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Vanguardas Galegas: Conservadorismo e Inovação

Bárbara Soares dos Santos

Aluna de Literatura Galega I na UERJ

INTRODUÇÃO

O século XX foi um período de grandes transformações históricas, sociais e culturais. Com o advento da tecnologia, as consequências da Revolução Industrial, a Primeira Guerra Mundial e a atmosfera política que resultou desses grandes acontecimentos, surge um sentimento nacionalista, além de um crescimento das grandes potências mundiais e das disputas de poder. A evolução científica e tecnológica, expansão dos automóveis, avião e criação da internet, são exemplos de acontecimentos que marcam, nesse século, o crescimento da modernidade. Com tantas transformações ocorridas nesse período, não é de estranhar-se que a arte e a literatura também tenham sofrido seu impacto, surgindo os movimentos artísticos que chamamos de “Vanguardas”.

O movimento das Vanguardas surgiu na França nas duas primeiras décadas do século XX, com o objetivo de criar uma ruptura da arte moderna com a tradição cultural do século anterior, ou seja, criar uma expressão artística original, que se afastasse do conservadorismo e que fosse mais coerente com a realidade histórica e cultural do século que surgia. Essas mudanças artísticas e literárias atingiram, não só a temática das obras, mas também a forma e destacaram-se, além dos motivos já citados, por sua radicalidade, a qual proporcionou que influenciassem a arte por todo mundo, começando pela Europa e atingindo, posteriormente, outros continentes.

Desse modo, não tardou para que Galícia e países da América latina, como o Brasil, também fossem atingidos por essas correntes, ainda que não o tenham sido na mesma medida. No Brasil, por exemplo, o movimento chegou num momento da história em que as manifestações artísticas estavam crescendo no país, e que a maioria dos artistas se espelhavam nas tendências europeias, fosse como forma de inspiração ou para combatê-las e assim como em outros países da América, o movimento buscou adotar uma postura mais radical, bem inspirado nos movimentos europeus. A Galícia, por sua vez, também sofreu a influência do movimento. Entretanto, alguns críticos, como Xesús Gonzáles Gómes, questionam a existência de uma vanguarda no país, pois embora tenha assumido muitos dos princípios estéticos do vanguardismo europeu, procurou não se desvincular do compromisso com a sociedade galega e a situação de sua língua e cultura. (Villar, 2010)

Desse modo, o presente trabalho tem como objetivo analisar alguns dos princípios básicos do vanguardismo galego, assim como as correntes e autores que mais tiveram destaque, buscando ressaltar os aspectos inovadores do movimento que o permitem encaixar em uma corrente vanguardista e os mais conservadores, que justificariam a teoria de críticos como Gonzáles Gómes de que não se poderia supor a existência de um movimento de vanguarda na Galícia. Para isso, trataremos brevemente de alguns aspectos da vanguarda europeia que contribuíram para a construção de uma identidade no movimento galego do século XX.

PRINCIPAIS MOVIMENTOS DE VANGUARDA

No final do século XIX, o gosto artístico que predominava era o que entendia a obra de arte como sendo uma cópia fiel da realidade, de características realistas e naturalistas herdadas da época do renascimento. Tal fato gera um clima de efervescência artística, resultando no surgimento de várias tendências, ditas por “ismos”, como futurismo, dadaísmo e surrealismo, que passaram a ser conhecidas por “Vanguardas Europeias”.

As correntes de vanguarda surgiram antes, durante e depois da primeira guerra mundial e introduziram uma estética marcada pela experimentação e pela subjetividade que atingiram os diversos tipos de arte. O artista agora estaria livre da função de representar a realidade, papel que passa a ser desempenhado pela fotografia. A pintura liberta-se e passa a expressar os sentimentos do artista, que cria a arte por puro prazer estético ou como forma de intervenção social.

De maneira geral, podemos caracterizar os movimentos vanguardistas pela busca do purismo – que via o movimento artístico como algo afastado do real – desumanização, antissentimentalismo, valorização do irracional e intrascendência – capacidade de enxergar a arte por si mesma. Dentre as correntes vanguardistas mais destacadas mundialmente podemos citar:

Futurismo

O futurismo é um movimento artístico e literário que nasce oficialmente no dia 20 de fevereiro de 1909, com a publicação do Manifesto Futurista, escrito pelo poeta italiano Filippo Marinetti (1944-1976). Seus adeptos rejeitavam o moralismo e o passado e suas obras baseavam-se na velocidade dos desenvolvimentos tecnológicos do final do século, ou seja, na civilização construída sobre o progresso da máquina.

Cubismo

O movimento cubista foi criado pelo francês Apollinaire (1880 -1918), influenciado por alguns elementos futuristas. Na poesia, a corrente pode ser bem representada pelos caligramas – Apollinaire (1918) – subtitulados de poemas da paz e da guerra. Neles, o poeta mostra a supressão da pontuação e a fusão entre o desenho e poesia. A disposição dos versos sugeria o tema do poema. Na pintura, o artista que marca a corrente cubista é Picasso, em 1907, a partir de seu quadro “Les demoiselles d’Avignon”.

