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Guille Vidal: “Os topônimos galegos continuam a ser castelhanizados em muitos lugares ou contextos”

As atividades pós-greve do Programa de Estudos Galegos foram retomadas em Setembro de 2016 e foram (re)abertas com a palestra “Breve aproximação à antroponímia galega: século XVIII e atualidade”, ministrada pelo doutorando em Linguística pela Universidade de Santiago de Compostela, Guillermo Vidal. Guillermo tem graduação em Letras Galego também pela Universidade de Santiago de Compostela, possui mestrado em Professorado e Educação pela Universidade da Coruña, além atuou como professor nos Cursos de Verão de Língua e Literatura Galegas para estrangeiros no ano de 2015.

1) Como foi a sua experiência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde você deu a sua palestra, e na sua viagem ao Brasil?

Foi uma experiência muito bonita, gostei muito de fazer parte das atividades do PROEG e do recebimento das professoras; além disso, o público não era muito numeroso mas fiquei muito contente de seu interesse pela onomástica galega. E se a palestra foi linda, a viagem podem imaginar que também!

2) Você tem família brasileira, assim tinha já contato com a variedade linguística que falamos no Brasil, mas, como é falar em galego com normalidade no âmbito internacional?

Bom, encarei a viagem como uma oportunidade para falar e escrever na variedade brasileira. E além disso, achei que, infelizmente, o galego da Galiza não é muito conhecido nem entendido no Brasil, coisa que não acontece na Galiza, onde a maior parte dos galego-falantes entendem a variedade brasileira. Seria lindo ver algum dia o galego da Galiza sendo compreendido no Brasil, mas isso acho que também dependerá muito de uma educação linguística mais adequada e menos sujeita à hegemonia da norma padrão portuguesa e sua visão histórica da língua. O fato de muitas pessoas não conhecerem a Galiza nem sua língua quando se faz referência à Espanha é um síntoma muito significativo de essa educação, sob o meu ponto de vista, parcial. Mas, por sorte, o alunado da UERJ sim entendia galego e foi um prazer falar ele com naturalidade em uma universidade do Brasil.

3) Qual é a relevância de uma pesquisa na área de onomástica para a situação atual da língua galega?

Em termos sociolinguísticos, se é conhecido o fato de a língua no seu conjunto não ter ganhado ainda a ‘normalização’ e o prestígio necessário para se desenvolver como uma língua normal, não doente, na área específica da onomástica a situação não é diferente. O presidente do governo espanhol tem sobrenome galego castelhanizado, o presidente da Galiza também, e os topônimos galegos continuam a ser castelhanizados em muitos lugares ou contextos; por exemplo, na Wikipédia em espanhol. Até a Academia da língua espanhola recomenda o uso de essas formas. São só alguns exemplos. Gosto de pensar que pesquisar a onomástica galega desde o ponto de vista histórico ajude, embora seja minimamente, a essa panorámica atual ir mudando, a não ficarmos com vergonha de restaurar a forma galega de nosso sobrenome, ou a não permitirmos que chamem O Valadouro de “Valle de Oro” (por exemplo), do mesmo jeito que eles não chamam a cidade carioca de “Río de Enero”.

4) Podemos traçar algum paralelo entre a política envolvendo a língua galega e os resultados encontrados na comparação entre o século XVIII e a atualidade da antroponímia galega?

Acho que sim. No século XVIII a Galiza e sua língua ficavam ativamente marginadas pela Coroa de Castela pelo processo de criação do estado-nação espanhol. Esse processo nacionalista envolvia reprimir todas as línguas que não eram faladas no centro da península. Por isso os antropônimos no s. XVIII aparecem castelhanizados, porque não era “formal” escrever o nome das pessoas em galego em um documento oficial. Hoje em dia o galego segue sofrendo um problema de prestígio e normalidade, a meu modo de ver, pelas políticas que envolvem a língua, as do estado espanhol mas também as do governo galego. E isso tem consequências também na atroponímia. Se uma língua não tem prestígio as pessoas não põem a seus filhos nomes em essa língua, nem recuperam seus sobrenomes castelhanizados para ela.

5) Existe alguma conexão entre os sobrenomes estudados nos seus trabalhos e os sobrenomes brasileiros? Qual?

Em verdade, a conexão existe mas não é muito grande. A área que eu estudo é pequena e rural. Muitos sobrenomes procedem de topônimos locais que não tem no Brasil ou em Portugal e possivelmente alguns chegaram no Brasil através de emigrados, mas por enquanto eu não conheci nenhum, e em verdade tampouco pesquisei isso em profundidade além do tempo que esteve aí. Mas sim tem muito paralelo com os sobrenomes patronímicos, como também tem com o espanhol. Os nossos Pérez, Fernández, Rodríguez têm seus equivalentes no Brasil: Pires, Fernandes, Rodrigues…

6) Saindo um pouco da antroponímia e entrando em outra subdivisão da onomástica… Conhece-se a polêmica instaurada na área de topónimos na Galícia os quais são frequentemente castelhanizados. O que essa castelhanização representa para a cultura galega? E o que a Lei para a salvaguarda do Patrimonio Cultural Inmaterial tem feito nessas situações?

