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Pintores e pintoras galegos

Renata Flávia de Souza

Aluna de Introdução à Cultura Galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  1. Introdução: uma breve contextualização da história da arte em Galícia

É possível identificar, desde os tempos primórdios, a relação humana com a arte em seus mais distintos objetivos como a comunicação, a imitação da natureza e a expressão de sentimentos. Realizada por meio de diferentes linguagens (arquitetura,desenho, dança, escultura, pintura,escrita e variadas derivações), a arte seria o processo criativo capaz de transformar a subjetividade em algo visível, palpável e pertencente ao plano físico.

A Galícia é um país marcado pela presença de diversos povos e consequentemente diversas culturas. Ali é possível encontrar vestígios artísticos desde a era paleolítica, como as pinturas rupestres encontradas na gruta de Eirós, na aldeia de Cancelo, datadas pelos investigadores em aproximadamente 30.000 anos. “Estas pinturas están xeralmente ligadas a ritos relixiosos e representan a plasmación nunha linguaxe simbólica do pensamento dos primeiros seres humanos” (EL PAÍS, 2012), ou seja, a arte como representação do cotidiano.

Na Idade Média, no período em que o atual território galego foi conquistado pelos romanos, observou-se uma fase bastante produtiva para o desenvolvimento artístico dessa região. As igrejas construídas eram ricas dos mais diversos detalhes arquitetônicos, colunas primorosamente esculpidas, pinturas e muitos tipos de decoração que remetiam ao caráter religioso. Em Galícia, até os dias atuais, se conservam os restos das pinturas realizadas naquele período.

Durante a Idade Moderna, a Galícia passou por um período chamado “Séculos Escuros”, no qual ocorreu uma forte imposição da cultura espanhola sobre a cultura galega. Dessa maneira, pouca coisa era produzida, gerando uma grande estagnação nos processos de desenvolvimento da arte galega, assim, “a falta de escolas e de tradición pictórica provocaron que as pinturas deste período sexan escasas e de non moita calidade”.

Com o advindo do Romantismo, no século XIX, uma série de reivindicações realizadas na Península Ibérica, reavivou o espírito regional e a identidade subjetiva dessas regiões (VILAVEDRA, 1999). Na Galícia, o choque entre o castelhano e a língua galega, converteu-se na valorização de se ter um idioma próprio. Assim, através dessa revitalização cultural, a etapa chamada de “Ressurgimento” foi marcada por diversos movimentos artísticos e culturais.

Nesse caminho, foram ocorrendo avanços no que diz respeito a arte e cultura galega, como a formação da primeira geração de pintores galegos, a “Xeración Doente”. Foi a partir da chegada de diversos artistas empenhados em transmitir seus conhecimentos nos centros de artes de Galícia que se formaram os primeiros artistas galegos, como Ovidio Murguía, Ramón Parada Justel, JoaquínVaamonde e Jenaro Carrero. “Esta xeración, non obstante, ollou con estupor como a pintura ficaba prácticamente ausente na súa terra. Cunha perspectiva un tanto utópica estes artistas reivindicaron a arte da pintura e procuraronunrecoñecemento público” (LORENZO, 2011) e para isso, retratavam a essência do seu país.

Atualmente, é possível verificar o número crescente de mostras de pinturas galegas, quadros que são expostos inclusive em outros países, e pintores que são aclamados com prêmios por suas obras. Isso mostra que a arte encontrou espaço nessa região e se desenvolve de modo a construir novos caminhos para a história da região da Galícia.

  1. Pintores galegos antigos

2.1. Ovidio Murguía de Castro

Nascido em 1871, em Torres de Lestrove, Dodro – A Coruña, OvidioMurguía, como era mais conhecido, era filho dos escritores Manuel Martínez Murguía e Rosalía de Castro, o que pode explicar seu caminho para a arte. Quando ainda era muito jovem, viveu a perda da sua mãe e anos depois começou a pintar.

Sua formação artística começa em Santiago de Compostela, na Real Sociedade Económica de Amigos do País de Santiago, onde era orientado pelo professor pintor José MaríaFenollera, seguindo a linha do realismo naturalista. De maneira rápida, o pintor começou a fazer exposições das suas obras que tinham muito a ver com a cultura galega e foi uma renovação do paisagismo, “su pintura de gran pulso vital, plasmando enella una emoción que fusiona el naturalismo conlaespiritualidaddel romanticismo” (TRIANARTS, 2014).

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Fig. 1: Ovidio Murguía, Tarde de invierno en el Sarela, ca. 1894

Em 1895, o pintor se mudou para Madrid e lá esteve em contato com outros artistas, utilizou a serra madrilena como paisagem para suas obras e embora não quisesse seguir os estudos formais de arte na Academia de Belas de San Fernando, Ovidio realizou diversas copias de obras dos professores do Museu do Prado como exercício de pintura.

Graças aos contatos que seu pai fazia, o pintor recebeu diversas encomendas de quadros, inclusive de pessoas que faziam parte da elite da época, como o presidente do Senado, Alonso MonteroRíos. Ovidio ficou encargado de, com oseu conjunto de obras mais conhecido, decorar parte dos muros do Pazo de Lourizán.Assim, “con temas costumbristas muy marcados por la tradición realista naturalista, decora con murales distintos palacios” (TRIANARTS, s/d).

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Fig. 2: Ovidio Murguía, Asando Patatas o Borralleiras (1895)

Entretanto, logo o pintor se cansou desse tipo de trabalho e decidiu que simplesmente deixaria de trabalhar para viver uma vida bohemia, sem nada que o prendesse, sem obrigações. Porém, esse estilo de vida custou caro para a sua já precária saúde. O pintor realizou algumas exposições, porém, viu sua saúde ser destruída pela tuberculose, que se agravou no verão de 1897, obrigando-o a voltar para sua casa na Coruña.

Ovidio permaneceu em Galícia sobre os cuidados de sua família, mas no dia 1 de Jnaeiro de 1990, com apenas 29 anos, não resistiu e faleceu. Suas obras estão hoje em diversos museu galegos e em março de 2014, a fundação Rosália de Castro apresentou uma pintura inédita do pintor galego. “El cuadro no catalogado, Árbore e montaña, la pieza quizá de mayor tamaño pintada por Ovidio Murguía, será restaurada en el Museo de Bellas Artes de A Coruña con la colaboración de la Consellería de Cultura” (LA VOZ DE SANTIAGO, 2014).

  • Joaquín Vaamonde Cornide

Nascido em 1872, na Coruña, Vaamonde começou a pintar ainda quando era uma criança, com o pintor Modesto Brocos. Ainda pequeno, o pintor viajou para a América do Sul com seus pais e só retornou a Galícia quando jovem, aos 22 anos, porém, já dotado de um estilo próprio para a pintura. Nesse tempo, Vaamondeconheceua escritora Emilia Pardo Bazán, “quien se convirtió en su protectora y le introdujo en los ambientes de la alta burguesía coruñesa y en la corte madrileña” (MUSEO DEL PRADO, s/d).

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Fig. 3: Retrato de Emilia Pardo Bazán (1896)

Vaamonde agradou tanto a Emilia P. Bazán que se tornou protagonista de umas das suas obras, La Quimera (1905), na qual foi retratado como um jovem pintor talentoso destacava a burguesia em suas obras, esperando chegar a ser como os professores que observava no Museu do Prado. O pintor se especializou na técnica de pintura com o papel e em retratos, recendo em 1895, uma menção honrosa na Exposição Nacional de Belas Artes.

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Fig. 4: Retrato de Isidro Brocos (1894)

Sua vida foi interrompida aos 32 anos de idade, no ano de 1900, quando o pintor faleceu por tuberculose. Suas obras estão expostas no Museo de Belas Artes da Coruña.

  1. Pintoras galegas atuais

3.1. Carlota Bueno Hermida

Pintora nascida na Coruña e que expôs suas obras pela primeira vez em uma mostra coletiva, no Conselho de Pontedeume, em 2001. A partir daí, participa de muitas outras exposições e concursos, recebendo em maio de 2011, no concurso de pintura rápida “Cidade Velha”, na Coruña, seu primeiro prêmio. Meses depois, no concurso de pintura rápida “Juan Jose Fernández-Leiceaga”, do Conselho de Noia, ela fica entre uma das finalistas.

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Fig. 5: Muiño de Xubia (s/d)

 

3.2. Josefina Carro

Nascida em 2 de março de 1942, em Barallobre (Fene), a pintora retrata em suas obras muito das paisagens que estavam ao seu redor, durante a sua infância, assim é possível ver refletidas em suas aquarelas, bosques, frutos e elementos da natureza. Foi também durante a infância que ela tomou gosto pela pintura. Através do pintor Jesús Balado, Josefina aprendeu os procedimentos da pintura com pastel.

Além desse ramo da arte, Josefina apreciava também a literatura, gostava de visitar exposições e museus e dessa maneira, conheceu os impressionistas e começou a aprender mais desse estilo, chegando a copiar obras de Degás, Manet, Renoir. Aprendeu os procedimentos e segredos da aquarela com o professor José Gonzalez Collado, dedicando-se com mais afinco a esse tipo de pintura, mas sem abandonar o desenho e as pinturas a óleo.

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Fig. 6: Tulipanes (s/d)

Joaquina foi acometida por uma doença, causando uma interrupção nas suas aulas, porém, retornou com ainda mais ânimo para a pintura, com uma paleta mais vida, aproveitando os contrastes de luz, troca no uso das cores. A pintora se apresentou em várias exposições, como em 2011 na Casa de lasPalmeras de Neda. 

  1. Conclusão

Estudando sobre a história da arte na Galícia é claro perceber o quanto essa região ainda está em processo de desenvolvimento, de formação de uma história com marcos próprios, porém, também é possível destacar o número crescente de praticantes da arte, de pessoas que se dedicam a retratar o que veem e o que sentem, claro, sofrendo influências do seu cotidiano, do espaço em que vivem.

Assim, no presente trabalho, foram destacadas as contribuições de alguns pintores que fizeram parte da base histórica para os estudos da Artes na Galícia, e os novos pintores, evidenciados aqui, principalmente, as mulheres pintoras, a fim de disseminar a arte ao passo que também se crie um espaço para a atuação feminina em assuntos majoritariamente marcados pelos homens.

  1. Referências

GALIPEDIA, A WIKIPEDIA EN GALEGO. Arte de Galicia, 2016. Disponível em: <https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Arte_de_Galicia&oldid=4031442&gt;.

VILAVEDRA, Dolores. Historia da literatura galega. Compostela: Galaxia, 1999.

GALERÍA JOSÉ LORENZO. A xeración doente: do pasamento prematuro ao inmediato mito, 2011. Disponível em: <http://galeriajoselorenzo.blogspot.com.br/2011/06/xeracion-doente-do-pasamento-prematuro.html&gt;.

GALIPEDIA, a Wikipedia en galego. OvidioMurguía. Disponível em: <en https://gl.wikipedia.org/w/index.php?title=Ovidio_Murgu%C3%ADa&oldid=4056728>.

TRIANARTS. OvidioMurguía de Castro: Naturalista y romântico, 2014. Disponível em: <http://trianarts.com/ovidio-murguia-de-castro-naturalista-y-romantico/#sthash.zy0T9fsY.HHQDvjeH.dpbs>.