Dadaísmo

O dadaísmo foi criado por Tristan Tzara (1896 -1963). Tal movimento foi iniciado em Zurique, em 1916. Embora a palavra em francês signifique “cavalo de brinquedo”, sua utilização marca a falta de sentido que pode ter a linguagem (como na língua de um bebê). Esse pode ser considerado o movimento mais provocador e o que mais rompeu com as tradições. Seu objetivo era negar tudo o que se sabia até o momento sobre a arte, desde sua utilidade até a existência de um autor, uma mensagem e um receptor. Acredita-se que o nome “dadaísmo” foi escolhido aleatoriamente, abrindo-se uma página de um dicionário. O resultado, talvez, possa ser considerado absurdo. Entretanto, abre espaço para o surrealismo, que pode ser tido como uma das vanguardas mais fecundas.

Surrealismo

O surrealismo pode ser considerado a maior revolução poética do século XX, mantendo sua influência até os dias atuais. O movimento nasce primeiramente em Paris, reunindo artistas anteriormente ligados ao dadaísmo e, posteriormente, expandido para outros países. Tal corrente foi fortemente inspirada nas teorias psicanalíticas de Freud sobre o subconsciente e a interpretação dos sonhos. Em 1924, André Breton – escritor francês, representante do surrealismo na literatura – publicou o “Manifeste Surrealiste”, que defendia o ato criativo livre do plano consciente, mediante a escrita automática, associação livre de palavras, metáforas insólitas etc.

Esses são apenas alguns exemplos das correntes mais difundidas mundialmente, iniciadas na Europa. Entretanto, com o passar dos anos, outros “ísmos” foram criados em outros continentes, influenciados pelos movimentos europeus. Na Galícia, especificamente, costumou-se mesclar muitas dessas correntes com outras que veremos posteriormente.

VANGUARDAS GALEGAS

A literatura galega do século XX pode ser dividida em três períodos: literatura de pré-guerra, literatura de pós-guerra e literatura do fim da ditadura ao fim do século. As vanguardas galegas são desenvolvidas no período de pré-guerra. Esse foi um momento caracterizado pelo surgimento das Irmandades da Fala e do Grupo Nós, além de correntes de vanguarda como surrealismo e outras, que ocorreram mais especificamente na Galícia, como Hilozoísmo e Neotrovadorismo.

A existência da poesia vanguardista galega deveu-se ao afã modernizador e europeu que tanto o Grupo Nós como as Irmandades da fala desejavam para sua cultura. As Irmandades da Fala foi uma organização nacionalista galega, ativa entre 1916 e 1931 que desenvolveu atividades políticas e culturais na Galícia. Representaram politicamente a superação do regionalismo como ideologia reivindicativa, colocando o nacionalismo como única possibilidade para o desenvolvimento da identidade da Galícia e assumindo, pela primeira vez, o galego como idioma principal, adotando iniciativas para sua expansão em toda comunidade. O Grupo Nós, por sua vez, foi composto por um conjunto de escritores galegos que conferiu à cultura galega um prestígio que até então não havia tido. Buscavam uma originalidade em gêneros além do lírico, como a prosa e o ensaio. O grupo foi assim chamado devido ao título da revista a qual publicaram – “Nós”.

A geração de autores, seguinte à geração das Irmandades e do Grupo Nós, recebe vários nomes. Dentre eles, pode-se dizer “geração de 1925”, “Novencentistas” ou “geração das vanguardas”. Os membros dessa geração possuíam algumas características em comum, como por exemplo, o fato da maioria ter nascido por volta de 1900, de terem promovido a criação do Seminário de Estudos Galegos, além de terem tido um papel decisivo na formação do Partido Galeguista. Sendo assim, é importante ressaltar, também, que esses autores incorporaram à literatura galega as vanguardas literárias europeias, entretanto, nem todos podem ser considerados vanguardistas.

Como dito anteriormente, o vanguardismo galego, assim como era de costume em sua origem europeia, buscou romper com a tradição. Porém, diferentemente das vanguardas europeias, buscou-se, na Galícia, não se desvincular das temáticas que já vinham sido trabalhadas desde o “Resurximento” – renascimento galego – depois dos Séculos escuros – período de decadência literária na Galícia. Desse modo, procurou-se, embora fossem permitidas inovações na estética literária, não romper com o compromisso com a sociedade galega e a situação de sua língua e cultura. Sendo assim, os poetas falavam da realidade do povo, do homem e de seus sentimentos, temas que não eram muito bem vistos no vanguardismo ortodoxo.

Os vanguardistas galegos tinham como característica o fato de terem uma trajetória semelhante à dos vanguardistas espanhóis – empresas editoriais breves, revistas de “combate” etc.-. Além disso, tais autores costumam rebelar-se contra um passado cultural, embora não se libertem dele completamente. Com relação à utilização do idioma, os autores galegos adotam uma postura sincretista. É difícil situar esses escritores em alguma corrente de vanguarda específica. Ainda que haja a tentativa de perceber os traços predominantes em suas obras, a maioria deles poderia ser inscrito em mais de uma corrente.