Em minha opinião, e prefiro ser honesto, isso representa uma agressão contra nossa cultura só própria de nações colonizadas. Como diz anteriormente, as elites que impulsam o modelo de língua ou a Academia espanhola não vão no Rio de Janeiro e o traduzem por “Río de Enero” (nem sequer por “Río de Janero”), ou também não vão no Mont Blanc da França e o traduzem por “Monte Blanco”. Quando, por enquanto, elas traduzem por exemplo Viveiro por “Vivero”, só é possível deduzir que o galego não é respeitado como qualquer outra língua alheia a seus limites administrativos. Quanto à lei, acho que é de muito recente aprovação e ainda não pude comprovar se tem reagido em situações assim. Mas sou escéptico com ela, não nego que pode ser uma ajuda e servir como proteção em algumas coisas, mas já houve outras leis com intenções lindas com a língua que à hora da verdade demonstraram não se cumprir ou não funcionar quando se procuram mecanismos para fugir de seu espaço de atuação.

7) Na sua experiência como professor de práticas no Curso de Verão de Língua e Literatura Galegas para estrangeiros, o que esse curso representa para os galegos e galegas e a situação da língua?

Infelizmente, acho que ele não é muito conhecido na Galiza, só em alguns espaços. Mas para quem é conhecido e para quem fica conhecendo através dos noticiários ou dos próprios estudantes acho que representa um pulo importante de dignidade e de autoestima muito necessário para melhorar o prestígio da língua e sua situação sociolinguística. As pessoas ficam perguntando para o alunado por que que eles e elas, sendo estrangeiros, estudam galego. Diante de essa situação, olhem que necessário são iniciativas como essa.

8) Com respeito à situação da língua na Galícia, qual é a avaliação que poderia fazer da sua vitalidade atual?

Negativa. Os dados recentes indicam que o galego já não é a língua maioritária da população galega por primeira vez na sua história. O galego só é falado por uma porcentagem muito pequena e preocupante das crianças na atualidade. Lembro, quando eu era criança, que na minha cidadezinha apenas tinha crianças que falassem em espanhol como língua nativa. Agora, olho as crianças e são minoria as que falam em galego. Outro dado muito significativo é que nos últimos anos o número de publicações em galego só desceu.

9) Que acha que tem errado na política linguística galega e que políticas e discursos acredita que são necessários para normalizar a língua?

Principalmente, o decreto atual que regula a formação da primária e da secundária e que, por exemplo, interdita a instrução de ciências empíricas (as mais prestigiadas socialmente) em galego em alguns anos. Para a normalização plena e real, e embora semelhar radical, acho que só tem uma solução, e é a mesma que precisa qualquer colectivo ou bem desfavorecido ou marginado do mundo: uma política (linguística) que vire 180º a situação atual e favoreça a língua minorizada por cima da prestigiada e normalizada. Em contra do que muitos acreditam, mesmo se o espanhol desaparecesse completamente da formação (e nenhum profissional da sociolinguística galega pede isso) ele não correria perigo nenhum nem desapareceria da Galiza.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

Do Rio: o melhor, as ruas arvoradas e os postinhos de venda de frutas tropicais; o pior, as favelas e o trânsito dôido!

Do Brasil: o melhor, as pessoas e as serras; o pior, o golpe de estado… e a cerveja!

Um lugar no Rio de Janeiro

Largo de Machado

Uma palavra do galego e uma do galego brasileiro

Do galego: garabullo (com gheada)

Do galego brasileiro: bagunça.

Um desejo para o futuro

Viver por um tempo no Brasil

 

 

 

 

 

As relações entre o galego e o português do Brasil. Curso de extensão na UERJ!

A partir da próxima semana o professor-leitor galego da Universidade de Viçosa, Diego Bernal, dará o curso de extensão “As relações entre o galego e o português brasileiro” na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O curso acontecerá nos dias 7, 8 e 9 de dezembro de 14:00 a 16:00 horas no Mini-auditório da Pós-Graduação em Letras.

As inscrições podem se realizar na Sala do Programa de Estudos Galegos ou através do email proeg.rj@gmail.com

Diego Bernal foi entre os anos 2011 e 2013 professor-leitor de língua, literatura e cultura galega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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H. Monteagudo: “A liberdade normativa é factível com algumas condições”

Henrique Monteagudo é profesor de Filoloxía Galega na Universidade de Santiago de Compostela e Secretario da Real Academia Galega. Foi coordinador da Sección de Lingua e secretario do Consello da Cultura Galega. Tamén é codirector de Grial. Revista de Cultura Galega e membro do padroado da Fundación Penzol. As súas principais liñas de investigación son: historia da lingua, sociolingüística e glotopolítica. Estudou e editou textos galegos de todas as épocas, desde a Idade Media ata a actualidade: Martin Codax, Paio Gomez Chariño, Martín Sarmiento, Rosalía de Castro, Otero Pedrayo, Castelao e Ramón Piñeiro. Coordinador da edición das Obras de Castelao e de Martín Sarmiento, estudoso da súa biografía e obra. Foi profesor convidado das universidades de Birmingham (Reino Unido), California (UCSB), Nova York (CUNY), São Paulo (USP), Lisboa (UL) e Buenos Aires (UBA). Autor de monografías como Historia Social da Lingua Galega (1999), Letras primeiras. A emerxencia do galego escrito e os primordios da lírica trovadoresca(2008), De verbo a verbo. Documentos en galego anteriores a 1260 (2009), “En cadea sen prijon”. Cancioneiro de Afonso Paez (2013). Editor científico de obras colectivas como Sociedades plurilingües: da identidade á diversidade (2009), e Linguas, sociedade e política. Un debate multidisciplinar (2012). (http://ilg.usc.es/gl/persoal/x-henrique-monteagudo-romero)

