As galegas e galegos no Rio de Janeiro. Un bocadiño de historia

Pouco se ten escrito sobre os galegos e galegas na cidade de Rio de Janeiro. Nos últimos anos estudos interesantes comezan a agromar sobre esta temática, salientando especificamente os traballos de Erica Sarmiento, “O outro Río: A emigración galega a Río de Xaneiro.”, do ano 2006, e a tese de doutoramento do profesor na Universidade Federal de Goiás,  Antom Corbacho, “A Aculturação e os Galegos do Brasil: O Vazio Galeguista” do ano 2009. Como primeiro chanzo no coñecemento da situación das galegas e galegos no Brasil, deixamos hoxe este artigo breve de Mariana González L. Novaes, publicado en maio de 2013 polo Seminário Nacional de Memória Social.

OS “GALEGOS DA GALÍCIA” NO RIO DE JANEIRO
Mariana Gonzalez Leandro Novaes

PARTE I – O CONTEXTO BRASILEIRO
Quando em 1888 é assinada a Lei Áurea renunciando a escravidão, em pouco tempo o Segundo Reinado não se sustenta mais dando início à República Velha. Neste momento o plantio e exportação do café no Oeste Paulista estava em ascensão, enquanto que os produtores do Vale do Paraíba, principalmente após o fim do regime escravista, estava em decadência. Como ainda iniciavam sua produção, os paulistas rapidamente se readaptaram ao novo regime investindo na mão de obra européia imigrante para trabalhar em suas fazendas de café.

Desde esse período a identidade nacional brasileira era discutida. O indivíduo brasileiro era visto como o resultado da fusão das raças branca, negra e indígena. No entanto, tal mistura era vista de maneira negativa pelos pensadores1 do fim do século XIX, sobretudo a mistura com os negros e mestiços, que eram considerados de raça inferior.

Acreditava-se que devido à grande população de híbridos o Brasil não teria lugar entre as “nações civilizadas do mundo”. (OLIVEIRA, 2001, p. 9-10) Para Boris Fausto (2001) esse pensamento justificaria o motivo de os fazendeiros da época não empregarem os negros após a abolição optando por incentivar a mão de obra de imigrantes europeus para trabalhar em suas terras. Boris acredita que o preconceito por parte dos fazendeiros era tamanho ao ponto de impedir que se imaginasse uma mudança do regime de trabalho que aproveitasse a força de trabalho dos negros e, além disso, que seria pouco provável que após tanto tempo de servidão os negros se disponibilizassem a trabalhar para seus antigos senhores em uma situação não muito diferente da que já conheciam. (FAUSTO, 2001)

Seguindo esta linha de pensamento, intelectuais brasileiros do início do século XX criaram a teoria do “branqueamento” a qual norteou a política imigratória brasileira durante décadas. Acreditava-se que com o imigrante europeu o mestiço poderia ser melhorado dentro de três ou quatros gerações com a mestiçagem dando origem a uma população branca. Pensava-se que o imigrante não apenas seria uma força de trabalho, mas também que teriam papel fundamental na contribuição para o branqueamento da população brasileira fazendo submergir a cultura nacional através da assimilação dos imigrantes. (OLIVEIRA, 2001)

Durante a República Velha surgiu o problema dos “quistos sociais”, resultado da antiga política do Império de colonização de terras desocupadas. O enquistamento ocorria devido a difícil assimilação dos europeus chegados ao Brasil e o fato de que haviam sido enviados a regiões de difícil acesso e pouco contato com a sociedade brasileira, sendo o primeiro grupo a se manifestar neste sentido o alemão. Os teuto-brasileiros (tradução de Deutschbrasilianer) mantiveram o uso corrente de sua língua materna e se organizaram socialmente de maneira própria, criando o sentimento de germanidade entre os imigrantes alemães nas colônias do sul do Brasil. No começo do século XX começou-se a discutir o “perigo alemão” temendo a possível cristalização da etnicidade teuto-brasileira no território nacional, o que geraria grupos étnicos antagônicos e possíveis conflitos até mesmo armados entre nortistas e sulistas. (SEYFERTH, 1999).

