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Guille Vidal: “Os topônimos galegos continuam a ser castelhanizados em muitos lugares ou contextos”

As atividades pós-greve do Programa de Estudos Galegos foram retomadas em Setembro de 2016 e foram (re)abertas com a palestra “Breve aproximação à antroponímia galega: século XVIII e atualidade”, ministrada pelo doutorando em Linguística pela Universidade de Santiago de Compostela, Guillermo Vidal. Guillermo tem graduação em Letras Galego também pela Universidade de Santiago de Compostela, possui mestrado em Professorado e Educação pela Universidade da Coruña, além atuou como professor nos Cursos de Verão de Língua e Literatura Galegas para estrangeiros no ano de 2015.

1) Como foi a sua experiência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde você deu a sua palestra, e na sua viagem ao Brasil?

Foi uma experiência muito bonita, gostei muito de fazer parte das atividades do PROEG e do recebimento das professoras; além disso, o público não era muito numeroso mas fiquei muito contente de seu interesse pela onomástica galega. E se a palestra foi linda, a viagem podem imaginar que também!

2) Você tem família brasileira, assim tinha já contato com a variedade linguística que falamos no Brasil, mas, como é falar em galego com normalidade no âmbito internacional?

Bom, encarei a viagem como uma oportunidade para falar e escrever na variedade brasileira. E além disso, achei que, infelizmente, o galego da Galiza não é muito conhecido nem entendido no Brasil, coisa que não acontece na Galiza, onde a maior parte dos galego-falantes entendem a variedade brasileira. Seria lindo ver algum dia o galego da Galiza sendo compreendido no Brasil, mas isso acho que também dependerá muito de uma educação linguística mais adequada e menos sujeita à hegemonia da norma padrão portuguesa e sua visão histórica da língua. O fato de muitas pessoas não conhecerem a Galiza nem sua língua quando se faz referência à Espanha é um síntoma muito significativo de essa educação, sob o meu ponto de vista, parcial. Mas, por sorte, o alunado da UERJ sim entendia galego e foi um prazer falar ele com naturalidade em uma universidade do Brasil.

3) Qual é a relevância de uma pesquisa na área de onomástica para a situação atual da língua galega?

Em termos sociolinguísticos, se é conhecido o fato de a língua no seu conjunto não ter ganhado ainda a ‘normalização’ e o prestígio necessário para se desenvolver como uma língua normal, não doente, na área específica da onomástica a situação não é diferente. O presidente do governo espanhol tem sobrenome galego castelhanizado, o presidente da Galiza também, e os topônimos galegos continuam a ser castelhanizados em muitos lugares ou contextos; por exemplo, na Wikipédia em espanhol. Até a Academia da língua espanhola recomenda o uso de essas formas. São só alguns exemplos. Gosto de pensar que pesquisar a onomástica galega desde o ponto de vista histórico ajude, embora seja minimamente, a essa panorámica atual ir mudando, a não ficarmos com vergonha de restaurar a forma galega de nosso sobrenome, ou a não permitirmos que chamem O Valadouro de “Valle de Oro” (por exemplo), do mesmo jeito que eles não chamam a cidade carioca de “Río de Enero”.

4) Podemos traçar algum paralelo entre a política envolvendo a língua galega e os resultados encontrados na comparação entre o século XVIII e a atualidade da antroponímia galega?

Acho que sim. No século XVIII a Galiza e sua língua ficavam ativamente marginadas pela Coroa de Castela pelo processo de criação do estado-nação espanhol. Esse processo nacionalista envolvia reprimir todas as línguas que não eram faladas no centro da península. Por isso os antropônimos no s. XVIII aparecem castelhanizados, porque não era “formal” escrever o nome das pessoas em galego em um documento oficial. Hoje em dia o galego segue sofrendo um problema de prestígio e normalidade, a meu modo de ver, pelas políticas que envolvem a língua, as do estado espanhol mas também as do governo galego. E isso tem consequências também na atroponímia. Se uma língua não tem prestígio as pessoas não põem a seus filhos nomes em essa língua, nem recuperam seus sobrenomes castelhanizados para ela.

5) Existe alguma conexão entre os sobrenomes estudados nos seus trabalhos e os sobrenomes brasileiros? Qual?

Em verdade, a conexão existe mas não é muito grande. A área que eu estudo é pequena e rural. Muitos sobrenomes procedem de topônimos locais que não tem no Brasil ou em Portugal e possivelmente alguns chegaram no Brasil através de emigrados, mas por enquanto eu não conheci nenhum, e em verdade tampouco pesquisei isso em profundidade além do tempo que esteve aí. Mas sim tem muito paralelo com os sobrenomes patronímicos, como também tem com o espanhol. Os nossos Pérez, Fernández, Rodríguez têm seus equivalentes no Brasil: Pires, Fernandes, Rodrigues…

6) Saindo um pouco da antroponímia e entrando em outra subdivisão da onomástica… Conhece-se a polêmica instaurada na área de topónimos na Galícia os quais são frequentemente castelhanizados. O que essa castelhanização representa para a cultura galega? E o que a Lei para a salvaguarda do Patrimonio Cultural Inmaterial tem feito nessas situações?

Em minha opinião, e prefiro ser honesto, isso representa uma agressão contra nossa cultura só própria de nações colonizadas. Como diz anteriormente, as elites que impulsam o modelo de língua ou a Academia espanhola não vão no Rio de Janeiro e o traduzem por “Río de Enero” (nem sequer por “Río de Janero”), ou também não vão no Mont Blanc da França e o traduzem por “Monte Blanco”. Quando, por enquanto, elas traduzem por exemplo Viveiro por “Vivero”, só é possível deduzir que o galego não é respeitado como qualquer outra língua alheia a seus limites administrativos. Quanto à lei, acho que é de muito recente aprovação e ainda não pude comprovar se tem reagido em situações assim. Mas sou escéptico com ela, não nego que pode ser uma ajuda e servir como proteção em algumas coisas, mas já houve outras leis com intenções lindas com a língua que à hora da verdade demonstraram não se cumprir ou não funcionar quando se procuram mecanismos para fugir de seu espaço de atuação.

7) Na sua experiência como professor de práticas no Curso de Verão de Língua e Literatura Galegas para estrangeiros, o que esse curso representa para os galegos e galegas e a situação da língua?

Infelizmente, acho que ele não é muito conhecido na Galiza, só em alguns espaços. Mas para quem é conhecido e para quem fica conhecendo através dos noticiários ou dos próprios estudantes acho que representa um pulo importante de dignidade e de autoestima muito necessário para melhorar o prestígio da língua e sua situação sociolinguística. As pessoas ficam perguntando para o alunado por que que eles e elas, sendo estrangeiros, estudam galego. Diante de essa situação, olhem que necessário são iniciativas como essa.

8) Com respeito à situação da língua na Galícia, qual é a avaliação que poderia fazer da sua vitalidade atual?

Negativa. Os dados recentes indicam que o galego já não é a língua maioritária da população galega por primeira vez na sua história. O galego só é falado por uma porcentagem muito pequena e preocupante das crianças na atualidade. Lembro, quando eu era criança, que na minha cidadezinha apenas tinha crianças que falassem em espanhol como língua nativa. Agora, olho as crianças e são minoria as que falam em galego. Outro dado muito significativo é que nos últimos anos o número de publicações em galego só desceu.

9) Que acha que tem errado na política linguística galega e que políticas e discursos acredita que são necessários para normalizar a língua?

Principalmente, o decreto atual que regula a formação da primária e da secundária e que, por exemplo, interdita a instrução de ciências empíricas (as mais prestigiadas socialmente) em galego em alguns anos. Para a normalização plena e real, e embora semelhar radical, acho que só tem uma solução, e é a mesma que precisa qualquer colectivo ou bem desfavorecido ou marginado do mundo: uma política (linguística) que vire 180º a situação atual e favoreça a língua minorizada por cima da prestigiada e normalizada. Em contra do que muitos acreditam, mesmo se o espanhol desaparecesse completamente da formação (e nenhum profissional da sociolinguística galega pede isso) ele não correria perigo nenhum nem desapareceria da Galiza.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

Do Rio: o melhor, as ruas arvoradas e os postinhos de venda de frutas tropicais; o pior, as favelas e o trânsito dôido!

Do Brasil: o melhor, as pessoas e as serras; o pior, o golpe de estado… e a cerveja!

Um lugar no Rio de Janeiro

Largo de Machado

Uma palavra do galego e uma do galego brasileiro

Do galego: garabullo (com gheada)

Do galego brasileiro: bagunça.

Um desejo para o futuro

Viver por um tempo no Brasil

 

 

 

 

 

[Entrevista] Bernardo Portes, galego candidato a vereador em Teresópolis (RJ)

Bernando Portes tem 25 anos. Nasceu em Minho, concelho de Betanzos, e morou vários anos na cidade da Corunha. Com 12 anos foi viver ao Brasil, a Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro, onde continua morando na atualidade.

Olá Bernardo. Você chegou ao Brasil muito novinho, com apenas 12 anos. Como foi o processo de adaptação? São as realidades galega e brasileira muito diferentes para um adolescente?

As realidades são muito diferentes, pois aquí você repara a diferença social na hora. Em Galicia não dava muito para reparar.

Teresópolis é uma cidade bastante desconhecida na Galiza. Que poderia destacar da sua cidade para quem não a conhecer?

Teresópolis e uma cidade muito bonita pela natureza ao seu redor. Também se destaca um montanha com um dedo, aqui se chama Dedo de Deus. Muito bonito.

Há muitos galegos emigrados em Teresópolis e no estado do Rio de Janeiro?

Sim existe uma grande colonia , os galegos foram quem fundaram os clubes Casa de España, hoje esta colonia esta bem envelhecida, isso acontece.

Nestes doze anos que leva morando no Brasil tem também viajado à Galiza. Percebeu muitas diferenças da Galiza de há mais de uma década à Galiza atual?

Sim, percebi que o povo galego esta mais sofrido ainda, dói o coração ao vê-los assim. Mas em breve espero retornar e ver um povo mais alegre.

Com respeito à língua. Que vantagens tem um galego na hora de se adaptar à língua falada no Brasil?

Te facilita um pouco, no entendimento e na escrita. Além de que o galego ajudou a criar o idioma (Português). Galicia me ajudou a ver e compreender o mundo de outro jeito, do trabalho com caráter, ser honesto, etc.

Agora você se candidata a vereador da sua cidade, Teresópolis, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Por que acha necessário que os jovens se envolvam em questões políticas? Que labor pode fazer uma pessoa jovem como você como vereador na sua localidade?

Entendi que lançando minha candidatura iria dar ao povo da cidade mais opções e oxigenar uma política ultrapassada. O jovem tem que tomar as rédeas para que o futuro dele e do país estejam em sintonia e avançar o país com políticas novas.

Para quem não vivemos na atualidade no Brasil é difícil compreender o que está acontecendo em seu país com o impeachment à presidenta Dilma e a chegada ao poder de Temer. Poderia explicar-nos brevemente que é o que está acontecendo?

A Presidenta Dilma foi afastada por não fazer a política antiga do país, que era entrar na roubalheira da maioria como o Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que extorquia o governo dela. Ela nunca aceitou que ele fizesse o que queria com isso pediu para o partido votar a favor de remover o mandato dele. Ele por vingança aceitou um pedido sem ter condições de acusar alguém sem ser culpada. Com Isso o GOLPE foi adiante. Temer é a pessoa que vai acabar com leis trabalhistas, que já acabou com os programas sociais, como o estudante ir para o estrangeiro, ou programa de alfabetização etc… Temer representa a burguesia entreguista dos bens naturais e empresas nacionais.

