Novelas de Cavalaria em Galego-Português: A Demanda do Santo Graal

Igrainne Marques e Miriam Durante

Estudantes de Literatura Galega I na UERJ 

Introdução

É sabido que a Idade Média foi um período de grandes realizações culturais, embora o plano de fundo tenha envolvido conflitos graves, com misturas de sociedades e invasões de territórios. Nesse sentido, a literatura dessa época da história tende a promover um imaginário expressivo envolvendo aventuras de cavaleiros. Tais aventuras foram retratadas primeiro em verso, posteriormente em prosa. Um dos principais tipos de romances de aventura é a novela de cavalaria, cujas principais temáticas envolvem cavaleiros em batalhas e o clássico amor.

A Demanda do Santo Graal figura como uma das principais novelas de cavalaria da Idade Média, tendo origens francesa e britânica (a Bretanha aparece, especialmente, como o principal plano de fundo da história, espelhando momentos como o das Cruzadas). Apesar disso, a versão mais completa da narrativa é apenas encontrada em galego-português.

É importante mencionar, ainda, que A Demanda… é ambientada diante da lenda do Rei Arthur, um mito bretão que gera, até hoje, discussões a respeito da existência verídica de tal rei. A Lenda do Rei Arthur foi difundida principalmente em prosa, mas há quem defenda sua aparição em verso e encontre resquícios de sua presença na história da Grã-Bretanha. Dessa forma, é possível incluir no dito Ciclo Bretão (ou Athuriano) a novela de cavalaria conhecida como “A Demanda do Santo Graal”. As novelas podem ser divididas em três ciclos: Clássico (heróis da antiguidade), Bretão (cavaleiros da Távola Redonda) e Carolíngeo (Carlos Magno).

A Demanda... possui, ainda, características importantes envolvendo o Cristianismo. Sendo um tipo de fé muito difundido na época, ele é visto na novela como a máxima representação do bem, o que fortalece a ideia de que tudo que não cristão é tido como o “mal”. Esse é um importante fator, uma vez que a história se passa em um momento que serve de espelho às cruzadas. Toda a ética, a honra, o amor e a luta são vinculadas ao objetivo final de se fazer prevalecer o cristianismo – ou seja, o dito bem.

Enredo e História

A Demanda… conta as aventuras dos Cavaleiros da Távola Redonda em busca do Santo Graal, um cálice sagrado onde teria sido colocado o sangue de cristo após o sepultamento. A história relata tais aventuras e a tentativa de se encontrar o cálice, uma conquista reduzida apenas a poucos eleitos. É possível perceber que apenas homens integralmente bons, puros e éticos poderiam ter êxito na busca. Os únicos cavaleiros que conseguem são Galaaz, Boorz e Percival. Desses, Galaaz é o mais importante, pois ele é o homem visto como perfeito, virgem, capaz de vitórias impossíveis, bom e um exímio cavaleiro. Boorz e Percival, ainda que tenham acompanhado Galaaz em sua vitória, cometeram pecados em suas vidas, estando, assim, em um patamar inferior. A todo momento são exaltadas as qualidades de Galaaz, dando ao leitor a ideia de que ele é o verdadeiro ideal de qualquer ser humano.

Galaaz, apesar de sua jornada espiritualmente gloriosa e sua perfeição idealista, é furto de um pecado. Lancelote, um cavaleiro da Távola Rendonda e um dos principais amigos do rei Arthur, tem um romance com Guinevere, a esposa do rei. Certo dia, porém, Helena, uma segunda moça, disfarça-se de Guinevere por meio de um feitiço promovido por Merlin – e ela e Lancelote se deitam. Nasce, então, Galaaz, que acaba sendo criado por abadessas, senhoras da Igreja.

Muito tempo depois, Lancelote concede ao próprio filho o título de cavaleiro, promovendo no leitor a ideia de que, apesar das origens pecadoras, Galaaz ainda poderia ser puro, íntegro, bom e praticamente perfeito em termos cristãos. É percebido, nesse ponto, que o cristianismo, mais uma vez, é visto como o ideal de bondade e tudo aquilo que era “certo”. O que fugisse disso tornar-se-ia automaticamente representante do “mal” e do “errado”.

