Breve (pre)história do cinema galego

Camila da Cunha Pacheco

Estudante de Literatura Galega I e Introdução à Cultura Galega na UERJ 

“Entendemos por cine galego aquel producido por empresas galegas (isto é domiciliado en Galicia) e que, polo tanto, non cabe falar de cine galego se consideramos ó protagonizado ou producido por galegos circunstancialmente filmado en terras galegas por empresas administrativas e fiscalmente alleas a Galicia, nin as presuntamente financiadas por capital galego fóra do seu capital de orixe (cuestión esta, polo demais, ardua: non é fácil, por definición, precisar as coordenadas xeográficas nas que se forma o capital que, como se sabe, é apátrida e intenacionalista por necesidade).”

(PÉREZ PERUCHA, Julio; “A inexistencia do cine galego baixo o franquismo ou non hai máis cera da que arde“. Historia do cine en Galicia. Vía Láctea Editorial, Oleiros, 1996)

Introdução

O cinema é um dos maiores protagonistas do século XX. Passa a ser a soma de todas as artes e atua em diversos campos humanos como o econômico, o social e o político. Ele assemelha-se a um espelho, uma vez que é capaz de refletir as variáveis geopolíticas que caracterizam um país. A identidade de um povo é transmitida pela sétima arte.

É algo admitido, e cada vez de maneira máis consciente e científica, que as imaxes cinematográficas se atopan profundamente vinculadas á sociedade que as ve nacer, e aínda as impulsa. Non sería lóxico desde ningún punto de vista que pensemos que as películas xorden de maneira autónoma, desarraigados dos homes e mulleres que loitaron para construílos, e sen ningún tipo de vínculo cos espectadores potenciais ós que van dirixidos.”

(HUESO MONTÓN, A. L.; “Galicia no cine”. Galicia Arte. Tomo XVI, Hércules, Coruña, 1993)

Os pioneiros

Estabelecer os inícios do cinema galego é complicado já que há que se remeter a muito antes da chegada do cinematógrafo a Galícia. O invento dos Irmãos Lumiere foi a culminação do processo cheio de ambições por parte do homem em fazer uma imitação fidedigna da realidade. Despois das conquistas fotográficas de inventores e fotógrafos como Daguerre e Niepce, o passo seguinte era tentar refletir o dinamismo, o movimento. Durante o século XIX foram muitos os mecanismos dos espetáculos pré-cinematográficos que simularam esta qualidade. Aparelhos como o kinematógrafo ou animatógrafo chegaram a Galicia antes do invento dos Lumiere. Nos primeiros anos, o cinematógrafo na Galícia também gozou do caráter itinerante de espetáculos de feira similares, espalhando-se, progressivamente, a partir das grandes cidades. Entre os exibidores, destacam-se os procedentes de Portugal, contemplando o território galego como um mercado com muitas possibilidades.


Espetáculos pre-cinematográficos

O homem de distintas épocas e lugares tentaram plasmar imagens em movimento. Na procura deste objetivo, surgiram muitas buscas de modos que iriam se aperfeiçoando com o tempo até a aparição do cinema. Uns precedentes que se podem vislumbrar nos mecanismos que regiam o teatro de sombras, as lanternas mágicas, etc. Todos eles eram espetáculos itinerantes que percorriam as grandes cidades e feiras, tendo sessões em diversos lugares, como os teatros principais e os improvisados barracões de feiras.

Ao longo do século XIX, popularizou-se este tipo de espetáculo, que iam incorporando os avanços tecnológicos, principalmente os de origem fotográfica. A Galícia também foi transitada por estes feirantes nômades que buscavam com suas imagens assombrosas, entretendo o povo daquela época. A maioria destas empresas destinadas ao lazer eram dirigidas por indivíduos estrangeiros que, nas suas trajetórias comerciais, contemplavam toda Europa como mercado potencial. Entre os mais importantes que percorreram os caminhos da Galícia, há alguns ingleses, franceses, italianos e os galegos Manuel Parga, Ramón Gil, Francisco Contreras, Nicolás Domínguez, Ramón Cocina, Manuel Carrera, etc.

