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Como entender o celtismo na Galiza e Irlanda?

Erick Carvalho de Mello

Doutorando em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Falar sobre celticismo galego e irlandês não é tarefa das mais simples. Afinal, é muito fácil se perder no emaranhado de definições que cercam as representações do celtismo na modernidade. Em verdade, o debate sobre o entendimento moderno de uma identidade étnica celta não pode ser entendido apenas pelas apropriações atuais do que é ser celta, até mesmo porque sua própria estruturação é influenciada pelo que se entende dos antigos celtas na mesma proporção que estes são definidos pelo que modernamente entendemos por celtas.

É interessante pensar nesta relação inclusive. Uma via de mão dupla une a definição moderna e antiga de celticidade e, sobretudo, celtitude. Dizemos aqui que a relação é uma via de mão dupla, pois as duas definições surgem ao mesmo tempo e em caráter interdependente. Um estudo que se pretenda entender como se forma e atua a celticidade moderna por meio de suas fronteiras étnicas deve antes buscar como se elabora as definições acadêmicas acerca dos antigos celtas para assim melhor compreender o que se entende por “céltico” em plenitude e desta maneira melhor promover possíveis correlações entre o entendimento acadêmico dos já sedimentados estudos célticos com as apropriações contemporânea de uma celticidade geradora de uma identidade celta.

Neste sentido, é de todo necessário explicitarmos a diferença entre Celticidade e Celtitude, dois conceitos chave na formação identitária céltica. Para melhor compreendermos estas ideias, baseamo-nos nas ideias do antropólogo Michael Dietler que define Celticidade como um sentimento de identificação emocional centrado em uma conexão direta com a ideia existente em certas características definidas como celtas que não demandam necessariamente alguma ligação direta com genealogia, território ou mesmo língua, mas apenas o que Bowman chamaria de “cardiac celts”. Ao contrário de Celtitude que como Dietler define, se traduz como um largo sentimento de orientação etno-nostálgica encontrado, por exemplo, nos movimentos de migração irlandesa e escocesa ao redor do mundo. Para Dietler, a construção de Celtitude envolve ”algum tipo de re-essencialização” em um senso específico de pertencimento étnico baseado em uma visão de comunidade construída.

Estas definições são até hoje base do debate que legitima a pertença étnica e mantêm muitas das tradições inventadas que buscam aninhar-se dentro do escopo étnico. Todas estas definições que remetem a antiguidade seguem uma linha bem nítida traçada pelos atores políticos da franja céltica européia e se pauta em diversificadas “tradições inventadas” como para Eric Hobsbwam em “A Invenção das tradições” sendo “um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica automaticamente uma continuidade em relação ao passado (…)” (HOBSBAWM et al, 2008: 9).

Esta definição por certo atende a formação identitária céltica, pois o uso da antiguidade enquanto construção é base da justificativa do reconhecimento de uma identidade étnica céltica legitimadora das ações e da coesão grupal imaginada pela comunidade pan-céltica, e relembradas nas memórias coletivas dos movimentos de identidade resistente céltica nos mais variados locais onde esta se apresenta.

No entanto, estas buscas etno-nostálgicas geram quase sempre uma falta de perspectiva com relação ao que é ser celta. Existe a interferência do campo politico seja na construção de uma resistência quanto de uma domesticação dos “valores célticos” e isso acaba por gerar uma falta de perspectiva futura em muitos casos sobre o uso destes elementos célticos.

Sanar esta falta de perspectiva de um futuro que norteou a busca incansável pela celtitude na Galiza, inclusive. Afinal, falar de celtitude na Galíza é falar de galeguismo e seu desenvolvimento até a formação de um nacionalismo galego.

Dentro do galeguismo podemos identificar diferentes períodos. Do Provincialismo entre 1840 a 1885, passando pelo rexionalismo dos anos 1885 até 1915 e por fim estruturando-se em uma nacionalismo a partir de 1916. Nestes períodos, por meio da intelectualidade galega, nós vemos a celtitude se desenvolvendo de maneira concomitante, bem como o celtismo galego como um todo.

Os elementos célticos em Galiza não são fruto unicamente do século XIX. Apesar de entendermos que o marco histórico das teorias acadêmicas sobre o celtismo galego surgem com o História de Galícia de José Verea y Aguiar, suas influências residem no século XVIII com autores como o frei Martín Sarmiento e Juan Francico Masdeu que a partir da crítica de leituras acerca do celtismo na França desenvolve leituras próprias ligadas a Galiza.