Muitos dos milagres do Graal estão associados à sobrevivência. Galaaz, Percival e Boorz, em determinado momento da história, acabam presos em um calabouço no meio de suas aventuras. Durante o tempo em que ficam presos, uma aparição do cálice os alimenta. Posteriormente, quando enfim os três encontram efetivamente o Graal, o milagre do divino se faz presente. Galaaz e Boorz morrem para seguirem aos céus, ao paraíso que tanto é cultuado – e visto como lugar para ser desfrutado apenas para os merecedores. Percival, no entanto, é o único a sobreviver ao evento.

Milagres associados ao Graal são comuns em “A demanda…”. Um dos mais estudados é, sem dúvida, o que acontece ainda no início da novela, quando o cálice surge na reunião de Pentecostes. As descrições envolvem os cinco sentidos: o aparecimento é precedido por um trovão, surge com enorme claridade, a mesa de torna-se farta para alimentar a todos, o cheiro é como um jamais sentido, de tão puro, e torna todos os homens presentes formosos. Além disso, o Graal aparece de forma distinta para cada cavaleiro, a depender do que este enfrentará em sua jornada particular.

Há, ainda, uma associação a cerimônias pagãs, em que se devotavam animais e alimentos, a fim de se promover um bom presságio às colheitas e boa saúde aos rebanhos de inúmeras espécies. A perfeição do Santo Graal e a santificidade do objeto poderiam fazer dos homens pessoas puras e possuidoras de facilidades merecidas – desde que, claro, fossem integralmente bondosas. Galaaz, nesse sentido, é a perfeita representação do homem de boa índole e forte o bastante para enfrentar quem fosse em nome da fé e do que acreditava ser o certo. Assim que outrora fizera Arthur, Galaaz retira uma espada de uma pedra, provando seu merecimento como cavaleiro digno de ir à demanda em busca do Graal. Mais do que isso, senta-se na cadeira proibida, um assento que todos evitavam pelo fato de – caso não fosse o homem puro o bastante, ou seja, o verdadeiro escolhido, estaria fadado à morte por apenas ter ali se acomodado; no entanto, a Galaaz, nada acontece.

Assim, é possível perceber que sua origem pecadora causa certo contraste com sua posição de homem ético, puro e bondoso, a verdadeira perfeição do que poderia ser visto como cristão íntegro e digno do céu. Afinal, Galaaz nasce de um feitiço, além de um pecado, o que gera uma discussão que apenas alimenta esse contraponto.

Relevância aos estudos atuais

A Demanda do Santo Graal promove associações realmente relevantes a qualquer tipo de narrativa atual. Criam-se formulações de como se montar uma história, com que tipo de personagens e enredo. A presença de um mocinho integralmente bom é repetida até hoje nas mídias, como em novelas das nove. Sua batalha para fazer o certo é vista como um espelho daquilo que era cultuado na Idade Média. Naquela época, a recompensa era a salvação, o paraíso, enquanto hoje, embora não fuja disso, obtém-se vitórias sociais e pessoais. Isso pode ser visto na cultura como um todo, especialmente nas chamas histórias de super-heróis.

Populares ao redor do mundo, são um exemplo clássico do estereótipo bem x mal. Tanto no Brasil quanto em Portugal (ou na Galícia ou na Europa como um todo), vemos uma história que se repete muitas vezes, de modo a unir as duas nações (ou mais) em um hábito literário contínuo. Seria essa a fórmula do sucesso, o modo correto de se escrever uma aventura. Não menos importante, tais novelas de cavalaria remontam um passado linguístico igualitário entre o português e o galego. Afinal, “A Demanda…” foi escrita em galego-português, servindo, assim, de estudo para ambas as nações – e até mesmo ao Brasil.

Por fim, é possível evidenciar uma diferença medieval. Em contraste com as cantigas de amor, aqui os homens se mostram como guerreiros, perfeitos, fortes e firmes, além de éticos. Nas cantigas, eles são sofredores, fracos, envolvidos em ilusão e muitas vezes em pecados.

Conclusão

É possível notar que as influências das novelas de cavalaria se expandiram para além de uma questão meramente religiosa. Cultuando um cristianismo que tendia à pureza acima de qualquer coisa, certos aspectos são mais evidenciados atualmente que outros. É o caso de estudos envolvendo comparações históricas entre as línguas (portuguesa e galega atuais), as comparações que podem ser feitas com cantigas e o ideal da história narrativa de aventura que segue uma linha reta – adotado até hoje.

Referências:

BARBER, Richard. O Santo Graal. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.

MEGALE, Heitor. A demanda do Santo Graal. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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