Você acompanha também a realidade política galega. Como bem deve saber, o próximo 25 de setembro vãi ter eleições ao parlamento da Galiza. Como se percebe desde fora a situação política galega? Se atreveria a fazer uma predição do que pode acontecer?

Gostaria que o Leiceaga vencesse a eleição mas sei que difícil, acredito que o PSdeG e Em Marea venham a fazer uma força em conjunto contra o PP, mas este partido é forte na Galiza. Venho pedir ao povo galego que vote na esquerda.

Depois de já tantos anos fora, tem vontade de voltar à Galiza ou já é mais brasileiro do que galego?

A vontade existe, mas agora a vida não me leva para aí. Espero um dia voltar. E ver um jogo do Dépor no Riazor. Poder ver a terra que me formou para minha vida, Galiza fará e faz parte da minha história.

Para os galegos que não conheçam o Brasil, poderia recomendar-nos alguma banda musical, algum livro ou algum filme?

Em vez de um livro recomendo um escritor. Paulo Freire. Dois cantores: Chico Buarque e Gonzaguinha. Dois filmes históricos deste país: Olga e Getúlio.

H. Monteagudo: “A liberdade normativa é factível com algumas condições”

Henrique Monteagudo é profesor de Filoloxía Galega na Universidade de Santiago de Compostela e Secretario da Real Academia Galega. Foi coordinador da Sección de Lingua e secretario do Consello da Cultura Galega. Tamén é codirector de Grial. Revista de Cultura Galega e membro do padroado da Fundación Penzol. As súas principais liñas de investigación son: historia da lingua, sociolingüística e glotopolítica. Estudou e editou textos galegos de todas as épocas, desde a Idade Media ata a actualidade: Martin Codax, Paio Gomez Chariño, Martín Sarmiento, Rosalía de Castro, Otero Pedrayo, Castelao e Ramón Piñeiro. Coordinador da edición das Obras de Castelao e de Martín Sarmiento, estudoso da súa biografía e obra. Foi profesor convidado das universidades de Birmingham (Reino Unido), California (UCSB), Nova York (CUNY), São Paulo (USP), Lisboa (UL) e Buenos Aires (UBA). Autor de monografías como Historia Social da Lingua Galega (1999), Letras primeiras. A emerxencia do galego escrito e os primordios da lírica trovadoresca(2008), De verbo a verbo. Documentos en galego anteriores a 1260 (2009), “En cadea sen prijon”. Cancioneiro de Afonso Paez (2013). Editor científico de obras colectivas como Sociedades plurilingües: da identidade á diversidade (2009), e Linguas, sociedade e política. Un debate multidisciplinar (2012). (http://ilg.usc.es/gl/persoal/x-henrique-monteagudo-romero)

1. Você participa do Grupo de pesquisa “Galego e português brasileiro”. Há no Brasil interesse pela pesquisa conjunta com as investigadoras e investigadores galegos? Em que âmbitos e projetos se está trabalhando?

Si, os investigadores e investigadoras galegos atopamos unha actitude moi receptiva, colaboradora e proactiva por parte dos nosos e as nosas colegas do Brasil, e un grande interese polo noso traballo, que, por suposto, é mutuo. Por razóns obvias, a lingüística histórica e a historia da lingua constitúen ámbitos de interese común especialmente importantes, pero tamén a dialectoloxía, a gramática ou a sociolingüística.

2. Deu um curso na Universidade Federal Fluminense baixo o título “A língua no tempo, os tempos na língua. O galego, entre o português e o castelhano”. Em que elementos centrou o seu relatório?

Non é doado de resumir en poucas liñas, pero falando en xeral presentei a evolución do galego no marco peninsular, e máis en concreto en relación coa do portugués e o castelán, mostrando en que puntos se pode falar de evolución conxunta do galego e o portugués desde a Idade Media, en que outros de evolución diverxente, e tamén as converxencias, coincidencias e diverxencias do galego con respecto ao castelán e entre este e o portugués. A historia lingüística de todo o conxunto centro-occidental da península resulta bastante máis complexa do que poida parecer a primeira vista. Tamén pretendía chamar a atención sobre o estudo da constitución e evolución das variedades estándar como un necesario interface entre as denominadas historia interna e historia externa da lingua, e pór de vulto que a aplicación mecánica e adoito anacrónica da noción de ‘lingua’ pode resultar máis prexudicial que esclarecedora cando estudamos a evolución dunha serie de variedades veciñas, dispostan en continuum, de entre as que se destacan varias variedades cultivadas. A idea é que o galego experimentou importantes evolucións conxuntas co portugués a finais da Idade media, outras co castelán (pero non necesariamente inducidas por este) e outras autónomas e diverxentes en relación tanto con un coma co outro idioma.

A intercomprensión mutua (galego-brasileira) é moi doada e esixe pouco esforzo. É obvio que o galego nos abre as portas ao ámbito de expresión portuguesa.

3. Você deu a sua palestra em galego no Brasil com normalidade ante um público português-brasileiro parlante. É o galego uma língua internacional?

Des que visitei por primeira vez o Brasil, como antes acontecera en Portugal, expreseime en galego na maior parte das miñas disertacións e clases. A intercomprensión mutua é moi doada e esixe pouco esforzo. É obvio que o galego nos abre as portas ao ámbito de expresión portuguesa. Mesmo así, non acabo de ver a pertinencia de colocalo na categoría das “linguas internacionais”, a menos que se precise o que se quere dicir exactamente con iso. De feito, a comprensión espontánea do discurso en galego tamén me ten acontecido ante públicos hispanófonos.

4. Pensa que se têm aproveitado na política linguística galega as vantagens internacionais da nossa língua?

Na miña opinión, dentro das graves deficiencias da política lingüística do goberno galego, atópase, sen dúbida, a falla dunha liña clara e activa de conexión cos países e culturas de expresión portuguesa, que debe ser unha das prioridades estratéxicas dunha (practicamente inexistente) acción exterior das institucións galegas, non só nos ámbitos lingüístico e cultural.

Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.

5. O galego perde falantes a um ritmo bastante importante desde há décadas. Qual considera que é a causa deste processo e como avaliaria as medidas aplicadas desde o governo e desde as instituições culturais e sociais para reverter a perda da língua?

O galego precisa dunha enérxica recarga do seu estatus e do seu prestixio. Se a sociedade e as elites dirixentes non o contemplan como un activo de futuro e non actúan en consecuencia, toda a lexislación e outras intervencións políticas, en principio ben intencionadas, acaban por convertese en fume retórico, con escasos resultados prácticos (ás veces, mesmo contraproducentes). Nese sentido, é indubitable que os últimos anos non facemos máis que recuar, aínda que parece estar tomando forza unha reacción social que pode levar a que nun futuro próximo as cousas cambien. Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.

6. O professor galego da UFF Xoán Lagares afirmava no seu artigo de 2013 O galego e os límites imprecisos do espaço lusófono o seguinte:

Durante todos os anos da gestão autonómica os grupos dissidentes da norma considerada oficial foram mantidos à margem das políticas de promoção linguística, dos subsídios e das instituições galegas. Essa identificação entre língua e norma, ou mesmo (o que seria ainda mais grave) entre língua e ortografia, tem feito com que as políticas públicas de promoção do galego dispensem a participação de setores extremamente ativos no uso da língua nos mais diversos âmbitos de comunicação […]. Uma política de liberdade normativa, que permitisse o convívio bi ou trinormativo, talvez fosse uma via na superação desse ideal monolíngue que parece acompanhar historicamente todo empreendimento à construção política das línguas.

Que lhe parece a proposta de liberdade normativa para o caso galego que faz o professor Lagares?

Hai cousa de vinte e cinco anos publiquei na revista Grial un artigo “Sobre a polémica normativa do galego” que ía moderadamente nesa liña. Non creo que unha liberdade normativa total fose positiva para o idioma, pero si que é factible con certas condicións. Dito o cal, teño a certeza de que cando o colega Xoán Lagares fala da “identificação entre língua e norma, ou mesmo (o que seria ainda mais grave) entre língua e ortografia” está pensando tamén en sectores do reintegracionismo que cometen ese erro. Si, lamentablemente, esa identificación errónea é moi frecuente en Galicia en amplos sectores, e constitúe un serio malentendido que sería preciso esclarecer.

Non creo que unha liberdade normativa total fose positiva para o idioma, pero si que é factible con certas condicións.

7. Quando na Galiza se tem falado das relações do galego com o português ou o português brasileiro, e do possível aproveitamento sociolinguístico deste facto, se têm provocado reações muito agressivas por parte das duas partes com opiniões encontradas. Por que acha que acontece isto? Há alguma possibilidade de encontro?

Eu veño sostendo que nos debates normativos arredor do galego entrecrúzanse argumentos lóxicos (científicos) e posicionamentos sociolóxicos (intereses e actitudes persoais, de grupo, ideolóxicos…). Isto é o que explica a súa particular virulencia, a parte, claro está, de que no debate sobre a lingua van inextricablemente inseridos factores identitarios, sempre cun alto contido emocional. Con todo, coido que nos últimos tempos as discusións tenden a ser menos frecuentes e menos acedas. Será porque todos vemos que, dada a evolución sociolingüística do idioma e do seu contexto socio-político, non temos moito tempo que perder debatendo sobre o sexo dos anxos.

8. Se tivesse a responsabilidade da Secretaría Xeral de Política Lingüística, que medidas de urgência estabeleceria para reverter o processo de substituição linguística?

Coido que habería que mandar unha mensaxe clara á sociedade de compromiso co futuro do idioma, unha mensaxe que debera involucrar non soamente o goberno senón tamén un amplo elenco de axentes sociais de relevo. En segundo lugar, deberían debuxarse de xeito claro obxectivos a curto, medio e longo prazo, subliñando inequivocamente as prioridades: medios de comunicación, mocidade, novas tecnoloxías, ámbito laboral e profesional. En terceiro lugar, un amplo pacto para un modelo lingüístico para o sistema educativo favorable ao galego. Tamén habería que impulsar as liñas de investigación e formación en sectores clave para a lingua (sociolingüística, planificación lingüística, didáctica da lingua, terminoloxía). Para dar credibilidade a esas políticas, concentrarse en compromisos e avances concretos e significativos e esforzarse en manter unha máxima coherencia entre o que se pensa, o que se di e o que se fai.

O lóxico é que se acabe consolidando unha norma brasileira autónoma (de feito, xa está acontecendo), flexible e dinámica, achegada todo canto for posible á lingua común da maioría dos brasileiros e brasileiras.

9. Como sabe, no Brasil há também um interessante debate sobre a elaboração da norma culta da língua, havendo linguísticas que mesmo defendem a independência do português brasileiro como língua autónoma. Que opinião tem ao respeito?

Sigo con moitísimo interese ese debate, pero, pola mesma razón que sosteño que os problemas do galego debemos resolvelos basicamente os galegos, non quero inmiscuírme nun asunto tan sensible coma este. Dito isto, como sociolingüista entendo que o lóxico é que se acabe consolidando unha norma brasileira autónoma (de feito, xa está acontecendo), flexible e dinámica, achegada todo canto for posible á lingua común da maioría dos brasileiros e brasileiras.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

O mellor a xente, o peor a desiguladade.

Um lugar no Rio de Janeiro

A praia de Ipanema.

Uma palavra do galego e uma do português brasileiro

Agarimo, jeitinho.