Durante o desenrolar do século XIX, nós encontramos o celtismo na galiza se desenvolvendo ao lado de um projeto político como na atuação de Antolín Faraldo junto ao provincialismo e mais a frente já no rexionalismo com a figura do historiador Manuel Murguía e do poeta Eduardo Pondal.

Durante o provincialismo, Faraldo nos fornecerá os alicerces do entendimento céltico galego. Veremos a ideia dos celtas como grandes ancestrais galegos e mais do que isso, os celtas galegos como o centro da franja céltica atlântica, como podemos atestar por seus escritos no El Recreo Compostelano em 1842, onde se firma a ideia da Galiza como uma nação celta bem próxima das outras reconhecidamente atlânticas, pois“ os costumes da Irlanda, da Escocia, e ainda Francia, son irmãos dos nossos”[1].

No entanto, o celtismo galego ganha sua principal leitura a partir dos período político do Rexionalismo, onde um grupo de intelectuais dará corpo ao galeguismo por meio do movimento cultural e literário conhecido como o Rexurdimento. Neste período de profícua produção cultural galega que devemos localizar a atuação da cova céltica e em especial as obras de Manuel Murguía e Eduardo Pondal.

Com Murguía nós teremos o celtismo como elemento chave da formação étnica galega e de sua celtitude. Em seus escritos, a Galiza se torna oficialmente celta até mesmo ao se inserir no hino nacional galego como a Nação de Breogán.

Eduardo Pondal será igualmente importante neste projeto. Sua obra versará sobre os mitos celtas e os resignifica pensando em projeto futuro. O próprio conceito poético de resistência céltica galega vem e muito da obra de Pondal que trabalhará os elementos com maestria criando um significado forte entre o celtismo, a espacialidade galega e um projeto que identitário que se pensa resistente.

Não é muito difícil traçar paralelos entre o momento do Rexurdimento e a influência da cova céltica na Galiza, com o revivalismo céltico e a atuação das ligas gaélicas na Irlanda. Em verdade é muito fácil traçar um paralelo contemporâneo entre o trabalho de Murguía e Pondal e o que fez, por exemplo, o nacionalista Patrick Pearse e o poeta W.B.Yeats na Irlanda dada as devidas proporções e conjunturas de cada nação. No entanto, é justamente nesses paralelos históricos entre Irlanda e Galiza que a geração nacionalista pós 1915, a chamada xeración nós trabalhará o celtismo na Galícia afim de legitimar-se.

A Xeración nós, ligadas diretamente com os grupos nacionalistas em defesa da fala galega, as irmandades da fala, se tornará o principal expoente de disseminação do celtismo galego. A Revista nós traçará em diversos de seus números paralelos entre a Irlanda celta e a Galiza e será de vital importância para a formação da ligação cultural no imaginário coletivo galego entre as duas nações enquanto celtas. O Livro das invasões da Irlanda, um manuscrito medieval que fala da formação mítica e celta dos irlandeses, ocupa um papel chave nessas construções e será de grande uso para estes intelectuais que o traduzem para o galego, inclusive.

É neste grupo que destacamos a atuação de Vicente Risco, Ramón Otero Pedrayo e Florentino López Cuevillas não apenas na revista nós, mas em suas obras pessoais repletas de referências ao celtismo galego e o seu paralelo com a Irlanda, bem como sua integração com a cultura norte portuguesa.

Cuevillas fará isso no campo da arqueologia, publicando trabalhos consistentes sobre cultura material galega e evidenciando paralelos óbvios com as demais culturas atlânticas, mas com algumas afirmações tendenciosas. Com o franquismo essas análises perderam a força e com o tempo, foram rejeitadas.

É Otero Pedrayo que dirá abertamente em seu Ensaio Histórico da Cultura Galega que “(…) Irlanda, Cornualles, Gales, Bretaña e Galicia, saudáronse coma irmás oceânicas coa luz de seus faros e a confiança nos seus destinos”. Essa visão acerca do celtismo é a culminância de um desenvolvimento complexo e delicado de construção de uma Memória coletiva céltica que desde o provincialismo e por que não dizer, desde o século XVIII, trabalhará o material céltico galego cada vez mais atrelado a sua distinção da cultura de Madri.