LA VOZ DE SANTIAGO. La Casa de Rosalía adquiere una obra desconocida de Ovidio Murguía, A Coruña, 2014. Disponível em: <http://www.lavozdegalicia.es/noticia/santiago/2014/03/23/casa-rosalia-adquiere-obra-desconocida-ovidio-murguia/0003_201403S23C109913.htm>.

MUSEO DEL PRADO. VaamondeCornide, Joaquín. Disponível em: <https://www.museodelprado.es/aprende/enciclopedia/voz/vaamonde-cornide-joaquin/322c9335-e3ce-46f4-86fd-455d4a4d806b>.

Da Cantiga de amigo ao Samba

Camila Rastely

Aluna de Língua e literatura galega na Universidade Federal da Bahia (UFBA) 

Introdução

Neste trabalho busca-se cotejar as cantigas de amigo, surgidas na gálica, com letras de sambas produzidos por mulheres brasileiras, com objetivo de mostrar as semelhanças que se encontram em ambas canções. Haverá um contexto histórico a respeito do trovadorismo, e especialmente, sobre a cantiga de amigo, pois é necessário que haja um conhecimento prévio sobre a composição da canção para que se faça o cotejo. Também será historiado o Samba, surgido no Brasil, para que haja um entendimento sobre os diversos tipos de samba e as suas diferenças. Logo após, será feito o cotejo entre as duas canções para que o trabalho seja comprovado.

Que foi o Trovadorismo

O Trovadorismo foi um movimento literário que se instalou na península ibérica, na idade média, entre o final do século XII e meados do século XIV onde o período político era confuso. Na Europa medieval, lugar em que se produziu o Trovadorismo, existiam diversos povos em conflito e a área em que se desenvolveu as cantigas galego-portuguesas foram nos reinos de Castela, León, Galiza e Portugal.

No período da Idade Média o Trovadorismo ganhou força, existiam vários géneros, entre eles, a cantiga de amor (quanto em voz masculina), tensão (disputa dialogada), o pranto (lamento pela morte de alguém), o lai (composição de matéria de Bretaña), a pastorela (narrativa de um encontro entre o trovador e uma pastora), cantiga de escarnio e maldizer (cantiga satírica, respectivamente com ou sem equívoco), porém, na península Ibérica um género foi criado, a cantiga de amigo ( quanto em voz feminina).

A cantiga de amigo, rompe o padrão das cantigas trovadorescas que sempre tinham como voz a senhor que se referia tanto para o género feminino, como para o masculino, e inovam trazendo a voz feminina, de uma jovem enamorada e geralmente ocorre num espaço aberto e natural, dialogando com a natureza, sobre o momento da iniciação erótica ao amor. As cantigas de amigo tinham como artificio de coesão o paralelismo e geralmente apresentavam familiares femininas como interlocutores, porém, geralmente, a canção era declamada por poetas do sexo masculino. Podemos observar alguns exemplos de cantigas de amigo:

A meu amigo, que eu sempr’amei,

des que o vi, mui mais ca mim nem al,

foi outra dona veer por meu mal;

mais eu, sandia, quando m’acordei,

nom soub’eu al em que me del vengar

senom chorei quanto m’eu quis chorar.

Mailo amei ca mim nem outra rem,

des que o vi, e foi-m’ora fazer

tam gram pesar que houver’a morrer;

mais eu, sandia, que lhe fiz por en?

Nom soub’eu al em que me del vengar

se nom chorei quanto m’eu quis chorar.

Sab’ora Deus que no meu coraçom

nunca rem tiv[i] ẽno seu logar,

foi-mi ora fazer tam gram pesar;

mais eu, sandia, que lhe fiz entom?

nom soub’eu al em que me del vengar

se nom chorei quanto m’eu quis chorar.

(João Garcia)

Onde a donzela censura a si própria: ou seu amigo, ou único que sempre amou, foi encontrado com outra mulher. E ela não encontrou outra vingança se não a de chorar até não poder mais.

Outro exemplo podemos ver na canção:

Ai fals’amig’e sem lealdade,

ora vej’eu a gram falsidade

com que mi vós há gram temp’andastes,

ca doutra sei eu já por verdade

a que vós atal pedra lançastes.

Amigo fals’e muit’encoberto,

ora vej’eu o gram mal deserto

com que mi vós há gram temp’andastes,

ca doutra sei eu já bem por certo

a que vós atal pedra lançastes.

Ai fals’amig’, eu nom me temia

do gram mal e da sabedoria

com que mi vós há gram temp’andastes,

ca doutra sei eu, que o bem sabia,

a que vós atal pedra lançastes.

E de colherdes razom seria

da falsidade que semeastes.

(D. Dinis)

 Onde irada, a donzela acusa o seu amigo de deslealdade e traição: sabe agora que tem outra e que há muito tempo que a engana. A curiosa expressão do 2º verso do refrão “que vós Atal pedra lançastes” aludirá talvez a um antigo dito proverbial “atirar a pedra e esconder a mão”, aqui significando um golpe à traição (que será comum às duas donzelas, já que as engana a ambas). No final, ela expressa ainda desejo que tenha a justa recompensa por tanta falsidade.

 O Que foi o Samba

” O samba é um gênero musical, o qual deriva de um tipo de dança, de raízes africanas, surgido no Brasil e considerado uma das principais manifestações culturais populares brasileiras. ”

Dentre suas características originais, está uma forma onde a dança é acompanhada por pequenas frases melódicas e refrões de criação anônima, alicerces do samba de roda nascido no Recôncavo Baiano e levado, na segunda metade do século XIX, para a cidade do Rio de Janeiro pelos negros que trazidos da África e se instalaram na então capital do Império” (Página Sambando, acessado em 9/03/2016)

Apesar de ter sido criado na Bahia, foi no Rio de Janeiro que o samba tomou força, entrando em contato com outros gêneros musicais e se tornou parte dá identidade do povo Brasileiro.

Ou primeiro samba gravado non Brasil foi por telefone, no ano de 1917, cantado por Bahiano. A letra deste samba foi escrita por Mauro de Almeida e Donga. Os principais tipos de samba:

Samba-enredo: Surge no Rio de Janeiro durante a década de 1930. O tema está ligado ao assunto que a escola de samba escolhe para o ano do desfile. Geralmente segue temas sociais ou culturais. Ele que define toda a coreografia e cenografia utilizada no desfile da escola de samba; Samba de partido alto: Com letras improvisadas, falam sobre a realidade dos morros e das regiões mais carentes. É o estilo dos grandes mestres do samba. Os compositores de partido alto mais conhecidos são: Moreira da Silva, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho; Pagode: Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, nos anos 70 (década de 1970), e ganhou as rádios e pistas de dança na década seguinte. Tem um ritmo repetitivo e utiliza instrumentos de percussão e sons eletrônicos. Espalhou-se rapidamente pelo Brasil, graças às letras simples e românticas. Os principais grupos são: Fundo de Quintal, Negritude Jr., Só Pra Contrariar, Raça Negra, Katinguelê, Patrulha do Samba, Pique Novo, Travessos, Art Popular; Samba-canção: Surge na década de 1920, com ritmos lentos e letras sentimentais e românticas. Exemplo: Ai, Ioiô (1929), de Luís Peixoto; Samba carnavalesco: Marchinhas e Sambas feitos para dançar e cantar nos bailes carnavalescos. Exemplos: Abre alas, Apaga a vela, Aurora, Balancê, Cabeleira do Zezé, Bandeira Branca, Chiquita Bacana, Colombina, Cidade Maravilhosa entre outras; Samba-exaltação: Com letras patrióticas e ressaltando as maravilhas do Brasil, com acompanhamento de orquestra. Exemplo: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso gravada em 1939 por Francisco Alves; Samba de breque: Este estilo tem momentos de paradas rápidas, onde o cantor pode incluir comentários, muitos deles em tom crítico ou humorístico. Um dos mestres deste estilo é Moreira da Silva; Samba de gafieira: Foi criado na década de 1940 e tem acompanhamento de orquestra. Rápido e muito forte na parte instrumental, é muito usado nas danças de salão; Sambalanço: Surgiu nos anos 50 (década de 1950) em boates de São Paulo e Rio de Janeiro. Recebeu uma grande influência do jazz. Um dos mais significativos representantes do sambalanço é Jorge Ben Jor, que mistura também elementos de outros estilos.

Abaixo vemos letra de um samba-canção:

Ai Ioiô

Eu nasci pra sofrer

Fui oiá pra você, meu zoinho fechô

E quando o zoio eu abri

Quis gritar quis fugir

Mas você, eu não sei por que

Você me chamou

Ai Ioiô, tenha pena de mim

Meu Sinhô do Bonfim

Pode inté se sangar

Se ele um dia souber

Que você é que é

O Ioiô de Iaiá

Chorei toda a noite e pensei

Nos beijos de amor que te dei

Ioiô, meu benzinho

Do meu coração

Me leva pra casa

Me deixa mais não

Chorei toda a noite e pensei

Nos beijos de amor que te dei

Ioiô, meu benzinho

Do meu coração

Me leva pra casa

Me deixa mais não

(Ai, Ioiô (1929), de Luís Peixoto)

A relação entre o Samba e Canção de Amigo

A primeira relação que podemos trazer é o eu lírico feminino, tanto na canção de amigo como no samba. Usaremos como base o samba de Clara Nunes (cantora brasileira, considerada uma das maiores intérpretes do país), Ai quem me dera, para fazer um trabalho comparativo:

Ai quem me dera terminasse a espera

Retornasse o canto, simples e sem fim

E ouvindo o canto, se chorasse tanto

Que do mundo o pranto, se estancasse enfim

Ai quem me dera ver morrer a fera

Ver nascer o anjo, ver brotar a flor

Ai quem me dera uma manhã feliz

Ai quem me dera uma estação de amor…

Ah se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais

Ver todo mundo para sempre afim

E a liberdade nunca ser demais

E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir um nunca mais

Dizer que a vida vai ser sempre assim

E ao fim da espera

Ouvir na primavera

Alguém chamar por mim

Ai quem me dera ao som de madrigais

Ver todo mundo para sempre afim

E a liberdade nunca ser demais

E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir um nunca mais

Dizer que a vida vai ser sempre assim

E ao fim da espera

Ouvir na primavera

Alguém chamar por mim.

(Ai quem me dera, Clara Nunes)

Podemos fazer relação com a canção de amigo:

Ai meu amigo, coitada

vivo, porque vos nom vejo,

e, pois vos tanto desejo,

em grave dia foi nada

se vos cedo, meu amigo,

nom faço prazer e digo.

Pois que o cendal venci

de parecer em Valongo,

se m’ora de vós alongo,

em grave dia naci

se vos cedo, meu amigo,

nom faço prazer e digo.

Por quantas vezes pesar

vos fiz de[s] que vos amei,

algũa vez vos farei

prazer, e Deus nom m’ampar

se vos cedo, meu amigo,

nom faço prazer e digo.

(Martim Padrozelos)

Onde podemos observar que nas duas canções o eu lírico apresenta-se como uma mulher, as duas canções têm como objetivo retratar o sofrimento de uma mulher cujo seu amante está longe, podemos observar claramente no verso da canção de amigo “Aí meu amigo, coitada, vivo, porque vos non vexo, e, xa que vos tanto desexo ” e na música “Ai quem me dera terminasse a espera, retornasse ou canto, simples e sem fim” o saudosismo.