Um desejo para o futuro

Longa e próspera vida ao idioma galego, estreitamente abrazado cos seus irmáns de Portugal, o Brasil e África.

E. Bechara: “Com o domínio do português as novas gerações galegas teriam mais uma porta aberta para conseguir um bom emprego”

O currículo do professor Evanildo Bechara é sobradamente conhecido: professor titular e emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), titular da cadeira nº16 da Academia Brasileira de Filologia e da cadeira nº3 da Academia Brasileira das Letras, doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. É autor de várias das principais gramáticas da língua portuguesa: Moderna Gramática Portuguesa; Gramática Escolar da Língua Portuguesa; Lições de Português pela Análise Sintática. Uma das referências no âmbito da linguística no Brasil.

A seguinte entrevista foi realizada pela atual professora-leitora de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Lucía Sande, no mês de Maio de 2016.


É surpreendente para os galegos e galegas o maioritário desconhecimento da história da língua em países de fala portuguesa. A que se deve essa falta de interesse?

A primeira geração de filólogos portugueses, entre os quais se encontravam: dona Carolina Michaëlis de Vasconcelos, José Leite de Vasconcelos e José Joaquim Nunes, nunca deixava de lado a reminiscência linguística e histórica do galego. Acontece que a geração mais nova (talvez com exceção do professor Herculano de Carvalho), com a entrada do estruturalismo na década de 50, abandonou um pouco os estudos históricos, preocupou-se somente com a sincronia, a diacronia foi esquecida e muito raramente se apresentam fatos da língua galega. E eu escrevi um artigo dizendo que isso era ruim para quem fazia diacronia, quem fazia história da língua, uma vez que o galego estava intimamente ligado à língua portuguesa.

Eu ainda priviligiei a história porque o meu grande mestre foi o professor Said Ali. Ele trabalhava não só com sincronia senão também com diacronia. Escreveu uma gramática histórica da língua portuguesa muito original. Por tudo isso, é que você sente o desinteresse geral.

Nessa tendência que eu conheço existe uma exceção muito grande na Universidade Federal Fluminense: o grupo de galegos ligados à Maleval. Esses têm um circulo muito forte. Escreveram trabalhos importantíssimos e inclusive traduções.

Mas, você esta certíssima, há um desconhecimento total em todos os níveis, também no universitário. Talvez faça um pouco de exceção a literatura galega que é mais conhecida do que a língua. Principalmente a famosíssima escritora Rosalía de Castro. Fora isso, infelizmente, nós estamos erradamente mais divorciados de uma preocupação, de um interesse pelos estudos galegos.

Depois de tantos séculos de separação política e cultural podemos afirmar hoje que o galego e o português são ainda a mesma língua?

Quando você fala comigo eu vejo que é um português antigo, mas eu vejo que a essência portuguesa está presente em você muito mais que se você falasse espanhol, que é tão próximo também! Nossa, mas há uma distância muito grande. Os falantes de português não identificam o galego como a mesma língua, mas isso vem da mesma falta de interesse da própria sociedade.

Eu acho que é uma tarefa ingrata porque pra nós inclusive, galego, a palavra galego significa “português pobre”. O português que veio aqui trabalhar, puxar carroças, esse é que é o galego. Assim como, por exemplo, entre o árabe quando chega aqui de qualquer etnia e pobre, é um turco. Depois, ele melhora de vida e passa a árabe. E depois, se ele consegue enriquecer ele é o libanês.

Há linguistas hoje no Brasil que defendem que o português do Brasil já é uma língua diferente. Que opinião tem o senhor sobre isso?

Sim, a língua brasileira, o PB. O mundo moderno é um mundo de integração, ainda mais a integração com a lusofonia, apesar das desavenças internas que há (gente que concorda com a existência duma lusofonia, outros não), mas por formação e por convicção, eu acho que nós ainda somos uma língua só. Evidentemente com variantes naturais.

O mundo moderno caminha para uma convergência. Os blocos caminham para uma aproximação maior e justamente essa é a aproximação maior dos lusófonos.

E essas variantes deveriam introducir-se na norma culta?

Isso vai depender dum estudo que não está feito. Por enquanto, muita coisa está na fase do achismo (eu acho isso…).

Um amigo meu, o professor Raimundo Barbadinho, já falecido, escreveu um trabalho sobre a língua dos modernistas. Esse trabalho começou para mostrar justamente as diferenças, mas depois de ele levantar os modernistas e estudá-los, chegou à conclusão de que os modernistas estavam muito mais próximos dos portugueses do que de uma possível língua brasileira. E a Raquel de Queirós, que fez o prefácio desse livro, disse que depois de confrontar aqueles fatos de língua que seriam determinantes para mostrar a separação, esses fatos mostraram que brasileiros e portugueses estão muito mais próximos. Ela dizia que depois dos estudos do Barbadinho chegou à conclusão de que os modernistas eram muito mais comportados do que revolucionários da língua.

Hoje há políticos, ratazanas da política que dizem o seguinte: “se você quiser enfraquecer o inimigo, divida-o”. Agora, o mundo moderno caminha para uma convergência. Os blocos caminham para uma aproximação maior e justamente essa é a aproximação maior dos lusófonos. Vai fazer com que em vez de as línguas, por exemplo, o português da África, o do Brasil, o de Portugal, em lugar de se separarem, se aproximem.

No último congresso que houve em Portugal agora, um catedrático duma universidade do norte do país imaginou um cânone literário. Quer dizer, cada país de língua oficial portuguesa escolheria para uma antologia os seus principais representantes e essa antologia serviria de estudo de língua para todos os países de língua portuguesa.

E aí poderíamos entrar os galegos e galegas?

Aí seria a vez de entrarem os galegos. O problema dos galegos é que antes de entrar no grupo, eles têm um problema para resolver entre eles em virtude da distinção que há: uns que querem que o galego se aproxime do espanhol, outros que querem que o galego se aproxime do português e outros que querem que o galego seja independente.

Como é percebida a aproximação da Galiza à comunidade lusófona?

Eles se interessam (os acadêmicos) pela língua, pela literatura e pela cultura mas não entram porque não conhecem, não vivem o problema político. E como uma das características do brasileiro é ser acordado. O brasileiro nessas disputas geralmente não entra.

Considera oportuno ensinar aos brasileiros a normativa oficial atual do galego?

Trata-se de arranjar adeptos, agora nós não estamos na hora de falar às plateias. Como professor, está na hora de reunir a tropa.

Mas eu acho que o melhor caminho seria começar pela literatura, pelo folclore, a literatura popular ou as tradições. Porque esse substrato popular está muito mais ligado do que a língua. Então eu tenho a impressão que a língua deveria ser a última etapa de um trabalho de aproximação desse pessoal. Começar precisamente por essa parte que ficou parada, mas que ficou fora das mudanças tanto do galego quanto do português. Esse foi o grande trabalho de Leite de Vasconcelos. Ele trabalhou muito as tradições populares galego-portuguesas.

É natural que aquela pessoa jovem procure onde se pode situar melhor na vida, conseguir um bom emprego […] Com o domínio do português, essa nova geração teria mais uma porta aberta, mas esse achegamento já não é uma questão de linguística. É política.

Sobre a normalização linguística:

Isso é um trabalho gigantesco porque você conscientizar a todos os falantes de galego da necessidade de uma unificação da norma já é um problema complicado.

Isso tem que ser um trabalho de conscientizar a nova geração. O grande problema é que o mundo inteiro atravessa crises econômicas muito sérias e então é natural que aquela pessoa jovem procure onde se pode situar melhor na vida, conseguir um bom emprego. E isso dificulta a situação do galego. Com o domínio do português, essa nova geração teria mais uma porta aberta, mas esse achegamento já não é uma questão de linguística. É política.

Sobre a construção da normativa:

Considero por isso positivo um achegamento da grafia galega à do português. Mas também acho que essa norma que vocês estão construindo no espaço de 40 anos deve ser o caminho

A ideia de Renascimento de uma língua abafada por vários motivos e quer um espaço maior no universo linguístico.

Acontece que a essência da língua é a sua morfologia e nós estamos nos entendendo porque a morfologia é a mesma. É a que nos aproxima. O problema está no léxico. Você veja bem, se você fosse classificar o romeno pelo léxico, o romeno não seria uma língua românica. Só tem dez por cento de elementos latinos no seu léxico. Agora, se você pegar aqueles sectores lexicais que realmente estão voltados para a essência do povo, você vai ver que aí é que estão as raízes latinas do romeno. Se você fosse classificar o inglês pelo léxico, ele seria uma língua românica, porque tem tanto de latim e grego… Todos os setores, que atuam e que cercam a sociedade, influem no vocabulário. É como, por exemplo, a ortografia. O romano só foi descoberto como língua românica no século XVI porque era escrito em cirílico. Considero por isso positivo um achegamento da grafia galega à do português.

Mas também acho que essa norma que vocês estão construindo no espaço de 40 anos deve ser o caminho. Vocês fariam o mesmo que a Holanda “Deus fez o mundo, mas o holandês fez a Holanda” esse é o trabalho de vocês. Vocês devem olhar como os novos holandeses a língua. A filosofia é essa. É você ir conquistando. Eu acho que vocês devem procurar o seu caminho, como irmãos do português e não como filhos, de igual para igual. E uma situação assim como uma família, uma pessoa se desgarra e depois de muitos anos eles se encontram. E realmente eles são irmãos, mas eles são diferentes, a visão do mundo é diferente e é nesse sentido que o galego tem que constar a sua individualidade.

Xoán Lagares: “Só temos a ganhar com o contato com o português”

Xoán Lagares (A Coruña 1971) é professor no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Niterói, onde faz parte do Núcleo de Estudos Galegos. Doutor pela Universidade da Corunha (2000), foi professor-leitor de galego na Universidad de Salamanca (Espanha) e posteriormente professor de Linguística Histórica na Universidade de São Paulo (USP). As suas áreas de pesquisa vão desde a linguística histórica até a sociolinguística. Nos últimos anos tem contribuído também ao debate em torno ao papel do galego além das fronteiras da Galiza.

1. Como um pesquisador galego acaba dando aulas na USP e na UFF? A emigração galega ao Rio e ao Brasil começa já no século XIX, e as organizações de emigrantes do Estado espanhol estão lotadas de pessoas nativas da Galiza. É o Brasil um destino natural para as galegas e galegos?

O único que posso dizer é que a vida dá muitas voltas e que nunca sabemos o que pode acontecer… Vim ao Brasil por motivos pessoais, num momento em que eu era professor-bolsista de galego em Salamanca, com a tese já defendida, e com poucas chances naquele momento de emprego estável do outro lado do oceano. O concurso na Universidade de São Paulo foi o primeiro que aconteceu quando já estava com os meus diplomas revalidados no Brasil, tentei sorte, sem muita esperança, apenas para tomar conhecimento do ambiente acadêmico brasileiro, e acabei passando. Foram dois anos de muito aprendizado lá. Mas eu continuava indo e vindo cada semana entre Rio e São Paulo. Exatamente, quando a minha filha estava para nascer foi aberto o concurso na Universidade Federal Fluminense, e com ele a oportunidade de morar e trabalhar definitivamente no Rio. Estou aqui desde então.

Sem dúvida, o Brasil é sempre uma opção para as galegas e galegos. Não sei como isso era visto pelos primeiros emigrantes no século XIX, mas a língua facilita claramente a integração.

2. Você faz parte do Núcleo de Estudos Galegos e tem participado de iniciativas com outros centros de estudos galegos no Brasil. Qual é o objetivo destes centros para a sociedade brasileira, e que interesse pode ter o trabalho que aqui se faz para as galegas e galegos do país?