É importante notarmos que a legitimação do celtismo galego é totalmente trabalhada em seu paralelo com as demais nações celtas, em especial a Irlanda. Galiza é como nas palavras de Vicente Risco a “Eirin do Sur” que deseja culturalmente e politicamente que a “estrela inmorrente do celtismo” brilhe sobre ela para que consiga levar seu projeto identitário resistente adiante. Os entraves para que isso ocorra são muitos. O medo de se elaborar teorias racistas ou xenófobas criou uma moda celtófoba entre alguns intelectuais galegos. Este panorama atual do celtismo galego é o que podemos chamar de no mínimo “esquizofrênico” e se mostra mais complexo do que a própria elaboração do celtismo nos últimos séculos.

Isso ocorre porque o Celtismo passa constantemente por uma revalidação de atributos romantizados e utiliza de uma sacralidade geográfica das terras célticas como meio de estimular uma nostalgia estereotipada de algo nobre que foi destruído pela dominação do Outro seja ele oriundo de Madri no caso galego ou de Londres no caso irlandês. O elemento político nacionalista é estruturador do aporte cultural articulador das fronteiras étnicas desde o momento inicial de suas construções nacionais.

Vale lembrar que estas bases étnicas são definidas por fronteiras étnicas célticas que não são, em hipótese algum, restritivas, sobretudo, por conta do papel da cultura que atua como um instrumento definidor étnico altamente mutável.

A prova viva disto é que o celtismo seja na Irlanda ou na Galiza continua em disputa. Suas lutas são fruto do conflito nacional destas populações e, principalmente, do elemento resistente que tanto irlandeses como galegos carregam em suas identidades para aguentar sua subalternização sofrida em diferentes níveis ao longo da História.

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[1] FARALDO, Antolín. Em “Galicia antes de lainvasión romana”. El RecreoCompostelano, 1842. Pp 72.

O celtismo na poesia de Ramón Cabanillas

Thayane Gaspar

Pesquisadora em Literatura Galega no Programa de Estudos Galegos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Este trabalho busca investigar os elementos celtas usados na representação de uma identidade nacional na poesia de Ramón Cabanillas, revelando por meio deles a ligação entre Galícia e Irlanda. Com a análise dos poemas (“Irlanda!” e “A Brañas”) muito significativos no contexto do celtismo galego dos séculos XIX e XX, pode-se perceber como o poeta traz à tona as ideologias nacionalistas, o passado celta através das correntes chamadas de panceltista e atlantismo, mesclando literatura com as reivindicações daquela época. O poeta nacional se lança como o poeta messiânico, esperado num momento de renascimento da cultura, da língua e da história de Galícia.

Ramón Cabanillas é considerado o primeiro poeta nacional da Galícia, ele se destacou durante uma fase de grande incerteza na literatura galega e destacou-se também pela sua face nacionalista num momento em que este movimento estava em ascensão. Por conta da sua inserção tardia no mundo literário e pela falta de evolução clara da linha da literatura galega, Cabanillas não possui um lugar certo dentro das gerações de poetas, mas é normalmente considerado poeta das Irmandades da Fala ou da geração de 1916 e também o introdutor do modernismo.

Cabanillas foi um poeta diferente das demais figuras da literatura galega, pois teve muito prestígio dentro da academia e alcançou um reconhecimento quase imediato depois de ingressar no cenário literário ao publicar sua primeira obra (No Desterro) aos trinta e sete anos.

A poesia de Cabanillas pode ser dividida em quatro fases: a primeira de 1910 a 1915, conhecida como fase agrária, uma etapa pré-galeguista, na qual o poeta escreve sobre as injustiças que aconteciam no campo e se coloca contrário à figura senhorial; a segunda fase vai de 1915-1920, sua fase cívica, na qual os seus poemas tendem a apresentar um tom patriótico, conscientizador, educador sobre o nacionalismo; de 1920 a 1931, encontra-se sua terceira fase, a fase mítico-saudosista marcada pelo levantamento de lendas celtas como as que envolvem o Rei Artur e a Alta Idade Média, é nessa fase em que as Irmandades da Fala têm contato com o movimento saudosista português e o movimento influencia a poesia de Cabanillas; a fase que vai de 1939 a 1959 é conhecida como o segundo amadurecimento do poeta, nessa fase ele abandona o tom cívico por conta das mudanças ocorridas no nacionalismo, na sua geração literária e sobretudo influenciadas pela guerra. Nesse momento, a poesia do poeta de Cambados se torna mais subjetiva e autorreflexiva, beirando o pessimismo existencial.