Podemos também fazer um cotejamento entre a canção Hino ao Amor de Dalva de Oliveira com a cantiga de amigo “Amigo, sei que há mui gram sazom que trobastes sempre d’amor por mi.”

Se o azul do céu escurecer

E a alegria na terra fenecer

Não importa, querido, viverei do nosso amor

Se tu és o sonho dos dias meus

Se os meus beijos sempre foram teus

Não importa, querido o amargor das dores desta vida

Um punhado de estrelas no infinito irei buscar

E aos teus pés esparramar

Não importa os amigos, risos, crenças e castigos

Quero apenas te adorar

Se o destino então nos separar

Se distante a morte te encontrar

Não importa, querido, porque morrerei também

Quando enfim a vida terminar E dos sonhos nada mais restar Num milagre supremo

Deus fará no céu eu te encontrar

(Hino ao Amor de Dalva de Oliveira)

Amigo, vós nom queredes catar

a nulha rem, se ao vosso nom,

e nom catades tempo nem sazom

a que venhades comigo falar;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

Ca noutro dia chegastes aqui

a tal sazom que houv’en tal pavor que,

por seer deste mundo senhor,

nom quisera que veessedes i;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

E quem molher de coraçom quer bem,

a meu cuidar, punha de s’encobrir

e cata temp’e sazom pera ir

u ela est, e a vós nom avém;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

Vós nom catades a bem nem a mal,

nem do que nos pois daquest’averrá,

se nom que pass’o vosso ũa vez já,

mais em tal feito muit’há mester al;

e nom que[i]rades, amigo, fazer,

per vossa culpa, mi e vós morrer.

(João Baveca)

Nesta canção temos a comparação entre duas mulheres que temem por um momento com seu amante, que por mais que sabem que o amor dos dois podem os levar a morte “Se distante a morte te encontrar, não importa, querido, porque morrerei também” e “per vossa culpa, mi e vós morrer”. Ou seja, o tema entre as duas canções são semelhantes e mostram que mesmo com as dificuldades e o temor pela morte os amantes se encontram.

Conclusão

Por fim, concluímos que o samba possui as mesmas características semânticas da canção de amigo, com o eu-lírico de uma mulher cantando o sentimento amoroso, ou sua desilusão, de forma sentimental, se referindo sempre ao amado com saudosismo e pena pelo que passou, ou pelo que não foi vivido. Comprovamos estas informações por meio de cotejo entre canções de sambas conhecidos popularmente no Brasil e cantigas de amigo galego-portuguesas, comprovando que a comparação é válida e apresenta diversos pontos em comum, fazendo, então, relação da cultura brasileira com a cultura europeia, especialmente, da galícia, onde surgiu a cantiga de amigo.

Referências Bibliográficas

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Giordano, Isabella. Escute álbuns das três melhores sambistas mulheres [online], [disponível na internet via https://samba.catracalivre.com.br/brasil/samba-na- net/indicacao/escute-albuns-das-tres-melhores-sambistas-mulheres/] Arquivo acessado em 15 de março de 2016.

Samba e História do Samba [online], [disponível na internet via http://www.suapesquisa.com/samba/] Arquivo acessado em 20 de março de 2016.

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Património Imaterial Galego-Português: 20 anos de Ponte…nas ondas!

Santi Veloso

Presidente da Associação Ponte…nas Ondas! e professor de Língua e Literatura Galega em Gondomar

Ponte…nas ondas! ( PNO! ) é uma Associação Cultural e Pedagógica que desde 1995 realiza atividades educativas e culturais na Galiza e no Norte de Portugal.

O nome da Associação deriva da atividade que lhe deu origem, uma jornada de rádio entre escolas das duas margens do rio Minho, uma ponte de comunicação motivada pela fronteira e, desta feita, uma ponte nas ondas.

Com o alargamento da jornada de comunicação interescolar a outros estabelecimentos de ensino e realidades, designadamente através da posterior utilização das TICs, emerge a descoberta de um património comum a ambos os lados da fronteira.

Em 2001, a Associação abraça o projeto da UNESCO e difunde “A rota do escravo”, passando a partir daí a centrar as suas ações no património imaterial. Neste contexto, impulsionada pelas primeiras proclamações das Obras-primas do Património Oral e Imaterial emerge a primeira Candidatura do Património Imaterial Galego-Português.

A proposta de candidatura é apresentada aos governos de Portugal e de Espanha por uma comissão de professores e assessores da Associação depois de um importante trabalho de documentação, investigação, trabalho de campo e um intenso labor de divulgação realizado pelas escolas da Euro Região Galiza-Norte de Portugal. Posteriormente, em Paris, é feita a entrega da Candidatura por uma representação da Associação juntamente com a representação diplomática de Portugal e Espanha na UNESCO.

Com a entrada em vigor da Convenção do Património Cultural Imaterial, o trabalho de PNO! continua centrado na preservação, difusão e transmissão deste património comum, razão pela qual passa a dinamizar diversas atividades: Mostras de Património, Concursos de Recolha, Congressos, Jornadas pedagógicas, encontros com pessoas portadoras, etc.

Ao longo destas duas décadas, PNO! foi construindo uma rede de pessoas, escolas, universidades e instituições que procuram o reconhecimento do património imaterial galego-português no mundo.

A ORIGEM

PONTE…NAS ONDAS! nasceu a partir de uma experiência educativa desenvolvida desde 1995 graças à cooperação entre estabelecimentos de ensino básico, secundário e universidades da Galiza (Espanha) e do norte de Portugal, com a participação de diversos países da América.

Trata-se de uma jornada que teve início com a emissão de 12 horas de programação radiofónica realizadas integralmente por alunos galegos e portugueses. A partir de 2003 atingiu as 24 horas de emissão com programas produzidos por mais de 50 escolas. Estudantes do ensino básico, secundário e universitário (desde a IX edição), emitem programas de rádio (nas últimas edições também através da televisão e Internet) elaborados por eles mesmos, ao vivo e em formatos muito diversos: concursos, variedades, música, entrevistas, conexões ao vivo entre diferentes estúdios, etc. Ainda que o galego e o português fossem as línguas comuns da emissão, ao incorporar a participação de centros escolares da Argentina, Cuba, Chile e Colômbia, o castelhano também se incorporou à experiência. Durante a jornada de comunicação os alunos de todos os países participantes são convidados a seguir a programação e a participar ativamente nela.

A motivação para começar esta aventura foi a inauguração de uma ponte arquitetónica entre as localidades de Salvaterra do Minho (Espanha) e Monção (Portugal); então, um grupo de 16 escolas decidiram estabelecer uma ponte de comunicação através das ondas de rádio. Naquele ano usaram-se os estúdios da rádio comercial “Ecos da Raia” de Monção (Portugal) e outro “escolar” provisório situado na Casa da Cultura em Salvaterra do Minho (Espanha); os protagonistas da experiência viveram com muita emoção aquela primeira jornada experimental de rádio transfronteiriça e o sucesso obtido motivou sua continuidade.

O funcionamento básico de PONTE…nas ondas! foi evoluindo em cada edição. O esquema de preparação por parte dos professores mantém-se no essencial. Tudo começa com o início do ano letivo: o corpo docente representante das escolas que vão participar na edição reúnem para decidir o tema central que será proposto aos participantes e os primeiros passos a dar. Depois vem o trabalho nas escolas: animá-los para participarem na rádio escolar ou na elaboração de um programa audiovisual.

Em cada edição há um tema geral à volta do qual gira toda a programação e sobre o qual se trabalha ao longo do ano nas escolas participantes.

No dia da emissão é necessário ter preparada uma grelha de programação muito clara na qual para cada programa esteja prevista a respetiva hora de emissão, o título, as horas para as conexões ao vivo, etc. É de referir que chegaram a ser realizadas jornadas de programação a partir de 7 estúdios de rádio situados nos dois lados da fronteira galego-portuguesa.

Paralelamente aos programas, e durante toda a jornada, são dinamizados concursos e diferentes formas de participação com recurso a outros meios de comunicação.

Nas últimas edições apostou-se nos conteúdos audiovisuais, e pela possibilidade de ouvir e ver a programação em qualquer momento, graças à colaboração de UVIGO-TV da Universidade de Vigo.

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Cartaz de Ponte…nas ondas 2006

A EVOLUÇÃO DA JORNADA DE COMUNICAÇÃO

Ponte…nas ondas! sofreu uma grande evolução desde o seu início. As novas tecnologias foram-se incorporando pouco a pouco e hoje em dia a Internet é um meio que torna possível que esta experiência chegue a lugares aos quais há uns anos atrás era impensável chegar. A emissão do sinal de televisão por Internet realizada por UVIGO-TV (a televisão da Universidade de Vigo) faz com que a experiência tenha já um enfoque multimídia em que o audiovisual adquire todo o protagonismo, pois permite a emissão a partir da Web e, desta forma, um maior seguimento nas escolas.

Durante o dia da emissão recebem-se mensagens de todo o mundo de pessoas que estão a seguir a programação através da Internet; também funciona o correio eletrónico, o chat para conversar ao vivo durante a jornada e um forum para deixar mensagens sobre os programas que se estão a emitir.

Em 1998, ano em que a Internet estava a emergir, e graças à colaboração da companhia Telefónica de Espanha, fez-se a primeira emissão por Internet. A partir daí, a Rede foi um aliado imprescindível.

Na VIII edição, em 2002, foi estabelecida comunicação através de uma videoconferência profissional entre o estúdio de rádio escolar instalado na Casa da Cultura de Salvaterra de Minho, um colégio de Maputo ( Moçambique ) e o maior colégio público do Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II. Foi ainda realizada a emissão ao vivo a partir de sete estúdios de rádio.

Os meios de comunicação: rádio, televisão e imprensa escrita, colaboraram com esta experiência difundindo informação sobre esta jornada. Outro grande passo foi a incorporação do corpo discente universitário que tornou possível que a emissão passasse a durar 24 horas, completando assim o ciclo educativo do ensino formal.

 UM TEMA COMUM, O PATRIMÓNIO

Nas últimas edições, a jornada dedicou-se a diversos âmbitos do Património Imaterial comum à Galiza e a Portugal e presente nos países de língua e cultura galego-portuguesa. O património imaterial foi objeto, desde a primeira proclamação das Obras-primas do Património Imaterial em 2001 pela UNESCO, de uma especial divulgação nos estabelecimentos de ensino participantes na jornada de comunicação.

Através do trabalho desenvolvido, tanto para a preparação dos programas como nos programas em si, os alunos foram descobrindo o património comum aos dois territórios, ficando essa experiência evidente em muitos programas audiovisuais através da participação direta de muitos meninos do outro lado da fronteira aos quais se lhes pedia que chamassem em direto para completar adivinhas, refrães, ou até que procurassem outros similares na sua língua.

Toda esta experiência com o património abre novas linhas de trabalho para a Associação e dá lugar à apresentação de uma Candidatura Multinacional na UNESCO.

