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Pintores e pintoras galegos

Renata Flávia de Souza

Aluna de Introdução à Cultura Galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  1. Introdução: uma breve contextualização da história da arte em Galícia

É possível identificar, desde os tempos primórdios, a relação humana com a arte em seus mais distintos objetivos como a comunicação, a imitação da natureza e a expressão de sentimentos. Realizada por meio de diferentes linguagens (arquitetura,desenho, dança, escultura, pintura,escrita e variadas derivações), a arte seria o processo criativo capaz de transformar a subjetividade em algo visível, palpável e pertencente ao plano físico.

A Galícia é um país marcado pela presença de diversos povos e consequentemente diversas culturas. Ali é possível encontrar vestígios artísticos desde a era paleolítica, como as pinturas rupestres encontradas na gruta de Eirós, na aldeia de Cancelo, datadas pelos investigadores em aproximadamente 30.000 anos. “Estas pinturas están xeralmente ligadas a ritos relixiosos e representan a plasmación nunha linguaxe simbólica do pensamento dos primeiros seres humanos” (EL PAÍS, 2012), ou seja, a arte como representação do cotidiano.

Na Idade Média, no período em que o atual território galego foi conquistado pelos romanos, observou-se uma fase bastante produtiva para o desenvolvimento artístico dessa região. As igrejas construídas eram ricas dos mais diversos detalhes arquitetônicos, colunas primorosamente esculpidas, pinturas e muitos tipos de decoração que remetiam ao caráter religioso. Em Galícia, até os dias atuais, se conservam os restos das pinturas realizadas naquele período.

Durante a Idade Moderna, a Galícia passou por um período chamado “Séculos Escuros”, no qual ocorreu uma forte imposição da cultura espanhola sobre a cultura galega. Dessa maneira, pouca coisa era produzida, gerando uma grande estagnação nos processos de desenvolvimento da arte galega, assim, “a falta de escolas e de tradición pictórica provocaron que as pinturas deste período sexan escasas e de non moita calidade”.

Com o advindo do Romantismo, no século XIX, uma série de reivindicações realizadas na Península Ibérica, reavivou o espírito regional e a identidade subjetiva dessas regiões (VILAVEDRA, 1999). Na Galícia, o choque entre o castelhano e a língua galega, converteu-se na valorização de se ter um idioma próprio. Assim, através dessa revitalização cultural, a etapa chamada de “Ressurgimento” foi marcada por diversos movimentos artísticos e culturais.

Nesse caminho, foram ocorrendo avanços no que diz respeito a arte e cultura galega, como a formação da primeira geração de pintores galegos, a “Xeración Doente”. Foi a partir da chegada de diversos artistas empenhados em transmitir seus conhecimentos nos centros de artes de Galícia que se formaram os primeiros artistas galegos, como Ovidio Murguía, Ramón Parada Justel, JoaquínVaamonde e Jenaro Carrero. “Esta xeración, non obstante, ollou con estupor como a pintura ficaba prácticamente ausente na súa terra. Cunha perspectiva un tanto utópica estes artistas reivindicaron a arte da pintura e procuraronunrecoñecemento público” (LORENZO, 2011) e para isso, retratavam a essência do seu país.

Atualmente, é possível verificar o número crescente de mostras de pinturas galegas, quadros que são expostos inclusive em outros países, e pintores que são aclamados com prêmios por suas obras. Isso mostra que a arte encontrou espaço nessa região e se desenvolve de modo a construir novos caminhos para a história da região da Galícia.

  1. Pintores galegos antigos

2.1. Ovidio Murguía de Castro

Nascido em 1871, em Torres de Lestrove, Dodro – A Coruña, OvidioMurguía, como era mais conhecido, era filho dos escritores Manuel Martínez Murguía e Rosalía de Castro, o que pode explicar seu caminho para a arte. Quando ainda era muito jovem, viveu a perda da sua mãe e anos depois começou a pintar.

Sua formação artística começa em Santiago de Compostela, na Real Sociedade Económica de Amigos do País de Santiago, onde era orientado pelo professor pintor José MaríaFenollera, seguindo a linha do realismo naturalista. De maneira rápida, o pintor começou a fazer exposições das suas obras que tinham muito a ver com a cultura galega e foi uma renovação do paisagismo, “su pintura de gran pulso vital, plasmando enella una emoción que fusiona el naturalismo conlaespiritualidaddel romanticismo” (TRIANARTS, 2014).

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Fig. 1: Ovidio Murguía, Tarde de invierno en el Sarela, ca. 1894

Em 1895, o pintor se mudou para Madrid e lá esteve em contato com outros artistas, utilizou a serra madrilena como paisagem para suas obras e embora não quisesse seguir os estudos formais de arte na Academia de Belas de San Fernando, Ovidio realizou diversas copias de obras dos professores do Museu do Prado como exercício de pintura.

Graças aos contatos que seu pai fazia, o pintor recebeu diversas encomendas de quadros, inclusive de pessoas que faziam parte da elite da época, como o presidente do Senado, Alonso MonteroRíos. Ovidio ficou encargado de, com oseu conjunto de obras mais conhecido, decorar parte dos muros do Pazo de Lourizán.Assim, “con temas costumbristas muy marcados por la tradición realista naturalista, decora con murales distintos palacios” (TRIANARTS, s/d).

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Fig. 2: Ovidio Murguía, Asando Patatas o Borralleiras (1895)

Entretanto, logo o pintor se cansou desse tipo de trabalho e decidiu que simplesmente deixaria de trabalhar para viver uma vida bohemia, sem nada que o prendesse, sem obrigações. Porém, esse estilo de vida custou caro para a sua já precária saúde. O pintor realizou algumas exposições, porém, viu sua saúde ser destruída pela tuberculose, que se agravou no verão de 1897, obrigando-o a voltar para sua casa na Coruña.

Ovidio permaneceu em Galícia sobre os cuidados de sua família, mas no dia 1 de Jnaeiro de 1990, com apenas 29 anos, não resistiu e faleceu. Suas obras estão hoje em diversos museu galegos e em março de 2014, a fundação Rosália de Castro apresentou uma pintura inédita do pintor galego. “El cuadro no catalogado, Árbore e montaña, la pieza quizá de mayor tamaño pintada por Ovidio Murguía, será restaurada en el Museo de Bellas Artes de A Coruña con la colaboración de la Consellería de Cultura” (LA VOZ DE SANTIAGO, 2014).