Carné do Centro Galego de Río de Janeiro. A través de www.santacombanamemoria.es
Carné do Centro Galego de Río de Janeiro. A través de http://www.santacombanamemoria.es

Com isso, durante a República Velha as fazendas de café começaram a receber imigrantes de origem italiana, portuguesa e espanhola, pois eram de culturas próximas e seus idiomas têm a mesma origem do usado no Brasil, o que acreditavam ser um fator facilitador não somente para a comunicação como também para sua integração com os brasileiros, o que evitaria os enquistamentos e os imigrantes poderiam contribuir para o “branqueamento” da população negra e mestiça.

Outro critério de seleção dos imigrantes era sua capacidade de assimilação dentro da sociedade brasileira e, cada vez mais, consideravam o mais importante o seu potencial de reprodução, mesclando-se com os brasileiros, promovendo, assim, o “branqueamento” do povo. Pensavam que desta maneira iriam “melhorar a raça” ou inclusive criar uma “nova raça” no Brasil, uma vez que, para muitos, o povo brasileiro ainda estava em formação.

O que importava, em um primeiro momento, era a sua capacidade em desempenhar funções ou transmitir conhecimentos que atendessem aos interesses do país adotivo. No entanto, aparecia como sendo de extrema importância a questão do potencial reprodutor do imigrante. Falava-se em “braços” para a lavoura e a indústria, mas também em “sangue novo” ou “plasma de reprodução”, acreditando-se que os imigrantes viriam “aduzir sangue novo à nossa etnia” […].

A metáfora do sangue acompanhou a política nacional brasileira nos anos 30. Era preciso controlar a circulação desse fluxo sangüíneo representado pelo imigrante portador do “sangue-sêmen”, princípio da vida, mas também do “sangue-doença”, princípio da destruição e morte. A continuidade desse pensamento no período pós-guerra deixava clara a importância conferida ao sangue como símbolo formador da nacionalidade. (PERES, 2002, p. 91)

Para evitar os enquistamentos, a solução durante o governo de Vargas em sua campanha de nacionalização foi “o necessário ‘abrasileiramento sociocultu, o ‘caldeamento’” (SEYFERTH, 1999, p. 218). Logo, em 1937, uma das medidas do governo foi realizar uma reforma educacional proibindo o aprendizado em língua estrangeira, exigir que as instituições de ensino tivessem nomes brasileiros e que apenas brasileiros natos poderiam assumir cargos de direção. Em 1939 a campanha nacionalista se radicalizou proibindo o uso de língua estrangeira em ambientes públicos e qualquer atividade que tivesse cunho de exaltação às respectivas culturas nacionais em centros culturais e recreativos estavam proibidas. Além disso, também foi durante o período varguista que muitos estrangeiros foram expulsos do país por envolvimento com o comunismo. Tamanha era a preocupação com a postura dos imigrantes e sua “qualidade” como contribuidores para a formação do indivíduo brasileiro que em 1941 a imigração foi proibida. (PERES, 2002)

Terminada a Segunda Guerra Mundial, o processo migratório europeu voltou a crescer, o que acabou promovendo novas mudanças na política brasileira de imigração. Ainda que o Estado Novo varguista tivesse terminado, as políticas nacionalistas tiveram continuidade. A ideia de caldeamento da população brasileira com os imigrantes europeus seguiu com vigor, sempre unida ao pensamento de que esse era um dos caminhos para o progresso do país.

A imigração para o Brasil neste período foi subvencionada pelo Estado e organizações internacionais, mas também houve uma forte imigração espontânea. De 1945 até aproximadamente o momento do golpe militar, os principais imigrantes que entraram no país continuou sendo os portugueses, italianos e espanhóis, e o tipo ideal seguiu sendo o mesmo dos anos 1930: agricultores, técnicos e operários.
Dentro de todo este contexto de “criação do indivíduo ideal”, não era interessante que o imigrante viesse ao Brasil apenas para enriquecer e logo voltar a sua terra natal.

Havia a preocupação de que criassem raízes nas terras brasileiras pois apenas assim se misturariam com o povo brasileiro. No momento em que os estrangeiros são assimilados os riscos de que fossem criados quistos étnicos, como aconteceu com a colônia alemã do sul do país, diminuíam. A ideia era que se integrassem à sociedade que os acolhia e se esquecessem do que fosse exterior a ela.