Estes foram os temas das últimas edições da jornada de comunicação:

VIII- Edição 2002: ” O património imaterial “

IX Edição 2003: ” O mar e nós, sós “

X Edição 2004: ” O património vivo”

XI Edição 2005: ” 1 património para o futuro “

XII Edição 2006: ” Os sons da PONTE”

XIII Edição 2007: ” Na Rede do Património”

XIV Edição 2008: ” Identidade e território”

XV Edição 2009: ” O património dos Tesouros Vivos “

XVI Edição 2010: ” O tesouro dos avós “

XVII Edição 2011: “ As bibliotecas vivas ”

XVIII Edição 2012: “ Ponte…a contar! ”

XIX Edição 2013: “ Ponte…a brincar! ”

XX Edição 2014: “ Vinte…nas ondas! ”

Foram realizadas 20 edições desta jornada de comunicação interescolar com a participação de mais de 800 estabelecimentos escolares de Espanha e de Portugal juntamente com outros da América e África.

Na atualidade, as escolas preparam os seus próprios programas audiovisuais e desde PNO! divulgam-se a todo o mundo.

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Estudio de rádio em Salvaterra do Minho para o projeto Ponte nas…ondas

AS ATIVIDADES DA ASSOCIAÇÃO

Para além da jornada de comunicação interescolar, que tem sido a de maior participação e projeção, a Associação PNO! tem vindo a realizar diversos projetos que procuram a difusão, transmissão e valorização do Património Imaterial Galego Português.

  • Mostras da oralidade galego-portuguesa

Atividade para divulgar o Património Imaterial Galego Português em toda a Euro Região da Galiza e Norte de Portugal. A Mostra da Oralidade Galego-Portuguesa pretende dar a conhecer num evento único exemplos da tradição oral galego-portuguesa juntando a expressão oral, o teatro e a música.

Desde a primeira edição foram realizadas 10 mostras em diferentes lugares da Galiza e do Norte de Portugal com a participação de pessoas portadoras e grupos que trabalham com património imaterial.

  • Encontro de portadores do património imaterial galego-português (Melgaço 2005)

Tratou-se de um encontro de portadores do património para dar visibilidade à Candidatura do Património Imaterial Galego-Português, apresentada na UNESCO. Durante três dias mostraram-se práticas e fizeram-se demonstrações de expressões representativas do património imaterial galego-português.

  • Certame de Recolha da Tradição Oral Galego-Portuguesa (2006)

É uma atividade destinada a recolher amostras do património imaterial galego-português de âmbito educativo para que os alunos/as descubram aquelas expressões do património mais próximas. As recolhas vinham acompanhadas da correspondente ficha técnica e a transcrição. Tratava-se do único certame dirigido aos estabelecimentos escolares da Euro região Galiza-Norte de Portugal.

  • Publicações de livros, discos e dvd relacionados com o património imaterial galego-português

Ao longo destas décadas, paralelamente às atividades centradas na comunicação e no património cultural, Ponte…nas ondas! promoveu edições e publicações que se converteram num referente no que diz respeito ao trabalho de produção de materiais didáticos da cultura galego-portuguesa.

MENINOS CANTORES ( 2005 ). O primeiro projeto conjunto entre escolas de dois países da União Europeia à propósito de um património comum. Disco-livro-dvd realizado por 17 estabelecimentos escolares da Galiza e do Norte Portugal com canções tradicionais e documentário sobre o Património Imaterial Galego Português. Publicou-se em galego, português, espanhol e inglês. ( www.meninoscantores.com )

CORES DO ATLÂNTICO (2010 ). Disco-livro sobre as cantigas de amigo medievais da tradição oral galego-portuguesa realizado com a artista brasileira Socorro Lira e a professora da Universidade de Poitiers, Ria Lemaire. O disco contém cantigas medievais de amigo galego-portuguesas interpretadas por artistas brasileiros, africanos, portugueses e galegos. O livro contém um texto de investigação de Ria Lemaire relacionando as cantigas de amigo galego-portuguesas com a tradição oral das mulheres galego-portuguesas.           ( www.coresdoatlantico.com )

NA PONTE ( 2013 ). O livro-CD-DVD NA PONTE é uma memória da travessia de Ponte…nas ondas! ao longo destas duas décadas. O CD recolhe composições de artistas brasileiros, africanos, portugueses e galegos para PNO! O livro recolhe igualmente artigos de professores, comunicadores, artistas e pessoas que colaboraram com Ponte…nas ondas! O DVD contém um documentário e diverso material audiovisual sobre Ponte…nas ondas! O livro foi editado em galego e estão em edição as versões em espanhol, português e inglês (www.naponte.com) .

REVISTA GALEGA DE EDUCAÇÃO (2015). Monográfico da Revista Galega de Educação dedicado às duas décadas de atividades de PNO! e a sua projeção na lusofonia por altura do 20º aniversário da associação.

  • Congresso internacional “PONTES DE CULTURA, PONTES DE FUTURO” (2010)

Congresso transfronteiriço realizado por ocasião dos 15 anos da associação PNO! Participaram professores, antropólogos, jornalistas e artistas que dissertaram sobre o Património Imaterial Galego Português e o papel de PNO! O congresso teve como temáticas, a educação, o património, as TICs e os meios de comunicação.

O Congresso Internacional ” PONTES DE CULTURA, PONTES DE FUTURO ” sobre os 15 anos de PONTE…nas ondas! apresentou-se como um evento de reflexão e debate sobre a iniciativa de comunicação que nascera no ano 1995 com a denominação de Ponte…nas ondas!

Para avaliar esta etapa de atuações, desenvolvidas fundamentalmente na Euro Região Galiza-Norte de Portugal, a Associação Ponte…nas ondas! organizou este Congresso onde surgiram novas linhas de atividades e propostas apontadas por todos os participantes nos âmbitos da educação, inovação, património cultural galego-português, cultura, tecnologias da informação e da comunicação.

  • Tesouros vivos do mar ( 2013 )

Projeto de recuperação do património marítimo no Concelho galego de A Guarda. Realizou-se um trabalho de recolha de informação, entrevistas e análise documental junto de um conjunto de pessoas portadoras. O resultado concretizou-se num portal Web e na publicação de um livro-DVD sobre o reconhecimento de pessoas e grupos da cultura marítima na câmara municipal da Guarda.

  • Encontros de jogos tradicionais galego-portugueses

Dirigido a escolas dos dois lados da fronteira, esta atividade procura a transmissão dos jogos tradicionais galego-portugueses às novas gerações. Realiza-se anualmente numa localidade da Galiza ou do Norte de Portugal. Foram realizados IX encontros anuais.

  • Candidatura do Património Imaterial Galego-Português

Apresentada por Espanha e Portugal em 2004, concorreu às proclamações das Obras Primas do Património Cultural Imaterial em 2005. Foi a primeira Candidatura promovida por estabelecimentos escolares de dois países europeus. O processo começou em 2002 e a proposta foi elaborada durante dois anos por uma equipa da associação que também conduziu o processo junto dos Estados, sendo a Candidatura entregue pela associação na sede da UNESCO em Paris.

COLABORAÇÕES

Ao longo de duas décadas, a Associação incorporou as atividades ao mundo da cultura. Artistas e escritores galegos, portugueses e brasileiros colaboraram nas diferentes edições da experiência. Uxía, João Afonso, Dulce Pontes, Filipa Pais, Milladoiro, Chico César, Daniela Mercury, José Saramago, Agustín Fernández Paz ou Federico Maior Zaragoza são alguns dos nomes que passaram pela programação da jornada de comunicação interescolar.

Grupos de música galega e portuguesa realizaram gravações especiais promovidas por Ponte…nas ondas! Entre outros exemplos, os gaiteiros Treixadura e os Gaiteiros de Lisboa realizaram uma gravação e um videoclipe conjunto de um tema tradicional comum à Galiza e a Portugal como atividade de apoio à Candidatura do Património Imaterial Galego-Português.

Ponte…nas ondas! foi produtora de um disco-livro-dvd com temas tradicionais galego-portugueses interpretados por alunos de escolas galegas e portuguesas e com a colaboração de artistas de ambos os lados. O projeto denominou-se Meninos Cantores e também foi apresentado à UNESCO como compromisso da transmissão do património imaterial às gerações mais jovens.

A participação de importantes jornalistas radiofónicos constituiu um importante estímulo e reforço para a experiência. Nos anos 1998 e 1999 a jornalista Julia Otero realizava conexões ao vivo com a jornada radiofónica a partir de Barcelona e dava-a a conhecer em Espanha. No ano 2000 era Iñaki Gabilondo quem estabelecia várias conexões a partir do seu programa “Hoje por hoje”. Também nesse mesmo ano fazia o mesmo Diamantino José a partir da RDP-Antena 1 em Lisboa.

No âmbito do património, antropólogos galegos e portugueses prestam assessoria à associação e colaboram com trabalhos de investigação e documentação. Integraram a equipa que realizou os trabalhos de elaboração do dossiê apresentado na Unesco da Candidatura do Património Imaterial.

Do ponto de vista da inovação e renovação pedagógica, a atividade da associação tem contado com educadores e pedagogos que destacam a singularidade da experiência, designadamente por reunir na sua fórmula única a educação, o património, as TICs e os meios de comunicação.

 RECONHECIMENTOS

Em 2004, a Associação Cultural e Pedagógica PONTE…NAS ONDAS! foi convidada a participar no Foro do Partenariado para a Diversidade que se celebrou na cidade alemã de Flensburg convocado pelo EBLUL ( European Bureau for Lesser Used Languages ) para apresentar esta experiência de comunicação. Nesse forum foi aprovada – por unanimidade- uma resolução por parte da Assembleia Geral do EBLUL na qual se reconheceu a importância do trabalho de Ponte…nas ondas! :

* Por ser uma experiência que contribui para a promoção de uma língua minoritária, para a recuperação da cultura, das tradições e da língua galega e por favorecer a cooperação transfronteriça.

* Por desenvolver valores de respeito mútuo entre jovens de dois territórios vizinhos.

* Por ser um exemplo de boas práticas em matéria de cooperação e promoção da diversidade linguística.

* Por implicar meninos e meninas dentro de um contexto educativo e promover entre eles o uso das novas tecnologias.

Por tudo isto a Assembleia Geral do EBLUL decidiu incentivar outras instituições governamentais e não governamentais a apoiar e patrocinar esta experiência.

A Xunta de Galícia reconhecia todo o trabalho realizado em 2005 com o Prémio Galícia de Comunicação à “Melhor iniciativa no campo da comunicação”.

A Associação de Escritores em Língua Galega ( AELG ) também reconhecia o trabalho de Ponte…nas ondas! nesse mesmo ano com a concessão do prémio “Bos e Xenerosos”, destinados a organizações e entidades que desenvolvam um importante labor cultural.

Em 2013, o Ministério de Cultura, Educação e Desporto de Espanha outorgava a Ponte…nas ondas! o “Selo de boa prática Ibero-americana” tendo em conta, entre outros aspetos, “ a qualidade da experiência na originalidade e criatividade, ao explorar enfoques inovadores adequados ao contexto no qual se desenvolve, transferível a outros meios e países da comunidade Ibero-americana”.

Nesse mesmo ano, a Associação Ponte…nas ondas! foi reconhecida como Juiz Honorário ( Juiz Honorário ) do Couto Misto ( enclave territorial na fronteira galego-portuguesa que gozou de independência no passado ).

Em 2014 a Associação recebe o premio ONDAS (o mais prestigiado prémio de comunicação em Espanha) pela “melhor cobertura informativa do património imaterial galego-português”.