1. Você participa do Grupo de pesquisa “Galego e português brasileiro”. Há no Brasil interesse pela pesquisa conjunta com as investigadoras e investigadores galegos? Em que âmbitos e projetos se está trabalhando?

Si, os investigadores e investigadoras galegos atopamos unha actitude moi receptiva, colaboradora e proactiva por parte dos nosos e as nosas colegas do Brasil, e un grande interese polo noso traballo, que, por suposto, é mutuo. Por razóns obvias, a lingüística histórica e a historia da lingua constitúen ámbitos de interese común especialmente importantes, pero tamén a dialectoloxía, a gramática ou a sociolingüística.

2. Deu um curso na Universidade Federal Fluminense baixo o título “A língua no tempo, os tempos na língua. O galego, entre o português e o castelhano”. Em que elementos centrou o seu relatório?

Non é doado de resumir en poucas liñas, pero falando en xeral presentei a evolución do galego no marco peninsular, e máis en concreto en relación coa do portugués e o castelán, mostrando en que puntos se pode falar de evolución conxunta do galego e o portugués desde a Idade Media, en que outros de evolución diverxente, e tamén as converxencias, coincidencias e diverxencias do galego con respecto ao castelán e entre este e o portugués. A historia lingüística de todo o conxunto centro-occidental da península resulta bastante máis complexa do que poida parecer a primeira vista. Tamén pretendía chamar a atención sobre o estudo da constitución e evolución das variedades estándar como un necesario interface entre as denominadas historia interna e historia externa da lingua, e pór de vulto que a aplicación mecánica e adoito anacrónica da noción de ‘lingua’ pode resultar máis prexudicial que esclarecedora cando estudamos a evolución dunha serie de variedades veciñas, dispostan en continuum, de entre as que se destacan varias variedades cultivadas. A idea é que o galego experimentou importantes evolucións conxuntas co portugués a finais da Idade media, outras co castelán (pero non necesariamente inducidas por este) e outras autónomas e diverxentes en relación tanto con un coma co outro idioma.

A intercomprensión mutua (galego-brasileira) é moi doada e esixe pouco esforzo. É obvio que o galego nos abre as portas ao ámbito de expresión portuguesa.

3. Você deu a sua palestra em galego no Brasil com normalidade ante um público português-brasileiro parlante. É o galego uma língua internacional?

Des que visitei por primeira vez o Brasil, como antes acontecera en Portugal, expreseime en galego na maior parte das miñas disertacións e clases. A intercomprensión mutua é moi doada e esixe pouco esforzo. É obvio que o galego nos abre as portas ao ámbito de expresión portuguesa. Mesmo así, non acabo de ver a pertinencia de colocalo na categoría das “linguas internacionais”, a menos que se precise o que se quere dicir exactamente con iso. De feito, a comprensión espontánea do discurso en galego tamén me ten acontecido ante públicos hispanófonos.

4. Pensa que se têm aproveitado na política linguística galega as vantagens internacionais da nossa língua?

Na miña opinión, dentro das graves deficiencias da política lingüística do goberno galego, atópase, sen dúbida, a falla dunha liña clara e activa de conexión cos países e culturas de expresión portuguesa, que debe ser unha das prioridades estratéxicas dunha (practicamente inexistente) acción exterior das institucións galegas, non só nos ámbitos lingüístico e cultural.

Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.

5. O galego perde falantes a um ritmo bastante importante desde há décadas. Qual considera que é a causa deste processo e como avaliaria as medidas aplicadas desde o governo e desde as instituições culturais e sociais para reverter a perda da língua?

O galego precisa dunha enérxica recarga do seu estatus e do seu prestixio. Se a sociedade e as elites dirixentes non o contemplan como un activo de futuro e non actúan en consecuencia, toda a lexislación e outras intervencións políticas, en principio ben intencionadas, acaban por convertese en fume retórico, con escasos resultados prácticos (ás veces, mesmo contraproducentes). Nese sentido, é indubitable que os últimos anos non facemos máis que recuar, aínda que parece estar tomando forza unha reacción social que pode levar a que nun futuro próximo as cousas cambien. Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.

