25 de Xullo. Día Nacional de Galiza!

Desde Quilombo Noroeste celebramos o Día Nacional de Galiza con esta reflexión de Lourrane Santos, estudante de historia e alumna de Literatura Galega I. Feliz Día da Patria Galega!

Bandeira de Galiza
Bandeira de Galiza

A Galícia como uma Nação

Lourrane Santos, aluna de Literatura Galega I na UERJ

Antes de começarmos a falar sobre a Galiza e o seu merecimento para que seja uma nação reconhecida, proponho que entendamos o que é nação. Segundo o “Dicionário de Conceitos Históricos”, a nação, “Em seu significado mais simples, é uma comunidade humana estabelecida em determinado território, como unidade étnica, linguística, religiosa e/ou econômica. O Estado seria o setor administrativo da Nação.” (p.308). Todavia, segundo Max Weber, a nação seria algo artificial, uma construção histórica, elaborada por um grupo dominante ao qual atribuímos o papel de unir território e Estado a partir de determinadas elites regionais a diversos povos submetidos.

Esse ideal de Nação surgiu na Idade Moderna, onde o valor de uma determinada cultura deveria sobrepor-se as outras, ou seja, criava-se um modelo específico validado como nacional e era este que deveria ser seguido. Confuso? Pois bem, como exemplo desta política temos a própria Espanha, que durante a Idade Moderna e quase todo o século XX, excluiu as identidades bascas, galegas e catalães de sua definição de identidade nacional, buscando assim a sua afirmação hegemônica cultural, impondo o idioma castelhano como legítimo e fundamentando seus valores culturais como os legítimos valores nacionais do Estado.

Ainda falando sobre a construção histórica da nação, na obra “Comunidades Imaginadas”, Benedict Anderson, afirma que muitas “nações antigas” consolidadas, veem-se desafiadas por “subnacionalismos” em seu próprio território, que sonham em se tornar nações. (p. 28). Segundo Anderson, a língua é um dos principais fatores para a união de um povo e a imprensa, também, foi responsável pela disseminação dessas ideias sobre nação, que se tornou popular graças ao capitalismo.

Visto isso, passemos ao caso da Galiza, que em 1978, é reconhecida no quadro da Constituição Espanhola, como uma nacionalidade histórica. Teremos também o Estatuto da Galiza, que reconhece a mesma como uma comunidade autônoma e entre os devidos reconhecimentos o estatuto reconhece o galego como língua oficial na Galiza – e o castelhano co-oficial -; o reconhecimento dos símbolos próprios do país galego (bandeira, escudo); a divisão administrativa do território em províncias, comarcas e paróquias rurais; o reconhecimento das comunidades galegas no estrangeiro; fazenda e patrimônio próprios; e diversas competências de acordo com a Constituição espanhola e as leis de solidariedade entre as comunidades que formam a Espanha. Tal Estatuto foi assinado em 6 de abril de 1981 pelo rei João Carlos I da Espanha e pelo presidente do governo Leopoldo Calvo Sotelo.

Entretanto, o conceito de nacionalidade histórica foi e continua a ser muito criticado pelo galeguismo como sendo sucedâneo insuficiente e uma armadilha para que, não reconhecendo a Espanha o caráter plenamente nacional da Galiza, o País Basco e a Catalunha, essas nações não pudessem exigir consecuentemente o seu direito de autodeterminação. Já em 2005, com a entrada da Xunta de Galicia, do nacionalismo galego é reativada a ideia de uma atualização do estatuto de 1981. A petição do nacionalismo é que seja incorporado ao Estatuto o pleno reconhecimento da Galiza como nação. Tal requisição não é atendida.

O nacionalismo galego possuiu historicamente três momentos, sem os quais não é possível entender a existência do nacionalismo galego actual: o provincialismo, o regionalismo e finalmente o nacionalismo. Destes três focaremos em apenas dois, o provincialismo e o regionalismo, para termos uma perspetiva histórica.