A primeira tentativa de renovação na literatura galega após o “Rexurdimento” não se vai produzir no âmbito da lírica senão no da narrativa, por meio do Grupo Nós que predomina o período 1920 -1936” (VILAR, 2010). Nesse período, os autores que melhor representaram essas transformações são Vicente Risco, Ramón Otero Predayo, Alfonso Daniel Rodríguez Castelao e Florentino Cuevillas. A tendência desse grupo era escrever uma prosa que assimilasse as tendências europeias, ainda que as obras não perdessem seu caráter didático, com a finalidade de contribuir para uma consciência galega. Entretanto, os poetas da geração de 22 (“novencentistas”, “Xeración do 25 ou das Vanguardas), foram os responsáveis pela renovação literária mais profunda da literatura galega. Eles pretendiam um afastamento do passado literário mais recente para iniciarem uma nova estética. Entretanto, continuavam compartilhando as ideologias nacionalistas e os referentes culturais das gerações anteriores. É por esse motivo que a vanguarda galega pode ser considerada, por muitos, menos inovadora que as demais.

É comum que se considere dentro dessa geração duas correntes. Uma com características mais renovadoras, que pode ser representada pelo criacionismo de Manuel Antonio e o sincretismo de Alvaro Cunqueiro e outra corrente mais vinculada à ideia de tradição, representada pelo neotrovadorismo também escrito por Cunqueiro e Fermín Bouza Breye e o Hilozoísmo ou “imaxinismo” de Amado Carballo. Essa última, sofre uma contradição no que se refere ao seu caráter vanguardista. Essas correntes mais propagadas na Galícia caracterizavam-se da seguinte forma:

Criacionismo

Criacionismo foi o movimento poético fundado pelo Chileno Vicente Huidobro que compara o poeta a um criador (o poeta seria como um deus). Sua doutrina funda-se na defesa da autonomia da arte em relação à realidade exterior, permitindo que a invenção e a imaginação poética prevaleçam sobre a imitação dessa realidade. Um exemplo dessa corrente está na obra de Manuel Antonio – De catro a catro (1928).

Manuel Antonio foi um poeta que compactuou com a ruptura das vanguardas e buscou romper com a tradição literária galega. Procurou, em suas obras, fazer uma interpretação livre e pessoal da realidade, longe do estilo ruralista e proselitista. Dentro dos movimentos de vanguarda, o autor escolhe o Criacionismo para seguir como representante. Esse movimento, como já foi dito, tinha como proposta a liberdade absoluta do poeta. Rejeitava, portanto a rima, o ritmo e o sentimentalismo e desejava construir um poema sobre a justaposição de imagens e metáforas de múltipla interpretação. Entretanto, como era de costume com muitos autores do vanguardismo galego, Manuel Antonio não seguia à risca os pressupostos estéticos criacionistas. Podemos citar como exemplo os versos a seguir, contidos no seu poema intencións, em sua obra mais conhecida, De Catro a Catro.

ELEXÍA AO CAPITÁN ROALD AMUDSEN 

QUE SE PERDEU NO POLO NORTE

Oh captain! My captain
Walt Whitman

PAISAXE 

Ninguén puido atopar entre a neve

eses beizos xeados

que se lle perderon ao silencio

       E as lonxedades

                             ceibes

      descinguiron a soedade

      No remuíño

da derradeira rafega de vento

         foise toda espranza

e o sol apagado

      Ningunha voz poderá destemerse

sen caer morta aos pés da neve

coma un paxaro novo

         Oh Capitán! Meu capitán!

(ANTONIO, Manuel, 1928)

Seu livro, De catro a catro, –única obra publicada em vida– reflete o processo da viagem marítima, seguindo uma linha temporal. Os versos anteriores são os iniciais, onde o poeta anuncia que vai começar sua jornada e vê-se ansioso e angustiado pela partida. Nesse exemplo, podemos observar que há a construção de versos que seguem o princípio de vanguarda (a ausência do ritmo e métrica variável por exemplo e a incorporação de estrangeirismos (“my capitán”). Entretanto, alguns aspectos o diferem de um vanguardismo ortodoxo e afastam sua obra de uma criação puramente criacionista. Primeiramente, os versos não são totalmente afastados de um humanismo, como defendiam essas correntes vanguardistas. Além disso, pode-se perceber neles uma história e uma cronologia – mais ainda se forem analisados no conjunto da obra – e nota-se que não há, no poema, uma fuga consciente do sentimental.

Sincretismo

Álvaro Cunqueiro (1911 -1981) pode ser considerado um dos maiores representantes dessa corrente. Ele sincretiza, em sua poesia, muitas características das outras correntes europeias com a tradição galega, o que converte suas obras em algo singular. Cunqueiro costumou percorrer diferentes tipos de correntes vanguardistas e suas obras, embora pudessem ser percebidas nelas a predominância de algum dos movimentos, dificilmente era carregada de um purismo. Por esses motivos ele pode ser considerado um dos principais marcos do sincretismo galego.