Inicialmente, para se trabalhar com o celtismo na poesia de Ramón Cabanillas, pensaríamos em utilizar como base de análise os poemas de obras presentes na sua terceira fase, a mítico-saudosista. Contudo, o celtismo e a própria ligação com a Irlanda não se mostram presentes apenas nessa fase, mas já se vislumbram na segunda. Por isso, dentro dessa segunda fase, serão analisados dois poemas presentes na obra Da Terra Asoballada, na qual o patriotismo e o nacionalismo depositam suas esperanças na Renascença pela qual a Irlanda passou, sendo essa nação, por conta disso, um modelo a ser seguido pelos galegos como, se pode observar, nos poemas que analisaremos.

RELAÇÕES ENTRE GALÍCIA E IRLANDA

As relações entre Galícia e Irlanda são muito antigas. Espanha e Irlanda possuem uma ligação muito forte, pois a Espanha acolheu os irlandeses durante períodos de repressão e perseguição que aconteceram na Irlanda desde o século XVII. Possivelmente, por conta disso, há nítidos paralelismos quando se trata de comparar tradições, lendas, costumes, música e literatura entre as duas nações.

A escolha da Irlanda como modelo de reconstrução nacional não parece ser gratuita, a Irlanda é o país de referência quando o assunto é o povo celta, além de ser um dos países da Europa a conservar a cultura e língua celta, por causa das poucas invasões que sofreu ao longo da história, em razão da sua situação geográfica que a mantém ilhada.

Além disso, a Irlanda e Galícia dividem pontos comuns em sua história. A Irlanda, assim como a Galícia, passou por um período de declínio na transmissão da língua e de desprestígio da literatura após a Idade Média, ápice das duas nações. Ao longo da história, a Irlanda foi dominada pelos ingleses que exploravam e criavam escolas nas quais o gaélico era discriminado e até mesmo proibido ainda que o irlandês fosse falado majoritariamente pela população. O domínio inglês sobre a Irlanda deixou sequelas: o país foi assolado pela fome, miséria e muitas migrações, e toda a cultura irlandesa caiu em descrédito ao mesmo tempo em que era apagada, abafada, menosprezada e ridicularizada pela cultura e ideais ingleses.

Contudo, nas últimas décadas de 1800 são publicadas duas obras que fazem renascer a literatura e a língua que passava por um período de inatividade quase total: Silva Gadélica (1892), uma antologia de contos em irlandês de Standish Hayes O’Grady e Bards of the Gael and Gall (1897), antologia de poesias traduzidas ao irlandês de George Sigerson. A publicação dessas duas obras dá início ao que se conhece como Renascença Céltica.

Em 1893 é fundada por Douglas Hyde e Eoin MacNeill a Liga Gaélica que tinha como objetivo preservar e desenvolver o idioma da Irlanda (e consequentemente sua literatura). A Liga promovia a ideia de que a Irlanda era um país diferente do Reino Unido, com uma cultura e uma língua diferente.

Com tanto em comum e vendo o êxito no projeto de reconstrução da identidade nacional, Galícia vai olhar para a Irlanda com admiração e tentará seguir seus passos para também preservar seu idioma, que gradativamente ia perdendo falantes na transmissão intergeracional, e para devolver o prestígio da sua literatura e se diferenciar do restante da Espanha.

RAMÓN CABANILLAS E O NACIONALISMO- CELTA

O nacionalismo galego nasce como resposta aos ideais da Revolução Francesa nos quais se cria a ideia de uma nação, uma identidade cultural e uma resposta também às políticas espanholas como a eliminação do reino da Galícia e a divisão do país em províncias no ano de 1833. Para os nacionalistas, a homogeneidade dessa identidade estava calcada numa raça celta da qual provinham os galegos, argumento muito utilizado naquela época para se definir uma nação. Ao escolher o celtismo para ser a base das reivindicações de que a Galícia era diferente da Espanha, estabelecia-se também uma relação entre o passado heroico celta e o presente. Assim, o celtismo entra na literatura através de poetas como Eduardo Pondal e na história através de Benito Vicetto e Manuel Murguía.