O Provincialismo surgiu em 1840 e nasceu para defender a integridade do território da Galiza, devido a um projeto da divisão do estado em províncias. Os provincialistas desejavam que a Galiza fosse uma só província e que não fosse divida nas quatro que hoje existem. Há duas etapas no movimento provincialista: uma primeira que, vai de 1840 a 1846 e está relacionada com um maior envolvimento nas atividades culturais e políticas, é nesse período que ocorre o fuzilamento dos mártires de Carral. Já o segundo momento – que de vai de 1854 a 1865 – é basicamente cultural. Este da origem ao Ressurgimento literário da Galiza, com vultos como Rosalia de Castro, Eduardo Pondal e Manuel Curros Enríquez.
Já o Regionalismo durou, aproximadamente, de 1875 a 1907. Neste período deu-se uma reestruturação cultural e ideológica, na qual setores tradicionalistas e conservadores adotaram ideias galeguistas. O acontecimento destacado desse período foi a fundação da Associação Regional Galega, que teve como líderes principais Manuel Murguía e Alfredo Brañas. Começa com a fundação do Real Academia Galega e dá passos às Irmandades da Fala.

Durante a década de 1920 diversos partidos surgiram reivindicando o reconhecimento da Galiza como nação, mas durante a ditadura franquista o nacionalismo e o movimento cultural galego foi duramente reprimido. Dirigentes como Alexandre Bóveda e Anxo Casal (presidente da Câmara de Santiago de Compostela) foram fuzilados e a maior parte do nacionalismo organizado se transladou ao exílio, sendo despertado apenas na década de 1960 com os anos finais da ditadura franquista.

A Galiza mesmo sendo uma comunidade autônoma continua à sombra da Espanha, pois mesmo tendo concedido o status de nacionalidade histórica, não está sendo “dona” do seu território. Nacionalidade histórica não é nação. Cercados de sua própria cultura, de seus símbolos, como a bandeira, o hino da nação galega, suas cantigas medievais, das gaitas foles, de suas lendas, os galegos resistiram a homogeneização que a Espanha disseminou. Um dos poucos antigos reinos que conseguiu resistir a castelanização, preservando até mesmo a língua que nos chegou hoje, o galego.

Por fim, segundo as definições vistas na obra “Dicionário de Conceitos Históricos” e “Comunidades Imaginadas”, a Galiza é uma nação que sobreviveu a formação dos Estados-nações durante a Idade Moderna e continua a resistir. Citaria inclusive o caso da Alsácia, no qual Fustel de Coulanges em resposta as cartas alemães, responde que o que define a nacionalidade é o sentimento de pertencimento a uma determinada nação e a sua pátria. . Deixo ao fim as palavras de Alfonso Daniel Rodriguez Castelão, que no primeiro capítulo do clássico “Sempre en Galiza” defende a Galiza como uma nação e a luta por tal objetivo.

“Cando un home sabe que a realización dunha ideia vai producir a felicidade do seu pobo e a salvación da súa patria, non debe recuar ante a posibilidade de trunfo, aínda que a violencia doorosa e sanguiñenta do parto lle produza arrepíos; porque o home que dubida e teme no intre de realizar o ideal que predicou e non ten coraxe para manterse no seu posto de perigo, ou é un farsante ou é un coitadiño.
Un home que teña fe no ideal que propaga non debe resiñarse a morrer sen velo realizado, a non ser que morra en loita polo seu ideal. E aínda direi máis, espóndome a que se dubide das miñas convicións democráticas: Se o pobo non quixera enterarse do que lle convén e fixese desprezo do remedio que pode salvalo, ¿haberá algún home de fe que deixase de impor ese remedio, aínda pola forza, se dispuxese de poder para tanto? Porque un home de verdadeira fe nos ideaes que predica e con coraxe para remediar as desventuras do pobo, vai cara ao trunfo cando se poida e como se poida” (CASTELAO, 1944; p. 4)

Bibliografia:
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Cia das Letras. São Paulo, 2008.
CASTELÃO, Alfonso Daniel Rodriguez. Sempre en Galiza. Editora Digital: Wolfwood. 1944.
HARTOG, François. O século XIX e a História: O caso Fustel de Coulanges. Tradução: Roberto Cortes de Lacerda, Editora UFRJ, 2003.
SILVA, Kalina Vanderlei e SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos Históricos. Editora Contexto. São Paulo, 2009.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nacionalismo_galego
http://www.xunta.es/estatuto/titulo-preliminar

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