Como exemplo de tendências as quais o poeta conservou, podemos destacar o cubismo em Mar ao norde (1923), surrealismo em “Poemas do si e non (1933) e o neotrovadorismo em Cantiga nova que se chama ribeira (1933) – nas “Cantigas de amor cortês” – íncluídas no livro Dona de corpo delgado. Para exemplificar este sincretismo, pode-se usar como exemplo o poema abaixo, que apesar de possuir traços surrealistas, apresenta aspectos que não são típicos dessa corrente.

“ELA E EL”

NOIVADO I

Cegoñas xeográficas no meu noivado noivo.
Un tempo craro como un illó de vidro.
E no medio de litorais e avións platino
cidadán de correntes submariñas color morno.
A miña craraboia en brúxula silvestre:
un arbre polo Norde, Oriente feito
de moluscos, Sur de ribeiras líquidas.
Eu de noivado. Nas mans arcos-de-vella,
vidreiras verde-tenre e colgaduras finas.
Nin unha sombra nin faiados tímidos,
inocentes igoal a negros en domingo
o corazón no peito, risoños como esquíes.
Beilar ágoas lixeiras e sonos desprendidos
das cantigas máis novas. Sumando vals e faros.
Infuxivel noivado estelar de cereixas,
amante de cristais. Eu o teño.

Nesse exemplo, percebemos que apesar do poema ser representativo da corrente surrealista, representado no léxico com palavras como “sono” e uma estrutura não tão consciente, afastando-se um pouco de uma temática concreta com presença de metáforas , como “cegoñas xeográficas” apresenta, também, elementos que fogem a essa temática, como o sentimentalismo que o afasta um pouco do automatismo da escrita surrealista. – “o corazón no peito, risoños como esquíes”.

Neotrovadorismo

Surge por volta de 1930 e tem como característica a preservação da estética medieval e imitação das cantigas galego-portuguesas. Nessa corrente recriam-se temas amorosos similares às cantigas de amigo e de amor, com recursos formais (paralelismo, refrão, leixa-pren…) e ambientes (paisagens de mares, rios, fonte etc). Entre os seus principais representantes estão Johán Vicente Viqueira, Fermín Bouza Brey, Álvaro Cunqueiro e Xosé Maria Álvarez Blázquez.

Como dito anteriormente, embora alguns analistas situem essa corrente entre os movimentos de vanguarda, ela possui um aspecto mais conservador. É possível falar então que o neotrovadorismo agrupa uma série de manifestações textuais que tiveram como modelo a obra dos trovadores galego-portugueses medievais, no que se refere a forma, métrica, rima e ao léxico. Entretanto, muitas vezes combinavam-se esses aspectos tradicionais com elemento próprios da vanguarda. É por esses fatores que existem teorias que não consideram o neotrovadorismo como sendo um movimento vanguardista, mas sim, como um direcionamento – um chamado aos cancioneiros. (http://asvanguardas.blogspot.com.br).

Fermín Bouza Brey (1900, 1973) é um dos representantes mais marcantes da poesia neotrovadoresca. Nem todas as suas composições apresentam esse caráter. Entretanto, a primeira de suas obras, formada por treze composições, inicia-se com uma declaração que diz: “tenho procurado recuperar as tradições dos nossos clássicos: os cancioneiros medievais e o povo” (BREY,1933). Desse modo, apropria-se da literatura popular e de sus estruturas formais para dar voz ao seu objetivo. Cria seus poemas atendendo fundamentalmente ao som e à ordenação dos fonemas, entretanto, também atende ao jogo interno da sintaxe e à efetividade do vocabulário, características vanguardistas. Vejamos abaixo um de seus poemas:

LELÍAS Ó TEU OLVIDO 

O pumariño da noite quer froitificar estrelas
o tanxer desta cantiga é o sinal para acendelas…
-¡ai, meu amor!-
… é o sinal para acendelas.

Agárdanos na ribeira, sob o descordo do mar,
no seo dos cons, o leito de herbiñas de namorar…
-¡ai, meu amor!-
… de herbiñas de namorar.

As nove ondas do ensoño espreitan co seu engado
pra enguedellar a toleira desta noite de noivado.
-¡ai, meu amor!-
… desta noite de noivado.

Así ó fontegal da espranza, antes de que saia o día
iremos enguedellados catar a flor da auga fría…
-¡ai, meu amor!-
… catar a flor da auga fría.

¡Ó alén! que no pumariño madurecen os luceiros,
nosos dous corazóns bailan tolos nos ledos turreiros,
¡Ai, meu amor!

no labradío das ondas albea a flor do luar
lámpada para o teu leito de herbiñas de namorar…
¡Ai, meu amor!

Se algún malfado nos fere, axotaremos o mal
a bicos, ouh caramiña dun virxe caramiñal…
-¡ai, meu amor!- 
dun virxe caramiñal

(Fermín Bouza Brey: Nao senlleira, 1933.)