  • Joaquín Vaamonde Cornide

Nascido em 1872, na Coruña, Vaamonde começou a pintar ainda quando era uma criança, com o pintor Modesto Brocos. Ainda pequeno, o pintor viajou para a América do Sul com seus pais e só retornou a Galícia quando jovem, aos 22 anos, porém, já dotado de um estilo próprio para a pintura. Nesse tempo, Vaamondeconheceua escritora Emilia Pardo Bazán, “quien se convirtió en su protectora y le introdujo en los ambientes de la alta burguesía coruñesa y en la corte madrileña” (MUSEO DEL PRADO, s/d).

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Fig. 3: Retrato de Emilia Pardo Bazán (1896)

Vaamonde agradou tanto a Emilia P. Bazán que se tornou protagonista de umas das suas obras, La Quimera (1905), na qual foi retratado como um jovem pintor talentoso destacava a burguesia em suas obras, esperando chegar a ser como os professores que observava no Museu do Prado. O pintor se especializou na técnica de pintura com o papel e em retratos, recendo em 1895, uma menção honrosa na Exposição Nacional de Belas Artes.

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Fig. 4: Retrato de Isidro Brocos (1894)

Sua vida foi interrompida aos 32 anos de idade, no ano de 1900, quando o pintor faleceu por tuberculose. Suas obras estão expostas no Museo de Belas Artes da Coruña.

  1. Pintoras galegas atuais

3.1. Carlota Bueno Hermida

Pintora nascida na Coruña e que expôs suas obras pela primeira vez em uma mostra coletiva, no Conselho de Pontedeume, em 2001. A partir daí, participa de muitas outras exposições e concursos, recebendo em maio de 2011, no concurso de pintura rápida “Cidade Velha”, na Coruña, seu primeiro prêmio. Meses depois, no concurso de pintura rápida “Juan Jose Fernández-Leiceaga”, do Conselho de Noia, ela fica entre uma das finalistas.

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Fig. 5: Muiño de Xubia (s/d)

 

3.2. Josefina Carro

Nascida em 2 de março de 1942, em Barallobre (Fene), a pintora retrata em suas obras muito das paisagens que estavam ao seu redor, durante a sua infância, assim é possível ver refletidas em suas aquarelas, bosques, frutos e elementos da natureza. Foi também durante a infância que ela tomou gosto pela pintura. Através do pintor Jesús Balado, Josefina aprendeu os procedimentos da pintura com pastel.

Além desse ramo da arte, Josefina apreciava também a literatura, gostava de visitar exposições e museus e dessa maneira, conheceu os impressionistas e começou a aprender mais desse estilo, chegando a copiar obras de Degás, Manet, Renoir. Aprendeu os procedimentos e segredos da aquarela com o professor José Gonzalez Collado, dedicando-se com mais afinco a esse tipo de pintura, mas sem abandonar o desenho e as pinturas a óleo.

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Fig. 6: Tulipanes (s/d)

Joaquina foi acometida por uma doença, causando uma interrupção nas suas aulas, porém, retornou com ainda mais ânimo para a pintura, com uma paleta mais vida, aproveitando os contrastes de luz, troca no uso das cores. A pintora se apresentou em várias exposições, como em 2011 na Casa de lasPalmeras de Neda. 

  1. Conclusão

Estudando sobre a história da arte na Galícia é claro perceber o quanto essa região ainda está em processo de desenvolvimento, de formação de uma história com marcos próprios, porém, também é possível destacar o número crescente de praticantes da arte, de pessoas que se dedicam a retratar o que veem e o que sentem, claro, sofrendo influências do seu cotidiano, do espaço em que vivem.

Assim, no presente trabalho, foram destacadas as contribuições de alguns pintores que fizeram parte da base histórica para os estudos da Artes na Galícia, e os novos pintores, evidenciados aqui, principalmente, as mulheres pintoras, a fim de disseminar a arte ao passo que também se crie um espaço para a atuação feminina em assuntos majoritariamente marcados pelos homens.

  1. Referências

GALIPEDIA, A WIKIPEDIA EN GALEGO. Arte de Galicia, 2016. Disponível em: <https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Arte_de_Galicia&oldid=4031442&gt;.

VILAVEDRA, Dolores. Historia da literatura galega. Compostela: Galaxia, 1999.

GALERÍA JOSÉ LORENZO. A xeración doente: do pasamento prematuro ao inmediato mito, 2011. Disponível em: <http://galeriajoselorenzo.blogspot.com.br/2011/06/xeracion-doente-do-pasamento-prematuro.html&gt;.

GALIPEDIA, a Wikipedia en galego. OvidioMurguía. Disponível em: <en https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Ovidio_Murgu%C3%ADa&oldid=4056728>.

TRIANARTS. OvidioMurguía de Castro: Naturalista y romântico, 2014. Disponível em: <http://trianarts.com/ovidio-murguia-de-castro-naturalista-y-romantico/#sthash.zy0T9fsY.HHQDvjeH.dpbs>.

LA VOZ DE SANTIAGO. La Casa de Rosalía adquiere una obra desconocida de Ovidio Murguía, A Coruña, 2014. Disponível em: <http://www.lavozdegalicia.es/noticia/santiago/2014/03/23/casa-rosalia-adquiere-obra-desconocida-ovidio-murguia/0003_201403S23C109913.htm>.

MUSEO DEL PRADO. VaamondeCornide, Joaquín. Disponível em: <https://www.museodelprado.es/aprende/enciclopedia/voz/vaamonde-cornide-joaquin/322c9335-e3ce-46f4-86fd-455d4a4d806b>.

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As relações entre o galego e o português do Brasil. Curso de extensão na UERJ!

A partir da próxima semana o professor-leitor galego da Universidade de Viçosa, Diego Bernal, dará o curso de extensão “As relações entre o galego e o português brasileiro” na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O curso acontecerá nos dias 7, 8 e 9 de dezembro de 14:00 a 16:00 horas no Mini-auditório da Pós-Graduação em Letras.

As inscrições podem se realizar na Sala do Programa de Estudos Galegos ou através do email proeg.rj@gmail.com

Diego Bernal foi entre os anos 2011 e 2013 professor-leitor de língua, literatura e cultura galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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Palestra na UERJ: Aproximação à antroponímia galega do s. XVIII até hoje

A próxima segunda-feira dia 12 terá lugar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro a palestra Breve aproximação à antroponímia galega do século XVIII até hoje ministrada pelo doutorando em linguística da Universidade de Santiago Guillermo Vidal.

A atividade acontecerá no Miniauditório da Pós-graduação do Instituto de Letras às 12:00 horas.