 + info: www.pontenasondas.org

O meu caminho. Experiência no curso de verão de galego

Thayane Gaspar

Pesquisadora em Literatura Galega no Programa de Estudos Galegos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Não acredito que estou na Galícia!”. Essa foi a primeira frase que eu falei quando eu saí do aeroporto de Santiago e me deparei com todo aquele verde. “Onde começam as pedras?” perguntei me referindo ao que eu conhecia sobre aquela cidade e sobre o que eu tinha imaginado durante todo os 12 meses em que me dediquei a estudar tudo relacionado à Galícia.

Eu achei que depois de estudar literatura, cultura e língua galega durante um ano, eu ia chegar no curso de Galego Sen Fronteiras e ver tudo o que eu tinha visto em fotos, lido em textos, interpretado em poemas, escutado em músicas tradicionais, que eu conheceria as ruas, reconheceria os parques. Contudo, quando eu cheguei a Compostela, parecia que eram as ruas que me conheciam e os parques que me reconheciam. Parecia que Galícia estava me esperando de alguma forma.

Éramos 16 países reunidos em 4 turmas, o que aconteceu nas primeiras semanas não parecia um choque cultural, mas um caos cultural que nunca chegou a acontecer. Éramos tão diferentes, falávamos línguas diversas, não nos entendemos nos primeiros encontros dentro e fora do curso até que as aulas começaram. Quando as aulas começaram e nossas línguas começaram a falar galego sem que nós nos déssemos conta, pareceu incrível ter 16 países tão diferentes falando uma única língua, tendo o mesmo interesse e ouso a dizer até a mesma paixão pelos “x”, pelos “nh” do galego.

Acontece que uma língua não é só feita de fonemas e aulas de gramática, e enquanto aprendíamos a língua aprendíamos também a triste e romântica história do idioma e a importância que ele ganhava quando nós o falávamos. Aprendíamos a beber café como galegos, a comer empanadillas, tortillas e muitas, muitas e muitas tapas. Aprendíamos a parar durante a sesta e a voltar à universidade depois dela. As ruas de Compostela pareciam uma extensão da universidade: não importava para qual direção, parque, bar ou museu íamos, aprendíamos também a ser galegos.

Aprendemos tudo sobre a hospitalidade galega, aprendendo sobre as superstições, colocávamos moedas nas pedras do bar e fazíamos pedidos, falávamos das meigas, cantávamos e dançávamos ao som da gaita, bebíamos queimada e líamos o coxuro, e o mais importante: nunca abríamos o guarda-chuva quando chovia, porque não era qualquer chuva, era a chuva de/em Santiago.

Na universidade víamos filmes sobre a imigração galega, ouvíamos músicas de Roi Casal, tínhamos palestras com as figuras mais importantes nos estudos sobre Galícia na atualidade, líamos contos de autores galegos contemporâneos e íamos correndo à livraria antes do almoço para pegá-la aberta e comprávamos livros sobre o que tínhamos aprendido naquela manhã. Fazíamos teatro com os colegas para mostrar à professora como sabíamos improvisar em galego (e aproveitar em galego).

Fazíamos excursões nas quais entrávamos e saíamos de igrejas, visitávamos hórreos, paisagens e quando não estávamos fazendo isso, estávamos conhecendo pessoas que moravam naquelas cidades e então elas nos apresentavam algo novo, que não estava no roteiro da viagem. E dava a impressão que só estando na Galícia é que se aprende sobre ela.

Ensaiamos durante algumas semanas canções tradicionais galegas para cantarmos numa confraternização. Os professores esperavam que naquele momento nós falássemos sobre os nossos países de origem através das nossas músicas e danças. E nós falamos, dançamos e cantamos nas 16 línguas. E quando foi a hora de cantarmos a canção galega, a nossa origem parecia ser uma origem comum, já éramos galegos naquele momento. Cantamos e dançamos como galegos.

Quando dizíamos aos galegos que não éramos dali, eles nos perguntavam se estávamos na Galícia para fazer o caminho de Santiago. Eu respondia que não, “Vim estudar galego”. Na última semana do curso, estávamos falando que metade dos presentes que compramos para levar para as nossas casas tinham uma vieira estampada e um amigo disse “Não quero levar nada relacionado à vieira e ao caminho, não vim fazê-lo.” Perguntamos se ele sabia o significado da vieira, que as suas linhas significavam que todos os caminhos levavam a um mesmo lugar. E foi então que nós entendemos que viemos de 16 caminhos diferentes para o mesmo destino. Compostela tem mesmo algo a dizer sobre isso, quando ficamos muito tempo vivendo lá, parece que a cidade nos coloca de volta à nossa rota e nos deixa mais perto do nosso destino.

Fizemos juntos pela última vez o caminho até e universidade e nos demos conta de que algumas ruas nas quais passávamos faziam parte de algum caminho de Santiago, naquele dia me disseram: “Você não veio aqui só para estudar, você também fez uma parte do caminho, ‘mira’” e apontaram para uma vieira dourada no chão. E agora eu vejo que eu realmente não só estudei galego. Eu vivi a Galícia. Eu vivi Santiago de Compostela. E é por isso que nós, estudantes de galego, saímos de Santiago mas que Santiago não sai da gente.

Voltamos para as nossas casas com as lembranças, (muitos) livros, novos amigos e tendo uma intimidade com a língua galega que só a experiência do curso conseguiu proporcionar. Voltamos tendo a impressão de que havia uma estranha familiaridade entre nós e os lugares que visitamos e os galegos que conhecemos. Voltamos tendo uma confortável sensação de que pertencíamos de alguma forma àquela cidade. Voltamos tão galegos que trouxemos conosco uma mala cheia daquela boa e velha “morriña”.

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O reintegracionismo galego : Reflexões acerca das políticas linguísticas da Galiza e sua relação com o Brasil

Nívea Guimarães Doria

Mestra em Letras e estudante de Língua Galega na UERJ 

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho não objetiva esgotar academicamente a questão do reintegracionismo galego à cultura lusófona, tampouco a posicionar-se a favor ou contra tal política linguística. Objetiva, sim, refletir sobre essa questão sob um ponto de vista brasileiro, tanto contemplando argumentos a favor quanto contra, entendendo que o Brasil faz parte dessa comunidade linguística, à qual vários setores da sociedade galega pretende reintegrar-se, sendo o representante dentre os países lusófonos com o maior número de falantes nativos e tendo em consideração que é um fato desconhecido do falante médio do português a existência (ou sobrevivência) de um idioma quem muitas vezes é ensinado nas escolas como uma forma arcaica de sua língua de uso cotidiano.

Com uma metodologia de pesquisa documental via internet, na qual foi pesquisado o termo “língua galega”, ao encontrar vários textos de teor reintegracionista, assim foi determinada a temática. A escolha de uma reflexão sobre as políticas linguísticas galegas, em especial o reintegracionismo, justifica-se tanto pelo contato com a língua e cultura da Galiza há mais de dez anos, como também, uma vez já sendo profissional de Letras, a percepção da relevância da discussão acerca da introdução de mais um membro dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e suas possíveis conseqüências sociopolíticas, culturais e lingüísticas, inclusive para a realidade brasileira.

2 BREVE PANORAMA HISTÓRICO

A Galiza é uma parte da Espanha que, cerca de 6 séculos atrás, constituía um reino independente e cuja língua gozava do prestígio de ser uma língua de cultura e literatura. A poesia lírica medieval ibérica (e europeia de maneira geral) têm seus principais representantes nas cantigas galego-portuguesas. Porém, após a independência do Condado Portucalense, resultando no Reino de Portugal, e uma seqüência de malfadadas alianças políticas dentre reinos da Península Ibérica, com a ascensão dos chamados Reis Católicos (Isabel de Castela e Fernando de Aragão), a Galiza viu-se solapada pelo poderio político e econômico de Castela. Outrora um reino independente agora se via como uma região subordinada ao novo Reino da Espanha. No século XIX, após séculos de domínio político e cultural castelhano, era vista como uma região de um povo pobre e ignorante, cuja língua própria não possuía gramática nem literatura própria, restringindo-se à tradição oral.

O movimento conhecido como Rexurdimento Galego nos fins do século XIX foi responsável por um renascimento tanto da literatura galega quanto pelo surgimento de diferentes correntes ideológicas objetivando a retomada do prestígio cultural galego. Ora, não é de se espantar que, após tantos séculos de opressão e desprestígio, o povo e sua intelectualidade reagissem com um sentimento nacionalista, ainda mais se lembrarmos que o mesmo “fenômeno” vinha ocorrendo por toda a Europa – e até mesmo nas colônias europeias ultramarinas – desde a Revolução Francesa e seus ideais de liberdade, fraternidade e igualdade. Dentre esses movimentos está o celtismo, que busca um passado mitológico para o povo galego vinculado à cultura celta pré-romana. O primeiro livro em galego em muitos séculos, Cantares Gallegos de Rosalía de Castro, é um representante de uma retomada da cultura galega, tendo como modelo os cantares populares e orais ainda ouvidos nos campos.

Contudo, na década de 1930, após a guerra civil espanhola, ascendeu ao poder o General Francisco Franco, que governou ditatorialmente a Espanha nas quatro décadas seguintes. Durante a ditadura franquista, o galego (assim como o catalão e o euskera, idiomas da Catalónia e do Pais Basco) foi proibido de ser ensinado nas escolas e utilizado em repartições públicas, sendo relegado apenas ao uso familiar. A ditadura franquista encontrou seu fim com a morte do general em 1975 e a Espanha passou a ser uma democracia parlamentar, ainda que sua família real ainda seja conhecida e figure em revistas de celebridades. Com o fim da ditadura, Catalúnia, o País Basco e a Galiza retomaram o direito de ter suas línguas reconhecidas como línguas co-oficiais, circunscritas a seus territórios históricos. Com a autonomia reconquistada, tornou-se mister desenvolver as políticas linguísticas necessárias para que o galego reassumisse sua posição de prestígio.

Contudo, ainda hoje, há muita polêmica entre diferentes correntes sobre essa política linguística. O presente trabalho, como dito anteriormente, discute-as, sem a preocupação de posicionar-se a favor ou contra uma ou outra, porém com intuito de refletir sobre elas.

3 AUTONOMISMO/ISOLACIONISMO X REINTEGRACIONISMO/LUSISMO

O que acabou por ser conhecido como língua portuguesa, em sua origem, era apenas uma língua falada desde o norte da Galiza até o Douro. Com a independência de Portugal do Reino da Galiza, devido a motivos políticos, o galaico-português dividiu-se e a língua falada no novo Estado passou a ser chamada de língua portuguesa, enquanto que a falada ao Norte continuou com o nome de língua galega.

Ao retomar o direito de falar sua própria língua, garantido pela Constituição Espanhola, foi dado ao governo autônomo da Galiza – conhecido por Xunta de Galicia– a responsabilidade de fazer com que a língua local passasse de seu até então estado de dialeto ao estado de co-oficialidade. Duas grandes correntes se destacam: a autonomista, que tem respaldo no governo, e a reintegracionista. A autonomista, defendida pela Real Academia Galega (RAG) e pelo Instituto da Língua Galega (ILG), prega o galego como uma língua própria, que possui raízes comuns tanto com o português quanto com o espanhol, ao passo que a reintegracionista postula que galego e português seriam variantes de uma mesma língua.