Em “Lelías ó teu olvido, composto em sua obra Nao senlleira, 1933, podemos observar aspectos que remetem às cantigas medievais, mais especificamente as de amigo. Dentre eles pode-se destacar a paisagem, mais especificamente o mar, que é um ambiente comum nas cantigas, assim como o léxico da água, como por exemplo em: – “Agárdanos na ribeira, sob o descordo do mar” (verso 5º); ”As nove ondas do ensoño espreitan co seu engado “ ( verso 9º) e “iremos enguedellados catar a flor da auga fría.” (Verso 14º). Quanto a estrutura, é importante observar a presença de refrão – “¡Ai, meu amor! – rimas e paralelismos, assim como o tinham nas cantigas trovadorescas.

Hilozioismo

O “hilozoísmo” ou “Imaxinismo” foi a tendência vanguardista que teve maior êxito em sua época. Tinha como principal temática a paisagem e a terra – elemento central na procura da identidade galega desde o nacionalismo – e compartilhava elementos da tradição literária paisagística, cultivada por Rosalía de Castro, Noriega, dentre outros. Como principal representante dessa corrente – considerada mais conservadora, assim como o neotrovadorismo, e por isso também não pode ser considerada plenamente vanguardista – está Luís Amado Carballo (1901 -1927). De alguns fatores que a fazem não o ser completamente de vaguarda, pode-se destacar sua ligação com a tradição poética interna, o conservadorismo da rima e o emprego de métricas populares. Vejamos o poema abaixo de Amado Carballo.

Estou a pensar en ti,

e nas miñas mans saudosas

até o mesmo dolor ri.

Baixo a pregaría oxival

do zarco mar dos teus ollos,

afóganse as miñas verbas

que van pousar no teu colo.

Proel (1 927)”

Podemos perceber no poema um conservadorismo com relação a métrica e rimas assonates. É frequente nessa corrente também a expressão de emoções humanas para descrever coisas inanimadas. Pode-se perceber isso em “mans saudosas” (Verso 2). A obra de Carballo foi muito valorizada e serviu de inspiração para muitos poetas como Manuel Luís Acuña, Augusto María Casas e Xulio Sigüenza. Alguns deles refletem ainda a influência de outras correntes vanguardistas.

Conclusão

A partir das análises das correntes mais difundidas na Galícia no século XX, assim como as breves exemplificações de algumas obras e dos autores representativos de tais correntes, é possível observar um conservadorismo existente na literatura galega que faz com que muitos críticos se dividam na admissão da existência de um vanguardismo nesse período. É certo que não há como negar que o nacionalismo que os galegos adquiriram logo após os séculos escuros, numa tentativa de exaltar sua cultura e identidade galega, não se perderam a partir das influências vanguardistas. Tal conservadorismo, que pode ser observado na geração novencentista, faz com que pensemos que nessa época, nem todos os autores eram vanguardistas e nem tudo o que se diz como vanguarda, assumia, de fato, características de tal movimento.

Entretanto, com as grandes transformações que o século passava e com a força que as vanguardas europeias tiveram no mundo inteiro, não é de se estranhar que Galícia também tenha sentido o impacto em sua literatura, arte e cultura.

Sendo assim, é importante perceber que o século XX foi um período de mudanças para literatura galega. Período esse, que incorporou elementos do vanguardismo europeu, mas que não perdeu sua identidade, conservando aquilo que para eles era mais importante (como o nacionalismo galego) e criando, por meio de um sincretismo, suas próprias representações de vanguarda. Assim, é difícil conceber a literatura galega no século XX como sendo uma literatura purista, mas sim, como uma tentativa de incorporar as novidades do século, sem a perda de sua autonomia e identidade.

Biliografia:

– VILLAR, Miro. A poesia galega e as vanguardas do século XX, 2010

– VARGAS, Fábio. Poesia galega. Das origens à guerra civil

http://polianne-andrade2.blogspot.com.br/ (acessado em 27 de novembro de 2015)

http://www.infoescola.com/literatura/escritores-do-futurismo/ (acessado em 27 de novembro de 2015)

http://asvangardas.blogspot.com.br/2008/01/actividade-17_29.html (acessado em 27 de novembro de 2015)

http://www.edu.xunta.es/centros/iesbeade/?q=system/files/02%20A%20poes%C3%ADa%20de%20vangarda.%20Caracter%C3%ADsticas%2C%20autores%20e%20obras.pdf (acessado em 27 de novembro de 2015)

Galícia: a terra nai do adeus

Thayane Gaspar

Aluna de Literatura Galega II na UERJ e pesquisadora do Programa de Estudos Galegos

INTRODUÇÃO

Um dos movimentos de vanguarda do século XX mais importantes na poesia pré-guerra foi o neotrobadorismo graças à recuperação, divulgação e estudo da lírica medieval. As cantigas trovadorescas foram resgatas com o intuito de resgatar o prestígio do idioma galego na literatura e assim resgatar também a sua cultura.