PARTE II – O CONTEXTO GALEGO
A região da Galícia fica situada a noroeste da Península Ibérica, fazendo fronteira ao sul com o norte de Portugal e a oeste com o Oceano Atlântico. Além do uso do castelhano é uma região que tem seu próprio idioma, bastante similar ao português: o galego. “Os galegos sempre foram conhecidos por sua disposição de migrar para outras regiões da própria Espanha em busca de melhores oportunidades […], quando essa medida não trazia os beneficios financieiros esperados, migravam para países vizinhos”. (SOUZA, 2006, p. 31)
A presença dos galegos no Brasil pode ser percebida ainda antes da República Velha, mas foi depois da abolição que a entrada de estrangeiros teve um caráter massivo.

“Entre 1890-1929 entran no Brasil tres millóns e medio de emigrantes, dos que máis de medio millón son españois, número que a convertería na terceira colectividad extranxeira máis importante no Brasil, tras a portuguesa e a italiana” (VILLARES, 1996, p. 129).
Segundo os informes consulares, entre 60 e 70% dos espanhóis no Brasil são galegos. Tais índices podem ser explicados pela similaridade linguística do idioma galego com o português, a proximidade aos portos de embarque portugueses e a existência de uma corrente migratória prévia rumo ao Brasil intermediada por Portugal. (VILLARES, 1996)

“Entre 1890-1929 entran no Brasil tres millóns e medio de emigrantes, dos que máis de medio millón son españois (…) Segundo os informes consulares, entre 60 e 70% dos espanhóis no Brasil são galegos. Tais índices podem ser explicados pela similaridade linguística do idioma galego com o português, a proximidade aos portos de embarque portugueses e a existência de uma corrente migratória prévia rumo ao Brasil intermediada por Portugal.

Na República Velha 20% da sociedade carioca era composta por estrangeiros. Segundo o censo de 1906, havia um total de 210.515 de imigrantes no Rio, sendo 133.000 deste total portugueses, 25.557 italianos e pouco mais de 20.000 espanhóis. No censo de 1920 os espanhóis continuaram representando o terceiro grupo mais numeroso de imigrantes nesta cidade. Os imigrantes destes anos foram atraídos para o Brasil devido ao crescimento econômico que o país passava, sendo Rio de Janeiro uma das cidades mais desenvolvidas do sudeste e do sul, regiões que se concentrava 93,4% da população brasileira (SARMIENTO, 2006). Outro dado importante é que, dentro da comunidade espanhola do Rio de Janeiro, os imigrantes de origem galega também são os mais numerosos.

Érica Sarmiento destaca que:[…] antes do inicio da emigración masiva a Brasil (1890), xa había galegos que non só estaban estabelecidos na capital, cos seus negocios, senón que tamén daban traballo aos compatriotas da mesma aldea ou municipio. Podemos dicir que a pesar de non seren maioritarios, foron os pioneros e sentaron as bases do que sería a futura emigración galega a Río: espontánea, baseada en lazos de parentesco e dedicada principalmente ao ramo do comercio y hostelería.  (SARMIENTO, 2006, p. 42)

Os galegos que chegaram ao Rio de Janeiro em sua maioria imigraram de maneira espontânea e se instalaram no meio urbano. Dedicaram-se ao setor terciário, que lhes oferecia mais oportunidades de trabalho e permitia uma ascensão social mais rápida que o meio rural, ainda que a maioria fosse originária do meio agrário na Galícia. Muitas vezes tinham alguma propriedade em seu lugar de origem que poderia ser vendida ou alugada para que ajudasse nos gastos da viagem.