3.1 Autonomismo

Tem como principais representantes a Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega, responsáveis pela normatização da língua galega padrão nos anos 80. Ambas as instituições estão ligadas ao governo pelas ajudas institucionais e até por algum dos membros da RAG ser membro do governo galego daqueles anos, como Xosé Filgueira Valverde.

A grafia adotada para o galego oficial é notoriamente influenciada pela grafia do castelhano, não se relacionando diretamente com a grafia histórica documentada desde a Era Medieval. Assim sendo, letras tipicamente espanholas como o ñ e o ll são usadas em detrimento dos dígrafos portugueses nh e lh. O próprio léxico aceitou fortes influências castelhanas e passou por neologismos que não tinham em conta formas mais antigas da própria língua, e ainda vivas no português de Portugal e do português do Brasil.

Essa política linguística também é conhecida, em um tom pejorativo dado por seus oposicionistas, como “isolacionismo”. Ao destacar o galego como uma língua circunscrita em seu próprio território, não admite o caráter internacional que ela teria se fosse reconhecida não apenas como tendo origem comum com o português, mas como as duas ainda sendo variantes da mesma língua.

3.2 Reintegracionismo

Defendendo que as línguas galega e portuguesa são uma, essa corrente defende o emprego da ortografia do português padrão, vigente em todos os territórios lusófonos (Portugal, Brasil, países africanos lusofalantes) desde o ano de 2008, através de acordo ortográfico assinado por representantes desses países e do qual a Galiza foi um membro consultivo. Dessa forma, características típicas da língua galega como o emprego de x no lugar de g e j ou a diferenciação entre s e “c/z” seriam consideradas apenas formas particulares de emissão de arquifonemas da língua.

Também reivindica que a Galiza integre a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, sendo, dessa forma, parte de uma comunidade linguística de alcance internacional e compartilhando o idioma com uma das potências econômicas emergentes do século XXI, o Brasil. Essa intenção causa reação por parte de seus opositores, por enxergarem nessa aproximação com outros países, de prestígio na política econômica mundial, um ensaio de um movimento separatista galego. Com essa visão, chamam pejorativamente os reintegracionistas de “lusistas”. Vê-se refletido isso nas tentativas de veicular via TV o acesso a canais de origem lusitana, assim como outros meios de comunicação de massa que abririam portas para que mais falantes de galego pudessem perceber sua língua como a mesma do país vizinho.

4 REFLEXÕES ACERCA DE AMBAS AS VERTENTES

Não há dúvida de que a corrente autonomista, ao isolar o galego de uma língua que lhe é praticamente transparente como o português, acaba por relegá-la a mero dialeto dentro de território espanhol, de maneira a legitimar o sentimento de inferioridade que muitos de seus falantes podem trazer. Por esse motivo, é chamada de “isolacionismo” por seus opositores reintegracionistas. O galego seria uma língua falada por um povo ruralista, ignorante e de um idioma hermético, que pode até ter sua semelhança com outras línguas dos arredores, porém algo que não apenas identifica, como alija seus falantes de um contexto mais internacional.

De tal maneira que o espanhol, uma das línguas de origem europeia com maior número de falantes nativos no mundo e oficial do Estado Espanhol, acabe por se tornar uma melhor opção para que essas pessoas se relacionem pelo mundo. Os Estados Nacionais têm como uma de suas características principais a centralização, a unificação de seu poder e uma maneira de fazê-lo é através de uma língua comum a todos os seus habitantes, muitas vezes havendo apagamento de outras línguas concomitantes e, por isso, por tantos anos o galego foi relegado a um papel secundário dentro de seu próprio território.

A língua portuguesa/galega é intercontinental e de prestígio internacional. Como apontado anteriormente, além de ser uma língua com mais de 240 milhões de falantes nativos por todo mundo, tem a mesma origem e ainda guarda transparência com a língua da Galiza. Aproveitando esta intercomprensão, ao tratar com Portugal, Brasil e países africanos lusófonos, os setores econômicos e políticos galegos não precisariam utilizar-se de intérpretes e tradutores, tendo como código comunicativo escolhido para as transações o idioma galego/português.

Um dos argumentos mais persuasivos da vertente reintegracionista é que, ao assumir o galego como a mesma língua conhecida por portuguesa, o idioma falado em seu território assume um caráter de internacionalidade e prestígio, uma vez que o português é falado pela quinta economia mundial e uma das maiores potências políticas e econômicas emergentes do mundo, no caso, o Brasil. Sendo o português a oitava língua mais falada pela rede mundial de computadores e a terceira em termos de língua europeia em número de falantes. Sob essa perspectiva, empoderar-se-ia e prestigiaria um povo que, por séculos, foi visto e muitas vezes sentiu-se como inferiorizado e falante de uma língua de pouco alcance.

Sob essa perspectiva, empoderar-se-ia e prestigiaria um povo que, por séculos, foi visto e muitas vezes sentiu-se como inferiorizado e falante de uma língua de pouco alcance.

Ao poder tratar diretamente com nações com grande prestígio político e econômico através de uma língua comum, esse território veria sua autonomia controlada expandir-se. O governo espanhol, partidário da vertente autonomista, não vê isso com bons olhos, temendo um movimento separatista, que teria respaldo em uma possível aliança com outros países. Atualmente, o reintegracionismo parece se fazer mais forte, pois uma lei que garante o ensino da língua portuguesa em escolas galegas foi recentemente aprovada (A Lei Paz Andrade), ainda que a maior parte dos políticos com poder de decisão seja do Partido Popular, que tradicionalmente se mantém alinhado ao Estado Espanhol.

Contudo, não se pode deixar de pensar em outra questão: e dentro dessa comunidade linguística de 240 milhões (frente aos 3 milhões residentes na Galiza), a variante galega como seria vista? A maior parte desses milhões de pessoas são brasileiras, cuja taxa de escolaridade média não é tão alta.

Tendo em vista que o povo brasileiro, o maior contingente de falantes da língua galega/portuguesa em todo mundo, pouco conhece os outros países que já são considerados lusófonos além de Portugal e não sente sua língua como prestigiada em todo mundo –ainda que a variante brasileira seja uma das línguas mais procuradas no mundo atualmente a fins de estudo– como receberia os galegos? Se na fala a fonética são o cartão de visita da língua e na escrita sua ortografia, o galego parecer ter sons tão diferentes e uma ortografia oficial também tão distinta, o brasileiro enxergaria o galego como um povo que divide consigo a mesma língua? Mesmo em uma transação oficial, órgãos brasileiros não lançariam mão de um intérprete –não mais de espanhol, mas de galego– durante as negociações, por mais que a Galiza venha a se integrar de fato à Comunidade de Países de Língua Portuguesa?

Estando em contato com a língua e a cultura galega há mais de dez anos e tendo presenciado vários “primeiros encontros” entre brasileiros e essa língua, pude observar que dificilmente um brasileiro que nunca tenha tido contato prévio com o galego –seja escrito, seja oral– consegue identificar essa língua como igual. Apesar de a variante portuguesa da língua diferir foneticamente muito mais da nossa, desde crianças temos algum tipo de contato com comerciantes, atores em novelas ou mesmo imitações em piadas do falar de origem lusitana. Por identificarmos elementos fonéticos parecidos entre o falar da antiga metrópole e aquele dos países africanos, suas também antigas colônias, conseguimos por analogia identificar o português africano como mesma língua.

No entanto, o galego soa aos ouvidos brasileiros leigos em matéria linguística, muitas vezes, como um espanhol (ou até mesmo um portunhol para ouvidos um pouco mais atentos) falado de maneira estranha. Fora de um contexto acadêmico, dificilmente um falante médio do português brasileiro identificaria a fala de um galego como sendo feita na sua língua materna. Um carioca entende um paulista, um pernambucano, um gaúcho, ainda que não identifique umas palavras. Contudo, assim como os lusitanos, temos contatos com esses falares diversos, nem que seja pela TV. O que não ocorre com a variante galega.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como dito de início, este trabalho não se pretendeu fazer uma discussão ou apresentação de dados exaustiva sobre as políticas linguísticas vigentes e antagônicas na Galiza sobre o próprio idioma: o autonomismo e o reintegracionismo. Nosso objetivo era o de apresentá-las e procurar refletir sobre elas.

Ao passo que o autonomismo mostra-se como uma política conservadora, e que quiçá, a médio ou longo prazo poida levar ao apagamento a língua galega– o reintegracionismo prega que galego e português, uma vez mais, sejam vistos como duas variantes de uma mesma língua, essa agora com outras variantes espalhadas por todo o mundo. Essa proposta, embora bastante difundida e coerente, suscita também questionamentos.

Se, por um lado, isso traria uma maior autonomia e independência para a Galiza e prestígio e internacionalidade para a língua falada em seu território, seriam os galego falantes aceitos com facilidade por essa comunidade linguística à qual procuram se reintegrar? Apesar da fama de hospitaleiros, em relação ao próprio idioma, os brasileiros têm uma postura de menosprezá-lo e um tanto preconceituosa acerca de falares diferentes do seu. Como detentor do maior número de pessoas lusófonas, isso não poderia acarretar numa visão inferiorizada dos galegos dentro da CPLP? Do ponto de vista da Galiza, embora vários setores da sociedade já procurem se integrar à ortografia oficial do português, não seria uma política de médio a longo prazo mudar a maneira como as pessoas escrevem seu idioma pátrio ou mesmo realfabetizar aqueles que não tiveram acesso ao processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa?

São várias as questões possíveis, como as apresentadas e outras que já são e estão a serem feitas, mas que apenas poderão ser respondidas com a tentativa de levar adiante o proposto pelos reintegracionistas e com planos de ação para que isso seja feito. Deve-se pensar, também, se é tão necessário que a ortografia mude muito para o padrão português ou se não seria melhor a incorporação das idiossincrasias galegas à grafia da língua padrão da Galiza. Particularmente, posiciono-me contra o Acordo Ortográfico da CPLP, pois mesmo com as ortografias de outrora, os países lusófonos ainda se reconheciam como compartilhadores da mesma língua, apesar das especificidades de cada região. Tal acordo apenas mascara as diferenças e não reflete a realidade linguística de cada comunidade de fala da língua galega/portuguesa.

REFERÊNCIAS

ÁLVAREZ CÁCCAMO, C. Contra a normalización: Reconhecimento cultural e redistribuição económica sob a dominação lingüística. Agália Publicaçom Internacional da Associaçom Galega da Língua. Números 73-74. Ourense, Galiza, 2003. Disponível em: http://kit.consellodacultura.gal/web/uploads/adxuntos/arquivo/52528987e18f6-biblioavanzada5.pdf Acesso em 20 jun 2015.

LÓPEZ-IGLESIAS SAMARTIN, R. Língua somos: A construção da ideia de língua e da identidade coletiva na Galiza (pré-)constitucional. Novas achegas ao estudo da cultura galega II. Enfoques socio-históricos e lingüístico-literarios. Universidade da Corunha, 2012, p. 27-35. Disponível em: http://ruc.udc.es/dspace/bitstream/2183/13253/1/CC-128_art_3.pdf. Acesso em 22 jun 2015.

MALVAR FERNÁNDEZ, Paulo. Autonomismo vs Reintegracionismo Um conflito normativo visto desde a Analise Critica do Discurso Especializado. Agália Publicaçom Internacional da Associaçom Galega da Língua. Números 91/92. Ourense, Galiza, 2007. Disponível em: http://paulomalvar.net/autonomismo-vs-reintegracio.pdf e http://www.agalia.net/images/recursos/91-92.pdf . Acesso em 21 jun 2015.