O Cine mudo (1905-1930)


Lentamente, a indústria cinematográfica foi se assentando enquanto atingia popularidade. Nos primeiros anos, o cinema estava confinado em barracas e pavilhões ambulantes ou em sessões esporádicas em teatros. Pouco a pouco foram aparecendo os primeiros salões estáveis: o Circo Coruñés, o Pavillón Lino e o Salón París na Coruña, o Tamberlick, o Royalty e o Pinacho em Vigo, etc. Um espetáculo com preços baixos que rapidamente se converteu no perfeito entretenimento da sociedade. Um público entusiasmado que convertia as estreias, de importantes filmes estrangeiros ou longos séries, em verdadeiros acontecimentos.

Nos anos 20 chegou a crise do teatro e com isto o reforço da indústria cinematográfica, incrementando-se o número de salas nas cidades e nas vilas galegas. Além de entreter e ser a maior opção de lazer, o cinematógrafo também tem sua componente informativa com a proliferação dos documentários e noticiários. Neste campo, destacam-se as figuras de José Gil e Enrique Barreiro. O gênero documental foi a ferramenta base que se utilizou para constituir o chamado “cinema da emigración”.

O cinema mudo sobrevirá até meados da década de 30, já que a adequação às novas exigências técnicas do cinema sonoro iam devagar. Durante o cinema mudo na Galícia houveram muitas personalidades que tentaram construir os alicerces duma indústria. Objetivo que se conseguiu principalmente no campo da exibição onde se destacaram as figuras de Isaac Fraga, Lino Pérez, Isidro Pinacho e Eduardo Villardefrancos, que promoveram a construção de salas fixas. Villardefrancos também combinou a sua faceta de empresário com a de operador.

O Cinema na República (1931-1936)

Esta é uma das etapas mais interessantes do cinema galego. A implantação do cinema sonoro coincidiu com a instauração de um novo modelo de governo: a República. Durante este período cheio de ilusão e liberdade é quando aparecem figuras do audiovisual galego, a “tríade de ourensáns”: Carlos Velo, José Suárez e Antonio Román. Uns cineastas que estiveram abertos as vanguardas cinematográficas conectando com a modernidade europeia. O olhar fílmico galego se estruturava, pela primeira vez, com critérios estéticos e narrativos, entendendo o documental como um canal para abordar inquietações artísticas, culturais, etnográficas, científicas e sociais.

O Cinema na Ditadura (1937-1970)

Durante a maior parte dos anos que durou a ditadura franquista, o cinema galego – a margem do cinema de emigración – não existiu, caindo em mais de trinta anos de silêncio. De qualquer forma, existiu todo o relacionado com resto de atividades que se englobam na “institución cinematográfica“. Durante os anos 40 e 50, houve o maior crescimento de salas comerciais, já que o cinema se converteu no maior entretenimento de uma época difícil e cheia de restrições. Houve galegos trabalhando na produção de filmes no cinema espanhol ou também dirigindo empresas de distribuição. Galícia seguiu refletindo-se em imagens, mas desta vez com uma perspectiva alheia, não própria, tanto em filmes documentais como nos de ficção. Um cinema saturado de todo tipo de tópicos, cheio de imagens distorcidas, deformadoras, erróneas. Um cine que foi denominado, muito comumente, pelo historiador Castro de Paz, como um “cinema de gaita e pandeireta”.