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Guillermo Vidal é graduado em Letras Galego pela Universidade de Santiago de Compostela. Fez  o Mestrado de professorado de ensino de língua e literatura galega pela Universidade da Coruña. Foi professor de práticas no curso Galego sen fronteiras 2015 organizado pela Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega. Atualmente faz o seu doutorado no programa de Linguística da Universidade de Santiago de Compostela, sendo a onomástica a parte central da sua pesquisa.

A identidade galega em palavras de mulher(es)

Amparo Maleval

Professora de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e fundadora do Programa de Estudos Galegos nesta Universidade

Começamos por lembrar que, no século XII, a mais concorrida peregrinatio do Ocidente alcançou o seu apogeu. Por esta época, para a Cidade Santa de Santiago de Compostela – a terceira da Cristandade, ao lado de Roma e Jerusalém – chegaria a acorrer anualmente cerca de meio milhão de pessoas. O túmulo do Apóstolo Tiago Maior, que acredita(va)-se estar sob o altar-mor da basílica compostelana, era, e continua sendo, a motivação para a maioria dos que empreendem tal peregrinação.

É nesse contexto que se registram as primeiras produções do Trovadorismo em língua escrita, galega (ou galego-portuguesa). No século seguinte alcançariam a sua floração máxima, quando já declinava o prestígio político-religioso de Compostela.

Certamente que a importância dessa capital místico-religiosa do Ocidente muito contribuiu para o desenvolvimento do Trovadorismo ibérico, e para que a língua literária, mesmo que sem rígida norma, fosse o galego-português. Além do mais, o Caminho permitiu a interação entre os trovadores occitânicos, da Provença e adjacências, mestres na arte de trovar sobre a “fin’amors”, e a tradição poética autóctone, a que certamente se filiavam os peculiares “cantos de mulher” galaico-portugueses.

O Trovadorismo. A cantiga de mulher autóctone 

Embora as cantigas de mulher não fossem exclusivas do noroeste da Península Ibérica, filiando-se a antiga tradição[1], aí alcançariam uma fecundidade e uma particularidade ímpares no contexto europeu. Escritas por homens, mas certamente por eles recriadas a partir de cânticos preexistentes, as denominadas cantigas de amigo galego-portuguesas davam voz a mulheres para expressão dos seus anseios (amorosos), das incertezas e saudades do amado, bem como das suas iniciativas para encontrarem namorado nas romarias, nas igrejas, nas fontes, junto ao mar ou sob as “avelaneiras frolidas”. Nelas o corpo tem um enfoque distinto dos demais gêneros, sendo louvado e, mesmo, sacralizado apesar de estigmatizado pela Igreja, tornado etéreo nas cantigas de amor masculinas, e ridicularizado nas cantigas d’escarnho e de maldizer.

O mais antigo espécime galego-português seria a cantiga “Ai eu, coitada, como vivo em gran cuidado”, se aceitarmos a lição de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1991), atribuindo-a a D. Sancho I, segundo rei de Portugal (1185 – 1211), ao invés de a Alfonso X, o Sábio, de Leão e Castela (1221 – 1284), como o fazem outros especialistas (BREA, 1996, p. 140):

Ai eu coitada! Como vivo en gram cuidado

Por meu amigo que ei alongado!

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada! Como vivo em gram desejo

Por meu amigo que tarda e non vejo!

Muito me tarda

o meu amigo na Guarda! (BREA, 1966, p. 139).

Nela o soberano português representaria a sua amante, que tinha por alcunha A Ribeirinha, lamentando-se da sua ausência na Guarda, localidade situada na Serra da Estrela, que fundara e estaria povoando, para proteger o reino da invasão dos inimigos, cristãos ou muçulmanos. O interessante para a questão da identidade galega é que essa paralelística, ao que parece incompleta, possui o ritmo irregular da muinheira (versos bipartidos de 8 a 11 sílabas), que a douta filóloga citada observara ser “som talvez preexistente, litúrgico e popular” (VASCONCELOS, 1991, p. 593). A muinheira, lembramos, ainda hoje é dança, ou a música que a acompanha, popular da Galiza.

Infelizmente os documentos que contêm as cerca de 500 cantigas de amigo são apógrafos italianos dos primórdios do século XVI: o Cancioneiro Colocci-Brancuti, hoje pertença da Biblioteca Nacional de Lisboa, e o Cancioneiro da Vaticana. A exceção é constituída pelo Pergaminho Vindel, que contém quase intactas as sete cantigas manuscritas de Martin Codax, seis delas acompanhadas das respectivas pautas musicais, e cuja transcrição remontaria a fins do século XIII, inícios do XIV.

Nesses documentos autênticos de uma época, o jogral galego Martin Codax do século XIII narra-nos liricamente uma história de amor, os seus encontros e desencontros, através da voz de uma jovem que se lamenta pela ausência do namorado, e indaga sobre o amigo, a Deus ou às ondas do mar de Vigo, como na cantiga:

Ondas do mar de Vigo

Se vistes meu amigo

E ay Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar llevado,

se vistes meu amado?

E ay, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo

O por que eu sospiro?

E ay Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado

Por que ey gran coydado?

E ay, Deus, se verrá cedo! (BREA, 1966, p. 611)

Observe-se que uma das cantigas codaxianas, precisamente a que se destaca do conjunto por ser a única sem notações musicais, apresenta em uma festa sagrada a iniciação amorosa da jovem: “Eno sagrado, en Vigo, / baylava corpo velido /(…) que nunca ouver’ amigo …” (BREA, 1996, p. 610). Escrita na terceira pessoa, o que também a diferencia das demais cantigas codaxianas e do gênero cantigas de amigo, em que o discurso é direto, constitui uma narrativa que sacraliza o corpo. Com isto, evoca ritos de fecundidade praticados por civilizações pré-cristãs.

Dentre as marcas de originalidade das cantigas de amigo há que se ressaltar a representação dos elementos da natureza em que se (con)fundem o significado literal e o simbólico, principalmente para firmarem o erotismo que a partir deles se insinua. Distanciam-se, dessa forma, da natureza estereotipada do exórdio primaveril da canção provençal, por representarem, antes do mais, a natureza mágica, que congrega em si a religião e a sexualidade.