Nos anos 1930, a saída de galegos para a América diminuiu bastante por consequência da crise econômica, havendo inclusive um aumento do número de imigrantes retornando aos seus lugares de origem. Além disso, os países americanos começaram a mudar suas políticas imigratórias criando restrições para controlar melhor a entrada de pessoas em seus territórios. Em meados dos anos 1930, alguns países começam a superar a crise, o que acabou motivando outra vez o movimento migratório rumo à América. No entanto, a Guerra Civil Espanhola seguida da Segunda Guerra Mundial praticamente estancou em definitivo as correntes emigratórias espanholas até 1946. Com a abertura política da Espanha franquista em 1950, o investimento norte-americano e sua entrada nas Nações Unidas o país começou a dar sinais de recuperação. Porém, ainda assim, a vida seguia bastante difícil para muitos espanhóis, dando início a uma nova corrente emigratória que teve reflexos também no Brasil.

Elena Pajaro Peres assinala a peculiaridade da imigração galega para o Brasil “pelo fato de o Brasil ser um dos destinos preferidos nos anos 1950, pelo caráter rural da maioria desses imigrantes e, principalmente, por ser uma imigração não vinculada necessariamente ao antifranquismo.” (PERES, 2002, p. 37) […] a maioria dos espanhóis, nesse período, emigrou para o Brasil por conta própria, sem usufruir de qualquer assistência governamental. Entre esses, um grupo significativo provinha da Galícia […]. A emigração galega representou, em media, 39% de toda a emigração espanhola e, entre 1946 e 1960, 20% dos galegos que deixaram a Espanha vieram para o Brasil, que se tornou o terceiro destino mais procurado pelos galegos nesse momento, só perdendo para a Argentina com 35% e a Venezuela com 30%. (PERES, 2002, p. 35)

A partir da década de 1960, a emigração galega começa a diminuir e novas correntes em direção a outros países europeus são criadas. Além da proximidade geográfica com os demais países da Europa, este acontecimento pode ser explicado pelo fim do boom econômico dos países americanos e seu investimento nas migrações internas de pessoas do meio rural para os núcleos urbanos, e também pelo princípio da retomada da estabilidade econômica da Europa do pós-guerra.

Já antes do período da imigração massiva, os imigrantes que se instalaram não apenas no Rio, mas no Brasil de modo geral, eram majoritariamente homens, jovens e solteiros; tinham como destino a cidade. Sobre o caráter profissional, mais da metade eram agricultores e, ao chegarem ao Rio, se instalaram no ramo que anteriormente era monopólio dos imigrantes portugueses. (SARMIENTO, 2006)

PARTE III – OS GALEGOS NO RIO DE JANEIRO
Os espanhóis, assim como os portugueses e os italianos, eram os imigrantes que mais recebiam incentivo do governo brasileiro devido a sua proximidade cultural e linguística. No entanto, por que a presença dos espanhóis é tão pouco comentada? Este silêncio também se reflete nos estudos acadêmicos, havendo poucos trabalhos dentro desta temática no Brasil. Tal silêncio também é comentado por alguns estudiosos como Lucia Lippi de Oliveira (2006), Érica Sarmiento (2006) e Antón Corbacho Quintela (2009).

Os imigrantes galegos, além de mais numerosos entre os espanhóis, são indivíduos com cultura, língua e história própria. Por que é mais difícil ainda identificar-los? Érica Sarmiento crê que tal questão tem relação com a figura do imigrante português na sociedade carioca: Non só eran chamados galegos os naturais de Galicia, senón tamén os portugueses que estaban en Brasil. A palabra era empregada dunha forma pexoravitiva para aculmar os portugueses cando se quería insultalos. Posteriormente, o termo galego acabou estendéndose a todos os estranxeiros, e nalgunhas rexións brasileiras, a palabra define as persoas de pel moi clara e cabelos louros. Así, os verdadeiros galegos, cando non aparecen ocasionalmente en obras sobre a emigración, española en xeral, preséntanse camuflados baixo a figura dos portugueses, os emigrantes máis antigos e numerosos, debido a que foron os colonizadores até 1822, cando Brasil acadou a independencia.

Non só eran chamados galegos os naturais de Galicia, senón tamén os portugueses que estaban en Brasil. A palabra era empregada dunha forma pexoravitiva para aculmar os portugueses cando se quería insultalos. Posteriormente, o termo galego acabou estendéndose a todos os estranxeiros, e nalgunhas rexións brasileiras, a palabra define as persoas de pel moi clara e cabelos louros.