PORTAL GALEGO DA LINGUA. Miguel Rodríguez Fernández: “É fundamental introduzir o português como língua de estudo no ensino, já agora, desde crianças”. Galiza, 09 mai 2014. Disponível em: http://pgl.gal/miguel-rodriguez-fernandez-e-fundamental-introduzir-o-portugues-como-lingua-de-estudo-no-ensino-ja-agora-desde-criancas/ Acesso em 02/06/2015.

SANTANA, C de M. A dicotomia das perspectivas autonomistas e reintegracionistas do galego e suas projeções internacionais. 2014. 54f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais)- Universidade Estadual da Paraíba, João Pessoa, 2014. Disponível em: http://dspace.bc.uepb.edu.br:8080/jspui/bitstream/123456789/4449/1/PDF_-_Clayton_de_Medeiros_Santana.pdf . Acesso em 22 jun 2015.

Os rios da Galícia nos mitos e poemas

Arthur Roballo

Aluno de Introdução à Cultura Galega e Língua Galega na UERJ

A Galícia já foi dita “a terra dos mil rios”, e se não é tanto, a grande quantidade de rios e afluentes existentes explica o porque dessa alcunha. Os rios da Galícia costumam ser caudalosos, e fluem ou em direção ao Oceano Atlântico ou ao Mar Cantábrico, evidenciando sua presença em grande parte da Galícia. Os rios atlânticos são maiores e apresentam maior rendimento, já os cantábricos são menores e torrenciais. O aproveitamento dos rios vai desde pesca ao uso industrial através de barragens e moinhos para a produção de eletricidade e abastecimento de água. Os rios galegos tem grande importância na fauna e flora locais, e têm um enorme valor patrimonial do ponto de vista social e ambiental. Os rios se apresentam expressivos nas paisagens, moldam a costa oceânica da Galícia e, para além do âmbito geográfico, estão conectados com as riquezas patrimonial e cultural galegas. Estão amplamente relacionados aos comportamentos do dia a dia, às vidas das populações próximas aos rios e das populações ribeirinhas, à cultura, com os mitos e fantasias, e aos poemas e poesias.

Portanto, assim como o mar é de grande importância na tradição cultural galega, o mesmo acontece com os rios, tendo diversos mitos, contos, poemas, narrativas etc. produzidos relacionados a esta temática. O propósito deste trabalho é portanto apresentar algumas dessas produções culturais (mitos, poemas) relacionados a alguns dos rios da Galícia onde será possível perceber o envolvimento cultural com a hidrografia local e com a natureza.

O maior e principal rio da Galícia, o Rio Miño, atravessando quase de Leste a Oeste o território da Galícia, é certamente uma grande fonte de inspiração dos poetas. O trecho a seguir fala de como teria se dado o nascimento do rio na Galícia:

BIOGRAFIA DO MIÑO

O deus Minius, nas orixes do tempo,

percurou, con teimuda paixón,

o lugar máis fermoso do universo:

non atopou nada que puidera

compararse, nin de lonxe, con Galiza.

Despois de contemplala longamente

namorouse dela para sempre.

Con desexo total de posuila

físoxe poderosísimo lóstrego

e caeu sobor da terra, feríndoa

co seu divino lume.

A terra

recibiuno,humilde e conmovida,

abriulle os brazos, o corazón,

todo o seu ser ….

E fundíronse

nunha aperta perfecta, indisolúbel.

O léstrego volveuse auga cantora,

materia de orballos e de bágoas.

A terra ofrendoulle ao apasionado río

o seu corpo xentil e feminino.

E o río deulle á terra xenerosa

a súa forza de deus omnipotente…

Manuel María

O mesmo poeta, de forma frenquentemente exaltadora do Rio Miño fala também dos outros rios em relação ao Grande Rio:

FALAN OS RÍOS

Nós, tan humildes, somos ríos pequenos

que bicamos a terra con amor

Ríos sen gloria que lle damos ao río Miño

o noso amor sinxelo: luz e auga.

Damos todo boamente como dá

o paxaro ao vento a súa canción.

Somos só un nome.

Somentes somos grandes ríos

cando nos ten enteiramente o Miño.

Somos a sombra dunha sombra

cunha lembranza nidia

de árbores, seitura e sementes.

Non somos case nada

Nin case somos ríos.

¡A nosa almiña de pequenos ríos

fai o poder caudal do Grande Río!

Manuel María

Ainda sobre o Rio Miño, o mesmo poeta versa sobre as mudanças na paisagem causadas pela modernidade e a urbanização, e sobre os efeitos negativos, principalmente contaminação, para o Grande Rio.

DESACORDO CONTRA OS CONTAMINADORES DO MIÑO

Asasinos da vida, da beleza, dos dons

marabillosos para uso e gozo do home

e de todo canto vive neste mundo.

Emporcadores da pureza da auga.

Vérdugos de peixes. Violadores.

Vós, xentiñas cegas como toupas,

fixestes do Miño unha cloaca,

unha cheirenta latrina xigantesca,

un pozo de zurro e de detritos.

Requírovos no nome do amor máis puro:

¡respectade ao Miño, linfa inocente, casta,

divindade anterga e indefensa,

arteria caudal da nosa patria,

Grande Pai Fluvial do Reino noso,

Pastor de Ríos que dixeron os poetas!

Manuel María

Com apenas o exemplo do Miño já é perceptível que a temática dos rios é abordada sob diversos aspectos. No poema seguinte, a relação das pessoas com o rio é abordada:

O BAÑO

Bañabámonos nel

pero sempre lle tivemos medo

que había limo no fondo

e os pés esvaraban en coios

e negrura,

e tíña pozas logo do cachón

e entre as pontes

remuíños nos que aniñaba un misterio.

Diciamos canción

pero era calafrío

e regresabamos, no carrito vermello,

cheirando a lama fresca, a carpaza e a sábrego.

Tiñamos medo

de mirármonos nenos

nos seus ollos de vello,

no silenciado sangue

das pucharcas,

evitábamos o seu abrazo de verán e de argazo,

de pozo

de remuíño escuro.

Francisco X. Fernández Naval

E ainda o crescimento e os caminhos da vida, e a relação dos rios com a infância das pessoas pode ser colocada em versos pelo poeta, tanto com o Louzara como com o Rio de Outeiro:

ROMANCE ÍNTIMO AO RÍO LOUZARA

Dezanove anos de vida

e índa zoa nos meus ouvídos

a túa cantiga soneira,

que arrolou de meniño,

aquil cantar doce, soave,

garimoso e solermiño;

aquil cantar infantil

inda hoxe sigue vivindo.

Pro a infancia… a miña infancia:

¿Onde ma levaches río?

Dezanove anos de vida

e inda vexo o meu sorriso

reflexando nos espellos

dos teus remansos de vidro;

nas túas ondas transparentes

coma luces do vacío.

¡Os espellos seguen aí,

perennes e cristaíños!

Pro a ledicia… a ledicia:

¿Onde ma levaches río?

Fiz Vergara Vilariño

RÍO DE OUTEIRO

Río da infancia, ausente melodía

no corazón dun canto matutino.

Rio de Outeiro, espello cristalino,

dos meus días, corrente fuxidía.

Río do tempo, o sol de mediodía

xa devala en poñente vespertino.

Río da vida, río de destino,

peregrino de ignota lonxanía.

Lonxe de min, atópome contigo

Vexo un neno que escoita, paseniño,

os murmurios do tempo pasaxeiro.

Lonxe de ti, encóntrome comigo,

debruzado na Ponte do Muíño,

mirándonos pasar, Río de Outeiro

Edelmiro Vázquez Naval

Há também os poemas de exaltação da beleza dos rios e suas paisagens, e a natureza ao seu redor. Nos exemplos a seguir há trechos de exaltação do rio Soldón, de arco-íris, de rios de uma maneira geral:

RIO SOLDÓN

Río Soldón, de escumas puras

na cascada, entre rochas bermellas

fita azul

ao pé da Serra Rocaboa!

Deus, un día

Abriu gorxas de luz

nesta montaña galega

e ficou saudoso

a soñar.

Brinca na rocha o regato

puro. Azas de cor viva

salpican o ceo.

Suspiros do regato en flor,

¿de quen serán?

A auga lambe a carriza

coma bico na pel soñada

¿Qué amará?

Vieiros de tomelo o levan

lonxe, agachado nas xestas,

coma un neno.

Regueiro de augas frías

entre penedos: no prado

¿que soñará?

Linguas de fogo alumean

o frescor da ponla delicada.

Cantiga do regato humilde

e solo, nas uces da montaña,

¿pra onde irá?

Eduardo Moreiras

O ARCO DA VELLA

Dende o piñeiredo de Vilanoviña

o arco da vella ergueuse a beber,

tanta sede tiña

que fixo surrindo un vó de anduriña

e foi dun esguello nun río a caer.

Ó sentir da auga a caricia leda

espallouse en néboa pola tarde mol

i enchéndose dela colgou na robleda

seu pano de cores tinguido de sol.

O pasmo das xentes deulle preitesía:

xa o frescor da auga non lle apetecía

e como as gabanzas lle sentaban mal

voltou pouco a pouco, con gran señoría,

rubindo do río cara o piñeiral

Xerardo Álvarez Limeses

COMA UN RÍO

Coma un río quixera eu ser: cantar

con estrelas no lombo cara ó mar,

deixando unha chorima en cada pedra,

e unha bágoa de Deus en cada herba

Xosé María Díaz Castro

O tema dos rios, entretanto, não se encontra apenas na tradição dos poemas. Há diversos mitos e lendas que dizem respeito e se relacionam com os rios também. Aqui, dentre muitos, alguns serão destacados e expostos para, como é o objetivo deste presente trabalho, evidenciar a relação do povo galego com seu território amplamente entrecortado por rios.

O primeiro mito a que se faz referência aqui, é o do “Nascimento dos rios Miño e Sil“. Segundo a lenda, o deus Júpiter, desejoso de fazer uma viagem seguia com os olhos os movimentos e contornos da Terra a fim de escolher um lugar para passar uma temporada, visto que a vida no Olimpo era repetititva e enfadonha. Como a viagem não seria imediatamente, o deus fez uma marca na terra, no local escolhido de modo a não esquecer-se. Esta marca acabou por ser o Rio Miño. A esposa de Júpiter, Juno, com ciúmes por não saber de tal viagem e suspeitando que poderia se tratar de uma aventura amorosa, faz, ela própria, uma brecha mais profunda que a de seu marido, dando origem ao Rio Sil. Discordando de tal comportamento, Júpiter pune Juno, obrigando-a a viver no fundo cânion de sua brecha. Porém, algum tempo depois, o deus volta atrás na punição e a retira, e como símbolo de seu amor, permite que o Rio Sil e o Rio Miño se juntem.