É curioso observar que, dentre as que mais finamente dão conta do universo simbólico que remete à cosmogonia dos substratos autóctones, e onde se marca de forma inconfundível o papel da mulher na sedução amorosa e nos processos iniciáticos de uma espécie de “metafísica” da sensualidade, são quase que invariavelmente galegos, ou presumivelmente galegos, os seus autores ou recolhedores da tradição oral. Dentre eles, lembraríamos, além do já citado Martin Codax: Pero Meogo, notário compostelano, que imortalizou em paralelísticas exemplares os rituais amorosos em que se destacam fontes e cervos na simbologia evocada; Airas Nunes, clérigo compostelano da belíssima bailia, que focaliza o bailado das jovens sob as “avelaneiras frolidas”, também recolhida da tradição por João Zorro; Paio Gomes Charinho, almirante pontevedrense de inesquecíveis barcarolas, em que navegam “as flores” do amigo, desejadas pela jovem; e Meendinho – oriundo talvez de Vigo, cujo nome aparece ligado à antológica cantiga “Sedia m’eu na ermida de San Simion…”, que tão excelentemente ilustra o sincretismo religioso de então, em que um local de oração é novamente transformado em lugar de namoro e cópula.

Uma das provas mais evidentes do prestígio cultural da Galiza trovadoresca é que Afonso X (século XIII), apesar das suas iniciativas para centralizar na corte toledana o poder político, e também religioso-cultural, acataria o galego como koiné literária em suas produções não restritas aos Cancioneiros profanos. As cantigas de Santa Maria (METTMANN, 1981), apesar de raramente prestigiarem Santiago, ou até desmerecerem-no em prol da Virgem, ao serem escritas em galego atestariam a importância da cultura galega.

É lamentável que já no século seguinte ao XIII começasse o vertiginoso declínio dessa língua literária. A tal ponto que, em meados do século XV, o Marquês de Santilhana, dirigindo-se a D. Pedro, Condestável de Portugal, testemunhava que “non ha mucho tiempo qualesquier dezidores e trobadores destas partes, agora fuesen castellanos, andaluzes o de la Estremadura, todas sus obras escribían en lengua gallega o portuguesa” (LÖPEZ DE MENDONZA, 1988, p. 448).

Já era, pois, coisa do passado o prestígio da Galicia, iniciando-se os chamados Séculos Oscuros principalmente sob a ação centralizadora dos Reis Católicos nos séculos XV-XVI, em que a língua própria dos galegos ficaria relegada quase que exclusivamante à oralidade, à fala dos labregos. E a sua língua literária apenas no século XIX seria ressuscitada, principalmente na poesia de uma mulher, Rosalía de Castro. Portanto, se nos Séculos de Ouro medievais as cantigas de mulher, mesmo que escritas por homens, marcavam a especificidade galega desses cantos no contexto europeu, seriam também poemas de mulher, desta vez autorais, que iniciariam o Rexurdimento pleno da literatura galega.

O Rexurdimento. Rosalía de Castro

Todos sabemos que o século XIX, no mundo ocidental, presencia ao fortalecimento dos Estados nacionais, a par da Revolução burguesa, assentada na indústria e no Liberalismo. Nesse contexto se instaura o Romantismo nas artes, promovendo a valorização do popular e das raízes medievais dos povos enquanto marcas de sua identidade. Sob esses ímpetos popular-nacionalistas, na Galiza caberia a Rosalía de Castro, nascida em Santiago de Compostela, 1837, e falecida em Padrón, 1885, papel primacial no revigoramento da identidade galaica. Isto se deu através dos seus Cantares Gallegos, obra escrita em galego e desde o título comprometida com a galeguidade, publicada em 1863, seguida por Follas novas, de 1880. O 17 de maio, dia da publicação dos Cantares gallegos, foi transformado no Dia das Letras Galegas, no qual a cada ano se homenageia um intelectual galego de destaque.

A poesia da autora marca-se inclusive pela perquirição existencial, por um caráter intimista em que são motivos recorrentes a dor, a sombra, a morte. Mas é o seu lado combativo e galeguista que nos interessa no momento observar. Este é ainda mais admirável se pensarmos no contexto adverso em que se inscrevia marginalmente, como mulher culta e inteligente e como galega, sendo seu país e sua língua então duramente menosprezados.

Documenta nos seus poemas não apenas a língua falada do povo, mas as suas cantigas e romances. Diria num deles: Cantart’ei, Galicia, / Teus dulces cantares, / Qu’asi mô pediron / Na veira do mare. // Cantart’ei, Galicia, / Na lengua gallega, / Consolo dos males, / Alívio das penas (CASTRO, 1992, p. 17-18).

O drama da emigração, a que eram empurrados os galegos por motivo da negra situação político-econômica que atravessavam, tornaria o seu canto ainda mais dolente que o das amigas ancestrais, preocupadas com questões erótico-sentimentais. Tal se percebe no poema que glosa o mote popular Adios, rios, adios, fontes; / Adios, regatos pequenos; / Adios, vista dos meus ollos, / Non sei cando nos veremos. Aí, com dorida meiguice a personagem se despede da natureza amada – da ortiña, das figueiriñas, dos paxariños piadores, etc. -, da casa, dos amigos…, com a consciência de que deixa amigos por extraños, a veiga pó lo mar… enfim, que deixa canto ben quer” (CASTRO, 1992, p. 84).

Se o destino é Castela, dirá Rosalía em outro poema, denunciando a exploração e o descaso de que eram vítimas os galegos: Cando foi, iba sorrindo, / cando veu, viña morrendo (…) Foi a Castilla por pan / e saramagos lle deron… (CASTRO, 1992, p. 155). Mas era Havana o grande foco de atração para os emigrantes da época. Por isso registraria, no livro As viudas d’os vivos e as viudas d’os mortos, passagens sofridas dos que !Van a deixá-la patria!… / Forzoso, mais supremo sacrificio. / A miseria está negra en torno d’eles, / !ay!, !y adiant’está o abismo!… ( CASTRO, 1975, p. 125).

A imagem da solidão feminina, muito mais triste, por ser duradoura e mesmo por vezes definitiva a ausência masculina, do que a das donzelas nas cantigas de amigo medievais, é retomada no poema abaixo:

Tecín soia a miña tea,

Sembrei soia o meu nabal,

Soia vou por leña ó monte,

Soia a vexo arder no lar.

Nin na fonte nin no prado,

Así morra coa carrax,

El non há de virm’ e a erguer,

El xa non me pusará.

!Que tristeza! O vento soa,

canta o grilo ó seu compás…

Ferve o pote… mais meu caldo,

Soíña t’hei de cear.

Cala, rula, os teus arrulos

Ganas de morrer me dan;

Cala, grilo, que si cantas,

sinto negras soïdas.

