabra define as persoas de pel moi clara e cabelos louros.

A presenza dos portugueses pode ter ocultado a comunidade galega impedindo que as miradas académicas identificasen os galegos como un grupo numericamente importante, activo na sociedade carioca e con características propias. […] Portugueses e italianos tiveron importancia na sociedade carioca como os maiores grupos de emigrantes […], pero os portugueses sen dúbida tiveron representación nun sector que traballa directamente coas clases máis populares: o do comercio. Eran maioría como donos de bares, pensións, restaurantes, panaderías e tendas de ultramarinos. Curiosamente os galegos destacáronse no mesmo sector profesional, en bares, hoteis e restaurantes, como se tivesen seguido o exemplo dos portugueses, que dominaban ese ramo antes da chegada dos competidores. […]

Ademais de ocupar a mesma área profesional compartían a proximidade entre os dous idiomas, a afinidade de costumes, a mesma área xeográfica da que procedían – os portugueses que estaban en Río eran maioritariamente do Norte de Portugal – e o feito de que xa existira – previamente á emigración transoceánica – un fluxo migratorio de Galicia para este país. (SARMIENTO, 2006, p. 44-47)
O que Érica comenta sobre os brasileiros fazerem uso termo galego fazendo alusão aos imigrantes portugueses também foi mencionado por José González Márquez em sua entrevista: “Sabes que allá no dicen “galego”, ¿no? Galego llaman a los portugueses. Allá, los gallegos de Galicia son españoles. Allí me llaman de español, así como aquí me llaman brasileiro muchos.”

Antón Corbacho Quintela (2009) comenta também sobre a figura de Víctor M. Balboa, um ativo galeguista no Rio de Janeiro. O jornal argentino A Nosa Terra, entre 1946 e 1956, publicava notícias enviadas por Balboa sobre o movimento galeguista no Rio de Janeiro encabeçado pelo próprio Balboa que criara o grupo Irmandade Galega, porém sem muito sucesso. Segundo Antón, para Balboa os motivos de os galegos não se organizarem em agremiação seriam “a alienação, a não renovação da colônia galega, a circunstância do meio brasileiro e o gosto dos galegos pelas representações do espanholismo” (QUINTELA, 2009, p. 64). A explicação de Balboa com relação à dissolução identitaria dos galegos no Brasil era a seguinte: “Así como nas repúblicas hispano-americanas a voz ‘gallego’ serve para designar a todo español, no Brasil particulariza simplemente ao portugués, perdendo o fillo de Galicia sua denominación xenérica para ser, sinxelamente coñecido como ‘español’, e como tal, ben estimado, tanto pelas súas meritorias condicións de traballador honrado como, ainda, por ser súbdito de España; e para o brasileiro común desa España de pandeireta, que él admira no taboado de cualquer cabaret aplaudindo a cualquer ‘graciosa’ tonadilleira. Pois ben, muitos dos galegos daqui participan, en pouco ou en muito, dese falso conceito e, como os naturais do país, entusiásman-se con a arte flamenca. Xa alguen afirmou que os galegos toleamos polo flamenquismo. Mas, non se pense que eses galegos ‘españoleiros’ non sintan a voz da ‘terra’. Sénten-na a seu modo, pero sénten-na.

A proba é que se emocionan cuando houven soar a gaita galega, e non se pexan de bailar, nas festas a muiñeira, tal como nos seus tempos mozos, alá; cual si a isto fosen impulsados pola voz inmanente da raza. Isto nos diz de modo claro que non falta galeguidade aos paisanos, ainda que de común soterrada nas cinzas da incomprensión. O que lles falta é coraxe para afirmar súas característricasraciais, víctimas que son do complexo de inferioridade.” (QUINTELA, 2009, p.64-65)