Cada centro tem a sua história e sobre os objetivos comuns haveria que perguntar à Secretaria Xeral de Política Linguística. Na realidade, eles surgem por iniciativa pessoal de pesquisadores brasileiros, que em algum momento desejam manter esse vínculo com a Galiza. Não há muito planejamento estratégico do outro lado, e isso é um problema. Eu no NUEG da UFF tento contribuir para manter um espaço permanente de presença da cultura galega na universidade, bem inserido no contexto acadêmico. Penso que essa deva ser a nossa contribuição. Para as galegas e galegos que moram aqui, os centros podem constituir um vínculo importante com o país que deixaram atrás. Os nossos cursos costumam ser frequentados por emigrantes e filhos de emigrantes, e também somos chamados para participar de atividades da comunidade galega em Niterói. E estamos sempre dispostos a colaborar com o que for necessário.

3. Há interesse na comunidade acadêmica brasileira pela cultura, literatura e língua da Galiza? Em que âmbitos se tem contribuído mais à pesquisa nos últimos anos?

A Galiza e o galego ainda são amplamente desconhecidos pela comunidade acadêmica brasileira em muitos sentidos. Temos contra nós o fato de sermos um país pequeno e de fazermos parte de um outro Estado-nação. E no Brasil, como penso que deva acontecer em todos os estados nacionais do “novo mundo”, as reivindicações nacionais dos povos sem estado da Europa não são entendidas facilmente. Por outro lado, não contamos até agora na Galiza com governos que tivessem uma política clara no sentido de promover esse conhecimento no Brasil ou em outros países lusófonos. As iniciativas são mais de tipo pessoal ou correspondem a departamentos universitários e associações culturais ou acadêmicas, com algumas poucas exceções institucionais, como o Consello da Cultura Galega. Mas há, sim, um interesse genuíno, e sem preconceitos, no Brasil por parte de quem conhece a cultura galega.

Não contamos até agora na Galiza com governos que tivessem uma política clara no sentido de promover o conhecimento do galego no Brasil ou em outros países lusófonos.

A pesquisa sobre Galiza no Brasil desenvolveu-se mais, até agora, no âmbito da história da emigração e na literatura, sobretudo a medieval. A fundadora do nosso Núcleo de Estudos Galegos, na UFF, e do Centro de Estudos Galegos da UERJ, por exemplo, Maria do Amparo Tavares Maleval, é uma destacada medievalista brasileira, e muito tem contribuído para isso.

Sobre questões linguísticas a coisa é mais complicada. Uma grande conhecedora e divulgadora do galego no Brasil é Valéria Gil Condé, da USP, hoje coordenadora da Cátedra de Estudos Galegos dessa universidade. Mas a sensação de que lidar com língua na Galiza é como mexer num vespeiro, considerando as nossas liortas normativas, não facilita essa aproximação. De alguma maneira, é de conhecimento comum que quem falar qualquer coisa sobre o galego pode “apanhar” de algum dos lados em permanente disputa. É lógico que as pessoas não queiram “comprar uma briga” que não é propriamente delas. Agora em julho aconteceu a terceira edição de um congresso eminentemente brasileiro de linguística histórica em Santiago de Compostela, que considero uma espécie de divisor de águas nesse sentido, e a consagração simbólica do lugar do galego na historiografia da língua portuguesa.

Quem falar qualquer coisa sobre o galego pode “apanhar” de algum dos lados em permanente disputa. É lógico que as pessoas não queiram “comprar uma briga” [no Brasil] que não é propriamente delas

4. Coordenou no ano 2011, junto com Marcos Bagno, Políticas da norma e conflitos linguísticos, no que publicou também um artigo relacionando norma, poder e identidade. Como valora a construção do galego legítimo desde os anos 80 até hoje? Foi positiva para a normalização do galego na Galiza?

A institucionalização do galego foi complexa, como costumam ser todos esses processos. A construção de um “galego comum” é um processo histórico longo e conflituoso. No momento em que o galego adquire a categoria de oficial na Comunidade Autônoma da Galiza, a fixação normativa se torna uma necessidade. Acho que, independentemente das lutas de poder e dos conflitos de autoridade que estouraram naquele momento, e cujas consequências sofremos até hoje, é urgente pensarmos seriamente sobre o modelo de “planificação de corpus” que se aplicou e como esse modelo de “normalização”, seja qual for a perspectiva normativa adotada, autonomista ou reintegracionista, está condicionado pela língua “normal” que mais conhecemos os galegos, que é, sem dúvida, o espanhol. Coisas aparentemente banais, como a política de dublagem de filmes na televisão, a rigidez e a falta de flexibilidade dos critérios de correção, a obsessão delimitadora, que passou a ver a presença na Galiza das mais diversas formas de português como uma ameaça para a língua dos galegos, pouco contribuiram para criar dinâmicas positivas de reconhecimento e de valorização da língua. É como se fosse construído um espaço muito bem delimitado para o galego brincar de língua grande, mas sem sair do confinamento, numa espécie de parquinho para crianças. Penso que houve também, e ainda há, por parte de todos os agentes (embora só alguns tenham tido, obviamente, responsabilidade institucional nesse processo), uma evidente confusão entre língua e norma, ou pior, entre língua e ortografia. As provas de galego nos concursos públicos, em muitas ocasiões totalmente focadas em questões normativas destinadas a purgar recém inventados “dialetalismos” ou “lusismos”, é o mais claro exemplo dessa obsessão normativa que identificamos, no imaginario, com a “normalidade linguística”.

A oficialização da língua aconteceu em condições bastante adversas, com um governo sustentado por um partido que, no início, era contrário à própria Autonomia política, mas que nela medrou e que acabou fagocitando as suas instituições. A política linguística caracterizou-se nestes anos pela verticalidade, como indica Xaime Subiela, e pela baixa intensidade, como denunciava Anxo Lorenzo até não faz muito tempo, aliadas a um conflito normativo que manteve à margem da oficialidade agentes muito ativos e dinâmicos. Até o acordo de 2003, a norma considerada oficial pelo governo não contava com o apoio de uma grande parte dos professores de língua galega do ensino médio, e isso dá uma ideia de como essa verticalidade não fez bem à “normalização” linguística.

A falta de flexibilidade dos critérios de correção, a obsessão delimitadora, que passou a ver a presença na Galiza das mais diversas formas de português como uma ameaça para a língua dos galegos, pouco contribuiram para criar dinâmicas positivas de reconhecimento e de valorização da língua. É como se fosse construído um espaço muito bem delimitado para o galego brincar de língua grande, mas sem sair do confinamento, numa espécie de parquinho para crianças.

5. Galego como língua autônoma ou como variante na Galiza do portugalego ou galego-português, língua internacional?

Tudo depende do que entendermos por “língua”. Após séculos de desenvolvimento autônomo, em condições históricas adversas, com o espanhol sobreposto durante boa parte desse tempo, não há como negar a “autonomia” da língua que falamos os galegos em relação às outras realidades do grupo portugalego. Cada uma delas também com sua própria história. Considerando que a norma linguística vai muito além da simples ortografia, também é óbvio para mim que existem, de fato, muitas normas sociais diferentes de uso da língua nesse grande e variado grupo linguístico. O mais razoável seria que o padrão não violasse a competência linguística que os falantes possuem em relação a elementos fundamentais da estrutura da língua, esses que ninguém espera até ir à escola para aprender e usar. Por exemplo, as crianças utilizam um sistema pronominal complexo antes de serem alfabetizadas. É absurdo que nesse momento alguém lhes diga que o que elas sabem não serve, que devem esquecê-lo e interiorizar para uso geral um sistema pronominal diferente.

Por outro lado, não existe, nunca existiu e nada indica que vá existir uma língua internacional denominada portugalego ou galego-português. Também não existe uma norma-padrão internacional no âmbito lusófono, mas uma tradição padronizadora (“autoral”, porque não conta com a autoridade de nenhuma instituição) que tenta segurar as pontas da uniformidade normativa. No Brasil é uma tarefa malsucedida e polêmica porque essa tradição se afasta bastante da forma como as pessoas efetivamente falam e escrevem.

Para mim, a questão da “unidade” não passa necessariamente pela norma. É possível ter várias normas-padrão, construidas partindo do respeito ao conhecimento que os falantes possuem sobre a sua própria língua, e manter mesmo assim certa noção de unidade linguística que permita a intercompreensão e o diálogo com falantes de outras variedades. A ideia de unidade, que não deve ser confundida com “uniformidade”, constroi-se pela interação e não por meio da imposição de um único padrão, como um mesmo corset que deva oprimir todos os corpos (uns mais do que outros, como é óbvio, porque não todos os corpos são iguais).

Não existe, nunca existiu e nada indica que vá existir uma língua internacional denominada portugalego ou galego-português. Também não existe uma norma-padrão internacional no âmbito lusófono, mas uma tradição padronizadora.

6. Os discursos de aproveitamento do espaço internacional da língua habitualmente reclamam uma mudança ortográfica para o galego se aproximar à ortografia oficial do português no mundo. Acha que a sociedade galega está preparada para uma mudança deste tipo ou poderia gerar reações negativas e um aumento importante da insegurança linguística nas pessoas que estudaram o galego oficial nos últimos 30 anos? É possível um melhor aproveitamento do galego no âmbito internacional sem uma reforma normativa?

No momento eu defendo um bi(ou tri)-normativismo flexível, por dizê-lo de alguma maneira. Tendo como objetivo a socialização do acesso a diversas formas de português, podem ser feitas coisas sem mexer agora na norma: a introdução do português (qualquer um) no ensino, como disciplina, e a integração da diversidade lusófona no próprio ensino do galego. Penso que o poder público devia tomar medidas, em todas as instâncias, para fazer normal a presença de bens culturais em português na Galiza, no cinema, no teatro, na televisião, nas rádios, etc. O argumento do medo à dissolução ou à perda de identidade do galego por causa do contato com a diversidade portugalega é absurdo, do meu ponto de vista, porque só temos a ganhar com esse contato e porque a ideia de uma língua incontaminada não passa de ser um delírio purista. Por outro lado, já temos isso tudo, e em doses de cavalo, em espanhol, que é claramente uma língua diferente (embora próxima), e aqui estamos, ainda falando (do) galego. A presença do português poderia ser um contrapeso fundamental. O desenvolvimento da lei Valentim Paz Andrade é um passo importante nesse sentido.

O argumento do medo à dissolução ou à perda de identidade do galego por causa do contato com a diversidade portugalega é absurdo porque só temos a ganhar com esse contato e porque a ideia de uma língua incontaminada não passa de ser um delírio purista

7. Nas últimas décadas a perda de falantes do galego não parou. Que acha que se está fazendo mal na política linguística galega? Que propostas faria para que a situação pudesse mudar?

As dinâmicas sociais são complexas e nem todos os fatores são diretamente controláveis pelo poder político. Mas penso que as coisas mudariam muito com um governo que realmente acreditasse nas potencialidades deste país e da sua língua, trocando a baixa intensidade pela alta intensidade da política linguística, e a verticalidade pela horizontalidade, apoiando as iniciativas que surgem na sociedade, sem exclusões. O efeito social do uso normal do galego, e não apenas ritual, por parte dos representantes públicos também seria notável. E, mais concretamente, acho urgente voltar ao processo de desenvolvimento do Plano de Normalização Linguística aprovado pelo Parlamento, com a restauração imediata do Decreto do galego no ensino que foi derrogado pelo governo de Feijóo.