6. O professor galego da UFF Xoán Lagares afirmava no seu artigo de 2013 O galego e os límites imprecisos do espaço lusófono o seguinte:

Durante todos os anos da gestão autonómica os grupos dissidentes da norma considerada oficial foram mantidos à margem das políticas de promoção linguística, dos subsídios e das instituições galegas. Essa identificação entre língua e norma, ou mesmo (o que seria ainda mais grave) entre língua e ortografia, tem feito com que as políticas públicas de promoção do galego dispensem a participação de setores extremamente ativos no uso da língua nos mais diversos âmbitos de comunicação […]. Uma política de liberdade normativa, que permitisse o convívio bi ou trinormativo, talvez fosse uma via na superação desse ideal monolíngue que parece acompanhar historicamente todo empreendimento à construção política das línguas.

Que lhe parece a proposta de liberdade normativa para o caso galego que faz o professor Lagares?

Hai cousa de vinte e cinco anos publiquei na revista Grial un artigo “Sobre a polémica normativa do galego” que ía moderadamente nesa liña. Non creo que unha liberdade normativa total fose positiva para o idioma, pero si que é factible con certas condicións. Dito o cal, teño a certeza de que cando o colega Xoán Lagares fala da “identificação entre língua e norma, ou mesmo (o que seria ainda mais grave) entre língua e ortografia” está pensando tamén en sectores do reintegracionismo que cometen ese erro. Si, lamentablemente, esa identificación errónea é moi frecuente en Galicia en amplos sectores, e constitúe un serio malentendido que sería preciso esclarecer.

Non creo que unha liberdade normativa total fose positiva para o idioma, pero si que é factible con certas condicións.

7. Quando na Galiza se tem falado das relações do galego com o português ou o português brasileiro, e do possível aproveitamento sociolinguístico deste facto, se têm provocado reações muito agressivas por parte das duas partes com opiniões encontradas. Por que acha que acontece isto? Há alguma possibilidade de encontro?

Eu veño sostendo que nos debates normativos arredor do galego entrecrúzanse argumentos lóxicos (científicos) e posicionamentos sociolóxicos (intereses e actitudes persoais, de grupo, ideolóxicos…). Isto é o que explica a súa particular virulencia, a parte, claro está, de que no debate sobre a lingua van inextricablemente inseridos factores identitarios, sempre cun alto contido emocional. Con todo, coido que nos últimos tempos as discusións tenden a ser menos frecuentes e menos acedas. Será porque todos vemos que, dada a evolución sociolingüística do idioma e do seu contexto socio-político, non temos moito tempo que perder debatendo sobre o sexo dos anxos.

8. Se tivesse a responsabilidade da Secretaría Xeral de Política Lingüística, que medidas de urgência estabeleceria para reverter o processo de substituição linguística?

Coido que habería que mandar unha mensaxe clara á sociedade de compromiso co futuro do idioma, unha mensaxe que debera involucrar non soamente o goberno senón tamén un amplo elenco de axentes sociais de relevo. En segundo lugar, deberían debuxarse de xeito claro obxectivos a curto, medio e longo prazo, subliñando inequivocamente as prioridades: medios de comunicación, mocidade, novas tecnoloxías, ámbito laboral e profesional. En terceiro lugar, un amplo pacto para un modelo lingüístico para o sistema educativo favorable ao galego. Tamén habería que impulsar as liñas de investigación e formación en sectores clave para a lingua (sociolingüística, planificación lingüística, didáctica da lingua, terminoloxía). Para dar credibilidade a esas políticas, concentrarse en compromisos e avances concretos e significativos e esforzarse en manter unha máxima coherencia entre o que se pensa, o que se di e o que se fai.

O lóxico é que se acabe consolidando unha norma brasileira autónoma (de feito, xa está acontecendo), flexible e dinámica, achegada todo canto for posible á lingua común da maioría dos brasileiros e brasileiras.

9. Como sabe, no Brasil há também um interessante debate sobre a elaboração da norma culta da língua, havendo linguísticas que mesmo defendem a independência do português brasileiro como língua autónoma. Que opinião tem ao respeito?

Sigo con moitísimo interese ese debate, pero, pola mesma razón que sosteño que os problemas do galego debemos resolvelos basicamente os galegos, non quero inmiscuírme nun asunto tan sensible coma este. Dito isto, como sociolingüista entendo que o lóxico é que se acabe consolidando unha norma brasileira autónoma (de feito, xa está acontecendo), flexible e dinámica, achegada todo canto for posible á lingua común da maioría dos brasileiros e brasileiras.

Agora brevemente…

O melhor e o pior do Rio e do Brasil

O mellor a xente, o peor a desiguladade.

Um lugar no Rio de Janeiro

A praia de Ipanema.

Uma palavra do galego e uma do português brasileiro

Agarimo, jeitinho.

Um desejo para o futuro

Longa e próspera vida ao idioma galego, estreitamente abrazado cos seus irmáns de Portugal, o Brasil e África.

“A sorte dos galegos” de Marco Neves, e desconto especial no seu novo livro

Doze Segredos da Língua Portuguesa. Um livro essencial para quem se preocupa com o português e, ao mesmo tempo, não quer ficar preso a mitos e ideias-feitas sobre a nossa língua. Sabia que andam a circular por aí erros que não são erros? Sabia que as crianças precisam de muitas pa­lavras para crescer bem? Sabia que há uma relação entre o acordo orto­gráfico e a guerra na Ucrânia? Sabia que a palavra «saudade» não é impossí­vel de traduzir? Sabia que todos os portugueses têm sotaque? Sabia que o português e o galego estão tão próximos que, às vezes, se confundem? Sabia que os palavrões fazem bem (mas não convém abusar)? Num estilo claro e bem-disposto, o autor desmonta mitos e revela segredos da língua, com algumas his­tórias curiosas à mistura — e sem esquecer uma ou outra dica para escrever cada vez melhor.