Esta interpretação de Balboa transcrita por Antón é um tanto curiosa e vai ao encontro do depoimento de María Teresa Del Río Dominguez, que também comenta algo sobre o sentimento de inferioridade, porém sentido pelos filhos dos galegos imigrantes: […] había muchas fiestas españolas, no decían gallega, decían española. Gallego, no existían gallegos, existían españoles. Entonces había unas fiestas culturales, sobre el descubrimiento de América y estas cosas, donde todo el pueblo de la ciudad iba. Hasta hoy tiene, la Fiesta de la Hispanidad, solo que la hacen en el club, la de calle se acabó. Y quien organizaba estas fiestas, eran los gallegos. Y en el momento en que los mayores se fueron, los hijos ya no siguieron con estos costumbres. La mayoría se avergonzaba de sus padres, porque muchos eran analfabetos, no tenía cultura. Entonces ellos, al tener un diploma, ya tenían vergüenza de sus padres. Y así se iban para otro sitos y los padres venía de vuelta para España.
Tal sentimento, ainda que de maneira inconsciente, pode explicar a dificuldade por parte dos entrevistados em expressar suas opiniões quando lhes foi perguntado o que achavam sobre a memória dos galegos no Rio de Janeiro e a importância de suas contribuições para esta sociedade.

Apesar de tais problemas, existem instituições que buscam preservar e difundir a cultura espanhola e galega no Rio de Janeiro. Entidades como os centros recreativos e associações normalmente têm como finalidade não apenas reunir os imigrantes como também promover atividades de caráter cultural, encontros e festas típicas em memória de suas origens. Um exemplo de associação é a Casa de Espanha do Rio de Janeiro, fundada em 27 de março de 1983 a partir da fusão do Centro Espanhol de Rio de Janeiro com a Casa de Galícia. Dentro de suas atividades culturais a sociedade conta com grupos folclóricos galegos que normalmente realizam apresentações em datas comemorativas,
como o aniversário do clube ou no mês de outubro nas festividades do Dia da Hispanidade.

O Brasil aparentemente caminha com largos passos no campo da preservação de seu patrimônio cultural, seja este de caráter material ou imaterial com os trabalhos desenvolvidos por órgãos governamentais tais como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ou o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). No entanto, ao que se refere à preservação da presença espanhola e/ou galega no país ainda muito deve ser pensado. Uma evidência disto pode ser percebida devido ao fato de não haver instituições de memória voltadas para a comunidade em questão.

No portal eletrônico do Sistema Brasileiro de Museus (SBM) é possível ter acesso a informações acerca do Cadastro Nacional de Museus e consultar quais museus brasileiros já estão registrados mediante a utilização de um buscador5 localizado em seu portal.

Utilizando tal ferramenta pode-se encontrar um total de 3.076 instituições cadastradas em todo o Brasil. Ao realizar uma busca mais refinada a fim de saber quais destas instituições são voltadas para o trato do tema da imigração no país, foram assinaladas as opções de busca “Qualquer UF” e “Qualquer das palavras” e utilizadas as seguintes palavras chave: imigrante, imigrantes, imigração, colonizador, colonizadores e colônia. Com isso houve uma incidência de 202 instituições cadastradas.

Em uma terceira busca, assinalando as mesmas opções, foram utilizadas as palavras chave Espanha, espanhol, espanhola, espanhóis, hispanidade, hispânico, hispanista e hispanismo. De todas as palavras chave utilizadas as únicas encontrada foram Espanha (04 vezes), espanhol (02 vezes), espanhola (02 vezes), espanholas (01 vez) e espanhóis (01 vez), apresentando um total de dez instituições cadastradas. Dos resultados obtidos, apenas a Casa do Lembrador relaciona a palavra espanhóis com algum termo que tenha a ver com colonização ou imigração.

Em uma quarta e última consulta, seguindo os mesmo passos anteriores, foram utilizados os termos Galícia, Galiza, galega, galegas, galego e galegos, sem apresentar qualquer resultado.