Acho urgente voltar ao processo de desenvolvimento do Plano de Normalização Linguística aprovado pelo Parlamento, com a restauração imediata do Decreto do galego no ensino que foi derrogado pelo governo de Feijóo

8. A Marea Atlántica de Xulio Ferreiro ganhou neste ano as eleições locais na Corunha, a sua cidade natal. Como sabe, é talvez a cidade galega onde a presença pública do galego é mais reduzida, além das já históricas polêmicas sobre o topónimo da cidade ou os topônimos deturpados nos rueiros. Há espaço para uma política linguística diferente no âmbito local? Que medidas aplicaria se tivesse a oportunidade?

Há espaço, sim, para uma política linguística diferente. Lembro perfeitamente que quando foi restaurado o teatro Rosalia de Castro, em tempos de Paco Vázquez, aproveitaram para retirar a placa que fazia referência às Irmandades da Fala. Essa era a tônica da política local em relação à memoria galeguista da cidade. Un concelho pode cumprir um papel importante e necessário elaborando planos locais de normalização linguística, com avaliações periódicas. Mas penso que o simples uso normal do galego pelo Concelho e seus representantes institucionais já é uma intervenção relevante, junto com a recuperação de nomes de ruas e bairros em galego.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil: O melhor: a alegria do povo. O pior: a demofobia das elites.

Um lugar no Rio de Janeiro: Difícil. Vão dois: Santa Teresa e a praia de Ipanema.

Uma palavra do galego-português: ‘atrapalhar’ e seus derivados.

Uma autora ou autor galego e uma autora ou autor brasileiro: Rosalia de Castro e Clarice Lispector

Un desejo para o futuro: Justiça social.

Adrián Dios: “A Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza”

Adrián Dios é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade de Santiago de Compostela (2012), onde também realizou o Mestrado em Desenvolvimento Econômico e Inovação (2013). Atualmente é doutorando no Departamento de História Econômica da mesma universidade galega. No passado dia 23 de setembro lecionou na UERJ o Seminário Aberto “Galiza. Identidades nacionais e soberania na Europa do século XXI. História e desafios de futuro”.

1.Você esteve morando dois meses em Maringá, no estado do Paraná. Como é para um galego o contato com o português brasileiro?

Em realidade foi muito simples. Após uma primeira semana de adaptação ao sotaque, a capacidade de comunicação é bastante alta. Ademais, a surpresa da imensa maioria de pessoas ao saberem que existe uma língua tão próxima ao português brasileiro, como é o galego, facilitou-me muito a comunicação.

2.Encontrou a situação do Brasil melhor ou pior do que você achava que ia encontrar vindo aqui? Como é visto o Brasil na Galiza?

Muito melhor. Pode ser porque eu vivi na zona sul, mas o nível de vida que achei foi elevado em relação à ideia que se pode ter na Europa da América Latina. Talvez questões como a burocracia deveriam melhorar, mas achei uns bons serviços na Universidade e uma sociedade incrivelmente cosmopolita e muito aberta. Isto último foi uma mudança para mim em relação aos preconceitos que existem na Europa sobre o Brasil, onde só se pensa em samba, calor e praia.

3. O título do seu Seminário inclui a associação entre a Galiza e “identidade nacional”. Sabemos que não é reconhecida assim na Constituição espanhola mas sim o foi pelo IX Congresso de Nacionalidades Europeias no ano 1933. É Galiza uma nação?

Com certeza. A questão não pode resolver-se pelo que diz uma constituição num momento determinado, deve ir além disso. Se tivermos em conta qualquer definição de nação, Galiza se adapta perfeitamente a esses parâmetros, ao ser uma comunidade histórica, cultural, linguística e mesmo socioeconômica diferenciada.

Do mesmo jeito, uma parte importante da sociedade galega se define a sim própria como galega, um elemento fundamental para transitar da ideia de nação em sim, a nação para sim. Com certeza esse sentimento identitário não tem por que entrar em contradição com o sentimento espanhol, que também existe em parte da sociedade galega.

4. Nos últimos meses teve lugar na Escócia um referendo de independência na Catalunya vários partidos políticos, com maioria parlamentária, reclamam também o direito a decidir. Que está acontecendo na Europa nos últimos tempos?

Pois é muito simples, existem nações na Europa que chegaram à conclusão de que precisam ganhar instrumentos soberanos para poder governar-se a si próprias. A Escócia e a Catalunya são os exemplos de mais atualidade, mas esta realidade existe ao longo de todo o continente europeu, com maior ou menor grau de intensidade. Infelizmente, muitos governos e instituições olham isso como um perigo, mas deveria reconhecer-se uma obviedade: não param de se acrescentar novos estados no mundo nas últimas décadas, e estas nações são tão viáveis como o resto e muitas vezes são também o mecanismo de resolução de muitos conflitos em estados onde parte dos seus membros não se sentem reconhecidos.

5. No seu Seminário fez uma análise histórica da perda da soberania da Galícia. A que foi devido esse processo e como tem influenciado na situação atual do país?

Possivelmente a uma mistura de fatores políticos e econômicos.  A história da Galiza tem vezes que é a história de uma derrota continuada. O processo de introdução da administração castelhana no Reino da Galiza deriva da derrota do poder político galego desde a Meseta, o que determinará que a toma de decisões deixará de estar autocentrada.

Quando esta situação aconteceu, o decrescimento econômico e a incapacidade de participar da Revolução Industrial até uma época muito tardia (por incapacidade tecnológica mas também pela toma de decisões econômicas e criação de taxas de alfândega desde o poder político central) provocou uma subordinação cada vez maior da posição da Galiza sobre outros territórios. A ausência de poder político próprio e a ausência de poderes econômicos inevitavelmente leva à desaparição de soberania.

6. Ainda que o sentimento nacional tem aumentado nos últimos anos em lugares como a Catalunya ou a Escócia esse processo não se deu na Galícia. Por que a Galícia se encontra numa situação diferente?

Existe uma diferença fundamental entre a Galiza e a Catalunya: a Galiza não tem uma burguesia nacional própria que atue como burguesia galega. Em quanto a Catalunya sofria um enorme incremento econômico e industrial, a Galiza continuou sendo em boa parte do século XX uma reserva agrária, o que impediu a acumulação de capital próprio. Esta burguesia sim existia na Catalunya, e entendeu que deviam governar-se a sim próprios para melhorar a sua situação.

Não é só governar o poder político como também que exista uma sociedade viva que represente os seus próprios interesses. Só tem que ver o mapa da mídia na Catalunya para ver que existem muitos instrumentos que permitem criar consciência nacional.

7.Quando falamos de soberania parece um tema bem abstrato. Em que mudaria a realidade dos galegos e galegas se a Galiza tivesse soberania?

Primeiramente, e mais importante, poderíamos decidir por nós próprios sobre o nosso. Parece uma abstração, mas isso quer dizer que podemos decidir quanto vamos pagar pela nossa tarifa de luz, ou gerir as nossas autoestradas. Faz sentido que a política pesqueira seja decidida em Madrid que nem tem litoral e que não possamos decidir nós sobre ela? São só alguns exemplos de coisas que se poderiam fazer se tivéssemos soberania, que não é mais que que os galegos e galegas tenham a capacidade de decisão sobre sim próprios. Aliás, a Espanha sempre tomou decisões que impediram o desenvolvimento da Galiza.

8. Como tem influenciado a questão econômica e política na situação atual da língua e da cultura galega? 

Acho que de jeito fundamental. Existe muito auto-ódio em relação ao galego, junto com que a língua de prestígio é o espanhol há muitos séculos. E ser língua de prestígio tem uma relação fundamental com a economia: será a língua usada nas profissões de mais alta qualificação (médicos, advogados ou administração até há poucos anos), em quanto o galego vai-se associar ao rural, aos camponeses e até à falta de recursos. Por isso é tão normal na Galiza encontrar, ainda hoje, crianças que em casa falam galego mas na escola falam espanhol. Aliás, a inexistência de poder político próprio impediu até há pouco tempo qualquer tentativa e recuperação da nossa língua.

9. Nas últimas décadas embora o galego tenha se tornado oficial e tenha entrado em espaços como a televisão ou o a educação, está perdendo falantes. Que acha que se tem feito errado na política linguística e em que se poderia melhorar?

Sem ser um especialista no tema, acho que ainda fica muito por caminhar para a normalização da língua. O galego tem entrado em alguns espaços mas de jeito minoritário, como a televisão. Não temos nenhum jornal em papel na nossa língua atualmente. A situação de desvantagem do galego com o espanhol é evidente em todos os aspetos.

Possivelmente, em primeiro lugar, a política linguística errou em ser incapaz de criar medidas mais contundentes a favor da recuperação da língua. Do mesmo jeito, a sociedade mais ativa não conseguiu debater o discurso da “liberdade linguística” que o único que procurava era a ampliação do espanhol na sociedade, o que restou credibilidade à normalização do galego.

Por outra parte, é necessário reformular certos discursos sobre o galego: o elemento identitário é importante, mas também se deve avançar para a utilidade linguística. Como podemos ver nesta entrevista, com o galego estamos no mundo, e infelizmente muitos galegos e galegas não sabem disso.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

O melhor do Río: A sensação de tomar banho em Copacabana

O pior do Río: a calor (e isso que estive no Brasil no inverno!)

O melhor do Brasil: as pessoas

O pior do Brasil: A burocracia

Um lugar no Rio de Janeiro

O Pão de Açucar

Uma palavra do galego e uma do português brasileiro

Galego: bolboreta (Borboleta no Brasil)

Portugués brasileiro: Beleza

Um desejo para o futuro

Poder viver um dia inteiro exclusivamente na minha língua na Galiza

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Maite Insua: “Co Decreto do Plurilingüismo a competencia en inglés do alumnado pode empeorar considerabelmente”

Maite Insua Cabanela é Graduada em Letras Inglês pela Universidade da Coruña (2009) onde também realizou o seu Mestrado em Ensino de Línguas (2010). Trabalhou como professora de língua inglesa na cidade da Corunha entre os anos 2010 e 2015. Após dar aulas na cidade de Zamora seis meses, na atualidade é professora no Ensino Médio na cidade de Puebla de Sanabria (Zamora).

Experimentar en primeira persoa o feito de que falando galego podemos comunicarnos sen problemas con millóns e millóns de falantes lusófonos do outro lado do Atlántico é unha sensación difícil de explicar. Estaba a miles de quilómetros da miña terra pero, dalgunha maneira, sentíame na casa.

1. O pasado 24 de agosto participaches da actividade O galego na juventude que aconteceu na UERJ. Como foi o acto?

Nunha soa palabra, eu diría que o acto para min foi un privilexio. Ter a oportunidade de falar da situación da lingua galega no ensino a máis de 8.000 quilómetros de distancia e notar que a xente se involucra e que empatiza coa nosa situación lingüística é algo moi especial.

2. Ti achegaches unha perspectiva sobre a situación das linguas no ensino actual da Galicia. Como profesora de inglés no ensino medio, ten contribuído este Decreto á mellora da competencia lingüística en inglés do alumnado?