Há controvérsia a respeito de quem teria inaugurado o neotrobadorismo, e alguns apontam Carles Ribas e outros Eduardo Pondal, mas admite-se com frequência que Pondal com seu poema O Canto do Vígia teria sido o precursor do movimento. Contudo, é o nome de Bouza-Brey que de destaca por ter sido o autor que mais acreditou na possibilidade de usar a estética medieval.

Eduardo Pondal

Por muito tempo, estudiosos consideraram a Idade Média o período das Trevas, mas em Galícia esse mesmo período é considerado a Idade do Ouro, no qual a língua galega tinha prestígio e, politicamente, Galícia contava nessa época com maior soberania, sem imaginar um futuro tão dominado pela Espanha.

A geração do neotrobadorismo tinha passado por consequências históricas devido a Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa e a criação de regimes fascistas na Europa. A imigração começa no século XIX com os problemas socioeconômicos enfrentados no país, e ela se intensifica no século XX.

Logo, o retorno ao medievo talvez esteja além do plano político e ideológico. A visão que as cantigas (principalmente as de amigo) apresentavam estão novamente em frente aos olhos do povo galego: as mulheres esperando seus namorados/maridos voltarem, os homens partindo sem nenhuma certeza de retorno, o mar que os leva, e a natureza que conversa com quem fica e que faz chorar quem partiu.

MORRIÑA X SAUDOSISMO

Segundo o Dicionário da Real Academia Galega, morriña tem três significados, mas o que nos interessa é a definição de “sentimento e estado de ánimo melancólico e depresivo, em particular o causado pela nostalxia da terra.”. Esse é um sentimento particular da cultura galega e também um mito que surgiu no século XIX por conta das imigrações e a saudade causada pela distância.

Porém, a morriña não é um sentimento exclusivo daquele galego imigrante que partiu contra a sua vontade e que deseja retornar à sua pátria. Outro tipo de morriña também era sentida pelas mulheres e pelos filhos quando o homem era obrigado a deixar o lar.

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A migração por mar a América foi contínua para as galegas e galegos de finais do século XIX e durante o século XX

A palavra saudade existe em galego, mas a morriña é mais que isso. A morriña, o lirismo, o sentimentalismo, todos esses elementos traçam uma imagem tradicionalmente feminina da Galícia. Para Helena Miguélez-Carballeira, da Universidade de Bangor (Gales), esse sentimentalismo serviu para que o Estado espanhol freasse o nacionalismo galego e a singularização da nação. Sendo assim, a morriña seria oriunda de relações de desigualdade causadas principalmente pela dominação espanhola.

A autora em seu livro Galicia, a sentimental nation critica também a passividade do povo galego e alega que há uma difusão da visão “chorona e lacrimóxena” de Rosalía de Castro.

Com o viés político empregnando essa palavra, pode-se aproximar morriña do saudosismo português. Principalmente se formos analisar a morriña dentro do neotrobadorismo, que busca resgatar seu período de glória, prestígio e soberania. O que acontece de forma muito semelhante no saudosismo português, no qual Portugal deseja ser novamente “a cabeça” da Europa.

O saudosismo português foi um movimento social, político e estético do século XX em Portugal, e assim como a morriña, viveu no coletivo. O saudosismo foi consequência da decadência das expansões martítimas, da morte de D. Sebastião e da dominação pela coroa espanhola. O saudosismo é o marco da decadência de Portugal, assim como também marca a crise na identidade da pátria, pois esta é colocada em questão.

Semelhanças acabam aparecendo entre os dois movimentos quando colocados em parelelos, principamente se admitir que foram causados direta ou indiretamente pela dominação da Espanha. A passividade galega citada por Miguélez-Carballeira também é encontrada no saudosismo português. Portugal não reage à dominação espanhola porque nesse momento o país estava passando por dificuldades na economia, e a Espanha gozava de uma melhor economia, então a nobreza portuguesa acreditou que se beneficiaria de alguma forma. E os galegos? Por que não resistiram? Como diz Bouza-Brey no poema Trova Infinita:

Teño aínda aberto os beizos

onde findou a canzón

que agora quere ser bico

xa que deixou de ser voz.

Uma semelhança estética entre os dois conceitos é a forma da sociedade nostálgica e melancólica se expressar através do gênero lírico. É através desse lirismo que abro espaço para um intertexto já que a morriña e o saudosismo são caracterizados pela melancolia.

Freud em seu texto “Luto e melancolia” (1917) compara esses dois sentimentos traçando um quadro de sintomas comum aos dois. Ele diz: “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante.”. E essas causas geram melancolia em pessoas pré-dispostas patologicamente.

Segundo Freud, o luto se curava com o tempo e portanto não deveria haver interferência no processo. A melancolia se distinguiria por ser um desânimo profundo e penoso, desinteresse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, diminuição da autoestima, auto recriminação e até uma expectativa de punição.

