Made in Galiza de Séchu Sende

Alan Felismino da Silva

Aluno de Língua Galega na UERJ

Introdução

Este trabalho tem como objetivo apresentar de uma forma geral o livro Made in Galiza de Séchu Sende, e apresentar resenhas críticas sobre dois contos pertencentes ao livro. Inicialmente, é apresentada uma breve introdução sobre o livro, que é composto de contos e imagens que ilustram os seguintes temas: o primeiro contato com o universo léxico da língua galega; a cultura galega através do cotidiano comum da vida das pessoas; e o orgulho de se falar o idioma galego.

Logo após são apresentadas as resenhas críticas sobre os contos “Na oficina de obxectos perdidos” e “O ladrón de palabras”. Ao final são apresentadas as considerações finais, onde se encontram as impressões do autor do presente trabalho quanto ao livro e ao idioma galego.

O Livro Made in Galiza

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Made in Galiza, de Séchu Sende

O Livro Made in Galiza teve sua primeira edição publicada em 2007 e foi muito bem recebido pela comunidade literária galega, já tendo sido traduzido para vários idiomas. A obra traz um conjunto de histórias e imagens que fazem fortes referências à cultura galega, abarcando deste fatos cotidianos até episódios insólitos. Alguns contos apresentam o forte ressentimento histórico de exclusão do idioma galego que foi sentido pelos falantes nativos durante vários períodos de sua história, outros mostram como a permeabilidade de outros idiomas na vida pode representar uma recusa a falar o idioma materno. Os outros são contos que brincam com o campo léxico do galego através, por exemplo, da experiência de se ouvir o idioma falado pela primeira vez, ou até mesmo sua apresentação como uma bula de remédio.

O autor do livro, Séchu Sende, é conhecido como um dos principais escritores do século XXI. Ele é licenciado em filologia galego-portuguesa e recebeu em 2007 o prêmio Anxel Casal de Melhor livro do Ano pela obra Made in Galiza pela Asociación de Editores Galegos.

De maneira geral, o livro é um mergulho na literatura galega através da narrativa de contos únicos e criativos que mostram o prazer de se falar a língua galega, a luta para que esta se mantenha viva e forte nacionalmente e internacionalmente, além de elevarem a importância do idioma como símbolo identitário de seus falantes nativos.

Sechu Sende
Séchu Sende

Resenha do conto “Na Oficina de Obxectos Perdidos”

Este conto consiste em um diálogo entre uma pessoa que perdeu seu idioma e outra pessoa responsável por um estabelecimento de achados e perdidos. Durante o diálogo, a pessoa que perdeu o seu idioma fornece informações características sobre este, como se este fosse um objeto. Além disso, são fornecidos por ele outros tipos de informações, como por exemplo, quando e onde pode ter sido perdido, e, também, os modos de utilização das palavras, entre outras informações. Por fim, seu idioma é encontrado, e o “cliente”, muito agradecido, diz que para ele é um fato importante ter encontrado seu idioma, pois tinha a pretensão de ter uma criança e de ensiná-la a se comunicar em sua língua materna.

Percebe-se no texto, claramente, uma busca do indivíduo pela valorização da língua materna, neste caso a língua galega, que muitas vezes é colocada em segundo plano, dada a supremacia do castelhano e de outras línguas, como o inglês. Neste conto, o indivíduo perdeu seu idioma em uma discoteca. Tais estabelecimentos são frequentados por jovens que gostam de conhecer novas pessoas e novas culturas, e utilizam com frequência novas palavras e estrangeirismos, em detrimento da cultura local. A superutilização de palavras estrangeiras é nociva à identificação cultural de uma nação pelas pessoas. O idioma tem o poder de unificar e contribuir para a criação de uma identidade da sociedade que o utiliza, sendo de extrema importância a sua preservação como símbolo de uma nação.

O texto também evidencia elementos de perpetuação da língua através das gerações. Um idioma deve ser falado de maneira plena e ensinado para os novos cidadãos de uma nação, de maneira que os valores nacionais sejam repassados e mantidos. O texto evidencia que também que a língua materna deve ser de fácil acesso e gratuita, como um patrimônio cultural e histórico.

Com relação à metáfora do idioma como objeto, pode ser considerada um artifício criativo de articulação de algo tão complexo quanto um idioma a um simples objeto passível de encontro e perda. Através dessa metáfora fica claro que os elementos e um idioma podem ser resgatados mesmo que este seja considerado desimportante em comparação a outro de maior utilização.

Resenha do conto “O Ladrón de Palabras”

Este conto fala sobre um estrangeiro que aborda as pessoas que encontra em seu caminho e propõe a compra das palavras proferidas por elas. Em resposta, as pessoas respondiam de maneira negativa e, após um momento, o mesmo homem se aproximava e “roubava” as palavras. Dessa maneira, ele roubou toda a população que tentava se defender em vão.

Este texto, mais uma vez, retrata uma realidade histórica da vida da população da Galícia, que teve que deixar de falar o galego publicamente durante os tempos da ditadura franquista. O papel do “ladrão” é representado pelo governo ditatorial que aos poucos foi tirando o acesso ao aprendizado da língua galega nas escolas e terminando com sua divulgação entre as esferas de comunicação.

No texto, é possível perceber a luta de todas as classes trabalhadoras pelo direito de falar sua língua materna. Professores, advogados e civis são alguns exemplos citados no conto. Além disso, é possível também perceber que, durante anos, o galego foi falado apenas em ambientes familiares e não públicos, devido às ações do governo ditatorial, representado pelo ladrão de palavras.

O recurso da metáfora do idioma como objeto é novamente utilizado. Este recurso facilita a compreensão da dimensão cultural que representa a força do idioma na identificação de uma nação. Novamente, essa metáfora prova que um idioma pode ser resgatado, por mais que esse tenha sido negado ou esquecido, desde que seus falantes assim decidam. O conto também coloca o idioma como algo livre e gratuito, que não pode ser precificado, nem proibido, visto que é de domínio do povo.

Considerações finais

O livro Made in Galiza ilustra, por meio de contos, o panorama atual da língua galega, mostrando como foi o processo de proibição da utilização da língua durante o período da ditadura franquista, além do resgate dessa língua.

Os contos abordam os aspectos supracitados de forma muitas vezes cômica, irônica – como o próprio título – e um tanto insólita. Séchu Sende se destaca, dessa forma, como um dos grandes escritores galegos contemporâneos, uma vez que consegue abordar de forma leve a problemática, fornecendo ao leitor um processo de leitura agradável e simples, sem, no entanto, deixar de lado o foco central de sua proposta.

Nesse sentido, buscou-se, no presente trabalho, abordar alguns aspectos da obra e trazer à luz a problemática em torno da língua galega, que ganha cada vez mais espaço no cenário espanhol, seguindo um caminho de reconquista da identidade de seus falantes.

Fontes bibliográficas

SENDE, S. Made in Galiza. 1ª Edição. Vigo. Editora Galaxia. 2013.

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