Non podo predecir que pasará de aquí a uns anos se este Decreto continúa a estar en vigor, pero no presente podo dicir de primeira man que a competencia lingüística en inglés do alumnado, lonxe de mellorar, pode chegar a empeorar considerablemente. A grande maioría dos rapaces e rapazas do ensino medio que se enfrontan a unha educación “trilingüe” en galego, castelán e inglés non alcanzan o nivel suficiente nesta lingua estranxeira como para poder utilizala como lingua vehicular nas aulas. Parte do profesorado, por outro lado, tampouco está preparado para impartir as súas materias en inglés. Este sobreesforzo que se lle está a esixir tanto ao profesorado coma ao alumnado afecta negativamente ao proceso de aprendizaxe, xa que o profesorado está obrigado a impartir as súas materias nunha lingua que nin eles mesmos nin o alumnado dominan o suficiente.

O profesorado está obrigado a impartir as súas materias nunha lingua que nin eles mesmos nin o alumnado dominan o suficiente.

3. Como influiu este Decreto na situación do galego no sistema escolar?

O chamado “Decreto do Plurilingüismo” coloca ao mesmo nivel no eido educativo as dúas linguas cooficiais de Galicia (galego e castelán) e a unha lingua estranxeira como é o inglés, proporcionándolles a cada unha delas a porcentaxe do 33% do horario escolar. Coa introdución do inglés como lingua vehicular no ensino galego, a porcentaxe de materias impartidas en galego pasa dun mínimo do 50% esixido polo anterior Decreto a só unha terceira parte do total, algo que vai repercutir negativamente na competencia lingüística en lingua galega. Segundo a lexislación actual, débese garantir que o alumnado galego desenvolva unha dobre competencia en ambas linguas oficiais. Tendo en conta a situación do galego como lingua minorizada en Galicia, este novo Decreto non garante esa dobre competencia, imprescindible para asegurar a liberdade de elección á hora de empregar o galego no día a día. Como é lóxico, os rapaces e rapazas que se atopan na etapa do ensino secundario non poden empregar unha lingua na súa vida diaria se non se lles dan as ferramentas necesarias para desenvolverse nela con soltura.

Vouno exemplificar cunha anécdota, Hai un tempo, eu traballaba dando aulas nun curso de idiomas privado, onde tiña alumnado de tódalas idades posibles, dende rapaces e rapazas de Educación Primaria ata adultos. Unha das miñas alumnas máis novas estaba en segundo de Primaria (tiña 7 aniños), e sorprendentemente non viña a clases de reforzo de inglés senón de Science, o que anteriormente se chamaba Coñecemento do Medio, unha das materias que pasou de ser impartida en galego a ser en inglés. En cada clase que tiña con esta rapaza era máis evidente que o feito de usar o inglés como lingua vehicular para a materia de Science repercutía negativamente tanto na adquisición de contidos da materia de ciencias como na aprendizaxe do inglés. Nunha ocasión, a alumna díxome que tiña que estudar os músculos para unha proba que tiña ao día seguinte. A materia estaba enfocada en aprender listas interminables de vocabulario en inglés que nin sequera traducían ao galego ou ao castelán, co cal a rapaza sabía escribir calf ao lado dun debuxo dunha perna, pero se lle preguntabas onde estaba o músculo do xemelgo (a tradución de calf), non tiña nin idea. E digo “sabía escribir” e non “sabía dicir”, porque a súa mestra non estaba especializada en inglés senón en ciencias, co cal a pronunciación que lles ensinaba aos alumnos non era a correcta.

Este novo Decreto non garante a dobre competencia, imprescindible para asegurar a liberdade de elección á hora de empregar o galego no día a día.

4. Cal pensas que sería o modelo máis axeitado no ensino para garantir unha boa competencia na lingua propia da Galicia, o galego, e no castelán, inglés e outras linguas estranxeiras?

Un modelo que resulta moi efectivo noutros sistemas educativos como o catalán e o vasco é a inmersión lingüística, que consiste en converter a lingua menos empregada polo alumnado na principal lingua vehicular no ensino, de forma que a maioría de materias se impartan neste idioma. Esta inmersión garante un coñecemento suficiente da lingua minoritaria, pese a que o alumnado empregue outras linguas fóra do contexto escolar. Aplicando este modelo ao ensino de Galicia, se fóra da escola a lingua máis empregada polo alumnado é o castelán, a porcentaxe de materias impartidas en galego debería ser moito maior, permitindo así alcanzar esa dobre competencia da que falei antes nas dúas linguas oficiais do país.

Canto ao inglés e a outras linguas estranxeiras incluídas no currículo escolar, eu apostaría por aumentar o número de horas da materia de lingua estranxeira á semana e baixar a ratio nas aulas de idiomas. Para desenvolver unha competencia comunicativa na lingua estranxeira, é crucial que as aulas desa materia sexan o máis interactivas posible, algo que é inviable en aulas de máis de 25 alumnos coma as que permite a lexislación vixente. Tamén se deberían potenciar estancias no estranxeiro como medida de inmersión lingüística na lingua estranxeira, pero sen que iso implique reducir o número de horas adicadas ás dúas linguas oficiais en Galicia.

5. Na túa intervención fixeches tamén unha reflexión sobre a túa experiencia como neofalante. Por que decides mudar de lingua e comezar a falar galego no teu día a día?

Como expliquei na miña intervención, eu nacín e crecín nun entorno maioritariamente castelanfalante: meus pais e o resto da miña familia falaban comigo en castelán (pese a que entre eles falaron sempre en galego), os meus amigos falaban castelán tamén… Cando era pequena, o meu contacto coa lingua galega reducíase a algunhas aulas na escola, aos debuxos animados e series que vía na Televisión de Galicia, e a escoitar falar galego na casa, aínda que fose en conversacións alleas a min. Como consecuencia, eu asumía que falar castelán na vida diaria era o normal, o que todo o mundo facía.

Na miña adolescencia, comecei a ser consciente da situación da lingua galega e de como o número de galegofalantes se reducía co paso do tempo, pero naquela época esa conciencia lingüística non era o suficientemente forte aínda como para me facer mudar de lingua.

Decidín deixar de ver pasivamente como o galego desaparecía na mocidade e actuar para que iso non ocorra, aínda que sexa humildemente, sumando unha galegofalante máis.

Cando comecei a miña época universitaria, mudeime á cidade da Coruña para continuar os meus estudos alí. Pese a que A Coruña é unha cidade maioritariamente castelanfalante, alí coñecín a moita xente que era plenamente consciente da mala situación que estaba a vivir o galego, e que non só era consciente, senón que tamén facía todo o que estaba na súa man para inverter ese proceso de desgaleguización. Entón decateime de que eu tamén podía formar parte dese movemento, e así foi como decidín mudar de lingua e converterme en galegofalante no meu día a día. Decidín deixar de ver pasivamente como o galego desaparecía na mocidade e actuar para que iso non ocorra, aínda que sexa humildemente, sumando unha galegofalante máis.

6. Os últimos datos de uso mostran como o galego perdeu falantes nas últimas décadas, especialmente nas xeracións máis novas. É importante o papel dos neofalantes para o futuro da lingua?

Claro que é importante. Cada vez que unha persoa, aínda que só sexa unha, se converte en neofalante e vive a súa vida en galego, significa estar un paso máis preto da normalización lingüística que tanta falta lle fai á nosa lingua. Dende a miña experiencia persoal, cando eu comecei a falar en galego no día a día, algunha xente do meu entorno comezou a dirixirse a min en galego tamén; igual só o falan cando están comigo, pero independentemente diso, esa xente fala en galego en situacións nas que antes non o facía, e iso sempre é positivo.

7. Estiveches no Rio de Janeiro algo máis de 10 días. Para unha galega, como é o contacto co portugués brasileiro?

O portugués brasileiro foi unha revelación para min, xa que a pesar da distancia xeográfica que separa a Galicia do Brasil, resultoume bastante máis sinxelo de entender que a variante lingüística dos nosos veciños portugueses. Ademais, experimentar en primeira persoa o feito de que falando galego podemos comunicarnos sen problemas con millóns e millóns de falantes lusófonos do outro lado do Atlántico é unha sensación difícil de explicar. Estaba a miles de quilómetros da miña terra pero, dalgunha maneira, sentíame na casa.

8. Voltarás ao Rio de Janeiro?

Se a vida mo permite, por suposto! Unha ducia de días non son suficientes para poder desfrutar de todo o que o Rio de Janeiro ten para ofrecer. E xa por non falar do Brasil enteiro!

Agora brevemente…

O mellor e o peor do Rio e do Brasil

O mellor, a súa xente: ese carácter alegre e acolledor que fai que baixes á rúa a primeira hora da mañá cun sorriso na cara.

O peor, a desigualdade social. Un dos momentos máis abrumadores para min durante a miña estancia no Rio de Janeiro foi cando saín de visitar o estadio de Maracanã, cheo de novas instalacións a todo luxo, e atoparme de fronte cunha favela que remataba máis alá do que me alcanzaba a vista.

Un lugar no Rio de Janeiro

O Pão de Açúcar, o Cristo do Corcovado, o morro de Dois Irmãos… Calquera lugar que che permita admirar a cidade dende as alturas. A orografía e a paisaxe da cidade do Rio de Janeiro son sobrecolledoras, únicas no mundo. Estaría horas e horas mirando para ela.

Unha palabra do galego e unha do portugués brasileiro

Difícil escolla. Aínda que pode soar como un tópico, quedaríame coa palabra galega morriña e coa palabra portuguesa, e tamén galega, saudade. Aínda que se tenten traducir a outras linguas, estas dúas palabras son as únicas que poden expresar ese sentimento que nos inunda cando pensamos nunha persoa ou nun lugar amado que está lonxe de nós.

Un desexo para o futuro

Que se siga loitando para que a lingua galega siga viva, mantendo así viva a nosa cultura e permitíndonos seguir comunicándonos con millóns de persoas en todo o mundo.

Malores Villanueva: “Hai que apostar pola pedagoxía e polos discursos que non exclúan”

Malores Villanueva (A Xesteira 1982)  estivo o pasado 30 de marzo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde deu unha palestra en torno á represión lingüística e cultural na Galicia do franquismo. Ela é doutoranda pola Universidade de Santiago de Compostela, realizando a súa investigación sobre os primeiros anos da Editorial Galaxia (1950-1963). Ademais, foi profesora visitante da Universitat de Barcelona (2011-2014), Secretaria dos Cursos de galego para estranxeiros da Real Academia Galega e da Universidade de Santiago (2006-2011) e o seu número de publicacións, en forma de libros e artigos, e a súa participación en Congresos científicos, pódense contar por decenas. É tamén membro da Cerna de Prolingua.

1. Malores Villanueva, o pasado 31 de marzo impartiches unha palestra na UERJ baixo o tìtulo A Galícia na ditadura franquista: repressão e resistência cultural. Uma aproximação histórica, linguística e literária, como foi a recepción do alumnado brasileiro?

Estou moi agradecida pola boa acollida do alumnado da UERJ que encheu a sala e mostrou atención e interese polo tema, o que deu lugar a preguntas finais moi oportunas. O diálogo sempre é enriquecedor e neste caso así resoltou.

2. Deches esta palestra completamente en lingua galega. Como é falar en galego con normalidade a máis de 8000 km de Galicia?

É un gusto, sen dúbida. Non era unha experiencia nova, pero si facelo a tanta distancia. As barreiras moitas veces están nos prexuízos, cando non se teñen a comunicación entre galego e portugués é fluída.

“As barreiras moitas veces están nos prexuízos, cando non se teñen a comunicación entre galego e portugués é fluída”

3. Estas rematando actualmente a túa tese de doutoramento sobre os primeiros anos da Editorial Galaxia. Se lle tiveses que explicar a alguén que non coñeza o papel da editorial nestes anos, que achega destacarías do Grupo Galaxia para o país?