A presenza dos portugueses pode ter ocultado a comunidade galega impedindo que as miradas académicas identificasen os galegos como un grupo numericamente importante, activo na sociedade carioca e con características propias. […] Portugueses e italianos tiveron importancia na sociedade carioca como os maiores grupos de emigrantes […], pero os portugueses sen dúbida tiveron representación nun sector que traballa directamente coas clases máis populares: o do comercio. Eran maioría como donos de bares, pensións, restaurantes, panaderías e tendas de ultramarinos. Curiosamente os galegos destacáronse no mesmo sector profesional, en bares, hoteis e restaurantes, como se tivesen seguido o exemplo dos portugueses, que dominaban ese ramo antes da chegada dos competidores. […]

Ademais de ocupar a mesma área profesional compartían a proximidade entre os dous idiomas, a afinidade de costumes, a mesma área xeográfica da que procedían – os portugueses que estaban en Río eran maioritariamente do Norte de Portugal – e o feito de que xa existira – previamente á emigración transoceánica – un fluxo migratorio de Galicia para este país. (SARMIENTO, 2006, p. 44-47)
O que Érica comenta sobre os brasileiros fazerem uso termo galego fazendo alusão aos imigrantes portugueses também foi mencionado por José González Márquez em sua entrevista: “Sabes que allá no dicen “galego”, ¿no? Galego llaman a los portugueses. Allá, los gallegos de Galicia son españoles. Allí me llaman de español, así como aquí me llaman brasileiro muchos.”

Antón Corbacho Quintela (2009) comenta também sobre a figura de Víctor M. Balboa, um ativo galeguista no Rio de Janeiro. O jornal argentino A Nosa Terra, entre 1946 e 1956, publicava notícias enviadas por Balboa sobre o movimento galeguista no Rio de Janeiro encabeçado pelo próprio Balboa que criara o grupo Irmandade Galega, porém sem muito sucesso. Segundo Antón, para Balboa os motivos de os galegos não se organizarem em agremiação seriam “a alienação, a não renovação da colônia galega, a circunstância do meio brasileiro e o gosto dos galegos pelas representações do espanholismo” (QUINTELA, 2009, p. 64). A explicação de Balboa com relação à dissolução identitaria dos galegos no Brasil era a seguinte: “Así como nas repúblicas hispano-americanas a voz ‘gallego’ serve para designar a todo español, no Brasil particulariza simplemente ao portugués, perdendo o fillo de Galicia sua denominación xenérica para ser, sinxelamente coñecido como ‘español’, e como tal, ben estimado, tanto pelas súas meritorias condicións de traballador honrado como, ainda, por ser súbdito de España; e para o brasileiro común desa España de pandeireta, que él admira no taboado de cualquer cabaret aplaudindo a cualquer ‘graciosa’ tonadilleira. Pois ben, muitos dos galegos daqui participan, en pouco ou en muito, dese falso conceito e, como os naturais do país, entusiásman-se con a arte flamenca. Xa alguen afirmou que os galegos toleamos polo flamenquismo. Mas, non se pense que eses galegos ‘españoleiros’ non sintan a voz da ‘terra’. Sénten-na a seu modo, pero sénten-na.

A proba é que se emocionan cuando houven soar a gaita galega, e non se pexan de bailar, nas festas a muiñeira, tal como nos seus tempos mozos, alá; cual si a isto fosen impulsados pola voz inmanente da raza. Isto nos diz de modo claro que non falta galeguidade aos paisanos, ainda que de común soterrada nas cinzas da incomprensión. O que lles falta é coraxe para afirmar súas característricasraciais, víctimas que son do complexo de inferioridade.” (QUINTELA, 2009, p.64-65)