O meu homiño perdeuse,

Ninguén sabe en onde vai…

Anduriña que pasache

Con el as ondas do mar;

Anduriña, voa, voa,

Ven e dime en ond’ está. (CASTRO,1880, Follas novas)

Sozinha, a mulher lutava pela subsistência, com os parcos recursos que a terra permite: “soia” (sozinha) tece, semeia, colhe. Os lugares de outrora para o encontro amoroso – as fontes, o prado…- estão vazios de amantes. A natureza festiva, na voz de grilos e rolinhas, só provoca as “negras” saudades. Mas os seus elementos, oraculares no passado, aqui representados pela andorinha, ainda são evocados para a obtenção de notícias do homem distante. E o mar novamente separa, agora de forma definitiva, os casais. Ao namorado cavaleiro que se dirigia ao “fossado” com el-rei para guerrear, ou que nas barcas se afastava para a luta, substituiu o marido obrigado, pela miséria, a emigrar, afrontando o imenso Mar Oceano.

Portanto, apesar de cantar um momento de agruras do povo galego, a voz de Rosalía faz retornar a dignidade da língua literária, reafirmando a identidade vilipendiada de um povo que ainda teria de enfrentar as perseguições do franquismo para, nos dias de hoje, viver uma nova “Idade do Ouro”, particularmente fecunda na literatura.

Atualidade áurea da literatura. Luz Pozo Garza.

Dentre os numerosos e excelentes escritores galegos da atualidade, muitas são as mulheres que constróem esse novo discurso literário galego.

Uma das primeiras a reescrever na língua matria, após a Guerra Civil de 1936-1939, foi Luz Pozo Garza (nascida em Ribadeo, 1922). Nela nos deteremos, na impossibilidade de por ora focalizarmos outras importantes vozes.

Sofreu a traumática experiência da perseguição franquista, sendo então o seu pai se exilado em Marrocos, onde ficaria com a família até 1940. Retornando à Galiza, estuda e publica os seus primeiros poemas em castelhano, devido à proibição de editoração de livros em galego, sendo que somente em 1947 tal situação seria modificada por Aquilino Iglesia Alvariño, com a obra Cómaros verdes.

Já em 1952, a poetisa iniciaria a sua etapa bilíngüe, sendo neste ano publicado o seu primeiro livro em galego, O paxaro na boca. Nos anos 80 e 90 assume o galego como língua literária única. Além das perseguições político-lingüísticas, sofreu a segregação machista da ditadura, só amainada nos anos 60-70, que relegava mais que nunca a mulher ao mundo privado e doméstico. Por isto, teria que figurar apenas como vice-diretora da revista Nordés, de poesia e crítica, a partir de 1975 ao lado do poeta Tomás Barros. A sua excepcionalidade é comprovada também pelo fato de tornar-se correspondente da Academia Galega logo após a publicação do seu primeiro livro, que teve uma entusiasta acolhida por boa parte da crítica, muito embora alguns críticos louvassem a beleza da autora, ao invés das suas qualidades poéticas (BLANCO, 1991, p. 25-37).

Além de poetisa, foi professora de língua e literatura, crítica literária e amante da música e da pintura, atividades que repercutiriam na sua obra. Esta se caracteriza principalmente por um caráter intimista e clássico, embora a época fosse de hegemonia do social-realismo nas artes. Além do já citado livro inaugural, O paxaro na boca (1952), escreveu em galego Verbas derradeiras (1972), Concerto de outono (1981), Códice calixtino (1986) e Poemeto a flor de loto (1992).

Códice calixtino, de 1986 (Ed. Sotelo Blanco), reeditado de forma crítica e mais completa em 1991 (Ed. Xerais), vem sendo considerado a sua principal obra, obra de síntese e plenitude (PANERO, 1993, p. 15) em que se observam, a par do intimismo já referido, o seu simbolismo imaginista e/ou neotrovadoresco que desembocam em profundas reflexões sobre a existência, sobre o amor e a morte, sobre o sentido da poesia, etc. Desde o título escolhido – o mesmo usado para denominar, no século XII, o conjunto de textos do Liber Sancti Iacobi, isto é, de textos relacionados ao culto de Santiago, à peregrinatio – configura-se o caráter existencialista e de síntese, que retoma desde o apogeu da Era Compostelana e do Trovadorismo, até a nostalgia, a sombra e a morte da poesia de Rosalía, além de espaços e cânones universais, transubstanciados pelo seu poder de recriação, de abstração, de contemplação intelectual e mística.   Aí, o sujeito da poesia se coloca “Coma Dante chegando ao paradiso“, partindo “do principio segredo que nos chama sem verbas / sem panos sem acenos / o exilio transvirado em limiar confidente...” (MORÁN, 1999, p. 262). Ou, num evidente diálogo com as marinhas de Martin Codax, declara o seu amor ao mar de Vigo – a luz, o espaço único, “os días indecisos“… – , que termina por contemplar acompanhada, não mais solitária como as amantes das cantigas ancestrais. Aliás, as cantigas medievais são um dos motivos recorrentes na sua obra, retomadas não apenas em poesia – veja-se ” En Vigo, no sagrado”, de Concerto de outono (VIEIRA, 1996, p. 135-136), em que, “a xeito de cantiga“, perscruta o “sagrado segredo” de Vigo através de ressonâncias de cantigas não apenas codaxianas, mas de Paio Gomes Charinho, Nuno Fernández, etc. Também as revisita em ensaio intitulado Ondas do mar de Vigo. Erotismo e consciência mítica nas cantigas de amigo (POZO GARZA, 1996).

Concluiremos lembrando um dos seus poemas, também de Concerto de outono, no qual dialoga com a “mãe” da poesia galega, Rosalía de Castro, intitulado “Preguntas a Rosalía”. Desde a epígrafe já percebemos tratar-se de uma perquirição fundamentalmente existencialista: “A buscar a táboa / De salvación para sobrevivir / Ao naufraxio vital.“, inspirada em “García-Sabell (Rosalía y su sombra)”. Mas sem deixar de ser galeguista, já que é guiada por Rosalía “Á percura da táboa / Nosa“. Vamos segui-las nesse percurso:

Noitébrega sibila

De palavras de cinza

Acórdanos o fado

Desta terra.

As aldeas pechadas

Esqueceron as verbas.

Ónde quedou a espranza

que percute no peito?

Unha roda de chumbo

Vai calcinando a pedra.

Non me ves desvelada

Sobor da terra moura

Sobor da terra núa?

Si ollas na miña ialma

Ollas tamén Galicia.

Que sorte

       norte

       morte

                           nos agarda?

