A identidade e a literatura galega do século XX

                        Rodrigo Moura (Mestrando UERJ)
 

A literatura galega produzida no século XX faz inúmeras indagações no que tange ao processo de identificação dos sujeitos, sobretudo com a literatura produzida na segunda metade deste século, posto que esta reflete uma nova concepção de ser galego, um ser urbano, fragmentado e inquieto. Além disso, a crítica literária avança em seus estudos com os nomes de Dolores Vilavedra, Manuel Forcadela e Anxo Tarrío Varela.

Uma pergunta constante nesse novo século diz respeito ao caráter periférico da literatura galega. Esta condição surge quando há uma certa necessidade de se explicar a especificidade do funcionamento do texto literário galego em uma situação linguística sem normatização, ou seja : “… o idioma galego se atopa nunha situación non normalizada (tamém cualificada como minorizada) e que esta condición ten importantes repercursións no texto literário en tanto acto de fala, na súa produción e recepción (Vilavedra, 1999, p.26).

A condição periférica da literatura galega é inseparável de sua expressão linguística, sobretudo no desenvolvimento do relato breve. Esse gênero foi de extrema importância para o tipo de literatura desenvolvida em Galiza, porque conseguia produzir um texto mais sintético e acessível à população galega da época, acostumada a ler em castelhano. O relato breve surge como uma necessidade para a promoção e sobrevivência da literatura galega contemporânea.

Dever-se-ia citar alguns momentos históricos em que as instituições públicas e sociais sofrem uma imensa transformação tão profunda que as diversas práticas sociais e culturais têm de demonstrar seu impacto. Com o triunfo fascista de 1936 acrescido aos três anos de guerra civil que provocaram uma ferida histórica de graves repercurssões na literatura galega contemporânea. Muitos escritores foram presos, exilados e até mortos.

No início da década de 1950 começaram a surgir, mesmo que de forma tímida, alguns sinais de mudança no fazer literário galego. Um fator de grande importância foi a criação do Editorial Galaxia que serviu de base para a publicação de novos autores e foi responsável por uma espécie de ressurgimento literário galego.

A Nova Narrativa Galega (N.N.G), conjunto de algumas obras e autores que publicaram entre as décadas de 1950 e 1980 e também foi decisiva na reconstrução da literatura e da identidade galega, porque renovou essa literatura tanto na temática – mais urbana e cosmopolita, quanto em relação  ao gênero privilegiado- o relato breve.

Na década de 1970, inicia-se um período de confirmação do processo de modernização técnica começado pelos autores da Nova Narrativa Galega, tais como: Gonzalo Mourullo, Carlos Casares e Xosé Luís Méndez Ferrín. Nota-se, nesse período, um certo abandono do experimentalismo gratuito, logo a literatura galega atinge, de certa forma, um grau mais sólido e maduro, como nos demonstram as obras Adiós Maria,  de Xohana Torres e Retorno a tagen ata, de Xosé Luís Méndez Ferrín.

Além disso, o Prêmio Modesto R. Figueiredo atuou como uma espécie de ponte para a promoção de novos autores e valores literários, concedendo aos destaques publicações sistemáticas nas Edicións do Castro, uma importante fonte de escritores e obras dessa nova escrita em galego.

Atualmente, a literatura galega se desenvolve a passos largos, com uma inúmera quantidade de obras em galego e com o aumento do número de gêneros, como o crescimento da literatura infanto-juvenil e literaturas de cunho fantástico, por exemplo. O ato de escrever em galego continua, em certa medida, sendo um movimento político e de resistência, já que o castelhano permanece em seu lugar de prestígio e vista como única variante válida para qualquer tipo de produção: “En última instancia, a narrativa actual, incapaz xa de actuar como mecanismo xerador dunha visión do mundo estable e coherente, opta por reflectir a dispersión, a carencia de respostas e a desorientación que asexan ó home do noso tempo” (Vilavedra, 1999, p.41)

Vimos através dessas indagações que a literatura galega do século XX tem muito a nos oferecer no que tange à compreensão do sujeito e da identidade galega, já que a literatura reflete essa problemática e essas indagações.

A literatura galega, por sua vez, retrata esse “ser galego” deslocado a partir de uma literatura, em grande parte, fragmentada e periférica que lutou contra os fantasmas do franquismo e conseguiu, após muitas lutas, criação de prêmios literários e incentivos à produção, criar um ambiente propício e saudável para a criação de inúmeras obras escritas em galego.

Referência Bibliográfica
VILAVEDRA, Dolores. História da literatura galega. Editorial Galaxia: Vigo, 1999
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