Esta interpretação de Balboa transcrita por Antón é um tanto curiosa e vai ao encontro do depoimento de María Teresa Del Río Dominguez, que também comenta algo sobre o sentimento de inferioridade, porém sentido pelos filhos dos galegos imigrantes: […] había muchas fiestas españolas, no decían gallega, decían española. Gallego, no existían gallegos, existían españoles. Entonces había unas fiestas culturales, sobre el descubrimiento de América y estas cosas, donde todo el pueblo de la ciudad iba. Hasta hoy tiene, la Fiesta de la Hispanidad, solo que la hacen en el club, la de calle se acabó. Y quien organizaba estas fiestas, eran los gallegos. Y en el momento en que los mayores se fueron, los hijos ya no siguieron con estos costumbres. La mayoría se avergonzaba de sus padres, porque muchos eran analfabetos, no tenía cultura. Entonces ellos, al tener un diploma, ya tenían vergüenza de sus padres. Y así se iban para otro sitos y los padres venía de vuelta para España.
Tal sentimento, ainda que de maneira inconsciente, pode explicar a dificuldade por parte dos entrevistados em expressar suas opiniões quando lhes foi perguntado o que achavam sobre a memória dos galegos no Rio de Janeiro e a importância de suas contribuições para esta sociedade.

Apesar de tais problemas, existem instituições que buscam preservar e difundir a cultura espanhola e galega no Rio de Janeiro. Entidades como os centros recreativos e associações normalmente têm como finalidade não apenas reunir os imigrantes como também promover atividades de caráter cultural, encontros e festas típicas em memória de suas origens. Um exemplo de associação é a Casa de Espanha do Rio de Janeiro, fundada em 27 de março de 1983 a partir da fusão do Centro Espanhol de Rio de Janeiro com a Casa de Galícia. Dentro de suas atividades culturais a sociedade conta com grupos folclóricos galegos que normalmente realizam apresentações em datas comemorativas,
como o aniversário do clube ou no mês de outubro nas festividades do Dia da Hispanidade.

O Brasil aparentemente caminha com largos passos no campo da preservação de seu patrimônio cultural, seja este de caráter material ou imaterial com os trabalhos desenvolvidos por órgãos governamentais tais como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ou o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). No entanto, ao que se refere à preservação da presença espanhola e/ou galega no país ainda muito deve ser pensado. Uma evidência disto pode ser percebida devido ao fato de não haver instituições de memória voltadas para a comunidade em questão.

No portal eletrônico do Sistema Brasileiro de Museus (SBM) é possível ter acesso a informações acerca do Cadastro Nacional de Museus e consultar quais museus brasileiros já estão registrados mediante a utilização de um buscador5 localizado em seu portal.

Utilizando tal ferramenta pode-se encontrar um total de 3.076 instituições cadastradas em todo o Brasil. Ao realizar uma busca mais refinada a fim de saber quais destas instituições são voltadas para o trato do tema da imigração no país, foram assinaladas as opções de busca “Qualquer UF” e “Qualquer das palavras” e utilizadas as seguintes palavras chave: imigrante, imigrantes, imigração, colonizador, colonizadores e colônia. Com isso houve uma incidência de 202 instituições cadastradas.

Em uma terceira busca, assinalando as mesmas opções, foram utilizadas as palavras chave Espanha, espanhol, espanhola, espanhóis, hispanidade, hispânico, hispanista e hispanismo. De todas as palavras chave utilizadas as únicas encontrada foram Espanha (04 vezes), espanhol (02 vezes), espanhola (02 vezes), espanholas (01 vez) e espanhóis (01 vez), apresentando um total de dez instituições cadastradas. Dos resultados obtidos, apenas a Casa do Lembrador relaciona a palavra espanhóis com algum termo que tenha a ver com colonização ou imigração.

Em uma quarta e última consulta, seguindo os mesmo passos anteriores, foram utilizados os termos Galícia, Galiza, galega, galegas, galego e galegos, sem apresentar qualquer resultado.

Das 202 instituições apresentadas na primeira busca refinada, 26 não especificam a nacionalidade dos imigrante que são representados em suas coleções ou que contribuíram para a aquisição de seus objetos. Destes 26 museus, grande parte pertence aos estados da região sul do Brasil, onde a presença dos espanhóis foi mais restrita, o que nos leva a crer que a possibilidade dos imigrantes desta nacionalidade serem mencionados em alguma destas instituições é remota. No entanto, em Caxias do Sul (RS) está localizado o Monumento ao Imigrante, onde talvez algum tipo de abordagem sobre a presença espanhola possa existir, porém não foi possível encontrar nenhuma informação neste sentido. A Casa do Lembrador em Arapoti (PR) menciona algo sobre os imigrantes espanhóis, mas tampouco foi possível obter mais informações. Já nas instituições localizadas no estado de São Paulo as possibilidades parecem maiores pois este foi o estado que recebeu o maior número de imigrantes, além do fato de a maioria dos estudos sobre espanhóis e galegos no Brasil terem sido realizados lá.