Axeitos (1993) justifica o resgate de um mito nesse momento atendendo ao seu valor paradigmático ao pertencerem a um passado essencial e memorável que fundamenta e explica um presente decaído e nostálgico. Portanto, o resgate da cultura celta aparece como uma tentativa de instruir Galícia sobre ela mesma, de dar a ela uma identidade e motivos para se orgulhar de sua história, língua e cultura.

Os celtas aparecem na historiografia galega no século XVII na obra de Álvarez Sotelo, misturando-se com origens bíblicas e relacionados à presença dos irlandeses exilados que buscavam raízes para justificar sua presença na Galícia (PUIG, 1995), entretanto é só no começo do século XX que o celtismo aparece ligado ao movimento nacionalista. A importância deste discurso era tamanha que se criou a “Cova Céltica”, uma tertúlia na Coruña na qual muitos autores se reuniam, entre eles Pondal e Murguía.

Por outro lado na historiografia galega, a Idade do Ferro (período no qual supostamente os celtas estiveram na Galícia) serviu de referência para a formação do “ser galego”. Esse período foi escolhido porque o castro é o elemento mais visível da paisagem noroeste, assim como os monumentos megalíticos, dependentes do passado bíblico e mais tarde correspondentes aos celtas (Santana Díaz, 2002).

Cabanillas, autor que vem à tona dentro da geração nacionalista, faz uso do celtismo para inflamar o peito galego na sua luta de reconhecimento de uma identidade própria e também utiliza a matéria Bretanha, galeguizando-a e ligando o caminho de Santiago de Compostela às histórias cavaleirescas do rei Artur.

Porém, a matéria literária celta vai muito além das histórias do ciclo arturiano e mitos celtas na poesia de Cabanillas, pois esse poeta também falou sobre a nação irmã da Galícia em seus versos para dar mais força à reivindicação nacionalista, trazendo o exemplo que deu certo: a Irlanda.

DA TERRA ASOBALLADA

Da Terra Asoballada (1917) é uma obra relacionada à segunda fase do autor, a fase cívica. Alguns poemas são homenagens a figuras do galeguismo como Manuel Murguía, Rosalía de Castro, Eduardo Pondal e até figuras contemporâneas ao autor.

Os dois poemas que serão analisados foram escolhidos por tratarem diretamente dessa ligação entre Galícia e Irlanda e o nacionalismo galego, envolvendo o celtismo. Dessa forma, pode-se perceber como esses elementos foram rearranjados pelo poeta, a fim de dar à Galícia uma identidade cultural e dar voz à própria terra galega.

O primeiro poema a ser analisado se chama “A Brañas”, um poema dedicado a Alfredo Brañas, autor importante no século XIX, pois, além de escritor e jornalista, ele também foi um dos idealizadores do movimento regionalista, antecedente ao nacionalismo galego.

A Brañas

Dende a praia cambadesa.

¡Balcóns froridos! ¡ Olmos da<<Calzada>>!

¡Vellos patíns! ¡ Mareiras! ¡<<Mos de Fóra… >>!

Do teu paso a lembranza ben amada

Enche a viliña homilde e soñadora;

I a enxebre vos, ardente e namorada,

que anunciou da Rexión a nova aurora,

inda está prisioneira i encantada

nos carballos do monte da << Pastora>>!

Cando tecendo ensonos, paseniño,

Da beiramar pola deserta rúa

Na silenzosa noite me encamiño,

Ouso bruar o teu ¡<<Érguete i anda>>!

E xurde un pobo que ó craror da lúa

Ruxe a estrofavaril¡<<Como en Irlanda…!>>

Assim como a frase abaixo do título do poema sugere, o poema é uma caminhada por Cambados desde a sua praia. Cambados é um município na província de Pontevedra, onde nasceu Ramón Cabanillas e onde Brañas passou a infância. O poema mostra elementos da paisagem rústica desse município como o passeio cercado de olmos em Calzadas, ponto turístico de Cambados e Mos de Fóra, outro lugar na mesma prefeitura na província de Pontevedra. E por último a Pastora, lugar onde fica a capela da Virxe da Pastora em Cambados.

O eu lírico parece fazer esse passeio para mostrar o eco da ideologia de Brañas nesses lugares, como se mesmo após a sua morte, a lembrança das suas ideias ainda desse esperança à população dessa vila. Assim, o poema segue mostrando que mesmo depois das conquistas advindas do regionalismo, Galícia ainda não era livre, é aí que o eu lírico se mostra afirmando que os galegos estão seguindo para essa libertação, ainda que a passos pequenos e lentos. E o “sonho” aparece como reflexo desse anseio, dessa esperança.