Os leitores e leitoras do blogue que quiserem o livro com um desconto de 10% e assinatura do autor podem encomendá-lo aquí. No caso das encomendas a partir de Portugal, os portes de envio também são gratuitos.


A sorte dos galegos

Marco Neves

Professor de Tradução na Universidade Nova de Lisboa

Sim, eu sei. Poucos diriam que os galegos, neste tema das línguas, têm sorte. Mas estou convencido que têm muita sorte, se a souberem aproveitar. Gostava, então, de partilhar convosco esta outra perspectiva.

Apesar do desconhecimento sobre o tema que existe em Portugal, a verdade é que o galego e o português têm uma proximidade tão forte que é fácil confundi-los. Não vou insistir na discussão sobre unidades mais ou menos ilusórias. Isso interessa-me pouco, porque depressa vamos acordar os fantasmas tribais que temos dentro de nós e acabamos aos berros, em vez de aproveitar a tal sorte.

Interessa-me mais sublinhar isto: os galegos, os portugueses e os brasileiros, no que toca à língua, estão muito próximos. Podemos, com um pequeno esforço, conversar animadamente. Podemos até ler o que todos escrevemos. Sim, há sempre a estranheza do que não é exactamente igual. Não é igual, mas é muito próximo, e isso é imenso, queiramos nós fazer o tal pequeno esforço de que falava.

Ora, falei da sorte dos galegos. Pois, reparem. Haverá poucos galegos que não saibam castelhano. Com o castelhano chegam eles (os galegos) a centenas de milhões de pessoas. E, com o galego e a sua proximidade ao que portugueses e brasileiros falam, chegam a mais umas quantas centenas de milhões de pessoas.

Os galegos, ali no canto noroeste da Península, podem dar-se ao luxo de somar centenas de milhões com mais centenas de milhões de pessoas com quem podem conversar e de quem podem ler a literatura e muito mais.

Sim, apesar de todas as discussões, apesar dos fantasmas tribais, os galegos têm essa sorte.

E nós, portugueses (e também brasileiros) podemos ter a sorte de lhes dar um pouco mais de atenção, porque a Galiza é como um tesouro escondido no sótão de que já não nos lembramos.

É por isso que, num livro que publiquei sobre a língua portuguesa há poucas semanas (Doze Segredos da Língua Portuguesa, Guerra & Paz), escrevi muito sobre o galego: essas proximidades que irritam tanta gente são uma riqueza e uma sorte de que poucos se dão conta. Sim, o galego importa e o galego é algo que podemos redescobrir, para percebermos melhor donde veio a nossa língua e, no fundo, donde viemos nós.

Esqueçamos os medos e os fantasmas. Redescobrir o galego é uma sorte para todos nós: portugueses, brasileiros e, claro, galegos.

2 Aniversário do Quilombo Noroeste. Fernando Venâncio: O galego de todos nós

No próximo dia 13 de março celebramos o 2º aniversário do Quilombo Noroeste, blogue que nasceu para divulgar a cultura galega no Brasil e Portugal, e contribuir ao debate em torno à nossa língua no espaço internacional. Foram já dois anos, mais de 100 as publicações, e quase 27.000 as visitas, fundamentalmente desde a Galiza, Brasil e Portugal, mas também desde países tão diversos como Estados Unidos, Irlanda, Alemanha, Argentina, Japão, Austrália ou Moçambique. Para comemorar o nosso aniversário, temos o prazer de publicar este trabalho do professor Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam, bem conhecido por todas e todos pelas suas ingentes contribuições ao debate sobre a situação sociolinguística do galego e as suas relações com o resto de variedades internacionais da nossa língua. Obrigado, professor, pela sua generosidade.


O galego de todos nós

Fernando Venâncio

Professor da Universidade de Amsterdam

Certas histórias ficam-nos cravadas para a vida inteira. Uma delas é esta, que li em Vigo há bastantes anos.

Aconteceu que, em finais do século XIX, numa aldeia da Galiza, a Virgem apareceu a uma miudinha e lhe falou. Hoje, escapa-me o teor da conversa, mas sei que a cachopa foi ter com o prior da paróquia, contando-lhe que a aparição lhe dissera isto e aquilo. Reacção do reverendo: «Impossível, rapariga, não te apareceu coisa nenhuma. A Virgem nunca teria falado galego». Isto dito, evidentemente, no melhor espanhol.

Tenho dificuldade, digamos, ontológica em acreditar em aparições, sejam de que entes forem. Sabe-se, também, quanto aquela época foi fértil em episódios de tal natureza. Isso não impede que eu, que nasci tudo menos galego, sinta (e haverei de sentir cada vez que recordar a história) uma indizível revolta. Contra a prepotência, contra a canalhice, contra o esmagamento de algo muito precioso, muito íntimo, muito inviolável: um idioma materno.