(VIEIRA, 1966, p. 137-138)

Enfim, mesmo que sem realizar uma poesia abertamente ufanista, Luz Pozo Garza firma a identidade galega não apenas por escrever em galego, ou por refletir sobre a condição de ser galego, ou por retomar a melhor tradição da poesia galega, dos Trovadores a Rosalía. Mas por colocar-se, ela própria, como uma amostra daquele que é, conforme destacamos de início, um dos traços identificadores da sua terra: a poesia. A ponto de já estar se tornando um lugar-comum a máxima: Galicia, terra de poetas…, onde, acrescentamos, as mulheres sobressaem.

Nota: artigo publicado, com pequenas diferenças, em MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (Org.). Estudos Galegos III. Niterói: EdUFF, 2002, p. 113-122.

Referências bibliográficas

BLANCO, Carmen. “Introducción” a POZO GARZA, Luz. Códice Calixtino. Ed. crít. Xerais; Vigo, 1991.

CASTRO, Rosalía de. Obra poética. 8. ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1975.

_______. Poesía galega completa. I – Cantares gallegos. Santiago de Compostela: Sotelo Blanco Ed., 1992.

LÓPEZ DE MENDONZA, Iñigo (Marqués de Santillana). Obras completas. Ed., int. y notas de Angel Gómez Moreno. Maximiliam P.A.M. Kerkhof, 1988.

MALEVAL, Maria do Amparo Tavares. Peregrinação e poesia. Rio de Janeiro: Ed. Ágora da Ilha, 1999.

________ (Org.). Estudos galegos III. Niterói: EdUFF, 2002.

METTMANN, Walter. Cantigas de Santa María, de Afonso X, o Sabio. Ed. crítica. Vigo: Xerais, 1981. Vol. II.

MORÁN, César. Río de son e vento. Unha antoloxía da poesía galega. Vigo: Xerais, 1999.

PANERO, Carmen. Códice calixtino de Luz Pozo Garza. Pontevedra: Edicións do Cumio, 1993.

POZO GARZA, Luz. Códice Calixtino. Ed. de Carmen Blanco. Vigo: Xerais, 1991.

————. Concerto de outono. Sada, A Coruña: Edicións do Castro, 1981.

————. Ondas do mar de Vigo. Erotismo e conciencia mítica nas cantigas de amigo. A Coruña: Espiral Maior, 1996.

VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de. Cancioneiro da Ajuda. Halle, 1904 – Reimp. Lisboa: IN/CM, 1990. 2 vols, vol. II, p. 593-59.

VIEIRA, Yara Frateschi (Org.). Antologia de poesia galega. Campinas: Ed. da UNICAMP. 1966.

[1] Desenvolvemos reflexões sobre a ancianidade das cantigas de mulher em MALEVAL, 1999, p. 47-51.

As Letras Galegas ’16 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

O Programa de Estudos Galegos tem o prazer de divulgar a programação da Jornada de Letras Galegas 2016. Esse ano, o evento não só homenageará o poeta galego, Manuel María, como também tem o intuito de apoiar à greve da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a qual se iniciou em março e que denuncia o sucateamento da UERJ, a falta de investimentos para preservar sua manutenção e a crise que tem vivenciado nos últimos anos. Por isso, decidimos realizar nosso evento como uma atividade de greve e num formato mais compacto.

Iniciaremos a Jornada às 11h, no hall térreo com a apresentação do PROEG, do evento e do autor homenageado, além de uma breve exposição sobre o centenário das Irmandades da Fala e leitura de poemas. Finalizaremos o primeiro bloco do evento com um grupo de músicos e dançarinos de música tradicional galega da Casa de España. Após o intervalo de almoço retomaremos nossas atividades às 14h, no Salão Nobre no Instituto de Letras, 11º andar, para exibição do documentário “Manuel María: Eu son a fala e a terra desta Miña Terra”.

Esperamos a presença de todos os alunos e alunas e professores/as da comunidade acadêmica para nos inspirarmos nos poemas de luta e resistência de Manuel María, para assim realizarmos nossa própria luta.

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Os Estudos Galegos no Rio de Janeiro

Denis Vicente

Professor-leitor de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2014-2015)

O Programa de Estudos Galegos (PROEG) foi criado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro no ano 1996. Segundo os seus próprios estatutos, os objetivos do programa são:

• desenvolver, estimular, dar apoio e assistência a atividades relativas ao ensino, à pesquisa e à extensão em áreas do conhecimento que envolvam ou se relacionem com a língua, a literatura e a cultura galega.

• promover o intercâmbio cultural com a Galiza.

Buscando alcançar estes objetivos, o PROEG oferece 4 disciplinas eletivas universais no Instituto de Letras, e promove eventos diversos sobre a cultura galega. As eletivas do PROEG são: Língua Galega; Introdução à Cultura Galega; Literatura Galega I e Literatura Galega II. O número de alunado inscrito tem sido bastante elevado nos últimos anos, contando com 57 alunos e alunas no 2014 e com 58 no ano 2015, fundamentalmente de Letras, mas também de História, Relações Internacionais, Trabalho Social ou mesmo de Física.

No ano 1998, foi assinado um convênio de colaboração entre a Consellaria de Educación e Ordenación Universitaria da Xunta de Galicia e a UERJ, que continua vigente, para a criação de um Leitorado, envio de um professor de galego vindo da Galiza, no PROEG. Assim, desde este momento vários foram os galegos e galegas que atuaram como professores na UERJ: Beatriz Gradaille, Baltasar Pena ou Diego Rico, entre outros/as.

Quanto à direção, desde o início, e até o ano 2014, o programa foi coordenado pela professora Amparo Maleval, reconhecida especialista no estudo da lírica medieval galego-portuguesa. Na atualidade, a coordenadora é Claudia Amorim, professora de literatura especialista nas literaturas do XIX em diante em língua portuguesa, e que no âmbito galego tem pesquisado sobre Otero Pedrayo ou Eduardo Blanco Amor.

Além do trabalho do leitor e da coordenadora, colaboram no PROEG diferentes bolsistas e pesquisadores/as, que fazem que o Programa seja conhecido em toda a faculdade e que as atividades possam acontecer com sucesso. Entre os bolsistas podemos destacar nos últimos anos a Gabriel Kaizer, pela sua intensa colaboração, e entre os pesquisadores e pesquisadoras a Thayane Gaspar, que na atualidade faz pesquisa sobre Cabanillas e o celtismo na literatura galega comparativamente com o celtismo em Portugal e na Irlanda; Fernanda Lacombe, no âmbito da literatura galega de mulher e o papel da literatura de transmissão oral; ou Nina Barbieri, que faz o seu doutorado sobre a prosa medieval galego-portuguesa, concretamente sobre a Crónica Troiana, entre muitos outros e outras.