No final do poema, o eu lírico tem a “ousadia”, como ele mesmo diz, de fazer referência a um famoso poema de Alfredo Brañas chamado “Ergue, labrego” publicado em 1932 na revista Céltiga, uma revista editada e publicado por imigrantes galegos em Buenos Aires, na Argentina.

O poema de Brañas comenta a situação da Irlanda, uma terra verde como a terra galega e como um dia ela foi explorada pelos ingleses, de como os trabalhadores já foram escravos e que agora são livres e que vão se vingar. Depois de discorrer sobre a situação irlandesa e sua vitória, o eu lírico, sem fazer anúncios sobre sua mudança de objeto, passa a falar da situação de miséria e fome por que passa a Galícia enquanto é explorada por proprietários ricos, demonstrando assim um paralelo entre as duas nações e suas histórias. E o poema cujo refrão é “Ergue labrego, /¡érguete i anda!/¡Coma en Irlanda!/ ¡coma en Irlanda” termina com esse chamamento aos galegos para lutar a favor da sua terra.

A luz é um elemento que aparece em “aurora” no “craror da lúa”, no lugar de guia, de nascimento. Tanto a luz da aurora quanto a luz da lua, são luzes claras diferentes da intensidade e do calor de uma luz solar, por exemplo. Então, essa luz poderia ser tomada como o potencial galego, que já brilha mas não na sua intensidade máxima e no seu esplendor.

A Galícia descrita no poema de Brañas é o retrato da pobreza, da miséria, da injusta condição de trabalho no campo, uma Galícia reconhecida apenas pelo que dá na sua terra ou é cultivada nela e que serve para ser vendido como a lenha, os frutos, as vacas e bois, as batatas, etc. No poema de Cabanillas, o que a terra galega dá agora parece ser algo que não gera lucros: são os balcões floridos, o passeio cercado de olmos, os carvalhos do monte, sua paisagem nacional, elementos que a fazem única. A terra galega é então descrita de uma forma mais positiva, esperançosa, como se as sementes do regionalismo de Brañas tivessem dado fruto e com “a aurora” os galegos enxergaram sua terra sob uma nova ótica, pois retira do exemplo irlandês a força necessária para lutar pela sua “liberdade”.

O segundo poema a ser analisado, tem como título o próprio nome Irlanda e elucida muitos elementos do folclore que ambos as culturas compartilham.

¡IRLANDA!

Irmanciña adourada

Que pasache-lo mar!

Antre a brétema, o tanguido

Da campaíña de San Patrício zoando vai!

Carne, sangue, ósos celtas!

Irlanda! Irlanda, irmán!

Tem unha nova estrela o nosso ceo

E tem uns santos novos no altar

Chegou o teu berro

óscons de Fisterre que baten o mar

E abreu o teu laio, salouco e ruxido,

As vellas feridas do vello Breogán…

Xa está cheo de sangue vermello

O cáliz do San Graal!

Irmanciña adourada

Que pasache-lo mar!

A lanza groriosa dos feitos heroicos os sagros mistérios,

en alto… Afiada… na man!

Nesse poema fica evidente o tom afetivo ao se falar da Irlanda, a quem o eu lírico chama de “irmãzinha adorada”, e que possivelmente é ela, agora liberta, a nova estrela desse céu. A expressão “que pasache-lo mar” pode ser entendida como uma referência à crença de que os celtas chegaram à Irlanda diretamente da Galícia, já que a viagem marítima entre os dois lugares é uma linha reta.

A “brétema” também tem grande significado, já que a paisagem era um elemento importante na poesia céltica e acredita-se que a brétema era uma qualidade da paisagem melancólica e misteriosa da Galícia nos tempos dos celtas como está expresso no artigo de Axeitos.

A menção a São Patrício, uma das figuras mais importantes na história irlandesa, reflete uma das muitas afinidades culturais entre Galícia e Irlanda, a religião cristã. São Patrício foi o responsável pela disseminação da religião católica na ilha e também deu uma nova significação a alguns símbolos pagãos, mais de acordo com o cristianismo. Sendo assim, explica-se porque há “santos novos” no altar, porque muitas figuras pagãs foram reconfiguradas e incorporadas à religião como santos católicos.