En realidade son moitas. Cando se crea a Editorial Galaxia, en 1950, serve para aglutinar voces que quedaran silenciadas pola ditadura e tamén para unir novos valores e conectalos co pasado da lingua e da cultura galegas. Polo tanto serve de punto de encontro e de ponte interxeracional, así nos primeiro anos en Galaxia publicaron Cabanillas, Cunqueiro ou Ánxel Fole á beira de Méndez Ferrín ou Xohana Torres. Galaxia marcou un segundo renacemento nun momento no que a lingua estaba marxinada e fóra do sistema educativo e dos circuítos de visibilización. Galaxia intenta prestixiala a través da cultura, da publicación de libros, de revistas, de manuais… Un labor non sempre exento de multas, censura e outros atrancos. Galaxia estaba a facer política a través dun ambicioso proxecto que ía máis alá da publicación de libros, pois tamén manobraban para conseguir a rexeneración da RAG, para introducir o galego no ensino obrigatorio ou na universidade. A rede de subscritores e accionistas permitiron un crecemento rápido e o seu asentamento ata o día de hoxe.

4. Nos anos 50/60 a literatura galega renace aos poucos após os difíciles anos de posguerra, co impulso tamén da Editorial Galaxia, e con moitos camiños por percorrer. Hoxe temos unha literatura consolidada. Cales son hoxe os retos de futuro da nosa literatura?

Hoxe temos unha literatura consolidada e que debe posicionarse sen complexos fronte a calquera outra. Ó meu ver temos unha poesía de máximo nivel e unha narrativa que loita por gañar visibilidade. Os retos teñen que ser moitos, quizais o primeiro unha boa dose de ambición e de autocrítica para avanzar. Hai que buscar estratexias efectivas para romper teitos e gañar espazos. Non son das que cre en encher ocos, pero si boto en falta certos discursos, certas obras que seguro que están, pero que non teñen fácil saída porque quedan asolagadas pola onda do momento que ditamina o que está de moda, o que vende ou o que é impuro e non ten lugar no sistema. Eu penso que sempre hai que apostar pola boa literatura e canto máis amplo sexa o abano mellor.

“Hai que buscar estratexias efectivas para romper teitos e gañar espazos. Non son das que cre en encher ocos, pero si boto en falta certos discursos, certas obras que seguro que están”

5. Publicaches tamén no ano 2010 A lingua galega entre 1963 e 1975. Situación social e discursos dende o galeguismo. En que foron especialmente prexudiciais os anos do franquismo para a perda da transmisión lingüística do galego?

En todo, sen dúbida. Unha ditadura sempre é prexudicial e para as minorías especialmente. O galego naquel momento era a lingua da maioría da poboación, pero o ditadura establece como única lingua nacional o castelán, única no ensino, na administración, na igrexa, en calquera ámbito de visibilidade. Iso dende logo crea unha imaxe social do galego, de lingua que non permite o ascenso social, a adaptación escolar, etc. Todos eses prexuízos vanse asentando na sociedade e a primeira xeración capacitada para mudar de lingua, porque estaba escolarizada en castelán, comeza a romper a cadea de transmisión. Iso acontece ó final da ditadura e esa fenda non fixo máis que crecer. É moi difícil reverter esas ideoloxías e eses prexuízos.

6. Mudaron moito os discursos para a promoción do galego desde o galeguismo dos anos 60 e 70 até hoxe? Tendo en conta a situación actual do idioma, en que cres que aínda deberían mudar?

Si que mudaron, porque a situación tamén o fixo, aínda que segue a haber grupos que manteñen as reivindicacións durante estas décadas. Eu creo que o discurso debe ser integrador, tendo en conta a situación da lingua neste momento. Ao meu ver hai que apostar pola pedagoxía e polos discursos que non exclúan, senón que sumen. É complicado facer isto cunha situación adversa e cun goberno que toma medidas antinormalizadoras e desprotectoras, como a eliminación en xuño do 2009 da proba de galego para acceder á administración, a aprobación en 2010 do Decreto para o Plurilingüismo ou a prohibición das liñas de galego en educación infantil no curso 2010-2011. Estas medidas, sen dúbida, non axudan ó prestixio da lingua, e ademais leváronse a cabo apoiadas no discurso negacionista, que difunde a mentira da imposición do galego. Sen dúbida é máis difícil facelo nestas condicións, pero eu apostaría por un discurso integrador e construtivo.

“Hai que apostar pola pedagoxía e polos discursos que non exclúan, senón que sumen”

7. Entre as persoas que asistiron á túa palestra na UERJ había varios/as estudantes dos cursos de verán de lingua galega que se imparten en Galicia cada verán e da que fuches secretaria durante seis anos. Ademais fuches lectora de galego na Universitat de Barcelona. Por que é importante que persoas doutros países estuden a nosa lingua?

Foi moi emocionante o reencontro con persoas que anos atrás estiveron nos Cursos de verán de lingua e cultura galegas para estranxeiros, só podo sentir agradecemento pola súa presenza. Ser secretaria deses cursos durante seis anos quizais foi a experiencia profesional máis gratificante de todas, pois estar en contacto con esa forza que vén de lonxe é revitalizador. Tecer esa rede de relacións que é inquebrantable, ver como volven ós seus países como brigadistas do galego, seguir a súa traxectoria e ver que se comunican en galego polo facebook ou que investigan sobre aspectos da nosa lingua ou da nosa literatura con rigor. Sen dúbida son os mellores embaixadores, a nosa mellor campaña de marketing nas súas universidades. É unha pena que haxa tantos cartos para promocionar un vídeo musical onde Galicia aparece cinco segundos e non haxa recursos para manter o número de bolsas que había anos atrás. Deberiamos mimar moito máis ás persoas que aprenden a nosa lingua no exterior. Ese labor foi o que despois desempeñei en Barcelona e o que fan tantos lectores e lectoras nas universidades de todo o mundo. Un traballo moitas veces pouco valorado dende a administración, pero imprescindible para dar a coñecer o que somos fóra de Galicia e no ámbito universitario.

“É unha pena que haxa tantos cartos para promocionar un vídeo musical onde Galicia aparece cinco segundos e non haxa recursos para manter o número de bolsas que había anos atrás para os cursos de galego”

8. Volverás ao Rio de Janeiro?

Espero volver ó Rio de Janeiro. Ós lugares onde un é feliz cómpre volver, en contra do que di a canción de Sabina. Dende logo levo a mellor das impresións da cidade e das súas xentes, é acolledora e fermosa e quedei con ganas de ver moitas outras cousas, así que agardo regresar.

Agora brevemente…

O mellor e o peor do Río e do Brasil

O mellor os cariocas e as cariocas porque a súa amabilidade, a súa alegría fan da cidade un lugar mellor.

O peor as distancias, tanto a que nos separa de Galicia como a que hai entre os diferentes puntos da cidade e, moi especialmente, as distancias sociais.

Un lugar no Río de Janeiro

É imposible rescatar só un. Eu quedo coa orografía desbordante da cidade dende calquera punto que se poida contemplar e cos seus barrios: Lapa, Santa Teresa, a Gávea… e, por suposto, co paseo pola praia á tarde baixa dende Leblón a Copacabana.

Unha palabra do galego e unha do portugués

Beleza, co significado que lle dan nesta beira do mar para indicar que se está de acordo e co común con Galicia para designar as cousas que nos deixan extasiados, como podería ser Rio de Janeiro e as súas xentes. Sen dúbida, beleza!

Unha autora ou autor galego e unha autora ou autor brasileiro

Escoller sempre é complicado, pero neste contexto vou dicir Xosé Luís Méndez Ferrín e Nélida Piñón, porque nesta viaxe volvín sobre A república dos sonhos. Nélida foi a primeira escritora brasileira en presidir a Academia Brasileira das Letras, unha brasileira con raíces en Cotobade, o mesmo lugar onde eu teño as miñas. Merquei na praza do Tiradentes Coração andarilho para que me acompañe de volta. É a viaxe ó seu Rio dende Cotobade, onde a historia da familia comeza. E cando penso en Nélida Piñón tamén sorrío recordando a historia que Méndez Ferrín, un escritor ó que admiro, me contou máis dunha vez. Seu pai era xuíz en Cotobade e el acompañábao, foi así como un día cre lembrar a Nélida Piñón nunha festa… un relato que Ferrín narra con mestría e que o menos importante é que non sexa verdade. Son dous grandes escritores que estes días están na miña cabeza.

Un desexo para o futuro

Volver a Brasil e facelo con máis tempo!

Claudia Amorim: “A literatura galega contemporânea apresenta um vigor extraordinário”

Claudia Amorim é doutorada em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006) e Pós-Doutorada em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e faz pesquisa principalmente sobre literaturas contemporâneas em língua portuguesa. É também, a atual coordenadora do Programa de Estudos Galegos desta Universidade.

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Claudia Amorim em Santiago de Compostela
  1. Você é coordenadora do Programa de Estudos Galegos da UERJ, quando nasce este Programa e com que objetivos?

O Programa de Estudos Galegos foi criado em 1998, nesta Universidade, pela ação da professora Dra. Maria do Amparo Tavares Maleval, especialista em literatura medieval e antiga coordenadora do Programa até o ano de 2013. A professora Amparo já havia criado na UFF (Universidade Federal Fluminense) de onde era oriunda, o NUEG (Núcleo de Estudos Galegos), quando lá trabalhou. Ao se aposentar, o prof. Fernando deu continuidade ao NUEG.

Na UERJ, havia todo o interesse em criar um Programa similar, pela demanda que, nos cursos de Letras, há com relação às pesquisas que tratam das proximidades entre a língua galega e a língua portuguesa e também dos estudos sobre a literatura medieval em Portugal que, como se sabe, surge em galego-português com a lírica trovadoresca.

  1. Qual é o papel atual que tem o Programa no Instituto de Letras da UERJ? Que projetos tem de futuro?

O Programa de Estudos Galegos tem como fito estimular, entre os estudantes da graduação, pós-graduação e extensão, o aprofundamento dos estudos sobre a cultura, a língua e a literatura galega, em perspectiva comparatista ou não.

Com a consolidação do Programa, em atuação ininterrupta durante esses 16 anos, especialmente na área dos estudos medievais, pretendemos ampliar a pesquisa dos estudantes, abrindo caminhos para estudos sobre a literatura contemporânea, por exemplo, e sobre a língua galega, envolvendo os alunos em torno da pesquisa de professsores da UERJ que podem contribuir mais com o Programa.

  1. Além de ser a coordenadora do Plano, você faz também pesquisa em literatura galega. Por que uma pesquisadora brasileira se interessa pola literatura que se faz na Galiza?

A minha pesquisa atual é sobre a questão identitária nas literaturas contemporâneas de língua portuguesa e galega, em perspectiva comparatista. No mundo atual, não se pode negar a importância das novas cartografias que, por razões econômicas, vem reconfigurando as fronteiras entre os países. E como a marca identitária primeva está associada à língua, há que se pensar na língua como um macrossistema. No caso dos países africanos de língua portuguesa, temos a história recente da independência e a adoção do português como língua oficial. A literatura atual desses países vem ganhando o mundo e contribuu para o enriquecimento da língua portuguesa com as suas marcas locais. Nessa literatura contemporânea há todo um diálogo com as diversas culturas dos povos africanos, com sua tradição oral e suas línguas nativas, o que amplia e enriquece a expressão do português.