Para os falantes de português, esse confronto com a negação absoluta do idioma é situação dificilmente concebível. Entre nós, podem-se rir da nossa entoação, do nosso sotaque, da nossa gramática alternativa, mas nunca se nos humilharia pela inteira língua que falamos. Não imaginamos, portanto, que reivindicação, ou que militância, ou que incontida raiva a defesa do idioma poderia exigir-nos. Na Galiza, tudo isso foi, e ainda é, mais do que pensável: trata-se duma crua e nua realidade. Sim, tem de ser revoltante, além de objectivamente absurdo, ouvires que, se falas galego, é por seres nacionalista, ou professor, ou camponês. Tudo condições muito honradas, mas dispensava-se o elogio.

Tem de ser revoltante, além de objectivamente absurdo, ouvires que, se falas galego, é por seres nacionalista, ou professor, ou camponês. Tudo condições muito honradas, mas dispensava-se o elogio

Mesmo para os vizinhos portugueses, a problemática situação actual do galego é questão desconhecida e, mesmo uma vez conhecida, correria o risco de deixá-los indiferentes. São problemas espanhóis, eles que se avenham. Portugal é aquele país perfeito, um só povo, uma só nação, uma só cultura, uma só língua, com as fronteiras mais antigas da Europa, e portanto do Mundo… É quase, quase verdade. Isto, porque a fronteira linguística é tudo menos aquela perfeição. Há uns esbatidos, umas infiltrações, umas continuidades. Em suma, uma série de vagos problemas.

«Um dialecto rural»

Sejamos sucintos: a quase totalidade dos falantes de português ignora a proximidade linguística entre a Galiza e os países de fala portuguesa. Podemos lamentá-lo, mas o reverter dessa situação será um processo moroso, complexo, certamente desafiador das nossas melhores forças. Havemos de consegui-lo? Certas actuações de gente que se suporia informada obrigam-nos a algum cepticismo. Vou dar três exemplos, e depois mais um.

Em Setembro de 1987, em Compostela, um linguista brasileiro célebre proferiu estas palavras, mais tarde impressas, no seu original itálico, num volume saído na Galiza: «Se o galego é um dialeto rural do português, a sua norma culta só pode ser a portuguesa». Repare-se: aquele ‘se’ («Se o galego é») não era condicional, e equivalia a ‘uma vez que’. A mensagem era clara: o galego é, sem apelo, um «dialecto rural» do português.

Pela mesma ocasião, mas agora em Ourense, um prestigiado escritor português, numa palestra em que as palavras ‘galego’ ou ‘Galiza’ simplesmente não aparecem, apresentava-nos, a «nós, portugueses», como «os criadores» da língua, e Portugal como «país de origem» dela. Poderia crer-se que o senhor tinha em mente a adaptação do idioma a climas meridionais. Mas não: a referência à «passagem do latim ao português» desfaz quaisquer dúvidas. Do galego, nem sombra.

Bastantes anos depois, em Outubro de 2012, um famoso linguista português, falando de novo em Ourense (que culpa terá a bela cidade?), assim pregava aos galegos: «Não tenham medo do bilinguismo, ou seja, da convivência pacífica entre duas línguas que são irmãs na ascendência linguística, que são próximas, e pujantes, não apenas na Península Ibérica, mas também na América do Sul e no Mundo. Trabalhando em conjunto, o Português e o Espanhol constituirão talvez o maior bloco linguístico do Mundo». Do galego, de novo, nem sombra. Mas com esta agravante: um convite formal à promoção do espanhol, essa língua que ali mesmo, na Galiza, tão séria ameaça constitui.

O que seria, na mente dessa gente ilustre portuguesa e brasileira, a língua do país que visitavam? Uma curiosidade etnológica, um dialecto indígena, uns restos de português que por ali ficaram. Entrementes, algo nisto me supera: que jamais se tenha ouvido uma voz galega de protesto contra tanta deselegância, tão primária insensibilidade. Jogará, aí, aquele irónico e sábio cepticismo galego? Se sim, importa lembrar que existe gente mentalmente menos lúdica.

A proposta de Lapa

Bem diferentemente dos três indivíduos citados, houve um português que soube manter com o país a norte, e o seu idioma, uma relação duradoura e empenhada. Refiro-me a Manuel Rodrigues Lapa. Durante décadas, o professor divulgou, na imprensa portuguesa, todo o tipo de desenvolvimentos culturais, políticos e linguísticos por que a Galiza passava, expondo as problemáticas, dando projecção aos protagonistas. Do lado galego, ele encontrou sempre o melhor acolhimento e o mais franco apoio a iniciativas. A sua célebre proposta linguística para o galego, de 1973, foi difundida tanto em Portugal como na Galiza. Tem de reconhecer-se, porém, que ela não era a mais adequada nem a mais sensata.