Onde hoje está o Memorial do Imigrante originalmente foi a Hospedaria do Imigrante, que recebeu imigrantes entre 1886 e 1974, sendo convertido em centro de memória em 1998. Em 29 de abril de 2010, o presidente do Consello de Cultura Galega, Ramón Villares, firmou convênio com o Memorial do Imigrante a fim de realizar a recuperação de toda a documentação referente aos imigrantes galegos que desembarcaram no Porto de Santos (CULTURAGALEGA.ORG, 2010). No entanto, em dezembro de 2010, houve uma mudança de gestão no Memorial que esteve com suas atividades suspensas devido a obras de restauro do edifício histórico e reformas de âmbito museográfico. A reabertura do Novo Memorial do Imigrante estava prevista para o segundo semestre de 2011, porém as obras de reforma continuam até o presente momento. Quanto ao convênio com o Consello de Cultura Galega, não foi possível saber se o mesmo continuará em vigor durante a nova gestão. (RODRIGUES, 2011)

No estado do Rio de Janeiro, a nível museológico sobre o tema das imigrações, existe o projeto de musealização da antiga Hospedaria deImigrantes da Ilha das Flores, em São Gonçalo, não havendo registro de mais instituições voltadas aos imigrantes neste e tampouco sabe-se que grupos de imigrantes são contemplados no projeto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda que tenha existido um possível problema de negação das próprias raízes e muitas vezes tenham sido confundidos com os portugueses, é inegável que a presença galega foi consideravelmente forte na cidade do Rio de Janeiro. Alguns exemplos são que tiveram forte participação no setor comercial da cidade pelo menos desde as últimas décadas do século XIX e existe uma grande proximidade linguística entre a cultura carioca e a galega. Causa estranhamento o número de instituições de memória voltadas para a preservação dos mais distintos grupos étnicos que se dirigiram ao Brasil enquanto que inexiste qualquer instituição desta categoria que trate do grupo espanhol ou galego, seja de maneira exclusiva dentro de uma localidade específica ou dentro de um contexto geral sobre a imigração no Brasil, quiçá salvo algumas poucas exceções.

Pouco a pouco as evidências da presença galega no Rio de Janeiro são apagadas da memória coletiva do povo carioca e inclusive entre seus próprios descendentes. Se somado a isso o fato de já não existir mais o mesmo movimento migratório do século XX, a tendência é que tal memória se apague por completo. Logo, medidas para a identificação, difusão e preservação da presença destes imigrantes são de caráter de extrema importância e urgência. Prova disto é a perda de algumas evidências básicas como o caso do “abrasileiramento” de nomes e sobrenomes espanhóis e a não preservação do idioma galego ou castelhano entre seus descendentes.

Pouco a pouco as evidências da presença galega no Rio de Janeiro são apagadas da memória coletiva do povo carioca e inclusive entre seus próprios descendentes. Se somado a isso o fato de já não existir mais o mesmo movimento migratório do século XX, a tendência é que tal memória se apague por completo. Logo, medidas para a identificação, difusão e preservação da presença destes imigrantes são de caráter de extrema importância e urgência

Deve-se buscar as marcas culturais deixadas por estes imigrantes na sociedade local como na linguagem, na literatura, na culinária e nos demais âmbitos possíveis que possam haver, além da contribuição econômica comentada pelos entrevistados. A partir desta identificação um trabalho de difusão de tais evidências entre os demais cidadãos deve ser realizado, de maneira que se faça de conhecimento geral a presença de tal comunidade entre os cariocas, mostrando seu valor e importância para a formação desta.

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Uma consideração sobre “As galegas e galegos no Rio de Janeiro. Un bocadiño de historia”

  1. Adorei todo o texto. Fica claro que Galiza precisa ser reconhecida para ser respeitada. Além disso, o texto auxilia para a criação de grupos de estudo sobre as relações Brasil e Galiza;

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