No caso da literatura galega contemporânea, o que desperta minha atenção, é a determinação de boa parte dos galegos buscarem a consolidação e a divulgação da língua galega, como fator de resistência e sobrevivência identitária. Os galegos sabem que a língua da Galiza é o galego e não o espanhol, embora do ponto de vista da economia e da macropolítica o espanhol seja importante. Contudo, uma língua morre se não é falada, se não é veículo da escrita, se não é estudada nas escolas. Os galegos parecem ter muita consciência da defesa da língua de seus avós, e dos avós de seus avós. Além disso, há, entre os que defendem a sobrevivência da língua galega, a tentativa de aproximação do galego com o português, por razões histórico-linguísticas e de formação nacional.

Os galegos sabem que a língua da Galiza é o galego e não o espanhol

Há diversos escritores contemporâneos na Galiza escrevendo em galego sobre a cultura galega, desafiando as leis do ‘mercado editorial’ e isso é admirável.

  1. Há interesse no mundo acadêmico brasileiro pela literatura e a cultura galegas? Existe diálogo com o mundo acadêmico galego?

O interesse do mundo acadêmico brasileiro na área das letras é bastante vasto e os estudos sobre a literatura e cultura galegas são setorizados. Nas Universidades em que há um programa de estudos galegos com leitorado – no Brasil, há três (Universidade Federal da Bahia, Universidade de São Paulo e Universidade do Rio de Janeiro), penso que há mais estudos e pesquisas pontuais sendo desenvolvidos, contudo esses estudos podem ganhar vultos maiores.

O diálogo dos pesquisadores brasileiros com os pesquisadores galegos é também setorial. Na UERJ, durante a gestão da prof. Amparo Maleval, tivemos dois Acordos de Cooperação de Atividades de Pesquisa aprovados pela CAPES e pelo órgão similar na Espanha (DGU), e conseguimos efetivar um trabalho estreito com professores da Universidade da Corunha. Contudo, é sempre difícil organizarmos simpósios e trabalhos em conjunto que envolvam vários professores.

Nas Jornadas de Letras Galegas, realizadas sempre no mês de maio, já tivemos a presença de professores galegos que, por vezes, estão de passagem pelo Brasil.

Contudo, sentimos, em todas as iniciativas de diálogo com pesquisadores galegos, uma enorme receptividade dos professores galegos em estreitar os laços de estudos e de pesquisa conosco.

  1. Tem estudado a função identitária nas literaturas de língua portuguesa. Achou elementos em comum nas diferentes literaturas? Que papel joga o elemento identitário na literatura galega?

Os elementos comuns que encontrei nas literaturas contemporâneas de língua portuguesa e galega, com relação à questão identitária, é a defesa de um patrimônio cultural – que passa pela afirmação da língua – ameaçado pela imposição de um padrão e pela globalização. A língua portuguesa é – do ponto de vista das línguas de cultura – falada por milhões de falantes espalhandos por esse planeta, mas não tem valor econômico-político, o que para esse mundo significa ‘pouco valor cultural’. A literatura expressa em português – com suas nuances portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, guineense, cabo-verdiana, santomense e timorense – muitas vezes tende a tratar dessa marginalização. Malgrado esse lugar que ocupamos entre as línguas do mundo, as literaturas de língua portuguesa têm alcançado visibilidade, afirmando os valores culturais dos povos que representam e mostrando-se ainda excepcionalmente modernas e inventivas no campo literário.

O mesmo se dá com a literatura galega contemporânea que – embora não tenha a mesma visibilidade que as literaturas de língua portuguesa alcançaram – apresenta um vigor extraordinário e uma defesa dignificante do galego como expressão literária.

  1. Faz parte a literatura galega das literaturas lusófonas ou das literaturas em língua portuguesa?

Essa é uma pergunta que se prende a definições sutis. Muitos estudiosos não gostam do adjetivo lusófono, por estar ligado a uma ideia do império colonial português. Contudo, o adjetivo ‘português’ também pode remeter à ideia de que a língua é de Portugal, a princípio, sendo dos outros países apenas por ‘empréstimo’. Temos de pensar diacronica e sincronicamente os termos. Para mim, língua lusófona e língua portuguesa são sintagmas similares sincronicamente, embora o termo lusófono remeta à noção geográfica anterior à formação de Portugal. Do mesmo modo, podemos pensar a similitude dos termos ‘literaturas lusófonas’ e ‘literaturas de língua portuguesa’.

  1. Quando um brasileiro escuta falar um galego, acha que esta diante duma variante mais da sua língua, como acontece com o português de Portugal ou o português de Moçambique, ou se sente diante duma língua diferente?

Eu penso que um brasileiro, ao ouvir falar um galego, sabe que está diante de uma língua que não é o português, mas é uma língua irmã e não uma língua estrangeira, no sentido etimológico de ‘estranho’. A língua galega é muito familiar ao ouvido brasileiro, mas creio que não é identificada como uma variante do português.

  1. Você já esteve várias vezes na Galiza, que poderia falar sobre ela para um brasileiro que ainda não teve a oportunidade de a conhecer?

Estive duas vezes na Galiza, a primeira vez em 2009, em fevereiro. Fiquei admirada com a junção do frio do invernso com os dias ensolarados. A morriña, não a vi. Lembro-me particularmente da Torre de Hércules, na Galiza, em um dia de esplendoroso sol e da receptividade calorosa dos galegos.

A segunda vez que fui à Galiza, em 2013, fiquei mais tempo em Santiago de Compostela, e explorei bastante as vias e os pontos históricos dessa magnífica cidade, onde se é igualmente bem recebido. Fui também a Pontevedra, que é pequena e encantadora.

A Galiza fez-me sentir em casa, como se eu a conhecesse há muito tempo.

Um brasileiro, ao ouvir falar um galego, sabe que está diante de uma língua que não é o português, mas é uma língua irmã e não uma língua estrangeira

Agora brevemente…

Um escritor ou escritora galega

Rosalía de Castro, sempre.

Um escritor ou escritora brasileira

Cecília Meireles, cuja escrita remete por vezes à escrita de Rosalía.

Um lugar na Galiza

Santiago de Compostela, mais precisamente a vista de sua secular catedral, apreendida do Parque da Alameda.

Um lugar no Brasil

Rio de Janeiro, mais precisamente a vista da Baía de Guanabara, vista do bairro da Urca.

Entrevista a Ingrid Ferreiro, galega no Rio de Janeiro

Sara Aguillar

Aluna de Literatura galega I e Lingua galega na UERJ

Ingrid

 

  1. Qual é o seu nome completo?

    Ingrid Ferreiro Morgade

  2. Quantos anos têm?

    29

  3. Há quanto tempo estás no Brasil?  Porque decidiu vir para cá?

    Há três anos e meio que estou no Brasil, desde fevereiro de 2011. Cheguei para fazer uma pós em turismo na UFRJ.

  4. Sentiu muita dificuldade para se adaptar?Comente suas experiências

    Sim, cheguei e fiquei meio confusa pois já tinha estado no Brasil (Goiânia e Brasília em 2010) e lá era bem diferente do Rio. Cheguei e fui morar na Baixada Fluminense por 6 meses para colaborar num projeto de alfabetização de crianças, uma realidade bem diferente do cartão postal do Rio de Janeiro, Copacabana e Ipanema… Mas que me ajudou muito a compreender a realidade, triste desde meu ponto de vista, da situação social da população do Brasil. Hoje já há mais de 3 anos que moro na cidade, Rio Comprido, um bairro que continua me lembrando a cada dia a injustiça social mas que me motiva para tentar continuar ajudando naquilo que me for possível.

  1. O que mais lhe atrai no Brasil?

    As pessoas e a cultura, a mistura… São um tudo.

  1. Você trabalha com o turismo. Como é o turismo aqui no Brasil e o que diferença o turismo na Galiza? Qual é o mais valorizado e mais bem pago

    Aqui o turismo está maioritariamente focado para as classes altas e o estrangeiro. Essa é a minha percepção. Não acho que o pessoal que trabalha aqui com turismo seja qualificado, portanto os salários também são bem menores.

  1. Pretende voltar para Galiza? Ou pretende ir lá só a passeio e continuar vivendo e morando no Brasil?

    Pretendo voltar sim, mas não por enquanto. Acho que sempre queremos ou voltamos para as nossas origens.

  1. O que acha da desigualdade social do Brasil?

    É um assunto que me toca muito no meu coração, desde que cheguei até hoje. Acho que por isso não conseguiria viver para sempre assim, um pais tão rico e tão desigual. Gostaria que houvesse uma revolução e pudesse melhorar toda a parte de serviços mínimos que toda a população deveria ter.

  2. Você achou coisas aqui no Brasil que também fazem parte da cultura galega?

    Romeu e Julieta, marmelada com queijo, sobremesa galego portuguesa que aqui foi adaptada pela goiabada; o polvo; o empadão, empadas, broa, as castanhas “portuguesas”…

  3. Você acha que deveria ter um estudo mais amplo dessas culturas (brasileira e galega) que são ao mesmo tempo tão próximas e tão distantes? (Pelo fato de poucas pessoas as conhecerem)

    Claro, primeiro deveria ser conhecido que a língua nasceu no antigo reino da Galiza… e começando por ai poderia ser relacionada a nossa cultura com a de vocês, pois tudo está interrelacionado.

  4. Gostaria de saber também sobre a educação na Galiza. Como se divide? É boa ou precária? Quanto os professores ganham? Eles têm autonomia para fazerem o que quiserem ou são proibidos de falar/dar determinado assunto ou matéria?

    A educação pública na Galiza é muito boa. A privada também, mas todos temos direito a estudar na pública. O único é que estamos na luta por um ensino em galego, ou pelo menos com a maioria das matérias em Galego. Os professores ganham razoavelmente. Se divide em ensino infantil, educação primária, secundária, bacharelato e após isso temos de fazer o “seletivo” que é como o vestibular de vocês aqui e depois já a universidade.Os professores têm certa autonomia mas têm que seguir umas diretrizes que veem marcadas já desde a conselharia de educação do governo da Galiza.

  5. Vir para o Brasil foi o esperado? Como foi a recepção dos brasileiros?

    Acho que foi melhor do esperado… de não ser assim acho que depois de terminar a minha pós em Turismo, teria voltado para o meu país. Eu tive um recebimento maravilhoso, como já comentei primeiro morei em Nova Iguaçu, depois no Rio de Janeiro, e não posso reclamar, só agradecer, realmente faz a diferença.

  6. Teve alguma decepção com o Brasil?

    A grande decepção é a burocracia e os “ladrões” que têm este pais… todos têm mas aqui é demais. Tudo sempre pelo jeitinho e ficaria melhor sem despachantes e afins.

  7. O que achou dos preparativos para a COPA? Valeram a pena?

    Sou e era contra a Copa… não porque não goste de futebol mas sim porque num pais onde a educação e a sanidade, direitos básicos, estão bem por baixo de países com menos recursos. Colocar o futebol como centro de prioridades acho uma besteira e uma desconsideração com as pessoas que vivemos e pagamos impostos, para ter que estudar numa escola particular e ter um plano de saúde. Valeu a pena a infraestrutura dos estádios e em volta deles… não, para mim não.

  8. Acha que a COPA realmente trouxe mais turistas para o Brasil e vai valorizar essa área ou acabada a COPA já era?

    Sim, trouxe mais turistas do esperado e o povo brasileiro se destacou pela gentileza e boa acolhida… mas isso também iria se conseguir com menos dinheiro e com uma política voltada ao turismo internacional mais competitiva: feiras de turismo, campanhas de marketing no exterior… acho que não era preciso o gasto público em infraestruturas esportivas e segurança, como já disse antes.