A melancolia é enigmática. O melancólico tem uma baixa extraordinária da autoestima, um empobrecimento do ego, o que não acontece no luto. “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.” Essa questão sobre a baixa autoestima e o ego empobrecido parece responder ou justificar um pouco a passividade galega. O povo galego aceitou o estereótipo de ser falante de uma língua “inculta”, sem prestígio, de ser homem do campo, rude (o termo “galego” frequentemente é pejorativo nos dicionários), incivilizado, passivo. E como se encontra em estado melancólico, o galego não consegue lutar contra o estereótipo porque seu ego está prejudicado, e ele não enxerga seu valor.

FERMÍN BOUZA-BREY

Analisaremos dois poemas extraídos do livro Nao senlleira (1933) para ilustrar a morriña, o psicológico e o social decorrente das imigrações, a melancolia e a baixo autoestima galega. O próprio título do livro já traz o elemento de despedida: a nao que leva o povo galego para longe da sua terra nai. E o adjetivo senlleira (solitário ou singular) que pode ser lido de duas maneiras, uma positiva e outra negativa. Senlleira como o galego melancólico que se vê sozinho no estrangeiro ou àquele que reconhece seu valor cultural, histórico, social, literário, e linguístico e reconhece sua singularidade, que se achá único.

fermin-bouza-brey
Fermin Bouza-Brey

O primeiro poema escolhido é “Tríades no mar e na noite”.

Meu navío leva ao vento

no mastro eterno da noite

o treu do meu pensamento.

Leda vai a nao

na proa unha frol:

a rosa albariña

do meu corazón.

Amiguiña, crara estrela,

dáme a aguillada de un bico

para apurrar a gamela.

Leda vai a nao, et sic.

Por navegar ao desvío

varei a miña chalana

no teu corazón-baijío.

Leda vai a nao, et sic.

Os agros van de ruada.

Vinde ruar pol-as ondas

levarés a herba mollada.

Leda vai a nao, et sic.

O faro de Corrubedo

co seu ollo largasío,

ai amor, púxome medo,

Leda vai a nao, et sic.

Deitouse o mar, foise o vento,

no mastro da noite albean

os liños do pensamento

Leda vai a nao

abordo un amor;

é granada a rosa

do meu corazón.

Dentre os elementos destacados temos “tríade”, pois mitologicamente o número três tem uma grande importância para a cultura celta, mas em especial nesse poema o número três pode se explicado ao final (retomaremos a tríade). “Noite” que também está no título é assinalada porque a noite significava o tempo dos amantes no trovadorismo, mas nunca se escrevia sobre ela, e sim sobre o amanhecer, a despedida dos amantes. Nesse poema é como se a despedida pudesse acontecer a qualquer hora e a noite agora pudesse ser também ter esse duplo significado: despedida e encontro.

Leda” está descatada apenas por remeter ao vocabulário medieval e pelo eu poético enxergar na despedida, na imigração algo de belo. Provavelmente a esperança ou o cumprimeito de um dever. “Vento” está destado também por remeter ao léxico das cantigas medievais, fazendo referência a ordem do sexual, da virilidade e da força do homem.

Rosa albariña” é importante por dois motivos: a rosa nas cantigas medievais eram sinônimo de um relógio. A rosa indicava o tempo de primavera, o tempo de despedida dos amantes e também o tempo que a mulher tinha para engravidar. Outro motivo para assinalar a expressão é porque essa rosa é tida como luz, claridade, opondo-se ao cenário noturno, melancólico e sombrio da noite. O próximo adjetivo reforça essa ideia de luminosidade quando denomina a amiga de “estrela crara”.

Aguillada de um bico” representa o beijo de despedida de forma áspera, dolorosa, já que aguillada é um pau com a ponta de ferro para estimular o gado. Essa analogia traz a ideia de que esse beijo é estímulo para eles se afastarem e também para mostrar que a imigração era tão intensa que os homens se tornavam gados, trabalhavam feito animais e nas condições de um.

Gamela” e “chalana” são embarcações que ajudam a reforçar esse aspecto migratório do povo galego e sua relação com o mar. “Agros” traz a paisagem campesina das cantigas de amigo com uma outra conotação. Enquanto na Idade Média o campo servia para que a mulher dialogasse com a natureza, nesse poema o campo, o lugar de trabalho, vira a “ruada”, ou seja, o lugar das reuniões, das festas, demonstrando esses dois aspectos do campo no século XX.

É justamente no final do poema que se entende a tríade quando o eu lírico se refere à amada, como “granada rosa”. Significa que ela está grávida, e o bebê que ela espera forma a tríade junto do homem e da mulher que protagonizam esse poema. Além disso, o poema sugere que quem está partindo é a mulher, representando outro aspecto da imigração, o aspecto de quando até as mulheres partem em busca de melhores condições deixando Galícia para trás.

O segundo poema é chamado “Regueifa”:

A balandra dos “Ultreya

leva os corazós por vela;

navega cara ao Futuro…

¡toda Galiza vai nela!

Toda Galiza vai nela,

prenda do meu paladar.

¡Os mares polo Infinito

que leviáns son de pasar!