Outro conto é o da “Luzinha de Portamós“. Conta-se que há muitos anos, nas noites mais escuras do ano, andava pelo rio Portamós uma luzinha que deixava os moradores do vale de Mos muito curiosos. Certos dias, no início da noite era possível ver uma luz que subia o rio à contra corrente. O tal brilho aparecia pelos campos de Portamós, ia em direção ao Moinho do Escribán, depois pela represa do moinho, os campos do Chope, a Comporta, o Canaval, a ponte das Casiñas, subindo até As Pontellas. A teoria mais convincente que se deu para a luzinha que ia subindo rio acima era a de que havia muitos anos em Mos existiu um clérigo que costumava fazer missas aos defuntos daqueles que assim lhe solicitavam. Como costume, esse homem fazia uma marca em sua vara de vime para cada defunto que rezava. E quando sua vara já estava repleta de marcas o homem a afundou no rio dizendo: “Não quisera levar eu a carga que ti levas”. Desse modo, acredita-se que a luzinha seriam as almas em pena, sem remissão, vagando.

Outra lenda, essa relacionada ao Rio Limia, em seu caminho pela comarca de Xinzo, onde é conhecido como “Rio do Esquecimento“. Essa lenda remonta à presença romana na região. Os moradores pré-romanos diziam que aquele que cruzava o rio esquecia-se de tudo. Quando as legiões romanas chegaram a tal comarca durante a invasão a Península Ibérica, correu esta lenda entre as tropas. Segundo é contado, as tropas se negaram a cruzar o rio, e assim foi até que um centurião armou-se de coragem para fazê-lo e mostrar às tropas que era seguro. Hoje em dia, existe em Xinzo, no verão, a chamada Festa do Esquecimento, para celebrar justamente este fato.

Outra lenda é a das “Aureanas Feiticeiras“. Aureana é a mulher que se dedicava a recolher as areias auríferas que arrastavam as correntes dos rios Sil e Minho. A lenda conta que em algum ponto do rio Sil, as Aureanas Feiticeiras viviam a atrair os jovens e seduzi-los com o doce som, e depois afogá-los no fundo do rio para sempre. A maneira de evitar o encantamento seria atravessar o rio com uma pedra na boca, pois assim os jovens não poderiam falar, ficando em silêncio e evitando que o encantamento se produzisse, passando a outra margem. No rio Miño, na área de Arbo e Melgaço, há outras feiticeiras, que vivem nos poços do Miño e tentam atrair os jovens que atravessam os rios e os pescadores.

Mais uma lenda que se conta é “Três fontes e três rios“. Conta a lenda que nasceram três fontes juntas, como irmãs, e o mar prometeu dar uma pessoa a cada ano à primeira fonte que chegasse até ele. As três irmãs se puseram a caminho, porém em um momento cansaram e decidiram por descansar, acordando que aquela que acordasse primeiro deveria chamar às outras duas para prosseguirem o caminho. A primeira despertou e, sem avisar às outras, saiu em seu caminho, silenciosamente para não fazer barulho. A segunda a acordar, ao perceber a traição da primeira, também se colocou no caminho, com cuidado para que a terceira não despertasse. Esta, a terceira, ao despertar viu o que lhe tinha sido feito, e se atirou no caminho, saltando sebes e cercas, zunindo revoltosa, e acabou por chegar à frente das outras, sendo a primeira a chegar ao mar. Essa fonte deu origem ao rio Eume, e este recebe de presente todo ano uma pessoa que o mar lhe dá. A principal diferença entre as versões que a bibliografia apresenta é que os rios podem ser tanto Ouro, Landro e Eume, ou Masma, Landro e Eume ou até mesmo Eume, Sor e Landro, também chamado Landrove, mas todos com a nascente nos sopés da Serra do Xistral.

A última lenda a ser tratada aqui é a da “Ponte Pedriña” na barragem das Cunchas, a velha ponte romana que havia no concelho de Bande, em Ourense. Um jovem de Santa Cruz cortejava uma garota do outro lado do rio, mas para ir até ela precisava cruzar pelas pedras na corrente do rio, porém uma enchente o impedia de cumprir tal tarefa. O jovem então xingava e amaldiçoava, e de maneira tão forte que o próprio Diabo se apresentou propondo um trato: o Diabo se propunha a trabalhar a noite inteira para construir uma ponte e o jovem, em troca, o entregaria sua alma quando morresse. O jovem aceitou, o Diabo seguiu ao trabalho, porém ao amanhecer faltava apenas uma pedra, não tendo sido capaz de cumprir a obra. O Diabo então, muito contrariado, amaldiçoou a ponto dizendo: “Por culpa dunha pedriña nunca me fuches pagada! Vivirás sempre maldita e morrerás afogada!”. Tal fato deu nome à ponte, que mesmo sem a pedrinha que lhe faltava foi útil desde os tempos romanos. Atualmente tal ponte se encontra submersa pelas águas de uma barragem.

E essas barragens levam a uma crítica a situação atual. Os rios galegos sofrem com uma prática de barragens e aproveitamento hidrelétrico em nome da modernidade. É sabido que tal prática promove grandes alagamentos em áreas bastante extensas, condena diversas espécies da fauna em torno que sofre com esses alagamentos, além de diminuir o curso dos rios por causa das barragens. Essas mudanças alteram e muito o ecossistema do entorno dos rios, provocando mudanças em todo o território galego. Esses problemas, aliados com a devastação e poluição causadas pelo homem, alteram a natureza e a agridem de maneira por vezes irreversível. O poema a seguir, de Manuel María (falecido em 2004), que conclui este trabalho, condena as práticas mais atuais contra a natureza:

ESCARÑO CONTRA OS DESTRAGADORES DO MUNDO.

Contaminadores do aire puro e da auga

humilde,

casta,

e cristalina.

Incendiarios da sagrada fraga

misteriosa, cantora e ancestral.

Asasinos de paxaros.

Verdugos

de todo canto ama, vive e canta.

Violadores e destructores

da máxica paisaxe rumorosa.

ENEMIGOS DA VIDA E DA BELEZA

Consentidores de tanto xenocidio:

cando reventa o pus do voso odio

sementades de morte a creación.

Malditos para sempre endexamais

por tódalas xeracións que son e serán:

¡vós sodes

a miseria e a vileza deste mundo!

Manuel María

REFERÊNCIAS: (para outros mitos, lendas e poemas, cheque os sites na referência)

“O río do esquecemento. Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=20&id=299>

“04 (2008).-SOLLA, C.: Mitoloxía do río dos Gafos (Pontevedra). Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=4&id=1409>

“A moura do río dos Gafos. Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=4&id=1586>

“A lenda dos tres ríos. Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=4&id=1177>

“Tres fontes e tres ríos. Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=4&id=188>

“A luciña do río Portamós. Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=1&id=621>

“As misteriosas voces do río Miño. Mitos, lendas e contos galegos”

Disponível em <http://www.galiciaencantada.com/lenda.asp?cat=1&id=2320>

“Os ríos son poesía. A vida nos ríos galegos.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/poesia.htm>

“Clima e hidrografía de Galicia”

Disponível em <http://www.voyagesphotosmanu.com/clima_galicia.html>

“Fotos de Hidrografía de Galicia”

Disponível em <http://www.eltiempo.es/fotos/en-provincia-pontevedra/hidrografia-de-galicia.html>

“Galicia: Mapas gratuitos, mapas mudos gratuitos, mapas en blanco gratuitos, plantillas de mapas gratuitos”

Disponível em <http://d-maps.com/pays.php?num_pay=562&lang=es>

“Sempre Galiza! – Rosalia de Castro: Adeus, rios; adeus, fontes; – Estrolabio”

Disponível em <http://estrolabio.blogs.sapo.pt/467704.html>

“Os ríos son lendas.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/lendas.htm>

“As feiticeiras do río Sil. As lendas dos ríos galegos.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/sex2.htm>

“A lenda do nacemento dos ríos Sil e Miño”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/sex7777.htm>

“Chao Rego: A lenda dos tres ríos.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/lendas.htm#Chao_Rego:_A_lenda_dos_tres_ríos.>

“A lenda da Virxen e o neno en Portomarín.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/lendas.htm#A_lenda_da_Virxen_e_o_neno_en_Portomarín.>

“A lenda da Ponte Pedriña no encoro das Cunchas. A flor da auga. Lendas de Galicia.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/sex33.htm>

“Malditos para sempre os incendiarios, os contaminadores e os que estragan a natureza de Galicia e do mundo. Eles son a miseria e a vileza do mundo. Malditos.”

Disponível em <http://www.rios-galegos.com/malditos.htm>

A Galícia na ditadura franquista: repressão e resistência cultural

Na próxima segunda-feira dia 30 de março vai ter lugar no Instituto de Letras da UERJ o evento A Galícia na ditadura franquista: repressão e resistência cultural. Uma aproximação histórica, linguística e literária. 

Lugar: Miniauditório da Pos-graduação do Instituto de Letras da UERJ

Horário: 09:30 horas

A palestra vai ser ministrada polos pesquisadores galegos Malores Villanueva e Afonso V. Monxardin.

Cartaz conferencias 30 marzo

Malores Villanueva Gesteira (A Xesteira-Cotobade, 1982) licenciouse pola Universidade de Santiago de Compostela (USC) en Filoloxía Galega, obtendo o Premio Nacional Fin de Carreira, e en Filoloxía Románica, licenciatura pola que recibiu o Premio Fin de Carreira da Comunidade Autónoma de Galicia. Na actualidade prepara a súa tese de doutoramento sobre a primeira etapa da editorial Galaxia. Entre as súas publicacións recentes destacan os libros Lingua en sociedade, a aldea da Xesteira (Deputación de Pontevedra/ Consello da Cultura Galega, 2006) e A lingua galega entre 1963 e 1975. Situación social e discursos dende o galeguismo (Deputación de Pontevedra, 2010), polos que recibiu, respectivamente, o Premio Antón Fraguas de Investigación e o Premio novos investigadores: Humanidades e ciencias sociais. Editou un conto inédito de Xosé Luís Méndez Ferrín publicado en Grial baixo o título “Percival e unha historia máis: a de Tristán”, que posteriormente traduciu ó castelán. Entre 2006 e 2011 foi secretaría dos Cursos de lingua e cultura galegas para estranxeiros e españois de fóra de Galicia e impartiu docencia na licenciatura e grao de Filoloxía Galega (USC) entre 2009 e 2011. Ademais, foi profesora-lectora da Universidade de Barcelona entre os anos 2011 e 2014.

Afonso Vázquez Monxardín  (Ourense, 1960) é licenciado en Xeografía e Historia, nas especialidades de Prehistoria e Arqueoloxía, Xeografía e Historia de Galicia e Arquivística e Biblioteconomía. Foi o arqueólogo de numerosas escavacións en Galicia, Portugal e Italia e en 1983 pasou á docencia de lingua e literatura galega. É catedrático de ensino medio desde 1996. Foi profesor visitante da súa materia en centros galegos e universidades de América (Centro Galego, Centro Galicia e Universidade de Belgrano, en Bos Aires; Universidade Federal da Bahía, en Brasil; e Lar Gallego en Santiago de Chile). Foi o impulsor do proxecto Arquivo Sonoro de Galicia no seo do Consello da Cultura Galega e estivo durante trece anos no equipo directivo do IES As Lagoas de Ourense. Foi colaborador de O Correo Galego, Galicia Hoxe e na actualidade escribe en La Región. Entre as súas publicacións destacan Xaquin Lorenzo Fernández “Xocas”. A fidelidade á Galicia soñada, (2004), Xoaquín Lorenzo (1907-1989). Unha fotobiografía (coord.) (2004), Danse lido (2014) e a recentemente publicada Ramón Otero Pedrayo, Unha fotobiografía .