A Irlanda mencionada pelo eu lírico vai tomando forma e força até parecer personificada, um elemento vivo que tem ossos e sangue, que grita e que invoca Galícia à luta. Já o sangue vermelho, pode ser uma referência à esquerda, ao povo, as classes populares.

O poema vai se encaminhando para o final afirmando que o berro da Irlanda chegou à Galícia e que é hora de a nação galega fazer alguma coisa a respeito da sua situação de exploração e falta de liberdade. E a força para esse despertar está depositada nessa mitologia celta que envolve o Santo Graal, no ciclo mítico do Rei Artur e principalmente no herói Breogán.

A figura desse herói sobressai bastante no celtismo. Breogán é um personagem retirado de um dos livros mais importantes da Irlanda: Leabhar Gabhála Éireann, o livro das invasões de Irlanda. Na Galícia, ele será um personagem ligado à fundação da cidade da Coruña.

A lenda de Breogán é um dos pilares da reconstrução da identidade nacional galega. Ela é uma lenda diferente, pois não tem um caráter popular e, sim, culto. Essa lenda aparece pela primeira vez através do historiador e fundador da Real Academia Galega, Manuel Murguía, em seu livro História de Galícia e posteriormente ela é incorporada aos movimentos políticos do nacionalismo.

Supõe-se que essa lenda tenha chegado à Galícia através dos imigrantes irlandeses do século XVII, dentro dos colégios irlandeses fundados por esses imigrantes. Breogán vai se tornar símbolo dessa nação que precisa despertar, ideia já expressa no hino nacional galego e portanto, ele vai representar essa luta até a independência, assim como no poema, que sugere que a “lança” com a qual os galegos devem lutar já está nas mãos, afiada e pronta para o combate.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As relações entre Galícia e Irlanda são muitas. Se se acredita e se analisa pelo viés celta, irlandeses e galegos dividem uma raça celta, uma cultura, uma legião de deuses que foram “despaganizados” posteriormente, lendas, crenças e costumes. Sob outra ótica, essas afinidades são explicadas pelas grandes migrações irlandesas que aconteceram na Espanha, migrações que estreitaram os laços culturais e afetivos entre as duas nações. Sob a ótica histórica, Galícia e Irlanda parecem irmãs pelas semelhanças históricas no que diz respeito principalmente ao declínio da língua e da literatura. E sob a ótica do nacionalismo galego, a Irlanda é a colônia que se libertou da metrópole e que resgatou nesse movimento sua dignidade, sua cultura, sua língua, seus costumes e mudou o curso da sua história, tornando a tão almejada liberdade galega um passo possível. Assim, sob qualquer ponto de vista, as relações entre Galícia e Irlanda são muitas e inegáveis, e os poetas souberam bem como utilizar esses elementos comuns para descobrirem a sua própria terra e sua própria identidade que eles acreditavam e afirmavam serem diferentes do resto da Espanha.

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SANTANA, Beatriz Días. Os celtas en Galicia: arqueoloxia en política na creación da identidade galega. A Coruña. Editora Toxsoutos, 2002.

II Semana Audiovisual Galega: A Galiza Celta. Na UERJ!

Por segundo ano consecutivo vai ter lugar na UERJ a Semana Audiovisual Galega, organizada pelo Programa de Estudos Galegos (PROEG).  Nesta segunda edição dedicada à celticidade da Galiza, ao debate sobre o papel que o celtismo teve na construção da identidade nacional da Galiza.

Esta jornada de atividades acontecerá na segunda-feira 16 de novembro desde as 09:30h até as 19:45h no Miniauditório da pós-graduação, no Instituto de Letras (11 andar).

O programa é o seguinte:

09:30 Palestra. “O celtismo na literatura galega” Thayane Gaspar (UERJ)

10:00 Documentário e debate. “Celtismo e identidade na Galiza”

11:30 Leitura de poemas galegos

12:00 Intervalo

16:30 Curtametragens e debate: “Mamasunción” (1984); “As almas do Fental” (2009) e “Loita de clases” (2013)

17:30 O celtismo na música galega. Mostra musical

18:00 Música ao vivo: a gaita de fole. Baltasar Pena

18:45 Palestra: “A memória cultural celta da Galiza e da Irlanda”, Erick Carvalho (UNIRIO)

última versão II SAG