Rodrigues Lapa vivia sinceramente preocupado pela ausência duma Norma para o galego. Vemo-lo na sua assídua correspondência com amigos além-Minho. Por inícios dos anos 70, ele concluíra que a língua efectivamente falada e, até então, escrita (uma «desordenada riqueza») não oferecia solidez para a definição duma norma ‘culta’ (ele dizia ‘literária’). A certo momento, convenceu-se de ter achado uma solução irrecusável: os galegos adoptarem o português como seu padrão culto. Lapa baseava essa oferta («brindada numa salva de prata», escrevia ele) num raciocínio que decerto lhe pareceu inatacável. Este: o português seria, hoje, aquilo em que o galego se haveria tornado, «se o não tivessem desviado do caminho próprio». Interlocutor privilegiado de toda esta intervenção era Ramón Piñeiro, o mais destacado intelectual galego da altura. Só que a proposta de Lapa se revelava infeliz em toda a linha.

Em primeiro lugar, historicamente, foi o padrão português a afastar-se da matriz medieval do idioma, por meio de dois longos processos: uma intensa castelhanização nos séculos XV a XVIII, e uma forte desgaleguização, com perda dos rasgos nortenhos mais marcados e o aviventar de rasgos sulistas (daí o desenfreado alastramento do ditongo “ão”). Rodrigues Lapa, um primoroso filólogo, mas filho do seu tempo, alimentava uma concepção essencialista do idioma, faltando-lhe também a informação histórica de que hoje dispomos.

Foi o padrão português a afastar-se da matriz medieval do idioma, por meio de dois longos processos: uma intensa castelhanização nos séculos XV a XVIII, e uma forte desgaleguização, com perda dos rasgos nortenhos mais marcados e o aviventar de rasgos sulistas.

Em segundo lugar, a ‘solução’ chegava no momento mais inadequado, a uma elite galega que, com Piñeiro na vanguarda, preparava esperançosamente o pós-franquismo, e encontrava numa língua própria o seu maior troféu político.

E, em terceiro lugar, a adopção do português como ‘padrão culto’ dos galegos criaria um cenário insustentável. Num ambiente de absoluto predomínio do espanhol, o próprio português rapidamente sairia desfigurado. Noutras palavras: reinando já uma diglossia, secular e instalada, com o espanhol como idioma de sucesso social e o galego como língua ‘caseira’, viria agora sobrepor-se a essa diglossia uma segunda, a do português como referência ‘de cultura’ dum galego incapaz de funcionar acima do quotidiano. Língua nenhuma sobrevive à trituração produzida por duas diglossias. O resultado imediato seria um caos incontrolável, com um desenlace mais que previsível: o triunfo, agora definitivo, do espanhol… O mantra, ainda audível em círculos galegos, de «antes absorvidos pelo português que pelo espanhol» não faz contacto com a realidade. O absorvente seria, no final, sempre o mesmo.

Uma língua por herança

Há uns dez anos, tive oportunidade de comentar, no semanário português «Expresso», a excelente edição ‘muito ampliada’ da Introdução à História do Português de Ivo Castro. Aí chamei a atenção para um problema entre nós jamais resolvido: o da suposta «ruptura» que teria fundado o português como língua diferente do galego. Para fundamentarem este cenário, os historiadores do português aduzem tradicionalmente particularidades de fonologia e morfologia que, vendo bem, mal distinguiriam dialectos. E eu prosseguia aí: «Enquanto essa ruptura não for identificada e descrita (e ninguém até hoje o ousou), galego e português continuarão a ser, para efeitos científicos, a mesma língua. E a própria existência do português como língua independente será da ordem do apriorismo político, dos aconchegos pátrios – mas decerto não da ciência». Escusado dizer que a ‘ruptura’ continua por identificar.

Enquanto essa ruptura não for identificada e descrita (e ninguém até hoje o ousou), galego e português continuarão a ser, para efeitos científicos, a mesma língua. E a própria existência do português como língua independente será da ordem do apriorismo político, dos aconchegos pátrios – mas decerto não da ciência.

Certo: em círculos linguísticos portugueses, galegos e brasileiros, reina uma informal aceitação da especialíssima proximidade de português e galego. Nalguns casos, constata-se, sem complexos, que até cerca de 1400 galego e português eram «a mesma língua», afirma-se que os falantes de galego e os falantes de português são dotados dum «bilinguismo inerente», lembra-se, até, que a ligação do português ao latim se operou através do galego, admite-se mesmo, aqui e ali, uma identidade estrutural dos dois idiomas.

Mas falta um assumir frontal, explícito e colectivo disso, ou de parte disso. Pelo lado português, no dia em que os nossos linguistas informassem os compatriotas de que a primeira língua falada e escrita em Portugal foi o galego, idioma gerado e desenvolvido durante séculos e que o nosso país herdou com a maior naturalidade, nesse dia um novo tipo de relações se teria aberto com a Galiza, e até connosco mesmos.

Falta um assumir frontal (…) pelo lado português, no dia em que os nossos linguistas informassem os compatriotas de que a primeira língua falada e escrita em Portugal foi o galego, idioma gerado e desenvolvido durante séculos e que o nosso país herdou com a maior naturalidade, nesse dia um novo tipo de relações se teria aberto com a Galiza, e até connosco mesmos.