O cinema de Emigración


A emigração foi um dos temas mais recorrentes da cultura galega. O chamado
cine de emigración é um gênero cinematográfico excepcional que, em todo o mundo, só se deu na cinematografia galega. Um fenómeno insólito, que não tem outras comunidades marcadas por fortes traslados de povoação como podem ser a irlandesa ou a italiana. Um cinema destinado a atenuar a saudade dos distintos emigrantes e retornados. Eram filmes epistolares, de correspondência que cruzavam o Atlântico em ambas direções. As comunidades galegas na América (Argentina, Uruguai, Cuba, etc) filmavam os atos sociais que organizavam os distintos centros para que pudessem vê-los os seus vizinhos na Galícia. E estes contestavam também com filmes onde se refletiam festas, obras financiadas pelos emigrantes, etc. Desse tipo de cinema, já fora pioneiro José Gil, que baseou a sobrevivência da sua produtora na demanda deste tipo de produtos. Com a Guerra Civil, foi necessário aguardar até os anos 50 e 60 para que na Galicia se retomasse estes modelos fílmicos destacando dois diretores: Manuel Aríns Torres, realizador do filme Un viaje por Galicia (1958) e Tierra de nuestros mayores (1959); e Armando Hermida Luaces, director de Alma gallega (1966). Na América não houve interrupção, destacando Eligio González “o fotógrafo da coletividade galega”, com numerosa lista de filmes.

O Cinema afeccionado (1971-1979)

Entre os anos finais da ditadura e os anos de transição foi um tempo para que o cinema galego pudesse retomar sua atividade. Não há dúvidas que a efervescência política transluziu-se diretamente na prática cinematográfica. Um cinema galego que surgiu, como disse o historiador A. L. Hueso, “a sombra do proceso de renovación que sufriron, con anterioridade, outras cinematografías mundiais (Brasil, Alemaña,etc).” Um cinema novo, alternativo que servia como ferramenta perfeita para responder afirmações nacionalistas. Um cinema marginal com poucos meios e recursos que se alimentava principalmente da ilusão e do altruísmo que se impunha, devido à falta de indústria. Uma “consciência do nada” que se reconhecia nas distintas jornadas, semanas, encontros e festivais que proliferaram pela geografia galega naquele tempo. A escassa produção daqueles anos estava confinada a curta metragens realizados com formatos não comerciais. A maioria das pessoas que queriam fazer cinema juntavam-se em grupos, como: o Grupo Lupa, o Grupo Enroba e o Grupo Imaxe.

Além disso…

1989 é um ano chave no audiovisual galego devido à estreia de três longa metragens: Sempre Xonxa de Chano Piñeiro, Urxa de Carlos López Piñeiro e Alfredo G. Pinal e Continental de Xavier Villaverde. Villaverde como Diretor e Pancho Casal como produtor formam uma equipe que dura até hoje. Em 1991 nasce o Centro Galego das Artes da Imaxe e a Escola de Imaxe e Son da Coruña.

A importância da ficção na televisão se dá pelo desenvolvimento econômico que adquirem algumas das empresas de produção através de séries. No entanto, não significa que a produção reflita uma linha de criação cara a um cinema (ou neste caso audiovisual) próprio da Galícia, frequentemente – como ocorre na maioria das televisões comerciais do mundo – se produzem produtos estereotipados, que fogem de qualquer tipo de aspecto incorreto.

A estrutura empresarial

A produção galega – salvo casos isolados – depende quase exclusivamente das subvenções da Xunta de Galicia e do suporte econômico da TVG (Televisión de Galicia). Também se pode considerar as emissoras de Televisão Local, as empresas de dublagem, as empresas de produção não associadas, os esforços dos independentes, etc. O cinema digital e os desenhos animados são os que trariam o reconhecimento do exterior para o cinema galego. A produção O bosque animado, de Dygra Films, recebeu em2001 dois Goyas de melhor filme de animação e de melhor canção original, e sete prêmios Chano Piñeiro do audiovisual galego.

Bibliografia:

  • CABO, J. L.; “Espectáculos precinematográfica: das sombras chinescas ós panoramas”. CASTRO DE PAZ, J. L.;Historia do cine en Galicia. Vía Láctea, Oleiros, 1996

  • CASTRO DE PAZ, J. L.; “A chegada do cine a Galicia e as primitivas fórmulas de exhibición (1896-1908)”. CASTRO DE PAZ, J. L.; Historia do cine en Galicia. Vía Láctea, Oleiros, 1996.

  • NOGUEIRA, Xosé; O cine en Galicia. A Nosa Terra, Vigo, 1997.

Sites:

http://culturagalega.gal/avg/historia.php

http://www.cgai.org/archivos_fondos_bibliograficos/4508.pdf

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