O Leitorado de Galego do PROEG vem promovendo também a difusão da língua, literatura e cultura galegas mediante a realização de diversas atividades dentro e fora da UERJ. Todos os anos se realizam atividades comemorativas do Dia das Letras Galegas, 17 de maio (palestras, recitais poéticos, exibição de filmes, exposições de imagens e textos, mostras de musica galega, etc.) e também se vêm participando, com caráter anual, no Programa UERJ Sem Muros, com o objetivo de dar a conhecer o Programa na UERJ e na comunidade carioca.

Aliás, nos últimos dois anos a atividade foi constante, como se pode comprovar nas publicações deste mesmo blogue, que serviu para a divulgação das atividades do programa e para a postagem de artigos de interesse inicialmente de alunado das matérias oferecidas na faculdade. Assim, tiveram lugar palestras de professores e pesquisadores galegos como Isabel Cabanas (USC) sobre o caminho de Santiago; Rosario Álvarez (USC), Elisa Fernández Rei (USC) ou Francisco Dubert (USC) sobre questões linguísticas; Malores Villanueva, Afonso Monxardín ou Gonzalo Vázquez sobre literatura e cultura galega contemporânea; Adrian Dios (USC) sobre o aspeto mais político da Galiza atual; ou Mateo Verdeal e Maite Insua sobre o uso do galego na juventude. Aliás, nas jornadas das Letras Galegas, participaram inúmeros professores e professoras, entre os que podemos destacar os sociolinguísticas Xoán Lagares (UFF) e Dante Luchessi (UFBA); a historiadora Erica Sarmiento (UERJ) ou a prática totalidade do professorado de Letras da UERJ, UFRJ e UFF com pesquisa galega. Aliás, nos últimos dois anos teve lugar a Semana Audiovisual Galega, com projeção de filmes como Doentes, Trece badaladas ou Vilamor, documentários e música ao vivo.

Além das aulas e das atividades culturais, o PROEG conta com uma série de publicações relacionadas, na sua imensa maioria, com temas galegos: Raízes; Estudos Galego-Brasileiros em colaboração com a Universidade da Corunha, ou Estudos Galegos, entre outros.

O PROEG conta, aliás, com uma biblioteca dotada de aproximadamente mil volumes, entre os existentes na Sala do Programa e os já colocados na Biblioteca de Letras, tanto publicados na Galiza ou a ela referentes.

Finalmente, o PROEG tem proporcionado a ida de alunos e professores anualmente à Galiza para cursos de verão de Língua Galega, como bolsistas.

Pelo anteriormente referido, o Programa de Estudos Galegos da UERJ é hoje uma referência nos estudos galegos no Brasil e em toda a comunidade internacional da nossa língua.

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Português do Brasil ao vivo no Canecão

Diego Rico

Professor de português na EOI de Plasencia e professor-leitor de galego na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2011-2013)

O Canecão foi uma das mais importantes salas de concertos do Rio de Janeiro. Por ela passaram artistas fundamentais da música brasileira como Elis Regina, Tom Jobin, Vinícius de Morais, Chico Buarque, Cazuza ou Legião Urbana.

O nome de Canecão deve-se a que o local foi concebido originalmente como uma grande cervejaria no conhecido bairro de Botafogo. Caneca designa em galego-português um copo com asa para beber líquidos e a terminação –ão, habitual sufixo aumentativo, tem no português brasileiro uma produtividade extraordinária, bem superior à das variedades lusitana e galega da língua portuguesa.

Assim na liga de futebol brasileira, o brasileirão, jogam equipas como o fogão –Botafogo- e o mengão -Flamengo. Quem não gostar de futebol sempre pode ver O domingão do Faustão, popular programa da TV. Eu, na verdade, recomendaria o corujão, sessão em que passam filmes de madrugada.

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Sacolão

As altas temperaturas do Rio de Janeiro fazem com que seja habitual a comida de rua: tapioca, acarajé, cuscuz doce, pamonha, curau… são algumas das iguarias típicas que podem ser consumidas em plena calçada carioca. Calçada é no Brasil qualquer passeio, daí não confundir com o calçadão pois este só é o da orla de Copacabana ou Ipanema. Quem preferir comer hambúrguer ou cachorro quente é só ir no podrão, nome popular com que são conhecidos estes postos na rua. Para beber pode ser um latão geladão–lata grande bem fresquinha- ou um litrão -garrafa de um litro- de cerveja. Saudades de uma boa empada galega? É só enfiar numa padaria e pedir um empadão –em Portugal seriam as típicas bolas da Guarda. Quanto à sobremesa, recomendo um churrão, nome das farturas no Brasil, recheado de doce de leite com coco e coberto de açúcar com canela. Estás de dieta? vá no sacolão, comprar uma frutinha. Ora bem, almoço universitário é no bandejão, local onde servem refeições muito económicas. Calma! Arroz e feijão não há de faltar. Onde também há bandejão é no brizolão, escolas desenhadas por Oscar Niemeyer concebidas para seguirem a pedagogia de Darcy Ribeiro e que levam o nome do político que as impulsionou, o polémico Leonel Brizola. Brizola, ainda que nunca foi militante do partidão –o partido comunista- foi um político progressista que lutou contra a ditadura militar de 1964.

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Brizolão

Para voltar a casa pode-se ir de busão. Se for a hora do pico vai ser mais desconfortável do que ir no camburão da polícia e por isso é recomendável pagar um pouquinho mais e usar o frescão, autocarro com ar condicionado e poltronas confortáveis. De resto, para veículos assustadores já temos o caveirão da BOPE.

Se for feriadão, com dias de folga pela frente, sair da cidade e fazer um mochilão para ficar um tempão na região serrana do Rio de Janeiro, é uma boa opção.

A lista seria longa de mais pois como dissemos ao princípio este sufixo virou uma rica fonte de inovações lexicais privativas do português americano. Assim o fato-macaco do português europeu vira macacão na outra beira do Atlântico, um graffiti é uma pichação, um rojão é um foguete usado nas festas ou nos protestos para fazer barulho e o lugar aonde vai parar todo o lixo da cidade é o lixão.

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Sacolão

Noutras ocasiões as palavras respondem a realidades exclusivas do Brasil. Orelhão é a cabine telefónica no Brasil, que tem forma de orelha grande; o minhocão é um prédio-favela vertical do Rio de Janeiro; o mergulhão um túnel que há no centro da cidade e arrastão uma tática de roubo urbano que surgiu na praia de Copacabana na década de 80.