Que leviáns son de pasar,

prenda do meu corazón,

os astros forman trisqueles

en cada constelazón.

En cada constelazón

oise cantar unha estrela:

“Velaivén a fror das naos,

¡toda Galiza con ela!

Novamente a imigração aparece como fundo do poema. “Balandra” é uma embarcação também e divide espaço no poema com palavras como “navega”, “mares”, “vela”, “naos” criando no leitor essa ambientação de despedida, de viagem. “Ultreya” é uma palavra de um canção francesa e acabou virando símbolo da peregrinação nos caminhos de Santiago, reforçando a Galícia como um território de passagem onde em breve haverá despedida.

A palavra “prenda” tem alguns significados e geralmente diz respeito a algo que será dado como garantia ou diz respeito a alguém que se quer muito. E podemos interpretar como a partida da terra como uma penhora do sentimento galego para se alcançar alguma coisa, e que depois do êxito, se retornará para Galícia, pois é uma terra querida pelos galegos que estão imigrando. “Trisqueles” palavra que designa um símbolo celta que significa “três pernas” e simboliza o movimento da vida.

O poema mostra como esse sentimento de se despedir da sua pátria é nacional e coletivo (¡toda Galiza con ela!”) e que essa pátria é “a fror das naos”, a despedida também faz parte da sua caracterização.


O GALEGO DE ALUÍSIO AZEVEDO

Unindo agora o morriña galega, o saudosismo português e as imigrações veremos como a literatura brasileira enxergou esse imigrante galego através do livro O Cortiço (1890) de Aluísio Azevedo.

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O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

Por ignorância, confundia-se o estrangeiro imigrante da Europa falante do português (ou algo próximo ao idioma), seja de Portugal ou da Galícia, chamando-o de galego. E essa denominação era na maioria das vezes pejorativa. O estereótipo desse “galego” descrito por essa obra realista do século XIX é apresentado através do personagem Jerônimo.

Jerônimo é um português ou galego melancólico que vive com uma mulher igualmente imigrante e que não conseguem esquecer sua pátria. Ambos se recusam a assimilar a cultura brasileira e permanecem alimentando costumes culturais da sua origem como a gastronomia, os hábito, a educação e até mesmo a higiene.

Jerônimo é tipo como um rude e como inferior pela sua origem. Apesar disso, toda a rotina dele e da sua mulher demonstra que eles se orgulham de serem “galegos”, mas essa apreciação não é compartilhada pelos demais personagens como pode se inferir nessa fala dita por Rita Baiana retirada da obra: “Olha o bruto!… queixou -se esta, levando a mão ao lagar da pancada. Sempre há de mostrar que é galego!”

Contudo, no meio da narrativa, Jerônimo se apaixona pela personagem Rita Baiana (essa personagem tem um forte significado por conta da mestiçagem brasileira) e sofre uma metamorfose perdendo sua identidade. Ele deixa sua morriña ou seu saudosismo e adota pouco a pouco os costumes brasileiros. Ao cortar sua ligação com o seu passado, sua pátria e sua identidade, fica impossível que ele e sua mulher continuem juntos, pois mais nada os une.


CONCLUSÃO

Ao se levar em conta o momento histórico e social da Galícia pré-guerra, as imagens medievais descritas pelas cantigas parecem se aproximar bastante da nova realidade neotrobadoresca. A despedida e a morriña são elementos conservados mesmo nesse enorme lapso de tempo. Galícia parece ser a terra da despedida, a nai que tem que abrir mão dos seus filhos e estar fadada a esperar o retorno deles. E o retorno é um desejo tão grande entre os imigrantes que faz com que se acredite que a Galícia é a terra da despedida, mas a terra do retorno. Por isso as cantigas medievais “retornam”, pois os galegos querem se sentir galegos de novo, e se sentirem bem ao voltarem a sê-lo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Diário da Universidade de Vigo. A morriña, un estereotipo que xorde das desiguais relacións de poder entre Galicia e España. Disponível em: < http://duvi.uvigo.es/index.php?option=com_content&task=view&id=7830 > Acesso Novembro de 2014
LANDEIRA, Ricardo.
La saudade en el renacimiento de la literatura gallega.
ÁLVAREZ, Rosario; VILAVEDRA, Dolores. Cinguidos por unha arela común: homenaxe ó profesor Xesús Alonso Monteiro Volume 1
LAMAS, Jorge. A morriña galega, un mito nacido no XIX. Disponível em: < http://www.lavozdegalicia.es/noticia/sociedad/2013/11/13/morrina-galega-mito-nacido-xix/0003_201311G13P30992.htm > acesso Novembro de 2014
ALVAREZ, Enrique Rodríguez.
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LÓPEZ,
Xesús M. Freire. História da Literatura Galega.
JORGE, Walter. ULTREYA E SUSEYA. Disponível em: < http://www.caminhodesantiago.com.br/walter/ultreya_suseya.htm > Acesso em Novembro de 2014.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Porto Alegre: L&PM, 1998