Das 202 instituições apresentadas na primeira busca refinada, 26 não especificam a nacionalidade dos imigrante que são representados em suas coleções ou que contribuíram para a aquisição de seus objetos. Destes 26 museus, grande parte pertence aos estados da região sul do Brasil, onde a presença dos espanhóis foi mais restrita, o que nos leva a crer que a possibilidade dos imigrantes desta nacionalidade serem mencionados em alguma destas instituições é remota. No entanto, em Caxias do Sul (RS) está localizado o Monumento ao Imigrante, onde talvez algum tipo de abordagem sobre a presença espanhola possa existir, porém não foi possível encontrar nenhuma informação neste sentido. A Casa do Lembrador em Arapoti (PR) menciona algo sobre os imigrantes espanhóis, mas tampouco foi possível obter mais informações. Já nas instituições localizadas no estado de São Paulo as possibilidades parecem maiores pois este foi o estado que recebeu o maior número de imigrantes, além do fato de a maioria dos estudos sobre espanhóis e galegos no Brasil terem sido realizados lá.

Onde hoje está o Memorial do Imigrante originalmente foi a Hospedaria do Imigrante, que recebeu imigrantes entre 1886 e 1974, sendo convertido em centro de memória em 1998. Em 29 de abril de 2010, o presidente do Consello de Cultura Galega, Ramón Villares, firmou convênio com o Memorial do Imigrante a fim de realizar a recuperação de toda a documentação referente aos imigrantes galegos que desembarcaram no Porto de Santos (CULTURAGALEGA.ORG, 2010). No entanto, em dezembro de 2010, houve uma mudança de gestão no Memorial que esteve com suas atividades suspensas devido a obras de restauro do edifício histórico e reformas de âmbito museográfico. A reabertura do Novo Memorial do Imigrante estava prevista para o segundo semestre de 2011, porém as obras de reforma continuam até o presente momento. Quanto ao convênio com o Consello de Cultura Galega, não foi possível saber se o mesmo continuará em vigor durante a nova gestão. (RODRIGUES, 2011)

No estado do Rio de Janeiro, a nível museológico sobre o tema das imigrações, existe o projeto de musealização da antiga Hospedaria deImigrantes da Ilha das Flores, em São Gonçalo, não havendo registro de mais instituições voltadas aos imigrantes neste e tampouco sabe-se que grupos de imigrantes são contemplados no projeto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda que tenha existido um possível problema de negação das próprias raízes e muitas vezes tenham sido confundidos com os portugueses, é inegável que a presença galega foi consideravelmente forte na cidade do Rio de Janeiro. Alguns exemplos são que tiveram forte participação no setor comercial da cidade pelo menos desde as últimas décadas do século XIX e existe uma grande proximidade linguística entre a cultura carioca e a galega. Causa estranhamento o número de instituições de memória voltadas para a preservação dos mais distintos grupos étnicos que se dirigiram ao Brasil enquanto que inexiste qualquer instituição desta categoria que trate do grupo espanhol ou galego, seja de maneira exclusiva dentro de uma localidade específica ou dentro de um contexto geral sobre a imigração no Brasil, quiçá salvo algumas poucas exceções.

Pouco a pouco as evidências da presença galega no Rio de Janeiro são apagadas da memória coletiva do povo carioca e inclusive entre seus próprios descendentes. Se somado a isso o fato de já não existir mais o mesmo movimento migratório do século XX, a tendência é que tal memória se apague por completo. Logo, medidas para a identificação, difusão e preservação da presença destes imigrantes são de caráter de extrema importância e urgência. Prova disto é a perda de algumas evidências básicas como o caso do “abrasileiramento” de nomes e sobrenomes espanhóis e a não preservação do idioma galego ou castelhano entre seus descendentes.

Pouco a pouco as evidências da presença galega no Rio de Janeiro são apagadas da memória coletiva do povo carioca e inclusive entre seus próprios descendentes. Se somado a isso o fato de já não existir mais o mesmo movimento migratório do século XX, a tendência é que tal memória se apague por completo. Logo, medidas para a identificação, difusão e preservação da presença destes imigrantes são de caráter de extrema importância e urgência

Deve-se buscar as marcas culturais deixadas por estes imigrantes na sociedade local como na linguagem, na literatura, na culinária e nos demais âmbitos possíveis que possam haver, além da contribuição econômica comentada pelos entrevistados. A partir desta identificação um trabalho de difusão de tais evidências entre os demais cidadãos deve ser realizado, de maneira que se faça de conhecimento geral a presença de tal comunidade entre os cariocas, mostrando seu valor e importância para a formação desta.