Investir no galego, aproveitar o português

A situação linguística na Galiza de hoje não é, para a língua do país, a mais risonha. O espanhol domina em quase todas as esferas públicas, e o galego tem de lutar por manter um mínimo de prestígio social. Nestas circunstâncias, tudo quanto puder frear o desgaste social do galego será um ganho.

Poderão os falantes de português ter aí um papel? Claro. Interessando-se, dando sugestões, apoiando iniciativas, tomando-as eles mesmos. A própria língua portuguesa pode ser, aqui, de fundamental utilidade. Com efeito, depois do investimento no património próprio, nada mais útil para o galego que o aproveitamento, ponderado e resoluto, da oferta portuguesa. Nisto concordam todos os galegos responsáveis.

Depois do investimento no património próprio, nada mais útil para o galego que o aproveitamento, ponderado e resoluto, da oferta portuguesa. Nisto concordam todos os galegos responsáveis.

E a primeira coisa que o português tem para oferecer ao galego é… aquilo que eles já têm em exclusivo: o imenso material vocabular que só eles dois possuem, e que os distingue de tudo o resto. Uma parte desse material foi, no decurso dos séculos, perdendo uso na Galiza, até acabar esquecido ou relegado a pequenos nichos, enquanto continuou a circular na fala e na escrita dos utentes de português. O crescente contacto dos galegos com esta escrita e esta fala, quer pelo ensino, quer pela leitura e audição de produtos falados e escritos, estimulará o regresso, ou a difusão, desse sector lexical.

Isto não é ficção científica. Na escrita do galego, deu-se, ao longo de todo o século XX, um revigoramento não só do léxico próprio, como também daquele que é exclusivo a galego e português. Convirá examinar os mecanismos que aí intervieram e pô-los ao serviço do futuro.

O contacto directo com o português será, pois, uma utilíssima achega. Mas a plena eficácia exige actuação informada, planificada e coordenada. As acções voluntaristas e espontaneístas não chegam.

Para além desse âmbito ‘comum e exclusivo’, o português pode sugerir ao galego criações vocabulares feitas segundo os modelos patrimoniais comuns. Essas criações poderiam ter sido igualmente galegas, e são particularmente adequadas como alternativa a soluções espanholas.

Intervenções deste tipo exigem, pois, investigação, ponderação e testes no terreno. Mas elas prometem maior sucesso que a importação global e cega do léxico português, ele próprio doravante repartido por uma norma brasileira e uma portuguesa, em irreversível deriva.

O prioritário, o mais urgente, e decerto o determinante, é, porém, o reconhecimento, por todos os interessados, da contiguidade de português e galego. De novo: impõe-se um reconhecimento explícito, público, sem especiosos enleios, dessa contiguidade por parte dos responsáveis pela ‘imagem’ do idioma, os linguistas brasileiros, galegos, africanos e portugueses.

O tema da ‘identidade’ (uma noção de tipo essencialista) é, de momento, secundário. Se a ‘ruptura’ histórica entre português e galego nunca foi demonstrada, tal não significa que ela é indemonstrável. Mas, seja qual for o resultado dessa operação, a última palavra seria da ordem do político, do ideológico, numa palavra, das conveniências, estatais ou outras. Como devastadoramente afirmou Asafe Lisboa, numa edição de 2015 de Quilombo Noroeste: «A nação de Portugal precisava de uma língua que se chamasse ‘portuguesa’». Isto vale também para a Galiza, que necessita, para afirmar-se, duma língua a que chame ‘galega’.

Um sistema único

Em 1983, um congresso internacional, celebrado em Lisboa, aprovou uma moção do seguinte teor: «O Congresso reafirma a tese de que o galego e o português são normas cientificamente reconhecidas de um mesmo sistema». Este texto tem sido relembrado. Sim, é um passo inestimável esse afirmar da pertença de galego e português a um mesmo sistema linguístico, coerente e irredutível. Um sistema fonológico, morfológico, sintáctico, lexical e pragmático, criado e robustecido numa Galiza que abarcava o retalho noroeste do futuro reino de Portugal. Enfim, o galego de todos nós.

Nunca foi difícil dar conteúdo a uma declaração deste tipo, mas convém conferir-lhe também eficácia social. Existem hoje interessantes projectos comuns das nossas comunidades linguísticas, e a colaboração vem dando nítidos frutos. Importaria, porém, familiarizar também as sociedades civis com um conhecimento, pelo menos básico, das íntimas relações de português e galego.

Existem hoje interessantes projectos comuns das nossas comunidades linguísticas, e a colaboração vem dando nítidos frutos. Importaria, porém, familiarizar também as sociedades civis com um conhecimento, pelo menos básico, das íntimas relações de português e galego.

É hoje escassa em Portugal (a ele me cinjo) a divulgação linguística, mas de modo nenhum falta curiosidade pelo idioma, saciada mormente com curiosidades avulsas e alguma exploração da angústia do ‘erro’. Mesmo as nossas relações históricas com a Galiza só raramente são abordadas em obras para mais vasto público. Não se duvide: a existência duma língua galega plena, respeitável e tão próxima da nossa pode ser, a sul do Minho, uma notícia alvoroçante.

Por onde começar, então? Talvez exactamente por essa notícia.