A gíria não podia ficar à margem desta terminação. Ferradão é alguém que tem problemas, doidão alguém que está sob os efeitos de drogas e chapadão alguém que fumou maconha.

É bom sublinhar que a pronúncia do –ão em português está sujeito a muita variação. Lembremos que na área metropolitana do Porto, a segunda cidade mais povoada de Portugal, é pronunciada –om/-am, tal e como era no galego-português arcaico. O famoso mercado do Bulhão é Bulhom e o estádio do Dragão, Dragom. Esta é a pronúncia típica da área originária do galego-português e a que se mantém na Galiza e no norte de Portugal.

Por último, para se despedir, a melhor saudação no Brasil é sempre um abração.

II Semana Audiovisual Galega: A Galiza Celta. Na UERJ!

Por segundo ano consecutivo vai ter lugar na UERJ a Semana Audiovisual Galega, organizada pelo Programa de Estudos Galegos (PROEG).  Nesta segunda edição dedicada à celticidade da Galiza, ao debate sobre o papel que o celtismo teve na construção da identidade nacional da Galiza.

Esta jornada de atividades acontecerá na segunda-feira 16 de novembro desde as 09:30h até as 19:45h no Miniauditório da pós-graduação, no Instituto de Letras (11 andar).

O programa é o seguinte:

09:30 Palestra. “O celtismo na literatura galega” Thayane Gaspar (UERJ)

10:00 Documentário e debate. “Celtismo e identidade na Galiza”

11:30 Leitura de poemas galegos

12:00 Intervalo

16:30 Curtametragens e debate: “Mamasunción” (1984); “As almas do Fental” (2009) e “Loita de clases” (2013)

17:30 O celtismo na música galega. Mostra musical

18:00 Música ao vivo: a gaita de fole. Baltasar Pena

18:45 Palestra: “A memória cultural celta da Galiza e da Irlanda”, Erick Carvalho (UNIRIO)

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Seminário na UERJ: “Novas vozes da poesia galega no século XXI”

A próxima quarta-feira 28 de outubro às 16:00 horas terá lugar no RAV 112 do Instituto de Letras da UERJ o Seminário aberto “Novas vozes da poesia galega no século XXI”. Será impartido por Gonzálo Vázquez, da Universidade de Paris-Sorbonne. É a primeira atividade realizada no Rio de Janeiro para conhecer a imensa qualidade da poesia galega contemporânea.

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Gonzalo Vázquez é licenciado em Filologia galega pela Universidade de Vigo e obteve um Mestrado em estudos teóricos comparados de literatura e de cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Desde muito novo, ampliou a sua formação em língua e literatura com incursões no campo das artes, entre as quais, o desenho tem ocupado um lugar principal. Foi professor-leitor de Língua, Literatura e Cultura Galega na Universidade de Paris-Sorbonne, onde atualmente continua dando aulas e fazendo pesquisa.

Ademais, é autor da antologia A cidade na poesia galega do século XXI, publicada na editorial Toxosoutos, e tradutor ao galego de Una vita violenta do italiano Pier Paolo Pasolini.

O galego no XII Fórum de Estudos Linguísticos (FELIN) da UERJ

Entre a terça-feira 20 e a sexta-feira 23 de outubro terá lugar na UERJ o XII Fórum de Estudos Linguísticos (FELIN). Nesta XII edição a língua e literatura galega também estarão presentes, através de três comunicações na Mesa coordenada pela professora Claudia Amorim, baixo o título Identidade(s): Língua, Literatura, Cultura.

  • Thayane Gaspar: O celtismo na poesia de Ramón Cabanillas
  • Asafe LisboaGalego, português, uma questão de língua e familiaridade
  • Denis Vicente: A construção do galego legítimo. Identidades e ideologias

O celtismo na poesía de Ramón Cabanillas

Este trabalho busca investigar os elementos celtas usados na representação de uma identidade nacional na poesia de Ramón Cabanillas, revelando por meio deles a ligação entre Galícia e Irlanda. Com a análise dos poemas (“Irlanda!” e “A Brañas”) muito significativos no contexto do celtismo galego dos séculos XIX e XX, pode-se perceber como o poeta traz à tona as ideologias nacionalistas, o passado celta através das correntes chamadas de panceltista e atlantismo, mesclando literatura com as reivindicações daquela época. O poeta nacional se lança como o poeta messiânico, esperado num momento de renascimento da cultura, da língua e da história de Galícia. Para isso, serão analisados dois poemas presentes na obra Da Terra Asoballada, obra de cunho cívico, na qual o patriotismo e o nacionalismo depositam suas esperanças no sucesso obtido na renascença pela qual a Irlanda passou e por conta disso, a Irlanda se torna um modelo a ser seguido pelos galegos como demonstrarão os poemas.

Galego, português, uma questão de língua e familiaridade

É comum estudarmos a língua portuguesa e suas literaturas a partir das reminiscências mais óbvias. O resultado desse estudo geralmente conduz à paragens bem conhecidas, localizadas sobretudo na Península Ibérica, e a outras mais remotas, na Península Itálica. Uma região fundamental, entretanto, segue praticamente ignorada: a Galiza. O presente artigo busca apresentar uma perspectiva que leve em conta a estreita (e muitas vezes conflitante) relação entre o português e o galego. A partir da manifestação literária mais antiga da península ibérica, a lírica trovadoresca, constata-se o pleno florescer do galegoportuguês como língua de expressão poética. No âmbito da prosa, porém, há um esforço para denominar o que vem a ser estritamente galego e estritamente português. Essa tentativa de cisão, que se processa aparentemente apenas na literatura, na verdade é o gérmen de um apagamento deliberado da origem galega da língua portuguesa.

A construção do galego legítimo. Identidades e ideologias

A oficialização da primeira norma escrita do galego teve lugar no ano 1982. Até esse momento, por causa da perda de soberania da Galícia ao longo da sua história e a impossibilidade de criar instituições próprias em que o galego fosse língua oficial das administrações e da escola, a língua utilizada foi o castelhano, e o latim no âmbito eclesiástico. A criação da norma oficial da língua teve lugar em meio de muitas polêmicas, que atendem fundamentalmente a critérios ideológicos e identitários, a que papel deve ter o galego na sociedade e no marco internacional, e como deve ser a focagem da proposta glotopolítica de ‘normalização linguística’, de recuperação de espaços e usos para a língua na sociedade, após séculos de marginalização. Procuramos, assim, analisar este processo no seu marco histórico, e também as repercussões que teve para o galego no espaço do português, e nas políticas linguísticas aplicadas na Galícia.

FELIN

Mais informação em http://www.felin.pro.br/